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Para Hugo Motta, papa Leão XIV tem a missão de ampliar a conciliação

Novo papa foi escolhido nesta quinta-feira

 

Novo papa, Leão XIV faz sua primeira aparição pública

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse esperar que o papa Leão XIV continue o legado de tolerância, diálogo e conciliação do papa Francisco. O novo líder religioso foi escolhido nesta quinta-feira.

“Ele tem a missão de ampliar a conciliação. Todos nós, seguidores da fé cristã, desejamos muita sabedoria, fé e energia para o novo pontífice”, disse Motta em suas redes sociais.

O cardeal Robert Francis Prevost foi eleito o 267º papa da Igreja Católica Romana nesta quinta-feira, tornando-se o primeiro papa oriundo dos Estados Unidos.

Frente Parlamentar Católica
O coordenador da Frente Parlamentar Católica, deputado Luiz Gastão (PSD-CE) ressaltou a mensagem de paz do papa Leão XIV em sua primeira aparição depois de eleito. A palavra foi citada 10 vezes no discurso papal. “‘A paz esteja com todos vocês!’ — com estas palavras evangélicas, iniciou-se o pontificado. Um gesto simples, mas repleto de profecia: paz verdadeira não é mera ausência de conflito nem neutralidade, mas reconciliação com Deus, com a Verdade”, afirmou o deputado.

Gastão lembrou que Leão XIV, nome escolhido por Robert Prevost para o papado, evoca a memória de Leão XIII que lançou os fundamentos da doutrina social da igreja. “Ali, o papa denunciou tanto o materialismo do socialismo quanto a desumanidade do liberalismo desenfreado, propondo o caminho da justiça enraizada na dignidade da pessoa humana”, disse Gastão.

Repercussão
O líder do Governo, deputado José Guimarães (PT-CE), felicitou a escolha de Leão XIV como novo líder da igreja católica e desejou que ele atue para unir a humanidade no amor fraterno, na solidariedade e na superação da desigualdade. “Que o Papa Leão XIV siga os passos de Papa Francisco, promovendo a paz, o diálogo e a justiça social para todos. Sucesso nessa caminhada!”, escreveu Guimarães.

O líder da Maioria, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), desejou que a igreja católica siga o legado do papa Francisco. “Levando esperança a milhões de pessoas, promovendo e fortalecendo a solidariedade, a paz e a justiça social, num mundo marcado por desigualdades e conflitos”, afirmou.

O líder do MDB, deputado Isnaldo Bulhões (MDB-AL), ressaltou que Prevost foi nomeado cardeal pelo papa Francisco [em 2023] e atuou tanto nos Estados Unidos como no Peru. “Que ele possa seguir o legado deixado por Francisco com fé, união e sabedoria

Segundo o líder do PT, deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), o novo papa é um profundo conhecedor do Brasil e da América Latina. “Desejo sucesso ao Papa Leão XIV. Que seja uma voz firme contra as injustiças e desigualdades e nos ajude a construir um mundo de paz e fraternidade”, afirmou. Farias acredita que Leão XIV deva seguir uma linha de continuidade do trabalho do papa Francisco de defesa dos mais pobres e vulneráveis.

A líder do Psol, Talíria Petrone (Psol-RJ), avalia que o fato de o papa ter falado em espanhol e não em inglês pode ser o sinal de sua atuação. “Um papa estadunidense falando em espanhol, em tempos de extrema direita fascistas em seu país e que nega a importância cultural e econômica da população latina e negra, é um gesto importante”, disse. Para Petrone, Leão XIV representa uma continuidade do papado mais sensível às causas sociais e climática do Papa Francisco. “Um homem visto como moderado, que falou na urgência da paz e na construção de pontes”, declarou.

O líder do União, deputado Pedro Lucas Fernandes (União-MA), também felicitou a escolha. “Como católico, desejo que o Espírito Santo guie as suas decisões e a condução do papa Leão XIV à frente da igreja”, afirmou Fernandes.

O líder do PSB, deputado Pedro Campos (PSB-PE), desejou que o papa conduza a igreja com os princípios do evangelho: fé, esperança e caridade. “E que o Espírito Santo siga guiando a igreja no caminho da paz e da unidade”, escreveu.

