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Os viveiros da Novacap que fazem de Brasília um jardim a céu aberto

Espaços foram fundados com a missão de espalhar árvores, flores e arbustos pelo Distrito Federal; o resultado está nas ruas da capital, que tem quatro vezes mais áreas verdes do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde

 

Catarina Loiola, da Agência Brasília | Edição: Carolina Lobo

 

Cidade-parque, Brasília é um jardim a céu aberto. É o que mostram os números: existem 5,5 milhões de árvores em todo o Distrito Federal, 186 milhões de metros quadrados de grama e 650 jardins em áreas públicas e oficiais ornamentadas com flores e arbustos. As plantas distribuídas pelas regiões administrativas (RAs) são desenvolvidas nos dois viveiros da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), coordenados pelo Departamento de Parques e Jardins (DPJ).

‌A história dos espaços é contada pela Agência Brasília, em mais uma matéria da série especial #TBTdoDF, que aproveita a sigla em inglês de throwback thursday (em tradução livre, “quinta-feira de retrocesso”) para reviver o passado brasiliense.

O primeiro viveiro foi fundado na década de 1960, com o objetivo de desenvolver as árvores que iriam colorir as entrequadras e praças da cidade. Localizado onde hoje fica o Park Way, o espaço mantém a produção de flores, arbustos, palmeiras e plantas de sombra. São 26 hectares ocupados por 30 estufas, galpões de armazenamento e área administrativa.

O reduto de plantas passou por reforma estrutural e foi entregue, de cara nova, em setembro de 2023. O investimento foi superior a R$ 3,4 milhões, verba originária do orçamento do Governo do Distrito Federal (GDF). Foram 12,6 mil metros quadrados de obra, incluindo pavimentação de áreas de acesso e a construção de calçadas até a reestruturação de espaços comuns e destinados ao cultivo de plantas.

O Viveiro I, no Park Way, passou por reforma estrutural, incluindo pavimentação de áreas de acesso, construção de calçadas e reestruturação de espaços comuns e destinados ao cultivo de plantas | Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília

Agora, os serviços de recuperação se concentram no segundo viveiro, construído em 1972. Serão reformados os espaços de produção e manejo das plantas, bem como áreas administrativas e de circulação de veículos e pedestres. Com 78 hectares, o Viveiro II fica no Setor de Oficinas Norte e é dedicado ao desenvolvimento e manejo de árvores. Centenas de ipês, flamboyants, paineiras, quaresmeiras, cambuís e magnólias, entre muitas outras espécies, ocupam galpões e estufas, antes de serem deslocadas para as RAs.

“Anualmente, os dois viveiros da Novacap desenvolvem mais de 80 espécies de flores, mais de 300 espécies de arbustos, de plantas de sombra e palmeiras, além de mais de 200 tipos de árvores. Então, é o principal agente arborizador no DF”Fernando Leite, presidente da Novacap

Tudo que é produzido nos espaços da Novacap alimenta ações pontuais nas RAs e, principalmente, o Programa Anual de Arborização. O plano deste ano foi lançado no sábado (24) pelo governador Ibaneis Rocha, em evento no Guará. A previsão é de que cerca de 100 mil mudas sejam integradas a praças, canteiros, bosques e outros espaços por todo o Distrito Federal.

“Anualmente, os dois viveiros da Novacap desenvolvem mais de 80 espécies de flores, mais de 300 espécies de arbustos, de plantas de sombra e palmeiras, além de mais de 200 tipos de árvores. Então, é o principal agente arborizador no DF”, destaca o presidente da Novacap, Fernando Leite. “Fazemos o plantio de 100 mil mudas de árvores por ano, seguindo esse programa; e, para este ano, planejamos uma ação gigantesca, o que vai deixar nossa cidade ainda mais verde e florida.”

‌Os primeiros jardins

O chefe do DPJ da Novacap, Raimundo Silva, explica que a construção da nova capital exigiu a remoção da vegetação nativa. Concluídas as obras, o desafio passou a ser a arborização da região. “O Cerrado original teve que ser retirado para que os palácios e edifícios pudessem surgir”, relata. “Partimos praticamente do zero e, hoje, temos 5,5 milhões de árvores plantadas no DF, das quais a grande maioria foi produzida nos nossos viveiros. Os espaços, essenciais para o DF, são abertos ao público. Basta entrar em contato conosco e agendar a data e o horário da visita”.

