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EMBRAPA: A HORA É AGORA

Como a pré-história da Embrapa vai ajudar na construção do seu futuro

 

JOSÉ PASTORE: REPERCUSSÃO DA ENTREVISTA DE JOSÉ PASTORE À FOLHA DO MEIO

 

O economista José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho, do IPEA, comenta sobre a História da Embrapa e vai além: como repensar a agropecuária brasileira, a falta de lideranças, o papel da Inteligência Artificial, a função social das propriedades rurais e as falsas estatísticas. Nunca, nos 36 anos da Folha do Meio Ambiente, houve uma entrevista com tanta repercussão como a do professor José Pastore, publicada na edição de fevereiro. Nunca, nos 52 anos de vida da empresa, a completar no próximo 26 de abril, houve um relato tão revelador e tão detalhado sobre as discussões, debates e estudos que antecederam em oito anos a implantação da Embrapa, que ficou no lugar, em 1972, do DNPEA – Departamento Nacional de Pesquisa e Experimentação Agropecuária. Nunca, diante do arsenal disponível de tecnologias, inclusive da Inteligência Artificial, a Embrapa vai ter oportunidade tão clara de se reciclar, atualizar-se e desvencilhar-se das amarras políticas e corporativas do momento. A hora é agora.

 

Nesta entrevista, o economista José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho deixa vários desafios no ar, como corolário da entrevista dada pelo professor José Pastore.  Para conferir a entrevista de Pastore na edição de fevereiro, este é o link: < https://folhadomeio.com/2025/02/jose-pastore-conta-a-a-historia-da-embrapa-que-ninguem-contou-2/>

 

“A agropecuária brasileira precisa ser repensada, e os esforços devem se concentrar no desenvolvimento de uma nova instituição, que planeje o futuro nos alicerces ambiental, energético e da segurança alimentar”.

 

“Devemos estimular também que nossos cientistas estudem nas melhores universidades do mundo. Esses profissionais precisam voltar ao País e aplicar o que aprenderam. Não podemos ter preconceito com o mundo capitalista, muito menos com a troca de conhecimento com outras nações”.

 

“A falta de uma liderança forte, hoje, está associada à mediocridade dos nossos governantes e das nossas políticas. A maioria das pessoas não compreende que o sucesso do modelo da Embrapa esteve na capacitação das pessoas”.

 

“A produção de aeronaves beneficia o Brasil, mas, no máximo, o seu impacto é localizado nas exportações e no grupo de empregados da indústria e dos fornecedores. O agronegócio move toda a economia. Move o País”.

 

“O maior programa de redistribuição de renda que aconteceu no Brasil nos últimos 50 anos não foi o “bolsa família”, mas sim a redução do custo da cesta básica no orçamento familiar ao longo do tempo”.

 

“Uma propriedade rural tem que cumprir sua função social com a geração de empregos. Qualquer pensamento contrário é uma cultura do “não trabalho”. Estamos acostumados a pensar que o Estado tem que prover tudo, mas o que realmente precisamos é de condições de trabalho”.

 

“Se a Inteligência Artificial é fundamental para os negócios, pois auxilia na tomada de decisões, dá estabilidade, aumenta a automação para reduzir erros e riscos e ainda diminui custos e traz mais segurança, como ignorá-la?

 

“A maior mentira já contada é supor que a agricultura familiar respondia por 70% da produção nacional. Em dezembro do ano passado, o ex-ministro José Graziano disse que inventou esse número.”

 

 

 

JOSÉ EUSTÁQUIO RIBEIRO VIEIRA FILHO

Entrevista

 

Se o jogo do agronegócio é sobre economia, dinâmica de mercado, sustentabilidade, pesquisa, cenário político, análise da conjuntura econômica e capital humano, José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho joga em todas as posições. Professor de várias universidades, economista e matemático, José Eustáquio tem uma formação sólida que inclui PhD em Economia pela UNICAMP e pós-doutorado na Universidade de Columbia e estágio de doutoramento na Universidade de Bordeaux, na França. Desde 2009, José Eustáquio atua como pesquisador doutor no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), onde contribui significativamente para o entendimento e desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao setor agropecuário. Coautor do livro “Agricultura e indústria no Brasil: inovação e competitividade”, em parceria com o professor Albert Fishlow, José Eustáquio foi um dos muitos que se entusiasmaram com a entrevista do professor José Pastore. Muito gentilmente, ele trouxe suas observações para nossos leitores.

 

Silvestre – Você é um técnico muito estudioso do AGRO, da pesquisa agrícola e da comunicação. Como você viu as revelações do professor José Pastore sobre a história da Embrapa?

José Eustáquio – O intrigante e o importante da entrevista do professor José Pastore à Folha do Meio Ambiente é compreender o processo de “institutional building”. (Significa a construção institucional de empresas governamentais, com atuação no âmbito econômico, que tendem a ganhar uma certa autonomia gerencial, ficando menos sujeitas às injunções políticas de curto prazo.)

