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FEMINIZAÇÃO DE MARÇO

PELO DIA MUNDIAL DA ÁGUA E PELO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 

O mundo é movido a mulher. O motivo é simples e factual. A mulher carrega dentro de si a discreta, silenciosa e divina energia que inspira, excita, ilumina, constrói, lidera, educa e que faz a diferença na família e na sociedade. Mulher é o tema de ontem, de hoje e de sempre. E, este mês de março, é duplamente dedicado ao gênero feminino. Primeiro, por ser o 8 de março Dia Internacional da Mulher, cuja semente foi plantada em 1908, quando 15 mil mulheres marcharam pela cidade de Nova York, exigindo a redução das jornadas de trabalho, salários melhores e direito ao voto. Segundo, porque para celebrar o Dia Mundial da Água de 2026, a Organização das Nações Unidas teve por bem propor uma reflexão sobre a relação entre água e o gênero feminino. Assim, o Dia Mundial da Água deste ano, celebrado em 22 de março, tem como tema “Água e Gênero”.

 

ÁGUA E GÊNERO

O tema “ÁGUA E GÊNERO” tem sido debatido desde a Conferência de Dublin sobre Água e Desenvolvimento Sustentável, realizada na Irlanda em 31 de janeiro de 1992, quando se reconheceu a importância do papel da mulher como gestora do uso dos recursos hídricos, sobretudo em comunidades de baixa renda. A Declaração oficial da Conferência foi clara: “As mulheres desempenham papel central na prestação, gestão e salvaguarda da água. Esse papel fundamental das mulheres como provedoras, usuárias de água e guardiãs do ambiente vivo raramente se refletiu em arranjos institucionais para o desenvolvimento e gestão dos recursos hídricos”.

 

Mulheres e crianças passam muito tempo buscando água potável. Esse é um problema que afeta de maneira especial o gênero feminino. (foto Unicef)

Em verdade, o balanceamento do gênero é importante em todos os níveis da imensa maioria das atividades humanas. O homem e a mulher têm demonstrado algumas diferenças de aptidões em determinadas tarefas. Tirar proveito dessas vocações para que a eficiência do trabalho aumente, constitui a essência do debate sobre a equidade de gênero.

Toda vez que se fala ou se estuda a questão dos recursos hídricos, a mulher tem função relevante. O papel da mulher no uso da água, no gerenciamento dos recursos hídricos e na preservação da qualidade dos ecossistemas aquáticos é fundamental. Sempre que falta acesso às fontes de água doce, ao saneamento básico e higiene apropriada nas casas, são as mulheres as mais afetadas e as mais exigidas. Muito mais do que os homens. Mais grave: em ambiente degradado, as mulheres são as primeiras a serem atingidas.

A verdade universal é que onde quer que uma mulher decida estar, ela fica com a maior responsabilidade de fazer a diferença, seja no ambiente familiar, na cidade, no campo, nas salas de aula, nos hospitais, na redação de jornal e, até mesmo, na política. Até mesmo no mundo animal, o gênero feminino está preparado para ser mãe. É de sua natureza amamentar, acalentar, cuidar dos filhos e da casa.

Quando o Estado cuida bem das mulheres, o Estado está cuidando diretamente de 70% da população e, indiretamente, dos outros 30%.

 

Em ambiente degradado, as mulheres mais humildes são as primeiras a serem atingidas. Quando o Estado cuida bem das mulheres, o Estado está cuidando bem diretamente de 70% da população e, indiretamente, dos outros 30%.

 

O balanceamento do gênero é importante em todos os níveis da imensa maioria das atividades humanas. O homem e a mulher têm demonstrado algumas diferenças de aptidões em determinadas tarefas. Tirar proveito dessas vocações para que a eficiência do trabalho aumente, constitui a essência do debate sobre gênero. Porque gestão do uso dos recursos hídricos é, por princípio, descentralizada e participativa, a discussão sobre gênero ganha uma dimensão maior nesse contexto, razão por que o tema está em quase todas as mesas de discussão sobre a água, nacionais e internacionais.

 

ONDE A ÁGUA FLUI,

A EQUIDADE DE GÊNERO CRESCE.

