Reportagens
Missão Cerrado
20 anos de mãos dadas com parceiros, patrocinadores e voluntários
Silvestre Gorgulho, de Brasília
A Funatura é uma das primeiras ONGs brasileiras. Pela importância dos projetos que desenvolve, pelo destaque que dá às participações que tem em diversos conselhos, redes e outros fóruns de decisão locais, regionais e nacionais e pela seriedade na condução de seu processo administrativo e financeiro, a Funatura – além de mais tradicional – é uma das organização mais respeitadas do País. Criada em 30 de julho de 1986 por profissionais ligados à área ambiental de reconhecimento e representatividade no Brasil e no exterior, a Funatura, em 1997, por decreto presidencial, foi declarada entidade de utilidade pública federa
Glossário O que é uma organização não governamental – ONG? O que é uma OSCIP? O que é Terceiro Setor? |
Missão Cerrado – esse é o lema principal que norteia os trabalhos da Funatura, desde o seu nascimento. Na defesa do meio ambiente , principalmente no que diz respeito à conservação da biodiversidade e à melhoria da qualidade de vida da sua população, está embutido o esforço de contribuir para o uso sustentável dos recursos naturais, em especial nos biomas Cerrado e Pantanal.
Dentre os mais importantes projetos desenvolvidos pela Funatura, de caráter participativo e relacionados à conservação da biodiversidade, destacam-se o Projeto de Implementação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas (em co-gestão com o Ibama), incluindo o projeto de desenvolvimento sustentável do seu entorno; o Projeto de Implementação de RPPNs no Cerrado; o Projeto Alternativas de Desenvolvimento do Cerrado; e o projeto de ações prioritárias para a conservação da biodiversidade do Cerrado e Pantanal (em parceria com o MMA, CI, Biodiversitas e UnB).
Saiba mais sobre as atividades da Funatura
São 20 anos de trabalho, mais de 120 projetos desenvolvidos nos principais biomas brasileiros. O ano de 2006, para a história da Funatura, significa o resultado de uma trajetória de atuação e resultados em benefício da conservação da biodiversidade. As dificuldades não foram poucas, mas é com orgulho que a equipe de pesquisadores e técnicos que ajudaram nesse trabalho de tantos anos têm muito o que contabilizar.
Entre os projetos que mais repercutiram e que ainda rendem novos frutos, estão o do Grande Serão Veredas, que desde 1987 – quando a Funatura começou a estudar áreas na região dos Gerais – até hoje se multiplica. Mais de 18 anos depois, o Parque Nacional que a fundação tanto se empenhou em criar foi finalmente ampliado e disso a Funatura também orgulha de ter participado.
Difícil enumerar todos os trabalhos mais importantes, como o Programa de Santuários da Vida Silvestre, além de pesquisas sobre mogno na Amazônia brasileira, o diagnóstico e avaliação do setor florestal brasileiro, produtos florestais não-madeiráveis, biodiversidade entre cerrado e florestas plantadas, e seminários sobre alternativas de desmatamento da Amazônia e dos Cerrados. Sem contar os trabalhos relacionados a unidades de conservação, mais recentemente a de criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), outro dos mais significativos projetos aos quais atualmente a equipe da Funatura se empenha com profunda dedicação.
A Funatura, ao longo do tempo, também esteve envolvida em movimentos de ONGs, com significativa atuação em conferências, seminários, grupos de trabalho e conselhos da Reserva da Biosfera, Ministério do Meio Ambiente, Conselho Nacional de Meio Ambiente, Conabio, Conacer, Conam-DF, entre outros.