Em primeiro lugar, o professor Pastore mostrou que foi preciso construir e pavimentar o conhecimento científico para a concepção das mudanças. Este conhecimento já estava presente no debate americano nos anos 1960, com as ideias do professor Theodore Schultz, que, em 1979, foi laureado com o Nobel de Economia por sua influência no desenvolvimento econômico, em particular aos problemas dos países em desenvolvimento.

Em segundo lugar, ele considerou que se deve colocar em prática este conhecimento teórico, criando instituições com foco no investimento em capital humano. Esta prática foi experimentada, simultaneamente, com o caso da criação, em 1964, do Instituto de Pesquisa Econômica (IPE), na Faculdade de Economia e Administração da USP. Embora dito na entrevista, gostaria de frisar a participação da ABCAR (Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural), por reunir o grupo de cientistas sociais para pensar o problema da produção. Assim, vale destacar o presidente da ABCAR, Aloisio Campello que se mostrou parte do processo embrionário.

 

Silvestre Gorgulho – O que você destacaria nesse processo de nascimento da Embrapa?

José Eustáquio – Destacaria duas coisas: o IPE e a ABCAR. Essas duas instituições foram, conjuntamente, a meu ver, experiências práticas que promoveram o surgimento da Embrapa. As pessoas centrais nesse pilar foram o próprio José Pastore, de um lado, e o Eliseu Alves, de outro. O primeiro teve a missão de convencer as pessoas chaves à época, como profissionais influentes e autoridades públicas, enquanto o segundo, que vinha da extensão rural, foi o líder na condução do pensamento estratégico para reformular a pesquisa agrícola no setor produtivo brasileiro.

 

Silvestre Gorgulho – A entrevista do professor Pastore surpreendeu muita gente, inclusive da própria Embrapa, que não conhecia a origem dos estudos e nem a participação de cada um na formatação da empresa. Essa história vem a público com detalhes mais de meio século depois da instalação da Embrapa. Como você enxerga isso?

José Eustáquio – O Brasil vivia o milagre econômico de 1968 a 1973. A demanda por alimentos crescia. Apesar de um bom programa de crédito e extensão rural, por que a produção agropecuária brasileira não evoluía? Tal como hoje, havia um debate entre dois grupos, com ideias diferentes. Um achava que o crescimento produtivo se daria via reforma agrária, e o outro acreditava que o aumento da produção se daria com investimento em ciência e tecnologia. Como mencionado por Pastore, as bases teóricas que propunham o “institutional building” baseavam-se nos investimentos em recursos humanos e conhecimento. Portanto, mesmo que a distribuição de terra pudesse proporcionar um aumento marginal da produção, os ganhos efetivos só se dariam via pesquisa. Via busca do conhecimento.

Silvestre Gorgulho – Mas no início o desafio que se apresentava era o da comunicação pela extensão rural…

José Eustáquio – Sim, isso está bem claro. Tanto é verdade que Eliseu Alves, segundo Pastore, no primeiro encontro logo questionou: “De nada adianta melhorar a extensão rural se os extensionistas não têm o que divulgar para os agricultores”. Portanto, havia aqueles que não acreditavam apenas em resolver o desafio da comunicação. Se o conhecimento ainda era pouco, a difusão falhava na transferência do conhecimento ao agricultor. Outros pensavam que a solução estava na geração de novos conhecimentos. O professor Pastore mostra que o grupo de cientistas sociais, com sólida formação econômica, que foi chamado para pensar este problema, reuniu-se dentro da ABCAR. No caso da pesquisa agrícola, uma inovação institucional induzida não acontece da noite para o dia. É preciso que órgãos de Estado, com suas lideranças, promovam incentivos na trajetória tecnológica mais adequada. Ou seja, para a criação da Embrapa, a gestação das ideias durou algo em torno de oito anos, antes mesmo da própria criação da empresa, que se deu somente em dezembro de 1972, no governo Médici.

JOSÉ EUSTÁQUIO:

“Na entrevista, José Pastore foi certeiro: o ex-ministro Cirne Lima lembrou muito bem que a pesquisa era forte com produtos de exportação como café e cana-de-açúcar. Os outros produtos que vão para a mesa no dia a dia do povo não tinham prioridade”.

 

Silvestre Gorgulho – Na época, o DNPEA (Departamento Nacional de Pesquisa e Experimentação Agropecuária) não dava conta do recado?

José Eustáquio – Na entrevista de Pastore, ele foi certeiro: o ex-ministro Cirne Lima lembrou muito bem que a pesquisa era forte com produtos de exportação como café e cana-de-açúcar. Os outros produtos que vão para a mesa no dia a dia do povo não tinham prioridade. Não foi mencionado, mas merece pontuar que, na criação de uma nova empresa pública, é necessário estabelecer uma nova cultura. O grupo concluiu que não adiantava construir uma agência de pesquisa apenas com a mudança do nome do DNPEA. Seria preciso mudar a cultura da organização. A verdade é que muitas das pessoas que estavam no antigo DNPEA tinham uma visão atrasada do problema.

