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Naturalistas Viajantes

O MAIOR PERSONAGEM DE LAGOA SANTA

 

PETER LUND (Parte 4)

 

Miguel Flori Gorgulho e Silvestre Gorgulho

 

Desde 1835, instalado definitivamente na sua casa-laboratório em Lagoa Santa, Peter Lund pesquisava centenas de grutas no vale do rio das Velhas e enviava, anualmente, para a Dinamarca suas memórias, amostras e estudos. Nessa época, Lagoa Santa tinha apenas 60 casas. Em 1862, morre seu amigo Peter Brandt, um luterano que não queria um enterro católico. Então, Peter Lund comprou terreno para fazer um cemitério protestante para receber o corpo de Brandt. Peter Lund evita temas políticos e começa a receber cientistas e viajantes, além de ministrar aulas. Importante: cria uma banda de música para a Corporação Musical de Santa Cecília, ainda hoje em atividade.

A morte de Brandt, em 1862, desfaz, por um tempo, a associação da dupla que era muito importante para Doutor Lund, tanto emocional, científica como economica. O luterano Peter Andreas Brandt não queria um enterro católico e Lund compra um pequeno terreno, que se tornou o cemitério protestante de Lagoa Santa, para receber o corpo de Brandt. Ao lado da sepultura, Peter Lund plantou um pequizeiro (Caryocar brasiliensis), a árvore preferida de Brandt. Em seus passeios diários, Lund costumava se sentar e meditar no local, até se reunir definitivamente a Brandt em 1880. Hoje o antigo cemitério é um parque em sua memória.

AULAS, MÚSICA E MÉDICO POPULAR

Peter Lund vira uma pessoa popular e reverenciada pela comunidade

Peter Lund gostava de ministrar aulas e até criou uma banda de música para a Corporação Musical de Santa Cecília. Cuidava com carinho de seu quintal e travava uma guerra constante contra as saúvas. Declara em uma carta: “Procuro fazer minhas condições tão confortáveis e agradáveis quanto possível, e desenvolver os recursos que o lugar oferece, e que são compatíveis com minha saúde. Ademais, meu quintal, pelo qual sempre tive paixão, é minha ocupação e recreação principais”.  

A centenária Corporação Musical Banda Santa Cecília é uma das principais manifestações que compõe a memória e a identidade cultural de Lagoa Santa. Com 184 anos, fundada por Peter Wilhelm Lund, em 1842, é composta por instrumentos de sopro como flautim, flauta, clarinetes, saxofones, trompetes, trompas, trombones e tubas, que são acompanhados por instrumentos percussão. Ela continua sendo um elo vivo entre o passado e o presente simbólico de Peter Wilhelm Lund.

Além da participação cultural, suas atividades como médico popular fazem dele a figura paternal e protetora na comunidade. Ele receita remédios simples, orienta e socorre as pessoas em seus apertos circunstanciais de falta de dinheiro. Por isso é reverenciado até hoje em toda a região, 146 anos depois de sua morte.

A Corporação Musical Santa Cecília é um elo vivo entre o passado e o presente simbólico de Peter Wilhelm Lund.

OS ESTUDOS DE UM SÁBIO ERMITÃO

Desde 1835, instalado definitivamente na sua casa-laboratório em Lagoa Santa, Peter Lund pesquisava centenas de grutas no vale do rio das Velhas e enviava, anualmente, para a Dinamarca suas memórias, amostras e estudos. Todo seu acervo era publicado e lido em reuniões da Real Academia Dinamarquesa. Este acervo encontra-se hoje no Museu da Universidade de Copenhague. Os estudos feitos por Lund foram citados por Darwin no livro Origem das Espécies (1854).
Em 1849, Lund enviou suas últimas caixas de amostras coletadas. Pensava em voltar para a Europa, mas nunca o fez. Encerra suas atividades de pesquisa passando a viver em Lagoa Santa como um sábio ermitão silencioso, amigo do povo e da banda de música local e sustentado pelo seu patrimônio familiar.  Sua casa era referência obrigatória para qualquer naturalista-viajante que passasse pelas Estradas Reais de Minas.
Em 25 de maio de 1880, aos 79 anos, morre. O corpo de Lund é sepultado em cemitério particular por ele comprado e murado. Juntamente com ele, estão sepultados, em Lagoa Santa, alguns amigos e colaboradores: um suíço, um alemão e um norueguês. Peter Lund tem um legado fantástico e é um testemunho da internacionalidade da ciência.
Em Belo Horizonte, os museus de História Natural da UFMG e da PUC expõem informações sobre a paleontologia e dados sobre a vida de Peter Lund.