Peru
Prevost, antes de se tornar papa Leão XIV, trabalhou por mais de duas décadas no Peru, sendo 8 anos como bispo em Chiclayo, no noroeste do país. Ele tem, desde 2015, cidadania peruana.

Em 2023, foi chamado pelo então papa Francisco para chefiar o Dicastério para os Bispos, órgão da Santa Sé que auxilia na escolha dos responsáveis pelas dioceses, divisões territoriais em que a igreja católica organiza sua atuação.

Leão
O último papa que escolheu o mesmo nome que Prevost foi Leão XIII (papa entre 1878 e 1903), que ficou conhecido por estabelecer as bases da doutrina social. Na sua encíclica “Rerum Novarum” ele defendeu alguns pontos como:

  • dignidade dos trabalhadores e criticou suas condições precárias;
  • rejeição tanto do capitalismo desenfreado quanto do socialismo;
  • defesa do direito à propriedade privada, mas com destaque à sua função social;
  • defesa de salários justos e do direito de associação dos trabalhadores;
  • ação estatal para proteger os mais vulneráveis.

 

Reportagem – Luiz Gustavo Xavier e Tiago Miranda
Edição – Wilson Silveira

Fonte: Agência Câmara de Notícias

 

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LEMBRAR PARA REFLETIR

DATAS DA ONU PARA MAIO e JUNHO

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Uns Um MAIO E JUNHO – as datas estabelecidas pela Assembleia Geral da ONU para serem comemoradas na em todos os países para que todos os povos façam uma reflexão sobre preservação, desenvolvimento e cultura.

O Dia Internacional da Diversidade Biológica celebra-se anualmente a 22 de maio e baseia-se na Convenção sobre a Biodiversidade aprovada na Cimeira da Terra (Rio de Janeiro, 1992).

O objetivo é promover o desenvolvimento sustentável e a concretização dos princípios contidos no novo quadro global da biodiversidade, de modo a construir um futuro melhor em harmonia com a natureza e continuar os esforços para recuperar os ecossistemas naturais.

O Dia Internacional da Diversidade Biológica foi proclamado na Resolução 55/201 adotada na Assembleia Geral das Nações Unidas, a 20 de dezembro de 2000.

 

MÊS DE MAIO

2 DE MAIO

Dia Mundial do Atum 

3 DE MAIO

Dia Mundial da Liberdade da Imprensa.

8-9 DE MAIO

Dia Mundial das Aves Migratórias (PNUMA)

Jornada de Lembranças e Reconciliações em Honra de quem perdeu a vida na Segunda Guerra Mundial.

15 DE MAIO

Dia Internacional das Famílias.

16 DE MAIO

Dia Internacional da Convivência na Paz.

Dia Internacional da Luz 

17 DE MAIO

Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação.

20 DE MAIO

Dia Mundial das Abelhas.

21 DE MAIO

Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento.

22 DE MAIO

Dia Internacional da Diversidade Biológica.

23 DE MAIO

Dia Internacional para a Erradicação da Fístula Obstétrica.

26 DE MAIO

Dia da Lua Cheia (Dia do plenilúnio).

29 DE MAIO

Dia Internacional da Paz Pessoal das Nações Unidas.

31 DE MAIO

Dia Mundial Sem Tabaco.

 

O Dia Mundial das Aves Migratórias é celebrado em 12 de maio. O ICMBio tem várias unidades de conservação que são habitat importante para aves migratórias.

 

MÊS DE JUNHO

1 DE JUNHO

Dia dos Pais

4 DE JUNHO
Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão

5 DE JUNHO
Dia Mundial do Meio Ambiente

8 DE JUNHO
Dia Mundial dos Oceanos

12 DE JUNHO
Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil

14 DE JUNHO
Dia Mundial do Doador de Sangue

15 DE JUNHO
Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra as Pessoas Idosas

17 DE JUNHO
Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca

20 DE JUNHO
Dia Mundial do Refugiado

23 DE JUNHO
Dia do Serviço Público das Nações Unidas

27 DE JUNHO
Dia das Micro, Pequenas e Médias Empresas

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JOSÉ TRUDA PALAZZO JR. – ENTREVISTA

ALBARDÃO: um território estratégico para equilíbrio do clima, da biodiversidade marinha e das espécies de aves migratórias.

