Reportagens
Embrapa fortalece presença na África e abre caminhos para novas parcerias Imprimir
Missão da Embrapa participa do Africa Food Systems Forum, em Ruanda
Memorandos de entendimento com instituições da Etiópia e avanços na parceria com Moçambique reforçam a cooperação científica e tecnológica; experiência da AgriZone é apresentada como referência para a COP32, em 2027.
A Embrapa ampliou sua agenda de cooperação internacional na África com iniciativas em Ruanda, Moçambique e Etiópia, na última semana de agosto. Em Kigali, capital de Ruanda, a presidente Silvia Massruhá participou do Africa Food Systems Forum (AFSF), onde foram assinados Memorandos de Entendimento com o Instituto Etíope de Pesquisa Agrícola (EIAR) e o Kerchanshe Group. Em Moçambique, a diretora Ana Euler, de Inovação Social e Transferência de Tecnologia, integrou missão da ApexBrasil ao país, enquanto a Assessoria de Relações Internacionais (ARIN) realizou missão à Etiópia para prospectar projetos conjuntos e acompanhar as articulações para a COP32, prevista para 2027.
A experiência da AgriZone, coordenada pela Embrapa na COP30, em Belém, foi apresentada como referência que pode inspirar a participação brasileira na próxima conferência climática.
África Food Systems Forum
Realizado em Kigali, entre 31 de agosto e 4 de setembro, o Africa Food Systems Forum é um dos principais encontros internacionais dedicados ao futuro dos sistemas alimentares africanos e reuniu mais de 4 mil participantes, entre chefes de Estado, cientistas, investidores e lideranças do setor privado. A participação da Embrapa ampliou as possibilidades de cooperação científica, tecnológica e de inovação entre o Brasil e países africanos.
Durante o fórum, a presidente Silvia Massruhá participou da sessão de abertura e, no mesmo dia, em 2 de setembro, do painel técnico AgriLLM Showcase, que apresentou uma ferramenta de modelo de linguagem aberta e multilíngue desenvolvida especificamente para o setor agrícola. A iniciativa reúne uma rede internacional formada por organizações como CGIAR, FAO, Fundação Gates, Digital Green, Instituto de Agricultura e Inteligência Artificial (IAAI) e Embrapa.
Silvia destacou o papel da ciência, da inteligência artificial e da análise de dados para transformar a agricultura e ampliar a capacidade de antecipar desafios. Ela defendeu a transição de uma agricultura baseada na reação aos problemas para um modelo preditivo, capaz de antecipar riscos e apoiar decisões. “É a capacidade de simular a colheita antes de plantar, prever a praga antes do sintoma, antecipar o risco climático antes da perda e de recomendar a decisão certa, para cada produtor, no momento certo”, afirmou.
Segundo a presidente, o uso de dados, inteligência artificial e modelos de previsão podem contribuir para uma produção mais eficiente, sustentável e resiliente, especialmente diante das mudanças climáticas e da necessidade de ampliar a segurança alimentar.
Além da agenda técnica, a delegação da Embrapa participou de reuniões bilaterais com parceiros como CGIAR, Crop Trust, Fundação Gates, ICARDA, IOFS, Banco Mundial, AGRA e FARA. O fórum também abriu oportunidades de diálogo em temas como agronegócio, máquinas e implementos agrícolas, fertilizantes, saúde do solo, bioinsumos, gestão hídrica, tecnologia digital, inteligência artificial, energia, pecuária, agricultura familiar, pesquisa e segurança alimentar.
“A participação da Embrapa tem como objetivo a construção de agenda estratégica de diálogo sobre segurança alimentar, inovação, sustentabilidade e transformação dos sistemas agroalimentares. Além dos seminários, realizamos reuniões bilaterais com ministros da Agricultura e Meio Ambiente de Ruanda, representantes do CGIAR, além do banco de Agricultura da Nigéria e da Organização Islâmica para a Segurança Alimentar”, relatou a presidente.
Memorandos ampliam cooperação com a Etiópia
Durante o fórum, a Embrapa assinou Memorando de Entendimento com o Instituto Etíope de Pesquisa Agrícola (EIAR). O acordo prevê cooperação na bovinocultura de carne e leite e capacitação de recursos humanos.
Também foi assinado Memorando de Entendimento com o Kerchanshe Group, com foco na cooperação para a produção de carne bovina, incluindo reprodução de genética, transferência de embriões, manejo e sanidade animal, forragens e integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). O manejo das culturas de café, cacau e baunilha também está entre os temas de interesse.
Os acordos fortalecem a cooperação científica e tecnológica da Embrapa com parceiros africanos e ampliam as possibilidades de desenvolvimento de iniciativas conjuntas no continente.
Na foto (abaixo), a missão em Ruanda, integrada pela presidente, e os assessores internacionais Paulo Melo, Jane Simoni e Paulo Galerani. Também esteve presente o representante da Embrapa no escritório do Brasil na Etiópia, José Edinilson Miranda.