Maria Tereza Jorge Pádua – ENTREVISTA
Maria, teu nome é Natureza
Silvestre Gorgulho, de Brasília
Maria Natureza. Ela é, verdadeiramente, a primeira mulher brasileira a atuar em quase todas as frentes, estudar, pesquisar, lutar, gerenciar projetos complexos e a entrar de cabeça nas questões ambientais. Maria Tereza Jorge de Pádua é parte da história do meio ambiente no Brasil. Por onde passou, deixou marca. Desde os bancos escolares, quando se formou em Agronomia e depois no Mestrado de Ecologia e de Manejo da Vida Silvestre, essa paulista de São José do Rio Pardo vive a questão ambiental com toda intensidade. Profissionalmente, começou no departamento de meio ambiente da Companhia de Energia de São Paulo. A partir de 1968 ocupou cargos no antigo IBDF, como chefe da seção de parques nacionais e diretora do departamento de áreas protegidas. Em 1981, deixou o IBDF como protesto, porque o governo do presidente João Figueiredo autorizou a construção de uma estrada cortando o Parque Nacional do Araguaia. Voltou a trabalhar em São Paulo, mas em 1985, com a eleição de Tancredo Neves, voltou ao IBDF, onde foi Secretária-Geral. Antes de assumir o Ibama, em 1992, órgão que incorporou em 1989 o IBDF, a Sudhevea (Superintendêcia da Borracha) a Sudepe (Superintendência da Pesca) e a Sema (Secretaria do Meio Ambiente), Maria Tereza resolveu mais uma vez inovar: com vários companheiros ambientalistas criou uma ONG. Sim uma entidade que podia comprar brigas políticas, mas ao mesmo tempo podia também somar com o governo na missão de proteger o patrimônio natural brasileiro. Assim nasceu a Funatura, por ordem cronológica, a segunda ONG conservacionista de peso do País. A primeira foi a FBCN, criada por Luiz Simões Lopes na Era Vargas, no Rio de Janeiro. A Funatura veio com uma missão específica: defender o bioma mais agredido e dilapidado da Terra Brasilis: o Cerrado. É sobre os 20 anos da Funatura e os 40 de luta pela causa ambiental que vamos conversar com a Maria Natureza Jorge de Pádua.
![]() Maria Tereza Jorge de Pádua, ou melhor: Maria Naturezal |
Folha do Meio – Desde a CESP, onde a senhora dirigia o departamento de Meio Ambiente, passando pelo IBDF e alguns órgãos internacionais, lá se vão mais de 40 anos. Nesse tempo, houve uma profunda mudança na gestão e na conscientização ambiental. A seu ver, quais foram as principais mudanças no mundo e no Brasil?
Maria Tereza – Pois é, 40 anos é tempo… Quando comecei podia contar nos dedos quem trabalhava com o tema no Brasil. É verdade que mudou muito, principalmente em relação à conscientização ambiental. O assunto está na mídia diariamente. Isto porque a população começou a sentir os efeitos da poluição do ar e da água nas suas vidas, devido a desastres ecológicos, lixo e emissão de poluentes e porque os recursos naturais começaram a minguar. Mudou a tal ponto que ninguém mais duvida das mudanças climáticas e de suas sérias repercussões no ambiente. As ONGs cresceram significativamente, tanto em número como em qualidade de trabalho e se iniciou a educação ambiental. O tema tornou-se político e muitos partidos verdes foram criados. A maioria dos países possui Ministério de Meio Ambiente ou órgãos correlatos. Melhoraram as pesquisas e o setor acadêmico, melhoraram os equipamentos e a tecnologia ambiental.
No entanto a destruição é muito mais célere, justamente por causa do crescimento demográfico e da conseqüente e abusiva demanda de recursos naturais.
FMA – Em 1986 nasceu a Funatura, uma das primeiras ONGs no Brasil. Como e onde nasceu a Funatura?
Maria Tereza – Nasceu porque algo precisava ser feito pelo Cerrado, que começava a ser usado para a produção de grãos, sobretudo soja, em larga escala, destruindo tudo que era encontrado de natural pela frente. A destruição do Cerrado demandava uma entidade que demonstrasse sua riqueza de biodiversidade e de recursos hídricos, para evitar que tratassem o bioma como o lixo do país. A missão era lutar para que parte dele pudesse ser conservada para o futuro. Uma ONG podia comprar brigas políticas e somar com o governo na missão de proteger-se o básico. Principalmente as Áreas de Preservação Permanente, que ninguém protegia. A legislação sobre o tema era letra morta.
A Funatura foi a segunda ONG conservacionista por ordem cronológica do país, secundando a FBCN, que estava no Rio e trabalhava mais com Mata Atlântica. Assim a Funatura foi estabelecida para trabalhar no e com o Cerrado. Fomos 69 sócios fundadores e você, Silvestre, foi um deles.
FMA – E como começou?