As primeiras mudas plantadas em solo brasiliense vieram de diversos cantos do país, conforme revela a chefe da Divisão de Agronomia do DPJ, Janaina Gonzáles. “No entanto, na década de 1970, muitas das árvores foram perdidas, porque não se adaptaram ao clima do Cerrado. Com isso, deu-se início a uma pesquisa profunda sobre quais espécies seriam as melhores para a cidade”, conta.

Atualmente, mais de 60% das espécies de árvores que enfeitam o DF são nativas do Cerrado. É o caso do ingá-mirim e do ingá-colar, que despontam logo em janeiro, bem como dos ipês, do jatobá-da-mata e do jatobá-do-cerrado, que florescem em junho. Já entre as mudas de outras vegetações adaptadas ao Quadradinho, há o pau-brasil e o oiti, espécies da mata atlântica. As árvores do pau-brasil caracterizam-se por flores amarelas que abrem em meados de setembro. Também em tons amarelados, sendo algumas brancas, as flores do oiti dão o ar da graça em novembro.

O agrônomo Ozanan Coelho, que plantou os primeiros jardins da capital, disse: “A paisagem de Brasília é absolutamente singular” | Foto: Divulgação/Novacap

Conhecido como o homem que plantou os primeiros jardins da capital, o agrônomo Ozanan Coelho disse, em entrevista realizada em 2009, que “a arborização de Brasília foi uma epopeia, como a própria construção da cidade.” Nordestino, ele chegou à capital em 1969 para trabalhar no controle de doenças e pragas do Viveiro I. Um mês depois, envolveu-se na construção da Praça do Buriti e na ornamentação de outras áreas da cidade. Ozanan faleceu em 2016, aos 72 anos.

“Sou muito suspeito para falar, mas eu acho que a paisagem de Brasília é absolutamente singular. Em Brasília você vai ver ipê-branco, amarelo, roxo, quaresmeira, copaíba, jequitibá-do-cerrado, landim, pombeiro… você vai ver coisas que não existem nas outras cidades, uma coisa absolutamente só de Brasília”, defendeu, em outra entrevista de 2009.

‌Um trabalho a muitas mãos

A Novacap é responsável por todas as etapas de manejo das árvores, flores e arbustos do DF. As sementes das árvores são coletadas em matrizes catalogadas no DF e preparadas para a semeadura no Viveiro I. Depois, são reservadas em câmaras frias e expedidas para o destino final quando prontas para o plantio. O processo dura de dois a quatro anos, dependendo da espécie da árvore. Já as flores podem ser coletadas por sementes ou por poda vegetativa, dependendo da espécie. Em seguida, vêm o beneficiamento, o transplantio, a manutenção e a expedição – caminho que ocupa de 30 a 60 dias.

Jardineira dos viveiros da Novacap Liza da Silva: “Quando passamos por outro lugar a gente percebe que Brasília realmente é um jardim. Nenhum outro lugar é tão bonito quanto aqui” | Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília

Cada etapa faz parte do currículo da jardineira Liza da Silva, 59 anos – dos quais 23 são dedicados aos viveiros. Atualmente, ela trabalha com os cuidados diários com as plantas de sombra. “Eu amo isso aqui; depois da minha casa, é o melhor lugar do mundo”, declara. “E a reforma transformou esse lugar. Quando cheguei, sempre escutava: ‘Lisa, não passa para aquele lado, porque as telhas têm risco de queda’. Foi uma luta para conseguir as melhorias, mas não desistimos, e muita coisa melhorou”.

‌Assim como outros funcionários da companhia, ela se sente orgulhosa de fazer parte do que traz embelezamento ao DF. “Quando passamos por outro lugar, a gente percebe que Brasília realmente é um jardim. Nenhum outro lugar é tão bonito quanto aqui”, enfatiza Liza, que nasceu em Goiânia (GO) e é mãe de dois filhos.

Ao todo, a produção das árvores, flores e arbustos reúne esforços de 56 empregados públicos e cerca de 100 reeducandas da Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap), órgão vinculado à Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus). Ainda há espaço para mais trabalhadoras, já que o contrato com a instituição prisional permite a contratação total de 200 reeducandas. Podem se candidatar ao cargo sentenciadas do regime aberto ou semiaberto e aquelas submetidas a medidas de segurança.

