Gente do Meio

Cristina Portella e os olhos da alma

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A artista Cristina Portella, o senador Paulo Paim, a ministra Fátima Nancy Andrighi, do STJ, e o senador Romeu Tuma na abertura da exposição Os Olhos da Alma, no Senado Federal

Silvestre Gorgulho


Cristina Portella é mais do que uma artista plástica: ela sabe aprofundar o mistério da arte e consegue dar asas à imaginação. Sua arte toca o coração de quem tem a graça de ver com os olhos e de quem só consegue ver com a alma. Pois não é que Cristina Portella acaba de expor, no Senado Federal, sua arte visual para cegos? Ela imaginou e fez de “Olhos da Alma” – Artes visuais para deficientes visuais” uma exposição onde o tradicional aviso “Proibido tocar” foi substituído por um convite irrecusável: “Por favor, toque”.


Composta por 14 telas, que já foram vistas – e tocadas – em Paris e Tóquio e viajaram por 14 estados brasileiros sob o patrocínio da IBM, “Olhos da Alma” tem como tema “Peixes da Amazônia”. Usando técnica que mistura tinta acrílica a materiais orgânicos como esqueleto de tucunaré e escamas de pirarucu, a artista cria os peixes brancos que nadam nas águas brancas. Branco sobre branco?! Sim, mas só à primeira vista.


Por exemplo: o peixe branco que aparece nadando, em relevo, na tela branca “Visão dorsal de um peixe-serra” não é branco, mas cinza arroxeado, como qualquer cego pode ver. Basta percorrer, com a ponta dos dedos, os contornos do peixe e depois ler, dentro dele, a legenda escrita em braille: peixe cinza arroxeado. Em seguida, tateando as formas revoltas do fundo, também em relevo e aparentemente todo branco, é possível “ver” que ele é feito, na verdade, de águas barrentas profundas, como informa o texto em braille.
Quem tem a glória de enxergar com os olhos, sentiu na pele o valor da exposição de Cristina justamente pelas reações do público que só pode enxergar com os dedos: “Oh, um peixe amarelo!”, surpreendeu-se um cego, ao ver o aruanã amarelo nadando nas águas doces com grande correnteza. “Vejo a sombra de uma árvore refletida na água”, descreveu outro cego, ao deslizar os dedos e o coração sobre o lago de águas calmas onde nada o peixe róseo.


Além das telas, “Olhos da Alma” conta também com instalações sensoriais, feitas a partir de materiais coletados na Amazônia pela própria artista. Da floresta, Cristina Portella trouxe folhas, terra, pedras, madeiras aromáticas. Enquanto toca com as mãos o tambaqui verde-escuro que nada na floresta tropical alagada, o deficiente visual fareja o cheiro da mata e tem, sob os pés, folhas trazidas diretamente da floresta tropical alagada onde vive o tambaqui.


“Olhos da Alma” nasceu de um sonho. E o sonho, por sua vez, nasceu de uma experiência de vida, das muitas vividas intensamente pela artista. Entre 1995 e 2000, Cristina Portella, que é formada em psicanálise clínica e faz pós-graduação em Arteterapia, foi professora de artes de crianças internadas no Hospital de Base de Brasília. O trabalho, que era voluntário, revelou-se lucrativo: a partir dele, Cristina Portella passou a exercitar aquela que, para ela, é a grande função da arte. “Creio no papel social da arte, creio na arte solidária, humanitária”, afirma.


Último recado de Cristina: a exposição “Olhos da Alma” não foi feita apenas para deficientes visuais. “Quero que meu trabalho ajude as pessoas que vêem a entrar no mundo dos cegos, e que essas pessoas percam o preconceito contra os cegos, porque o preconceito, na verdade, é um só: contra os cegos, contra os negros, contra as mulheres, contra os muçulmanos…”, desabafa a artista.


Outros trabalhos, em Braille, de Cristina Portella: capa da Constituição do Brasil e capas do Estatuto da Pessoa Portadora de Deficiência, da Constituição Federal, do Código Civil, dentro das comemorações dos 180 anos do Senado Federal.
Pior cego é o que não consegue ver que os trabalhos de Cristina Portella vence a monotonia da arte e sua arte dá esperanças à vida.

