Artigos
PANTANAL
CÉU, TERRA E ÁGUAS ABENÇOADAS

Pantanal: onde a vida acompanha o deslocar das águas e das estrelas que regem o fluxo da vida. (Foto: Jeferson Prado)
Depois de ajudar implantar a maior RPPN do Brasil (Reserva Particular do Patrimônio Natural) em Poconé, no Pantanal, onde está hoje o SESC Pantanal, Raimundo Bispo Ferreira Junior administra a Pousada Siá Mariana localizada na Baía de Siá Marina, em Barão de Melgaço, a 125 km de Cuiabá. Segundo ele, uma Pousada Boutique dentro de um antiquário. Ou vice-versa. Nascido em Rondonópolis MT, Junior – como é chamado – formou-se em Administração de empresas com ênfase no Turismo. Está na área desde 1994. Trabalhou por 20 anos no SESC Pantanal um dos maiores projetos de Turismo sustentável no Brasil. Para Junior, turismo é uma atividade apaixonante em vários aspectos: “Você conhece pessoas, culturas, histórias, e tem a oportunidade de trocar experiências com diversas pessoas, muitas vezes faz grandes amizades que ficam para a vida inteira. Mesmo a distância. Tem também a oportunidade de contribuir com a preservação do Planeta, de sua história, alavancar a valorização das pequenas comunidades, melhorando seu padrão de vida social”. Raimundo Junior foi o primeiro funcionário contratado do projeto SESC Pantanal e o primeiro gerente de um trabalho que plantou definitivamente o ecoturismo sustentável em Mato Grosso. Ninguém melhor do que Junior para falar sobre a maior planície alagável de água doce do Planeta.

Considerado pela UNESCO Patrimônio Natural da Humanidade e uma Reserva da Biosfera, o complexo do Pantanal brasileiro é o menor bioma nacional. Tem rara beleza, rica avifauna e possui 250 mil km² de extensão. Todo o complexo do Pantanal possui uma área de 624.320 km², aproximadamente 62% localizados no Brasil. Os outros 38% se estendem pela Bolívia (20%) e Paraguai (18%).
A ENTREVISTA

Raimundo Bispo Ferreira Junior
Folha do Meio – Por que o Pantanal?
Raimundo Bispo Ferreira Junior – Sempre amei o Pantanal. A mim, parece-me ser o último fragmento de um Paraíso Perdido neste tão conturbado mundo. Em uma lancha, desempenho meu trabalho percorrendo essas águas límpidas e profusas de vidas. Sob uma abóboda celestial na qual as mais vivas cores vão se alternando ao longo do dia, as águas se movem a lembrar que são a fonte e a condição de toda a vida planetária. A infinidade de aves em voo se repete na placidez das águas sob a forma de peixes. Árvores, ninfeias, peixes saltando, aves a pescá-los, tudo parece – parece não, é – uma incessante celebração à Vida.
FMA – Bela poesia. Mas fale deste lugar em poesia concreta.
Junior – Este lugar singular único no Planeta guarda segredos incontáveis de uma beleza sem igual. É um berçário de vida no mais amplo sentido, regido pelo subir e descer das águas durante as cheias e as secas. Na época das cheias a água flui pela planície, transportando a matéria orgânica que se decompõe, fertilizando os campos e, ao mesmo tempo, alimentando a ictiofauna. Essa é a base de uma imensurável cadeia alimentar que impulsiona este grande berçário da vida. Baias, corixos e charcos servem como refúgio para a reprodução de uma incalculável quantidade e diversidade de peixes, pássaros, repteis e plantas. A vida acompanha o deslocar das águas e das estrelas que regem o fluxo da vida.
FMA – Sim, planeta água. Mas, e a seca?
Junior – Na estação das secas, quando os animais passam a zelar pela planície, tem início o indescritível e profuso espetáculo da floradas, a paisagem é brindada com um imenso e colorido jardim. Por toda parte espoucam as florações dos ipês, cambarás, gonçaleiros (também conhecidos por aratanha, aroeira-do-campo, cubatã-vermelho, ubatã, guarabu, aroeira-vermelha e sete-cascas) tarumãs, jacarandás-mimosos e mais um sem-número de espécies. O mundo parece explodir em deslumbramento: samambaias, bromélias, orquídeas, maracujás, as plantas aquáticas como ninfeias e a vitória-régia, todas se unem para homenagear a beleza do firmamento e das luzes e cores celestiais.

