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ALYSSON PAOLINELLI ALYSSON ‘DA PAZ’

PAOLINELLI LEGADO E ENSINAMENTOS

 

Sem comida não há paz. Sem paz não há harmonia nem desenvolvimento social e econômico. Em nome da paz foi protocolado duas vezes, no Conselho Norueguês do Nobel (The Norwegian Nobel Committee), o nome do ex-ministro Alysson Paolinelli para o Nobel 2021. A indicação partiu de entidades brasileiras, capitaneados pelo Diretor da ESALQ – Escola Superior Agricultura Luiz de Queiroz, professor Durval Dourado Neto, e pelo ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, professor e coordenador do Centro de Agronegócio na Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas e Embaixador Especial da FAO para as Cooperativas.

 

O ex-ministro Alysson Paolinelli, sempre otimista com a agricultura brasileira, deixou o legado de obras e ensinamentos.

Alysson Paolinelli, filho do agrônomo Antônio Paolinelli, formado na ESAL – Escola Superior de Agronomia de Lavras-MG, onde, posteriormente, se tornou-se professor e, como Diretor, fez a sua federalização.

Em 1971, Paolinelli reestruturou a Secretaria da Agricultura de Minas – governo Rondon Pacheco. Em 1974, foi convidado pelo presidente Ernesto Geisel para assumir o Ministério da Agricultura. Reformulou o Ministério e revolucionou a agricultura brasileira. Aliás, revolucionou a agricultura tropical sustentada no mundo. O desenvolvimento da agricultura tropical se divide em antes e depois de Alysson Paolinelli.

Em 2006, Alysson Paolinelli foi agraciado com o World Food Prize, nos Estados Unidos. Agora, entidades brasileiras apresentam seu nome para o Nobel da PAZ, pois sua contribuição não vale só para o Brasil. É a possibilidade de autonomia alimentar em toda faixa do cinturão tropical do planeta, onde estão os países mais pobres.

ALYSSON PAOLINELLI –

PENSAMENTOS e LEGADO

ALYSSON “DA PAZ’ PAOLINELLI

PAOLINELLI – A indicação, para mim, é uma grande honra. Mas quero que seja bem interpretada. Esse Nobel não é pessoal. Além de coletivo, é uma honra para o Brasil. Se estou candidato, é porque nós tivemos um trabalho integrado, não só como governo, mas também depois do governo, acompanhando de perto e procurando ajudar o Brasil caminhar na direção da formação da primeira Agricultura Tropical Sustentável do mundo. Foi um desafio imenso. Desafio de gestão, desafio científico, cultural e tecnológico. Um desafio de nação. Na década de 70, o Brasil encarou a possibilidade de se tornar autossuficiente em alimentos. Nós importávamos antes um terço do que consumíamos. Éramos sustentados na nossa balança comercial pela ‘conta café’. Quando os alimentos, em 1968, por uma deficiência climática no Hemisfério Norte, dobraram de preço, isto dava o sinal de que o mundo estava em perigo porque os próprios Estados Unidos, que era o grande abastecedor, teve que suspender suas exportações. Isso provocou um desarranjo tremendo no mercado internacional. O Brasil sofreu muito com isso. Acendeu a luz vermelha. Aí decidimos, estrategicamente, fazer um plano estratégico para tornar a Agricultura Tropical como viável. Não foi fácil.

 

VIABILIDADE TROPICAL

PAOLINELLI – O primeiro movimento pelo incremento da agricultura tropical sustentada foi a criação e o desenvolvimento da Embrapa. Veio logo em seguida a evolução do sistema integrado com nossas universidades, nossas instituições estaduais de pesquisa e, principalmente, parceria com a iniciativa privada. Tudo nos levou a obter um êxito muito grande. Primeiro, da exploração do Cerrado que deu uma demonstração de competência muito alta. É bom lembrar que Cerrado existe no mundo inteiro. Cerrado é uma das terras mais velhas do mundo. São como as savanas africanas. Estava altamente degradada pelo fogo, pelo pastoreio de animais, pelo pisoteio e pelas chuvas torrenciais, especialmente na América do Sul. O cerrado tem um solo de pouco nutrientes que precisa ser corrigido. Foi muito importante que nós conseguíssemos recuperar o Cerrado, porque o êxito dele nos possibilitou ampliar nossa visão e caminhar na direção do estudo e ocupação de todos os nossos biomas tropicais. Hoje estamos trabalhando no sentido de ocupar racionalmente esses biomas.

