Artigos
PETER LUND (Parte 2)
O RETORNO À DINAMARCA PARA NOVOS ESTUDOS E A VOLTA DEFINITIVA PARA MINAS GERAIS.
Peter Lund fez duas viagens ao Brasil. A primeira entre 1825 e 1829, pelo seu grande interesse nos estudos de Botânica e de Zoologia. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro, mas fez várias expedições pelo interior do País. Voltou para a Dinamarca em 1829, para se aprofundar nos estudos. Doutorou-se pela Universidade de Kiel e retornou ao Brasil, em 1833 para não mais voltar à Europa.
Na sua primeira viagem ao Brasil, entre 1825 e 1829, Peter Lund evita o Rio, pois a vida social e o calor impedem seus estudos, e hospeda-se em Niterói, com a mesma família francesa que recebera Saint-Hillaire alguns anos antes. Viajou para Nova Friburgo, onde permanece alguns meses. Lund deixou registrado:
“Para chegar lá levamos quatro dias cavalgando de manhã até a noite. Atravessávamos rios com a água subindo até a cintura em uma forte corrente e sobre pedras lisas arredondadas com que o fundo era coberto, tornando tremendamente difícil controlar os cavalos. Logo à frente, os cavalos tinham que enfrentar uma légua inteira dentro do lodo com a lama subindo até os seus quartos. O último dia foi especialmente difícil, quando tivemos que atravessar uma cadeia de montanhas de 6.000 pés de altura”.
Depois de uma temporada em uma fazenda de nome Rosário, mais no interior, retorna para o povoado de pesca Taipu, na região do Rio, para preparar seu regresso à Europa.
Diz Peter Lund: “É impossível explicar os diferentes tipos de sentimento, a quase alegria misturada com uma melancolia impronunciável que me invadia quando, sob a brisa refrescante após o pôr-do-sol, acabávamos o trabalho do dia deitando-se em nossos couros de boi, enquanto o puro céu estrelado livre de qualquer interferência humana lançava o seu manto gelado sobre as nossas cabeças. Vozes noturnas em incessante variação ressoavam de florestas nas proximidades, e os seus tons misteriosos provocaram surpresa e temor, mantendo-me acordado por diversas horas até que o farfalhar das folhas de buriti me fizessem cair no sono, do qual eu só despertaria graças ao som de milhares de pássaros cantando a alvorada”.
A VIAGEM DEFINITIVA DE LUND AO BRASIL
Ainda em Paris, Lund começa a questionar sua transferência para algum lugar de clima mais quente, para fugir do frio nórdico que causara a morte precoce de dois de seus irmãos. Depois de uma temporada em Paris e de um curto período no aconchego familiar.
Outro fato leva Peter Lund a retomar suas pesquisas no Brasil. Ele é procurado pelo botânico alemão Ludwig Riedel, que acompanhara Langsdorf em uma trágica expedição até a Amazônia. Riedel, que abrasileirou seu nome para Luiz e casou-se por aqui, convida Lund para uma expedição pelo interior do Brasil.
Chegam ao Brasil em 20 de janeiro de 1833, para nunca mais voltar à Europa. Mas isso ele ainda não sabia.
Lund descreve assim o início da viagem: “Em toda a parte estamos rodeados por florestas queimadas, cuja fumaça do fogo aliada à poeira da estrada ameaça sufocar-nos. Não há capim para os nossos animais, nem água nos rios ou riachos. Tivemos que alimentá-los com milho e matar a sede com cana de açúcar”.
A expedição passa por Taubaté, São Paulo, São Carlos de Campinas, Sorocaba, São Bento d’Araraquara e Villa de Franca.
Na travessia do Rio Pardo, Lund anota: “Os canoeiros que deveriam nos atravessar apareceram no começo da noite, anunciando a sua chegada com o som de um berrante ao longe que, combinado com o eco da floresta e o silêncio total que nos rodeava, criou um efeito mágico. Eram mulatos e negros seminus. Deixamos que eles enchessem seus estômagos vazios ao lado do fogo, onde se acomodaram e nos entretiveram uma boa parte da noite com as histórias infantis sobre todos os monstros que deveriam se alimentar nas profundezas do rio”.