 

Neste Dia Mundial da Água, em 22 de março, a ONU quer chamar a atenção para o papel das mulheres que coletam e gerenciam água, muitas vezes em condições de alta vulnerabilidade, como ao cuidar de pessoas doentes, a busca da água para sobrevivência da família, as dificuldades em explorar mananciais contaminados, o problema para conseguir água em regiões pobres, a saúde e a segurança. Mesmo assim, as mulheres são, frequentemente, excluídas dos processos de tomada de decisão. Por isso, é necessário colocar as mulheres no centro da busca por soluções. Daí a proposta da ONU, neste ano, ao chamar atenção para a campanha: “Onde a água flui, a equidade de gênero cresce”.

Quem trabalha na gestão de recursos hídricos, tanto na Agência Nacional da Água como nas Agências reguladoras estaduais, todos sabem que é essencial debater formas de ampliar a presença feminina na gestão dos recursos hídricos. O tema proposto pela ONU para o Dia Mundial da Água-2026 chega em momento muito oportuno, já que cada vez mais amplia-se o debate sobre como as mulheres podem fortalecer sua participação na gestão da água.

 

Ao divulgar o tema “Água e Gênero” para celebrar o Dia Mundial da Água de 2026, a ONU provoca o debate sobre a conexão entre água e a equidade de gênero, pela dificuldade de acesso a fontes de água doce.

 

As mulheres têm uma participação especial no futuro da família, da comunidade e da sociedade. Da mesma forma, elas devem ter voz igual na condução de uma política de recursos hídricos e, até mesmo, na política partidária e na gestão do país.

Toda mulher carrega dentro de si, entre sorrisos e cicatrizes, a força divina da proteção, formação dos filhos e condução da família. E quanto mais vulnerável, mais guerreira ela é. Apesar da violência frequente a que são expostas, fica uma constatação: a mulher, que tem grandes missões e o dom de carregar tantas responsabilidades, está sempre a postos para mover e mudar o mundo.

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LEMBRAR PARA REFLETIR

DATAS DA ONU PARA MAIO e JUNHO

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Uns Um MAIO E JUNHO – as datas estabelecidas pela Assembleia Geral da ONU para serem comemoradas na em todos os países para que todos os povos façam uma reflexão sobre preservação, desenvolvimento e cultura.

O Dia Internacional da Diversidade Biológica celebra-se anualmente a 22 de maio e baseia-se na Convenção sobre a Biodiversidade aprovada na Cimeira da Terra (Rio de Janeiro, 1992).

O objetivo é promover o desenvolvimento sustentável e a concretização dos princípios contidos no novo quadro global da biodiversidade, de modo a construir um futuro melhor em harmonia com a natureza e continuar os esforços para recuperar os ecossistemas naturais.

O Dia Internacional da Diversidade Biológica foi proclamado na Resolução 55/201 adotada na Assembleia Geral das Nações Unidas, a 20 de dezembro de 2000.

 

MÊS DE MAIO

2 DE MAIO

Dia Mundial do Atum 

3 DE MAIO

Dia Mundial da Liberdade da Imprensa.

8-9 DE MAIO

Dia Mundial das Aves Migratórias (PNUMA)

Jornada de Lembranças e Reconciliações em Honra de quem perdeu a vida na Segunda Guerra Mundial.

15 DE MAIO

Dia Internacional das Famílias.

16 DE MAIO

Dia Internacional da Convivência na Paz.

Dia Internacional da Luz 

17 DE MAIO

Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação.

20 DE MAIO

Dia Mundial das Abelhas.

21 DE MAIO

Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento.

22 DE MAIO

Dia Internacional da Diversidade Biológica.

23 DE MAIO

Dia Internacional para a Erradicação da Fístula Obstétrica.

26 DE MAIO

Dia da Lua Cheia (Dia do plenilúnio).

29 DE MAIO

Dia Internacional da Paz Pessoal das Nações Unidas.

31 DE MAIO

Dia Mundial Sem Tabaco.

 

O Dia Mundial das Aves Migratórias é celebrado em 12 de maio. O ICMBio tem várias unidades de conservação que são habitat importante para aves migratórias.

