Janela da Corte

AUGUSTO GUIMARÃES FILHO

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Augusto
Guimarães Filho, 85 anos, foi braço
direito de Lúcio Costa para todos os
trabalhos de urbanismo, desde 1940. Os pioneiros
de Brasília o conhecem e admiram. Os
técnicos do governo, engenheiros e
arquitetos também o conhecem e admiram.
Mas a nova geração, a grande
parte da população do Distrito
Federal, talvez, não tenha nem ouvido
falar em Augusto Guimarães Filho. Mas
quem, afinal, é o dr. Augusto Guimarães?
Eu o conheci pelo próprio Lúcio
Costa. Foi em 1996, quando entrevistei o nosso
urbanista maior. O único nome que o
criador de Brasília falou, espontaneamente,
e fez questão de homenagear foi o de
Augusto Guimarães Filho. Sabem por
quê? Porque o engenheiro Augusto Guimarães
foi seu fiel e verdadeiro anjo da guarda.
E muito especialmente durante a construção
de Brasília.

Augusto Guimarães Filho foi chefe da
Divisão de Urbanismo da Novacap, por
indicação de Lúcio Costa.
Foi ele quem desenvolveu o Plano Piloto, definiu
para que lado Brasília ficaria em relação
à nascente do sol e bateu o martelo
da Estaca Zero, a famosa cruz formada pelos
Eixos Monumental e Rodoviário, ponto
de partida dos trabalhos para construção
de Brasília. E nesse trabalho ele ficou
até 1968. Ele tem dois filhos: o economista
Eduardo Augusto Guimarães e o engenheiro
Luis Fernando Guimarães.

Lúcio Costa foi seu grande mestre.
Trabalhando com ele, aprendeu o ofício
de arquiteto. Participou de muitos projetos
de Lúcio Costa, inclusive o do Parque
Guinle, um conjunto de três prédios
residenciais, no Rio, tombado pelo IPHAN.
Brasília acaba de fazer 42 anos e ainda
hoje Augusto Guimarães Filho lembra
a beleza, o significado e a força do
projeto que nasceu do gesto primário
de quem assinala o lugar ou dele toma posse:
o sinal da Cruz formado pelos dois eixos.
Reclama pela não construção
de Galerias de Pedestres junto ao Metrô
e pela não conclusão da plataforma
de concreto no Setor Bancário Sul,
"uma obra que não sei até
quanto vai ficar inacabada".

"Não há como esquecer a
primeira e grande lição que
recebi de Juscelino Kubitschek" lembra
ele: "Guimarães, faça o
melhor. Faça sempre o melhor".


De vez em quando, Augusto Guimarães
Filho vem a Brasília, pois continua
ativo nos seus 85 anos. "Acompanho a
História de hoje e estou lendo a História
dos séculos passados no que diz respeito
à mudança da Capital. E estou
escrevendo alguma coisa sobre a saga da construção
de Brasília", diz. Como ele continua
atento ao recado de JK, com certeza, deve
estar escrevendo o melhor.

1 – Qual o argumento
mais burro que o senhor ouviu contra a construção
de Brasília?


Muitos afirmavam que Brasília seria
uma cidade natimorta ou, pelo menos, uma pequena
cidade habitada por desterrados. Por duas
razões: primeiro porque o Planalto
Central era inóspito, perdido no tempo
e no espaço; e, segundo, porque ninguém
queria abandonar as oportunidades oferecidas
pelas cidades existentes para lançar-se
à aventura de viver num lugar longínquo.
Eles não adivinhavam que os problemas
da nova capital estariam exatamente no oposto.
Ao invés dos 500 mil habitantes, número
já impossível para eles, hoje
a população passou dos 2 milhões,
atestando o vigor da região.

2 – Qual a grande lembrança
dos tempos da construção?


Guardo a lembrança do orgulho e da
alegria de estar participando da tarefa de
erguer uma cidade. E que cidade! Sempre tive
a clara noção do privilégio
que me foi dado por Lúcio Costa. Não
posso deixar de me referir à emoção
de ver as colunas do Palácio da Alvorada
surgindo do chão poeirento. Ver a terraplanagem
da Praça dos 3 Poderes, depois de ter
desenhado cada uma de suas curvas de nível.
Desenhado dentro das condições
que tínhamos naquela época.