DE CATALÃO PARA PARACATU
Em Catalão, decidem redirecionar a expedição para a região das Minas Gerais e seguem para a Villa de Paracatu do Príncipe.
Escreve extasiado:
“Diariamente acampávamos nas encostas daqueles vales de buritis. As impressões da maravilhosa paisagem natural eram e sempre serão indeléveis em minha memória. Ao mesmo tempo é impossível explicar os diferentes tipos de sentimento, a quase alegria misturada com uma melancolia impronunciável que me invadia quando, sob a brisa refrescante após o pôr-do-sol, acabávamos o trabalho do dia deitando-se em nossos couros de boi, enquanto o puro céu estrelado livre de qualquer interferência humana lançava o seu manto gelado sobre as nossas cabeças. Vozes noturnas em incessante variação ressoavam de florestas nas proximidades, e os seus tons misteriosos provocaram surpresa e temor, mantendo-me acordado por diversas horas até que o farfalhar das folhas de buriti me fizessem cair no sono, do qual eu só despertaria graças ao som de milhares de pássaros cantando a alvorada”.
Atravessam o Rio São Francisco em cinco canoas, pouco acima do rio Abaeté, antes de chegarem à Villa de Santo Antônio do Curvello. Um ano após a partida do Rio, ao pernoitarem no rancho dos tropeiros da vila, Lund ouve outro viajante argumentar com Riedel que contava sempre com a vantagem de usar o dinamarquês quando lhe convinha, pois ninguém o compreenderia. Enrolado em seu couro de boi, rebate de pronto para não contar muito com isso.
PEDRO DINAMARQUÊS
APRESENTA GRUTAS A LUND
Conta-se, assim, seu encontro com Peter Claussen, que se autodenominava Pedro Cláudio Dinamarquês, misto de fazendeiro, geólogo amador e negociante oportunista. Foi Claussen que apresentou a Lund as grutas calcárias da região e os fósseis pré-históricos. O fato altera a vida de ambos. A expedição segue por Lagoa Santa, Santa Luzia e Caeté. Riedel e Lund coletam na Serra da Piedade e descansam por um tempo na mina de Gongo Soco, administrada pelos ingleses.
Em carta para o primo Peter Christian Kierkegaard, irmão do filósofo Soeren Kierkegaard, resume: “No sertão eu encontrei a paz e a ocasião perfeita para a mais profunda contemplação e trabalhei arduamente para construir a minha concha, a filosofia da vida prática, na qual se busca abrigo e proteção contra as tempestades do mundo. Mas a falta de notícias é penosa”.
AS CAVERNAS MÁGICAS
Em Ouro Preto, Lund despacha suas coleções e despede-se do amigo, com quem mantém contato por cartas até a morte de Riedel em 1861.
Retorna ansioso para a região das cavernas de Curvelo, que denomina de “cavernas mágicas’, para dedicar-se à exploração de fósseis e ossadas em associação com Claussen, que o buscara em Ouro Preto.
Não se decepciona: “Com um arrepio secreto adentrei a primeira dessas grutas místicas. Tudo o que me cercava dirigia-se a mim em um idioma estranho. Por todo lado eu via os traços de acontecimentos horríveis, que fecharam o capítulo anterior da história da evolução do globo terrestre, e, não sem horror, contemplei as infelizes vítimas da grande cena de sofrimento, cujos ossos jaziam aos milhares, espalhados aos meus pés. Uma voz secreta logo me disse que esses monstros não pertenciam ao mundo próximo; mal ousei, com as mãos trêmulas, tocar esses santuários da natureza e levou um longo tempo antes que, finalmente, com a mais ansiosa das expectativas, eu partisse para o penoso trabalho de tentar decifrar esses veneráveis hieróglifos”.

Gruta Maquiné na visão de Peter Lund: “Os esplêndidos reflexos produzidos pela luz, ferindo as inúmeras facetas destes cristais, deslumbram a vista, de modo que o homem se julga transportado a um palácio de fadas”.