“A atuação delas aqui é importantíssima para nós. Estão presentes em todas as etapas de produção de mudas – desde a coleta de sementes, beneficiamento, semeadura, desbaste, repicagem, tratos culturais, até a confecção dos vasos. Para elas, a experiência nos viveiros é ainda mais impactante, porque auxilia diretamente na ressocialização. Aqui, estão em contato com a natureza e têm, a cada três dias trabalhados, direito a um dia de remissão da pena”, esclarece a chefe da Divisão da Agronomia.

‌Cirsa Miranda, 62, é uma das reeducandas que trabalham no Viveiro I da Novacap. Ela faz parte do primeiro grupo contratado, iniciado em 7 de março de 2017 com apenas 30 mulheres. “Quando cheguei, não gostava de planta de jeito nenhum. Não sabia mexer e nem sentia vontade. O tempo passou e essas plantinhas são meus xodós”, conta a mãe de quatro filhos. “Tem flor aqui que ninguém consegue colocar no vaso do jeito certo, só eu. Faço uns 50 vasinhos por dia, com todo carinho do mundo, porque vão enfeitar a vida das pessoas”.

A produção das árvores, flores e arbustos reúne esforços de cerca de 100 reeducandas da Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap), órgão vinculado à Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus); Cirsa Miranda é uma das que trabalham no Viveiro I da Novacap | Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília

‌Quem também tem enraizado em si um amor pelos viveiros e pela arborização de Brasília é a própria chefe da Divisão de Agronomia, Janaina González, que há mais de 26 anos trabalha na Novacap. A gestora participou de todas as fases da produção ao longo da carreira, incluindo a introdução de uma nova espécie de árvore no DF. A planta é o angico-farinha-seca, que, apesar de ser nativa do Cerrado, não existia na capital federal. Hoje, está presente em diversos lugares, principalmente ao longo do Eixo Sul.

Chefe da Divisão de Agronomia, Janaina González: “Os viveiros são exemplo para o país inteiro” | Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília

“Sou muito apaixonada pelo trabalho que eu faço. Sou técnica agrícola de formação e trabalhei uns 15 anos na equipe de coleta de sementes”, relembra. “Os viveiros são exemplo para o país inteiro. Hoje conseguimos ver mudas que saíram pequenas do viveiro, foram plantadas pelo DF, passaram por vários climas e intempéries e estão aí, ornamentando a nossa cidade e servindo de matriz para outros exemplares. Isso é muito gratificante, e tenho muito orgulho de trabalhar nos viveiros desde o primeiro dia que entrei na Novacap, em 4 de fevereiro de 1998. Me sinto realizada fazendo essa produção.”

Atenção

O plantio de árvores pela população deve ser orientado por equipes técnicas da Novacap, para evitar prejuízos estruturais e até acidentes. O serviço pode ser solicitado pela Ouvidoria-Geral do Distrito Federal, por meio do telefone 162 ou pelo site.

 

 

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BRASÍLIA NA ROTA 66

E A FALTA
DE UM PARABÉNS PRÁ VOCÊ

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Silvestre Gorgulho – Jornalista. Foi Secretário de Estado de Comunicação e Secretário de Estado da Cultura de Brasília.

 

Há 70 anos, em 18 de abril de 1956, Brasília começou a vencer a burocracia para sair do papel e entrar na fase do concreto, com a Mensagem de Anápolis.

Em 21 de abril de 1960, a capital era inaugurada com pompa e circunstância pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Lá se vão 66 anos. Nos 65 aniversários anteriores, os brasilienses assistiram a comemorações variadas: algumas simples, mas eufóricas. Outras apoteóticas. Todas sempre regadas a danças e festanças. Mas, nunca, o aniversário de Brasília foi comemorado com tanta displicência, apatia e baixo astral, como agora. A festa dos 66 anos de Brasília ficou restringida à bela edição do irmão gêmeo de Brasília, o Correio Braziliense, inclusive com a tradicional e empolgante Maratona.

Parece que Brasília está em depressão.