BOA NOITE, DOUTOR LUND!

Por Carlos Drummond de Andrade (*)

Cuidado, Dr. Peter Wilhelm Lund, que dorme em seu último sono em Lagoa Santa: previno-lhe que seu repouso eterno corre perigo.

A região em que o senhor viveu, pesquisou e estabeleceu os fundamentos da Paleontologia Brasileira está sendo varrida pelo ciclone do desenvolvimento-acima-de-tudo, que promete acabar com as suas grutas, os seus fósseis e toda a pré-história nacional.

A exploração de calcário para fabrico de cimento vai arrasar as maravilhosas formações naturais que compuseram o cenário definitivo de sua vida. Amanhã, quem sabe? Esgotados os depósitos de matéria-prima, o senhor mesmo será tecnicamente classificado como calcário de 2º grau, e do seu jazigo inscrito nos livros do Patrimônio Histórico do Brasil se fará uma fornada de cimento para novas torres redondas na Barra da Tijuca.

De resto, sei que não adianta meu aviso, sei que não adianta impedir a transformação da paisagem em cimento. Temos que viver o nosso tempo, ou, mais corretamente, morrer o nosso tempo. Quem falou aí em preservar os traços deixados pelo homem primitivo, como tarefa de sumo interesse para a compreensão da vida? Esse perdeu o seu latim – o mesmo latim de que o senhor se serviu para identificar o seu megatherium, o seu chlamidotherium, o seu glyptodon. Pois o próprio latim não acabou, no quadro da cultura geral?

Desculpe, meu sábio venerando, este chamado importuno, que nem sequer deve tê-lo acordado. Certamente já o acordara antes o tonitrom dos tratores incumbidos de devastar o solo, a vegetação e toda lembrança do mundo imemorado. A esse som nada musical sucederá outro, que o manterá desperto: o das britadeiras funcionando em ritmo de Brasil grande e apressado. O senhor perdeu o direito à paz, como de resto nós todos o perdemos, e as próprias máquinas. Fique aí quietinho em seu túmulo, enquanto se anuncia para meados de 1975 o desaparecimento da Lapa Vermelha, ou Lapinha, que era a menina-dos-seus-olhos…

A Lapinha, sabe? Que vinha sofrendo a agressão dos namorados, dos torcedores de futebol, dos fotógrafos de Manchete, que nela rabiscavam inscrições bobas ou que revestiam de óleo suas pinturas, para melhor efeito de cores das reproduções, enquanto os afeitos a souvenirs furtavam lascas de estalactites e estalagmites, para se gabarem de ser proprietários de esculturas da natureza. Esse pessoal executou os serviços preliminares de desbastamento da área. Vem agora a fase sistemática de desintegração plena da Lapinha, aquela mesma em cujo recinto sombrio e rico de mistérios telúricos o senhor passeou e meditou, no itinerário do sonho para a ciência.

Prometo versejar uma elegia, quando tudo estiver consumado. É só o que posso fazer, em honra da caverna clássica e do sábio que a indicou ao zelo das novas gerações, cuidando que, no futuro, suas investigações teriam prosseguimento, e que ali se instalaria um mutirão de pesquisadores ávidos de descobrir os enigmas da Terra e do Homem.

Daqui a seis anos, sabe? Passará o centenário da morte do senhor. Podemos conjeturar que até lá sua morte se desdobrará e multiplicará na morte das grutas. Então, na rasa planície, extinto o eco dos tratores, britadeiras e esteiras transportadoras de calcário, memória não haverá nem do senhor nem dos grupos alegres de turistas que começaram a demolir as criações da natureza para que outros completassem a obra.

