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O DIA QUE JESUS FOI PRO XADREZ E NÃO FOI CRUCIFICADO
Cordel é bom demais. É Cultura popular, a sabedoria do povo e as formas originais que os repentistas fazem paródias da vida ordinária, da história e dos causos políticos e da vida amorosa. CORDEL é uma ebulição de criatividade. O Cordel é exposto para venda pendurado em cordas ou cordéis. Daí o nome. Os temas são os mais variados escritos em forma de rima. Vale conhecer um cordel da Sexta-feira Santa quando teve uma briga na procissão. Autor: CHICO PEDROSA. Francisco Pedrosa Galvão nasceu em Guarabira, Paraíba, a 14 de março de 1936. É o Dia da Poesia. Aniversário de Castro Alves. Chico Pedrosa é considerado um dos grandes poetas populares do Brasil, como Patativa do Assaré, Zé da Luz, Catulo da Paixão Cearense, Zé Praxedes e Zé Laurentino.
A BRIGA NA PROCISSÃO
Quando Palmeira das Antas, pertencia ao Capitão
Justino Bento da Cruz, nunca faltou diversão:
vaquejada, cantoria, procissão e romaria
Sexta-feira da Paixão.
Na Quinta-feira maior, dona Maria das Dores
no salão paroquial reunia os moradores
e depois da preleção ao lado do Capitão
escalava a seleção de atrizes e atores.
O papel de cada um, o Capitão que escolhia.
A roupa e a maquilagem eram com dona Maria.
O resto era discutido, aprovado e resolvido
na sala da sacristia.
Todo ano era um Jesus, um Caifaz e um Pilatos.
Só não mudavam a cruz, o verdugo e os maus-tratos.
O Cristo daquele ano foi o Quincas Beija-Flor,
Caifaz foi o Cipriano e Pilatos foi Nicanor.
Duas cordas paralelas separavam a multidão
pra que pudesse entre elas caminhar a procissão.
Cristo conduzindo a cruz já com o peso sofria,
Mas de tanto apanhar, com olhar advertia
O centurião perverso, que com força lhe batia.
Era prá bater maneiro, mas Bastião não entendia
devido um grande pifão que bebeu naquele dia
do vinho que o capelão guardava na sacristia.
CRISTO DIZIA FORTE:
– “Ôh, rapaz, manera e vê se bate devagar
já tô todo encalombado, assim não vou aguentar.
Meu costado tá a doer e tu não pára de bater.
Se não bater devagar a gente já vai brigar.
– Eu jogo essa cruz fora, tô ficando revoltado
vou morrer antes
da hora
de ficar crucificado”.
Pior que o centurião malvado fingia que não ouvia
além de bater com força ainda se divertia,
espiava prá Jesus fazia pouco e dizia:
– Que Cristo frouxo é você, que chora na procissão!
Jesus pelo que se sabe não era mole assim não.
Eu tô batendo com pena, mas tu vai ver o que é bom
é na subida da ladeira da venda de Fenelon.
Lá o couro é dobrado, até chegar no mercado
a cuíca muda o tom”.
Naquele momento, ouviu-se um grito na multidão
era Jesus-Quincas com raiva sacudir a cruz no chão
e partiu feito um maluco pra cima do Bastião.
Se travaram no tabefe, ponta-pé e cabeçada
Madalena levou queda, Pilatos levou porrada
deram um bofete em Caifaz que até hoje não faz
nem sente gosto de nada.
Desmancharam a procissão, o cacete foi pesado.
São Tomé levou um tranco que ficou desacordado,
acertaram um cocorote na careca de Timóti
que até hoje vive todo aluado.
Até mesmo São José, que não é de confusão,
na ânsia de defender seu filho, mesmo de criação,
aproveitou a garapa pra dar um monte de tapa
na cara do bom ladrão.
A briga só terminou quando o doutor Delegado,
interviu e separou cada Santo pro seu lado.
Desde que o mundo se fez, foi essa a primeira vez
que Cristo foi pro xadrez e não foi crucificado.