Maria Tereza – Começamos a bolar a Funatura, no escritório da CESP em Brasília, empresa que naquela época nos emprestou uma sala para a preparação da criação da entidade. Logo depois Christopher Hurdina nos deu para uso uma sala de 80 metros quadrados na sua empresa, com telefone e tudo. Muitos doaram recursos para o fundo necessário, entre eles Paulo Nogueira Neto, José Goldemberg, Thomas Lovejoy, Russel Mittermeier, Roberto Klabin, Roberto Marinho, Rodrigo Mesquita, João Carlos Carvalho, Luiz van Beethoven, Benício de Abreu, algumas empresas e nós mesmos, os sócios fundadores.
Começamos com dois grandes projetos: estabelecimento de RPPNs, que na época chamávamos de Santuários de Vida Silvestre e com o estudo das Gerais, que culminou com a criação do Parque Nacional do Grande Sertão Veredas. Os recursos iniciais destes projetos foram doados pelo IBDF, SEMA e WWF.
Com o desenvolvimento destes projetos, outros foram sendo executados com outras doações. Hoje, a Funatura tem sua história de feitos para contar sobre a proteção do Cerrado…
FMA – Com apenas dois anos de vida, em 1988 a Funatura teve forte presença na Assembléia Nacional Constituinte. Como foi a participação na Constituição de 88?
Maria Tereza – Ajudamos a Frente Verde do Congresso Nacional, que congregava mais de 80 deputados e senadores de todos partidos políticos. A assessoria técnica era dada através do deputado Fábio Feldman, que liderava aquela turma. Há dispositivos constitucionais nascidos dentro da Funatura.
FMA – Quando se fala em devastação, corte de florestas a mídia só sabe focalizar a Amazônia. A senhora não acha que o Cerrado corre muito mais riscos?
Maria Tereza – Sim, sem dúvidas. Já conseguiram destruir mais de 2/3 do Cerrado. Pior que a destruição continua. O Cerrado é um dos maiores hotspots do mundo, isto é, com muita biodiversidade e grande risco de extinções. É uma pena. Salvaram-se algumas áreas como Parques Nacionais ou Estaduais e RPPNs. Mas o Cerrado é o bioma que mais tem RPPNs e acredito que se deve, em grande medida, aos esforços contínuos da Funatura em todos esses anos de sua existência. Muito mais precisa ser feito: as APPs, bem como as reservas legais precisam ser salvas. A legislação tem de ser cumprida e não o é, na maioria dos casos, por falta de gente e de recursos financeiros, embora a situação venha melhorando, graças, também, à atuação do Ministério Público e de ONGs locais.
FMA – O marketing de responsabilidade socioambiental já é uma realidade visível nas empresas brasileiras, ou tem empresa vendendo gato por lebre?
Maria Tereza – Tem algumas empresas vendendo gato por lebre e têm outras que estão prestando um enorme serviço à causa como O Boticário, a Natura, a Petrobras, a Aracruz, alguns bancos ( Unibanco, Bradesco). Não é possível mencionar todas, mas eu não tenho dúvidas que a melhor e mais atuante no Brasil é O Boticário.
FMA – Será que a senhora poderia nos dar um panorama sobre as ONGs brasileiras? Há muito trabalho e seriedade em todas?
Maria Tereza – Há trabalho e seriedade em muitas. Outras são chapas brancas. Outras ainda fazem um serviço de conscientização brutal como a SOS Mata Atlântica. Penso que as que mais têm trabalhado por mais tempo pela conservação da natureza são: FBCN, FBPN, Biodiversitas, SOS Mata Atlântica, SPVS, IESB, Fundação Tamar, SOS Amazônia, Fundação Ipê, Planeta Verde, OECO e, claro, a Funatura. Com certeza estou me esquecendo de muitas, que me perdoem.
FMA – Se a senhora tivesse que premiar 20 brasileiros que lutaram e fizeram algo relevante pelo meio ambiente, quais seriam eles?
Maria Tereza – São muitos, mas vamos lá. Da velha guarda temos que lembrar do Almirante Ibsen de Gusmão Câmara, Almirante José Luiz Belart, Adelmar Coimbra Filho, Alceo Magnanini, José Cândido de Mello Carvalho, Luiz Emydio de Melo Filho, Paulo Nogueira Neto, David Azambuja, Wanderbilt Duarte de Barros. Da nova guarda: Ângela Tresinari, Miguel Milano, Miguel Kriesgner, Sérgio Brant, Fábio Feldman, Gui Marcovaldi, Peter Crawshaw, Fábio Olmos, Hermann Benjamim, Sônia Wieldmam, Leopoldo Brandão e Marcos Sá Correa.