É possível que, no silêncio, ouvido mais apurado ouça aquela música sem som que se filtra entre o vazio e a ruína, a música do nada. Teremos chegado à perfeição do não-existente, àquele estado de não-ser, que até a morte se distancia. E nessa música irreal se perceberá a vaga exalação de um responso: Minas Gerais vendeu sua alma ao desenvolvimento, e deu de pinga sua pré-história.

(*) “Boa-noite, Dr. Lund.”  Crônica de Carlos Drummond de Andrade, publicada no Jornal do Brasil em 12/03/1974

O HOMEM DE LAGOA SANTA

LONGA-METRAGEM SOBRE PETER LUND

O filme reproduz a trajetória do naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, que fez extraordinárias escavações em grutas calcárias no vale do Rio das Velhas e cujas pesquisas abriram caminho para Charles Darwin dar prosseguimento à teoria da Origem das Espécies.

Em 2013, Renato Menezes concluiu a produção do filme, mas faleceu em 2014. Antes disso, felizmente, ele chegou a realizar o sonho de exibir o filme em Lagoa Santa para uma plateia de 300 pessoas que lotaram o auditório da Escola Municipal Dr. Lund.

Longa-metragem foi roteirizado e dirigido pelo belo-horizontino Renato Menezes, falecido em 2014.

Apaixonado pela história de Lagoa Santa e admirador confesso de Peter Lund, o cineasta mineiro, Renato Menezes, foi diretor e roteirista do longa sobre o Paleontólogo dinamarquês Peter Lund. O ator Chico Aníbal interpretou as cenas ficcionais do filme.

Esta biografia em quadrinhos conta como o patrono da paleontologia no Brasil, Peter Wilhelm Lund, deixou uma vida confortável na Dinamarca e veio parar em Lagoa Santa, onde realizou descobertas incríveis, escavando as grutas do cerrado de Minas Gerais. Autoria: Piero Bagnariol, Gabriel Lucas e Yuri Alves.

 

MUSEU PETER LUND

O Museu Peter Lund compreende todo o Parque do Sumidouro, onde foi construída a sede ao lado da Gruta da Lapinha. No local estão reunidos 82 fósseis descobertos por Lund, no século 19, durante suas pesquisas na região de Lagoa Santa.

Endereço: Rodovia AMG 115 KM 06 / Estrada Campinho – Lapinha – 

LAGOA SANTA – MG – Funciona de terça a domingo Horário: 9h às 16h30.

PRÓXIMA EDIÇÃO 387 – junho/2026 –

GRUTA DE MAQUINÉ.

O MUNUMENTO NATURAL ESTADUAL PETER LUND, pelo decreto número 44.120 de 29 de setembro de 2005. Com 650m de extensão, Maquiné tem uma entrada imponente e, lá dentro, estalactites e estalagmites formam figuras majestosas, com “cristais” brilhando em formato de franjas, grinaldas e lustres.

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BRASÍLIA

O urbanismo revolucionário das superquadras sensíveis à água e que dá qualidade de vida

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O conceito de “super-quadras” como extensão residencial

aberta ao público, em contr

Brasília enriqueceu os dicionários da Língua Portuguesa com neologismos clássicos desde sua inauguração. Por exemplo, Plano Piloto. Buscando o significado no dicionário ou na internet, está lá: “Plano Piloto é a região administrativa central de Brasília, projetada pelo urbanista Lúcio Costa em formato de avião”. Outro exemplo, superquadra. Se você for ao Google, a definição: “Superquadra é uma forma de organização urbanística. No Brasil é conhecida como a experiência morfológica realizada na área residencial de Brasília”. Outro exemplo: tesourinha. Além do nome de uma ave muito conhecida, está lá no dicionário: “Em Brasília, as tesourinhas são passagens subterrâneas e viadutos em formato de alça que cruzam o Eixão e os Eixinhos, que servem para mudar de direção e entrar nas superquadras sem precisar de semáforos”. Os três conceitos – plano piloto, superquadra e tesourinha – nasceram com Brasília e estão ligados à vida na capital da República.

 

Em abril passado, Brasília completou 66 anos de inauguração. Nessas quase sete décadas, a capital evoluiu, adensou e virou a terceira maior cidade do País. Mas, as suas quatro características urbanísticas continuam as mesmas, mesmo porque desde 1987 é uma cidade tombada pela Unesco.