 

MÊS DE JUNHO

1 DE JUNHO

Dia dos Pais

4 DE JUNHO
Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão

5 DE JUNHO
Dia Mundial do Meio Ambiente

8 DE JUNHO
Dia Mundial dos Oceanos

12 DE JUNHO
Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil

14 DE JUNHO
Dia Mundial do Doador de Sangue

15 DE JUNHO
Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra as Pessoas Idosas

17 DE JUNHO
Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca

20 DE JUNHO
Dia Mundial do Refugiado

23 DE JUNHO
Dia do Serviço Público das Nações Unidas

27 DE JUNHO
Dia das Micro, Pequenas e Médias Empresas

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JOSÉ TRUDA PALAZZO JR. – ENTREVISTA

ALBARDÃO: um território estratégico para equilíbrio do clima, da biodiversidade marinha e das espécies de aves migratórias.

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PARQUE NACIONAL MARINHO DO ALBARDÃO

Silvestre Gorgulho

Albardão é albarda grande. Geograficamente é uma Cadeia de coxilhas e baixadas ao longo de cursos de água. Pode ser uma depressão na lombada de um monte ou simplesmente uma faixa de terra elevada e longa, à beira de rios ou lagunas. Mas o Parque Nacional Marinho do Albardão é tudo isso e muito mais: o Albardão é um verdadeiro berçário marinho, essencial para a reprodução de espécies, a manutenção da biodiversidade e a sustentabilidade da pesca. Fechando a reportagem, uma entrevista exclusiva com José Truda Palazzo Jr., Coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte e o maior defensor do Parque Nacional Marinho do Albardão.

O Albardão, uma área marinha de inestimável riqueza em nutrientes, acaba de se tornar o maior parque nacional marinho costeiro do País, com 1.004.480 hectares. Fica no extremo sul do Brasil, onde a praia parece não ter fim e o vento modela dunas que avançam como organismos vivos. É uma região tão isolada que, por décadas, quase não entrou nos mapas do debate ambiental. (foto: Pablo Bech/NEMA)

Criado pelo decreto n. 12.868, no dia 6 de marco deste ano, o Parque Nacional do Albardão e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão têm como objetivo proteger a biodiversidade e contribuir para a manutenção dos estoques pesqueiros do Atlântico Sul.

O Parque Nacional é uma unidade de conservação de proteção integral, na qual não são permitidas atividades que envolvam a extração de recursos naturais, tais como a pesca. Já a APA, uma categoria de uso sustentável, permite que atividades econômicas sejam desenvolvidas de forma sustentável, entre elas a pesca.

Além do Parque e da APA, o decreto também traz a delimitação de uma zona de amortecimento para o Parque Nacional, com o objetivo principal de, após a elaboração do plano de manejo, ordenar atividades que possam gerar impactos no parque.

O Farol do Albardão foi construído em 1909 devido ao excesso de naufrágios na região. Muitos perderam a vida por falta de conhecimento de rota. A torre atual é de 1948 e possui 44 metros de altura. O farol está localizado na maior praia do mundo, entre a praia do Cassino e Hermenegildo, uma faixa de areia deserta e extensa, que vai do Rio Grande até a fronteira com o Uruguai. Um local praticamente virgem que faz parte da história dos Campos Neutrais.

Segundo Ivan Carlos Maglio, Engenheiro civil e estudioso dos mares, a importância do Albardão não se limita à proteção de espécies emblemáticas como baleias, golfinhos e tartarugas. Sua função é estrutural: trata-se de uma área-chave para a dinâmica ecológica do oceano. “Ecossistemas como esse operam como reguladores naturais — sustentam cadeias alimentares, recuperam estoques pesqueiros e contribuem para a estabilidade climática. Em um contexto de mudanças climáticas e colapso da biodiversidade, essas áreas deixam de ser “reservas” e passam a ser infraestruturas ecológicas críticas”, salienta Ivan Maglio.

O boto-de-Lahille (Tursiops gephyreus) que é endêmico no Atlântico Sul Ocidental. Ele está presente em águas costeiras próximas à zona de arrebentação em baías, estuários e lagoas no Sul do Brasil, no Uruguai e Argentina. Estima-se que existam apenas 600 indivíduos.