 

O CERRADO E OS RECURSOS NATURAIS

PAOLINELLI – Terra do Cerrado – como se dizia em Minas – “só dado ou herdado”. A marca do bioma são os galhos retorcidos e solo fraco. Mas é o segundo maior bioma do Brasil. Cobre uma área de 2 milhões de km2, que corresponde a 204 milhões de hectares. Isso representa quase um quarto de toda a extensão territorial do país. Apesar de ter uma grande diversidade em flora e fauna, é importante salientar que suas nascentes alimentam oito das 12 regiões hidrográficas do País, com destaque para três: as bacias dos rios Araguaia/Tocantins, do Rio São Francisco e do Rio Paraná. Do ponto de vista da agricultura, em condições naturais, esses solos não têm os micronutrientes que as plantas agrícolas precisam. Ele é muito pobre em nutrientes. Então, o solo do Cerrado apresenta baixa fertilidade.

Foi nesse contexto que os cientistas se inspiraram e estudaram como mudar a condição de pobreza agrícola dos solos do Cerrado. As pesquisas e as tecnologias desenvolvidas surtiram efeito. Nas últimas décadas, foram criadas tecnologias capazes de transformar a região coberta por esse bioma numa área bastante produtiva para a agricultura e a pecuária brasileiras. Hoje, o Cerrado é referência em produtividade agrícola tropical.

AGRICULTURA ABSOLUTAMENTE SUSTENTÁVEL

PAOLINELLI – Não houve apenas um desafio. Tivemos que enfrentar vários desafios ao mesmo tempo. A correção do solo, o desenvolvimento de sementes selecionadas, o controle biológico de pragas, o aparelhamento do plantio e colheitas, a fixação de nitrogênio no solo e assim por diante. Mas é importante dizer que todo trabalho era de mutirão: Embrapa, Universidades, missões especiais dos estados, iniciativa privada e formação, essencial dizer, e formação competente dos recursos humanos. Na década de 70/80 mandamos quase três mil estudantes e professores fazerem mestrado e pós-graduação nas melhores universidades e centros de pesquisa do mundo. A massa crítica desse corpo acadêmico e a nova postura de um Brasil independente foram fundamentais. O Brasil deixou de ter a mentalidade de colônia para procurar resolver seus problemas com as próprias mãos.

Com essas pesquisas e esses estudos nas mãos, o Brasil pode definir de que forma cada bioma e cada região pode ser usada. Temos uma definição de uso, onde pode ser usado e onde não pode ser usado. Onde não puder, nossa tentativa será de recompor os ecossistemas que foram estragados. E preservar. A área que poderá ser usada nós só usaremos com a garantia da ciência de que estamos fazendo uma agricultura absolutamente sustentável e uma agropecuária absolutamente sustentável. O nosso objetivo é garantir ao mundo que o Brasil continuará a ser a referência na área ecológica. Nós ainda temos 66,3% de nosso território em vegetação nativa original e queremos que essas regiões e seus ecossistemas, se puder, serem recompostas. Vamos trabalhar nisso. E a área que for possível produzir sem degradar, vamos tentar ampliar os conhecimentos para que isso seja possível.

HÁ GARANTIAS PARA ESTE PROJETO

PAOLINELLI – Olha, nós temos certeza de que a competência brasileira, que criou essa agricultura tropical sustentável, será a garantia deste projeto. E o êxito não é só para o Brasil. É para o mundo. Imagina a segurança alimentar deste projeto quando implantado na África! Ganharão os africanos que poderão produzir, se alimentar melhor e comercializar o excedente. Ganharão os próprios países europeus que colonizaram o mundo africano e usufruíram de suas riquezas, mas hoje vivem o drama da imigração descontrolada. Por questão políticas, pela pobreza extrema e por falta de alimentos os africanos têm como solução migrar para outros países.

