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A Constituição dos Sonhos

Conheça a história das 72 mil cartas enviadas por cidadãos à Assembleia Nacional Constituinte e saiba como consultá-las

 

passagem de mais um aniversário da Constituição de 1988, no 5 de outubro, traz à memória um dos capítulos mais importantes dos 200 anos do Senado: o da mobilização popular para a construção da lei maior do país. Um dos melhores exemplos dessa história são as 72.719 cartas enviadas por cidadãos aos constituintes entre 1986 e 1987. Até hoje, elas permaneciam acessíveis apenas por meio de um banco de dados ainda pouco conhecido, no portal do Senado. A partir de agora, também poderão ser exploradas através de uma plataforma que facilita a busca por temas, cidades e nomes dos autores — ferramenta desenvolvida especialmente para esta reportagem (veja abaixo) .

A iniciativa de convidar o povo a contribuir com sugestões à Constituição se insere no contexto da redemocratização do país nos anos 1980. Após duas décadas de ditadura militar, a sociedade sinalizava a vontade de maior participação nas decisões políticas. Entre 1983 e 1984, a campanha Diretas Já levou milhões de pessoas às ruas das principais cidades.

Quando, em 1985, o então presidente da República, José Sarney, convocou a Assembleia Nacional Constituinte, vários setores da sociedade civil se articularam para participar do processo. O slogan “Constituinte sem povo não cria nada de novo” refletia as aspirações do momento.

Esse espírito foi captado pelos senadores e deputados constituintes. Eles previram mecanismos de participação no regimento interno da Assembleia. Mais de mil pessoas foram ouvidas em audiências públicas. E 122 emendas populares, organizadas por associações, receberam mais de 12 milhões de assinaturas e foram entregues aos parlamentares. Mas essa é outra grande história da Constituinte. A história das cartas à Constituição, contada aqui, seguiu um caminho diferente.

Batizada inicialmente como Diga Gente e depois como Projeto Constituição, a ideia das cartas partiu do servidor do Senado William Dupin, que à época chefiava a Coordenação de Projetos Especiais do Prodasen — órgão responsável pela tecnologia da informação na Casa. O então presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador José Ignácio Ferreira, do Espírito Santo, apoiou a iniciativa.

No entanto, os altos custos do projeto levaram Dupin a procurar apoio no setor privado. As Organizações Globo financiaram parte das despesas e veicularam anúncios divulgando a campanha, em troca da inclusão do logotipo da empresa nos formulários impressos que seriam distribuídos.

Embora tenha assegurado a viabilização da ideia, a solução não ficou isenta de críticas. A pertinência da parceria com uma empresa privada era vista como um risco à impessoalidade que deve caracterizar a administração pública. De todo modo, o projeto foi lançado em junho de 1986.

Cinco milhões de formulários foram distribuídos pelos municípios de maneira proporcional à população de cada um. Os impressos ficaram disponíveis nas agências dos Correios, mas também havia pontos de coleta em prefeituras e assembleias legislativas. Além disso, os partidos políticos puderam entregar formulários diretamente a seus filiados.

Depois de quase um ano, chegaram ao Senado mais de 72 mil formulários preenchidos. À medida que chegavam, um grupo coordenado pelo Prodasen, incluindo servidores da Casa e estudantes da Universidade de Brasília (UnB), se ocupava de classificar as mensagens em 24 áreas temáticas e digitá-las para que fossem inseridas em um banco de dados no recém-criado Sistema de Apoio Informático à Constituinte (Saic).

Gráfico Missivas

Quem eram os autores?

Em 1987, Francisco Alves Mendes Filho redigiu uma das cartas que chegaram ao Prodasen. Em texto escrito à mão, a mensagem enviada do interior do Acre defendia a preservação da Floresta Amazônica por meio da criação de reservas extrativistas.

No ano seguinte, pouco antes do Natal, Francisco seria assassinado a tiros na porta de casa, aos 44 anos. Só então o nome Chico Mendes se tornou conhecido em todo o país como líder seringueiro e referência da causa ambiental. O assassinato repercutiu no mundo.

Embora a carta de Chico Mendes e as de outras personalidades chamem a atenção pelos nomes dos remetentes, o conjunto armazenado no Saic revela um país sonhado por cidadãos anônimos.

— Há uma população que grita, que quer melhorias no transporte, na saúde, na educação — disse o brasilianista francês Stéphane Monclaire, em entrevista ao Jornal do Senado em 2013.

