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Aqüicultura : o milagre na multiplicação dos peixes

É preciso estudar, proteger e criar condições para que os rios e lagos tenham mais peixe


No mundo inteiro tem muita gente pescando, tem muita gente usando água para irrigação, tem muita gente fazendo barragens para construir hidrelétricas, tem muita gente acabando com as lagoas marginais (que funcionam como berçários naturais e únicas fontes contínuas de recrutamento de peixes para os rios), tem muita gente, em nome do desenvolvimento e do progresso, usando, depredando e poluindo. E, o que é mais grave, tem pouca gente preocupada em estudar, em proteger e em criar condições para que os rios e lagos tenham mais peixes – um dos mais importantes alimentos para o homem.


É tão comum se ouvir dos mais velhos a triste constatação da realidade de rios e lagos brasileiros: “Antigamente, aqui havia tanto peixe. E peixes de 10, 15, 20 quilos. Hoje, eles foram embora.” Eles não foram embora não. Eles, simplesmente, foram impedidos de crescer e de se reproduzirem. Com isto, estão acabando.


A água é igualzinha à terra. Para que o solo seja bom para plantar e para produzir mais, ele precisa ser cuidado e tem que ter suas propriedades físicas, químicas e biológicas resguardadas. Assim também é a água. E olhe que, comparando o solo com a água, aparentemente a água é mais simples que o solo. Só aparentemente, pois a água é um substrato muito mais complicado em todos os aspectos. Por isso, para que nela haja peixes e para que nela os peixes cresçam e se reproduzam, é necessário que a água conserve suas qualidades e condições ideais de vida.


Os dados são da FAO: em 1991 o homem tirou da água cerca de 97 milhões de toneladas de peixes. Deste total, 16.6 milhões de toneladas (cerca de 17,1 %) foram resultados da aqüicultura.


A Folha do Meio Ambiente, nesta edição de agosto e na próxima edição de setembro, faz uma ampla reportagem sobre a reprodução de peixes: o processo artificial (hipofisação) – técnica inventada pelo brasileiro Rodolpho von Ihering, em 1934, e hoje adotada no mundo inteiro – e o processo natural, em que muitas espécies necessitam migrar rio acima até encontrar condições adequadas para reprodução.


Para a edição de setembro, a FMA prepara uma reportagem ampla, denunciando que a pesca predatória, a instalação de indústrias poluidoras, a drenagem e a tapagem dos alagados para ampliação das fronteiras agrícolas, tudo isto está provocando um terrível impacto ambiental, acabando com os rios e seus criadouros naturais. E, no caso do rio São Francisco – onde atuam mais de 63% de todo o contigente de pescadores de Minas Gerais – acontece um sério desequilíbrio do ecossistema, com um resultado terrível: a diminuição da população de peixes e a extinção de várias espécies. Bem, mas tudo isto será para a próxima edição.


A reprodução artificial


O homem gosta de usar e abusar. Ele pode ser instrumento da vida e da morte. O mesmo homem que usa sua inteligência para depredar, também pode usar sua inteligência para criar. O problema é que os primeiros são em muito maior quantidade que os segundos. No caso da reprodução dos peixes foi assim. Depois de muitos só pensarem na pesca predatória, foi um brasileiro, chamado Rodolpho von Iherlng, quem salvou literalmente a lavoura.


A reprodução é a atividade biológica mais vital para a preservação das espécies animal e vegetal. Segundo o engenheiro de pesca da Codevasf, Albert Bartolomeu Sousa Rosa, 41 anos, no caso dos peixes, a reprodução no ambiente natural é determinada pela idade de maturação sexual, condições ambientais, época do ano, local de desova e cuidados da prole exercidos pelos reprodutores e matrizes de muitas espécies.


Nos peixes, como em todos os animais, os fatores determinantes da reprodução estimulam uma glândula, conhecida por hipófise, existente na base do cérebro, que envia mensagens (hormônios) às gônadas (ovários em fêmeas e testículos em machos), para que se preparem e realizem a desova.


Muitas espécies de peixes de água doce de importância econômica necessitam migrar rio acima para realizarem a reprodução, fenômeno este conhecido como piracema. É, justamente, essa viagem rio acima, esse esforço e os fatores ambientais que provocam os estímulos para a reprodução.