Na Gruta de Maquiné, não se contém: “Os esplêndidos reflexos produzidos pela luz, ferindo as inúmeras facetas destes cristais, deslumbram a vista, de modo que o homem se julga transportado a um palácio de fadas. A mais rica imaginação poética não saberia criar tão esplêndida morada para seres maravilhosos; diante dessa notável gruta, ela seria forçada a confessar a sua impotência. Meus companheiros permaneceram durante muito tempo mudos à entrada deste templo; depois, involuntariamente, se ajoelharam e, persignando-se, exclamaram, diversas vezes: ‘Milagre! Deus é grande!’ Foi-me impossível dissuadi-los da ideia de que este templo devia servir de morada a Nosso Senhor. Quanto a mim, confesso que nunca meus olhos viram nada de mais belo e magnífico nos domínios da natureza e da arte”.

Peter Wilhelm Lund não estava só em seu grande trabalho nas grutas no entorno de Lagoa Santa. Ele teve um importante colaborador, o pintor visionário norueguês Peter Andreas Brandt. Brandt era indispensável para Lund em muitos aspectos, mas os mais notáveis foram as belas e precisas ilustrações que ele fez para os tratados pioneiros de Lund. Este livro mostra todo o Caderno de Esboços de Brandt, que ilustra o trabalho de Lund nas grutas e contém as primeiras representações de Lagoa Santa.
Próxima edição – abril de 2026 – Naturalistas Viajantes
PETER LUND (Parte 3)
O LEGADO DO VIAJANTE SEDUZIDO PELA NATUREZA BRASILEIRA
Por suas pesquisas, escavações e estudos nas grutas da região mineira, principalmente na Gruta do Maquiné, em Cordisburgo, Peter Lund descreveu minuciosamente a fauna de mamíferos e as mudanças ambientais ocorridas durante período Pleistoceno, há aproximadamente 2 milhões a 10 mil anos, quando a Terra era habitada por uma megafauna.
Artigos
TORRE DIGITAL DE BRASILIA
Uma epopeia no céu da capital em noite de lua cheia.
Trem bonito demais.
(foto: Leo Caldas)
Projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, a Torre Digital de Brasília é um dos marcos mais contemporâneos da capital federal. Inaugurada em 2012, a estrutura se destaca pela forma futurista e pela função estratégica: centralizar a transmissão de sinais de rádio e televisão para o Distrito Federal e região.
Com aproximadamente 182 metros de altura, a torre combina tecnologia e estética. Seu design remete a uma flor do Cerrado — referência direta ao bioma predominante na região — com duas cúpulas de vidro que funcionam como mirantes. Do alto, é possível contemplar uma vista privilegiada de Brasília, evidenciando o planejamento urbano característico da cidade.
Mais do que um equipamento técnico, a Torre Digital representa a evolução da comunicação no Brasil e reafirma a vocação de Brasília como cidade símbolo de inovação arquitetônica.
No campo da literatura, o livro A Flor do Cerrado, de Silvestre Gorgulho, oferece uma leitura sensível e profunda sobre o Cerrado brasileiro. A obra reúne crônicas, reflexões e narrativas que valorizam a biodiversidade e a riqueza cultural desse bioma, frequentemente subestimado.
Silvestre Gorgulho constrói, ao longo do livro, uma homenagem à natureza resiliente do Cerrado. Suas palavras revelam a beleza escondida nas paisagens aparentemente áridas, destacando a força das flores que resistem ao clima seco e às queimadas naturais. Ao mesmo tempo, o autor chama atenção para a necessidade de preservação ambiental e para os impactos da ação humana.
Conexões entre arquitetura e literatura
A Torre Digital e A Flor do Cerrado dialogam de maneira simbólica. Enquanto a torre traduz em concreto e vidro a inspiração nas formas orgânicas do bioma, o livro transforma essa mesma essência em linguagem poética.