Dentro dos pontos principais do plano Piloto estão o Eixo Monumental, o Eixo Rodoviário (Asas Sul e Norte) e as áreas residenciais, divididas nas famosas Superquadras. O Plano Piloto de Brasília tem ao todo 96 superquadras residenciais, divididas de forma igual entre a Asa Sul e a Asa Norte. A grande característica das superquadras é que os blocos têm apenas seis andares e se sustentam em pilotis. São áreas muito arborizadas, com apenas um único acesso comum, garantindo um tráfego mais calmo, evitando o trânsito de não moradores. Elas se completam com escolas, igrejas e comércios variados. É sobre as superquadras que vamos conversar com o arquiteto e escritor Maurício Andrés Ribeiro.

 

MAURÍCIO ANDRÉS RIBEIRO – ENTREVISTA

aposição ao de “condomínio”

como arcos fechados e privativo,

foi inovador e revelou-se válido e civilizado.

Lucio Costa 3/XII/85

 

 

Silvestre Gorgulho – Maurício, você é mineiro, mas mora em Brasília há muito tempo. Por onde passou e trabalhou, você é um profissional sempre atento às questões ambientais, urbanísticas e sustentáveis. Pergunto, o que você acha do projeto Lucio Costa e, especialmente, sobre as superquadras?

Maurício Andrés – Olha, sou fã do urbanista Lucio Costa. E eu falo isto de uma maneira profissional, por ter estudado a trajetória dele, e sobretudo porque durante 26 anos de minha vida, morei em apartamentos, em superquadras na Asa Sul de Brasília, e tive o privilégio de vivenciar um padrão urbanístico de alta qualidade. Brasília é a concretização de uma utopia. Uma cidade com um projeto que revolucionou o modo de viver.

 

Silvestre – Você é um pesquisador das questões hídricas e ambientais. Você foi diretor-executivo do Conama e trabalhou muito tempo na Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Como você vê a questão do manejo da água dentro desse mundo das superquadras?

Maurício – Devemos ressaltar a importância da concepção urbanística das superquadras em Brasília. Inventadas há mais de 66 anos por Lucio Costa, tornaram-se um padrão urbanístico desejável, que precisa ser revalorizado no contexto das mudanças climáticas e de seus eventos extremos. Foi uma criação urbanística que traduziu de forma pioneira aquilo que atualmente se chama de cidades-esponja, defendida pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, que ao invés de conduzir a água por meio do concreto de obras rígidas utiliza a infraestrutura verde para absorver, limpar e reutilizar a água da chuva no próprio local onde ela cai, evitando enchentes graves. Quero lembrar ainda que as superquadras podem ser vistas como exemplos pioneiros daquilo que propõe o movimento das cidades sensíveis à água que se originou décadas depois na Austrália. Elas buscam formas de convivência harmônica com a água, respeitam o ciclo hidrológico, facilitam a infiltração. Constroem jardins filtrantes, valetas para conduzir a água de chuva, telhados verdes, áreas de infiltração em cada lote, evitando que as enxurradas se avolumem.

 

Silvestre – Nesse ponto, o espaço verde nas superquadras é muito generoso.

Maurício – É verdade. Ali as árvores crescem livremente, com amplos espaços. A fiação é subterrânea e elas não sofrem podas radicais como vemos em outras cidades em que as árvores são confinadas em passeios estreitos e com fiação aérea. Em Brasília, ciência e arte se aliaram no planejamento do desenho urbano, paisagismo, urbanismo e arquitetura. As superquadras são uma inspiração para um modelo saudável de cidade sensível à água.

 

Beleza e qualidade de vida nas superquadras em Brasília.

 

Silvestre – Na verdade, quando Lucio Costa, Niemeyer e Burle Marx criaram a Superquadra Modelo, que está na 308/108 Sul, eles plantaram um modelo não só original como de muita qualidade de vida.

