Janela da Corte
GABRIELA FUÃO CUNHA
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GABRIELA
FUÃO DA CUNHA conseguiu a perfeição:
trabalhar se divertindo e se divertir trabalhando.
E mais: fazendo, a cada novo minuto de trabalho,
uma coleção de novos amigos.
Brasiliense da gema, Gabriela trabalha com
turismo desde os 19 anos. É uma profissional
preocupada em fazer seu mercado e fazer cada
vez mais clientes. Mas ela tem uma virtude
muito esquecida no mundo de hoje: solidariedade.
Gabriela mergulha na natureza com os executivos
de Brasília que raramente deixam o
gabinete com ar condicionado. Ela ensina,
educa, mostra a beleza dos campos, das cachoeiras
e das cavernas, proporcionando um descanso
da mente. Mas Gabriela não esquece
de quem precisa de mais apoio da sociedade
brasileira: os meninos de rua. Vez por outra,
essa loirinha que tem dois olhos da cor da
mata, pega um grupo de meninos de rua de Brasília
sai pelo Cerrado visitando cavernas, fazendo
trilhas, tomando banho de cachoeiras, ensinando
a vida e plantando amor. Do pouco que plantou,
Gabriela não sabe onde guardar tanta
colheita. Gabriela Fuão da Cunha escala
hoje a "Janela da Corte" e conta
para quem quiser ouvir: quem vive a natureza,
vive a vida. Descansa a alma.
1 – Duas coisas que
mais a incomodam em Brasília.
Trafegar de carro em nossa capital e ver esses
menores de rua sem nenhuma perspectiva de
vida.
2 – Duas coisas que
mais lhe agradam em Brasília.
O meio ambiente ecológico de nossa
região e a forma de ver de sua população,
que são as bases para tornar Brasília
o centro de mudanças da mentalidade
de nosso país. Brasília está
se tornando o centro irradiador do Brasil
do Terceiro Milênio. Cheia de energia
e mais espiritualista.
3 – Os brasilienses
têm idéia da beleza natural existente
ao redor do DF?
Como Operadora de Ecoturismo posso dizer que
o brasiliense tem alguma idéia sobre
as nossas belezas naturais. Mas é quando
os brasilenses mergulham na aventura da beleza
do Cerrado é que vem o deslumbramento.
São as imensas quedas d’águas,
as corredeiras e a grande diversidade da vegetação.
O Cerrado é considerado pelos estrangeiros
como o melhor safári fotográfico
do país. É o ano todo florado
e rico em alimentos. Tem 25 espécies
diferentes de frutos comestíveis catalogados.
4 – Quais os 5 pontos
de maior beleza natural que você costuma
freqüentar com os grupos de ecoturistas?
A Chapada dos Veadeiros – muito rica em cachoeiras,
com águas cristalinas e sua fauna imensa
(araras, tucanos, papagaios, lontras, ariranhas,
pacas, antas e até onças). O
Parque Nacional de Terra Ronca (próximo
a S. Domingos) o maior complexo espeliológico
do mundo (cavernas). A Fazenda Indaiá
– Ribeirão Itiquira – com belíssimas
cachoeiras, inclusive com o Salto Itiquira,
com 169 metros de altura. Topázio,
uma reserva particular de águas cristalinas
situada a 100 km. de Brasília. Pirenópolis,
onde se encontra a fazenda Vagafogo, apropriada
para educação ambiental para
alunos dos 1º e 2º graus e possui
uma trilha da época dos Bandeirantes.
Existe a Serra do JK, ainda inexplorada, a
160 km. de Brasília, para a qual a
equipe da "Sociedade pé na Estrada"
fará uma expedição na
próxima semana, com acompanhamento
da Globo, com objetivo de documentar o local,
que possui inscrições rupestres
(feitas por outras civilizações)
de no mínimo 500 anos atrás,
e um muro de mais de 200 km. de comprimento
feito na época da escravidão.
5 – Vale a pena ser
uma empresária do Ecoturismo?