 

Silvestre Gorgulho – Talvez aí esteja a grande surpresa da entrevista…

José Eustáquio – Pode ser. Eu imagino, também, que a surpresa das pessoas ao lerem a entrevista é justamente em enxergar esse longo processo de criação, que, nas palavras do professor Pastore, tratava-se da “pré-história”, que vem muito antes da revolução produtiva que vimos no campo, décadas depois.

 

Silvestre Gorgulho – O professor Pastore também resgatou vários nomes hoje até esquecidos…

José Eustáquio – É verdade. E foram muito bem lembrados. Nomes até hoje esquecidos e que foram relevantes. Veja que interessante o desprendimento do professor Pastore que foi o líder e coordenador do grupo, mas não aceitou continuar na Embrapa após a sua criação. Eliseu Alves teve uma importância central antes, durante e depois da instalação da Embrapa. Mesmo quando a empresa era uma promessa e, também depois, quando vieram os primeiros resultados. Eliseu manteve a pegada como diretor e como presidente da Embrapa. Aí os resultados vieram em cascata: a incorporação do Cerrado à produção, a tropicalização dos cultivos, a fixação biológica de nitrogênio, o plantio de pastagens mais produtivas, dentre tantas outras inovações tecnológicas que hoje conhecemos, como, por exemplo, a integração lavoura-pecuária-floresta.

 

Silvestre Gorgulho – O grupo era eclético e acadêmico. Alguns nomes até foram revelados agora.

José Eustaquio – Verdade! Pastore cita cada um do grupo como os ex-ministros Cirne Lima, Delfim Netto e Reis Veloso. E lembra os encontros com o grupo inicial com ele, Eliseu Alves; Fernando Rocha; Renato Simplício, que nos deixou agora em fevereiro; Aloisio Campello; Guilherme Dias; Affonso Pastore; Carlos Langoni; Miguel Colasuonno; Irineu Cabral; William Ellis; e até um estagiário de luxo, Paulo Rabello. A gente conhece boa parte desses colegas, mas não sabíamos da importância deles na criação da Embrapa. Na entrevista, foi mencionado também a participação de Paulo Teixeira Demoro, um experiente advogado, que desenhou o modelo jurídico inovador, uma cópia, com seus devidos ajustes, da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), que havia sido criada em agosto de 1969.

 

Silvestre Gorgulho – Muitos personagens se foram, mas alguns, como o próprio Pastore, o ex-ministro Cirne Lima e o Eliseu Alves, estão aí. Como você sente este resgate histórico num momento que a Embrapa vive tantas dificuldades de orçamento?

José Eustáquio – Essa história contada pelo professor Pastore nos mostra a importância do “institutional building”. É a terceira vez que menciono este termo em nossa entrevista. Para se criar uma instituição, é preciso estabelecer uma nova cultura. Instituições que estejam arraigadas em uma visão do passado e que não conseguem pensar o futuro estão fadadas ao fracasso. O sucesso do crescimento da produção agropecuária com base na pesquisa nos mostrou a relevância da base cultural. Por detrás destas transformações institucionais, existem pessoas, verdadeiros líderes, o que foi o caso do José Pastore, do Eliseu Alves, do Cirne Lima e até, posteriormente, do Alysson Paolinelli. Ao longo do tempo, nossa sociedade tem que ser capaz de capacitar novas lideranças. Pensar o futuro requer um quadro de pessoas bem formadas e atualizadas. No passado, fomos capazes de enviar cerca de 2.5 mil cientistas para estudarem nas melhores universidades, no campo da economia e das engenharias agronômicas.

JOSÉ EUSTÁQUIO:

“Creio que essa falta de liderança está associada à mediocridade dos nossos governantes e das nossas políticas. A maioria das pessoas não compreende que o sucesso do modelo da Embrapa esteve na capacitação das pessoas”.

 

 

Silvestre Gorgulho – A importância era pelo tema de estudo. Valia o mérito. Esse foi o segredo?

José Eustáquio – Com certeza. Tudo que começa bem, termina bem. Este programa modernizou a pesquisa agropecuária no País. Em uma experiência recente, no programa ‘Ciência sem Fronteiras’, o Brasil enviou, entre 2011 e 2017, 104 mil estudantes brasileiros, dos quais 79 mil eram subsidiados com bolsas de graduação. Fizemos talvez o maior intercâmbio de turismo do País, sem qualquer aplicação para transformação nacional. Cabe ao governo gastar os recursos escassos nas políticas com maiores retornos sociais e produtivos. Não tenho dúvida que, no caso da Embrapa, o investimento feito no passado teve o seu retorno maximizado. Muitas das políticas atuais gastam mal os recursos e, assim, temos baixos retornos à sociedade. É uma pena, hoje, não surgirem líderes como no passado. Em parte, creio que essa falta de liderança está associada à mediocridade dos nossos governantes e das nossas políticas. A maioria dessas pessoas não compreende que o sucesso do modelo da Embrapa esteve na capacitação das pessoas. A falta de orçamento está presente em todos os órgãos de Estado. E em todos os tempos. Refiro-me também ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Faltam recursos para fazermos as nossas pesquisas, assim como para financiarmos nossas capacitações. Em um ambiente de recursos escassos, todas as instituições terão os seus orçamentos cortados. Resta saber onde o corte será maior.