Moçambique: cooperação para ampliar a produção de alimentos
Entre 31 de agosto e 6 de setembro, a Embrapa participou da Feira Internacional de Maputo (FACIM), na capital de Moçambique, como parte do Pavilhão Brasil. A diretora Ana Euler, de Inovação Social e Transferência de Tecnologia, integrou a missão da ApexBrasil ao país, realizada em coordenação com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), com o objetivo de aproximar empresas brasileiras de parceiros estratégicos no continente.
A agenda incluiu reuniões bilaterais com o Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas de Moçambique, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), a FAO, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM) e o Instituto Nacional de Desenvolvimento da Pesca e Aquacultura (Idepa).
Na abertura da feira, o presidente de Moçambique, Daniel Chapo, conversou com Ana Euler e ressaltou a necessidade de ampliar a parceria com a Embrapa para aumentar a produção de alimentos no país. O ministro da Agricultura, Roberto Albino, apresentou demandas relacionadas à importação de sementes, ao codesenvolvimento de cultivares e à formação de técnicos e agricultores.
As discussões avançaram na construção de um Memorando de Entendimento com o governo de Moçambique, tendo entre os temas o fortalecimento da produção de alimentos da cesta básica, como arroz, feijão, carne, ovos, frango, peixe, leite e milho. A capacitação de técnicos e agricultores e compra de sementes também estão entre as demandas.
“O que o presidente de Moçambique nos pede é que a Embrapa atue no país com transferência de tecnologia para aumentar a produção de alimentos. Hoje, o país importa a maior parte do que consome”, explica Ana Euler.
Capacitação e adaptação de tecnologias
Para a Embrapa, a cooperação com Moçambique deve começar pelo fortalecimento do capital humano. Uma das frentes em discussão é ampliar o acesso de técnicos e agricultores às plataformas digitais da Empresa. O e-Campo, plataforma de capacitação da Embrapa, reúne, segundo Euler, mais de 200 cursos, 1,5 milhão de inscritos e usuários em 167 países. Atualmente, 1.200 extensionistas moçambicanos participam de curso oferecido pela plataforma.
A proposta é combinar ensino digital, comunidades de prática, intercâmbio e acompanhamento técnico, além de adaptar conteúdos às cadeias produtivas locais. Entre as áreas de interesse estão produção de alimentos, mudanças climáticas, pecuária, bioinsumos e genética.
Agenda de cooperação na Etiópia
Como parte da agenda internacional da Embrapa no continente africano, Jane Simoni, supervisora de Cooperação Técnica e Científica da Assessoria de Relações Internacionais (ARIN), e o pesquisador Paulo Melo participaram, nos dias 27 e 28 de agosto, de missão oficial à Etiópia. A agenda teve como objetivo identificar oportunidades de cooperação no âmbito do projeto “Ethiopia-Brazil Agricultural Innovation Partnership”, voltado ao desenvolvimento de iniciativas conjuntas entre a Embrapa e o Instituto Etíope de Pesquisa Agrícola (EIAR).
A missão incluiu visitas às unidades de pesquisa do EIAR em Holetta e Bishoftu, com foco na infraestrutura laboratorial, nas instalações de pesquisa e nas atividades científicas desenvolvidas no país. A equipe também avaliou possibilidades de intercâmbio de experiências e cooperação técnica.
Durante a missão, os representantes da Embrapa se reuniram com a equipe organizadora da COP32, que será realizada na Etiópia em 2027, para compartilhar conhecimentos e aprendizados do Brasil na organização da COP30. Na sequência, a equipe da ARIN acompanhou eventos paralelos do Africa Food Systems Forum, em Kigali.
AgriZone: experiência da COP30 pode inspirar a COP32
Nesse diálogo com os organizadores da COP32, a experiência da AgriZone, espaço coordenado pela Embrapa durante a COP30, em Belém, ganha relevância como referência para a próxima conferência climática.
A proposta é levar para a COP32 não apenas conteúdos ou tecnologias desenvolvidos no Brasil, mas a metodologia de integração entre ciência, tecnologia, inovação, diferentes atores dos sistemas agroalimentares e cooperação internacional utilizada na AgriZone.
A experiência brasileira poderá contribuir para aproximar instituições de pesquisa, governos, setor produtivo, organizações internacionais e outros atores em torno de temas como segurança alimentar, agricultura sustentável, adaptação às mudanças climáticas e resiliência.
“A aproximação com a Etiópia e os demais países africanos reforça, assim, uma agenda de cooperação que combina pesquisa, capacitação, desenvolvimento tecnológico e construção conjunta de soluções, ampliando a presença internacional da Embrapa e as possibilidades de cooperação Sul-Sul”, avalia o chefe da Assessoria de Relações Internacionais, Marcelo Morandi.