A toninha é uma espécie de golfinho e está ameaçada de extinção. A diferença entre a  toninha (Pontoporia blainvillei) e os golfinhos comuns está no tamanho, formato dos dentes e comportamento. As toninhas são menores e possuem focinho longo e fino.

Os CONCHEIROS do Albardão, localizados na região, representam uma área de extrema importância paleontológica e geológica, frequentemente estudada como geossítio e sítio fossilífero de relevância nacional. (foto: Pablo Bech/NEMA)

 

JOSÉ TRUDA PALAZZO – ENTREVISTA

 (Foto: Eduardo Melo/Projeto Baleia Jubarte.

 

Tem nome e sobrenome um dos mais valentes guerreiros das causas ambientais para proteção da costa marinha: o professor José Truda Palazzo. Discípulo do grande José Lutzemberger,  José Truda, gaúcho de Porto Alegre, 63 anos, consultor de meio ambiente, escritor, mergulhador e articulista de temas científicos vive por mares rasos e profundos de todo litoral brasileiro. Truda é coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte e Coordenador Geral do Projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande. Foi um dos idealizadores do Parque Nacional do Albardão.

 

 

Silvestre Gorgulho – José Truda, fale sobre o Albardão e por que ele é importante do ponto de vista ambiental?

José Truda Palazzo – A região do Albardão – assim chamada pela paisagem de dunas onduladas na costa, de formato similar às albardas, selas rústicas utilizadas nas montarias dos gaúchos de antigamente – fica localizada no extremo sul do Brasil, entre aproximadamente o Farol do Albardão e a fronteira com o Uruguai, marcada pela desembocadura do arroio Chuí. Trata-se de uma região costeira ainda remota, com bem pouca ocupação humana, onde as lagoas costeiras bordejadas pelas dunas emolduram uma praia arenosa de mais de 200 km de extensão, a maior do planeta.

Silvestre – Eu conheço lá. Senti o encantamento e a monotonia de um deserto.

José Truda – Sim, mas a aparente monotonia desta costa esconde uma imensa biodiversidade. Não apenas a linha de praia é refúgio para aves migratórias de longo curso, mas também o mar agitado e escuro abriga fundos rochosos e calcáreos recobertos de corais, esponjas, hidróides e outros organismos, e esse conjunto de fundos consolidados serve como berçário e área de alimentação para muitas espécies marinhas vulneráveis, ameaçadas e criticamente ameaçadas de extinção, como a toninha e o boto-de-Lahille, ambos pequenos cetáceos endêmicos da costa leste sul-americana; tubarões-martelo, mangonas, cações-anjo e raias-viola; e tartarugas-marinhas.

 

Silvestre – Verdade, mas além dessas belezas biodiversas toda região é muito linda.

José Truda – Mais do que linda! A beleza cênica da região e seu isolamento também são de enorme valor para o Ecoturismo, com potencial especialmente para caminhadas de longo curso. E tem mais: na costa do Albardão também fica o mais importante sítio paleontológico da costa brasileira, os Concheiros, no qual milhões de conchas fósseis recobrem quilômetros de praia e no qual são frequentemente achados fragmentos de mamíferos já extintos, de mastodontes a tatus-gigantes.

 

Silvestre – Quando começou a luta pela proteção do Albardão?

José Truda – A região do Albardão já vinha sendo reconhecida como de muito alta importância para proteção desde que o Ministério do Meio Ambiente realizou as primeiras avaliações de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade, em 1999. Sucessivos estudos vieram confirmando essa importância e, já no início dos anos 2000, a sociedade civil, liderada pelo NEMA – Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental, sediado em Rio Grande do Sul, passou a demandar a proteção formal da área através de uma Unidade de Conservação.

 

Silvestre – Quais as principais ameaças à biodiversidade da região?

José Truda – Historicamente o mar do Albardão vinha sendo vítima de um processo contínuo de defaunação causado pela sobrepesca industrial. Várias décadas de estudos contínuos comprovaram o declínio das toninhas, e a causa principal foi apontada, sem sombra dúvida, como sendo a morte em redes da pesca industrial, que também vinham vitimando indiscriminadamente os tubarões e toninhas e várias espécies de tartarugas. Além da pesca, há pedidos de concessão de grandes áreas ao longo da costa gaúcha para a instalação de complexos eólicos offshore que incluíam a área proposta para proteção no Albardão.

