Janela da Corte
D. RAYMUNDO DAMASCENO
Silvestre Gorgulho
1 – Duas coisas que mais o incomodam em Brasília.
O contraste da riqueza com a pobreza. E que as decisões dos poderes Legislativo e Executivo nem sempre vêm ao encontro dos verdadeiros interesses do povo brasileiro.
2 – Um recado para o governador Cristovam Buarque.
Ele tem projetos interessantes, como a bolsa-escola. É importante despertar mais as pessoas para o exercício da cidadania brasiliense, que ele tem feito, por exemplo, com o orçamento participativo.
3 – Dois nomes que sabem fazer Brasília ser respeitada lá fora?
Dos vivos, citaria o primeiro Arcebispo da Nova Capital, D. José Newton, a quem a Igreja deve a implantação do Seminário. das Paróquias, da Catedral e de tantas obras pastorais e sociais. E, dentre os que partiram, o sempre saudoso fundador de Brasília, JK.
4 – A lei do divórcio está desestruturando a Família?
Não sei se podemos, ainda, medir os efeitos em números. Mas a lei, em si, abre portas para favorecer a separação que, muitas vezes, com mais tempo e amadurecimento, poderia ser evitada e a união matrimonial mantida.
5 – A Igreja, na sua intransigência, não perde muitos católicos que pelas mais diversas causas chegaram ao divórcio?
A Igreja deseja que cada casal seja feliz, crie e eduque seus filhos. Ela tem o dever de proteger e defender o matrimônio que é de instituição divina e não humana. A Igreja não abandona aqueles casais que não conseguiram viver esse ideal. Ao contrário, se interessa por eles e desenvolve uma pastoral em seu favor.
6 – E essa legião de milhares de padres casados e suas famílias não é uma força que a Igreja está perdendo de graça?
A Igreja respeita a opção, para ela dolorosa, dos padres que livremente deixaram seu ministério sacerdotal e se casaram. Em muitos casos a Igreja aproveita e valoriza o seu serviço, quando compatível com sua nova condição.
7 – Qual é o exército da Igreja Católica do Brasil?
Somos, no total, 370 bispos e 14.850 sacerdotes, com 7.620 Paróquias. A nossa média brasileira é de uma Paróquia para 20 mil habitantes, enquanto na Itália, com menos da metade da população do Brasil, a média é de uma para cada cinco mil habitantes. Faltam-nos “operários para a messe” como diz o evangelista.
8 – E as campanhas pelo aborto?
O nosso Código Penal legaliza o aborto nos casos de estupro e perigo de vida para a mãe. A Igreja é a favor da vida em todas as suas fases, desde a concepção. A vida é um dom de Deus e não pode admitir concessões quanto ao aborto.
9 – Brasília é a capital do misticismo ou da mistificação?
Não é. Brasília é atípica no urbanismo, mas habitada por pessoas que têm a mesma sede natural de Deus, do transcendente. E essa sede encontra expressão nas diferentes religiões. É uma cidade pluralista e esperemos que esta busca do Absoluta encontre sua expressão mais autêntica, como nos propõe a Revelação.
10 – O crescimento de igrejas pentecostais preocupa?
Os novos movimentos religiosos sempre representam um desafio para nós, porque esses movimentos conseguem muitos recursos financeiros e um tipo de proselitismo que influencia parte dos fiéis, que não podem ser atendidos por nós como desejados, em virtude do número ainda insuficiente de nossos evangelizadores.
11 – Como o senhor vê a questão dos padres que entram na política partidária e se candidatam a cargos eletivos?
A Igreja quer que os leigos participem da política partidária e os incentiva a isso. A política é uma forma de solidariedade. Já a vocação do padre é anunciar o Evangelho, administrar os sacramentos e estar a serviço do bem de todos, sobretudo, dos pobres.
12 – Qual o pecado capital de Brasília?
Brasília é o retrato do Brasil e o pecado capital é essa diferença social escandalosa e anti-cristã.