REFORMA AGRÁRIA E TÍTULO DA TERRA

Para se alimentar, tem que haver colheita. Para colher, tem que plantar e para plantar tem que ter terra. Então, a posse da terra está no início do processo produtivo. Vale lembrar que a realidade da distribuição de terras no Brasil é uma herança do sistema colonial da “Lei das Sesmarias”. E, também, que a reforma agrária não representa uma simples distribuição de terras. É muito mais. Representa a viabilização para que produtores possam nela produzir, tendo a terra como garantia de financiamentos e recebam uma série de incentivos fiscais, é importante disponibilizar tecnologias, armazenamento, comercialização, enfim, é fundamental dar ao produtor condições de cultivo. No governo Geisel, conseguimos ter um Incra muito dinâmico. O Incra, neste período, conseguiu desatar o nó cego da área fundiária do Brasil. Conseguimos deslanchar uma verdadeira reforma técnica e democrática, integrando as áreas social, econômica e do meio ambiente. Basta lembrar que foi introduzida a discriminatória administrativa. A justiça era morosa e os conflitos eternos. Os poderosos conseguiam postergar todas as decisões. Temos um dado avassalador. Só nos primeiros meses de governo (de março a dezembro de 1974), foram entregues mais de 29 mil títulos de terra. Esse número já era superior ao número de títulos entregues desde Pedro Álvares Cabral. Isso foi uma revolução. Em 1976, o presidente Geisel entregou o título 100 mil de propriedade em Cascavel, no Paraná.

Imagina Rondônia. Em 1974, tinha apenas dois municípios: Guajará-Mirim e Porto Velho. Hoje são 52. Quase todos nasceram de projetos do INCRA. Pelo menos 32 deles. Fui lá muitas vezes com o presidente da autarquia Lourenço Vieira da Silva. Fizemos assentamentos e criamos 30 projetos de colonização. Todos os projetos viraram municípios e são hoje cidades prósperas como Vilhena, Ouro Preto do Oeste, Cacoal, Ariquemes, Gy-Paraná, Pimenta Bueno. Alguns projetos se desdobraram em três municípios. Cidades hoje de mais de 100 mil habitantes.

O ex-ministro Alysson Paolinelli sendo homenageado na Casa do Cerrado por sua equipe e pela então ministra da Agricultura, hoje senadora Tereza Cristina.  Na foto: Paulo Afonso Romano, Ministra Tereza Cristina, neto e o ministro, Marisa Gonzaga, Emiliano Botelho, presidente da CAMPO, e o jornalista Silvestre Gorgulho.

O IMPACTO SOCIAL DO AGRONEGÓCIO

PAOLINELLI – Os impactos são vários. Na renda brasileira os impactos são evidentes. Basta viajar para as regiões produtoras de grãos no oeste baiano, Minas, Goiás e Mato Grosso. Na saúde, nós melhoramos muito e se você olhar que há 50 anos a média de vida do brasileiro era de 55 anos, hoje nós estamos beirando os 70. Outra coisa, o nível da alimentação melhorou muito, essa posição brasileira de ser um novo player no mercado internacional provocou uma queda substancial no preço internacional dos alimentos que refletiu aqui também. Estudos mostram que entre os anos 80 a 2000 houve uma queda de preços estimada em torno de 70%, ou seja, se o índice era 100, o custo do alimento passou a ser 30. Isso é muito importante em relação à parte social, a média da família brasileira passou a se alimentar muito melhor e com gastos inferiores. Estudos que feitos pela Fundação Getúlio Vargas mostram que se nós gastávamos antes da década de 80, 42% a 48% do total da renda familiar em alimentos, a partir dos anos 2000 passou a se gastar 14% a 18%. Foi uma economia que permitiu ao brasileiro vestir-se melhor, ter lazer, transporte, melhorar a infraestrutura de estradas. Olha como os planos de saúde tiveram uma explosão de lá para cá, e também, a questão da segurança. A segurança ainda é discutível, mas você pode ver que com essas famílias habitando melhor e tendo educação, estão melhorando muito sua condição de vida. No campo produtivo há paz e harmonia. O descompasso está na periferia dos grandes centros. Portanto, para nós, que estamos trabalhando na base desse sistema, é muito satisfatório o que estamos realizando. Esperamos realizar ainda muito mais. Estamos vendo agora um triste quadro de o alimento voltar a subir, nós temos condição de manter mais baixo, e para isso, a ciência e a tecnologia são os caminhos mais certos.