 

As aves migratórias têm no Albardão um ponto de pouso e de alimentação. (foto: Pablo Bech/NEMA)

 

UN SOLO MAR

Silvestre – Sei que foi um desafio a criação do Parque. Como se deu o processo para a criação da Unidade de Conservação?

José Truda – O processo efetivo para proteção do Albardão se deu realmente a partir de iniciativas do NEMA, que ainda em 2008 reuniu uma série de outras organizações da sociedade civil em torno de uma campanha comum para defender a região. Essa campanha, que começou com manifestos e moções ao governo federal, como as aprovadas sucessivamente nos Congressos Brasileiros de Unidades de Conservação e em mobilizações nas redes sociais para chamar a atenção para ao valores ambientais da região. O movimento ganhou força em anos subsequentes com a adesão do Fórum do Mar Patagônico, que representa entidades do Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Em 2020, deu-se a criação do Projeto UN SOLO MAR, uma iniciativa das ONGs do Brasil e do Uruguai para gerar conscientização nos dois países para a importância da biodiversidade marinha na região. Isso estimulou a criação de novas áreas protegidas nos dois países. Em 2023, uma reunião técnica definiu tanto uma proposta de categoria de Unidade de Conservação – Parque Nacional – como uma proposta de limites, com cerca de um milhão e seiscentos mil hectares. Esta proposta foi validada junto ao ICMBio e levada a Consultas Públicas em 2024.

 

Silvestre – Foi aí que vieram os desafios?

José Truda – Isso mesmo. Desde que a proposta foi divulgada publicamente ela enfrentou a oposição ferrenha de dois grupos de interesse principais: o lobby da pesca industrial, tanto de Rio Grande como de Santa Catarina, que se recusavam a aceitar qualquer restrição a suas atividades predatórias na região, e do sindicato patronal que representa as empresas de energia eólica, defendendo em particular os interesses de uma empresa japonesa, a Shizen Energy, que tinha a pretensão de receber concessões de áreas offshore exatamente na área proposta para o Parque Nacional. Esses interesses fizeram uma campanha bastante forte junto a políticos locais, e estes mobilizaram grupos que tentaram tumultuar as Consultas Públicas realizadas na região, nas quais os representantes ambientalistas precisaram ser escoltados por um contingente armado da Polícia Federal por conta das muitas ameaças de violência. Não foi nada fácil.

 

Silvestre – E após as consultas públicas, o caminho foi mais fácil?

José Truda – Os desafios continuaram. Depois disso, o ICMBio, com apoio do NEMA, realizou mais uma série de estudos técnicos abrangendo principalmente a pesca. Após diversas negociações, que envolveram entre outros atores o governo do Estado do Rio Grande do Sul, o Ministério da Pesca e Aquicultura e o Ministério de Minas e Energia, foi acordado o desenho final da proposta, com um Parque Nacional de pouco mais de um milhão de hectares, uma APA de aproximadamente 55.000 hectares e uma Zona de Amortecimento de 558.000 hectares. Por fim, o presidente Lula assinou o histórico decreto federal criando esse Parque Nacional, e sua APA anexa, no dia 12 de março último. Vale lembrar que foi muito a propósito, pois foi antes da realização da Convenção de Espécies Migratórias no Brasil, pois várias das espécies que o Albardão vai proteger são migratórias.

 

Silvestre – Que benefícios diretos a região podem esperar com a criação do Parque?

José Truda – O principal benefício imediato que a proteção integral dessa grande área do Albardão vai trazer é a possibilidade de recuperação das espécies ameaçadas que têm ali um habitat crítico para seu ciclo de vida. Mas também há benefícios econômicos diretos à vista: primeiro, a pesca no seu entorno tende a ser beneficiada, pois o aumento da biomassa no interior do Parque vai gerar um efeito de “transbordamento” de pescado para o resto da região, algo já amplamente comprovado em outras áreas marinhas protegidas ao redor do mundo. Depois, o Ecoturismo, que já existe na região de forma ainda modesta, deverá ser muito ampliado, com a projeção internacional que essa região já está recebendo com a criação do Parque e a possibilidade de se observar ali, na área terrestre e costeira, muitas espécies de aves e outras de interesse do público como golfinhos e baleias, agora protegidos e não mais ameaçados pelas redes industriais.