Maurício –  E não é só isso. Brasília virou uma cidade-parque. Evidente que outros paisagistas contribuíram para esverdear a paisagem de todo os Distrito Federal. É bom lembrar que não havia conhecimento sobre paisagismo e arborização urbana no Cerrado. Tudo foi aprendido experimentalmente. Hoje, Brasília é um grande parque nas Asas Sul e Norte, entremeado por edifícios e casas onde as pessoas vivem. Essas generosas áreas verdes são esponjas que absorvem grande parte da água de chuva e reduzem os riscos e danos das inundações catastróficas que acontecem em outras cidades.

 

Silvestre – E tem o lado da convivência, da humanização do ambiente.

Maurício – Esse é um legado que o urbanista deixou não só para os brasilienses, mas para todo o mundo. A superquadra é amigável para com as crianças, com muitos espaços para elas brincarem, nos pilotis abertos e sem cercas dos prédios. Nas áreas verdes os moradores passeiam com seus animais de estimação, nos playgrounds cercados ou não. Eu vivi isso quando morava em Brasília durante a pandemia do Covid-19. As quarentenas e a necessidade de ficar em casa tornaram mais nítida a qualidade do urbanismo e da arborização da cidade.

 

Paisagismo da superquadra modelo: 308 sul

 

Silvestre – Eu hoje moro da 308 Sul, uma superquadra modelo, e entendo perfeitamente o que você está dizendo.

Maurício – Sim, você que mora ali pode ver duas coisas diariamente: primeiro, o número de turistas que visitam essas superquadras. Turistas nacionais e estrangeiros. Sobretudo estudantes de arquitetura, engenharia e paisagismo. É visível esse ambiente saudável das superquadras que dispõem de espaços para exercícios físicos sem aglomerações ao ar livre. Na pandemia, elas contribuíram muito para aliviar o isolamento necessário na emergência sanitária, para promover a saúde e para evitar que o vírus se espalhasse. Elas mostraram qualidades valiosas com seus amplos espaços públicos, muito verde, muita ventilação e iluminação natural, pouca densidade, ambientes saudáveis e já testados pela prática e vivência. Tais espaços são muito apropriados e evitam que as crianças e idosos fiquem confinados nos apartamentos.

 

Silvestre- Quem estuda a construção de Brasília, percebe que JK foi um gênio político e administrativo. Ele construiu a nova capital na hora certa.

Maurício – Sempre pensei nisso. Brasília incorporou um Brasil muito maior ao que já existia beirando o litoral. Foi uma redescoberta do País. E tudo isso em cinco anos. O presidente JK prometeu e cumpriu fazer 50 anos em apenas cinco. Uma verdadeira revolução sem dar um só tiro. E tem mais: Brasília foi construída pelo estado, em terras públicas previamente desapropriadas. Não sofreu as limitações impostas pelo mercado, pelo lucro e pela redução de custos que sacrifica os espaços públicos, as áreas verdes e a qualidade ambiental, como aconteceu em outros lugares.

 

Vista aérea da superquadra 308 Sul de Brasília, podendo ver a Escola Parque, modelo educacional de Aluísio Teixeira, e a Igrejinha de Fátima, projeto de Oscar Niemeyer.

 

Silvestre- E como você vê a gestão nas superquadras?

Mauricio – Este é outro dado interessante. Cada superquadra tem sua prefeitura, numa gestão urbana descentralizada. A mobilização dos moradores em torno de objetivos locais é o ponto de partida para várias benfeitorias urbanas: a implantação de playgrounds para crianças, a gestão dos resíduos, as questões de segurança e o controle da poluição sonora.

 

Silvestre – Mas nem tudo são flores. Hoje existe a questão da mobilidade urbana e, muito pior, em algumas entrequadras, na área norte, acontecem inundações severas.

Maurício – Muito bem lembrado. Inicialmente não aconteciam inundações urbanas na cidade. Entretanto, em algumas áreas houve excessiva impermeabilização do solo por estacionamentos, pistas de automóveis e construções variadas. Isso interferiu no sistema de drenagem. Maiores volumes escorriam depois de chuvas fortes e passaram a ocorrer inundações a jusante dessas áreas impermeabilizadas. Outras causas que contribuem para as inundações são o entupimento das redes de drenagem, a falta de manutenção adequada e os eventos extremos associados ao aquecimento global.

