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FENO DE LUZ
LÁGRIMAS EM FLOR
Por Evaristo de Miranda
O Dia de Finados representa 3% do comércio anual de flores e plantas ornamentais no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Floricultura. É a terceira data mais importante para o setor, depois do Natal e do Dia das Mães. Finados é um dos feriados mais celebrados no mundo. É um feriado civil. A celebração religiosa de Todos os Santos ocorre na véspera. Em Finados, celebra-se a memória dos falecidos. É tempo de floricultura.
Os finados chegaram ao fim de seu tempo. É dia solene, consagrado à lembrança dos antepassados, dos ascendentes e de todos os mortos. Não se trabalha. As nações se consagram à meditação, à lembrança. No México, a festa dos mortos integra o Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. No agronegócio, é o dia das flores.
Símbolos agrícolas ilustram este feriado. Os finados foram ceifados em seu tempo. Feno é erva ceifada. Alimenta animais nos períodos difíceis de inverno e seca. Os exemplos de vida dos ascendentes, dos colhidos, também alimentam os viventes. São um feno de luz. Na Bíblia, o homem é comparado à erva do campo (Sl 103,15). Finar, fenar e brilhar são semelhantes. Feno vem do latim faenum. O grego phaíno significa brilhar, aparecer. Como em epifania.
A foice, instrumento agrícola, está associada à figura da morte. O brilho de sua lâmina não apaga os finados. Apenas os iguala diante das leis da natureza. A foice simboliza os ciclos de colheita e renovação, e os próprios camponeses. Na colheita, corta-se o caule. Como um cordão umbilical, ele liga o fruto à terra alimentadora.
Na colheita, o grão é condenado à morte para servir de alimento, sustentar a vida ou germinar como semente. Neste novembro, na agricultura brasileira, o essencial das sementes já foi plantado. Elas germinam. Anunciam a futura grande safra de verão, apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo agro.
Finados é dia de visitar cemitérios; limpar e ajeitar os túmulos; acender velas nas sepulturas, nas igrejas ou em casa; fazer orações ou guardar pelo menos um minuto de silêncio. Crianças órfãs crescem com a memória viva dos pais falecidos. Adultos, com os anos, colecionam seus mortos. Na velhice, todos se tornam órfãos. Ritualizar a lembrança dos mortos é terapêutico. Eles são a presença de uma ausência, não a ausência de uma presença.
Alguns não respeitam este feriado. A data nada lhes diz. Profanadores esquecem seus ascendentes e antepassados. Perdem a memória e, sem perceber, profanam a si mesmos. Tiveram pai, mãe, avós… Imaginam-se começando em si mesmos. Os filhos do nada são sementes do caos. Descendentes de japoneses preservam o culto aos antepassados. Sua dívida e gratidão a quem os precedeu são mantidas vivas em altares domésticos.
Floricultores recorrem à tecnologia moderna para garantir flores. Além dos crisântemos, produzem grande variedade de gladíolos, girassóis, margaridas, kalanchoes, alstroemérias, orquídeas, rosas… Aos milhões, elas são levadas aos cemitérios. Também adornam fotografias de falecidos nas casas, como altares. Na tradição cristã, os mortos são plantados como sementes de eternidade. Regados com lágrimas, florescem no jardim da Eternidade.
A flor é símbolo de ressurreição. Quem leva flores ao cemitério reafirma sua fé na vida. A luz dos falecidos ainda brilha. Cada pessoa recebe dons especiais ao nascer. Durante a vida, esses dons são cultivados. Florescem, perfumam o mundo, iluminam irmãos e irmãs.
Finados é sinal de esperança. De futuro, não de passado. Não evoca remorsos ou lamentações, queixas ou condenações. A simbologia agrícola de Finados, com seus ciclos cósmicos, vegetais e rurais, relembra sempre: a humanidade pode ser um belo jardim, diverso e fraterno, florido, perfumado e iluminado, distante das trevas e da opressão. Sempre é tempo de recomeçar.
No dia de Finados vale parar um instante para relembrar pais, avós e tantos amigos falecidos na cascata das gerações. Buscar meios de enfrentar o reino mórbido e necrófilo imposto aos brasileiros. Sempre é tempo de semear o bem e recomeçar. Mesmo sem muito otimismo face às realidades políticas e sociais do Brasil, não cabe perder a esperança!