Ambos representam diferentes formas de enxergar o Cerrado: uma pela inovação arquitetônica, outra pela sensibilidade literária. Juntas, essas expressões reforçam a identidade cultural de Brasília e destacam a importância de valorizar o patrimônio natural brasileiro.
Assim, seja pela imponência da Torre Digital ou pela delicadeza das palavras de Silvestre Gorgulho, o Cerrado se revela não apenas como cenário, mas como protagonista da história e da cultura do país.
Silvestre Gorgulho – Jornalista. Foi Secretário de Estado de Comunicação e Secretário de Estado da Cultura de Brasília.
Há 70 anos, em 18 de abril de 1956, Brasília começou a vencer a burocracia para sair do papel e entrar na fase do concreto, com a Mensagem de Anápolis.
Em 21 de abril de 1960, a capital era inaugurada com pompa e circunstância pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Lá se vão 66 anos. Nos 65 aniversários anteriores, os brasilienses assistiram a comemorações variadas: algumas simples, mas eufóricas. Outras apoteóticas. Todas sempre regadas a danças e festanças. Mas, nunca, o aniversário de Brasília foi comemorado com tanta displicência, apatia e baixo astral, como agora. A festa dos 66 anos de Brasília ficou restringida à bela edição do irmão gêmeo de Brasília, o Correio Braziliense, inclusive com a tradicional e empolgante Maratona.
Parece que Brasília está em depressão.
Lembro-me que, em 21 de abril de 2010, no Cinquentenário da Cidade, depois da capital ter passado pela crise de ter quatro governadores, a Câmara Legislativa elegeu, indiretamente, dois dias antes, um novo ocupante do Buriti. Mesmo com tantas cicatrizes, a cidade lavou a alma com uma ‘Festa dos 50 Anos’, que levou mais de um milhão de pessoas à Esplanada dos Ministérios.
Não havia nem um político no palco. A festa foi totalmente paga pela iniciativa privada com apoio logístico da Secretaria de Cultura. Deram às mãos o Sinduscon, Associação Comercial, Ademi, Asbraco e Fecomércio. Brasília cantou e dançou com Daniela Mercury – que foi âncora de um show histórico na Esplanada, onde se apresentaram com ela nada menos de 39 artistas da cidade.
À meia noite. Uma grande surpresa estava guardada a sete chaves. Apenas cinco pessoas sabiam. Além da Daniela Mercury, eu como Secretário de Cultura e mais duas pessoas de minha equipe. E, também, o próprio gênio da MPB que iria se apresentar, cantando apenas uma canção.
Apagaram-se as luzes. Estava anunciado o início da queima de fogos. Antes, um canhão de luz focou diretamente o palco e uma voz límpida e forte, a capela, ecoou pela escuridão. Aos poucos, sob o holofote, surge Milton Nascimento.
– ” Como pode o peixe-vivo / viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”
Foi uma apoteose!
A voz de Milton Nascimento reverberou pelos quatro cantos do Brasil. Sim, a TV Globo transmitiu tudo ao vivo. Um misto de euforia e de emoção tomou conta da multidão.
Na segunda estrofe, entra Daniela Mercury que faz dueto com Milton. Aos poucos, começam a entrar cada um dos 39 artistas brasilienses que tinham se apresentado.
E a Esplanada, num coral de um milhão de vozes, sacudiu o Cerrado:
– “Como pode o peixe-vivo /viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”
Vi muita gente chorando. A energia de tantos candangos celebrando os 50 anos de Brasília contagiou a cidade e ajudou a levantar o astral de um tempo triste e sombrio que a cidade vivia.
Agora, nos 66 anos da Capital, faltou ao atual governo sensibilidade e criatividade para tirar Brasília de uma depressão que a cidade está mergulhada.
BRASÍLIA ANO 1 – Para não dizer que falei apenas dos 50 anos da cidade, vou lembrar a comemoração de quando Brasília fez um ano, em 21 de abril de 1961. O presidente da República era Jânio Quadros. Ele estava de costas para a cidade. Falava até em voltar a Capital para o Rio de Janeiro. O prefeito, Paulo de Tarso, assoberbado com finalizações de infraestrutura e questões administrativas, nem pensou no assunto.