 

Silvestre – Ano que vem, em dezembro de 2027, serão 40 anos do Tombamento de Brasília. Como arquiteto, o que você pode dizer sobre uma cidade tombada com apenas 27 anos?

Maurício – Esta foi outra revolução que Brasília provocou no mundo e nos trabalhos da Unesco. Aí temos que dar glória e agradecer o então governador José Aparecido de Oliveira que viu e provou para a Unesco que Brasília tinha que ser tombada por ser uma cidade mais importante em futuro do que em passado. Por isso, Brasília tornou-se a única cidade moderna inscrita na lista do patrimônio mundial da UNESCO, o que a protegeu das investidas das empresas imobiliárias para adensá-la e verticalizá-la. O espírito que inspirou a criação das superquadras nessa cidade deve ser resgatado e valorizado, para que continue a inspirar outros projetos de urbanização no Brasil.

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O BATISMO E A URBANIZAÇÃO

A cronologia da criação e urbanização de Maringá, hoje um município exemplo de sustentabilidade

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A maioria das cidades brasileiras interioranas brasileiras nasceu às margens de rios ou em entroncamentos, quase sempre ponto de apoio e descanso de tropeiros. Maringá não fugiu a regra. No entrocamento ao noroeste do Paraná, em 1940, surgiu um núcleo rural rústico como ponto de apoio comercial para os trabalhadores da região. O núcleo foi batizado com o nome de Maringá.

 

Durante o processo de colonização do norte do Paraná pela Companhia de Terras Norte do Paraná, na década de 1940, a música “Maringá” era frequentemente cantada pelos trabalhadores nas frentes de desmatamento e construção. Segundo relatos, foi Elizabeth Thomas, esposa de Arthur Thomas, um dos diretores da Companhia de Terras Norte do Paraná, que  sugeriu que o núcleo recebesse o nome da música. A proposta foi aceita e tudo foi oficializado em 10 de maio de 1947.

 

CRONOLOGIA HISTÓRICA DE MARINGÁ

Inspirado na música que fazia sucesso na época da colonização, Maringá teve um ritmo frenético de desenvolvimento econômico, urbanístico e cultural.

 

Hotel Campestre,  primeiro hotel de Maringá, é inaugurado em 1942. Em setembro de 1956, foi construído o primeiro grande hotel de alvenaria e luxo da cidade nova chamado Grande Hotel Maringá, que depois passou a se chamar Hotel Bandeirantes.

 

1923 – O início de tudo foi em 1923, quando uma comitiva liderada por Edwin Samuel Montagu, ex-secretário de Finanças do Tesouro Britânico, veio ao Brasil para negociar uma dívida. Entre os membros da comitiva estava Simon Joseph Fraser, o 16º Lorde Lovat da Escócia, que viajou com outro objetivo em mente: procurar terras férteis para cultivar algodão, matéria-prima imprescindível para a indústria têxtil britânica.

Lorde Lovat visitou terras do interior paulista e chegou ao norte do Paraná. Decidiu investir na plantação de algodão na região e fundou a empresa Brazil Plantation Sindicate, responsável pelo gerenciamento de suas propriedades em terras brasileiras.

1925 – Em junho de 1925, é fundada a Paraná Plantations Company, empresa de Londres que comandaria a subsidiária Companhia de Terras Norte do Paraná, no Brasil. A região era predominantemente ocupada por florestas de Mata Atlântica, atraindo a atenção de produtores rurais paulistas, mineiros, japoneses e italianos, atraídos pela presença da terra roxa (nome vem de terra rossa, em italiano, ou terra vermelha).

1929 – Em 21 de agosto de 1929, foi fundada Londrina, uma homenagem a Londres, capital ingleza. Com a venda dos primeiros lotes de terra no “norte novo do Paraná”, veio a febre da ocupação da região. Era a chegada em massa de desbravadores. Nasceram os primeiros núcleos urbanos.