A temperatura da água, enxurradas provocadas pela chuva e a ampliação da quantidade de horas de luz por dia (na primavera), induzem a hipófise a intensificar a produção de hormônios para provocar a reprodução de muitas espécies de peixes. A “hipófise” é, portanto, o órgão que comanda todo o processo de reprodução.


Explica o técnico Albert B. Sousa Rosa a necessidade de se promover a reprodução artificial de peixes, está relacionada ao interesse em se realizar seu cultivo comercial, o que exige a produção em alta escala dos alevinos (filhotes de peixes) e, também, com o objetivo de se obter alevinos de espécies que se encontram em vias de extinção, permitindo a realização do povoamento de rios e barragens.


Como as espécies de piracema, ou seja, aquelas que necessitam realizar a migração para a reprodução, não atingem pleno desenvolvimento das gônadas quando se encontram permanentemente em águas paradas (lagoas, tanques, barragens etc.), é preciso que se estimule fêmeas e machos a completarem o estágio de maturação gonadal, para que consigam realizar a desova. Aí, mais uma vez, entra a hipófise, como elemento imprescindível à obtenção da reprodução artificial. Injetando artificialmente a mesma quantidade de hormônio que a hipófise forneceria aos ovários e aos testículos, se estivessem em condições ambientais naturais, então poder-se-á fazer, também, com que os peixes de piracema se reproduzam em águas paradas. Esta técnica, conhecida como “hipofisação”, foi desenvolvida pelo cientista brasileiro Rodolpho Von Ihering.


Os doadores de hipófises


A forma mais comum de se obter o hormônio a ser fornecido aos reprodutores e matrizes para a reprodução artificial, é retirando-o de outros peixes, que funcionam como doadores. Alguns peixes são cultivados com o objetivo principal de fornecerem suas hipófises para a reprodução de outros peixes. Cada peixe possui uma hipófise que, próximo à época de desova, possui certa quantidade de hormônio.


O doador é sacrificado, sua hipófise é retirada e acondicionada em frasco apropriado para utilização em momento adequado. Alguns peixes são sacrificados para produzirem milhões de outros peixes. A carne do peixe sacrificado ou doador pode ser utilizada no consumo humano.


A seleção e a aplicação – Explica o técnico Albert B. Sousa Rosa que a seleção dos peixes para a reprodução leva em consideração aspectos externos bem característicos, como ventre bem abaulado nas fêmeas, à semelhança do que acontece com as mulheres grávidas, enquanto nos machos uma leve pressão em seu abdômen o faz liberar gotas de sêmen de cor esbranquiçada. Os peixes selecionados são transportados para tanques pequenos, que apresentam condições especiais, como água corrente, limpa e temperatura adequada. Normalmente, não se mantêm as fêmeas e os machos num mesmo tanque.


No ambiente natural, a dosagem de hormônio a ser liberada da hipófise para as gônadas é regulada com precisão nos reprodutores e matrizes. Para a desova artificial, é feita uma estimativa da necessidade de hormônio, em função do peso dos reprodutores. As hipófises coletadas de peixes doadores são então utilizadas, com aplicação através de seringas na cavidade abdominal do peixe receptor (ver figura n.º 2). O efeito da aplicação costuma levar algumas horas, dependendo da espécie e da temperatura da água onde se encontram os peixes. Empiricamente, conseguiu-se determinar, aproximadamente, o tempo necessário para ocorrer a desova em cada em cada espécie de peixe, após a aplicação do hormônio.


Na natureza a fecundação do ovo ocorre, na maioria das espécies de peixes, no meio onde se encontram (rio, lagoa, bagagem etc.). Fêmeas e machos, nadando lado a lado, lançam seus produtos gonadais (óvulos e espermatozóides, respectivamente) na água e aí ocorre a fecundação. Na reprodução artificial, costuma-se coletar os óvulos em uma bacia plástica de pequeno tamanho, sem água (ver figura n.º 3). Os espermatozóides são coletados em tubos de ensaios (ver figura n.º 4) para depois serem derramados para a fecundação. Com uma delicada pena de ave, vai se fazendo a mistura, de forma que o sêmem atinja todos os óvulos. Alguns instantes depois se adiciona água, permitindo uma maior homogeneização dos produtos gonadais e a hidratação dos óvulos. Qual a vantagem da fecundação artificial sobre a natural? É simples: a fecundação natural ocorre num ambiente muito mais amplo, na presença de vários predadores, diminuindo a sobrevivência dos ovos e lavas.