O BRASIL NA ERRADICAÇÃO DA FOME

PAOLINELLI – O impacto social do agronegócio é muito grande. Já falamos sobre isso. Vale frisar que com a oferta de alimentos de melhor qualidade, os preços caem. Pelas estimativas dos organismos internacionais, até 2050 haverá um relativo equilíbrio na população mundial. O número de mortes vai se igualar mais ou menos ao número de nascimentos, portanto, haverá uma estabilização populacional. Mas, segundo a FAO, há que aumentar a oferta atual de alimentos em 61%. A mesma FAO verificou que os países tradicionais de agricultura temperada não têm mais condições de fazer isso. Então este compromisso vem dos países situados nas regiões tropicais. E esses estudos garantem que o Brasil será o responsável pelo aumento de 41% dos 61%. Conclusão: temos que dobrar 2,4 vezes a nossa atual safra de 250 milhões até 2050. Ou seja, o Brasil terá que produzir em 2050 próximo a 620 a 630 milhões de toneladas de alimentos. O equilíbrio e a segurança alimentar no mundo estão nas mãos do Brasil. Nós temos 41% de responsabilidade nesse desafio.

DILEMA FOME X MISÉRIA

PAOLINELLI – Este é o dilema mundial. Incrível, não é ver a miséria ou ver morrer de fome num deserto. O incrível e o inaceitável é não ter o que comer em terras que podem ser férteis por absoluta falta de projetos, por absoluta falta de interesse político se já temos tecnologia para o desenvolvimento de uma agricultura tropical. Há um paradoxo nisso tudo. Tem fome no Brasil? Evidente que tem. Mas sobram alimentos. Há desperdícios. Assim é também no mundo. O problema da fome e da miséria, é a incapacidade de adquirir alimentos. Se a ciência desenvolveu tecnologias para aumentar a produção e baratear os alimentos, há o outro lado da medalha: a falta do emprego, o problema da renda familiar.
Defendo a tese que ao invés do mundo gastar milhões de dólares ou de euros para evitar essas migrações descontroladas para o hemisfério temperado, que se invista os recursos para promover a agricultura nos países de onde sai essa massa de imigrantes. Se o Brasil tem tecnologia para o Cerrado, para as savanas e para o clima tropical, por que não desenvolver a agricultura desses países? Por que não usar o esforço que o Brasil já fez para implantar uma agricultura moderna nos países africanos, por exemplo? Promover o agronegócio nos países tropicais – está aí o exemplo da Companhia de Promoção Agrícola-CAMPO – que atua no Cerrado brasileiro e hoje está presente nos quatro continentes. Uma empresa brasileira que atua em 14 países desenvolvendo seus potenciais agrícolas. Sobretudo na África. Não vejo outra forma de atender a demanda por alimentos, estancar a fome e estabilizar o sistema de equilíbrio e de satisfação com a renda que não seja pela produção de alimentos.

 

 

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Viva Brasília 64 anos: As várias faces da estética brasiliense

Especial de aniversário da capital tem início com reportagem explorando a identidade brasiliense, do sotaque à culinária, passando pela moda

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Por ‌Jak Spies e Victor Fuzeira, da Agência Brasília | Edição: Vinicius Nader

Prestes a completar 64 anos de vida, Brasília é a capital responsável por abrigar todos: desde candangos que edificaram prédios, passando pelos descendentes e aqueles que vêm somente para visitar e conhecer a construção da identidade cultural do Quadradinho.

No especial Viva Brasília 64 anos, a Agência Brasília convida você a lembrar, conhecer e viver o jeitinho brasiliense, contemplado pela arquitetura, culinária, arte, esporte e outras áreas.

Forjada na diversidade, a capital tem gerações que nasceram aprendendo a fazer o balão, descer a tesourinha e pegar o zebrinha – coisas que fazem sentido para os brasilienses e compõem o estilo de vida da cidade, mas podem causar estranhamento a quem vem de fora.

Arte: Agência Brasília

Para a antropóloga e professora do departamento de sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Haydèe Caruso, Brasília pode ser pensada de forma muito diversa e com múltiplas identidades devido à própria concepção da cidade, que representa a junção de todas as partes e lugares do Brasil.

“A gente não estabelece padrões culturais por decretos ou protocolos, nós vamos vivendo e construindo a identidade cultural. É difícil dizer que há uma única identidade, até pelo distanciamento entre o Plano Piloto e as outras regiões administrativas, onde há vários movimentos que são berço do rap, do rock e do samba brasiliense. É um caldeirão que reúne o diverso que é o Brasil. A pluralidade pode ser nossa identidade”, explica a especialista.

