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Aqüicultura : o milagre na multiplicação dos peixes

É preciso estudar, proteger e criar condições para que os rios e lagos tenham mais peixe

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No mundo inteiro tem muita gente pescando, tem muita gente usando água para irrigação, tem muita gente fazendo barragens para construir hidrelétricas, tem muita gente acabando com as lagoas marginais (que funcionam como berçários naturais e únicas fontes contínuas de recrutamento de peixes para os rios), tem muita gente, em nome do desenvolvimento e do progresso, usando, depredando e poluindo. E, o que é mais grave, tem pouca gente preocupada em estudar, em proteger e em criar condições para que os rios e lagos tenham mais peixes – um dos mais importantes alimentos para o homem.


É tão comum se ouvir dos mais velhos a triste constatação da realidade de rios e lagos brasileiros: “Antigamente, aqui havia tanto peixe. E peixes de 10, 15, 20 quilos. Hoje, eles foram embora.” Eles não foram embora não. Eles, simplesmente, foram impedidos de crescer e de se reproduzirem. Com isto, estão acabando.


A água é igualzinha à terra. Para que o solo seja bom para plantar e para produzir mais, ele precisa ser cuidado e tem que ter suas propriedades físicas, químicas e biológicas resguardadas. Assim também é a água. E olhe que, comparando o solo com a água, aparentemente a água é mais simples que o solo. Só aparentemente, pois a água é um substrato muito mais complicado em todos os aspectos. Por isso, para que nela haja peixes e para que nela os peixes cresçam e se reproduzam, é necessário que a água conserve suas qualidades e condições ideais de vida.


Os dados são da FAO: em 1991 o homem tirou da água cerca de 97 milhões de toneladas de peixes. Deste total, 16.6 milhões de toneladas (cerca de 17,1 %) foram resultados da aqüicultura.


A Folha do Meio Ambiente, nesta edição de agosto e na próxima edição de setembro, faz uma ampla reportagem sobre a reprodução de peixes: o processo artificial (hipofisação) – técnica inventada pelo brasileiro Rodolpho von Ihering, em 1934, e hoje adotada no mundo inteiro – e o processo natural, em que muitas espécies necessitam migrar rio acima até encontrar condições adequadas para reprodução.


Para a edição de setembro, a FMA prepara uma reportagem ampla, denunciando que a pesca predatória, a instalação de indústrias poluidoras, a drenagem e a tapagem dos alagados para ampliação das fronteiras agrícolas, tudo isto está provocando um terrível impacto ambiental, acabando com os rios e seus criadouros naturais. E, no caso do rio São Francisco – onde atuam mais de 63% de todo o contigente de pescadores de Minas Gerais – acontece um sério desequilíbrio do ecossistema, com um resultado terrível: a diminuição da população de peixes e a extinção de várias espécies. Bem, mas tudo isto será para a próxima edição.


A reprodução artificial


O homem gosta de usar e abusar. Ele pode ser instrumento da vida e da morte. O mesmo homem que usa sua inteligência para depredar, também pode usar sua inteligência para criar. O problema é que os primeiros são em muito maior quantidade que os segundos. No caso da reprodução dos peixes foi assim. Depois de muitos só pensarem na pesca predatória, foi um brasileiro, chamado Rodolpho von Iherlng, quem salvou literalmente a lavoura.


A reprodução é a atividade biológica mais vital para a preservação das espécies animal e vegetal. Segundo o engenheiro de pesca da Codevasf, Albert Bartolomeu Sousa Rosa, 41 anos, no caso dos peixes, a reprodução no ambiente natural é determinada pela idade de maturação sexual, condições ambientais, época do ano, local de desova e cuidados da prole exercidos pelos reprodutores e matrizes de muitas espécies.


Nos peixes, como em todos os animais, os fatores determinantes da reprodução estimulam uma glândula, conhecida por hipófise, existente na base do cérebro, que envia mensagens (hormônios) às gônadas (ovários em fêmeas e testículos em machos), para que se preparem e realizem a desova.


Muitas espécies de peixes de água doce de importância econômica necessitam migrar rio acima para realizarem a reprodução, fenômeno este conhecido como piracema. É, justamente, essa viagem rio acima, esse esforço e os fatores ambientais que provocam os estímulos para a reprodução.


A temperatura da água, enxurradas provocadas pela chuva e a ampliação da quantidade de horas de luz por dia (na primavera), induzem a hipófise a intensificar a produção de hormônios para provocar a reprodução de muitas espécies de peixes. A “hipófise” é, portanto, o órgão que comanda todo o processo de reprodução.