FMA – Em junho de 90, fizemos uma entrevista com a senhora para a Folha do Meio Ambiente. A senhora disse que “a conversão da dívida externa em projetos de meio ambiente representava a salvação do momento e uma fonte de recursos para o futuro”. Esse futuro chegou?
Maria Tereza – Não. A única conversão da dívida que tivemos no Brasil para meio ambiente foi a do Parque Nacional do Grande Sertão Veredas.
FMA – Por falar em futuro, me fale de sua expectativa para os próximos 20 anos para a Funatura e para a gestão ambiental no Brasil…
Maria Tereza – Trabalho tem bastante, cada vez mais, pois a devastação está a toda, em nosso País.
Minha expectativa é que continuem a acreditar que a luta vale a pena e que não podemos roubar da qualidade de vida dos nossos filhos, ou do futuro da nossa espécie.
Henrique Brandão Cavalcanti – ENTREVISTA
Meio ambiente: a gestão governamental começou com ele
Se o assunto é ambiente, Brandão Cavalcanti esteve no início, no meio e agora
Silvestre Gorgulho, de Brasília
A história das ações governamentais a favor do meio ambiente no Brasil começa com um nome de respeito: Henrique Brandão Cavalcanti. Aos 70 anos, aposentado pela Siderbras, Cavalcanti não carrega nenhuma carga de vaidade e arrogância na sua trajetória profissional. E mais: está na trincheira ambiental até hoje. Vamos voltar a junho de 1972, quando aconteceu a primeira grande conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentado, em Estocolmo. Brandão Cavalcanti era simplesmente o secretário da delegação brasileira. A Conferência de Estocolmo foi o divisor de águas no posicionamento mundial pelo meio ambiente. Tranqüilo, determinado e sério nas suas posições, o professor Henrique, então Secretário-Geral do Ministério do Interior, sempre se preocupou com os assuntos ambientais. Em Estocolmo, teve muito trabalho para mudar a orientação do governo que era, nos idos de 72, claramente contrária a essa história de conservação da natureza. Havia mesmo quem pensasse em conspiração dos países ricos contra o desenvolvimento de países mais pobres. Mesmo diante de tantas dificuldades, em pleno regime autoritário, o Brasil acabou assinando a declaração da Conferência sem nenhuma reserva. O fato é que a delegação brasileira concordou que estava na hora de cuidar do meio ambiente, pois os danos começavam a ocorrer em grande escala. Na criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente – Sema, em 1974, lá estava Henrique Brandão Cavalcanti. O Ministério do Interior, na época, era um mini governo: todos os órgãos de desenvolvimento estavam lá dentro. Foi Brandão Cavalcanti que chamou Paulo Nogueira-Neto, que também fez parte da delegação em Estocolmo, para ocupar a recém criada Sema. E, então, o Brasil, começou a perceber que qualquer negócio que não incluísse o meio ambiente era negócio estéril. Mas isso ficou mais claro em 1992, na Conferência do Rio de Janeiro. E lá estava o professor Henrique. Ex-presidente da Siderbrás, Ministro do Meio Ambiente e da Amazônia Legal, no governo Itamar Franco, Henrique Brandão Cavalcanti empresta hoje sua competência e respeito na gestão da Funatura.
![]() Henrique Brandão Cavalcanti: pioneiro na gestão ambiental |
Folha do Meio – O senhor já ocupou várias posições de governo, inclusive a de Ministro do Meio Ambiente. Gostaria de ter uma avaliação: o que é trabalhar no governo e o que é trabalhar numa ONG?
Henrique Brandão Cavalcanti – Ambas as situações podem ensejar oportunidades interessantes de trabalho e de realização pessoal, especialmente se o objetivo último é servir ao país e à sua população. O ideal é que governo e sociedade encontrem formas de atuar em parceria, respeitando-se reciprocamente, e buscando cumprir objetivos comuns. Nesse sentido, todas as experiências que tive e tenho são válidas e se complementam.
FMA – O que é conversão da dívida externa em projetos ambientais?