1938 – Começa a colonização de Maringá. O povoamento da área compreendida pelo atual município iniciou-se em 1938. Mas foi, apenas, a partir dos primeiros anos da década de 40, que começaram a ser erguidas as primeiras edificações de madeira, na localidade conhecida, mais tarde, por Maringá Velho. Em 1938, foi vendido o primeiro lote de Maringá, adquirido pelo padre alemão Emílio Clemente Scherer, que veio para o Brasil fugindo do  nazismo.

 

Esta foto aérea registra parte da atual Zona 3, quando a região ainda passava pela abertura de suas ruas e avenidas e dava os primeiros passos de sua ocupação urbana.

1940 – Em 12 de fevereiro de 1940, surge a primeira igreja de Maringá, construída pelo padre Scherer. Ele é considerado pioneiro. Foi o primeiro desbravador de Maringá. A propriedade que ele adquiriu foi batizada de Fazenda São Bonifácio. Vale lembrar que São Bonifácio foi um monge beneditino, conhecido como “Apóstolo da Alemanha”.

1942 –   Num entroncamento, surge nesse ano um pequeno povoado, que servia como ponto de apoio aos pioneiros desbravadores.

1943 –  Segundo o historiador do Patrimônio Histórico de Maringá, João Laércio Lopes Leal, foi em 1943 que nasceu o projeto da cidade de Maringá. O projeto é assinado pelo urbanista paulista Jorge de Macedo Vieira, adepto do conceito de “Cidade Jardim” elaborado pelo britânico Ebenezer Howard. O urbanista Macedo Vieira recebeu a ajuda de seu amigo e ex-colega da Escola Politécnica da USP, Cássio Vidigal, então diretor da Companhia de Terras Norte do Paraná.

1947 – A fundação oficial de Maringá – data em que a cidade comemora seu aniversário – é 10 de maio de 1947, quando a Companhia de Terras Norte do Paraná abriu um escritório na cidade. Essa Companhia foi adquirida por investidores brasileiros nos anos 1940 e, em 1951, rebatizada como Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. Prestes a fazer 80 anos, Maringá tem hoje cerca de 430 mil habitantes.

1950 –  Na década de 1950, Maringá pulou de 40 mil habitantes para 100 mil, sobressaindo a Vila Operária e o Maringá Velho como regiões mais prósperas. Nesse contexto destacam-se no perímetro urbano as casas comerciais, serrarias, as máquinas de café e as cerealistas.

 

Idealizada por Dom Jaime Luiz Coelho e projetada pelo arquiteto José Augusto Bellucci, a bela Catedral de Maringá foi construída entre julho de 1959 e maio de 1972.

 

1960 –  Em 1960, Maringá registra expansão tanto vertical quanto horizontal, solidificando a posição de centro regional, atestando ares de metrópole. Na esteira do vertiginoso progresso nascem instituições seminais ao desenvolvimento sócio-econômico, caso da cooperativa COCAMAR (27 de março de 1963) e da Universidade Estadual de Maringá (1969), Basílica de Maringá, o Country Clube, o Parque do Ingá, o Parque Alfredo Nyffeler, o Parque do Japão e o Bosque das Grevíleas.

 

Em 1959, o compositor mineiro Joubert de Carvalho foi homenageado pela cidade de Maringá com o nome de uma rua, antes chamada de rua

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Brasília celebra o legado de Athos Bulcão durante a DW! Semana de Design

Segunda edição da DW! Brasília movimenta a capital entre 22 e 25 de setembro com exposições, palestras, lançamentos e experiências que aproximam arte, arquitetura e design

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Brasília volta a ocupar espaço de destaque no calendário nacional do design. Entre os dias 22 e 25 de setembro de 2026, a capital recebe a segunda edição da DW! Brasília, integrando novamente o circuito promovido pela DW! Semana de Design, plataforma que há 15 anos realiza semanas de design em diferentes cidades brasileiras.

Neste ano, a programação se distribui por dois distritos de design — Casapark e Lago Sul — e reúne exposições, palestras, encontros, lançamentos de produtos e coleções, além de experiências ligadas à arquitetura, à arte, ao mobiliário e à economia criativa.

O grande homenageado da edição é Athos Bulcão (1918–2008), artista cuja trajetória está profundamente ligada à construção da identidade visual de Brasília. Seus painéis, relevos e composições geométricas estão incorporados a alguns dos principais edifícios e espaços públicos da cidade, fazendo de sua obra parte da própria experiência urbana da capital.