Arte, cultura, arquitetura, moda e gastronomia ajudam a compor a identidade única de Brasília, cidade que reúne aspectos culturais de todas as partes do país | Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília

A antropóloga ressalta, ainda, que a identidade cultural é um processo contínuo de construção, em que a própria linguagem e expressões coloquiais locais podem ser citadas como exemplo.

Sotaque brasiliense

Para o brasiliense é comum pegar um baú ou camelo e ir ao Eixão do Lazer ou até mesmo morgar embaixo de um ipê e admirar o céu

Para o brasiliense, é comum pegar um baú ou camelo e ir ao Eixão do Lazer ou até mesmo morgar embaixo de um ipê e admirar o céu de Brasília – aquele conhecido como o mar da cidade. Depois, quem sabe, ir à Igrejinha e mais tarde ao Cine Drive-In ou ao Conic para um frevo.

Se você não é de Brasília, o parágrafo acima pode ser um pouco confuso de entender. Mas não se preocupe, nós o ajudamos a entender o dialeto da cidade que é só o ouro para você não pagar vexa, tá ligado, véi?

Essas são apenas algumas expressões típicas que fazem parte do sotaque brasiliense, tão claro para alguns e questionado por outros. O assunto foi tema do documentário Sotaque Capital, produzido pela jornalista Marcela Franco em 2013.

No curta, a resposta é que sim, existe um sotaque com características próprias no DF, fruto de uma mistura de diversas regiões do país. “Vinham pessoas de todos os estados para cá. Daí nasceu esse sotaque; dizem que é falado de forma cantada e que comemos algumas letras das palavras”, acentua a jornalista.

Outro termo peculiar é “babilônia”, usada para se referir às únicas quadras comerciais do Plano Piloto com ligação subterrânea. Considerada uma quebra de padrão entre as quadras modelos do Plano Piloto, a 205/206 Norte era conhecida como “a quadra estranha do Plano Piloto”, malvista por muitos e amada por alguns, e tema do documentário Babilônia Norte, dirigido por Renan Montenegro, 34.

O cineasta estava entre os que passavam pela quadra e a viam de forma diferente. Lançado em 2013, o curta explora os ângulos e espaços arquitetônicos do espaço, fazendo parte de um movimento de identificação cultural em Brasília que surgiu no mesmo ano. “O que mais potencializou esse movimento foi ser um trabalho feito por brasilienses, convidando mais artistas brasilienses para um público brasiliense. É um discurso bem bairrista: feito aqui, por nós, sobre nós e para nós. É pertencer à cidade e dar ressignificado para as coisas”, conta Renan.

O diretor aponta que o ano de 2013 foi uma virada para a identidade brasiliense e fez diferença na quadra para o que ela é hoje. A mesma lógica, que parte de ocupar os espaços públicos, é aplicada ao Carnaval de Brasília, que já tem um circuito a contemplar os brasilienses que não precisam mais viajar só para se divertir em bloquinhos.

“Para uma cidade nova, dez anos fazem muita diferença. Há um desenvolvimento dos artistas locais e do público. Brasília sempre foi muito fria pela construção arquitetônica e urbanística e pelos endereços cheios de números. Então, até esse movimento de apelidar os lugares, por exemplo, ajuda no processo de chamar a cidade de nossa”, destaca o cineasta.

Moda e gastronomia

O chef André Castro defende a gastronomia com ingredientes locais: “Precisamos começar a olhar para o quintal da gente”

Essa construção de identidade entra em outros campos. Os alimentos típicos do Cerrado são usados na elaboração de menus executivos, festivais gastronômicos e cardápios especiais. Entre os restaurantes que ressaltam essa culinária local está o Authoral, localizado na Asa Sul e comandado pelo chef de cozinha André Castro.

Durante o período em que esteve na Europa, André assimilou o importante aprendizado de enaltecer o local. “Valorizar o ingrediente que está próximo a você, seja porque ele faz parte da cultura, seja porque chega até você mais fresco: isso é valorizar, também, toda a cadeia produtiva que está próxima”, pontua.

Atualmente, há dois pratos incluídos no cardápio nessa linha. O primeiro leva óleo de babaçu tostado no lugar do óleo de gergelim. É um filé de pescada-amarela com crosta de castanhas brasileiras, musseline de batata-doce roxa, creme de moqueca e vinagrete de milho tostado. No outro preparo, é usada uma técnica espanhola para fazer uma croqueta com massa de galinha caipira com emulsão de pequi.