O espetáculo das floradas do Pantanal: ipês e cambarás. Um jardim florestal.
FMA – Fale sobre o bioma Pantanal.
Junior – O Pantanal é o menor bioma brasileiro e a maior planície de inundação do mundo. E tido como uma das maiores planícies alagadas do mundo, abrange o Paraguai, a Bolívia e, no Brasil, os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Se, de todos os biomas brasileiros, é o menor em dimensão, ocupando apenas uma percentagem ínfima de nosso território, é o que abriga a segunda maior biodiversidade dentre todos os biomas brasileiros. Além de uma infinidade de formas de vida diminutas e ainda desconhecidas pela Ciência, ali foram identificadas e catalogadas mais de trinta mil diferentes espécies de insetos dos quais mais de mil são borboletas. Mais de duzentos peixes e de aves. Quase cem répteis, batráquios e algo mais de cem mamíferos. A flora tem cerca de três mil e quinhentas espécies conhecidas. Contudo, muito resta para se conhecer sobre espécies inferiores da flora e da fauna, como algas, musgos, selaginelas e líquens. Isso porque, além de suas características tão peculiares, a região do Pantanal inclui ainda recortes de outros quatro biomas brasileiros: a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica e um bioma que todos pensam ser exclusivo da Bolívia: o Grande Charco que, no entanto, abrange ainda porções territoriais da Argentina e do Paraguai.

O mapa das microrregiões do Pantanal.
FMA – Mas o Pantanal não é homogêneo, como muitos pensam…
Junior – Sim, é verdade. O Pantanal é um bioma, aparentemente único e homogêneo, mas é composto por onze microrregiões. Cada uma delas apresenta aspectos peculiares sob os pontos de vista cultural e natural. A microrregião de Barão de Melgaço, onde está a Pousada Siá Marina, situada no Alto Pantanal, reúne as áreas de maior concentração de aves e uma incomparável biodiversidade.

A revoada das aves do Pantanal sempre foi e será um dos maiores espetáculos da natureza na região.
FMA – Cite algumas microrregiões com suas características.
Junior – Sim, veja o caso específico da menor microrregião do Pantanal, que é o Abobral. O rio Abobral, que dá nome à microrregião, pode ser considerado mais um corixo. Menor que um rio. Ele chega até a secar, mas, inversamente, na época das cheias o único meio de acesso possível é através de navegação pelo rio que, de tão largo, fica difícil encontrar sua calha. O Abobral está numa região mais baixa, a primeira a ser totalmente inundada durante o período das cheias. Permanece metade do ano com seus campos alagados. Os pastos se assemelham mais a grandes lagoas nas quais as sedes das fazendas emergem como se fossem pequenas ilhas.
Também o Nabileque, por ser uma das primeiras feições pantaneiras a suportar as inundações, tão logo, em outubro, têm início a temporada chuvosa, já passa a ser objeto de preocupação.

O Pantanal é caracterizado pela alternância entre períodos de muita chuva, que acontecem de outubro a março, e períodos de seca nos meses de abril a setembro. Possui região plana, levemente ondulada, com alguns raros morros isolados e com muitas depressões rasas. As altitudes não ultrapassam 200 metros acima do nível do mar e a declividade é quase nula.

A microrregião Abobral constitui um pantanal belíssimo, com grande diversificação da fauna e flora e, por entender a importância ecológica do local, existe um interesse em se criar uma área de proteção ambiental/APA na unidade.

Fazenda São Bento, típica propriedade pantaneira, totalmente ilhada pelas águas durante a cheia. Foto: Daniel Marinho
FMA – E o Pantanal lá da região de Corumbá?
Junior – A região de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, é uma das maiores. Ali está o Pantanal de Nhecolândia. A imensa diversidade paisagística e biológica é pontuada por baías, corixos e vazantes, entremeada por cordilheiras revestidas por formações vegetais. Distingue-se de todas as outras microrregiões por ser a única área do Pantana que apresenta um mosaico formado por lagoas salinas e de água doce.