Professor de ciência política da Universidade de Sorbonne, em Paris, Monclaire organizou e foi um dos autores do livro A Constituição Desejada, publicado pelo Senado em 1991 com uma análise sociológica das sugestões enviadas aos constituintes.

No livro, o professor Clóvis de Barros Filho, autor de um dos capítulos e hoje um dos principais filósofos do país, afirma que as cartas “são qualitativamente mais importantes para a ciência” do que pesquisas de opinião pública. Mesmo considerando que o conjunto de remetentes não fosse uma amostra representativa de toda a população brasileira da época.

Para ele, ao abrir um espaço a sugestões, sem opções pré-formatadas, os formulários do Projeto Constituição proporcionariam análises mais afinadas sobre o posicionamento político dos cidadãos.

O que pediam as mensagens?

As mais de 72 mil cartas enviadas ao Senado apresentavam, em geral, mensagens com apelos informais, sem formatação jurídica.

— As pessoas exprimem a angústia em relação às dificuldades da vida. E estão esperando tudo da Constituinte. Tudo, isto é, uma vida melhor — disse na mesma entrevista ao Jornal do Senado o professor Stéphane Monclaire, que morreu no Brasil em 2016, após quase 30 anos dedicados ao estudo de temas brasileiros.

Brasilianista Stéphane Monclaire foi entrevistado em 2013 pelo Jornal do Senado sobre a importância das cartas

Monclaire enxergou nas cartas à Constituinte uma semelhança com as cahiers de doléances (lista de queixas, em tradução livre), da Revolução Francesa de 1789, quando a população tinha suas reclamações anotadas por escrito.

No entanto, para ele, o projeto brasileiro trouxe como grande inovação a digitalização das cartas, que possibilitou diversas formas de consulta a partir do cruzamento dos diferentes perfis dos autores.

Para esta reportagem, por exemplo, a base de dados Saic foi submetida a uma análise por meio de inteligência artificial com o objetivo de organizar as cartas pela semelhança de seus conteúdos. No estudo, foram aplicadas técnicas de processamento de linguagem natural (PLN) — uma área da ciência da computação — para transformar os textos em representações matemáticas, permitindo a identificação dos temas pela IA.

A imagem a seguir, chamada “mapa semântico”, ilustra graficamente os resultados. As cores são categorias temáticas. A distância entre elas reflete o grau de similaridade dos temas.

O maior volume, em vermelho, reúne as cartas que abordam diversos assuntos em uma única mensagem. Já os polos isolados mostram a articulação de grupos de interesse, por vezes surpreendentes. Caso do conjunto de mensagens que defendem a regulamentação da atividade de detetive particular.

Como a IA vê as cartas

As cartas estão dispostas em um “mapa semântico” que as organiza por proximidade temática. Cada ponto é uma carta. Cada cor, um tema abordado.

Cartas multitemáticas

A maior parte das cartas foi agrupada na cor vermelha. Essa categoria representa as mensagens que abordam diferentes temas no mesmo texto.

Detetive particular

Alguns polos isolados revelam grupos de interesse. Este conjunto, por exemplo, defende a regulamentação da profissão de detetive particular.

Esperanto

Um grupo pediu a obrigatoriedade do ensino do Esperanto. Na época, havia expectativa de que o idioma se tornasse a “língua franca” do mundo.

Religião

Esforço mais articulado, no entanto, veio dos defensores do ensino religioso nas escolas, que também enviaram suas sugestões por carta.

O que a Constituição incorporou?

Os referendos são a forma mais comum de consultar a população no processo constitucional. Entre 1789 e 2016, 168 constituições foram submetidas a referendos no mundo, segundo tese apresentada na Universidade do Texas pelo norte-americano Alexander Edward Hudson.

Nesse mecanismo, o povo aprova ou rejeita um texto já pronto. No Brasil, os diversos instrumentos de participação utilizados na década de 1980 conferiram um aspecto inovador ao processo constitucional do país. Resta saber em que medida as sugestões da população influenciaram a redação final.

No livro A Constituição Desejada, o professor Stepháne Monclaire diz que “o Saic foi sempre utilizado abaixo de suas possibilidades” pelos constituintes, por acadêmicos e pela imprensa. Ele conta que alguns parlamentares chegaram a reclamar do então presidente da CCJ do Senado, José Ignácio Ferreira, por ele ter supostamente abusado dos dados do Prodasen “para aparecer como um constituinte apegado a seu trabalho”.