“Infelizmente, o brasiliense ainda conhece pouco do Cerrado. As pessoas nascem e crescem no Cerrado, mas não conseguem falar cinco ingredientes encontrados aqui. Precisamos começar a olhar para o quintal da gente”, comenta o chef.

Na loja Verdurão, Wesley Santos trabalha com duas ‘estações do ano’: seca e chuva

Não só a culinária é influenciada por características locais do DF, mas também a moda. Enquanto muitos países apresentam estações do ano bem-definidas, a marca de roupas Verdurão, criada em 2003, entende que isso não existe na realidade brasiliense.

“Temos duas estações: seca e chuva. E é assim que operamos, com roupas para época de seca e época de chuva. Eu até brinco que a Verdurão começou a falar da identidade cultural de Brasília em uma época em que a gente nem sabia que tinha uma identidade. A marca ajudou a mapear e explicitar essa identidade aos brasilienses”, afirma o diretor criativo da Verdurão, Wesley Santos.

Além de ser uma rede de apoio à economia local e às várias famílias que vivem da produção do vestuário, a Verdurão produz roupas sem nada de origem animal. Algumas são feitas com tecidos biossustentáveis, como fibra de bananeira e de cânhamo.

“Eu já rodei o mundo inteiro e nunca vi nada minimamente parecido com Brasília. É uma cidade cenário diferente de tudo”

Wesley Santos, diretor criativo

Uma das missões da empresa é, segundo Santos, “promover Brasília até para gringo conhecer” e “mostrar para o resto do país o quanto Brasília é massa”. Para o diretor criativo, não é tarefa difícil trabalhar com estampas que retratam o cotidiano da capital federal, usando e abusando dos símbolos brasilienses – placas, fauna, flora, gírias, costumes e cartões-postais.

“Estamos em uma cidade fora do normal, incrível. Temos um estilo de vida que não se encontra em nenhuma cidade do país. Eu já rodei o mundo inteiro e nunca vi nada minimamente parecido com Brasília. É uma cidade-cenário diferente de tudo”, afirma.

Brasília é poesia

Com oito livros repletos de poesias que falam sobre Brasília, o poeta Nicolas Behr compartilha dessa paixão pela cidade onde mora há 50 anos. O autor frisa que tudo está relacionado ao choque inicial que teve com Brasília, quando chegou aos 14 anos, vindo de Cuiabá (MT), e deu de cara com uma cidade estranha, nova e árida.

O poeta Nicolas Behr foi buscar inspiração nas curvas de Brasília para sua arte | Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

“Essa aridez me causou um estranhamento, uma dificuldade de aceitar essa cidade e uma tentativa constante de dialogar com ela. Foi daí que nasceu a minha poesia, da tentativa de decifrar Brasília antes que ela me devorasse. É um conflito bom, que vai diminuindo à medida que você vai se incorporando à cidade”, observa.

Behr também comenta que a parte mais visível da estética brasiliense é a contribuição para a arquitetura, sendo impossível falar de Brasília sem passar pelas obras de Oscar Niemeyer. “Antes de Brasília, a arquitetura moderna era feia, pesada, sem leveza, sem graça, sem a criatividade que Oscar Niemeyer nos trouxe. Ele tirou os ângulos retos e trouxe as curvas, deu beleza ao que antes era uma coisa pesada”.

Para o poeta, Brasília representa a maior realização do povo brasileiro. “A grande história de Brasília é o que ela simboliza como uma ideia: a transposição para o papel e para o chão de uma tentativa de organizar o caos. Brasília é a cidade mais racional do mundo. É uma cidade instigante, que ganhou em vida e perdeu em mistério”, declara.

Ele finaliza reforçando que Brasília, por si só, rende muita poesia: “Aqui não existe limite para a criação intelectual. Brasília é uma cidade muito nova e, por ser nova, não tem uma tradição literária. Isso é bom para o artista, porque a tradição é um peso. Em Brasília, o horizonte está na sua frente”.