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PARQUE NACIONAL MARINHO DO ALBARDÃO

Silvestre Gorgulho

Albardão é albarda grande. Geograficamente é uma Cadeia de coxilhas e baixadas ao longo de cursos de água. Pode ser uma depressão na lombada de um monte ou simplesmente uma faixa de terra elevada e longa, à beira de rios ou lagunas. Mas o Parque Nacional Marinho do Albardão é tudo isso e muito mais: o Albardão é um verdadeiro berçário marinho, essencial para a reprodução de espécies, a manutenção da biodiversidade e a sustentabilidade da pesca. Fechando a reportagem, uma entrevista exclusiva com José Truda Palazzo Jr., Coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte e o maior defensor do Parque Nacional Marinho do Albardão.

O Albardão, uma área marinha de inestimável riqueza em nutrientes, acaba de se tornar o maior parque nacional marinho costeiro do País, com 1.004.480 hectares. Fica no extremo sul do Brasil, onde a praia parece não ter fim e o vento modela dunas que avançam como organismos vivos. É uma região tão isolada que, por décadas, quase não entrou nos mapas do debate ambiental. (foto: Pablo Bech/NEMA)

Criado pelo decreto n. 12.868, no dia 6 de marco deste ano, o Parque Nacional do Albardão e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão têm como objetivo proteger a biodiversidade e contribuir para a manutenção dos estoques pesqueiros do Atlântico Sul.

O Parque Nacional é uma unidade de conservação de proteção integral, na qual não são permitidas atividades que envolvam a extração de recursos naturais, tais como a pesca. Já a APA, uma categoria de uso sustentável, permite que atividades econômicas sejam desenvolvidas de forma sustentável, entre elas a pesca.

Além do Parque e da APA, o decreto também traz a delimitação de uma zona de amortecimento para o Parque Nacional, com o objetivo principal de, após a elaboração do plano de manejo, ordenar atividades que possam gerar impactos no parque.

O Farol do Albardão foi construído em 1909 devido ao excesso de naufrágios na região. Muitos perderam a vida por falta de conhecimento de rota. A torre atual é de 1948 e possui 44 metros de altura. O farol está localizado na maior praia do mundo, entre a praia do Cassino e Hermenegildo, uma faixa de areia deserta e extensa, que vai do Rio Grande até a fronteira com o Uruguai. Um local praticamente virgem que faz parte da história dos Campos Neutrais.

Segundo Ivan Carlos Maglio, Engenheiro civil e estudioso dos mares, a importância do Albardão não se limita à proteção de espécies emblemáticas como baleias, golfinhos e tartarugas. Sua função é estrutural: trata-se de uma área-chave para a dinâmica ecológica do oceano. “Ecossistemas como esse operam como reguladores naturais — sustentam cadeias alimentares, recuperam estoques pesqueiros e contribuem para a estabilidade climática. Em um contexto de mudanças climáticas e colapso da biodiversidade, essas áreas deixam de ser “reservas” e passam a ser infraestruturas ecológicas críticas”, salienta Ivan Maglio.

O boto-de-Lahille (Tursiops gephyreus) que é endêmico no Atlântico Sul Ocidental. Ele está presente em águas costeiras próximas à zona de arrebentação em baías, estuários e lagoas no Sul do Brasil, no Uruguai e Argentina. Estima-se que existam apenas 600 indivíduos.

A toninha é uma espécie de golfinho e está ameaçada de extinção. A diferença entre a  toninha (Pontoporia blainvillei) e os golfinhos comuns está no tamanho, formato dos dentes e comportamento. As toninhas são menores e possuem focinho longo e fino.

Os CONCHEIROS do Albardão, localizados na região, representam uma área de extrema importância paleontológica e geológica, frequentemente estudada como geossítio e sítio fossilífero de relevância nacional. (foto: Pablo Bech/NEMA)

 

JOSÉ TRUDA PALAZZO – ENTREVISTA

 (Foto: Eduardo Melo/Projeto Baleia Jubarte.