Responsável pela construção do mapa semântico que aparece nesta reportagem, o especialista em IA e servidor do Prodasen João Lima diz que, embora o grau de influência direta das cartas sobre o texto constitucional seja alvo de debate, é possível ver reflexos das mensagens na Constituição.

Lima, que chefia o Serviço de Soluções para Informação Legislativa e Jurídica do Senado, destaca, por exemplo, a carta enviada em fevereiro de 1986 pela enfermeira Francisca Selene de Oliveira Claros, então moradora de Manaus.

“Que seja aprovado pela Constituinte: A saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado, e a prestação da saúde deve se dar através de um sistema unificado, que atenda a todos”, escreveu Francisca Selene, que foi entrevistada em 2013 pela TV Senado para o documentário Cartas ao país dos sonhos.

Ela também sugeriu que a rede privada atuasse como complementar da rede pública e que a comunidade participasse no planejamento das metas do setor e na fiscalização dos recursos. Não é possível saber se algum constituinte se inspirou nessas sugestões e as apresentou à Assembleia Nacional. O fato é que todas elas aparecem na Constituição.

Documentário da TV Senado entrevistou alguns dos autores das cartas

Qual o legado das cartas?

As cartas à Constituição representam o marco inicial da participação popular na Constituinte, avalia o consultor legislativo do Senado Fernando Trindade. Ele ressalta que a iniciativa foi lançada 11 meses antes do início dos trabalhos da Assembleia Nacional, instalada em 1º de fevereiro de 1987.

Para o consultor, o desejo da sociedade por maior participação nas decisões sobre o país está impresso em diversos pontos da Constituição. Caso do artigo 14, que vincula de forma inédita no Brasil a tríade soberania popular, sufrágio universal e voto direto e secreto.

Imagem do interior do Prodasen em 1987

Interior do Prodasen em 1987

CEDI/Câmara dos Deputados

Trindade também destaca a previsão constitucional para os projetos de lei de iniciativa popular. A Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135, de 2010) é um exemplo desse mecanismo. Para apresentar um projeto como esse ao Congresso Nacional é preciso reunir as assinaturas de ao menos 1% dos eleitores brasileiros, distribuídos em no mínimo cinco estados.

Um outro mecanismo que guarda o espírito de participação popular presente nas cartas à Constituinte são as chamadas sugestões legislativas. Elas podem ser submetidas ao Senado ou à Câmara dos Deputados. No Senado, qualquer cidadão pode apresentar individualmente sua ideia legislativa pela internet, no Portal e-Cidadania, vinculado à Secretaria-Geral da Mesa.

Se ao longo de quatro meses a ideia reunir o apoio de 20 mil pessoas no portal, ela segue como sugestão para a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH). Caso receba parecer favorável no colegiado, passa a tramitar como um projeto de lei.

Gráfico Missivas

— A democracia representativa vem da impossibilidade material de reunir o povo soberano em uma ágora moderna. Mas o que era impossível se tornou possível pela informática — disse o professor Stepháne Monclaire ao Jornal do Senado.

O atual presidente do Prodasen, Gleison Carneiro, concorda:

— O Projeto Constituição consolidou o papel do Prodasen como um pilar importante do Senado, não apenas em termos de suporte técnico, mas também como uma instituição-chave para a participação cidadã e a transparência no processo legislativo.

Explore as Cartas

Esta seção permite a busca por nomes, estados, cidades e temas das cartas. Procure familiares e conhecidos. Experimente também as buscas por palavras-chaves e temas sugeridos.

Buscas sugeridas
72719 cartas encontradas
jorge machado alencar
foz do iguaçu – PR

Acabar com a burocratização das “Prefeituras” e org;os Públicos. Controlar melhor os preços das mercadorias. Baratear os transportes. Acabar com autoritarismo político e militar.

antonia luiza corneti gazzotti
cravinhos – SP

Que fosse aprovada a aposentadoria opcional aos funcionários públicos. Que se pudesse retirar o fundo de garantia (FGTS) para construção da casa própria.

jocelim rodrigues abdala
guaira – SP

Sugiro os seguintes temas para debate: Modificações no C. Penal, C.P.Penal, Código Civil e C.P.Civil, com penalidade mais severas na área penal; sistema Eleitoral; Modificação no número de vereadores e deputados com a consequente redução do número de representantes 4em 35% ddo atual número, uma ve

janaina nacif
nazareno – MG

Eu adoro constituinte.