 

Silvestre Gorgulho – Será que o corte orçamentário na Embrapa foi maior do que outras prioridades do governo?

José Eustaquio – Se o orçamento da Embrapa cair menos do que o restante, a instituição foi beneficiada. Contudo, não podemos aceitar um governo que gaste mal os recursos públicos. É urgente garantir eficiência nos gastos.

 

Silvestre Gorgulho – Uma outra questão: nos últimos anos, observamos a abertura de muitos concursos públicos. Será que o aumento do funcionalismo público seria necessário nesse momento?

José Eustaquio – O que aconteceu com o “teto dos gastos”? O governo priorizou o ajuste fiscal pelo lado do aumento da arrecadação tributária. Quanto maior o imposto, menor o crescimento econômico, menor a geração de empregos. O equilíbrio das contas deveria ser feito com redução dos gastos, priorizando as políticas públicas mais importantes. Veja o caso da criação do IBGE+. Ao que me parece, visa contornar o estrangulamento orçamentário, recorrente em nossas instituições públicas. Os entraves legais e burocráticos inviabilizam a comercialização de pesquisas, que possam garantir recursos à elaboração de censos, pesquisas amostrais e outros levantamentos estatísticos, importantes na elaboração de políticas públicas diversas.

 

Silvestre Gorgulho – Qual é a discussão neste exemplo?

José Eustaquio – De um lado, este arranjo institucional pode criar um aparelhamento político de um órgão de Estado, comprometendo, assim, sua missão de produzir estatísticas confiáveis. De outro lado, observa-se o corporativismo dos servidores públicos da casa, que estão acostumados, bem ou mal, com o seu já garantido orçamento e seus salários, não se preocupando com a eficiência da entrega dos serviços.

 

Silvestre Gorgulho – Por este critério as políticas de quotas desvirtuam a meritocracia.

José Eustaquio – E muito. Qualquer pensamento contrário é uma cultura do “não trabalho”. Estamos acostumados a pensar que o Estado tem que prover tudo, mas o que realmente precisamos é de condições de trabalho. A verdade é que o assistencialismo exagerado distorce muito os incentivos da meritocracia em qualquer sociedade. As provas estão aí. Enfim, tem muita coisa errada, o que dificulta o surgimento de lideranças, que possam defender as políticas com os maiores retornos sociais. No caso da Embrapa, que foi muito bem-sucedido no passado, há uma dificuldade em planejar o futuro. Devemos investir em novas lideranças, capital humano nas palavras do professor Theodore Schultz. Ao observamos o edital de contratação de novos pesquisadores, ficamos preocupados com o conteúdo que é exigido. Uma instituição de Estado não pode ser capturada pelo governo ou mesmo pelos seus funcionários. Em qualquer uma das situações, as lideranças são alijadas e as transformações necessárias não acontecem. Cargos de chefia devem ser preenchidos sempre por méritos. Sempre! Isso é a política do sucesso. Do contrário, é o início do fim.

 

Silvestre Gorgulho – José Eustáquio, o Brasil já foi melhor? Será que hoje haveria essa possibilidade de uma segunda Revolução Verde?

José Eustáquio – Silvestre, em primeiro lugar, “revolução verde” nunca aconteceu no Brasil. Este processo é composto por intensificação de insumos com variedades de alto rendimento. Isso aconteceu no México e em um ou outro país asiático. No Brasil, o que experimentamos foi uma “revolução tropical”, ou seja, construímos novos conhecimentos, adaptamos novas variedades ao clima tropical, bem como desenvolvemos novas formas de fazer. Refiro-me ao plantio direto, ao encurtamento do ciclo da soja, o que propiciou o aumento da produção de segunda safra, assim como uma infinidade de técnicas, que não são aplicadas na Europa ou nos Estados Unidos.

 

Silvestre Gorgulho – Mas, não há dúvida de que as inovações tecnológicas nos permitiram avançar na produção…

José Eustáquio – É a pura verdade. Uma constatação óbvia. O exemplo do agronegócio brasileiro é um caso de sucesso. A incorporação do Cerrado contrariou a teoria ricardiana da terra, na qual seriam ocupadas as áreas mais férteis em detrimento das menos produtivas. (*A teoria ricardiana, proposta pelo economista David Ricardo no século XIX, indica que um aumento dos gastos do governo, ou um corte de impostos no presente, não afeta a demanda agregada da economia). Ou seja, a incorporação dessa nova fronteira agropecuária se deu via tecnologia. O aumento das exportações em diversas cadeias produtivas rejeitou a teoria cepalina ou dos termos de trocas desfavoráveis, reduto do pensamento da esquerda latino-americana (* Para os economistas cepalinos – CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, a industrialização como núcleo de uma política de desenvolvimento permitiria às economias latino-americanas enfrentarem as desigualdades sociais e superar a dependência externa). A teoria da dependência, que é uma consequência do pensamento cepalino,  (* É uma abordagem teórica que explica de maneira crítica o desenvolvimento econômico e social entre as diferentes nações ao partir da ideia de que há uma relação de dependência entre os países do centro e da periferia global. Essa dependência se caracteriza pela diferença na base produtiva e tecnológica entre os ricos e pobres) caiu por terra a partir do momento que somos capazes de produzir alimentos e energia sustentáveis, assim como exportar os seus produtos derivados mundo afora. Os dados e os fatos mostram isso. A pergunta que deixo relativo às contradições cepalinas é: por que ainda ensinam isso em nossas escolas e universidades?