 

Tem nome e sobrenome um dos mais valentes guerreiros das causas ambientais para proteção da costa marinha: o professor José Truda Palazzo. Discípulo do grande José Lutzemberger,  José Truda, gaúcho de Porto Alegre, 63 anos, consultor de meio ambiente, escritor, mergulhador e articulista de temas científicos vive por mares rasos e profundos de todo litoral brasileiro. Truda é coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte e Coordenador Geral do Projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande. Foi um dos idealizadores do Parque Nacional do Albardão.

 

 

Silvestre Gorgulho – José Truda, fale sobre o Albardão e por que ele é importante do ponto de vista ambiental?

José Truda Palazzo – A região do Albardão – assim chamada pela paisagem de dunas onduladas na costa, de formato similar às albardas, selas rústicas utilizadas nas montarias dos gaúchos de antigamente – fica localizada no extremo sul do Brasil, entre aproximadamente o Farol do Albardão e a fronteira com o Uruguai, marcada pela desembocadura do arroio Chuí. Trata-se de uma região costeira ainda remota, com bem pouca ocupação humana, onde as lagoas costeiras bordejadas pelas dunas emolduram uma praia arenosa de mais de 200 km de extensão, a maior do planeta.

Silvestre – Eu conheço lá. Senti o encantamento e a monotonia de um deserto.

José Truda – Sim, mas a aparente monotonia desta costa esconde uma imensa biodiversidade. Não apenas a linha de praia é refúgio para aves migratórias de longo curso, mas também o mar agitado e escuro abriga fundos rochosos e calcáreos recobertos de corais, esponjas, hidróides e outros organismos, e esse conjunto de fundos consolidados serve como berçário e área de alimentação para muitas espécies marinhas vulneráveis, ameaçadas e criticamente ameaçadas de extinção, como a toninha e o boto-de-Lahille, ambos pequenos cetáceos endêmicos da costa leste sul-americana; tubarões-martelo, mangonas, cações-anjo e raias-viola; e tartarugas-marinhas.

 

Silvestre – Verdade, mas além dessas belezas biodiversas toda região é muito linda.

José Truda – Mais do que linda! A beleza cênica da região e seu isolamento também são de enorme valor para o Ecoturismo, com potencial especialmente para caminhadas de longo curso. E tem mais: na costa do Albardão também fica o mais importante sítio paleontológico da costa brasileira, os Concheiros, no qual milhões de conchas fósseis recobrem quilômetros de praia e no qual são frequentemente achados fragmentos de mamíferos já extintos, de mastodontes a tatus-gigantes.

 

Silvestre – Quando começou a luta pela proteção do Albardão?

José Truda – A região do Albardão já vinha sendo reconhecida como de muito alta importância para proteção desde que o Ministério do Meio Ambiente realizou as primeiras avaliações de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade, em 1999. Sucessivos estudos vieram confirmando essa importância e, já no início dos anos 2000, a sociedade civil, liderada pelo NEMA – Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental, sediado em Rio Grande do Sul, passou a demandar a proteção formal da área através de uma Unidade de Conservação.

 

Silvestre – Quais as principais ameaças à biodiversidade da região?

José Truda – Historicamente o mar do Albardão vinha sendo vítima de um processo contínuo de defaunação causado pela sobrepesca industrial. Várias décadas de estudos contínuos comprovaram o declínio das toninhas, e a causa principal foi apontada, sem sombra dúvida, como sendo a morte em redes da pesca industrial, que também vinham vitimando indiscriminadamente os tubarões e toninhas e várias espécies de tartarugas. Além da pesca, há pedidos de concessão de grandes áreas ao longo da costa gaúcha para a instalação de complexos eólicos offshore que incluíam a área proposta para proteção no Albardão.

 

As aves migratórias têm no Albardão um ponto de pouso e de alimentação. (foto: Pablo Bech/NEMA)

 

UN SOLO MAR

Silvestre – Sei que foi um desafio a criação do Parque. Como se deu o processo para a criação da Unidade de Conservação?