lázaro nunes da silva
tubarão – SC

Prezado Senhores Sou um jovem de apenas 21 anos de idade estou começando a minha carreira política e pretendo ir até o fim, sei que não é fácil ser político mas chego lá. Moro num bairro de 7.000 pessoas e atualmente participo do conselho do conselho comunitário, e de reuniões como do PMDB e do PT,

denir de jesus oliveira
correia pinto (lages) – SC

Prioridade número um para a Educação, já que temos o nosso Senador no Ministério da Educação. Nada mais justo que se dê o direito à educação, pois um país sem cultura nada é. Gostaria que fosse feita uma Constituição, voltada para os grandes problemas nacionais, tais como: Direito ao trabalho, Dire

abraão virgulino de costa
esperantina – PI

Reduzir os gastos públicos de maneira supérflua. Controlar preços de cereais. Congelar o preço do petróleo pelo menos de dois em dois meses. Congelar a inflação pelo menos de três em três meses. Correção nos cartórios emissores de: Certidão de casamento, nasciento e óbitos, pois estão emitindo ambos

roseliy loureiro
guarapari – ES

Eu sugiro o seguinte:”Que dentro da constituinte houvesse uma comparação salarial para o funcionário público municipal estatutário, como ocorre com o vereador municipal através do decreto-lei no.049 de dezembro dez/85.”

n/a
nova londrina – PR

Num país, que na passagem do Ministério da justiça, foi cantado o Hino Nacional em rítmo de bolero. Que a Bandeira Nacional desfila em escola de samba servindo de tapa “Bum-Bum”. Que o dólar, no cambio negro é publicado em todos os jornais e mostrados em todas as tv’s. Prá que Constituição? ??????

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Jovens eleitores quilombolas defendem voto em defesa de ideais

Mais de 188 mil pessoas identificados como quilombolas vão às urnas

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Luiz Cláudio Ferreira – Repórter da Agência Brasil

No próximo dia 4 de outubro, o agricultor Joaquim Moreira, de 87 anos, pessoa mais velha da comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto (GO), fará o caminho até a escola em que vai votar em uma companhia especial. 

Ele estará com a neta, a estudante Thauany Silva, de 16 anos, que terá a primeira experiência na urna. Ambos estão muito ansiosos pela data e com os títulos bem guardados em suas carteiras. “Sempre votei e vou votar de novo”, diz o agricultor.

Thauany tem 16 anos e votará pela primeira vez. Foto: acervo da família
Thauany tem 16 anos e votará pela primeira vez. Foto: acervo da família

Thauany ficou tão empolgada com o primeiro voto que, assim que completou 16 anos em abril, foi com a mãe, Mayara, até o centro da cidade para fazer valer os direitos de cidadã.

Dobro de eleitores

Nas eleições de 2026, o número de eleitores que se identificaram como quilombolas praticamente dobrou em relação ao pleito de 2024, segundo os números divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral. Eram 95.409 pessoas nas eleições municipais e subiu para para 188.371 em 2026. Em Goiás, onde a família deles vota, o número de quilombolas eleitores subiu de 3.625 para 5.394

Mayara Silva, de 36, mãe de Thauany, afirma que ensina aos filhos que é necessário acompanhar as decisões políticas porque interferem diariamente no dia a dia da sua comunidade. “Não tem como fechar os olhos para o fato que tudo é política”, diz.

A adolescente ficou muito feliz quando recebeu o título provisório de eleitora em mãos.  “Quando a gente vota, estamos cuidando do futuro de todos nós, né?”, argumenta.

“Até o ar que a gente respira”

O sentimento de querer participar do dia importante da democracia também encanta a universitária de direito Franciele Silva, de 27 anos. Ela, que é nascida e criada na comunidade de Rio dos Macacos, em Simões Filho (BA), explica que tem o título de eleitor desde os 18 anos.

“Eu tinha muita curiosidade sobre como era votar. Até o ar que a gente respira tem a ver com política. Minha mãe sempre me ensinou a lutar pelos meus direitos e da minha comunidade”, enfatiza. Franciele, desde que começou a estudar direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA), passou a trazer ainda mais informações para a comunidade sobre caminhos para a defesa do seu território. “Votar é fundamental”.