O portal na rodovia Transpantaneira, em Poconé, onde está a entrada do Pantanal em Mato Grosso. Foto: Silvestre Gorgulho
FMA – Vamos falar sobre outros encantos do Pantanal. Evidente, que o mais conhecido são os encantos naturais. Mas você ajudou a criar a RPPN do Sesc, em Poconé. E quais os outros encantos do Pantanal?
Junior – Assunto bom de falar e de viver. De fato, o Pantanal não se distingue apenas por seus encantos naturais. Seu território é todo povoado por abundantes fatos históricos e por uma cultura e uma identidade singulares. Sua gastronomia é única, pelos recursos alimentícios exclusivos e pela influência de grupos étnicos autóctones. Sua importância na configuração do território brasileiro como hoje conhecemos é muito relevante, ainda que pouco divulgada. O que se tem como estado de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul era um território espanhol até que, em meados de 1525, a expedição comandada por Pedro Aleixo Garcia em direção à Bolívia, veio consolidar as conquistas dos bandeirantes, pelo Tratado de Madrid em 1750. São muitas as figuras ilustres e os fatos históricos relevantes como Agusto Leverger e o Barão de Melgaço que se destacaram na defesa de Mato Grosso e dos limites territoriais do Brasil durante a Guerra do Paraguai. Ciclos econômicos como a extração do ouro e diamantes, contribuíram para a ocupação da região.

FMA – E a economia pantaneira, o agronegócio na região?
Junior – A economia pantaneira é muito importante para o País pela produção de charque e açúcar e pela implantação de usinas como a Usina de Itaici que foi, à época, a mais moderna da América do Sul, tendo chegado ao ponto de dispor até de moeda própria. A Usina de Itaici tinha por modo de produção a industrialização da cana-de-açúcar e foi o embrião de um processo de industrialização e de um modo de produção característico e novo para Mato Grosso. Está localizada à margem direita do rio Cuiabá.

O Prédio constitui-se de um sólido volume em três pisos tendo os fundos um alpendre onde se localiza o maquinário de limpeza e separação da matéria-prima. Em Itaici, o modelo de indústria construiu uma vila para abrigar os próprios operários, com igreja, escola, farmácia, padaria etc. um verdadeiro conjunto habitacional. O empreendimento de Totó Pais (Antônio Pais de Barros (1851 – 1906) foi um usineiro, coronel, político e presidente de Mato Grosso de 1903 a 1906) dispunha de tamanha estrutura social que chegou até criar uma banda de música que executava retretas, aos domingos, para entreter seus moradores. Em determinado período, a Usina de Itaici chegou a cunhar sua própria moeda que, com moldes provenientes da Casa da Moeda, no Rio de Janeiro, passou a imprimi-la adaptando-se uma velha prensa de papel.
FMA – A Cultura espanhola teve muita influência na religiosidade e cultura da região.
Junior – Sim, a espanhola e a cultura indígena marcaram profundamente toda região. A religiosidade é um ponto marcante na formação do povo pantaneiro. Festas e comemorações são sempre precedidas de celebrações religiosas como a Dança dos Mascarados de Poconé, o Siriri, o Rasqueado e a Cavalhada, uma representação de origem medieval europeia, que encena a guerra entre mouros e cristãos.

Festas e comemorações são sempre precedidas de celebrações religiosas como a Dança dos Mascarados de Poconé, o Siriri, o Rasqueado e a Cavalhada.