HBC – Trata-se de uma operação que depende de três fatores: a eventual conveniência do governo brasileiro no ingresso de divisas vinculado a uma destinação específica, o interesse de doadores de países que oferecem benefícios fiscais para determinadas aplicações, em adquirir títulos da dívida brasileira por um valor atraente, e colocá-lo à disposição de uma entidade civil do país beneficiado, e a existência de um projeto ambiental ou socioambiental relevante nesse país a cargo da referida entidade.
FMA – Por que esse é um processo tão difícil para se realizar?
HBC – As três condições mencionadas, além de outros aspectos, certamente precisam existir para que a operação se efetive. Na época em que os títulos da dívida eram negociados com apreciável deságio, havia uma vantagem significativa para o doador. Essa situação se modificou na medida em que se conseguiu reduzir o chamado risco Brasil.
FMA – Qual a importância do projeto de conversão da dívida externa para a Funatura?
HBC – Esses recursos oriundos da conversão são depositados no Banco Central por um determinado período, em nosso caso até 2013. Eles geram para a Funatura uma remuneração relativamente modesta, e sujeita a variações cambiais, porém recebida mensalmente com regularidade..
FMA – E para o Parque Nacional Grande Sertão Veredas?
HBC – Os recursos da conversão destinam-se basicamente à implantação do Parque e ensejaram uma parceria histórica da Funatura com o Ibama.
Até hoje, nesses 20 anos de existência da entidade, e dos 120 projetos realizados nesse período, o Parque é o seu principal projeto de proteção ambiental, localizado no Cerrado do Noroeste de Minas e do Sudoeste da Bahia. Cobre uma área equivalente à metade da superfície do Distrito Federal.
FMA – Por que outras ONGs também não conseguiram promover a conversão da dívida em projetos socioambientais?
HBC – Acho que apenas por uma questão de oportunidade.
FMA – O Ministério Público tem feito acompanhamento sério e permanente junto às fundações e ONGs?
HBC – Pelo Código Civil, cabe ao Ministério Público velar pelas Fundações. No caso da Funatura, ele exerce de forma cuidadosa essa atribuição, analisando os programas de trabalhos e as contas da instituição, e sua conformidade com os procedimentos por ele estabelecidos, contribuindo com sugestões e comentários sempre que necessário.
FMA – Qual a importância deste acompanhamento?
HBC – Simples, eu penso que uma entidade sem fins lucrativos, especialmente aquelas declaradas de utilidade pública, amparadas de alguma forma por isenções ou exonerações, precisa ser transparente. E transparente em todos os seus aspectos e atividades.
FMA – Por que o Brasil ainda não conseguiu criar um incentivo fiscal para projetos na área ambiental?
HBC – Veja, está tramitando no Congresso Nacional um Projeto que estabelece uma possibilidade de renúncia fiscal, com limite de valor, para aplicação em projetos de proteção do meio ambiente. Temos acompanhado de perto esta iniciativa e analisado os diversos projetos com essa finalidade, tantos os projetos de origem do Executivo como dos parlamentares. Tenho esperança e acho que podemos ter otimismo em relação à eventual aprovação de um texto satisfatório.
FMA – O senhor não acha que as ONGs tinham que prestar mais conta dos recursos recebidos e dos trabalhos efetuados à sociedade?
HBC – Acho sim, mesmo porque esse trabalho do Terceiro Setor vem tendo uma evolução muito forte. Essa expansão pelo mundo é praticamente um fenômeno. Talvez por isso deve requerer de outros segmentos da própria sociedade, e por sua delegação, também do governo, a formulação de políticas públicas que respondam adequadamente a indagações como essa, sejam elas de caráter político, financeiro, cultural ou de segurança nacional.
FMA – Como o senhor vê os próximos 20 anos?
HBC – Há muito que fazer. Há muitas prioridades. Quanto mais a gente faz, a gente tem a sensação que aparecem mais coisas ainda por fazer. Esses 20 anos foram assim e os próximos 20 anos também serão assim. O importante é fazer bem feito o que tem que ser feito. Um dos desafios é a batalha pela criação de áreas protegidas, principalmente no Cerrado, e sua gestão eficaz de acordo com os respectivos planos de manejo. Isso abrange parcelas de proteção integral, e outras destinadas à pesquisa e ao turismo. Abrange também sua completa regularização fundiária e estrutura administrativa competente. São muitos desafios. O importante é proteger um patrimônio de expressão mundial que tem, pela sua singularidade e relevância biológica, reflexos no bem-estar da população.