Franciele Silva vive na comunidade de Rio dos Macacos. Foto: acervo de família
Franciele Silva vive na comunidade de Rio dos Macacos. Foto: Acervo de família

Inclusive, no Nordeste, há maior quantidade de quilombolas eleitores do país. Em 2024, eram 51.633 pessoas e, em 2026, serão 95.901. Segundo o TSE, a região tem mais da metade do eleitorado quilombola do país.

Mais visibilidade

O crescimento do eleitorado nas comunidades tradicionais tem relação com a ampliação da visibilidade e da conscientização política nos territórios, segundo avalia a professora Bia Nunes. Ela é pesquisadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).

“Nós temos levado as nossas pautas a diferentes espaços e encontramos parcerias.” Ela diz que, o engajamento de eleitores quilombolas ocorre a partir de conscientização e letramento sobre o papel que os quilombolas realizam pela natureza como guardiões da floresta. “Entender, por exemplo, a importância que os territórios têm para a biodiversidade. É o trabalho que os quilombolas sempre fizeram e fazem”, acrescenta.

Bia Nunes, da Conaq, diz que é fundamental engajar os jovens. Foto: Arquivo pessoal
Bia Nunes, da Conaq, diz que é fundamental engajar os jovens. Foto: arquivo pessoal

Bia Nunes diz que a reivindicação de políticas públicas leva em conta o papel que as comunidades têm para a coletividade. “As pessoas começam a dimensionar esse trabalho e a entender a importância do voto e de escolher os representantes”.

A representante da entidade ressalta ainda que a população quilombola tem entendido que deve exigir dos governantes comprometimento com a proteção das pessoas e avanço das titulações de territórios quilombolas pelo país. Para isso, o engajamento dos mais jovens torna-se um caminho essencial.

Bia Nunes defende mais campanhas por parte do Estado brasileiro para o estímulo de eleitores e candidatos quilombolas. Inclusive, ainda há um contexto de vulnerabilidade, formado por pressões e ameaças de violências. “Eu mesmo sou uma pessoa que estou no programa de proteção porque, no ano de 2020, eu sofri uma ameaça contra a minha vida (quando era candidata)”.

Consciência política

A conscientização política da comunidade quilombola tem diferentes caminhos, como explica o educador de alfabetização financeira Rafael Costa, de 32 anos, da comunidade Mesquita, da Cidade Ocidental (GO). Ele avalia que há um crescimento de interesse por temas temas relacionados à participação e à representatividade política.

“Quanto mais as pessoas se informam, mais pesquisam, estudam e passam a ter mais noção da necessidade de políticas públicas, por exemplo”, contextualiza.

 Rafael é educador financeiro. Foto: Acervo pessoal
Rafael é educador financeiro. Foto: Acervo pessoal

Rafael Costa avalia que as comunidades, que cresceram com espírito de cooperação e altruísmo, precisam estar atentas para evitar golpes financeiros e desinformação. “A partir do momento que se conscientizam sobre seu modo de vida e de produção, começam também a desenvolver maior consciência política”, argumenta.

Há, segundo o educador financeiro, engajamento e politização dos jovens adultos sobre participação política para se defender da desinformação que ameaça territórios.  “A comunidade está cada vez mais se fortalecendo politicamente”.

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Unidades básicas de saúde oferecem atendimento em horário noturno e aos sábados

No DF, Atenção Primária à Saúde conta com nove postos abertos até as 22h durante a semana e 66 aos sábados

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Jak Spies, da Agência Brasília | Edição: Chico Neto

Pessoas residentes no Distrito Federal que precisam acessar uma unidade básica de saúde (UBS) fora do horário comercial dispõem de opções de atendimento em horário estendido. Das 183 UBSs da rede de saúde pública do DF, nove funcionam no período noturno, de segunda a sexta-feira, das 18h às 22h, e 66 unidades abrem aos sábados, das 7h às 12h.

 

A oferta de horários estendidos busca atender à população que estuda ou trabalha durante o expediente convencional. A maior parte das UBSs funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h, mas as unidades com atendimento estendido constituem alternativa para o acesso aos serviços.

 

Durante os horários estendidos, as unidades oferecem os serviços da Atenção Primária à Saúde, incluindo consultas agendadas e atendimento à demanda espontânea para situações de menor complexidade.