Explica o técnico Albert B. Sousa Rosa a necessidade de se promover a reprodução artificial de peixes, está relacionada ao interesse em se realizar seu cultivo comercial, o que exige a produção em alta escala dos alevinos (filhotes de peixes) e, também, com o objetivo de se obter alevinos de espécies que se encontram em vias de extinção, permitindo a realização do povoamento de rios e barragens.


Como as espécies de piracema, ou seja, aquelas que necessitam realizar a migração para a reprodução, não atingem pleno desenvolvimento das gônadas quando se encontram permanentemente em águas paradas (lagoas, tanques, barragens etc.), é preciso que se estimule fêmeas e machos a completarem o estágio de maturação gonadal, para que consigam realizar a desova. Aí, mais uma vez, entra a hipófise, como elemento imprescindível à obtenção da reprodução artificial. Injetando artificialmente a mesma quantidade de hormônio que a hipófise forneceria aos ovários e aos testículos, se estivessem em condições ambientais naturais, então poder-se-á fazer, também, com que os peixes de piracema se reproduzam em águas paradas. Esta técnica, conhecida como “hipofisação”, foi desenvolvida pelo cientista brasileiro Rodolpho Von Ihering.


Os doadores de hipófises


A forma mais comum de se obter o hormônio a ser fornecido aos reprodutores e matrizes para a reprodução artificial, é retirando-o de outros peixes, que funcionam como doadores. Alguns peixes são cultivados com o objetivo principal de fornecerem suas hipófises para a reprodução de outros peixes. Cada peixe possui uma hipófise que, próximo à época de desova, possui certa quantidade de hormônio.


O doador é sacrificado, sua hipófise é retirada e acondicionada em frasco apropriado para utilização em momento adequado. Alguns peixes são sacrificados para produzirem milhões de outros peixes. A carne do peixe sacrificado ou doador pode ser utilizada no consumo humano.


A seleção e a aplicação – Explica o técnico Albert B. Sousa Rosa que a seleção dos peixes para a reprodução leva em consideração aspectos externos bem característicos, como ventre bem abaulado nas fêmeas, à semelhança do que acontece com as mulheres grávidas, enquanto nos machos uma leve pressão em seu abdômen o faz liberar gotas de sêmen de cor esbranquiçada. Os peixes selecionados são transportados para tanques pequenos, que apresentam condições especiais, como água corrente, limpa e temperatura adequada. Normalmente, não se mantêm as fêmeas e os machos num mesmo tanque.


No ambiente natural, a dosagem de hormônio a ser liberada da hipófise para as gônadas é regulada com precisão nos reprodutores e matrizes. Para a desova artificial, é feita uma estimativa da necessidade de hormônio, em função do peso dos reprodutores. As hipófises coletadas de peixes doadores são então utilizadas, com aplicação através de seringas na cavidade abdominal do peixe receptor (ver figura n.º 2). O efeito da aplicação costuma levar algumas horas, dependendo da espécie e da temperatura da água onde se encontram os peixes. Empiricamente, conseguiu-se determinar, aproximadamente, o tempo necessário para ocorrer a desova em cada em cada espécie de peixe, após a aplicação do hormônio.


Na natureza a fecundação do ovo ocorre, na maioria das espécies de peixes, no meio onde se encontram (rio, lagoa, bagagem etc.). Fêmeas e machos, nadando lado a lado, lançam seus produtos gonadais (óvulos e espermatozóides, respectivamente) na água e aí ocorre a fecundação. Na reprodução artificial, costuma-se coletar os óvulos em uma bacia plástica de pequeno tamanho, sem água (ver figura n.º 3). Os espermatozóides são coletados em tubos de ensaios (ver figura n.º 4) para depois serem derramados para a fecundação. Com uma delicada pena de ave, vai se fazendo a mistura, de forma que o sêmem atinja todos os óvulos. Alguns instantes depois se adiciona água, permitindo uma maior homogeneização dos produtos gonadais e a hidratação dos óvulos. Qual a vantagem da fecundação artificial sobre a natural? É simples: a fecundação natural ocorre num ambiente muito mais amplo, na presença de vários predadores, diminuindo a sobrevivência dos ovos e lavas.