As dunas do Parque Nacional do Albardão

 

Silvestre – Com o Parque criado, quais os próximos passos para assegurar a proteção da biodiversidade marinha na região?

José Truda – Espera-se que o MMA e ICMBio, com apoio da Marinha, do IBAMA e da Polícia Federal, dediquem recursos imediatamente para estruturar a fiscalização da área do Parque contra a pesca ilegal. Há que controlar também o acesso à faixa costeira, principalmente por veículos nas áreas mais sensíveis como os Concheiros. Outro ponto é a mobilização imediata de ferramentas de sensoriamento remoto como complemento à presença física do órgão gestor. Também a criação do Conselho Consultivo e elaboração do Plano de Manejo de forma participativa com os atores da região vão ser passos importantes para assegurar a proteção desse patrimônio natural inestimável.

 

Silvestre – Com a criação do Parque, como fica o Brasil em relação à meta 30×30 para a proteção do bioma marinho?

José Truda – Importante isso. Com a criação do Parque Nacional do Albardão o Brasil o Brasil chega perto de 27% de seu mar jurisdicional abrangido por Unidades de Conservação. Para atingirmos a meta de 30% até 2030, com representatividade adequada dos nossos ambientes marinhos, ainda precisamos avançar na urgente ampliação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, que abrange somente 1,8% daquele riquíssimo banco de coral, no sul da Bahia. Temos que conseguir a criação da área protegida dos Montes Submarinos de Fernando de Noronha e há ainda outras iniciativas na região Sudeste que ainda estão em estudo.

 

Silvestre – Essa foi uma vitória que fortalece o sonho de outras conquistas?

José Truda – Pura verdade. Vencer esses desafios mostrou que tudo é possível e desejável. A grande vitória da criação do Parque do Albardão renovou nossa esperança e fortaleceu nossa luta. Tudo indica que com vontade política chegaremos lá, mesmo contra interesses poderosos que ainda resistem à conservação adequada de nosso patrimônio natural marinho.

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ASTROTURISMO 2

A conservação que vai além da paisagem

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Nos grandes centros urbanos a falta de céu já é uma realidade. Os moradores de Copacabana, no Rio, fora da Avenida Atlântica, já não veem mais o céu, um dos mais lindos do mundo. Não souberam preservar o céu de Copacabana, de São Paulo, do Balneário de Camboriú, do Recife e de outras capitais brasileiras. O céu para uma cidade grande ou pequena agrega um valor simbólico, sentimental e faz bem aos olhos. Nem é questão de turismo ou astroturismo. É questão de qualidade de vida. A verdade é que a população mundial vem perdendo o contato com o céu estrelado. Segundo o site do Entre Parques, estima-se que cerca de 80% das pessoas já não conseguem observar a Via Láctea, nem as Três Marias, nem o Cruzeiro do Sul a partir de suas áreas de residência, em razão do crescimento da poluição luminosa.

 

O ASTROTURISMO NO BRASIL

E O PROJETO ‘ENTREPARQUES’

O crescimento do astroturismo acompanha uma tendência global de valorização do turismo de natureza e de experiências com baixo impacto ambiental. Em áreas protegidas, essa modalidade permite que visitantes explorem o ambiente natural durante o período noturno, ampliando as possibilidades de visitação e promovendo novas formas de sensibilização ambiental.

Essa necessidade de conservação da paisagem e preservação do espaço celeste em áreas protegidas vem sendo debatida e estudada. Justamente pelo potencial do astroturismo. Nesse sentido nasceram inciativas diversas, como o projeto desenvolvido pelo ‘Instituto Entre Parques’ e o ‘Instituto AstroParques’, que criou o uma ferramenta que avalia o potencial de parques nacionais para a prática do astroturismo. O projeto se chama IASTR e considera fatores como poluição luminosa, condições climáticas e infraestrutura disponível para visitantes.

A estruturação do índice foi resultado de uma expedição realizada pelo ‘Projeto Entre Parques’ ao longo de mais de três anos. A ferramenta foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais das áreas de turismo, economia, psicologia, geografia e astronomia, incluindo especialistas vinculados a instituições públicas e acadêmicas.