Athos Bulcão para além dos azulejos

Um dos pontos centrais da DW! Brasília é a exposição “Entre Tempos”, aberta no dia 22 de setembro no Mezanino da Livraria Travessa, no Casapark. A mostra reúne mais de 40 trabalhos de Athos Bulcão e permite ao público conhecer aspectos menos difundidos de sua produção artística.

Com curadoria de Valéria Cabral, presidente da Fundação Athos Bulcão, a seleção percorre quase seis décadas da trajetória do artista, com trabalhos produzidos desde 1943 até os anos 2000. O conjunto reúne desenhos e pinturas a óleo e acrílica, incluindo peças provenientes de coleções particulares e trabalhos pouco conhecidos ou nunca apresentados anteriormente ao grande público.

A proposta amplia a percepção sobre um artista frequentemente associado à azulejaria geométrica que marca a arquitetura brasiliense. “Entre Tempos” revela outras linguagens, pesquisas e momentos de sua produção e ajuda a dimensionar a amplitude de uma carreira que atravessou diferentes técnicas e períodos da arte brasileira.

A exposição permanece aberta ao público até 13 de outubro, com entrada gratuita. A visitação ocorre de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos e feriados, das 12h às 20h.

Design, arte e arquitetura ocupam Brasília

Além da homenagem a Athos Bulcão, a DW! Brasília apresenta uma agenda diversificada voltada tanto aos profissionais do setor quanto ao público interessado em criatividade, arquitetura e cultura.

Entre as atrações está uma edição especial da Feira do Fuga, reunindo trabalhos de mais de 50 artistas e coletivos. A programação inclui ainda talks com arquitetos, designers, pesquisadores e artistas, lançamentos de mobiliário e objetos, exposições e outras experiências distribuídas pelos espaços participantes.

A agenda também abre espaço para discussões sobre a projeção internacional do design brasileiro. Entre os encontros realizados nesta edição está uma conversa com Marina Bertoldi, da Christie’s, sobre o mobiliário brasileiro no mercado internacional e sua aproximação com o universo do colecionismo.

No encerramento da programação, nesta sexta-feira (25), o Casapark recebe o artista Nuno Ramos, em encontro que estabelece um diálogo contemporâneo com a produção de Athos Bulcão a partir da obra O Sol faz a festa, originalmente concebida por Athos para o Teatro Nacional de Brasília.

Uma cidade onde arquitetura e arte caminham juntas

A escolha de Athos Bulcão como homenageado ganha significado especial em Brasília. Poucos artistas estabeleceram uma relação tão direta entre obra, arquitetura e cotidiano urbano.

Em vez de restringir a arte aos museus e galerias, Athos colaborou com arquitetos e incorporou suas criações aos edifícios e espaços públicos. Seus trabalhos passaram a dialogar diretamente com a arquitetura modernista e com a circulação das pessoas pela cidade.

Essa relação torna Brasília um cenário particularmente apropriado para uma semana dedicada ao design. Na capital, arquitetura, urbanismo, arte e desenho fazem parte de uma mesma construção cultural — uma característica que a DW! Brasília procura explorar ao ocupar diferentes pontos da cidade e promover o encontro entre profissionais, marcas, criadores e público.

A segunda edição também reforça a inserção de Brasília em um circuito mais amplo. A DW! mantém eventos em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Balneário Camboriú, enquanto a edição paulistana, realizada desde 2012, integra a World Design Weeks, associação internacional que reúne importantes semanas de design.

Ao colocar Athos Bulcão no centro de sua programação, a DW! Brasília também propõe um olhar sobre a própria identidade da capital: uma cidade concebida a partir do encontro entre arquitetura, urbanismo, paisagismo e artes visuais.

Mais de seis décadas depois da inauguração de Brasília, as formas, cores e ritmos criados por Athos continuam presentes no cotidiano da cidade. Celebrar seu legado durante uma semana dedicada ao design é, portanto, também celebrar uma das características mais singulares da capital brasileira: a capacidade de transformar arte e arquitetura em parte da vida cotidiana.

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Reportagens

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