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O GRAVE DEGELO DAS GELEIRAS
Glaciólogo Jefferson Cardia Simões: o degelo nos polos cria nova geopolítica global, além de catástrofes previsíveis.
A Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) definiu que 2025 é o “Ano Internacional da Preservação das Geleiras”. A resolução da ONU, com este propósito, é de 2022. E a Unesco escolheu este tema para celebrar o Dia Mundial da Água. Aproveitamos a 29ª viagem do glaciólogo gaúcho, Jefferson Cardia Simões, aos polos para uma ampla entrevista sobre as geleiras e o seu comprovado derretimento. Aos 66 anos de idade, professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, esse cientista estóico, como ele mesmo se considera, vai e volta do gelo com a maior naturalidade. Já fez duas vezes ao Ártico e 27 vezes à Antártica. Jefferson Simões concedeu esta entrevista exclusiva apenas três dias após seu retorno a Porto Alegre (RS). Em sua sala na Faculdade de Geografia da UFRGS, em meio a um alerta de extremo calor da Defesa Civil de Porto Alegre, o glaciólogo recebeu a jornalista da Folha do Meio, Márcia Turcato. “Sou uma pessoa estóica. Posso ficar dois meses fora de casa, mas quando volto assumo minha rotina e minha função de marido, pai e avô”. Simões é casado há mais de 40 anos, tem dois filhos e dois netos.
Nesta última missão, a Internacional Circum-Navegação Costeira Antártica (ICCE), que regressou ao Brasil no dia 31 de janeiro, Jefferson Simões foi o chefe da missão e coordenou 57 cientistas de sete países (Argentina, Chile, China, Índia, Peru, Rússia e Brasil). O trabalho foi a bordo do navio quebra-gelo Akademik Tryoshnikov, que navegou 29,1 mil km nos 70 dias da expedição. O navio pertence ao Instituto de Pesquisa Ártica e Antártica de São Petersburgo, na Rússia.

O navio quebra-gelo Akademik Tryoshnikov navegou 27,1 mil km nos 69 dias da expedição. (Fotos: Anderson Astor e Marcelo Curia/ICCE).
Os dois meses de navegação em mares da Antártica, confirmaram para o pesquisador tudo aquilo que as evidências científicas já haviam indicado: as geleiras estão derretendo, a água do mar está ficando cada vez mais ácida, a fauna e a flora estão sofrendo alterações, assim como as correntes marítimas e as comunidades costeiras, que serão fortemente afetadas. As regiões polares são mais sensíveis às mudanças climáticas e elas dão sinais claros do que está acontecendo. O derretimento das geleiras expõe as rochas e elas aquecem a região porque absorvem mais energia solar.
AS 29 COPs ESQUECERAM AS GELEIRAS. E A COP30, EM BELÉM, VAI SER EVENTO POLÍTICO E NÃO DE CIÊNCIA.

ENTREVISTA
JEFFERSON CARDIA SIMÕES – “A ciência não é feita apoiada em narrativas e sim em evidências”.
O glaciólogo brasileiro Jefferson Cardia Simões é professor da UFRGS e estuda o degelo nos Andes, em especial em uma área do Peru. Jefferson Simões faz parte de diversas entidades internacionais de ciências, como o Committee on Antartic Research (SCAR/ISC). Obteve o PhD pelo Scott Polar Reserch Institute, University of Cambridge, Inglaterra, em 1990. Jefferson é integrante do Comitê Nacional de Pesquisas Antárticas do Ministério da Ciência e Tecnologia e já participou de audiência pública nas Comissões da Amazônia e Integração Nacional, de Desenvolvimento Regional e de Ciência e Tecnologia, das da Câmara dos Deputados. Para Jefferson Simões “o status de uma nação nos fóruns internacionais antárticos é dado pela qualidade da pesquisa de um país em uma região que representa quase 10% do Planeta Terra. O Brasil corre o risco de reduzir o seu status em uma região essencial para o meio-ambiente e para o futuro do planeta Terra”.
Márcia Turcato – Quais foram os objetivos da missão?
Jefferson Cardia Simões – O objetivo número um da expedição foi obter informações sobre a movimentação do gelo nas bordas do continente antártico, porque este gelo pode ser dinamicamente instável. São milhares de toneladas que podem ter um deslocamento abrupto e provocar um aumento do nível do mar sem precedentes, de até sete metros, algo como um tsunami. O segundo objetivo foi averiguar o nível de salinidade do mar, porque ele está mais ácido.
