Artigos

Decálogo de uma campanha política

(Os milagres de uma urna de promessas)

Published

on


Silvestre Gorgulho


A cada eleição, uma nova lição. O voto eletrônico foi um salto. Um salto em mega-bites. Candidatos e eleitores agora ficam menos tensos com a possibilidade das fraudes eleitorais na apuração. Era terrível aquela contagem de votos jurássica. Um a um. Cadê a u-r-n-a? Que número é esse? Que letra é essa? Vale ou anula? Informatizar também significa racionalizar, organizar, democratizar.


A verdade é que a televisão, a informática e as pesquisas vêm mudando os rumos das campanhas políticas. E mudando para o bem e para o mal. Hoje, uma campanha política se divide em quatro categorias: primeiro, aquelas campanhas que usam e abusam do dinheiro para fazer marketing, vender idéias, barganhar interesses, comprar prestígios e, assim, angariar votos; segundo, aquelas que usam e abusam do corporativismo para representar os interesses de uma determinada classe social ou de um segmento econômico; terceiro, aquelas campanhas que nascem no serviço público: usa-se um cargo de influência para favorecer regiões ou grupos de interesse, a fim de se conseguir um mandato parlamentar; e, a quarta categoria, que é movida pelo único interesse em servir, ou seja, daqueles que buscam um mandato eletivo com o objetivo primordial de representar uma comunidade no Legislativo (Senado, Câmaras Federal, Estadual e Municipal) ou no Executivo (Presidente, Governadores e Prefeitos). A cada eleição, uma nova safra de políticos. E a cada nova safra, uma realidade: a demagogia e o populismo podem ser sinônimos de uma classe política em extinção.


Queiramos ou não, são estes quatro tipos de campanha que vão eleger os cinco tipos de político que existem por aí: a turma da imunidade parlamentar; o grupo do negócio; os companheiros da representação corporativa; os políticos que mesclam um pouco de interesse público com o muito de interesse pessoal; e os abnegados que querem apenas servir à Pátria. Mas para cada tipo de político, existe também o eleitor correspondente. Afinal de contas, uns e outros são movidos por interesses específicos, que podem ser nobres ou, simplesmente, o do toma-lá-dá-cá.
E, assim, o mundo político vai girando na base dos interesses. Dos interesses legítimos e ilegítimos. De candidatos e de eleitores.


Por sua vez, existem também quatro tipos de eleitores: os que fazem do título de eleitor um cartão de crédito e são ávidos em pedir, pois sabem que só podem usar seu “cartão de crédito” de dois em dois anos. Existem os que votam pela sobrevivência, e neste caso é importante a eleição do líder corporativo. Esse líder pode ser porta-voz de um grupo de funcionários públicos ou pode defender um nicho da economia (donos de hospitais, o sistema financeiro, Planos de Saúde, as escolas particulares, o esporte). Existem os eleitores que votam pela amizade, pela vizinhança e pelo parentesco. E, finalmente, existem aqueles que enxergam os interesses da comunidade: votam nas idéias e nas propostas que beneficiarão a Pátria. Estes também são eleitores em extinção.


E quais os aparatos que usam os políticos para sensibilizar os eleitores? São vários. Quanto mais rico o candidato, mais profissional. E quanto mais profissional, melhor tem que ser o marketeiro. E o marketeiro é o grande responsável pela imagem do candidato. Qualquer homem de marketing sabe: candidato a um mandato é igual candidato a um emprego: tem que ser santo, trabalhador e honesto. A perfeição chega na hora de preencher o currículo ou de se apresentar ao eleitor. E quais as ferramentas para conquistar o eleitor? São muitas: o rádio e a televisão jogam a campanha na rua; as pesquisas influenciam; as assessorias de imprensa e de relações públicas mobilizam; um bom sistema de informática garante a organização; a publicidade e os eventos (carreata, showmícios, inaugurações, lançamentos) arregimentam as pessoas; a confecção de brindes agrada; e as faixas, as pichações de muros, os out-doors e cartazes fixam a imagem. Mas há uma peça fundamental para quem quer se eleger: arrebanhar o maior número possível de cabos eleitorais. Por mais moderna, mais eletrônica que seja uma eleição, a figura do cabo eleitoral continua sendo essencial. Ele é o grande intermediário. Sua missão é ampla, geral e irrestrita. Ele representa o candidato, denuncia os candidatos invasores e se coloca como um elo entre a coordenação da campanha e a comunidade.