José Truda – O processo efetivo para proteção do Albardão se deu realmente a partir de iniciativas do NEMA, que ainda em 2008 reuniu uma série de outras organizações da sociedade civil em torno de uma campanha comum para defender a região. Essa campanha, que começou com manifestos e moções ao governo federal, como as aprovadas sucessivamente nos Congressos Brasileiros de Unidades de Conservação e em mobilizações nas redes sociais para chamar a atenção para ao valores ambientais da região. O movimento ganhou força em anos subsequentes com a adesão do Fórum do Mar Patagônico, que representa entidades do Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Em 2020, deu-se a criação do Projeto UN SOLO MAR, uma iniciativa das ONGs do Brasil e do Uruguai para gerar conscientização nos dois países para a importância da biodiversidade marinha na região. Isso estimulou a criação de novas áreas protegidas nos dois países. Em 2023, uma reunião técnica definiu tanto uma proposta de categoria de Unidade de Conservação – Parque Nacional – como uma proposta de limites, com cerca de um milhão e seiscentos mil hectares. Esta proposta foi validada junto ao ICMBio e levada a Consultas Públicas em 2024.

 

Silvestre – Foi aí que vieram os desafios?

José Truda – Isso mesmo. Desde que a proposta foi divulgada publicamente ela enfrentou a oposição ferrenha de dois grupos de interesse principais: o lobby da pesca industrial, tanto de Rio Grande como de Santa Catarina, que se recusavam a aceitar qualquer restrição a suas atividades predatórias na região, e do sindicato patronal que representa as empresas de energia eólica, defendendo em particular os interesses de uma empresa japonesa, a Shizen Energy, que tinha a pretensão de receber concessões de áreas offshore exatamente na área proposta para o Parque Nacional. Esses interesses fizeram uma campanha bastante forte junto a políticos locais, e estes mobilizaram grupos que tentaram tumultuar as Consultas Públicas realizadas na região, nas quais os representantes ambientalistas precisaram ser escoltados por um contingente armado da Polícia Federal por conta das muitas ameaças de violência. Não foi nada fácil.

 

Silvestre – E após as consultas públicas, o caminho foi mais fácil?

José Truda – Os desafios continuaram. Depois disso, o ICMBio, com apoio do NEMA, realizou mais uma série de estudos técnicos abrangendo principalmente a pesca. Após diversas negociações, que envolveram entre outros atores o governo do Estado do Rio Grande do Sul, o Ministério da Pesca e Aquicultura e o Ministério de Minas e Energia, foi acordado o desenho final da proposta, com um Parque Nacional de pouco mais de um milhão de hectares, uma APA de aproximadamente 55.000 hectares e uma Zona de Amortecimento de 558.000 hectares. Por fim, o presidente Lula assinou o histórico decreto federal criando esse Parque Nacional, e sua APA anexa, no dia 12 de março último. Vale lembrar que foi muito a propósito, pois foi antes da realização da Convenção de Espécies Migratórias no Brasil, pois várias das espécies que o Albardão vai proteger são migratórias.

 

Silvestre – Que benefícios diretos a região podem esperar com a criação do Parque?

José Truda – O principal benefício imediato que a proteção integral dessa grande área do Albardão vai trazer é a possibilidade de recuperação das espécies ameaçadas que têm ali um habitat crítico para seu ciclo de vida. Mas também há benefícios econômicos diretos à vista: primeiro, a pesca no seu entorno tende a ser beneficiada, pois o aumento da biomassa no interior do Parque vai gerar um efeito de “transbordamento” de pescado para o resto da região, algo já amplamente comprovado em outras áreas marinhas protegidas ao redor do mundo. Depois, o Ecoturismo, que já existe na região de forma ainda modesta, deverá ser muito ampliado, com a projeção internacional que essa região já está recebendo com a criação do Parque e a possibilidade de se observar ali, na área terrestre e costeira, muitas espécies de aves e outras de interesse do público como golfinhos e baleias, agora protegidos e não mais ameaçados pelas redes industriais.