A pesquisa já identificou que a água do oceano Austral está mais ácida devido ao aumento de CO2. Isto porque o gelo que cobria a água do mar derreteu. Esse gelo funcionava como um isolante térmico. Sem essa proteção, a água do mar absorveu o CO2 que existe na atmosfera, a maior parte dele produto da interferência humana. As regiões polares são mais sensíveis às mudanças climáticas e elas dão sinais claros do que está acontecendo. O derretimento das geleiras expõe as rochas e elas aquecem a região porque propagam calor. A ciência não é feita apoiada em narrativas e sim em evidências.
As geleiras polares perderam 30% de sua área e as geleiras não polares, como as da Cordilheira dos Andes, por exemplo, perderam 40% de sua área, expondo pedras, gerando calor, provocando inundações no início do fenômeno, e agora escassez hídrica para as comunidades que vivem na base da montanha.

A Antártica tem 90% do gelo do mundo. E 1% de derretimento representa um aumento de 60 cm no nível do mar.
Márcia – Como foi o trabalho em equipe com tantas nacionalidades envolvidas?
Jefferson – Essa foi a primeira vez que cientistas brasileiros atuaram na Antártica Oriental. O envolvimento de tantos países com o mesmo objetivo é, para mim, um exemplo de “diplomacia da ciência”, houve muita cooperação e entrosamento. Interessante notar que dos sete países a bordo do navio eram aqueles que deram início ao BRICS, que é um esforço de cooperação econômica entre nações. O trabalho de pesquisa se valeu de balões atmosféricos para realizar a coleta de dados que permitirão entender melhor a formação das frentes frias e dos ciclones extratropicais, além da coleta de materiais, que são os testemunhos de gelo, e de amostras de água do mar, de neve e do solo.
Márcia – Quanto representa a Antártica em relação ao gelo do mundo?
Jefferson – É muito. A Antártica tem 90% do gelo do mundo. E 1% de derretimento representa um aumento de 60cm no nível do mar. Imagine isto em algumas décadas, comunidades costeiras irão desaparecer, assim como várias ilhas. Cenários mostram que o nível do mar poderá subir 7m até o ano de 2300. O gelo antártico tem em média 2km de espessura, são cerca de 27 milhões de km cúbicos de gelo na Antártica, o suficiente para cobrir o Brasil com um manto de gelo de 3 km de espessura em toda a sua extensão. O território brasileiro tem 8,5 milhões de km quadrados.
“As COPs são eventos políticos, não são de ciência. Não há uma discussão relevante sobre mudança climática nas COPs (Conferências do Clima) eu nunca fui convidado para uma Conferência Internacional do Clima e nem devo ir à COP’30, em Belém”. E o tema do Dia Mundial da Água, em 2025, é a preservação das geleiras.
Márcia – Atualmente existe mais consciência sobre as mudanças climáticas em curso?
Jefferson – A questão do meio ambiente é global e os polos estão inseridos na nossa vida, assim como a Amazônia e o Pantanal, por exemplo, há uma interdependência. Mudanças climáticas sempre existirão, mas é necessário reduzir o impacto sobre o clima imediatamente. Mesmo diminuindo o impacto que já provocamos, o nível do mar subirá no mínimo 30 cm até o ano 2100.
No Brasil, de um modo geral, as pessoas pensam que a mudança climática está relacionada aos biomas verdes, como a floresta da Amazônia ou a flora do Cerrado. Mas tudo está relacionado, os fatores do meio ambiente são globais. Não há uma discussão relevante sobre mudança climática nas COPs (Conferências do Clima) eu nunca fui convidado para uma Conferência Internacional do Clima e nem devo ir à COP’30 (de 10 a 21 de novembro, em Belém, no Brasil). As COPs são eventos políticos, não são de ciência. É bom lembrar que o tema do Dia Mundial da Água, este ano, é a Preservação das Geleiras.
Márcia – Há um visível derretimento do gelo no Ártico e uma disputa envolvendo várias nações. O que isso significa?