Muitas medidas devem ser levadas adiante em consonância com as diretrizes do desenvolvimento nacional, incluindo medidas específicas tais como o zoneamento ecológico-econômico, a expansão planejada da atividade agropecuária, a construção de uma infraestrutura eficiente de transportes terrestres e a universalização dos serviços públicos.
Mas não podemos de ficar atentos aos aspectos humanos, aos serviços básicos e à preservação do patrimônio cultural das comunidades presentes nessas regiões. Em particular no entorno dessas unidades de conservação, tanto públicas como privadas.
Reportagens
Escritor Joaquim Arena preenche vazios de Europa negra invisibilizada
Autor participa do Clube do Livro do CCBB-RJ
Ana Cristina Campos – Repórter da Agência Brasil
Revelar uma Europa negra, apagada das narrativas oficiais, é o que propõe o autor luso-cabo-verdiano Joaquim Arena, que revisita a presença de africanos e seus descendentes no continente europeu por meio do livro Debaixo da nossa pele (2017).

A partir de viagens por Portugal, arquivos e relatos, o escritor reconstrói trajetórias de personagens negros pouco conhecidos. A jornada também se cruza com a história da migração cabo-verdiana para Lisboa e com a trajetória do próprio escritor.
Arena nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 1964. É filho de pai português e de mãe cabo-verdiana e viveu grande parte da sua vida em Lisboa. Em Portugal, ele se formou em direito e iniciou a carreira em jornalismo.
O escritor está no Rio de Janeiro para participar do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ), no centro da capital fluminense, às 17h30 desta quarta-feira (14).
Autor de seis romances, traduzidos em várias línguas, Arena escreveu Siríaco e Mister Charles, vencedor do Prémio Oceanos de Literatura, na categoria Prosa, em 2023. Atualmente, reside em Cabo Verde, na cidade de Praia.
Cabo Verde e Brasil
Com o tema “Romance histórico: onde a realidade encontra a ficção”, o encontro gratuito propõe uma conversa sobre memória, pertencimento, identidade e as marcas do passado colonial que permanecem no presente.
A partir da obra de Arena, o evento busca aproximar experiências históricas e culturais de Cabo Verde e do Brasil, dois países atravessados por deslocamentos populacionais, encontros entre diferentes culturas e pelas relações entre África e Europa.
O autor conta que Debaixo da nossa pele fala da miscigenação e da circulação dos povos da África para a Europa. O público poderá perceber semelhanças com a formação do Brasil.
“Debaixo da nossa pele fala dessa condição humana de deslocamento das pessoas de um país a outro, levadas por questões econômicas, sociais e políticas. O livro faz essa síntese, pois a circulação continua ainda hoje, é positiva, abre oportunidades de novas janelas de vida para muitas pessoas”, diz Arena.
Preenchendo vazios
Para o escritor, a história tem um poder atrativo mais forte do que o presente.
“Sou levado a encontrar, no meio dos fatos históricos, os vazios. São esses vazios que eu pretendo preencher através da minha ficção. Aproveito episódios verídicos que são muito inspiradores para que nós imaginemos uma personagem. Fico com vontade de saber mais, senão eu invento a personagem”, afirma o autor.
Arena conheceu a literatura brasileira aos 12 anos, com a obra de Jorge Amado. Ele se identificou com o livro Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, que também fez parte da sua formação. Para ele, foi uma porta de entrada de uma literatura que não era portuguesa, europeia nem africana.
“Nós, das antigas colônias portuguesas, recebemos a literatura brasileira como uma janela para um mundo muito semelhante ao nosso”.
“Jorge Amado, com sua Bahia, está na formação de muitos autores lusófonos na África. Depois, vamos crescendo e encontrando Guimarães Rosa, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos. O romance da década de 30 fala dos retirantes, da seca. É uma realidade muito próxima da nossa”, diz Arena.
O autor acredita que um clube de leitura é um reduto onde se mantém ainda uma magia e em que se ouve falar de invenções.
“Há um pacto do autor com o público. O escritor sabe que o que ele inventou não existiu. O leitor sabe que o romance saiu da imaginação. Isso cada vez mais num mundo acelerado, com redes sociais, com streamings”.