A incubação é feita em recipientes apropriados com água corrente, onde, após alguns dias, ocorre a eclosão das lavas (nascimento dos peixinhos). Costuma-se manter as larvas por mais alguns dias na incubadora, até que elas consumam a reserva nutritiva (gema), que elas já possuem ao nascer. Após esta fase, as pós-larvas são levadas para tanques preparados, onde há abundância de a1imentos.


Estima-se que, na natureza, apenas 1% dos ovos liberados pelas fêmeas conseguem atingir a condição de peixes jovens. Algumas espécies chegam a produzir mais de 2 milhões de ovos /fêmea/ano. A capacidade de multiplicação dos peixes é infinitamente maior comparada aos bovinos, suínos e aves, especialmente em cativeiro.


A importância da aqüicultura


No Brasil, apesar dos 8.400 quilômetros de costa e de extensas bacias hidrográficas (só a Amazônia detém 18% da água doce do planeta), o consumo anual de pescado é de apenas 5,8 kg percapita, contra 16 kg no Canadá e 65 kg no Japão. Enquanto em Manaus o consumo de pescado atinge o expressivo número de 50 kg/habitante/ano, há regiões no interior do país onde o consumo percapita está abaixo de 1 kg/ano. O hábito alimentar está diretamente relacionado à oferta do produto.


A exceção de Manaus e de outras cidades localizadas às margens de rios piscosos, o consumo de pescado no litoral brasileiro é cerca de 10 vezes superior ao registrado no interior do país, exatamente onde a oferta de pescado é mais baixa. O oceanógrafo francês Jacques Yves Cousteau afirmou na Conferência das Organizações das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, a Eco-92, que “os oceanos estão exauridos”. A pesca predatória está reduzindo drasticamente os estoques pesqueiros de ambientes naturais, sejam eles mares ou rios. As frotas pesqueiras dotadas de sofisticados equipamentos para detecção de cardumes facilitam a pesca, porém, torna as populações de peixes cada vez mais vulneráveis. Exemplifica Albert B. Sousa Rosa: a produção nacional de sardinha, um alimento consumido em grande escala pelas classes de menor poder aquisitivo da população brasileira, atingiu mais de 200 mil toneladas/ano em meados da década de 70. Atualmente, a produção dessa espécie se encontra abaixo de 60 mil toneladas/ano, ou seja, uma redução de 70%, enquanto a população brasileira cresceu cerca de 65%.


Segundo a ONU, por volta do ano 2000 será necessário produzir cerca de 120 milhões de toneladas de pescado por ano, um acréscimo de 30 milhões do que é produzido atualmente. Os técnicos garantem que a única forma de fazer frente a esse desafio é através da aqüicultura, que trata da criação racional de animais e vegetais aquáticos. A produção de pescado oriundo da aqüicultura já representa cerca de 17,1 % do total da produção mundial, sendo que a participação do Brasil é inferior a 0,03%.
O fato é que, em todo o mundo, multiplicam-se as “fazendas” de criação de peixes (piscicultura), camarões (carcinicultura), moluscos (ostreicultura e mitilicultura) e algas (algicultura).


Concluindo, Albert B. Sousa Rosa explica que o processo de reprodução artificial de peixes foi e será cada vez mais imprescindível para o aumento das áreas de cultivo, uma vez que o mundo precisa produzir mais proteínas e os peixes participam com mais da metade da produção de produtos oriundos da aqüicultura.


Entraves para o desenvolvimento da aqüicultura no Brasil


· Pouca tradição no cultivo de animais e vegetais aquáticos no país;
· Deficiência de geração e transferência de tecnologias para diferentes espécies de peixes, regiões e clientelas;
· Insuficiência de insumos básicos (alevinos, pós-larvas, ração apropriada etc.), em quase todas as regiões do país;
· Falta de conhecimento dos mercados regionais para os produtos gerados pela aqüicultura, o que vem dificultando a comercialização dos produtos;
· A reduzida área de produção em cativeiro de pescado não tem estimulado o desenvolvimento de uma indústria vo1tada para a aqüicultura;
· Escassez de linhas de financiamento para o setor;
· Insuficiente assistência técnica qualificada;
· Falta de vontade política para o desenvolvimento do setor.

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Comedouros Criativos

A alimentação complementar aumenta a diversidade nas cidades

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Importante lembrar que aquele hábito antigo de colocar ração ou frutas em um recipiente fora de casa para atrair os passarinhos, não era capricho das nossas avós: essa prática de fato beneficia as espécies a longo prazo. A revista científica “Nature Communications” monitorou voluntários que, durante quatro décadas, gostavam de alimentar pássaros em comedouros de jardins e praças urbanas do Reino Unido. O estudo foi publicado comprovando que o número de pássaros não só aumentou como outras variedades se aproximaram e sobreviveram às intempéries e ao forte avanço dos centros urbanos.