 

AGRICULTURA BRASILEIRA SUSTENTÁVEL

“Hoje há uma contradição de algumas de nossas lideranças que, nas discussões internacionais, defendem que o Brasil tem uma dívida e, por isso, iremos reduzir nossas emissões poluentes. É falso! Na realidade, o Brasil é exemplo de uma produção sustentável”. JOSÉ EUSTÁQUIO

 

 

Silvestre Gorgulho – Como você explica em números essa agricultura brasileira sustentável?

José Eustáquio – É muito fácil. Veja só. De 1990 a 2020, o Brasil triplicou a sua produção por unidade de emissão de gases efeito estufa. Em 1990, o Brasil produzia 243 quilogramas de alimentos para cada quilo de CO2 emitido. Em 2020, produzimos 774 quilogramas de alimentos para o mesmo quilo de CO2 emitido. Sabe o que aconteceu com a França? Eles produziam 250 quilogramas de alimentos em 1990 e, pasme, aumentaram para apenas 308 quilogramas de alimentos por quilo de CO2 emitido em 2020.

 

Silvestre Gorgulho – E por que o agronegócio brasileiro ainda sofre lá fora como vilão do meio ambiente?

José Eustáquio – É uma guerra comercial. Ou mesmo ideológica. O Brasil é o maior exemplo de uma produção sustentável. Hoje há uma contradição de algumas de nossas lideranças que, nas discussões internacionais, defendem que o Brasil tem uma dívida e, por isso, iremos reduzir nossas emissões poluentes. É falso! Na realidade, o Brasil é exemplo de uma produção sustentável.

 

Silvestre Gorgulho – E o que devemos fazer?

José Eustáquio – Precisamos capacitar nossos pesquisadores para mostrar o que estamos fazendo de bom e de melhor, comparativamente aos nossos principais competidores. Será que estamos fazendo isso? Tenho minhas dúvidas. A qualificação de pessoal de um modo geral dos quadros públicos caiu bastante. É preciso valorizar o ensino fundamental, com forte base matemática e de português. Este é um primeiro passo. Depois, temos que compreender que a vida acadêmica requer boa qualificação nos melhores centros nacionais e internacionais, o que foi feito com maestria na primeira década de criação da Embrapa. Formação é importante. Meritocracia é essencial. Garantindo essas premissas, é certo que iremos formar novos líderes, que saibam pensar o futuro.

 

Silvestre Gorgulho – Interessante na entrevista do professor Pastore é comprovar que professores e cientistas norte-americanos ajudaram muito os brasileiros a encontrarem uma saída para a pesquisa tropical? Será que hoje isso seria possível?

José Eustáquio – Eu acredito que sim. O programa de capacitação da década de 1960 para formar bons cientistas sociais com sólida formação econômica foi importante para gerar massa crítica. Em seguida, o envio dos pesquisadores da Embrapa para se capacitarem foi outro salto qualitativo. Contudo, é importante também mencionar nomes. O Professor Edward Schuh foi o nosso primeiro grande brasilianista. Com certeza, foi uma pessoa que abriu as portas para os estudantes brasileiros e ajudou muito a pensar os problemas da economia do nosso país. O intercâmbio de professores e cientistas é fundamental na evolução da ciência. A pesquisadora de origem alemã Johanna Dobereiner foi central nos estudos de fixação biológica de nitrogênio. Alguns estudos mostraram que apenas esta tecnologia foi suficiente para pagar todo o orçamento da Embrapa da sua criação até os dias de hoje.

 

Silvestre Gorgulho – E tem a parceria da Embrapa com a JICA – Agência Japonesa de Cooperação Internacional…

José Eustáquio – Essa foi uma grande parceria. A Agência Japonesa de Cooperação Internacional foi fundamental com a criação do Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento do Cerrado (Prodecer). Este programa foi criado em 1979 com o objetivo de incorporar novas fronteiras agrícolas no Brasil para a exportação de alimentos para o Japão. Foi tão bem-sucedido que, no ano passado, Eliseu Alves recebeu a medalha do Sol Nascente, uma condecoração japonesa concedida pelo Imperador daquele país. (Obs. A Ordem do Sol Nascente é a maior comenda do Japão e poucos brasileiros ligados à agricultura a receberam. Além de Eliseu Alves, receberam a medalha: Carlos Magno Campos da Rocha, então diretor do Centro de Pesquisa do Cerrado ex-presidente da Embrapa; e Emiliano Pereira Botelho, presidente da CAMPO – Companhia de Promoção Agrícola). Enfim, a capacitação e a troca de conhecimento são os pilares para uma transformação mais dinâmica.