Lembro-me que, em 21 de abril de 2010, no Cinquentenário da Cidade, depois da capital ter passado pela crise de ter quatro governadores, a Câmara Legislativa elegeu, indiretamente, dois dias antes, um novo ocupante do Buriti. Mesmo com tantas cicatrizes, a cidade lavou a alma com uma ‘Festa dos 50 Anos’, que levou mais de um milhão de pessoas à Esplanada dos Ministérios.

Não havia nem um político no palco. A festa foi totalmente paga pela iniciativa privada com apoio logístico da Secretaria de Cultura. Deram às mãos o Sinduscon, Associação Comercial, Ademi, Asbraco e Fecomércio. Brasília cantou e dançou com Daniela Mercury – que foi âncora de um show histórico na Esplanada, onde se apresentaram com ela nada menos de 39 artistas da cidade.

À meia noite. Uma grande surpresa estava guardada a sete chaves. Apenas cinco pessoas sabiam.  Além da Daniela Mercury, eu como Secretário de Cultura e mais duas pessoas de minha equipe. E, também, o próprio gênio da MPB que iria se apresentar, cantando apenas uma canção.

Apagaram-se as luzes. Estava anunciado o início da queima de fogos. Antes, um canhão de luz focou diretamente o palco e uma voz límpida e forte, a capela, ecoou pela escuridão. Aos poucos, sob o holofote, surge Milton Nascimento.

– ” Como pode o peixe-vivo / viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”

Foi uma apoteose!

A voz de Milton Nascimento reverberou pelos quatro cantos do Brasil. Sim, a TV Globo transmitiu tudo ao vivo. Um misto de euforia e de emoção tomou conta da multidão.

Na segunda estrofe, entra Daniela Mercury que faz dueto com Milton. Aos poucos, começam a entrar cada um dos 39 artistas brasilienses que tinham se apresentado.

E a Esplanada, num coral de um milhão de vozes, sacudiu o Cerrado:

– “Como pode o peixe-vivo /viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”

Vi muita gente chorando. A energia de tantos candangos celebrando os 50 anos de Brasília contagiou a cidade e ajudou a levantar o astral de um tempo triste e sombrio que a cidade vivia.

Agora, nos 66 anos da Capital, faltou ao atual governo sensibilidade e criatividade para tirar Brasília de uma depressão que a cidade está mergulhada.

BRASÍLIA ANO 1 – Para não dizer que falei apenas dos 50 anos da cidade, vou lembrar a comemoração de quando Brasília fez um ano, em 21 de abril de 1961. O presidente da República era Jânio Quadros. Ele estava de costas para a cidade. Falava até em voltar a Capital para o Rio de Janeiro. O prefeito, Paulo de Tarso, assoberbado com finalizações de infraestrutura e questões administrativas, nem pensou no assunto.

Na semana anterior, o então Secretário da Cultura (na época presidente da Fundação Cultural) o poeta maior José Ribamar Ferreira ou, simplesmente, Ferreira Gullar, organizou as comemorações do primeiro aniversário. Evidente, com todas as dificuldades de uma cidade ainda na placenta da História. O que ficou da festa – além de um singelo coquetel no gabinete do prefeito Paulo de Tarso, foi a poesia que nasceu da pena de Ferreira Gullar.

A verdade é que, com seus pouco mais de 100 mil habitantes (hoje são mais 3 milhões), Brasília teve mais poesia do que festança.

Sem nenhum tipo de condução e sem nenhum apoio logístico para celebrar o Ano 1 da nova Capital, Ferreira Gullar buscou solução no Exército Nacional. Marcou audiência.

Um major o recebeu educadamente. Depois de muita conversa, o oficial se saiu com essa:

– Dr. Gullar, tudo bem, mas o problema é viatura e gasolina.

– Eu sei, mas qual a solução?

– Dr. Gullar, não tem solução!

Sem solução, sem apoio, com bastante poeira e muita inspiração, Ferreira Gullar aproveitou o vinho comemorativo no final de tarde do dia 21, na sala do prefeito Paulo de Tarso, sacou do bolso um poema em forma de embolada e discursou aos convivas:

Não adianta, seu prefeito, abrir estrada.

Não adianta Carnaval na Esplanada.

Não adianta Catedral de perna fina

Não adianta rebolado de menina

Que o problema é viatura e gasolina.