No Brasil, que não tem um inverno tão forte, ocorre fenômeno semelhante. Um fato de fácil constatação é que o número de espécies que não frequentam a “boca-livre” permaneceu estável. Também não há aumento na quantidade de pássaros em regiões onde os comedouros não são tão comuns.

Nos comedouros preparados por Johan Dalgas Frisch na sua casa, no centro de São Paulo, logo ao amanhecer, as primeiras interessadas que chegam logo ao amanhecer são as jandaias.

 

HIGIENTE É IMPORTANTE

Mas há um dado significativo e essencial: a higiene dos comedouros é super importante. Não basta colocar alimentos nos jardins de sua casa e garantir a alimentação diária às aves. A má higiene dos comedouros pode contribuir para a transmissão de doenças entre as aves e atrair animais não desejáveis como ratos. Por isso, certifique-se de que o seu comedouro esteja sempre limpinho.

 

AS LIÇÕES DE ROBERTO HARROP

Os comedouros para aves podem ser sofisticados e muito simples. Podem servir de objetos de decoração e algo bem natural como simplesmente colocar um pedaço de frutas espetados num galho de árvore.

 

O cientista social e pesquisador de mercado Roberto Harrop é fascinado por aves. Pernambucano do Recife, tem residência no Condomínio Bosque Águas de Aldeia, onde se dedica a estudar, alimentar, proteger e fotografar as aves da região.

 

Roberto Harrop faz do estudo, da pesquisa e da proteção da natureza seu meio de vida. Na região onde mora, são centenas de espécies de aves , sendo quase cem já fotografadas por Roberto Harrop. Muitas delas compõem seu livro ALVES DE ALDEIA – ORNITOLOGIA DA NAÇÃO PERNAMBUCANA.

 

AVES DE ALDEIA seleciona 75 pássaros do universo ornitológico plantados na aldeia pernambucana onde Roberto Harrop colhe todas as manhãs pelo seu olhar ornitófilo.

 

No prefácio da publicação, o ornitólogo Johan Dalgas Frisch foi muito feliz ao dizer: “… As aves são assim: provocam paixões e despertam encantamento. As aves alimentam a alma humana de humildade, criatividade, engenho e de amor à natureza”.

 

 COMEDOUROS DECORATIVOS

Alguns tipos de comedouros criativos e decorativos que atraem aves até às varandas e jardins das casas.

 

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Pantanal apoia primeira brigada comunitária

Primeira brigada comunitária de São Pedro de Joselândia, no Pantanal de MT, será formada neste fim de semana

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Sesc Pantanal

Treinamento da SOS Pantanal, em parceria com o Polo Socioambiental Sesc Pantanal, acontece nos dias 19, 20 e 21 de junho

 

Começa neste final de semana, o treinamento para a formação da primeira brigada comunitária de São Pedro de Joselândia (171 km de Cuiabá), distrito de Barão de Melgaço, no Pantanal mato-grossense.

A turma de 28 pessoas, que inclui moradores e guarda-parques da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN Sesc Pantanal), faz parte da iniciativa do Instituto SOS Pantanal para estabelecer 28 brigadas no bioma.

São Pedro de Joselândia faz divisa com a RPPN, unidade do Polo Socioambiental Sesc Pantanal que é parceiro da ação e responsável pelos equipamentos doados pela SOS Pantanal em benefício da comunidade. A RPPN Sesc Pantanal é a maior reserva natural privada do país, com 108 mil hectares, e também está localizada no município de barão de Melgaço.

COMBATE À INCÊNDIOS FLORESTAIS
As brigadas serão treinadas com apoio do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos recursos naturais renováveis (Ibama), em convênio com a SOS Pantanal. Também apoiam o treinamento o Corpo de Bombeiros e o Serviço Florestal dos Estados Unidos.

A capacitação consiste em duas etapas. A primeira é uma parte teórica, onde são passadas as instruções e os procedimentos para organização das equipes durante o combate. A segunda é a parte prática, onde os brigadistas aprendem no campo como funciona o combate às chamas.

 

BRIGADAS PANTANEIRAS

Durante os meses de junho e julho, a SOS Pantanal capacitará cerca de 200 brigadistas, em 8 municípios diferentes de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. As brigadas estão espalhadas nos principais pontos onde historicamente o fogo é mais intenso e recorrente.