Nas UBSs, a população encontra acompanhamento de condições como hipertensão e diabetes, pré-natal, vacinação, curativos, renovação de receitas e atendimento com equipes de Saúde da Família, entre outros procedimentos. Casos de urgência e emergência são encaminhados para as unidades de pronto atendimento (UPAs) ou hospitais da rede.

Os endereços, horários de funcionamento e demais informações sobre as UBSs do Distrito Federal podem ser consultados no Painel Infosaúde — Atenção Primária. O sistema reúne dados atualizados da rede e permite verificar quais unidades operam em horário ampliado.

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Câmara Legislativa celebra 10 anos do Instituto Arte Jovem

Cerimônia lembrou da trajetória e das contribuições sociais feitas pela organização social que oferece aulas de música, dança e canto em Ceilândia

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Foto: Tiago Orihuela/Agência CLDF

Sessão solene contou com apresentação do bailarino Thiago Batista

“Uma ideia teimosa, que a gente não sabe como vai dar certo, mas tem a certeza de que precisa existir.” Foi assim o início do Instituto Arte Jovem, nas palavras de seu fundador e diretor artístico Edmilson Campos Júnior. Criada em 2016, a organização social oferece aulas de música, dança e canto na região administrativa de Ceilândia. A trajetória foi homenageada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), em sessão solene na noite de terça-feira (18).

>> Confira a cobertura fotográfica

Hoje, essa ideia tem quase 600 crianças e jovens de Ceilândia”, ressaltou Edmilson Júnior, que discursou sobre a transformação promovida pela arte. “Nós vimos crianças chegarem aqui sem coragem de olhar nos olhos. Pouco tempo depois, subiram no palco e se apresentaram para centenas de pessoas. Já vimos jovens descobrirem aqui um talento que nem sabiam que existia e, junto com ele, descobriram o próprio valor. Não é só ensinar música e dança. É ensinar que vocês são capazes”, enfatizou o fundador.

Edmilson Júnior também deixou um conselho para os alunos:“Se em algum momento a vida disser a vocês que não dá, que é difícil demais, que não é para gente como nós, lembrem-se dessa noite. Lembrem-se de um projeto nascido em Ceilândia, sem quase nada além de vontade, e que hoje está sendo homenageado pela Câmara Legislativa. Desistir nunca foi uma opção para nós. E também não vai ser para vocês”.

Orquestra do Instituto Arte Jovem (Foto: Tiago Orihuela/Agência CLDF)

A homenagem foi uma iniciativa do deputado distrital Martins Machado (Republicanos), que destacou o impacto do instituto na família e na comunidade, ajudando a construir novas perspectivas. “É gente que ganhou confiança, encontrou oportunidades e passou a enxergar novos caminhos. Quando uma pessoa começa a acreditar mais em si mesma, muita coisa ao redor dela também começa a mudar”, refletiu.

Representando as famílias dos alunos, Antônio Carlos de Souza demonstrou gratidão aos professores, colaboradores, parceiros e “todos que acreditaram e continuam acreditando no projeto”. “(O instituto) abriu portas, fortaleceu sonhos e ajudou nossas crianças e jovens a descobrirem suas capacidades, sua sensibilidade e seu lugar no mundo.”

A cofundadora e diretora-geral do Instituto Arte Jovem, Inayá Amanacy, comentou sobre a continuidade da organização, que está sempre agregando novos integrantes e alunos. “Hoje, nós temos alunos que tocam com a gente, já são pais e seus filhos continuam conosco”, observou.

O professor Edmilson Campos com os alunos da Orquestra Baby do Instituto Arte Jovem (Foto: Tiago Orihuela/Agência CLDF)

Um dos propósitos do instituto é a formação permanente de novos professores, conforme explicou o professor Edmilson Campos, que também é pai do fundador da organização. “O nosso papel é estar sempre formando e transformando. Eu sempre coloco os alunos para aprender a dar aula, independentemente da idade. Se tem seis anos, ensina para quem tem quatro. Você já é professor ao ensinar tudo o que sabe para o outro que não sabe”, detalhou.

No final, foram entregues moções de louvor a participantes do Instituto Arte Jovem, em reconhecimento à relevante contribuição prestada à formação musical, cultural e cidadã, promovendo inclusão social, desenvolvimento humano e valorização dos talentos locais.

A sessão solene completa está disponível no YouTube da TV Câmara Distrital.

Agência CLDF

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