3 – Brasília
é hoje Patrimônio da Humanidade.
E tudo isso se deve a uma santíssima
trindade: JK, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.
Uma frase para cada um.


Preferiria que a referência fosse aos
3 Mosqueteiros, por que todos sabem que eram
4 e, assim, poderia incluir Israel Pinheiro.
Brasília não seria o que é,
nem teria sido feita ao tempo que foi, sem
a sua corajosa e firme direção.
Um grande chefe. Sobre JK não direi
uma frase, apenas repetirei o que ouvi dele,
quando o procurei, certa vez, para lhe pedir
uma orientação: "Guimarães,
faça o melhor. Faça sempre o
melhor".

Lúcio Costa e Niemeyer. Em lugar de
duas frases, duas datas: 1936, Lúcio
Costa é convidado para fazer o projeto
do edifício sede do então Ministério
da Educação e Saúde Pública,
no Rio. Aceita o convite, estende-o a um pequeno
grupo de arquitetos, dentre os quais, Oscar
Niemeyer. Foi o marco inicial da Arquitetura
Brasileira Contemporânea. Decorridos
21 anos, 1957, Lúcio Costa e Oscar
Niemeyer, novamente juntos, fazem o projeto
não de um prédio, mas de uma
cidade inteira. Brasília, consagração
do movimento renovador da arquitetura mundial.

4 – O que Brasília
tem que nenhuma outra cidade do mundo tem?


Dentre as várias características,
destaco uma, não só pelo seu
valor próprio, como também por
sabê-la ameaçada, no momento.
Refiro-me às Superquadras e ao agenciamento
delas ao longo do Eixo Rodoviário.
Talvez seja essa a maior contribuição
de Lúcio Costa ao urbanismo contemporâneo.
Não estou fazendo comparação
com os demais elementos da cidade. Os outros
elementos são específicos de
uma capital, enquanto a Superquadra é
uma solução válida para
qualquer cidade. É uma proposta de
morar bem.

5 – Brasília
está feita. Tem quem goste, a maioria,
e tem quem não goste. 42 anos depois,há
algo a ser refeito? Tem algo a mudar?


Faria algumas correções dos
desvios de rota, acontecidos ao longo da existência
da Capital, tendo como carta de navegação
o Relatório do Plano Piloto. Durante
meu trabalho, adquiri o bom hábito
de consultá-lo sempre.

Há algum tempo tive a prova de sua
atualidade. Juntamente com Maria Elisa Costa
e Sérgio Porto, ao examinarmos o traçado
do Metrô na área residencial
de Brasília, percebemos o conflito
com a implantação urbana e propusemos
o traçado que veio a ser adotado. Nesta
compatibilização, o novo meio
de transporte foi largamente beneficiado.
Basta dizer que as duas linhas foram reduzidas
a uma única e que o difícil
acesso dos trens à estação
central passou a ser feito sem as dificuldades
técnicas que estavam enfrentando. Bastou
confirmar o Eixo Rodoviário como tronco
principal do transporte urbano.

6 – E foram feitas
novas propostas?


Olha, o Plano Piloto oferece possibilidades
que devem ser exploradas e não podem
ser negligenciadas. Com base nele, fizemos
sim algumas propostas.

Para a área central: entregamos ao
GDF um estudo abrangente a partir do estado
em que se encontra a área. Para o Eixo
Rodoviário: ao propor o novo traçado
do Metrô, propusemos passagens de pedestre,
galerias de pedestres, compatíveis
com o tombamento de Brasília, junto
às estações do Metrô,
ao longo do Eixo. Elas ligam os lados Leste
e Oeste da área residencial. São
passagens seguras, cuja necessidade antecede
à construção do Metrô,
mas que, com ele, passou a ser absolutamente
indispensáveis. Não se pode
conceber uma estação de Metrô,
com travessia em nível de uma via expressa,
de tráfego de alta velocidade, como
é o Eixão. Espero que as passagens
de pedestre, com suas lojas e comodidades
urbanas, sejam inauguradas junto com o Metrô.
Agora um dado importante: acresce, ainda,
que as passagens de pedestres viriam ao encontro
de um anseio de expansão do comércio
local, sem comprometer áreas que não
têm vocação para esta
atividade.