Todo mundo riu muito, mas ninguém perdeu o ritmo:

– O problema é viatura e gasolina.

Bons tempos aqueles, quando o astral era altíssimo e o problema era só viatura e gasolina.

 

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Inhotim celebra 20 anos com inauguração de três novas obras

Instituto articula natureza, arte e educação em Brumadinho

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Ana Cristina Campos – repórter da Agência Brasil

 

O Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, abriu neste sábado (25) as comemorações dos seus 20 anos com a inauguração de três obras: Contraplano, de Lais Myrrha, Dupla Cura, de Dalton Paula, e Tororama, de Davi de Jesus Nascimento. Considerado o maior museu a céu aberto da América Latina, o Inhotim reúne trabalhos de artistas nacionais e internacionais e uma rica flora. 

Para a diretora artística, Júlia Rebouças, as três obras se conectam em algo que é também a vocação do instituto: articular arte, natureza e educação.

“Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente”,  disse.

Júlia destaca que os novos trabalhos conversam com o acervo reunido ao longo da história do instituto.

“São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim”, completa a diretora artística.

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A diretora artística do Inhotim, Júlia Rebouças durante abertura de exposições em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A diretora artística do Inhotim, Júlia Rebouças, durante abertura de exposições em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Contraplano

Sobre um dos pontos mais altos de Inhotim, a escultura monumental Contraplano faz referência ao prédio projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, na capital mineira. Feita de lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, materiais usados na arquitetura moderna, a obra se descortina sobre áreas do jardim do museu e da mata no entorno e sobre fragmentos de cavas de mineração nas regiões próximas.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A instalação Contraplano, de Lais Myrrha em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A instalação Contraplano, de Lais Myrrha, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O título da obra remete a um espelhamento dessa paisagem modificada pela mineração. A artista mineira Lais Myrrha conta que gostaria de propor uma reflexão em torno da relação da arquitetura com a paisagem, o tempo, a natureza, a montanha e a mineração.

“Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante”, afirmou a artista à Agência Brasil.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A artista Lais Myrrha durante abertura de sua instalação, Contraplano, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A artista Lais Myrrha durante abertura de sua instalação, Contraplano, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A psicóloga belo-horizontina Paola Prates, de 29 anos, estava em sua quarta visita ao Inhotim e entrou em contato pela primeira vez com o trabalho de Lais.

“Achei uma obra muito interessante, porque está posicionada próximo à mineração e eu acho que ela dialoga muito com isso. É uma obra que causa conforto porque, quando se está aqui dentro, você sente o frescor e o acolhimento, mas, ao mesmo tempo, você também olha para a mineração e lembra o que ela é capaz de fazer”, ponderou a visitante.

Dupla Cura

Abrigada na Galeria Mata, uma das primeiras edificações do Inhotim, a exposição de longa duração Dupla Cura, de Dalton de Paula, inclui cerca de 120 obras do artista brasiliense que mora e trabalha em Goiânia.

A mostra reúne o mais amplo conjunto de suas obras já exibido no Brasil, com pinturas, fotografias, vídeos e instalações que remetem à ancestralidade, à memória e à valorização da cultura afro-brasileira. 

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A instalação, Dupla Cura de Dalton Paula, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
 A instalação Dupla Cura, de Dalton Paula, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A curadora Beatriz Lemos explica que o título da exposição é uma referência “ao pacto espiritual que a permeia”. Segundo ela, o aspecto dual, ligado à devoção a São Cosme e São Damião, “manifesta-se no entendimento de que o fortalecimento individual é indissociável do bem-estar comunitário”.

Dalton de Paula conta que umas das questões que mais lhe atrai é a reflexão sobre a memória.

“Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante”, disse à Agência Brasil.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – O artista Dalton Paula durante abertura de sua instalação, Dupla Cura, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O artista Dalton Paula durante abertura de sua instalação, Dupla Cura, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto:Tomaz Silva/Agência Brasil

Morador da capital mineira, o engenheiro de som Marcos Soares, de 40 anos, já esteve seis vezes no Inhotim e foi conhecer o trabalho de Dalton.