A incubação é feita em recipientes apropriados com água corrente, onde, após alguns dias, ocorre a eclosão das lavas (nascimento dos peixinhos). Costuma-se manter as larvas por mais alguns dias na incubadora, até que elas consumam a reserva nutritiva (gema), que elas já possuem ao nascer. Após esta fase, as pós-larvas são levadas para tanques preparados, onde há abundância de a1imentos.


Estima-se que, na natureza, apenas 1% dos ovos liberados pelas fêmeas conseguem atingir a condição de peixes jovens. Algumas espécies chegam a produzir mais de 2 milhões de ovos /fêmea/ano. A capacidade de multiplicação dos peixes é infinitamente maior comparada aos bovinos, suínos e aves, especialmente em cativeiro.


A importância da aqüicultura


No Brasil, apesar dos 8.400 quilômetros de costa e de extensas bacias hidrográficas (só a Amazônia detém 18% da água doce do planeta), o consumo anual de pescado é de apenas 5,8 kg percapita, contra 16 kg no Canadá e 65 kg no Japão. Enquanto em Manaus o consumo de pescado atinge o expressivo número de 50 kg/habitante/ano, há regiões no interior do país onde o consumo percapita está abaixo de 1 kg/ano. O hábito alimentar está diretamente relacionado à oferta do produto.


A exceção de Manaus e de outras cidades localizadas às margens de rios piscosos, o consumo de pescado no litoral brasileiro é cerca de 10 vezes superior ao registrado no interior do país, exatamente onde a oferta de pescado é mais baixa. O oceanógrafo francês Jacques Yves Cousteau afirmou na Conferência das Organizações das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, a Eco-92, que “os oceanos estão exauridos”. A pesca predatória está reduzindo drasticamente os estoques pesqueiros de ambientes naturais, sejam eles mares ou rios. As frotas pesqueiras dotadas de sofisticados equipamentos para detecção de cardumes facilitam a pesca, porém, torna as populações de peixes cada vez mais vulneráveis. Exemplifica Albert B. Sousa Rosa: a produção nacional de sardinha, um alimento consumido em grande escala pelas classes de menor poder aquisitivo da população brasileira, atingiu mais de 200 mil toneladas/ano em meados da década de 70. Atualmente, a produção dessa espécie se encontra abaixo de 60 mil toneladas/ano, ou seja, uma redução de 70%, enquanto a população brasileira cresceu cerca de 65%.


Segundo a ONU, por volta do ano 2000 será necessário produzir cerca de 120 milhões de toneladas de pescado por ano, um acréscimo de 30 milhões do que é produzido atualmente. Os técnicos garantem que a única forma de fazer frente a esse desafio é através da aqüicultura, que trata da criação racional de animais e vegetais aquáticos. A produção de pescado oriundo da aqüicultura já representa cerca de 17,1 % do total da produção mundial, sendo que a participação do Brasil é inferior a 0,03%.
O fato é que, em todo o mundo, multiplicam-se as “fazendas” de criação de peixes (piscicultura), camarões (carcinicultura), moluscos (ostreicultura e mitilicultura) e algas (algicultura).


Concluindo, Albert B. Sousa Rosa explica que o processo de reprodução artificial de peixes foi e será cada vez mais imprescindível para o aumento das áreas de cultivo, uma vez que o mundo precisa produzir mais proteínas e os peixes participam com mais da metade da produção de produtos oriundos da aqüicultura.


Entraves para o desenvolvimento da aqüicultura no Brasil


· Pouca tradição no cultivo de animais e vegetais aquáticos no país;
· Deficiência de geração e transferência de tecnologias para diferentes espécies de peixes, regiões e clientelas;
· Insuficiência de insumos básicos (alevinos, pós-larvas, ração apropriada etc.), em quase todas as regiões do país;
· Falta de conhecimento dos mercados regionais para os produtos gerados pela aqüicultura, o que vem dificultando a comercialização dos produtos;
· A reduzida área de produção em cativeiro de pescado não tem estimulado o desenvolvimento de uma indústria vo1tada para a aqüicultura;
· Escassez de linhas de financiamento para o setor;
· Insuficiente assistência técnica qualificada;
· Falta de vontade política para o desenvolvimento do setor.

