Gente do Meio

Porfírio Carvalho, seu milésimo gol

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O time dos Waimiri Atroari dá volta por cima







Porfírio Carvalho, o anjo artilheiro na vida dos índios Waimiri Atroari

Silvestre Gorgulho


Médio volante, goleiro e atacante de um time campeão, Porfírio Carvalho fez seu milésimo gol. Não foi de pênalti, como o milésimo de Pelé. Mas foi de placa como tanto outros que Pelé andou fazendo nos gramados deste mundo a fora. Não foi para as criancinhas negras e brancas como o de Pelé. Foi para as criancinhas índias. O gol de Porfírio não foi televisionado e nem tão fotografado como o de Pelé, mas foi também documentado e entrou para a história dos homens de boa vontade. O milésimo gol do indigenista Porfírio Carvalho foi de vida: ele é o pai, mãe, avô e tutor da família Waimiri Atroari: nasceu a criança índia número 1.000.


É bom lembrar que esta nação indígena está situada entre os estados do Amazonas e Roraima. Os Waimiri Atroari sempre foram guerreiros bonitos e determinados. Mas a colonização branca provocou uma tragédia. Desde o primeiro contato com o homem branco, as cerimônias e cânticos de fé dos Waimiri Atroari foram dando lugar aos lamentos e pedidos de socorro: a fome substituiu a fauna, a subnutrição tomou conta da tribo e vieram o alcoolismo, suicídios e os terríveis massacres.


Em 1986, eles eram menos de 300 e mendigavam famintos e doentes, às margens da BR-174.


Da cultura restou a lembrança. De caçador, o índio se transformou em presa fácil.


Até que um dia, em 1988, apareceu um anjo artilheiro que resolveu jogar no time dos Waimiri Atroari. Era o indigenista Porfírio Carvalho, baiano, na época com 45 anos. Bom de bola, de negociação e corajoso na área dos adversários, Porfírio começou conseguindo um bom patrocinador para o time: a Eletronorte.


No primeiro tempo, Porfírio organizou um jogo de confiança, reconhecimento do terreno e de planejamento. No segundo tempo foram atividades voltadas para a educação, saúde, defesa do território, agricultura e tradições culturais. O resultado não podia ser outro: vitória de goleada que possibilitou o resgate da existência, da cultura e da auto-estima dos índios tantas vezes ameaçadas pelo homem branco. Aí as coisas começaram a mudar. A verdade é que os Waimiri Atroari vêm colhendo os frutos das sementes plantadas por um programa desenvolvido pela Eletronorte e Funai desde a construção da Usina Hidrelétrica Balbina.


Agora vem o milésimo gol de Porfírio Carvalho: os Waimiri Atroari estão comemorando o nascimento do milésimo descendente. Após o gol, ainda no gramado, o artilheiro Porfírio não teve como fugir do microfone de um jornalista:


“O nascimento do milésimo Waimiri Atroari é realmente um marco na história daquele povo. E também na minha vida. Imagina, em 1986 eu reencontrei aqueles índios doentes, morrendo, perambulando pela estrada. Um contato difícil, pois parecia, até, que eu estava contra eles, porque era a estrada, era a mineração, era Balbina… Pensei comigo: será que a história não muda? Fui em frente… Vou tentar convencer a Eletronorte a assumir um programa de vida para este povo. Vou sim. Vou procurar alianças, vou procurar ajuda de todos, mas vou tentar salvar este povo. E, sonhando, iniciei o trabalho. Tive e tenho até hoje muitas dificuldades, incompreensões, discriminação, perseguições, mas também tive muito apoio, amizade e respeito… Devo muitos agradecimentos. Devo a muitos a vida de um povo, devo a vida dos 1000 Waimiri Atroari. E eu quero agradecer sempre… Agradecer a todos que me ajudaram e ainda têm me ajudado a levar adiante este trabalho”.


Cartolas, técnicos, jogadores e torcedores fanáticos deste jogo pela vida, não dá como não se emocionar. E aqui das arquibancadas da Folha do Meio Ambiente, toda nossa equipe grita a todo pulmão o nome de Porfírio Carvalho pelo seu milésimo gol:


Dá-lhe Porfírio! Valeu sua luta dentro e fora de campo. Seu milésimo gol merece o aplauso dos brancos, negros, amarelos e índios. Foi um gol de raça. A torcida brasileira agradece.

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Fernando Pessoa

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Um fingidor que é enigma em Pessoa

Fernando Pessoa é gênio. E sua genialidade não coube apenas num só poeta. Fernando Pessoa são vários. Daí, tantos heterônimos. Nos tempos de África do Sul, alfabetizado em inglês, criou os primeiros heterônimos: Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher. Criou até um especialista em palavras cruzadas: Alexander Search. Depois vieram os heterônimos que entraram para a história: Alberto Caeiro (ingênuo guardador de rebanho – poeta da natureza) Álvaro de Campos (engenheiro, um poeta de fases e influenciado pelo simbolismo). Ricardo Reis (erudito que insistia na defesa dos valores tradicionais, na literatura e na política). E Bernardo Soares, um tipo especial de semi-heterônimo.Alberto Caeiro era considerado o mestre de Álvaro Campos e de Ricardo Reis. Aliás, do próprio Pessoa. Para o poeta mexicano Octavio Paz (Premio Nobel Literatura 1990) a biografia dos poetas é sua obra. E Pessoa deixou uma fantástica obra. Tinha um viver pacato, mas passou a vida criando outras vidas. “Era o enigma em pessoa”. Comparado a Luiz de Camões, Fernando Pessoa deixou um legado para a Língua Portuguesa como jornalista, publicitário e poeta.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

………

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio pro mar…
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

……

“Minha Pátria é a Língua portuguesa”.