 

Silvestre Gorgulho – E sobre a crítica estrangeira de que o Brasil fez isso tudo desmatando as florestas?

José Eustáquio – Outra mentira com interesses escusos. O Brasil fez essa “revolução tropical” da agricultura com muito pouco desmatamento. Veja o que aconteceu nos outros países? Compare nossas estatísticas com as dos países da União Europeia. Preservamos hoje dois terços do nosso território. A tecnologia e os novos conhecimentos desenvolvidos pela Embrapa evitaram o desmatamento da própria Floresta Amazônica. E mais: recuperaram muitas áreas degradadas.

 

JOSÉ EUSTÁQUIO:

“O maior programa de redistribuição de renda que aconteceu no Brasil nos últimos 50 anos não foi o “bolsa família”, mas sim a redução do custo da cesta básica no orçamento familiar ao longo do tempo”.

 

 

Silvestre Gorgulho – Dá para dimensionar em números o que as pesquisas da Embrapa já devolveram em recursos e ganhos para o Brasil?

José Eustáquio – A Embrapa calcula o lucro social, que ficou em R$ 85 bilhões em 2023. Foram analisadas 182 tecnologias e 110 cultivares. Eu poderia destrinchar aqui a importância de cada uma delas; porém, o que devemos ressaltar é o que o agronegócio representa hoje para o Brasil. A nossa produção agropecuária representa 1/3 do produto interno bruto (PIB), 1/4 do emprego e 50% das nossas exportações. As exportações contribuem para aumentar as reservas internacionais e, consequentemente, manter a estabilidade cambial e inflacionária do país. O maior programa de redistribuição de renda que aconteceu no Brasil nos últimos 50 anos não foi o “bolsa família”, mas sim a redução do custo da cesta básica no orçamento familiar ao longo do tempo. Alimento mais barato representa melhor distribuição de renda. Porém, mais recentemente, o preço dos alimentos tem-se elevado, o que reforça a importância do governo em investir no setor, para não perdermos o que já foi alcançado ao longo desses anos.

 

JOSÉ EUSTÁQUIO:

A produção de aeronaves beneficia o Brasil, mas, no máximo, o seu impacto é localizado nas exportações e no grupo de empregados da indústria e dos fornecedores. O agronegócio move toda a economia. Move o País.

 

 

Silvestre Gorgulho – Você falou em meritocracia. Foi também o que aconteceu na criação da EMBRAER.

José Eustáquio – É verdade, a meritocracia é sempre central. Mas tem uma grande diferença. Produzir aviões de forma eficiente como a Embraer faz é importante. Muito importante. Contudo, qual é o impacto na vida do brasileiro das exportações de aeronaves no mundo? A Embraer é hoje a terceira maior indústria de aeronaves. Isto é um feito enorme. No entanto, ao compararmos com o impacto da revolução tropical no agronegócio, o resultado da produção de alimentos é infinito. Quantas cidades são impactadas? O que se faz para escoar a produção de regiões longínquas? Quais os investimentos em infraestrutura? O que aconteceu com a desigualdade no interior do País? Preste atenção de como a produção agropecuária move toda a nossa economia. A produção de aeronaves beneficia o Brasil, mas, no máximo, o seu impacto é localizado em São José dos Campos e no entorno e focalizado nas exportações e no grupo de empregados da indústria e dos fornecedores. O agronegócio move toda a economia. Move o País. Quer um exemplo concreto? Se a inflação de alimentos sobe, é notícia em todos os jornais. Se o preço de aeronaves ou do combustível dos aviões subir, nem todas as pessoas vão dar falta. A dimensão é muito mais restrita.

 

Silvestre Gorgulho – Como você vê o futuro da Embrapa em termos de apoio político e orçamentário?

José Eustaquio – Olha, ainda lembrando a entrevista do José Pastore. Ele citou o Paulo Teixeira Demoro que foi central na elaboração do modelo jurídico da Embrapa àquela época. Os recursos sempre serão escassos. O que temos que fazer? Liderar de forma a convencer nossas autoridades de que políticas na pesquisa agrícola são importantes. Uma alternativa é criar modelos jurídicos capazes de buscar orçamento no setor privado. Não basta criarmos modelos que dependam de verbas e compras públicas. É preciso ter o poder de convencimento. A Embrapa foi uma promessa por praticamente uma década, quando só então vimos os primeiros resultados. Como a Embrapa garantiu os recursos nos anos iniciais? Lideranças, inovações institucionais, poder de convencimento e muita estratégia são as respostas.

 

Silvestre Gorgulho – Por que será que o atual governo é hostil ao agronegócio?