Sem dúvida. Mas é um investimento
grande e de longo prazo por dois motivos:
o primeiro é que temos que transmitir
aos brasilienses tudo de positivo que existe
ao entrar em contato com esta maravilhosa
natureza. O segundo motivo é que existe
a necessidade de ver o aspecto ecológico
de uma forma profissional e madura, com ferramentas,
equipamentos e veículos apropriados.
Daí o fato de termos que formar uma
equipe com muita prática, responsabilidade
e consciência, assim como bons Guias
– técnicos profissionais do ramo, o
que não é fácil de se
encontrar. A "Pé na Estrada "
possui hoje a melhor equipe de Brasília,
contando com especialistas do Cerrado e em
sobrevivência na selva.
6 – Em um ano de trabalho,
com quantos grupos você já botou
o pé na estrada?
Conseguimos, levar até agora, 27 grupos
de aproximadamente 15 pessoas. De janeiro
à abril, fazemos expedições
internacionais. A partir de maio, quando começa
a temporada no Cerrado, damos início
aos passeios ecológicos no Cerrado.
7 – Tem ecoturista
que sai entusiasmado para o passeio e depois
volta reclamando que você o levou para
um mau caminho?
Não. De forma alguma. Porque sempre
informamos antecipadamente a respeito do caráter
rústico e primitivo (hotéis
simples ou barracas) de nossas excursões.
8 – As pessoas costumam
repetir o "trekking" (caminhada
em trilhas) com que freqüência?
Quase cem por cento de nossos clientes
retornam com mais um participante. Daí
ter surgido a necessidade de se criar a "Sociedade
Pé na Estrada".
9 – E a segurança
de entrar pelas matas, grutas e descer corredeiras?
A segurança é o fator de maior
importância para a realização
de nossas expedições. Até
hoje nunca aconteceu nenhum acidente. Temos
uma equipe de especialistas e nosso grupo
já realizou vários resgates
de outros grupos de ecoturismo. Como foi o
caso de Araras, onde algumas pessoas faziam
"Rappel" noturno e ficaram ilhados
até às 3 horas da manhã,
devido a uma enxurrada e por falta de pessoas
e equipamentos especializados.
10 – Nos seus grupos
só vão fanáticos por
natureza ou já tem executivos que deixam
seus escritórios para curtir uma aventura?
Os executivos estão começando
a descobrir que a saída dos escritórios
fechados para um contato com a natureza os
torna mais criativos e compreensivos. Já
foram em nossas expedições executivos
do Banco Central e do Senado. Agora vamos
levar técnicos do Serpro para a fazenda
Indaiá.
11 – O pessoal tem
mais medo de cobra ou da noite na floresta?
As pessoas são tão bem informadas
antes da partida. Ao se deparar com qualquer
situação já estão
preparadas e tem sempre um especialista de
apoio.
12 – Uma aventura destas
mexe com a cabeça das pessoas?
Sim, pois o objetivo ao colocar as pessoas
em contato com a natureza é modificar
a sua forma de ver o seu dia-a-dia, no trabalho
ou no âmbito de sua família.
A pessoa se torna mais compreensiva, mais
criativa e mais espiritualista. Os passeios
são anti-depressivos e anti-estressantes.
13 – O que você
falaria para alguém que acha que descanso
é enfrentar um aeroporto, ir para Miami,
visitar a Disney e fazer compras?
As excursões são ótimas
para as nossas mentes. É um descanso
da alma. Uma pausa para essa nossa vida consumista
e burocrática. A natureza proporciona
um descanso barato, duradoura e de fácil
acesso. Qualquer um pode ir. A ida à
Disney é muito positiva, porém
cara e cansativa.
14 – Como brasiliense
da gema: quatro nomes que sabem honrar Brasília.
Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Jorge Pereira,
José Antônio Arocha e Cícero
Ernani Piau (nosso chefe da Equipe).
15 – Qual o pecado
capital de Brasília?
Estar predestinada a ser a capital da civilização
do Terceiro Milênio. Isto dá
inveja a muita gente que não tem a
felicidade de morar aqui.