Tudo isto pode ser muita teoria. Na prática, na hora do vamos ver, na abertura da urna sempre haverá surpresas. De verdade mesmo, o velho ensinamento lá das Minas Gerais: – Não adianta dar conselhos racionais a um homem em três situações: quando está apaixonado, quando está bêbado ou quando é candidato. Com ou sem conselhos, valendo ou não a teoria, vai aqui um decálogo fruto de um estudo que fiz sobre as quatro últimas campanhas políticas em Brasília.


Decálogo de Campanha


1. Pesquisa política virou arma de campanha. Das maiores. Parece até horóscopo: a gente lê, se impressiona, mas não acredita. Os candidatos aprenderam a usá-las: se os fatos são melhores que as pesquisas, acredita-se nos fatos. Do contrário, usa-se e abusa-se das pesquisas. Um verdadeiro crime eleitoral.


2. Campanhas políticas são como salsichas: é melhor não ver como elas são feitas.


3. Jamais vá para o debate com um idiota. Os eleitores podem não perceber quem é quem.


4. Candidato e eleitor devem confiar no jogo político. Mas nunca podem deixar de marcar a carta do baralho.


5. Candidato sempre aumenta as contas para arrecadar mais dinheiro dos financiadores. E os empresários sempre supervalorizam as doações para aumentar o cacife político.


6. Todo mundo fantasia os custos de campanha de todo mundo. E candidato sempre gasta muito mais do que declara no Tribunal.


7. Político esperto tem duas características: primeiro, é igualzinho espiga de milho, não tem lado, de qualquer jeito está de frente; e, segundo, sabe que se o importante for competir, é bom mesmo ir praticar esporte.


8. Eleição é investimento: candidato vencedor fica com as sobras de campanha, paga as contas e começa a preparar a caixinha para a próxima. Candidato perdedor, nem as contas paga.


9. Cada campanha fortalece ainda mais o velho ditado do Barão de Itararé: os vivos serão sempre governados pelos mais vivos. Bom de voto é o candidato que tem apoio de quem é bom de voto.


10. Consolo de eleitor, depois de morto, é um só: ser eternamente lembrado pelas malas diretas.

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos

QUANDO RENÉ BURRI CHOROU POR UMA FOTO

A HISTÓRIA DE UMA FOTO EMOCIONANTE

Published

on

 

Antes da inauguração de Brasília, com o Palácio do Planalto prontinho, lindo de morrer, um pedreiro que trabalhou no Palácio, aproveitou para levar sua família para ver sua obra prima. Ele sabia que não poderia estar com sua família (e nem ele próprio) na inauguração.
Era um domingo. René Burri passando ali na Praça dos 3 Poderes, viu aquela família simples (com roupa de ir à Missa) apreciando demoradamente o Palácio do Planalto. Não teve dúvidas. Burri desceu do Jeep e fez essas duas fotos abaixo.
Gostaria que os 22,1 membros deste MEMÓRIA lessem o que René Burri deixou registrado em seu livro BRASÍLIA (Editora Scheidegger & Spiess):
“Para mim Brasília era uma utopia que se transformou em realidade. Era uma cidade que saiu do nada em poucos anos. Existe uma foto no meu livro…ela mostra uma família que chega ao final. Eu tive de chorar quando vi essa imagem. Eram os chamados “candangos”, não? Ele chegou com um machado e chapéu de palha e, no final, quando o trabalho estava pronto, levou a mulher e os filhos com suas melhores roupas para ver o seu trabalho. E depois era a inauguração e esse pessoal teve de partir.”
O grande fotógrafo René Burri pertenceu à geração de fotógrafos que deu sua contribuição para a afirmação da fotografia jornalística e documental como meio de expressão independente e de caráter autoral.
Viajou o mundo. Retratou inúmeras personalidades importantes da História do século 20. Mas não se esqueceu de caminhar pelas ruas, essa fonte inesgotável de surpresas da vida cotidiana.
Ele começou a fotografar aos 13 anos, quando o primeiro ministro do Reino Unido Winston Churchill desfilava pela cidade. Formou-se em fotografia na faculdade de arte de Zurique.
FOTOS:
1 e 2) As duas FOTOS que René Burri tirou da família.
2) Foto do interior do Palácio do Planalto em construção.
3) A inauguração de Brasília, JK acena para o povo na Praça dos 3 Poderes.

Continue Reading

Artigos

300 quilos de lixo são retirados de rio da Amazônia em mutirão

Lançado em setembro de 2021, o programa já mobilizou mais de 600 voluntários e retirou 15,5 toneladas de resíduos dos rios brasileiros

Published

on

 

QUALIDADE AMBIENTAL URBANA

 

Foto: Zack/MMA

 

O dia chuvoso não desanimou os mais de 80 voluntários que participaram do mutirão para recolher resíduos do rio Tapajós, em Santarém (PA). Na sexta ação do programa Rios+ Limpos, do Ministério do Meio Ambiente, foram recolhidos quase 300 quilos de lixo na região de Alter do Chão. O local é famoso pelas praias paradisíacas formadas ao redor do rio e recebe grande quantidade de turistas.