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Análise técnica do Congresso diverge de parte dos vetos à Lei Orçamentária

Nota das Consultorias de Orçamento subsidia análise do Congresso (ao fundo) sobre vetos do Planalto (em 1º plano)
Leonardo Sá/Agência Senado

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Uma nota técnica divulgada pelas Consultorias de Orçamento do Senado e da Câmara dos Deputados questiona parte dos vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Orçamento de 2026. A contestação abrange quatro dispositivos vetados que somam R$ 119,7 milhões em emendas parlamentares.

A análise dos consultores não tem caráter decisório, mas busca oferecer subsídios técnicos para que senadores e deputados possam avaliar, de forma qualificada, a manutenção ou a rejeição dos vetos presidenciais pelo Congresso.

A Lei Orçamentária de 2026 (Lei 15.346) foi sancionada na quarta-feira (14) com vetos do Poder Executivo a 22 dispositivos incluídos no texto por senadores e deputados. No total, os pontos vetados somam R$ 393,7 milhões em emendas.

Segundo a nota técnica, as razões apresentadas pelo Palácio do Planalto para justificar quatro dos vetos “não são pertinentes” do ponto de vista técnico e jurídico.

Um exemplo é o dispositivo que destinava R$ 30,4 milhões a projetos de agricultura irrigada no Nordeste. Segundo a análise, o veto pode gerar o descumprimento de uma regra constitucional que determina a aplicação mínima de 50% dos recursos de irrigação na região.

Outros dois vetos questionados na nota técnica liberavam R$ 89,1 milhões em emendas parlamentares para as áreas de atenção hospitalar e atenção primária à saúde. Segundo o Poder Executivo, as programações seriam “usualmente destinadas a acomodar emendas que teriam destinação específica estabelecida pelos parlamentares”.

De acordo com as consultorias, o argumento “não é cabível”. “As dotações classificadas com o identificador RP 2 [de livre execução pelo Executivo] não são passíveis de indicação, para execução orçamentária, pelos parlamentares. Assim, entende-se que não há pertinência das razões de veto apresentadas pelo Poder Executivo”, pontua o documento.

O último veto considerado não pertinente pelos consultores trata de recursos para a implantação da Escola de Sargentos do Exército em Recife. A programação previa R$ 100 mil.

Pontos convergentes

A nota técnica considera pertinentes os argumentos do Poder Executivo para os outros 18 pontos vetados. Segundo o Palácio do Planalto, a inclusão das programações contraria a Lei Complementar 210, de 2024. Segundo a norma, as mudanças propostas pelos parlamentares no Orçamento precisam observar, cumulativamente, três critérios:

  • incidir sobre despesas não identificadas;
  • ser de interesse nacional; e
  • não ter destinatário específico.

Alguns pontos vetados destinavam recursos para ações de saúde em estados específicos, obras rodoviárias com localização definida e investimentos incluídos por emendas de bancadas e comissões, sem previsão no projeto original do Orçamento.

Um dos trechos vetados reservava R$ 7,5 milhões para a Universidade Federal do Delta do Parnaíba, no Piauí. Outros exemplos são dotações assistência hospitalar e ambulatorial nos estados de Amapá, Tocantins, Ceará, Paraíba, Bahia, São Paulo, Goiás e no Distrito Federal.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Projeto Ciência na Estrada leva experiências científicas a 12 regiões do DF

A programação inclui atividades práticas, exposições e ações educativas voltadas a diferentes faixas etárias

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Agência Brasília* | Edição: Chico Neto

 

Sucesso em 2005, quando reuniu mais de 55 mil participantes em suas edições, o projeto Ciência na Estrada, iniciativa da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti-DF) junto ao Instituto de Gestão e Execução de Projetos (Igepex), segue reforçando a popularização científica em diversas regiões da capital. Neste ano, serão promovidas ações em 12 regiões administrativas, com encerramento previsto no Planetário de Brasília (Plano Piloto).

“Vamos aproximar crianças, jovens e adultos de temas como tecnologia, astronomia, pesquisa científica e tudo que envolva inovação”, afirma o titular da Secti-DF, Rafael Vitorino. “Ao imergir nesse mundo, o conhecimento se amplia, e há uma maior valorização da ciência como ferramenta social de transformação.”

O formato itinerante faz uso de recursos tecnológicos que tornam o aprendizado mais acessível e envolvente. Um dos principais atrativos é o ônibus Ciência na Estrada, uma estrutura com ambientação futurista que simula uma nave espacial, equipada com realidade virtual 360 graus, jogos digitais e conteúdos educativos interativos.