José Eustáquio – O governo pode até ser hostil ao agronegócio, mas não há um que discorde da sua importância. A gente colhe o que planta. O futuro tem que ser plantado hoje. Uma coisa que o José Pastore não comentou na entrevista era que aqueles cientistas que participaram do grupo de criação da Embrapa eram pessoas iluminadas que chamavam a responsabilidade para si. Na hora de tomar uma decisão, eles não se eximiam de escolher “A” em função de “B”. Defendiam aquilo que acreditavam. Falta esse tipo de servidor hoje no Brasil. A questão jurídica inviabiliza grande parte das decisões. Tudo é judicializado. Um elogio pode se tornar uma ofensa nos tribunais. Temos que ter coragem de apontar o dedo para o que é certo e o que é errado. Não podemos nos prender a cargos ou salários. Essa composição de cargos comissionados na Esplanada dos Ministérios faz com que as pessoas busquem os cargos que melhor remunerem, mas deixam de lado a questão técnica. Cargos de confiança devem ser ocupados por técnicos e que tenham capacidade de diálogo no meio político. Afinal, sai ano e entra ano, o orçamento tem que ser votado no Congresso.    

 

Silvestre Gorgulho – Cirne Lima 91 anos. José Pastore 90 anos. Eliseu Alves 94 anos. O estado brasileiro está investindo em cabeças para substituição desses gênios que fizeram a diferença? As universidades estão preparando novos e bons cientistas? Existe meritocracia?

José Eustáquio – Difícil constatar, mas não acredito que o Brasil esteja fazendo o dever de casa para promover novas lideranças. É preciso fazer uma revolução no ensino de base. O ensino universitário é um funil. O estímulo aqui deve ser via meritocracia e nunca via quotas. Se for preciso instituir quotas, essas podem até ser sociais, mas com méritos de performance, e nunca raciais ou qualquer outro tipo. Não podemos tapar o sol com a peneira em prol de uma dita “justiça social”. Para reforçar, “justiça social”, em última análise, faz-se com geração de empregos.

 

JOSÉ EUSTÁQUIO:

“Uma propriedade rural tem que cumprir sua função social com a geração de empregos. Qualquer pensamento contrário é uma cultura do “não trabalho”. Estamos acostumados a pensar que o Estado tem que prover tudo, mas o que realmente precisamos é de condições de trabalho”.

 

 

Silvestre Gorgulho – Sobre a “justiça social”. Como uma propriedade rural cumpre sua função social? De que forma?

José Eustáquio – Olha, só enxergo de uma forma. Uma propriedade rural tem que cumprir sua função social com a geração de empregos. Qualquer pensamento contrário é uma cultura do “não trabalho”. Estamos acostumados a pensar que o Estado tem que prover tudo, mas o que realmente precisamos é de condições de trabalho. O assistencialismo distorce os incentivos da meritocracia em nossa sociedade. É preciso ter coragem de apontar isso a todos. Temos que ter coragem de mostrar que produzir alimentos é mais sustentável do que queimar combustível fóssil. É consenso que o aumento dos gastos em educação é fundamental, quando na realidade devemos verificar se o gasto feito é eficiente. O Brasil gasta muito em percentual do PIB em educação, mas gasta mal. Devemos estimular também que nossos cientistas estudem nas melhores universidades do mundo. Esses profissionais precisam voltar ao País e aplicar o que aprenderam. Não podemos ter preconceito com o mundo capitalista, muito menos com a troca de conhecimento com outras nações.  

 

Silvestre Gorgulho – Qual sua avaliação final a partir da entrevista do professor Pastore sobre a Embrapa e sobre a importância do capital humano?

José Eustáquio – O professor Pastore trouxe para os dias de hoje o passo-a-passo da formulação e da instalação da Embrapa. A formação de recursos humanos foi o alicerce nesse processo. É um documento histórico. Muita gente, mesmo da Embrapa, não sabia dessa história e desconhecia da memória de como a Embrapa foi pensada. Talvez, agora, a Embrapa, já com 52 anos a fazer em 26 de abril próximo, venha a discutir o seu modelo de comunicação em três vertentes: com os parlamentares, no Senado e na Câmara, com os meios de comunicação e com os produtores agrícolas. Esse modelo de comunicação precisa ser repensado.

JOSÉ EUSTÁQUIO:

“Se a IA é fundamental para os negócios, pois auxilia na tomada de decisões, dá estabilidade, aumenta a automação para reduzir erros e riscos e ainda diminui custos e traz mais segurança, como ignorá-la?”

Silvestre Gorgulho – Você acha que há espaço para a Inteligência Artificial nesse novo modelo?