 

 

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Programa leva estudantes para visitas guiadas no Museu de Arte de Brasília

Mais de 3 mil alunos da rede pública já visitaram o Museu de Arte de Brasília por meio de projeto que oferece transporte gratuito, alimentação e oficinas educativas para os jovens

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Por Jak Spies, da Agência Brasília | Edição: Igor Silveira

 

Foi a primeira vez que a estudante Maiara Kelly Soares dos Santos, de apenas 6 anos, foi ao Museu de Artes de Brasília. De primeira, ela já demonstrou afeição pelas obras, elogiando não só as oficinas com brincadeiras, mas principalmente os quadros que viu durante a visita guiada. “Eu gostei mais das obras de arte, nunca vim aqui. É tudo bonito. Aprendemos o que é mais quente e mais frio”, destacou a pequena, referindo-se à tonalidade das cores ensinadas durante o passeio.

Já foram realizadas 168 visitas guiadas no equipamento público, que ocorrem desde 17 de abril de 2023 | Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília

Maiara é uma entre os 140 alunos de educação infantil da Escola Classe Córrego Barreira, uma escola rural localizada na Ponte Alta Sul do Gama, e está entre os 3 mil estudantes do DF que já visitaram o museu por meio do MAB Educativo, que conta com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec-DF). Além das mediações e práticas artísticas, o programa oferece transporte gratuito e lanche para as crianças.

Já foram realizadas 168 visitas guiadas no equipamento público, que ocorrem desde 17 de abril de 2023. Mais de sete mil pessoas já foram alcançadas pelo programa do MAB, divididas entre público espontâneo e público escolar, além de 335 professores de 94 escolas, de 20 regiões administrativas do DF – sendo 90 de escolas públicas e quatro de escolas particulares. Mais de mil pessoas foram atendidas com o transporte gratuito.

“É uma oportunidade que eles têm de sair do ambiente deles, porque nossa escola é do campo e os alunos são de comunidade bem carente, então é uma parceria muito importante. Melhora muito a criatividade, o repertório visual e de palavras, além do desenvolvimento deles no campo da arte”, destacou a vice-diretora da Escola Classe Córrego Barreira, Marlene Alves.

Mais de sete mil pessoas já foram alcançadas pelo programa do MAB, divididas entre público espontâneo e público escolar, além de 335 professores de 94 escolas, de 20 regiões administrativas do DF – sendo 90 de escolas públicas e quatro de escolas particulares

Essas visitas só foram possíveis porque o MAB foi reaberto em 2021, antes fechado desde 2007. A reabertura do espaço cultural foi um dos presentes do aniversário de 61 anos da capital federal. Para o aniversário de Brasília, além das atividades normais durante a semana, o Museu está com uma programação de oficinas especiais nos finais de semana. O MAB fica no Setor de Hoteis e Turismo Norte, trecho 1, Projeto Orla.

Interação com o mundo

O projeto, que tem capacidade atual de receber 480 crianças por semana, também disponibiliza visitas acessíveis em libras e um material educativo para as crianças. De acordo com a coordenadora pedagógica do MAB Educativo, Luênia Guedes, a acessibilidade e o transporte gratuito são a parte principal do programa. “Muitas dessas escolas estão em regiões que ficam longe e não têm condição financeira de levar esse acesso às crianças”, ressaltou.

Com supervisão pedagógica, a turminha recebe a visita mediada de forma lúdica pelo acervo, onde as crianças participam dos jogos desenvolvidos pela equipe de mediadores. Depois, elas seguem para uma oficina no laboratório, que conta com atividades interativas.

“Essa proximidade com a arte já começa transformando e dando a sensação de pertencimento para essas crianças, para que elas possam perceber que o museu é um espaço para a comunidade. A experiência com a arte acessa o sensível, o criar, as possibilidades de reflexão, de interação com o mundo e a capacidade de construir novas realidades e mundos possíveis. Esse trabalho é fundamental para a formação cidadã de cada criança”, reforçou a coordenadora.

 

 

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O ACONCÁGUA

A montanha mais alta fora da Ásia, com 6.961 metros de altitude, e, por extensão, o ponto mais alto tanto no hemisfério ocidental quanto no hemisfério sul.

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O Aconcágua, na Cordilheira dos Andes, com altitude 6.961 metros, localizado na província de Mendoza, Argentina, é o ponto mais alto do hemisfério sul e do Ocidente. A montanha e seus arredores fazem parte do Parque Provincial Aconcágua, que abriga uma série de importantes geleiras.