A culinária tem até hoje forte influência indígena. Muito conhecido o peixe como ingrediente principal e, como pratos, Mugica de Pintado e o Pacu Assado.
PANTANAL, O REINO DAS ÁGUAS,
NÃO POSSUI MANANCIAIS
FMA – E como este paraíso convive com o progresso, com a falta de saneamento e com os incêndios florestais?
Junior – Agora chegou num ponto de grande preocupação. Nem tudo são flores neste paraíso. O equivocadamente denominado progresso tem trazido grandes ameaças ao bioma. O reino das águas, o Pantanal, não possui mananciais. Por incrível que pareça, todo as nascentes que o nutrem estão localizadas em territórios circundantes. O avanço do agronegócio predatório no entorno da planície Pantaneira e o emprego indiscriminado de agrotóxicos repercutem na qualidade da água que provém do planalto circundante. As lavouras, ao avançar nas áreas de preservação permanente, vêm aumentando significativamente o assoreamento de corpos hídricos como o Rio Miranda em Mato Grosso do Sul.
FMA – E o saneamento e o lixo?
Junior – Sim, todos estes problemas que citei e mais a falta de saneamento básico nos municípios a montante do Pantanal, vêm causando efeitos nefastos sobre a fauna e a flora aquática reduzindo significativamente os estoques pesqueiros. Um impacto não só ambiental, como econômico e social pois afeta a significativamente a geração de renda das populações ribeirinhas. O lixo é outro fator de degradação ambiental. Lixões a céu aberto têm ocasionado problemas como a poluição dos corpos hídricos, o aumento de mosquitos sugadores de sangue e transmissores de moléstias.
FMA – Tem a mesma força de destruição que os incêndios florestais?
Junior – Este é o ponto. O fator mais impactante no momento são os incêndios florestais, cada vez mais constantes e arrasadores. A falta de fiscalização e a impunidade dos infratores são um estímulo aos incêndios criminosos. Malgrado todo o aparato tecnológico hoje existente, como satélites, não há a mínima vontade política e nenhum planejamento sério por parte de todas as esferas do Poder Público, seja municipal, estadual ou, o que é mais grave, federal na solução do problema. É um eterno jogo de empurra-empurra. Uns se omitem, outros alegam não ser de sua competência, nenhum defende o banco de vida que é o Pantanal. Depois dos desastres ambientais terem se realizado, todos posam de salvadores da Pátria sob a alegação de que “isso não vai mais acontecer”.
FMA – Ainda há esperança?
Junior – Sempre há esperança. Tenho sempre comigo a esperança de vá ocorrer um milagre e que que algo vai mudar. Uma taboa de salvação está no turismo. O turismo sustentável pode ser uma boa alternativa para a mudança, por gerar empregos, aumentar a renda e criar ações não predatórias como fontes de renda. Desde que seja bem planejado, com prévia, séria e criteriosa avaliação de impactos, terá a capacidade de movimentar a economia das pequenas comunidades, valorizar e preservar uma natureza, uma cultura e uma história únicas e insubstituíveis.
Artigos
Casa da Cultura da América Latina obtém renovação do registro como museu
Procedimento consolida a CAL como equipamento cultural qualificado e permite acesso a editais, programas de fomento e cooperação técnica específica
A Casa de Cultura da América Latina (CAL/DEX) teve seu registro como museu renovado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), com validade até 2031. A certificação, resultado da aplicação da Lei 11.904/2009, do Decreto nº8.124/2013 e da Resolução Normativa do Ibram nº 17 de 2022, representa o compromisso da Universidade de Brasília com a cultura.
Com a renovação, a CAL garante seu patamar institucional e sua visibilidade no cenário museológico nacional. O status possibilita o acesso a editais específicos, programas de fomento, cooperação técnica e formação de redes institucionais. “Além de permitir maior articulação com políticas públicas voltadas à preservação, pesquisa, difusão e educação museal”, complementa o professor Gregório Soares (IdA), diretor de Difusão Cultural do Decanato de Extensão (DDC/DEX).
Ao renovar o registro, a CAL adere ao Sistema Brasileiro de Museus, o que mantém a Casa de Cultura da América Latina conectada com outros museus nacionais e internacionais do campo cultural.
A valorização do patrimônio cultural da UnB é materializada por meio de investimentos, como as reformas das galerias e a revitalização da fachada do prédio da CAL, no Setor Comercial Sul, e o estabelecimento de parcerias com outras instituições, no intuito de superar os desafios de preservação e difusão cultural.
CASAS UNIVERSITÁRIAS DE CULTURA – A Universidade de Brasília conta com quatro Casas Universitárias de Cultura, cada uma com características específicas. Além da CAL, há a Casa Niemeyer; o Espaço da Memória da UnB e o Memorial Darcy Ribeiro, conhecido como Beijódromo.
>> Faça um tour virtual pelas Casas Universitárias de Cultura
Localizada no Setor Comercial Sul, a CAL tem três andares com salas dedicadas a atividades culturais, artísticas e formativas. O espaço abriga um auditório, três galerias expositivas (Galeria de Bolso, Galeria CAL e Galeria Acervo), além de um acervo de arte com mais de 2.700 obras, guardado em sua reserva técnica e gerido por uma equipe de museólogos.