 

SESC PANTANAL

Com 20 anos de experiência na prevenção e combate a incêndios no Pantanal, a Brigada Sesc Pantanal também fará parte da formação. A instituição já realizou no mês de maio a sua capacitação anual de novos brigadistas, em Poconé e Barão de Melgaço, que faz parte das ações preventivas do Polo para a temporada da seca no bioma. Realizada em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Mato Grosso, a formação foi destinada a 40 pessoas, entre guarda-parques, funcionários de fazendas e comunidades rurais e pantaneiras.

 

 

 

 

 

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Meu amigo Orlando Villas-Bôas seu nome é paz!

Carta de saudade

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A vida ensina sempre. Ensinou a você, Orlando, Álvaro, Leonardo e Claudio, ensina a mim e ensina aos nossos filhos. Uma das coisas que aprendi é que só a saudade faz a gente parar no tempo. Sua despedida neste 12 de dezembro 2003, me fez voltar ao mesmo dezembro de 1972, quando você, que tinha acabado de chegar das margens do rio Peixoto, no Xingu, onde contactava os Krenhacãrore, pegou uma kombi em São Paulo e foi para Belo Horizonte paraninfar a turma de Comunicação da UFMG 1972. Por três dias ficou hospedado na minha “república” no 26ª andar do edifício JK, na praça Raul Soares.

À véspera da formatura, 20 de dezembro de 1972, meus 29 colegas e eu tivemos uma verdadeira Aula Magna de Brasil. Foi a mais importante aula dos meus quatro anos de universidade. A aula que direcionou meu caminhar profissional: o jornalismo de meio ambiente. Éramos 30 formandos que, na véspera da grande festa, sentamos no chão do meu apartamento, em círculo como nas tribos, para embevecidos escutar você falando de florestas, de índios, de brancos, de rios, de solidariedade e de bichos.

Sua primeira lição foi, para mim, ex-seminarista, um susto:

“Desde o Descobrimento o homem branco destrói a cultura indígena. Primeiro para salvar sua alma, depois para roubar sua terra”.

Depois vieram as perguntas para matar nossas curiosidades. Suas respostas doces, duras e definitivas vinham aquecidas pela vasta vivência de décadas na Amazônia, como último dos pioneiros da saga da expedição Roncador/Xingu. Eram ouvidas com máxima atenção:

“Foram os índios que nos deram um continente para que o tornássemos uma Nação. Temos para com os índios uma dívida que não está sendo paga”.

“Não fosse a Escola Paulista de Medicina, a Força Aérea Brasileira e a nossa teimosia, muitas tribos já teriam sido aniquiladas”.

“O Serviço de Proteção ao Índio, no Brasil, nunca teve lugar seguro: começou no Ministério da Guerra, com o Marechal Rondon. Depois foi transferido para o Ministério da Agricultura, estagiou no Ministério do Interior e estacionou no Ministério da Justiça. Como o próprio índio, esse serviço parece um estorvo”.

“O índio só pode sobreviver dentro de sua própria cultura”.

 

AMIGO ORLANDO, você junto com Leonardo, Álvaro e Cláudio, irmãos aventureiros na solidariedade, sempre devem estar relembrando histórias fantásticas. Para os índios, vocês vão se juntar ao Sol e ao trovão para virar lenda. E, para os brancos, deixam uma lição de vida e de coragem.

Das lições daquela noite de 20 de dezembro de 1972, eu guardo uma muito especial. Em vez de ensinar, o homem branco deveria ter humildade para aprender. Você falava da harmonia em uma tribo:
“O velho é o dono da história, o homem é o dono da aldeia e a criança é a dona do mundo”.

 

Meu amigo, obrigado pelas lições dadas há exatos 49 anos.

Obrigado por você ter me apresentado o Brasil e ensinado a ser brasileiro.

Nunca mais vou esquecer que para a criança ser a dona do mundo, nós temos que seguir seu exemplo de garra, de audácia e de aventura para defender nossas culturas, conservar nossa diversidade, preservar nossas florestas, proteger nossos rios e contactar sempre em nome da paz.

A PAZ não se pode manter pela violência e pela força, mas sim pelo respeito, pela tolerância e pela serenidade.

 

MEU AMIGO ORLANDO VILLAS-BÔAS. SEU NOME É PAZ!

 

 

 

 

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