Entre as atrações, destaca-se o projeto Einstein Júnior, iniciativa voltada ao público infantil que promove contato com conceitos científicos por meio de experimentos, oficinas e mediação educativa, complementando as experiências tecnológicas oferecidas pelo projeto.

Para participar, basta acessar a plataforma Sympla e retirar os ingressos gratuitamente conforme as datas escolhidas.

 

Confira, abaixo, o calendário com os locais de datas para o Ciência na Estrada 2026.

⇒ Ceilândia: 21 a 25 deste mês
⇒ Paranoá: 18 a 22 de fevereiro
⇒ Samambaia: 18 a 22 de março
⇒ Cruzeiro: 22 a 26 de abril
⇒ Estrutural (SCIA), SIA e Guará: 20 a 24 de maio
⇒ Santa Maria: 17 a 21 de junho
⇒ Vicente Pires: 22 a 26 de julho
⇒ Brazlândia: 26 a 30 de agosto
⇒ Arapoanga: 23 a 27 de setembro
⇒ Gama: outubro
⇒ Riacho Fundo: novembro
⇒ Planetário de Brasília (encerramento): dezembro.

*Com informações da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação

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Atual sucesso do cinema nacional reflete anos de investimento no setor

Para presidente da RioFilme políticas de Estado foram importantes

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Anna Karina de Carvalho – repórter da Agência Brasil

 

O cinema brasileiro atravessa um de seus períodos mais visíveis e simbólicos no cenário internacional, impulsionado por uma combinação de políticas públicas, continuidade institucional e reconhecimento em grandes festivais. Para especialistas do setor, o atual momento, marcado por prêmios, presença em vitrines globais e renovação de talentos, não é fruto do acaso, mas resultado de décadas de investimento e construção de uma política de Estado para o audiovisual.

A avaliação é do presidente da RioFilme, Leonardo Edde, que destaca a importância de transformar o bom momento em um ciclo duradouro.

“O momento do cinema brasileiro é realmente fantástico. É um momentum, como outros que já tivemos ao longo das décadas, sempre com altos e baixos. O que a gente tenta agora é que esse momentum seja o mais extenso possível”, afirmou.

Segundo ele, a recente sequência de destaques ─ que vai de produções consagradas no Oscar e no Globo de Ouro a filmes selecionados em Cannes e, agora, no Festival de Berlim ─ revela a diversidade regional e criativa do país.

“Você tem o Rio, com Ainda Estou Aqui, Pernambuco, com O Agente Secreto, e agora o Brasil chegando a Berlim com projetos de jovens cineastas. É São Paulo, é diversidade, é o Brasil aparecendo”, disse.

 

Brasília (DF), 23/01/2025 - Cena do filme Ainda estou aqui. Foto: Alile Dara Onawale/Sony Picutres
 Cena do filme Ainda estou aqui. Foto: Alile Dara Onawale/Sony Picutres

Para Leonardo Edde, a chave para sustentar esse crescimento está na continuidade das políticas públicas.

“O que a gente está estruturando é uma política pública perene, com ciclos longos, sem interrupções como vimos em outros momentos da história”.

“Se não houver interrupção, o cinema brasileiro vai estar sempre em alta, porque a gente tem realizadores, artistas, produtores e empresas incríveis”, afirmou.

Ele lembra que o reconhecimento internacional dialoga diretamente com a economia criativa e outros setores. “Isso anda junto com turismo, PIB, indústria. O audiovisual é indústria.”

Na avaliação do presidente da RioFilme, o Brasil avança no caminho de uma indústria audiovisual mais sólida, mas ainda enfrenta desafios estruturais.

“A gente está numa crescente. O Brasil é a bola da vez, mas precisa ser a bola da vez com mais recorrência. Temos um mercado interno forte, mas precisamos nos internacionalizar mais”, disse.

Leonardo Edde reforça também que o papel do poder público vai além do financiamento da produção. “Não é só fomento. É distribuição, promoção e salas de cinema. A sala ainda é o ambiente mais nobre para o filme, e é nossa responsabilidade cuidar desse ecossistema.”

Políticas de incentivo

Nesse sentido, políticas públicas como o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e a Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet, cumprem papéis complementares: a Rouanet estabelece segmentos específicos que podem receber apoio por meio de incentivo fiscal, como produções audiovisuais de curta e média-metragem e a construção e manutenção de salas de cinema, enquanto os longas-metragens recorrem majoritariamente ao FSA.