Reportagens
Técnicos apresentam o andamento das metas fiscais do governo
Apresentação feita à CEOF mostra que, até agosto, receita corrente líquida do DF foi de R$ 28 bilhões, o que significa cerca de 72% da meta
Foto: Felipe Ando/Agência CLDF
Com relação à despesa total empenhada, GDF gastou R$ 31 bilhões até agosto, dos R$ 47,6 bilhões previstos para o ano
A Comissão de Economia, Orçamento e Finanças da Câmara Legislativa realizou audiência pública na manhã desta quinta-feira (15) para avaliar as metas fiscais do Governo do Distrito Federal nos primeiros 8 meses de 2026. Na ocasião, técnicos do governo apresentaram à comissão números referentes a receitas e despesas do GDF nos dois primeiros quadrimestres do ano em comparação às metas previstas nas leis orçamentárias.
Confira a cobertura fotográfica no Flickr da CLDF
Com relação às receitas correntes, a previsão inicial para 2026 era de R$ 39 bilhões e o valor alcançado até agosto é de R$ 28 bilhões, o que significa um alcance de 71,85% da meta. As receitas de capital até agosto somam R$ 1,1 bilhão, enquanto a previsão inicial para 2026 era de R$ 726 milhões, o que representa 163,16% de alcance da meta. O total de receitas tributárias até agosto soma R$ 20,1 bilhões, enquanto a previsão para o ano era de R$ 25,4 bilhões, representando 79,29% da meta estabelecida. O ICMS, sozinho, representa 46,2% de toda a arrecadação com impostos e taxas. Com relação à despesa total empenhada, a dotação autorizada para 2026 era de R$ 47,6 bilhões, sendo que o governo gastou R$ 31 bilhões até agosto, o que representa 65,3% da dotação.
Para o deputado Eduardo Pedrosa (União Brasil), presidente da CEOF, os números são positivos para o governo. “De maio a agosto, tivemos um incremento na casa de R$ 1 bilhão fruto da alienação de bens. Assim chegamos a 72% do total previsto a realizar de receita. Já temos um indicativo de que teremos excesso de arrecadação ao longo do último quadrimestre. Estamos chegando a quase 50% do saldo total previsto para investimentos no ano, que é de R$ 3,5 bilhões. Isso mostra que os investimentos não pararam mesmo diante de situações orçamentárias excepcionais”, avaliou.
Representando o governo, o assessor especial de política fiscal da Secretaria de Economia do DF, Luiz Barreto, ressaltou que o ano de 2026 foi impactado pelo déficit orçamentário do ano anterior. “O DF, nos últimos dois anos, apresentou déficit. E esse déficit teve impacto em 2026. Nós entramos em 2026 com quase R$ 3 bilhões de déficit. Por isso, a execução orçamentária de 2026 precisa priorizar o que é relevante, como saúde e educação. Até o presente momento temos um resultado primário de superávit de R$ 1,8 bilhão na Lei de Diretrizes Orçamentárias e déficit de R$ 1,5 bilhão na Lei Orçamentária Anual”, explicou.
O assessor também comentou os números relacionados a gastos com pessoal e repasses obrigatórios para a educação. “Até agosto tivemos um índice de 40,54% do orçamento destinado para gasto com pessoal, o que está dentro do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal. Sobre os mínimos empenhados em educação, a lei determina que ao final do exercício temos que atingir 25% e hoje estamos em 23%”, relatou Barreto. A íntegra da audiência pública está disponível no canal da TV Câmara Distrital no YouTube.
Eder Wen – Agência CLDF
Reportagens
Debatedores alertam para diferentes formas de violência contra meninas
A audiência foi presidida pela senadora Leany Lemos (C)
Geraldo Magela/Agência Senado
Crianças e adolescentes representam um terço dos usuários de internet no mundo. No Brasil, um em cada cinco adolescentes foi vítima de alguma forma de abuso ou exploração sexual facilitada pela tecnologia em 2025. A maioria das vítimas é formada por meninas, e a violência ocorre principalmente em aplicativos conhecidos, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A informação foi apresentada nesta quinta-feira (15) em audiência da Comissão de Direitos Humanos (CDH), que debateu os desafios das políticas públicas para garantir a proteção integral das meninas no país. Os participantes também alertaram para outras formas de violência contra meninas e defenderam medidas de prevenção e proteção.
