Janela da Corte

Lúcio Costa

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Quem
inventou Brasília? Foi o arquiteto
Lúcio Costa que, por influência
de Le Corbusier, virou um dos mais importantes
urbanistas brasileiros. Nascida de dois riscos
cortando o cerrado do Planalto Central, formando
o sinal da cruz, Brasília só
foi possível graças ao empenho
de uma santíssima trindade: o presidente
Juscelino Kubitschek com sua vontade política;
Lúcio Costa com seu planejamento urbano
livre e disciplinado; e Oscar Niemeyer com
seu traço mágico. Precisamente
no dia 15 de março de 1957, a Comissão
Julgadora formada pelo inglês William
Holford, Stamo Papadaki, André Sive
e Oscar Niemeyer anunciou o projeto de Lúcio
Costa como o vencedor do Concurso para escolha
do Plano Piloto de Brasília. Três
anos depois a cidade era inaugurada. E funcionando.
Lúcio Costa, filho do engenheiro naval
baiano, Almirante Joaquim Ribeiro da Costa,
e da amazonense Alina Gonçalves Ferreira,
pai de duas filhas, Maria Elisa e Helena Costa,
nasceu em Toulon (França) em 27 de
fevereiro de 1902. Com um ano já estava
morando no Leme, no Rio de Janeiro, mas voltou
aos 8 para a Europa, só retornando
ao Brasil em 1917, aos 15 anos, quando entrou
na Escola de Belas-Artes do Rio. Formou-se
em 1922. Seu caminho, seus projetos, suas
obras, sua contribuição ao patrimônio
cultural brasileiro, sua vida profissional
e pessoal são exemplos para o brasileiro
admirar, se orgulhar e seguir. Imagina só,
caro leitor, que Lúcio é co-autor
da única obra contemporânea que
é Patrimônio Cultural da Humanidade!
Um homem destes tem, também que ser,
ele próprio, um Patrimônio da
Humanidade. Lúcio Costa disse que o
“mar de Brasília é o céu”
sempre amplo e cintilante. E é sob
este céu, ou mar, que todo candango
gosta de lembrar que o dr. Lúcio é
o único brasileiro vivo que pode abrir
esta Janela da Corte e dizer: – Inventei uma
capital. Inventei uma cidade, cuja realidade
superou a utopia! Nas suas respostas rápidas,
mas profundas, o leitor verá que Lúcio
Costa considera sua grande obra encerrada.
Ai a gente fica pensando: será que
felizmente ou infelizmente?

1 – Com quais críticas
a Brasília o senhor concorda?


As críticas simpáticas eu as
recebo de bom grado. As antipáticas
são de pessoas que já vêm
prevenidas contra a cidade.

2 – O que mais lhe agrada
em Brasília?


O simples fato dela existir.

3 – Sua obra maior,
Brasília, está feita. Tem quem
goste, a grande maioria, e tem aqueles que
gostam de criticar. Se o senhor pudesse refazer
o projeto, o que gostaria de mudar?


Nada, eu sou uma pessoa só.

4 – Brasília
é Patrimônio da Humanidade. O
senhor é autor do projeto urbanístico
da única obra da contemporaneidade
incluída no que a Unesco define como
herança do Planeta. Como o senhor se
sente com esta valiosa contribuição
à cultura brasileira e mundial?


Me sinto muito honrado.

5 – Doutor Lúcio:
qual o futuro da W-2 e da W-3 Sul com aquele
tipo de comércio e de residências?


Não conheço o problema o bastante
para opinar.

6 – O senhor admitiria
alguma mudança no uso nas construções
do lado oeste da W-3 Sul, uma vez que o tempo
já introduziu muitas modificações?


Lamento essa mania de querer desfazer as coisas
que foram feitas.

7 – E esta história
de fechar as Superquadras em Condomínios?


Inconcebível!

8 – Há cinco
anos que o senhor não vem a Brasília.
Mesmo aos 95 anos, o senhor não está
deixando sua “filha” um pouco
órfã?


Brasília já é adulta.
Fiz minha parte e não me cabe, agora,
estar paparicando.

9 – O que Brasília
tem que nenhuma outra cidade do mundo tem?


Ela é única!

10 – Doutor Lúcio,
como o senhor vê as invasões
do Comércio nas Entrequadras de Brasília?


É o resultado do crescimento da cidade.

11 – Sempre tem gente
propondo modificações e acertos
no projeto do Plano Piloto de Brasília.
O que o senhor acha destes colaboradores?


Já disse que há muitas oportunidades
de fazerem outras coisas. Que façam!

12 – Como o senhor vê
a atitude do senador Antônio Carlos
Magalhães proibindo a “Micarecandanga”
em frente ao Congresso Nacional?


Acho que se as pessoas gostaram, não
cabia proibir.

13 – Qual a grande lição
que o senhor deixa para a geração
dos anos noventa?


Apenas a minha experiência pessoal.

14 – Qual a grande lembrança
que o senhor tem de JK?


Lembrança de admiração
e agradecimento pelo que ele permitiu ser
feito.

15 – Dê o nome
de cinco brasileiros que o senhor mais admira.


Cinco? São 150 milhões de brasileiros
que admiro!

16 – As divergências
que dizem que o senhor tem com o arquiteto
Oscar Niemeyer são verdadeiras?


São intrigas da oposição.

17 – Está correto
dizer que Brasília não tem esquina?


Totalmente incorreto. Toda entrada de Unidade
de Vizinhança (conjunto de quatro Superquadras)
é uma esquina.

18 – Quem lhe ajudou
mais no desenvolvimento do Projeto de Brasília?


Foi o Augusto Guimarães Filho. (Augusto
Guimarães Filho é engenheiro
e foi responsável pela chefia do escritório
que desenvolveu o Plano Piloto, desde 1957,
no Rio, sob a supervisão do dr. Lúcio
Costa, que o conheceu quando foi construído
o Parque Guinle, nos anos 40, e será
o próximo personagem da Janela da Corte).

19 – Quem lhe atrapalhou
mais?


Pessoalmente, ninguém.

20 – Quando Maurício
Jopert, presidente do Clube de Engenharia,
escreveu que o projeto do lago Paranoá
era uma besteira porque o solo poroso do Planalto
não iria reter a água. Qual
foi sua reação?


Nunca levei a sério.

21 – Brasília
tem algum pecado capital?


Se tem, não me cabe assinalar.

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