Jefferson – A navegação marítima é afetada com o degelo do mar no Ártico, surgem novos portos, novas rotas comerciais, nova geopolítica e até a militarização em novas fronteiras. O Ártico aqueceu cerca de 4 graus e abriu uma nova passagem marítima. Em breve, o mar congelado deixará de existir nos meses do Verão no Hemisfério Norte. E assim reduzirá o albedo, que é a proporção de energia do Sol refletida, a neve reflete 80% da energia, então o Sol vai aquecer diretamente a água do mar, modificando correntes marítimas, fauna e flora.

A questão do meio ambiente é global e os polos estão inseridos na nossa vida, assim como a floresta da Amazônia e o Pantanal.
Márcia – Mas aí muda tudo. Haverá uma nova geopolítica?
Jefferson – Isso mesmo. A nova geopolítica, com a passagem marítima Nordeste, acima da Sibéria, o tempo das viagens comerciais de navio será reduzido em 10 dias, resultando em uma economia de 100 mil dólares, por embarcação, a cada viagem. Os navios não precisarão mais passar pelo Canal de Suez, no Oriente, ou pelo Cabo da Boa Esperança, na África, para dar a volta ao Globo.
Márcia – Com o derretimento no Hemisfério Norte há uma visível disputa por território. Qual a sua avaliação?
Jefferson – Vem daí toda a recente discussão do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que quer anexar territórios para expandir sua geopolítica. Hoje, está assim: mais ou menos 70% do Ártico é da Rússia, que vai estender sua área econômica exclusiva até 350 milhas da costa. O Ártico tem 6 países com costa territorial: Rússia, Estados Unidos (via Alasca), Canadá, Dinamarca (via Groenlândia, que é um território autônomo), e Noruega. O Ártico também inclui os territórios de Svalbard, uma ilha administrada pela Noruega, e Nunavut, um território autônomo do Canadá.
É a nova colonização. Para quem especula como ganhar mais dinheiro, a mudança climática não importa. É encarada como uma consequência para as futuras gerações, não agora. Uma visão simplista. E mais uma vez: nenhuma dessas discussões foram objetos de temas nas 29 Conferências do Clima já realizadas.
Márcia – Qual o custo para realizar uma missão de tamanha importância e envolvendo tantos países?
Jefferson – Conseguimos um financiamento de 98% do projeto, cerca de 6 milhões de Euros, da fundação franco-suíça Albédo Pour da Cryosphére e contamos com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul.

As regiões polares são mais sensíveis às mudanças climáticas e elas dão sinais claros do que está acontecendo. O derretimento das geleiras expõe as rochas e elas aquecem a região porque propagam calor.
Márcia – Pelo visto, o degelo fortalece os negócios?
Jefferson – Aí está a questão. A Rússia detém a maior extensão litorânea no Ártico, ao longo da qual se estende a Rota Nordeste do Mar, a principal passagem da região. Em seguida, o Canadá possui a segunda maior costa, onde está a chamada Passagem Noroeste. Vivem diversas comunidades tradicionais na região. O Ártico é uma área rica em minerais, com destaque para a abundância de petróleo e gás. O Ártico também se destaca por ser uma área militarmente estratégica.
A região teve papel fundamental durante a chamada Guerra Fria, por conta da proximidade geográfica dos Estados Unidos com a Rússia, via Alaska, e bases militares foram construídas na região. Com parte do derretimento do Ártico, o mundo do capital vê uma oportunidade de negócios. Não existe um acordo de proteção do Ártico, só existe para a Antártica, que está protegida até 2048. E depois, o que acontecerá?

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UnB tem finalistas no Prêmio Jabuti Acadêmico 2026
Obras dos docentes Edileuza Penha, Gabriele Cornelli e Elimar Pinheiro concorrem nas áreas de Artes; Tradução; e Ciências Agrárias e Ciências Ambientais. Premiação ocorre em 11 de agosto, em São Paulo
- Da Secretaria de Comunicação da UnB
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UnB marca presença entre os finalistas na tradicional premiação brasileira com coletâneas e obra traduzida. Arte: Secom UnB Alegria, reconhecimento coletivo e satisfação por ver trajetórias acadêmicas alcançarem projeção nacional são algumas das sensações que aproximam os três docentes da Universidade de Brasília finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026.