As dunas do Parque Nacional do Albardão

 

Silvestre – Com o Parque criado, quais os próximos passos para assegurar a proteção da biodiversidade marinha na região?

José Truda – Espera-se que o MMA e ICMBio, com apoio da Marinha, do IBAMA e da Polícia Federal, dediquem recursos imediatamente para estruturar a fiscalização da área do Parque contra a pesca ilegal. Há que controlar também o acesso à faixa costeira, principalmente por veículos nas áreas mais sensíveis como os Concheiros. Outro ponto é a mobilização imediata de ferramentas de sensoriamento remoto como complemento à presença física do órgão gestor. Também a criação do Conselho Consultivo e elaboração do Plano de Manejo de forma participativa com os atores da região vão ser passos importantes para assegurar a proteção desse patrimônio natural inestimável.

 

Silvestre – Com a criação do Parque, como fica o Brasil em relação à meta 30×30 para a proteção do bioma marinho?

José Truda – Importante isso. Com a criação do Parque Nacional do Albardão o Brasil o Brasil chega perto de 27% de seu mar jurisdicional abrangido por Unidades de Conservação. Para atingirmos a meta de 30% até 2030, com representatividade adequada dos nossos ambientes marinhos, ainda precisamos avançar na urgente ampliação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, que abrange somente 1,8% daquele riquíssimo banco de coral, no sul da Bahia. Temos que conseguir a criação da área protegida dos Montes Submarinos de Fernando de Noronha e há ainda outras iniciativas na região Sudeste que ainda estão em estudo.

 

Silvestre – Essa foi uma vitória que fortalece o sonho de outras conquistas?

José Truda – Pura verdade. Vencer esses desafios mostrou que tudo é possível e desejável. A grande vitória da criação do Parque do Albardão renovou nossa esperança e fortaleceu nossa luta. Tudo indica que com vontade política chegaremos lá, mesmo contra interesses poderosos que ainda resistem à conservação adequada de nosso patrimônio natural marinho.

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ASTROTURISMO 2

A conservação que vai além da paisagem

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Nos grandes centros urbanos a falta de céu já é uma realidade. Os moradores de Copacabana, no Rio, fora da Avenida Atlântica, já não veem mais o céu, um dos mais lindos do mundo. Não souberam preservar o céu de Copacabana, de São Paulo, do Balneário de Camboriú, do Recife e de outras capitais brasileiras. O céu para uma cidade grande ou pequena agrega um valor simbólico, sentimental e faz bem aos olhos. Nem é questão de turismo ou astroturismo. É questão de qualidade de vida. A verdade é que a população mundial vem perdendo o contato com o céu estrelado. Segundo o site do Entre Parques, estima-se que cerca de 80% das pessoas já não conseguem observar a Via Láctea, nem as Três Marias, nem o Cruzeiro do Sul a partir de suas áreas de residência, em razão do crescimento da poluição luminosa.

 

O ASTROTURISMO NO BRASIL

E O PROJETO ‘ENTREPARQUES’

O crescimento do astroturismo acompanha uma tendência global de valorização do turismo de natureza e de experiências com baixo impacto ambiental. Em áreas protegidas, essa modalidade permite que visitantes explorem o ambiente natural durante o período noturno, ampliando as possibilidades de visitação e promovendo novas formas de sensibilização ambiental.

Essa necessidade de conservação da paisagem e preservação do espaço celeste em áreas protegidas vem sendo debatida e estudada. Justamente pelo potencial do astroturismo. Nesse sentido nasceram inciativas diversas, como o projeto desenvolvido pelo ‘Instituto Entre Parques’ e o ‘Instituto AstroParques’, que criou o uma ferramenta que avalia o potencial de parques nacionais para a prática do astroturismo. O projeto se chama IASTR e considera fatores como poluição luminosa, condições climáticas e infraestrutura disponível para visitantes.

A estruturação do índice foi resultado de uma expedição realizada pelo ‘Projeto Entre Parques’ ao longo de mais de três anos. A ferramenta foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais das áreas de turismo, economia, psicologia, geografia e astronomia, incluindo especialistas vinculados a instituições públicas e acadêmicas.