Grupos de voluntários se dividiram a pé e de barco, percorrendo 5 quilômetros de área, e encontraram muito material deixado por quem visita o local. “Garrafas, plásticos, papel, tampas de metal, enfim, uma série de produtos, que não tinham que estar na praia do rio. Então, a mensagem que a gente deixa para todos os turistas e banhistas é: quando vier ao rio, leve seu lixo com você e descarte de forma adequada, contribuindo assim para que a gente tenha rios mais limpos”, destacou o secretário de Qualidade Ambiental do MMA, André França, que também participou do mutirão.

Todo o material recolhido passou por uma triagem e os recicláveis foram destinados às cooperativas de catadores da região. A ação, realizada no mês de dezembro, contou com a parceria da prefeitura de Santarém, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, além de Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Cooperativa de Reciclagem de Santarém (Coopresan), Grupo de Defesa da Amazônia (GDA) e a Universidade da Amazônia (Unama).

O programa “Rios +Limpos” foi lançado pelo Ministério do Meio Ambiente em setembro de 2021. Em apenas quatro meses, seis mutirões foram realizados com a mobilização de mais de 650 voluntários. Foram retiradas 15,5 toneladas de lixo de importantes rios brasileiros, com destaque para ação no Pantanal, que retirou de uma só vez 10 toneladas de resíduos de rios da região. O programa faz parte da Agenda Ambiental Urbana e tem o objetivo de incentivar ações de despoluição dos rios, limpeza e coleta de lixo, além da implementação de sistemas de tratamento adequado.

 

 

 

Continue Reading

Artigos

Calor acumulado em oceanos bate novos recordes em 2021, alerta estudo

Foi o sexto ano consecutivo de recordes

Published

on

 

O calor acumulado nos oceanos bateu novos recordes pelo sexto ano consecutivo, mostra pesquisa com dados até 2021, publicada hoje (11) na revista científica Advances in Atmospheric Sciences.

Os 23 autores do trabalho, de 14 institutos de vários países, alertam que as temperaturas no mar bateram recordes pelo sexto ano consecutivo. Lembram que são resultados do fim do primeiro ano da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030).

O relatório resume dois conjuntos de dados internacionais, do Instituto de Física Atmosférica (IAP, na sigla original), da Academia Chinesa de Ciências, e dos centros nacionais de Informação Ambiental, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla original), dos Estados Unidos (EUA), que analisam observações sobre o calor nos oceanos e seu impacto desde a década de 50.

O aquecimento dos oceanos “está aumentando incessantemente, em nível global, e este é um indicador primário da mudança climática induzida pela humanidade”, disse um dos autores do documento, Kevin Trenberth, do Centro Nacional de Investigação Atmosférica do Colorado.

No último ano, os estimaram que os primeiros 2 mil metros de profundidade em todos os oceanos absorveram mais 14 zettajoules de energia sob a forma de calor do que em 2020, o equivalente a 145 vezes a produção mundial de eletricidade em 2020.

Toda a energia que os seres humanos utilizam no mundo em um ano é cerca de metade de um zettajoule (um zettajoule é um joule, unidade para medir energia, seguido de 21 zeros).

Além de calor, os oceanos absorvem atualmente entre 20% e 30% das emissões de dióxido de carbono produzidas pela humanidade, levando à acidificação das águas, disse Lijing Cheng (IAP), acrescentando que “o aquecimento dos reduz a eficiência da absorção de carbono e deixa mais dióxido de carbono no ar”.

Os cientistas também avaliaram o papel de diferentes variações naturais, como as fases de aquecimento e arrefecimento conhecidas como El Niño e La Niña, que afetam grandemente as mudanças de temperatura regionais.

Segundo Lijing Cheng, as análises regionais mostram que o forte e significativo aquecimento dos oceanos, desde o fim dos anos 50, ocorre em todos os lugares e que as ondas de calor marinhas regionais têm enormes impactos na vida marinha.

De acordo com Lijing Cheng, o estudo mostra também que o padrão de aquecimento dos oceanos é resultado de mudanças na composição atmosférica relacionadas com a atividade humana.

“À medida que os oceanos aquecem, a água expande-se e o nível do mar sobe. Os oceanos mais quentes também sobrecarregam os sistemas climáticos, criando tempestades e furacões mais poderosos, bem como aumentando a precipitação e o risco de inundações”, alertou.

 

 

 

 

Continue Reading

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010