……

“Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.”

……

 “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

————————

Saiba Mais

O que é heterônimo, homônimo e pseudônimo?

Heterônimo A palavra vem do grego: heteros = diferente onyna = nome. Heteronímia é o estudo dos hererônimos ou seja, estudo de autores fictícios. Heterônimo então é uma personagem fictícia, criada por alguêm, mas com vida quase real, com biografia própria, totalmente diferente de seu criador. O criador de hetêrônimo, como Fernando Pessoa, é chamado de ortônimo.

Homônimo (homos = igual + onyma = nome) Pessoa que tem o mesmo nome de outra. Ou, palavras que se pronuncia e/ou escreve da mesma forma que outra, mas de origem e sentido diferentes.

Pseudônimo significa nome falso, ou seja, um nome fictício usado por alguêm como alternativa ao seu nome legal.

 

silvestre@gorgulho.com

dezembro de 2009

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Wanderbilt , o amazônida

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Aldeia Global: ITATIAIA HISTÓRICA – Wanderbilt Duarte de Barros e o Parque Nacional

Wanderbilt Duarte Barros, 79 anos, nascido às margens do rio Amazonas, na cidade de Óbidos, no Pará, tem toda uma vida dedicada à natureza e às causas ambientalistas. Estudou em Passa Quatro, no Sul de Minas, na Escola Agrotécnica, onde conheceu e se casou com a professora Guilhermina Dalila d’Alessandro de Barros, falecida em 1989.

Autodidata, aprendeu com os mestres Alberto Torres, Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda as origens da vida no Brasil, mudou-se para o Rio de Janeiro e continuou o seu trabalho, aprofundando-se nos estudos sobre melhor conservação da natureza e sobre a melhoria da qualidade de vida.

Foi diretor do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis, e por muitos anos do Parque Nacional de Itatiaia, a primeira unidade de conservação do Brasil. Depois, requisitado por vários ministros da Agricultura, ocupou diversos cargos no ministério, onde se aposentou como diretor-geral. Isso não significou sua retirada da luta. Pelo contrário, aumentou sua disposição de trabalhar.

Incansável, voltou ao serviço público para dar sentido à Geografia no IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, onde realizou importante trabalho. De lá, foi para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 1983, dirigindo o Conselho Editorial e participando de um minucioso trabalho de resgate das origens e destinos da mais importante instituição brasileira voltada para conservação das espécies vegetais, tornou-se, mais tarde, seu diretor.

Entretanto, a trajetória do dr. Wanderbilt, no exercício dos diversos cargos públicos que ocupou, não é suficiente para explicar a importância de sua presença na defesa do meio ambiente do Brasil. Suas atividades como professor, fundador e dirigente da FBCN – Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, mais antiga ONG brasileira, hoje com 37 anos. Autor de livros fundamentais para a bibliografia básica de Engenharia Florestal Agronômica ou da Biologia pioneiro conceituou o patrimônio natural e a exploração racional dos recursos naturais no Brasil. Foi diretor do “Projeto 29” da OEA, introduzindo novas técnicas de fotografia aérea, de inventários florestais e de recursos naturais e preparando os primeiros planos de uso da terra no Brasil, baseados no conhecimento e dentro da filosofia da conservação da natureza, conceitos ainda desconhecidos no país nas décadas d 50 e 60.

Wanderbilt Duarte Barros, profundo e vigoroso como o seu rio Amazonas, que dedicou melhor de sua vida à causa ambiental é Gente do Meio e recebe, por justiça, a homenagem da equipe da Folha do Meio Ambiente.

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Carlos Fernando de Moura Delphin

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Silvestre Gorgulho

Carlos Fernando nasceu jardineiro, estudou paisagismo e urbanismo, formou-se em arquitetura pela UFMG e trabalha hoje com projetos e planejamento para manejo e preservação de sítios de valor paisagístico, histórico, natural, paleontológico e arqueológico. Paisagista favorito de Oscar Niemeyer, já fez para ele vários projetos como o do Memorial da América Latina, em São Paulo, do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, e da Universidade Norte Fluminense.

Suas pegadas estão hoje espalhadas por muitas regiões e cidades brasileiras. Elas podem ser encontradas em seus projetos como autônomo ou público, como o da restauração do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, no Jardim Botânico de Brasília, nos Jardins do Brasil, em Osaka-Japão, na  Secretaria de Patrimônio Histórico do Rio Grande do Sul, nos Jardins Históricos da Fundação Nacional Pró-Memória, do IPHAN e de outros órgãos de preservação do patrimônio cultural brasileiro. Carlos Fernando trabalhou no IPHAN em Brasília, quando foi responsável pelo patrimônio arqueológico e pelos bens culturais tombados em nível federal. Atualmente assessora a direção do IPHAN-RJ.

Pioneiro da restauração de jardins históricos no Brasil, é autor do primeiro manual de intervenções em jardins históricos no mundo. Além disto emite pareceres sobre sítios propostos para Patrimônio Mundial da Unesco. Graças a um parecer seu as Florestas Tropicais Úmidas de Queensland, na Oceania, foram declaradas como patrimônio mundial. Seu mais recente estudo é uma nova e vanguardista proposta para a preservação de paisagens culturais no Brasil, no sul do Ceará, onde participa da implantação do Geopark do Araripe. Neste trabalho, Carlos Fernando, juntamente com a equipe da Universidade Regional do Cariri e com o IPHAN cearense, orienta a forma de proteção das paisagens dos “geotopes”, de acordo com  a legislação cultural e ambiental, no âmbito das leis municipal, estadual e federal. Orienta, também, as intervenções mais adequadas para o uso público e científico dos diferentes sítioS

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Reportagens

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