Na semana anterior, o então Secretário da Cultura (na época presidente da Fundação Cultural) o poeta maior José Ribamar Ferreira ou, simplesmente, Ferreira Gullar, organizou as comemorações do primeiro aniversário. Evidente, com todas as dificuldades de uma cidade ainda na placenta da História. O que ficou da festa – além de um singelo coquetel no gabinete do prefeito Paulo de Tarso, foi a poesia que nasceu da pena de Ferreira Gullar.
A verdade é que, com seus pouco mais de 100 mil habitantes (hoje são mais 3 milhões), Brasília teve mais poesia do que festança.
Sem nenhum tipo de condução e sem nenhum apoio logístico para celebrar o Ano 1 da nova Capital, Ferreira Gullar buscou solução no Exército Nacional. Marcou audiência.
Um major o recebeu educadamente. Depois de muita conversa, o oficial se saiu com essa:
– Dr. Gullar, tudo bem, mas o problema é viatura e gasolina.
– Eu sei, mas qual a solução?
– Dr. Gullar, não tem solução!
Sem solução, sem apoio, com bastante poeira e muita inspiração, Ferreira Gullar aproveitou o vinho comemorativo no final de tarde do dia 21, na sala do prefeito Paulo de Tarso, sacou do bolso um poema em forma de embolada e discursou aos convivas:
Não adianta, seu prefeito, abrir estrada.
Não adianta Carnaval na Esplanada.
Não adianta Catedral de perna fina
Não adianta rebolado de menina
Que o problema é viatura e gasolina.
Todo mundo riu muito, mas ninguém perdeu o ritmo:
– O problema é viatura e gasolina.
Bons tempos aqueles, quando o astral era altíssimo e o problema era só viatura e gasolina.

Artigos
Inhotim celebra 20 anos com inauguração de três novas obras
Instituto articula natureza, arte e educação em Brumadinho
Ana Cristina Campos – repórter da Agência Brasil
O Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, abriu neste sábado (25) as comemorações dos seus 20 anos com a inauguração de três obras: Contraplano, de Lais Myrrha, Dupla Cura, de Dalton Paula, e Tororama, de Davi de Jesus Nascimento. Considerado o maior museu a céu aberto da América Latina, o Inhotim reúne trabalhos de artistas nacionais e internacionais e uma rica flora. 

Para a diretora artística, Júlia Rebouças, as três obras se conectam em algo que é também a vocação do instituto: articular arte, natureza e educação.
“Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente”, disse.
Júlia destaca que os novos trabalhos conversam com o acervo reunido ao longo da história do instituto.
“São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim”, completa a diretora artística.
Contraplano
Sobre um dos pontos mais altos de Inhotim, a escultura monumental Contraplano faz referência ao prédio projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, na capital mineira. Feita de lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, materiais usados na arquitetura moderna, a obra se descortina sobre áreas do jardim do museu e da mata no entorno e sobre fragmentos de cavas de mineração nas regiões próximas.
O título da obra remete a um espelhamento dessa paisagem modificada pela mineração. A artista mineira Lais Myrrha conta que gostaria de propor uma reflexão em torno da relação da arquitetura com a paisagem, o tempo, a natureza, a montanha e a mineração.
“Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante”, afirmou a artista à Agência Brasil.
A psicóloga belo-horizontina Paola Prates, de 29 anos, estava em sua quarta visita ao Inhotim e entrou em contato pela primeira vez com o trabalho de Lais.
“Achei uma obra muito interessante, porque está posicionada próximo à mineração e eu acho que ela dialoga muito com isso. É uma obra que causa conforto porque, quando se está aqui dentro, você sente o frescor e o acolhimento, mas, ao mesmo tempo, você também olha para a mineração e lembra o que ela é capaz de fazer”, ponderou a visitante.
Dupla Cura
Abrigada na Galeria Mata, uma das primeiras edificações do Inhotim, a exposição de longa duração Dupla Cura, de Dalton de Paula, inclui cerca de 120 obras do artista brasiliense que mora e trabalha em Goiânia.