Com base em conceitos de ciência cidadã e no uso de dados públicos disponíveis, o índice passou a avaliar os parques nacionais considerando critérios como a qualidade do céu noturno, a probabilidade de céu aberto ao longo do ano e a existência de infraestrutura turística, como condutores e locais adequados para pernoite.

Diversas unidades de conservação federais apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento do astroturismo. Entre os exemplos estão o Parque Nacional das Emas, em Goiás, conhecido pela baixa poluição luminosa e pelo fenômeno da bioluminescência de larvas de vagalumes, além do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, também em Goiás, e do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, reconhecidos pelas excelentes condições de observação do céu noturno.

 

CÉU DAS CATARATAS

A noite nas Cataratas do Iguaçu: luz nas águas combinando com o céu estrelado. (Foto: Leo Caldas)

 

No Parque Nacional do Iguaçu (PR), uma das experiências mais recentes voltadas ao astroturismo é o programa “Céu das Cataratas”, que convida visitantes a contemplar o céu noturno em meio a um dos cenários naturais mais emblemáticos do país.

A atividade ocorre ao anoitecer e conduz os participantes até um mirante com vista para as Cataratas do Iguaçu, onde são realizadas observações do céu estrelado e apresentações que combinam conhecimentos da astronomia com saberes tradicionais dos povos originários, especialmente da cultura Guarani.

Durante a experiência, os visitantes têm acesso a explicações sobre a formação de estrelas, planetas e galáxias, além da observação de constelações e outros corpos celestes em um ambiente com baixa interferência de luz artificial, favorecendo a contemplação do céu noturno.

 

O CÉU DAS MONTANHAS DE MINAS

Minas Gerais sabe conectar suas montanhas com os céus. Montanhas e céus mineiros são vários, vibrantes e acolhedores. Melhor dizendo, apaixonantes. Minas tem ganhado destaque nacional e internacional no astroturismo. Tem parque quase se tornando ‘Dark Sky Park’, com observatório gigante em construção. Tem cidades com noites superescuras e tem até expedição astronômica em cavernas. Para quem quiser fazer um teste, lá vão algumas dicas.

 

  1. AIURUOCA e CARRANCAS

Ambas as cidades, no pé da Mantiqueira, têm altitude elevada, clima seco e quase nenhuma poluição luminosa, o que deixa o céu absurdamente limpo. Em noites claras, dá para ver constelações, planetas e até a Via Láctea brilhando forte, criando um show visual por entre montanhas e o céu. Apaixonante de dia e deslumbrante à noite.

DICA DE HOSPEDAGEM – Pousada Canto das Bromélias (Dadá) – Estrada dos Garcia KM 08 – Aiuruoca-MG Tel: 035) 99780-8351

 

  1. SÃO THOMÉ DAS LETRAS

A 1.400 metros de altitude é o destino clássico e místico, mas também perfeito para observar estrelas. Em S. Tomé das Letras tudo é embriagante: grutas, pedras e o céu.

Turistas em São Tomé das Letras se aglomeram para

esperar o milagre do pôr do sol…

 

.. e o milagre chega arrebatador!

 

  1. Luminárias – Quer um céu estrelado? Luminárias entrega uma experiência linda, com montanhas ao redor e pouca poluição luminosa. É um lugar ótimo para quem gosta de observar o céu e curtir o silêncio do interior.

 

  1. Gonçalves – Em plena Serra da Mantiqueira, chegando a quase 2.000 metros de altitude, Gonçalves tem noites frias, secas e super transparentes. Um prato cheio pros apaixonados por constelações. (foto: @nossashistoriasoficial)

 

  1. Parque Estadual do Ibitipoca – Um dos parques mais amados de Minas e um dos melhores para ver estrelas. Como o acesso é controlado, o céu fica super preservado. Em noites de lua nova, o espetáculo da Via Láctea impressiona.

 

6 – Parque da Serra da Canastra – Quer um céu realmente escuro, daqueles de perder o fôlego? É na Canastra. A região é enorme, cheia de mirantes naturais, com vista 360°. Ver estrelas ali é quase uma cerimônia. (blog: Rotas da Canastra – foto @leofroesft)

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