Abrigando acervos de Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro, além de biblioteca de 30 mil volumes, o Memorial Darcy Ribeiro, também conhecido por Beijódromo, fica no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte. É gerenciado pela Fundação Darcy Ribeiro e ligada Diretoria de Difusão Cultural (DDC) do DEX. Além do acervo próprio, sedia eventos de extensão, contando com auditório e salas de aula.
Projetada por Oscar Niemeyer, a Casa Niemeyer está localizada no Setor de Mansões Park Way. Declarada sítio de interesse histórico, abriga exposições e residências artísticas nacionais e internacionais, além de atividades culturais.
A mais recente Casa Universitária de Cultura da UnB é o Espaço da Memória da UnB, o MemoUnB. Localizado no SG-10 (campus Darcy Ribeiro, Asa Norte), edifício projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer que serviu como sede do Centro de Planejamento (Ceplan) da UnB. Dedica-se à preservação da memória material e imaterial da UnB.
MUSA – Pensando na integração desses espaços, a UnB trabalha na implementação da Rede de Museus e Acervos da UnB, a Rede Musa. “A rede pretende articular os museus e espaços de acervo e memória da UnB”, explica Gregório Soares. A iniciativa visa promover uma atuação integrada e cooperativa do patrimônio cultural e científico da Universidade.
Dentre os feitos da Rede Musa, destacam-se a criação de instâncias de diálogo entre as equipes, o compartilhamento de diagnósticos e a construção de diretrizes comuns, com possibilidades de financiamento para infraestrutura, preservação e pesquisa.
SERVIÇO – A CAL funciona de segunda a sexta, das 8h às 19h, e sábados, das 8h às 12h, exceto feriados. O Memorial Darcy Ribeiro funciona de segunda a sexta, das 8h às 19h, e sábados, das 8h às 12h. A Casa Niemeyer funciona de terça a domingo, das 9h às 19h, exceto feriados. A MemoUnB funciona segunda a sexta, das 8h às 19h, e sábados, das 8h às 12h.
ATENÇÃO – As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos. Crédito para textos: nome do repórter/Secom UnB ou Secom UnB. Crédito para fotos: nome do fotógrafo/Secom UnB.
Artigos
O papel do brincar na regulação emocional das crianças
Como as brincadeiras ajudam a desenvolver autocontrole, empatia e equilíbrio emocional desde a infância
Por Alcie Simão
Brincar é muito mais do que passar o tempo ou gastar energia. Para a criança, a brincadeira é uma linguagem essencial — uma forma de compreender o mundo, expressar sentimentos e aprender a lidar com frustrações, medos, alegrias e desafios. Em um cotidiano cada vez mais acelerado, reconhecer o valor do brincar livre e guiado é fundamental para o desenvolvimento emocional saudável.
Brincar é sentir, experimentar e elaborar
Durante as brincadeiras, as crianças simulam situações da vida real: cuidam de bonecos, encenam conflitos, inventam aventuras, criam regras e negociam papéis. Tudo isso funciona como um “laboratório emocional”, onde elas podem experimentar sentimentos em um ambiente seguro.
Quando uma criança finge ser médica, super-heroína ou professora, por exemplo, está também elaborando experiências vividas, tentando compreender o que sentiu e ensaiando novas respostas para o futuro. Esse processo ajuda a organizar emoções internas que, muitas vezes, ainda não conseguem ser expressas em palavras.
Regulação emocional começa no corpo
Correr, pular, dançar, construir, desmontar, desenhar e modelar massinha são atividades que envolvem o corpo e os sentidos. Esse movimento é essencial para liberar tensões, reduzir ansiedade e ajudar a criança a se acalmar depois de momentos intensos.
Brincadeiras físicas contribuem para:
- descarregar estresse acumulado;
- aumentar a consciência corporal;
- favorecer o autocontrole;
- melhorar a capacidade de foco após a atividade.
Já as brincadeiras mais tranquilas, como quebra-cabeças, jogos de encaixe ou leitura compartilhada, ajudam a desacelerar e encontrar estados de calma e concentração.
Aprender a lidar com frustrações e conflitos