A mostra reúne o mais amplo conjunto de suas obras já exibido no Brasil, com pinturas, fotografias, vídeos e instalações que remetem à ancestralidade, à memória e à valorização da cultura afro-brasileira.
A curadora Beatriz Lemos explica que o título da exposição é uma referência “ao pacto espiritual que a permeia”. Segundo ela, o aspecto dual, ligado à devoção a São Cosme e São Damião, “manifesta-se no entendimento de que o fortalecimento individual é indissociável do bem-estar comunitário”.
Dalton de Paula conta que umas das questões que mais lhe atrai é a reflexão sobre a memória.
“Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante”, disse à Agência Brasil.
Morador da capital mineira, o engenheiro de som Marcos Soares, de 40 anos, já esteve seis vezes no Inhotim e foi conhecer o trabalho de Dalton.
“Curti muito os desenhos, as pinturas, a expressão gráfica dele é bem rica. O processo de construção da arte dele é bem interessante de acompanhar. Abre uma nova forma de vida que eu nunca teria a chance de vivenciar se não fosse vendo uma exposição como essa do Dalton”.
Tororama
A poucos passos do Contraplano, está a Galeria Nascente, que abriga a instalação Tororama, de Davi de Jesus Nascimento, que nasceu e mora em Pirapora, no norte mineiro.
O espaço reúne três pinturas e um vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em Minas Gerais. A instalação conta ainda com carrancas feitas pelo Mestre Expedito, importante figura da arte popular, que não produzia peças novas há dez anos.
Segundo o curador Deri Andrade, o nome da instalação aparece como uma expressão no conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, “que aborda a relação do protagonista com um curso d’água”.
“O trabalho de Davi está totalmente relacionado ao Rio São Francisco, a partir de uma pesquisa voltada para sua família que mergulha nesse rio. É um projeto completamente imersivo, que traz vídeo performance e uma paisagem sonora”, destacou o curador.
Davi conta que vem de uma família de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros.
“A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d’água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013”, disse o artista. “Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador”.
Irmã de Davi, Ana Paula Vieira do Nascimento, de 36 anos, visitou a obra que lhe remeteu a tudo o que a família vivenciou desde a infância.
“Nossa infância foi sempre dentro do rio. Somos barranqueiros e me remeteu muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição”.
Instituto Inhotim
O museu do Inhotim fica no município de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte. É uma organização sem fins lucrativos, mantida com recursos de doações de pessoas físicas e jurídicas – diretas ou por meio das leis federal e estadual de Incentivo à Cultura – , pela bilheteria e realização de eventos.
Foi idealizado desde a década de 1980 pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz. No solo ferroso de uma fazenda da região, surgiu em 2006.
Sua localização, entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, e as paisagens exuberantes ao longo dos 140 hectares de visitação proporcionam uma experiência única que mistura arte e natureza.
Cerca de 1.862 obras de mais de 280 artistas, de 43 países, compõem o acervo e são exibidas ao ar livre e em galerias em meio a um Jardim Botânico com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, vindas de todos os continentes.
*A reportagem viajou a convite do Instituto Inhotim.
-
Artigos2 meses agoDIA MUNDIAL DA ÁGUA HISTÓRICO DAS COMEMORAÇÕES
-
Artigos2 meses agoFestival inédito de cultura coreana chega a Brasília com show internacional
-
Reportagens3 meses agoExposição inédita de Tarsila do Amaral chega a Brasília no Centro Cultural TCU
-
Reportagens4 meses agoGoverno anuncia ferramentas para orientar candidatos do Enem
-
Artigos4 meses agoDF investe R$ 9 milhões para levar produção cultural ao Brasil e ao exterior em 2026
-
Artigos4 meses agoCLDF anuncia novo concurso de fotografia “Brasília Sob Lentes”
-
Reportagens4 meses agoReforma tributária começa fase de transição com testes de novos impostos em 2026
-
Artigos3 meses agoO papel do brincar na regulação emocional das crianças