O debate foi requerido pela presidente do colegiado, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), em alusão ao Dia Internacional da Menina, celebrado no domingo (11), por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU). A reunião foi presidida pela senadora Leany Lemos (PSB-DF), suplente da senadora licenciada Leila Barros (PDT-DF). Para Leany, é preciso prevenir violências e permitir que cada menina desenvolva plenamente as suas capacidades.
— Quantas meninas ouvem que a liderança não é para elas? Quantas assumem responsabilidades domésticas e do cuidado antes de terem condições de construir seus próprios projetos de vida, e nisso elas nem sonham ser outras coisas, porque elas não têm essas oportunidades? Quantas meninas, na maioria negras ou pobres das periferias e das regiões distantes do Brasil, enfrentam obstáculos ainda maiores para exercer esses direitos, que são direitos universais? Então, essas perguntas têm que orientar as nossas políticas públicas — afirmou.
Ambiente digital
A coordenadora-geral de Direitos Humanos da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Fernanda Souza Carlos, afirmou que a exploração sexual de crianças e adolescentes exige novas estratégias de enfrentamento, diante da migração de parte dos crimes para o ambiente digital. Ela defendeu a articulação entre órgãos públicos e sociedade civil para ampliar a proteção às meninas.
— O crime que a gente via antigamente com as meninas, as crianças à beira da rodovia, hoje, a gente não vê mais. Esse crime está no digital. Então, cada vez mais fica mais complexo o combate aos crimes voltados à exploração sexual de crianças e adolescentes, porque, de certa forma, ele está invisível. Então, precisa-se de um trabalho muito maior, porque tem muita coisa que a gente não está vendo fisicamente aqui, mas está acontecendo pelo aparelho de celular, que todo mundo tem hoje em mãos — afirmou.
A diretora de Projetos Especiais da SaferNet Brasil, Juliana Cunha, alertou para o uso da inteligência artificial generativa na produção de material de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Segundo ela, mulheres e meninas são as principais vítimas desse tipo de violência. A diretora afirmou que o caráter artificial do conteúdo leva parte da população a subestimar o crime, que provoca danos às vítimas.
O representante do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ricardo de Lins e Horta, destacou mudanças na legislação brasileira, entre elas a entrada em vigor em 2025 do ECA Digital e da Lei 15.487, de 2026, que aumenta penas para crimes sexuais contra crianças e adolescentes na internet. Segundo ele, o país avançou no enfrentamento de crimes como a violência sexual on-line, o cyberbullying e a extorsão sexual, mas precisa garantir a implementação das normas e das políticas de proteção.
— A gente tem uma base legislativa sólida, o desafio é implementar toda ela — afirmou.
Outras violências
Coordenadora de Políticas Educacionais da ONG Associação Serenas, Graziela Larissa da Silva Santos chamou a atenção para comportamentos que podem ser tratados como brincadeiras, mas que violam os direitos das meninas. Segundo pesquisa da organização, sete em cada dez professores ouvidos presenciaram “cantadas” indesejadas dirigidas a meninas nas escolas, e 42% relataram ter visto alunos tocar ou acariciar o corpo de meninas sem consentimento. Ela defendeu a formação de professores e gestores para prevenir a violência, acolher as vítimas e encaminhá-las à rede de proteção.
A delegada-chefe adjunta da Polícia Civil do Distrito Federal, Cyntia Cristina de Carvalho e Silva, destacou que o atendimento não deve se limitar à investigação criminal. Para ela, é necessário articular os serviços de segurança pública, saúde e assistência social, considerando também situações de dependência financeira e os riscos enfrentados pelas vítimas após a denúncia.
— A proteção e a responsabilização precisam caminhar juntas — afirmou.
Os participantes ainda abordaram a gravidez na adolescência e seus impactos na trajetória escolar e profissional, além de questões relacionadas à saúde menstrual e à violência sexual dentro de casa.
Também participaram do debate a especialista em gênero e inclusão da Plan International Brasil, Ana Nery Lima; a coordenadora de Relações Governamentais do Instituto Alana, Tayanne Galeno; a gerente de Comunicação do Instituto Liberta, Renata Greco; e a gerente Meal e Estratégia da Organização Visão Mundial, Manuela Franchini Melani.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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