Nem toda brincadeira é fácil — e isso é ótimo. Perder um jogo, esperar a vez, seguir regras ou negociar com amigos são experiências que desafiam emocionalmente a criança. Com apoio adulto, esses momentos se tornam oportunidades valiosas de aprendizado.
Ao vivenciar pequenas frustrações no brincar, a criança desenvolve:
- tolerância ao erro;
- persistência;
- flexibilidade;
- capacidade de resolver problemas;
- empatia.
Essas competências formam a base da autorregulação emocional, habilidade que será usada por toda a vida.
O papel dos adultos: presença sem controle excessivo
Pais, cuidadores e educadores têm um papel importante nesse processo. Não é necessário dirigir cada brincadeira — muitas vezes, observar e estar disponível já é suficiente. Quando a criança convida o adulto para participar, entrar no jogo com curiosidade e respeito fortalece o vínculo e amplia a segurança emocional.
Algumas atitudes que ajudam:
- validar sentimentos (“parece que você ficou frustrado, quer tentar de novo?”);
- evitar resolver tudo imediatamente;
- estimular a nomeação das emoções;
- oferecer tempo e espaço para brincar livremente;
- reduzir distrações como telas durante esses momentos.
Brincar também é construir vínculo
Quando adultos brincam com crianças, criam-se conexões afetivas profundas. Esse tempo compartilhado transmite a mensagem: “você é importante”, “eu estou aqui”, “seus sentimentos importam”. A segurança emocional gerada nessas interações fortalece a autoestima e facilita que a criança procure ajuda quando estiver sobrecarregada.
Um direito e uma necessidade
Mais do que lazer, o brincar é uma necessidade básica da infância. Ele sustenta o desenvolvimento emocional, social e cognitivo, ajudando a criança a crescer mais confiante, resiliente e preparada para lidar com as próprias emoções.
Em meio a agendas cheias e estímulos digitais constantes, reservar tempo diário para brincar — dentro ou fora de casa, com ou sem brinquedos estruturados — é investir diretamente na saúde emocional das crianças.
Porque, no fundo, toda grande aprendizagem emocional começa em algo simples: uma brincadeira.
“Lutei dia e noite para dar nova dimensão ao nosso País.
Quis que, da minha administração, não se pudesse dizer,
sem pecar contra a verdade, que o Brasil crescia nas horas noturnas,
enquanto o Governo dormia. Não!
O Governo não dormiu, em minhas mãos.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira
Em 526 anos de Brasil, há datas a celebrar e há datas para esquecer. Felizmente, as datas para celebrar são maioria. Duas delas, por exemplo, moldaram este País por serem mais significativas e funcionarem como um divisor de águas do Brasil como Nação. Ambas as datas, separadas por 148 anos, aconteceram no mês de janeiro. A chegada da família real ao Brasil, em 22 de janeiro de 1808 e a posse do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, em 31 de janeiro de 1956.
A vinda da corte para o Brasil foi uma manobra do príncipe regente, D. João, para garantir que Portugal continuasse independente, quando foi ameaçado de invasão por Napoleão Bonaparte. A principal consequência foi a declaração do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves. O Brasil deixou de ser colônia, o que provocou uma série de transformações geopolíticas.
A permanência da família real foi decisiva para manter a unificação e grandiosidade do território nacional, a possibilidade de o país inteiro falar a Língua Portuguesa, além de outros ganhos concretos como a abertura dos portos para as nações amigas e a criação de entidades essenciais: Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Real Fábrica de Pólvora, Imprensa Oficial e Banco do Brasil.
Em 31 de janeiro de 1956, 134 anos depois da Independência, vem a segunda data que transformou o Brasil em todas as dimensões: cultural, industrial, econômica e politica: a posse do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.
Não foi fácil a chegada de JK ao Palácio do Catete. Ainda governador de Minas, Juscelino deixou claro sua intenção de disputar a Presidência da República pelo PSD.