Porta de entrada do Aconcágua

 

O maior glaciar do Aconcágua é o Ventisquero Horcones Inferior, com cerca de 10 km de comprimento, que desce a partir da face sul da montanha, com aproximadamente 3.600 metros de altitude, perto do acampamento Confluência. Dois outros grandes sistemas de geleira são o Ventisquero de las Vacas Sur e Glaciar Este/Ventisquero Relinchos, com cerca de 5 km de comprimento. A face mais conhecida é a do Nordeste, chamada de Glaciar dos Polacos, uma rota desbravada por montanhistas da Polônia em 9 de março de 1934.

No entanto, a primeira tentativa de chegar ao cume do Aconcágua foi em 1883, por um grupo liderado pelo geólogo alemão Paul Gussfeldt. A rota que ele fez é agora um itinerário bastante usado.

A pessoa mais jovem a chegar ao cume do Aconcágua foi Tyler Armstrong, da Califórnia, Estados Unidos. Ele tinha nove anos de idade quando alcançou o cume em 24 de dezembro de 2013.  A pessoa mais velha a escalar foi Scott Lewis, que alcançou o cume em 26 de novembro de 2007, aos 87 anos de idade. No ano de 2022, 4.600 montanhistas participaram de expedições ao Aconcágua e, deste total, 153 perderam a vida tentando alcançar o cume.

Para saber mais: Siga no Instagram @pehauck e @altamontanha

 

 

A primeira tentativa de chegar ao cume do Aconcágua foi em 1883, por um grupo liderado pelo geólogo alemão Paul Gussfeldt. A rota que ele fez é agora um itinerário bastante usado

 

 

TRÊS ALPINISTAS BRASILEIROS

Em 3 de fevereiro de 2024, completaram 26 anos da tragédia que se abateu sobre três alpinistas brasileiros quando tentavam o feito inédito de chegar ao cume do Aconcágua pela face sul. Alexandre Oliveira, Mosart Catão e Othon Leonardos foram arrastados por uma avalanche, estando os corpos até hoje na Cordilheira dos Andes.

 

Citado três vezes no ‘Guinness Book’, Mosart Catão era considerado um dos melhores do Brasil no esporte. Alexandre Oliveira tinha dez anos de escalada e se destacava na rocha e em alta montanha, devido à sua excelente capacidade de aclimatação.  Othon Leonardos era de Brasília e esta era sua primeira vez no Aconcágua. A tragédia aconteceu seis dias depois deles terem saído do acampamento base, sendo dois a espera pela melhora no tempo.

Essa poesia foi capa da Folha do Meio Ambiente, edição Ecoturismo – março de 1998.

 

 

Três amigos e três heróis: Aconcágua serás!

ACONCÁGUA SERÁS!


Silvestre Gorgulho


Meu fascínio é teu desafio
e ambos são os preços para tua glória.
Fascínio e desafio são minhas oportunidades
para fazer amigos e heróis.
Amigos, aqueles que chegam aqui em cima, me acariciam e voltam.
Heróis, aqueles que aqui permanecem
e que, por todo o sempre, dormirão ao meu lado,
dividindo comigo magias e encantos.

 

Eu sinto falta de meus amigos,
aqueles que me visitam e retornam às suas casas.
Sentirás falta de teus amigos,
aqueles que aqui plantam sua morada.
Não chores por eles.
São meus heróis. Meus escolhidos.
Serão sentinelas brancas,
marcando o território de suas pátrias.
Serão Aconcáguas como eu.


Neste meu céu, sem pássaros e sem flores,
sem o voo solitário do Condor,
minha natureza é o ar, a pedra, a neve e meus alpinistas.
Sim, meus centenas alpinistas, meus heróis,
que como Mozart, Alexandre e Othon
deram um tempo na sua escalada
e quedaram neste céu para sempre.


Todos eles buscaram a glória. E a tiveram.
Venceram o ermo e a solidão.
Cada um deles tem consigo a bandeira congelada de sua Pátria
que seria desfraldada em calorosas emoções, risos e lágrimas.


Montanhista!
Ao beijar a minha testa,
terás o mundo a teus pés.
Mas, se por acaso, o destino
deixar que repouses ao meu lado,
dorme… dorme, meu Herói!
Dorme tranquilo que velarei por ti eternamente…
Aconcágua serás!

 

 

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Reportagens

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