Com base em conceitos de ciência cidadã e no uso de dados públicos disponíveis, o índice passou a avaliar os parques nacionais considerando critérios como a qualidade do céu noturno, a probabilidade de céu aberto ao longo do ano e a existência de infraestrutura turística, como condutores e locais adequados para pernoite.

Diversas unidades de conservação federais apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento do astroturismo. Entre os exemplos estão o Parque Nacional das Emas, em Goiás, conhecido pela baixa poluição luminosa e pelo fenômeno da bioluminescência de larvas de vagalumes, além do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, também em Goiás, e do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, reconhecidos pelas excelentes condições de observação do céu noturno.

 

CÉU DAS CATARATAS

A noite nas Cataratas do Iguaçu: luz nas águas combinando com o céu estrelado. (Foto: Leo Caldas)

 

No Parque Nacional do Iguaçu (PR), uma das experiências mais recentes voltadas ao astroturismo é o programa “Céu das Cataratas”, que convida visitantes a contemplar o céu noturno em meio a um dos cenários naturais mais emblemáticos do país.

A atividade ocorre ao anoitecer e conduz os participantes até um mirante com vista para as Cataratas do Iguaçu, onde são realizadas observações do céu estrelado e apresentações que combinam conhecimentos da astronomia com saberes tradicionais dos povos originários, especialmente da cultura Guarani.

Durante a experiência, os visitantes têm acesso a explicações sobre a formação de estrelas, planetas e galáxias, além da observação de constelações e outros corpos celestes em um ambiente com baixa interferência de luz artificial, favorecendo a contemplação do céu noturno.

 

O CÉU DAS MONTANHAS DE MINAS

Minas Gerais sabe conectar suas montanhas com os céus. Montanhas e céus mineiros são vários, vibrantes e acolhedores. Melhor dizendo, apaixonantes. Minas tem ganhado destaque nacional e internacional no astroturismo. Tem parque quase se tornando ‘Dark Sky Park’, com observatório gigante em construção. Tem cidades com noites superescuras e tem até expedição astronômica em cavernas. Para quem quiser fazer um teste, lá vão algumas dicas.

 

  1. AIURUOCA e CARRANCAS

Ambas as cidades, no pé da Mantiqueira, têm altitude elevada, clima seco e quase nenhuma poluição luminosa, o que deixa o céu absurdamente limpo. Em noites claras, dá para ver constelações, planetas e até a Via Láctea brilhando forte, criando um show visual por entre montanhas e o céu. Apaixonante de dia e deslumbrante à noite.

DICA DE HOSPEDAGEM – Pousada Canto das Bromélias (Dadá) – Estrada dos Garcia KM 08 – Aiuruoca-MG Tel: 035) 99780-8351

 

  1. SÃO THOMÉ DAS LETRAS

A 1.400 metros de altitude é o destino clássico e místico, mas também perfeito para observar estrelas. Em S. Tomé das Letras tudo é embriagante: grutas, pedras e o céu.

Turistas em São Tomé das Letras se aglomeram para

esperar o milagre do pôr do sol…

 

.. e o milagre chega arrebatador!

 

  1. Luminárias – Quer um céu estrelado? Luminárias entrega uma experiência linda, com montanhas ao redor e pouca poluição luminosa. É um lugar ótimo para quem gosta de observar o céu e curtir o silêncio do interior.

 

  1. Gonçalves – Em plena Serra da Mantiqueira, chegando a quase 2.000 metros de altitude, Gonçalves tem noites frias, secas e super transparentes. Um prato cheio pros apaixonados por constelações. (foto: @nossashistoriasoficial)

 

  1. Parque Estadual do Ibitipoca – Um dos parques mais amados de Minas e um dos melhores para ver estrelas. Como o acesso é controlado, o céu fica super preservado. Em noites de lua nova, o espetáculo da Via Láctea impressiona.

 

6 – Parque da Serra da Canastra – Quer um céu realmente escuro, daqueles de perder o fôlego? É na Canastra. A região é enorme, cheia de mirantes naturais, com vista 360°. Ver estrelas ali é quase uma cerimônia. (blog: Rotas da Canastra – foto @leofroesft)

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