As três publicações que representam a instituição na lista final de uma das principais premiações do país contemplam conhecimentos de áreas distintas. Indicada na categoria Artes, a coletânea organizada pela professora Edileuza Penha de Souza e por Ceiça Ferreira, doutora em Comunicação pela UnB, aborda o cinema negro realizado por mulheres.
Já a interpretação contemporânea de um diálogo de Platão, feita por Gabriele Cornelli, concorre na área de Tradução. O protagonismo dos jovens diante das mudanças climáticas é o eixo central do livro organizado por Elimar Pinheiro do Nascimento e Alfredo Pena-Vega, finalista no grupo das Ciências Agrárias e Ciências Ambientais.
Os autores concordam que, para além de seus trabalhos individuais, as indicações valorizam os temas, as equipes e os espaços de pesquisa que permeiam a produção das obras.
“É uma maravilha que a gente tenha, numa única universidade no Centro-Oeste, três docentes finalistas dessa edição do Prêmio Jabuti“, comemora Edileuza Penha, professora vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (PPGDH/Ceam/UnB).
O Prêmio Jabuti Acadêmico, criado em 2024, reconhece e valoriza livros científicos, técnicos e profissionais publicados no Brasil. A edição de 2026 recebeu mais de 2 mil inscrições em categorias que estão distribuídas nos eixos Ciência e Cultura ou Prêmios Especiais. Os autores vencedores receberão uma estatueta do Jabuti Acadêmico, além da premiação de R$ 5 mil. As editoras responsáveis pelas obras também serão contempladas com o troféu.
Os vencedores serão conhecidos em 11 de agosto, durante cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. O evento será transmitido ao vivo pelo canal da Câmara Brasileira do Livro no YouTube.
>> Conheça todos os finalistas da 3ª edição do Prêmio Jabuti Acadêmico

“Os nossos filmes, na maioria das vezes, não vinham sendo curados, não vinham sendo sequer falados”, afirma Edileuza Penha, coautora da obra Cinema negro no feminino: afetos e pertencimentos além das telas. Foto: Arquivo pessoal MULHERES PROTAGONISTAS – Organizada por Edileuza Penha e Ceiça Ferreira, a coletânea Cinema negro no feminino: afetos e pertencimentos além das telas reúne pessoas negras, em sua maioria, para destacar narrativas e intersecções entre gênero, raça e os processos do “fazer cinema”.
Para Penha, a obra incorpora aos campos da comunicação, do audiovisual e das artes as experiências de mulheres negras em espaços historicamente marcados pela predominância masculina e branca. “A principal contribuição é dar visibilidade a um cinema que, durante muito tempo, foi marginalizado”, sintetiza.
Organizado em quatro eixos, o livro inclui discussões sobre a pesquisa e a construção do cinema negro como campo de estudos e sobre as dimensões estética e política dessas produções. Resgata ainda a memória de pioneiras como Adélia Sampaio e Antônia Ágape, aprofundando questões relacionadas à visibilidade das mulheres negras na história do cinema, bem como traz artigos sobre crítica, curadoria e exibição.
“Os nossos filmes, na maioria das vezes, não vinham sendo curados, não vinham sendo sequer falados”, observa a pesquisadora, que também dirigiu curtas-metragens premiados, entre eles Filhas de Lavadeiras (2019) e Vão das Almas (2023).
Penha conta que, durante o percurso para a publicação do livro, a proposta recebeu respostas negativas de quatro editoras. Tornou-se possível depois que o trabalho foi contemplado pela iniciativa Rouanet nas Favelas. A obra foi publicada pela editora Nau e já é adotada em cursos de mestrado e doutorado em cinema, a exemplo da Universidade Federal Fluminense.
A indicação ao Jabuti Acadêmico chega em um momento especial para as autoras, pois evidencia “o reconhecimento de um trabalho silencioso e de formiguinha”. “Estamos muito felizes, estou explodindo de alegria. A indicação é uma grande vitória”, celebra Edileuza Penha.
A docente da UnB ainda defende a inserção de uma disciplina voltada às relações raciais nos currículos das licenciaturas, uma formação que contribuiria para preparar futuros docentes de diferentes áreas e pertencimentos raciais para compreender a diversidade da sociedade brasileira, com ênfase na educação para as relações étnico-raciais.