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ADEUS, ORLANDO BRITO

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O céu de Brasília amanheceu lindo, azul e com muita luz.
Mas nossos corações acordaram tristes, meio sem rumo e repassando um filme de saudades ao relembrar a figura serena, solidária, tranquila, genial e amiga de Orlando Brito.
Que você vá em paz, amigo Britinho.
Seu legado, sua história e seu rico acervo fotográfico e editorial sobre a História recente do Brasil e de Brasília está eternizado.
Nossa mesa dos almoços das sextas-feiras, que já teve um vazio imenso com a despedida do arquiteto Carlos Magalhães da Silveira, em junho do ano passado, agora sofre um outro esvaziamento pela passagem de Orlando Brito.
Num espaço de semana, o fotojornalismo brasileiro fica mais pobre, meio sem graça e nossos olhares reclamam as imagens fantásticas que brotavam das lentes Orlando Brito e Dida Sampaio.
Muito triste!
Orlando deixou livros, causos e histórias. Seu mais recente livro é CORPO E ALMA. Deixou ainda: PERFIL DO PODER (1982), SENHORAS E SENHORES (1992), PODER, GLÓRIA E SOLIDÃO (2002) e ILUMINADA CAPITAL (2003).
Adeus, Orlando Brito. Siga em paz!
FOTO:
Da direita para a esquerda:
Orlando Brito, Paulo Castelo Branco, Silvestre Gorgulho, Lucas Antunes, Cláudio Gontijo, Carlos Magalhães da Silveira, Denise Rothemburg, Reginaldo Oscar de Castro e Austen Branco. Fora da foto, porque chegou mais tarde, a secretária Helvia Paranaguá.
Pode ser uma imagem de 6 pessoas, pessoas sentadas e ao ar livre
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O LEGADO DE ELISEU ALVES

COMPLETA 91 ANOS EM 2022

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Eliseu Roberto de Andrade Alves, que nesta segunda-feira, 27 de dezembro, completa 91 anos, é daqueles brasileiros que tem uma obra muito mais conhecida do que a si próprio.
Sua obra mais conhecida é ter participado da criação da EMBRAPA, onde realizou o sonho de qualquer instituição de pesquisa: mandar para as melhores universidades do mundo 2.500 jovens agrônomos, economistas rurais e veterinários recém formados aqui no Brasil e trazê-los de volta com títulos de Mestrado e P.h.D.
Mas Eliseu Alves deixa outros legados: ele criou o conceito do distrito de irrigação, pelo qual os projetos públicos passaram a ser administrados pelos irrigantes. Como presidente da Codevasf (Governo José Sarney) concebeu e implantou o programa de produção e exportação de frutas em Petrolina/Juazeiro e negociou empréstimos no exterior que permitiram uma expansão de mais de um milhão de hectares de área irrigada.
FRASES DO ELISEU ALVES
– “A Ciência liberta o homem da ignorância, da pobreza, da doença e da dor”.
– “Cercear o progresso do conhecimento é um erro lamentável, além de pouco prático: sempre haverá algum país onde a liberdade do cientista é respeitada, e esse país vai pular à frente dos demais na produção de riqueza e do bem estar de seu povo”.
– “O país que não investe em Ciência, condena seu povo a sobreviver com o suor de seu rosto. A Ciência democratiza e a tecnologia liberta”.
– “A Revolução Verde brasileira na década de setenta sustenta hoje o crescimento econômico do Brasil e coloca o País na rota dos grandes exportadores mundiais de grãos”.
– “Fazer ciência é apenas mais uma maneira de exercitar a fé. Nunca vi na ciência qualquer possibilidade de negação da fé. Entendo que investigar os fenômenos físicos e sociais nada mais é que conhecer e revelar os mistérios do fazer de Deus”.
Dr ELISEU ALVES, seus 91 anos devem ser celebrados com alegria, orgulho e como uma benção para o Brasil.
Abraço,
Silvestre Gorgulho
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CONCERTO DE DESPEDIDA: O ADEUS A THIAGO DE MELLO

O Brasil perdeu uma lenda: THIAGO DE MELLO.