“Curti muito os desenhos, as pinturas, a expressão gráfica dele é bem rica. O processo de construção da arte dele é bem interessante de acompanhar. Abre uma nova forma de vida que eu nunca teria a chance de vivenciar se não fosse vendo uma exposição como essa do Dalton”.

Tororama

A poucos passos do Contraplano, está a Galeria Nascente, que abriga a instalação Tororama, de Davi de Jesus Nascimento, que nasceu e mora em Pirapora, no norte mineiro.

O espaço reúne três pinturas e um vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em Minas Gerais. A instalação conta ainda com carrancas feitas pelo Mestre Expedito, importante figura da arte popular, que não produzia peças novas há dez anos.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – A instalação Tororoma do artista davi de jesus do nascimento durante abertura comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A instalação Tororoma, do artista Davi de Jesus do Nascimento, durante abertura comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).Foto:Tomaz Silva/Agência Brasil

Segundo o curador Deri Andrade, o nome da instalação aparece como uma expressão no conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, “que aborda a relação do protagonista com um curso d’água”.

“O trabalho de Davi está totalmente relacionado ao Rio São Francisco, a partir de uma pesquisa voltada para sua família que mergulha nesse rio. É um projeto completamente imersivo, que traz vídeo performance e uma paisagem sonora”, destacou o curador.

Davi conta que vem de uma família de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros.

“A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d’água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013”, disse o artista. “Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador”.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – O artista davi de jesus do nascimento durante abertura de sua instalação, Tororoma, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O artista Davi de Jesus do Nascimento durante abertura de sua instalação, Tororoma, em comemoração aos 20 anos do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Irmã de Davi, Ana Paula Vieira do Nascimento, de 36 anos, visitou a obra que lhe remeteu a tudo o que a família vivenciou desde a infância.

“Nossa infância foi sempre dentro do rio. Somos barranqueiros e me remeteu muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição”.

Instituto Inhotim

O museu do Inhotim fica no município de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte. É uma organização sem fins lucrativos, mantida com recursos de doações de pessoas físicas e jurídicas – diretas ou por meio das leis federal e estadual de Incentivo à Cultura – , pela bilheteria e realização de eventos.

Foi idealizado desde a década de 1980 pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz. No solo ferroso de uma fazenda da região, surgiu em 2006.

Sua localização, entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, e as paisagens exuberantes ao longo dos 140 hectares de visitação proporcionam uma experiência única que mistura arte e natureza.

Cerca de 1.862 obras de mais de 280 artistas, de 43 países, compõem o acervo e são exibidas ao ar livre e em galerias em meio a um Jardim Botânico com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, vindas de todos os continentes.

*A reportagem viajou a convite do Instituto Inhotim.

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Museu do Catetinho estreia experiência em realidade virtual com inspiração em Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Temporada do filme ‘Água de Beber’ começa neste sábado (25) e segue até setembro, com acesso gratuito aos visitantes

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Agência Brasília* | Edição: Chico Neto

O Museu do Catetinho, espaço gerido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF), inaugura neste sábado (25) a exibição do curta-metragem Água de Beber em realidade virtual. A experiência estará disponível ao público até setembro, com seis óculos instalados em pontos fixos do museu para uso dos visitantes.

Com oito minutos de duração, o filme recria a inspiração da canção homônima de Tom Jobim e Vinicius de Moraes a partir da fonte localizada no próprio Catetinho. Dirigido por Filipe Gontijo e Henrique Siqueira, o curta propõe uma imersão sensorial que conecta memória, música e patrimônio histórico em um dos espaços simbólicos da capital federal.

A iniciativa conta com o Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), instrumento público de fomento que viabiliza projetos culturais em diferentes linguagens e territórios. No caso da produção audiovisual, o recurso permite ampliar o acesso da população a novas formas de fruição cultural, incorporando tecnologias como a realidade virtual ao circuito de visitação.

 

Para o secretário interino de Cultura e Economia Criativa do DF, Fernando Modesto, a ação evidencia o papel das políticas públicas no fortalecimento da cultura e na valorização dos espaços históricos. “Ao ocupar o Museu do Catetinho com uma experiência que dialoga com a história da música brasileira e com a identidade do espaço, ampliamos as possibilidades de fruição cultural e reforçamos o compromisso do poder público com a democratização da cultura”, afirma.

*Com informações da Secretaria de Cultura e Economia Criativa

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