Houve muitas tratativas de lideranças nacionais e até de militares para demover JK de sua intenção. O próprio presidente da República, Café Filho (vice de Getúlio Vargas) e o governador de Pernambuco, Etelvino Lins, se articularam para evitar a candidatura de JK.
Pior: até seu padrinho político, o ex-governador de Minas, Benedito Valadares, temeroso de que o crescimento de JK lhe roubasse influência no Estado, não mediu esforços, nos bastidores, contra a candidatura.
Em dezembro de 1954, militares de alta patente levaram ao então presidente Café Filho um documento em defesa da candidatura única à Presidência. Sem JK, evidentemente.
O presidente Café Filho – que tomou a iniciativa de ler o texto no programa ‘A Voz do Brasil’, ainda procurou demover JK, com o argumento de que as Forças Armadas não aprovavam a sua pretensão.
JK começou a ganhar a eleição ali. Não se deixando intimidar, confirmou sua candidatura e mandou um recado curto e grosso para o presidente Café Filho. Sua frase virou seu lema de vida: “DEUS POUPOU-ME O SENTIMENTO DO MEDO”.
E foi com este sentimento que JK plantou sua candidatura em 10 de fevereiro de 1955, para colher nas urnas, em 3 de outubro, 3.077.411 votos, ou 36% do total.
Não foi fácil. No dia primeiro de novembro, o coronel Jurandir de Bizarria Mamede, discursando no enterro do general Canrobert Pereira da Costa, sugere golpe militar para impedir a posse de JK e do vice João Goulart.
Em 11 de novembro de 1955, para garantir a posse de JK, antes de deixar o Ministério da Guerra, o Marechal Lott põe os tanques nas ruas e dá o “Golpe da Legalidade”. Carlos Luz, então presidente da República – com o afastamento de Café Filho – é deposto e nove dias depois, em 20 de novembro, o Congresso Nacional aprova o impedimento de Café Filho e elege Nereu Ramos presidente. O senador catarinense assume o governo até a posse de JK.
Há 70 anos, em 31 de janeiro de 1956, JK toma posse e pede ao Congresso a abolição do estado de sítio. No dia seguinte, põe fim à censura à imprensa.
JK, a seu modo, sacudiu a vida administrativa, política e cultural do Brasil. Seu governo plantou hidroelétricas, plantou estradas, plantou bom humor e plantou compromissos: cumpriu todas as 31 metas prometidas durante sua campanha à Presidência. JK plantou indústria automobilística e plantou magnanimidade, perdoando revoltosos e inimigos políticos. JK plantou Brasília.
Ao interiorizar o desenvolvimento com a construção da nova Capital, o Centro-Oeste foi ocupado de todas as formas. Onde não se produzia um grão de soja em 1960, ficou responsável por 49,3% da produção nacional. A soja avançou sobre novas fronteiras e levou junto a cultura do milho. A produção de milho na região – antes de Brasília – era inferior a 9%. Atualmente representa 54,36% da safra nacional. Essas duas culturas levaram uma promissora cultura empreendedora em outros setores: pecuária, frutas, café, arroz, feijão, trigo. Centenas de pequenos povoados nasceram no vazio do Cerrado e transformaram-se, nestes últimos 70 anos, em cidades de pequeno, médio e grande porte com excelentes índices de IDH.
Na Era JK, o Brasil colheu efervescência cultural. O Brasil colheu a primeira Copa do Mundo, colheu Bossa Nova, Cinema Novo. Colheu alegria! O povo brasileiro colheu o sentimento de que é capaz de construir o que parece impossível.
JK plantou Democracia. E o Brasil colheu Paz!
-
Artigos4 meses ago1976: O ano em que Brasília ganhou alma
-
Reportagens3 meses agoMorre Neide de Paula, “Rainha das Rainhas” do carnaval de Brasília
-
Reportagens4 meses agoA um mês da reinauguração, governador Ibaneis Rocha visita obra do Autódromo de Brasília
-
Reportagens3 meses agoCOP 30: GDF leva ao Brasil e ao mundo soluções de sustentabilidade do Distrito Federal
-
Reportagens3 meses agoEconomia com nova usina fotovoltaica ampliará investimentos do Hospital da Criança em equipamentos e insumos
-
Reportagens4 meses agoLula quer discutir com Trump punição dada a ministros do STF
-
Artigos3 meses agoLudmilla, Alexandre Pires, Carlinhos Brown e outros artistas são destaques musicais do Consciência Negra 2025
-
Artigos2 meses agoO SOLSTÍCIO DE VERÃO E O NATAL