7 – Como o senhor vê
as invasões do Comércio nas
Entrequadras?


Numa cidade planejada, os espaços vazios,
quando não tem um fim claramente determinado,
tem a finalidade de permanecerem como estão.
E é desta maneira que se compõe
o quadro urbano. Não estão esperando
que alguém lhes confira outra finalidade.
Se aberto um precedente, será difícil
conter a invasão das áreas não
construídas. Nunca é demais
lembrar que Brasília está tombada
e o tombamento contempla a permanência
das áreas como foram planejadas.

8 – Como o senhor vê
a proibição do Senado de se
fazer festas a em frente ao Congresso?


Aplaudo a atitude do Senado. Brasília,
Capital da República e Monumento da
Humanidade, tem espaços simbólicos
que devem apresentar-se, sempre, a qualquer
momento, com dignidade, com compostura. Aliás,
a observância desta condição
deve estar convenientemente regulamentada
e sujeita à fiscalização
de um órgão público específico.
Isto porque pode ocorrer que o ocupante do
Monumento não possua a sensibilidade
ou a autoridade do Senado. Quando falo em
Monumento, incluo o seu entorno, que dele
faz parte, e merece os mesmos cuidados.

9 – Mais do que nunca
o brasiliense se divide em cabeça,
tronco e rodas. E hoje vivendo um engarrafamento
infernal. Dá para repensar o trânsito
de Brasília?


O brasiliense composto de cabeça, tronco
e roda continua sendo uma minoria. A maioria
é composta de cabeça, tronco
e pernas, visto que precisa delas em vários
momentos de sua vida. Eles são irremediavelmente
pedestres. Entendo ser necessário repensar
o trânsito, repensando o Sistema Viário,
como constituído por dois sub-sistemas
complementares, o Sistema de Tráfego
de Veículos e o Sistema Viário
de Pedestres. Talvez devesse falar em três
sub-sistemas, acrescentando o Sistema de Estacionamento.
Pensados em conjunto é possível
minimizar os conflitos.

10 – Uma curiosidade:
como se marcou o ponto inicial de construção.
A estaca zero, a cruz?


Brasília foi concebida com dois eixos:
o Rodoviário e o Monumental. Hoje,
na era do computador, seria fácil fazer
o projeto da cidade, com suas retas, curvas
e cotas altimétricas. Mas há
42 anos, foi tudo feito na ponta do lápis.
Mas garanto que o computador não daria
maior precisão aos elementos do projeto.
A Estaca Zero resultou de um exame cuidadoso
e demorado nas plantas disponíveis
de maneira a permitir o traçado com
menor impacto na topografia do Plano.

11 – Dê o nome
dos cinco brasileiros que o senhor mais admira.


Não é fácil. Mas qualquer
que seja a lista que eu fizer, começará
sempre pelo nome de Lúcio Costa.

12 – Fale um pouco
das coisas que o senhor anda pesquisando e
escrevendo?


Estou relendo a memória descritiva
que é o Relatório do Plano do
doutor Lúcio Costa. Em cada releitura
fico encantado com a descrição.
Não tem uma só palavra sobrando.
Não tem nenhuma palavra de graça.
Cada sinal, cada letra do doutor Lúcio
na memória descritiva tem seu significado,
tem o seu valor. É a sabedoria do mestre.
Gosto de lembrar que um texto ou um livro
vão bem quando começam bem.
E o Plano do doutor Lúcio começou
antológicamente bem. Veja que fantástico:
– Nasceu do gesto primário de quem
assinala o lugar ou dele toma posse: dois
eixos cruzando-se em ângulo reto, ou
seja, o próprio sinal da Cruz. Brasília
e sua descrição não podiam
começar melhor!

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