OBRA CLÁSSICA – O professor do Departamento de Filosofia Gabriele Cornelli é finalista com uma nova tradução de Fédon, de Platão. O livro traz o último dia de Sócrates, condenado a beber veneno, com abordagens sobre conhecimento, vida filosófica, morte, alma e justiça.

Tradução de Fédon é resultado da tese defendida por Gabriele Cornelli, em 2024, para promoção a professor titular na UnB. Foto: Arquivo pessoal “‘Acreditamos que a morte seja algo?‘ Essa é a pergunta com que Sócrates inicia sua discussão com os amigos, em seu último dia”, explica Cornelli. O personagem procura demonstrar que a morte não seria o fim do ser humano nem algo que um filósofo deveria temer. Platão também apresenta Sócrates encontrando familiares e amigos, preparando o corpo para a morte, rindo, realizando gestos de carinho, permanecendo em silêncio e, finalmente, tomando o veneno.
“No Fédon, a morte não é somente discutida. Ela é também, e sobretudo, representada”, afirma o tradutor. “O corpo de Sócrates que morre embaralha o discurso filosófico. A lógica dos argumentos esmaece, por vezes, na frente do desejo de persuadir e consolar os amigos.”
O pesquisador conta que, ao realizar a tradução, procurou recuperar o caráter público e cotidiano da filosofia de Platão. Para ele, o filósofo grego desenvolveu o pensamento filosófico por meio do diálogo e do debate sobre questões como felicidade, justiça e linguagem.
De acordo com Cornelli, Platão não procurou criar uma linguagem técnica separada da vida cotidiana. Por isso, uma tradução excessivamente formal poderia passar a impressão de que o filósofo não fala a língua das gerações atuais ou de que a filosofia não pode ser plenamente expressa em português brasileiro.
Assim, o docente destaca que trabalhou com recursos próprios da nossa língua ao traduzir o clássico. Um exemplo está na passagem em que Sócrates procura consolar Fédon, sentado em um banco abaixo dele. O verbo utilizado no texto grego significa apertar ou pressionar para descrever um movimento realizado nos cabelos do jovem.
“Os tradutores de outros idiomas sofreram muito para traduzir esse estranho movimento de uma pressão nos cabelos. Mas o português brasileiro me regalou imediatamente: Sócrates, para consolar Fédon, ‘fez cafuné’ nele”, relata.
A edição foi publicada pela Companhia das Letras, na coleção Clássicos Penguin. Além do trabalho com a língua, Cornelli propõe uma leitura crítica da apropriação histórica do platonismo por discursos coloniais e por concepções de superioridade da cultura europeia.
Segundo ele, ideias associadas a Platão foram utilizadas ao longo da modernidade para justificar hierarquias, processos de colonização e projetos de supremacia racial ou cultural. A tradução e os comentários procuram retornar ao texto para separar a obra dessas interpretações posteriores.
O livro é resultado da tese defendida pelo tradutor, em 2024, para sua promoção a professor titular da UnB, coroando seus 20 anos de trabalho na Universidade. A trajetória inclui as atividades desenvolvidas na Cátedra Unesco Archai sobre as Origens Plurais do Pensamento Ocidental, coordenada por ele desde 2011.

“O futuro está nas mãos dos e das jovens”, defende Elimar Pinheiro sobre a necessidade de ação e protagonismo da juventude para mudar a trajetória das mudanças climáticas no mundo. Foto: Arquivo pessoal JOVENS E CLIMA – Concorrendo na área de Ciências Agrárias e Ciências Ambientais, o livro Juventude e Clima: Vozes e Futuro foi coordenado por Alfredo Pena-Vega e pelo professor Elimar Pinheiro do Nascimento, do Programa de Pós-Graduação do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS/UnB). A obra teve colaboração de 20 autores entre cientistas e jovens de Brasil, França, Áustria, Chile e Colômbia.
A motivação central é mostrar como os jovens reagem às mudanças climáticas, em especial aos eventos climáticos extremos. A obra reúne reflexões científicas, experiências de diálogo entre pesquisadores e jovens e propostas de atuação em diferentes territórios.
Para Pinheiro, o enfrentamento das mudanças climáticas exige estudos que permitam compreender com precisão as causas e os desdobramentos do fenômeno. Entretanto, segundo o pesquisador, a produção de conhecimento precisa ser acompanhada de decisões e ações capazes de alterar a trajetória das mudanças provocadas pelas atividades humanas. “Conhecer não é suficiente. É preciso, com base nos achados científicos, agir.”