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Eu perdi um amigo e a Cultura brasileira perdeu uma referência.
Hoje me emocionei com a carta do filho do Thiago de Mello que faz uma despedida tão linda, tão emocionante que vale a pena a leitura de netos, filhos, pais e avós.
Mensagem do filho do poeta Thiago Thiago de Mello:
Passei três semanas no Amazonas, viajando sozinho. Se é que é possível dizer que viajei sozinho, pois sempre estive acompanhado de gente que me quer bem, amigos e familiares que encontrei pelo caminho. Gente que amo e que me constitui. Fui com dois propósitos nessa imersão solitária. O primeiro, visitar meu pai. Estar com ele por alguns momentos, já ciente da situação de saúde e cuidados na qual ele se encontrava. Depois, fui com o objetivo de iniciar uma reforma inadiável em nossa casa à beira do rio, em Freguesia do Andirá, no interior do município de Barreirinha, a quase 350 km de Manaus. Um dia de barco pra chegar até lá. A casa me pede zelo já há um tempo e estou há uns meses organizando uma campanha para arrecadar recursos para as obras. Consegui uma parte do dinheiro através da generosidade e da compreensão de muitos amigos e conhecidos, todos amantes da amizade, da poesia, da Amazônia e da obra literária de meu pai. Todos sonhadores como eu, que sabem, como meu pai, que arte e cultura geram evolução individual e progresso social. Embarquei no final de Dezembro para Manaus, sendo acolhido pela minha família amazonense que tanto quero bem. Fui ao apartamento de meu pai e Pollyanna. Ele já estava praticamente sem se levantar. Fui até o quarto. Quando ouviu minha voz, comentou: “voz bonita a do meu filho”. Com a memória dissolvida pelo tempo (do qual não se corre) e pelas neuropatias, perguntou meu nome e se eu tinha filhos. Disse que me chamava Thiago e que tinha duas filhas. Nossas mãos entrelaçadas num carinho suave e ancestral. “Mas então nós temos o mesmo nome”, ele notou. Falei que isso tinha sido invenção dele, pôr meu nome Thiago Thiago de Mello. No que ele, após um certo silêncio, falou baixinho: foi pra ficarmos juntos até mesmo no nome. “Cuida bem das suas filhas”. (Eu me emocionei muito nessa hora porque queria dizer a ele que se sou um bom pai é porque ele foi o melhor formador e educador que eu pude ter). Seguimos nossa conversa cheia de silêncios e respirações. Quis saber o que eu fazia da vida. “Canções e poemas”, não titubeei. Ele fez que sim com a cabeça e repetiu “canções e poemas, isso”. Perguntei se eu estava indo no caminho certo. “Certíssimo”, ele me disse com a voz grave de trovão adormecido. Comentei que estava indo para Barreirinha cuidar da nossa casa, pedi a sua benção (“Deus lhe abençoe”, me beijando a mão) e segui o meu caminho rumo ao rio Andirá, dos Saterês-maués. Fiquei semanas num país submerso, me nutrindo do passado, de banho de cheiro, tucumãs, ovas de curimatã, sombra de castanheira, amizades verdadeiras e caldeiradas de tucunaré e tambaqui. As obras começaram. Retiramos as vigas podres. Os esteios corroídos substituímos por madeira nova. Passamos óleo queimado para afugentar o cupim de terra traiçoeiro. Compramos tinta, cimento, ferro. Vieram os trabalhadores. As telhas chegaram de Parintins, presente de Antonio Beti, cuja doação jamais esquecerei. Recebi tanto em minha jornada pelas águas. Fiz um trabalho firme, aguentando o rojão sob chuva e sol quente. Barreirinha, onde meu umbigo está enterrado, me acolheu como sempre. Vi a felicidade nos olhos de gente simples, hospitaleira, contadora de histórias. É com meus irmãos e irmãs ribeirinhos que meu espírito se molda e evolui. Na verdade estava, sem saber, me preparando para um adeus após uma longa despedida. Fortaleci minha alma estando naquele lugar, berço meu, que aprendi a amar com meu pai e minha mãe desde que pra lá fui levado aos 6 meses de idade. Voltei pra Manaus e fui ao apartamento ver meu pai. Ele não me respondeu, já completamente dentro do seu próprio mundo, distante daqui. Pedi um violão e, então, comecei a tocar. As lágrimas caíram, eu sentado e ele deitado na cama. Tirei do baú as canções que sempre cantávamos juntos: “Azulão”, “Por que tu te escondes”, “Linda vida”, “Pai velho”, “Quem me levará sou eu”, “Faz escuro, mas eu canto”. Fiquei ali cantando por mais de trinta minutos, a primeira vez em nossas vidas que ele não cantou junto comigo. Foi um concerto de despedida. A nossa despedida tinha que ser com música e poesia, universo no qual sempre nos encontrávamos. Saí dali e fui comer um pacu assado de brasa em sua homenagem. Botei bastante pimenta murupi e tomei um suco de taperebá pra aliviar o peito. No dia seguinte, logo cedo pela manhã, papai atravessou o rio da vida. Morreu dormindo, bravo merecedor. Parece que estava só me esperando para seguir à Casa do Infinito. Sincronicidade astral, projeto dos deuses, dádiva da natureza. Ele foi em paz. Estamos de luto, mas em breve cantaremos com alegria, como ele sempre nos ensinou.”
THIAGO THIAGO.
PS: A casa que o filho esta reformando é um projeto de grande amigo do poeta, o urbanista Lucio Costa.
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