No caso de O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui, as obras premiadas não utilizaram recursos da Rouanet, já que a lei não financia longas.

Em declarações recentes, em janeiro de 2026, Wagner Moura defendeu enfaticamente a Lei Rouanet e outros mecanismos de fomento, reagindo a críticas e desinformação sobre o tema, ao afirmar:

“Eu não posso explicar a Lei Rouanet para quem ainda não assimilou a Lei Áurea”, sugerindo que a resistência às políticas culturais reflete uma incompreensão histórica sobre o papel do Estado.

Já o FSA, administrado pela ANCINE, é hoje um dos principais instrumentos do setor, investindo em todas as etapas da cadeia produtiva: que vai do desenvolvimento à distribuição e sendo amplamente utilizado por grande parte dos longas-metragens brasileiros de maior repercussão.

 

São Paulo (SP), 28/10/2025 - Ator Wagner Moura e o diretor Kleber Mendoça Filho durante entrevista coletiva do elenco do filme O Agente Secreto, no hotel Renaissance. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Ator Wagner Moura e o diretor Kleber Mendoça Filho durante entrevista coletiva do elenco do filme O Agente Secreto, no hotel Renaissance. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Desafio de atrair o público

Para a crítica de cinema Flávia Guerra, o atual reconhecimento do cinema brasileiro, impulsionado por títulos como O Agente Secreto, tem um impacto que vai além da bilheteria imediata.

“Toda vez que a gente vive uma boa fase como essa, iniciada no ano passado e que continua agora, é importante lembrar que isso é fruto de décadas de trabalho e de política pública de Estado para o audiovisual”, afirmou.

Flávia pondera que o prestígio internacional não se converte automaticamente em público nas salas, um desafio ampliado pela pandemia e pelo avanço do streaming.

“Ainda enfrentamos dificuldades para levar os filmes brasileiros ao cinema, para conquistar o público e para se manter em cartaz. Mas há um ganho imenso de prestígio. O público começa a ver o filme brasileiro como algo natural no multiplex.”

Nesse contexto, ela destaca a fala de Kleber Mendonça Filho no Globo de Ouro, dirigida especialmente aos jovens.

“Esse clima de ‘Copa do Mundo’ da cultura é muito importante. Assim como no esporte ou na música, ver nossos artistas lá fora inspira jovens a enxergar o audiovisual como profissão, como carreira possível”, disse o diretor.

Para a crítica, a mensagem de Kleber dialoga com um momento global de crise, mas também de oportunidade. “Não desistam do audiovisual. Ele emprega uma cadeia inteira, do motorista da van ao catering, da pousada ao mercadinho. É indústria. A Coreia do Sul está dando aula nesse sentido há anos.”

Berlim e a nova geração

A presença brasileira no Festival de Berlim 2026 se consolida com produções selecionadas em diferentes mostras: Feito Pipa (Gugu’s World), de Allan Deberton, integra a Generation Kplus; Papaya, de Priscilla Kellen, primeiro longa brasileiro de animação selecionado na história do festival, também está na Generation Kplus; A Fabulosa Máquina do Tempo, documentário de Eliza Capai, completa a presença brasileira na mesma mostra; e Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira, foi escolhido para a mostra Panorama, uma das vitrines centrais da Berlinale.

Para Flávia Guerra, o destaque de filmes de jovens cineastas em Berlim exemplifica o efeito positivo da atual fase. “Ver filmes brasileiros ocupando esses espaços é fundamental para garantir continuidade. Não é ser o país de um filme só, mas de uma cinematografia.”

Ela cita ainda a força de obras que dialogam com o público jovem e com temas históricos sob novas abordagens.

“São filmes de gênero, filmes de época, que falam de assuntos muito atuais. Isso cria diálogo com o público e amplia o alcance do nosso cinema.”

Para os especialistas, o desafio agora é transformar reconhecimento em política duradoura e presença constante nas salas e nos festivais. “Quando um filme como O Agente Secreto abre a cabeça do público internacional, ele leva todo o cinema brasileiro junto”, resume Flávia Guerra.

“As indicações e prêmios dependem de muitos fatores, mas o mais importante é garantir que o Brasil seja reconhecido não por um título isolado, e sim por uma cinematografia diversa, contínua e viva.”

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