Nesse sentido, a contribuição do livro é mostrar que os jovens não devem ocupar apenas o lugar de pessoas afetadas pelas mudanças climáticas, mas podem participar da construção de respostas científicas, políticas e sociais para o problema. O programa internacional Global Youth Climate Pact (GYCP), cuja experiência é tratada na obra, demonstra como os participantes se apropriam dos conhecimentos científicos, tomam iniciativas, mobilizam a criatividade e agem diante dos efeitos das mudanças climáticas.
A publicação é dividida em quatro partes, apresentando análises das mudanças climáticas de maneira simples e acessível. Os capítulos abrangem desde a educação ambiental até as transformações na concepção de desenvolvimento sustentável; analisam como os jovens brasileiros compreendem as mudanças climáticas, suas causas e os impactos; e trazem depoimentos de jovens que participaram do GYCP.
A obra também reuniu propostas para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima formuladas por especialistas e integrantes de povos originários.
A indicação ao Jabuti foi recebida por Elimar Pinheiro como um reconhecimento que ultrapassa a trajetória dos autores e coordenadores. “Foi não apenas uma alegria pessoal e profissional, mas também uma alegria cidadã: o reconhecimento da importância do protagonismo dos jovens na luta do clima”. O docente reitera: “O futuro está nas mãos dos e das jovens.”
ATENÇÃO – As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos. Crédito para textos: nome do repórter/Secom UnB ou Secom UnB. Crédito para fotos: nome do fotógrafo/Secom UnB.
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Eleições 2026: conheça as regras e faça do seu voto um instrumento de transformação
Entenda o calendário eleitoral, as principais normas do pleito e a importância de buscar informação de qualidade para exercer um voto consciente e fortalecer a democracia brasileira.
Antes de escolher um candidato, o eleitor escolhe o futuro do país. Em 2026, milhões de brasileiros voltarão às urnas para eleger presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Mais do que um direito, o voto é um dos principais instrumentos da democracia e uma oportunidade de influenciar os rumos do Brasil pelos próximos anos.
As eleições deste ano seguem regras definidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que buscam garantir transparência, igualdade entre os candidatos e segurança no processo de votação. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro, enquanto o segundo turno, caso necessário para presidente e governadores, ocorrerá em 25 de outubro. A campanha eleitoral oficial começa em 16 de agosto, quando passam a ser permitidas as propagandas e os atos de campanha previstos na legislação.
Além do calendário, algumas normas ganharam destaque em 2026. O TSE atualizou regras relacionadas ao uso da inteligência artificial nas campanhas, reforçou medidas de combate à desinformação, aprimorou procedimentos de auditoria das urnas eletrônicas e promoveu ajustes na regulamentação do Fundo Eleitoral. O objetivo é aumentar a transparência, proteger a integridade do processo eleitoral e oferecer mais segurança aos eleitores.
Mas conhecer as regras é apenas parte da responsabilidade do eleitor. O voto consciente começa muito antes do dia da eleição. É importante pesquisar a trajetória dos candidatos, avaliar suas propostas, verificar seu histórico de atuação e confirmar se as informações compartilhadas nas redes sociais são verdadeiras. Em um cenário marcado pelo grande volume de conteúdos digitais, desconfiar de mensagens sem fonte confiável e consultar os canais oficiais da Justiça Eleitoral faz toda a diferença.
Também vale lembrar que votos brancos e nulos não são direcionados a nenhum candidato e não alteram o cálculo dos votos válidos utilizados para definir os eleitos. Por isso, participar de forma consciente significa escolher um candidato de acordo com suas convicções e acompanhar, depois da eleição, o trabalho dos representantes escolhidos.
A democracia não se fortalece apenas no dia da votação. Ela depende da participação permanente da sociedade, do respeito às instituições e do compromisso de cada cidadão com a informação de qualidade. Informar-se, comparar propostas e votar com responsabilidade são atitudes que ajudam a construir um país mais justo, transparente e representativo.
Para conferir o calendário completo, as regras atualizadas e outras informações oficiais sobre as Eleições 2026, consulte a página oficial das Eleições 2026 do TSE e o Calendário Eleitoral.
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