José Eustáquio – Evidente que sim. Contudo, como já dizia um grande amigo, não existe “inteligência artificial”. O que existe é “inteligência humana”. Quando a tecnologia permite que as máquinas possam armazenar dados, analisar resultados, aprender com os erros, realizar tarefas e tomar decisões no lugar do ser humano, o paradigma em que nascemos se altera. As técnicas utilizadas são três. A primeira é o “machine learning”, que é um tipo de inteligência que permite que os sistemas aprendam com os dados e que possam melhorar o seu desempenho no tempo. A segunda é “redes neurais”, uma técnica inspirada no funcionamento do cérebro humano capaz de aprender e reconhecer padrões em dados. Por fim, a última é o “processamento de linguagem natural”, que permite o entendimento e a compreensão da linguagem humana. Essa nova trajetória tecnológica não pode ser ignorada por nenhuma empresa que queira sobreviver. A revolução digital, associada a este novo paradigma, é fundamental nos negócios, pois, além de propiciar economias de escala e de escopo, auxilia na tomada de decisões, reduzindo custos produtivos e riscos econômicos, bem como aumentando a capacidade de prever cenários futuros. Fica a questão: como ignorá-la? No setor agropecuário, como pensar a educação à distância? E a extensão rural? Como avaliar os pacotes tecnológicos com o homem do campo cada vez mais conectado ao mundo digital? O agricultor continuará no trabalho como no passado? E a previsão do tempo? E o nosso alimento, será o mesmo? Haverá impressão 3D dos nossos alimentos? E as questões nutricionais? Estes são questionamentos importantes para se pensar o futuro. A verdade é que a Embrapa trabalha com tecnologia e conhecimento. A inteligência artificial é o futuro. A empresa precisa ser moderna e estar além de seu tempo. É a nossa vanguarda para o agro sustentável e produtivo.

 

Silvestre Gorgulho – Uma empresa que não se atualiza começa a morrer dez anos antes. E como perseguir esses objetivos sem ser ultrapassada pelos fatos?

José Eustáquio – Tem que evoluir sempre sem perder o trem da modernidade. É um processo de “destruição criadora”, pois a inovação e a competição entre as empresas levam à substituição de tecnologias, produtos e processos por novos e mais eficientes. Isso já era dito por Joseph Schumpeter há um século! Você mesmo viveu tudo isso e é um bom exemplo quando lá trabalhou. O Eliseu Alves sempre lembra de quando você chefiou a Comunicação da Embrapa, a partir de 1979. Ele me contou que telefonou para todos os chefes de unidades para atenderem bem a equipe de jornalistas que você coordenava, inclusive àqueles da área internacional. Não perdeu tempo em colocar a instituição na mídia, soube organizar vários encontros, seminários e debates entre cientistas, pesquisadores, gestores e jornalistas. Isso, além de quebrar uma série de preconceitos, proporcionou uma aprendizagem de parte a parte. O próprio Globo Rural é um produto construído por você junto com a Embrapa.

O casamento do jornalista Humberto Pereira com a Embrapa proporcionou um avanço significativo nessa interação pesquisadores-produtores. Naquele horário, nas manhãs de domingo, era uma missa. A Globo trocou a missa por um programa que dialogava com produtores e lideranças rurais. Vocês respondiam todas as cartas que chegavam ao programa e faziam a pauta da semana seguinte. Foi um “case” de comunicação. Isso aproximou muito o agricultor do cientista, e ajudou na solução de muitos problemas da agricultura.

Nesse modelo de comunicação, você mesmo, Silvestre, é um dos responsáveis. A sua participação foi fundamental e eu acho que você deveria escrever sobre isso. É uma memória importante na vida da Embrapa. Para se garantir orçamento em nossas instituições, temos que convencer o parlamento e a opinião pública. Isso foi muito bem-feito por todos vocês da área de comunicação da Embrapa. Arrisco a falar também que este modelo de comunicação foi exemplar para qualquer órgão de Estado do nosso Brasil. Nesse mundo, só seremos reconhecidos se cantarmos como uma galinha ao botar o ovo. Devemos anunciar tudo o que fazemos de inovação! E a Inteligência Artificial é um novo modelo para ser usado e abusado no diálogo da Embrapa com a sociedade.

 

AS FALSAS ESTATÍSTICAS

“Talvez a maior mentira já contada seja a afirmação de que a agricultura familiar respondia por 70% da produção nacional. Em dezembro do ano passado, o ex-ministro José Graziano disse que inventou esse número na década de 1970. Criar falsas estatísticas faz com que os governos estimem diagnósticos equivocados da realidade.”

 

Silvestre Gorgulho – Para concluir: José Eustáquio, conta aqui o que é MITO e o que é FATO no agronegócio brasileiro?

José Eustáquio – Vamos lá. Essa é uma boa questão. Mitos são narrativas fantásticas, que não são verdadeiras, mas utilizam fatos, com uma lógica equivocada, para fazer com que as pessoas acreditem nelas. Os motivos são vários: ideológicos, disputas comerciais, debates políticos etc. Porém, os dados quando são fundamentados em uma boa lógica matemática são fatos incontestáveis.

 

Silvestre Gorgulho – E quais são os grandes mitos do agronegócio?

José Eustáquio – Olha, eu separo seis grandes mitos do nosso agronegócio. Eu os discuto, desde o ano passado, com a associação De olho no Material Escolar, junto com a Letícia Jacintho (presidente) e o Rodrigo Paniago (colaborador na agroteca). São inverdades que devem ser rediscutidas na base, em nossas escolas. Vários dos preconceitos surgem nos livros escolares, baseando-se sempre em estudos equivocados. Vamos elencar estes mitos.   

1) Achar que o setor é atrasado. Os nossos estudos mostram que, para um aumento de 100% da produção, a tecnologia foi responsável por 61% do crescimento. Logo, nossa produção é moderna.

2) Imaginar que exportar causa insegurança alimentar. Nossas estatísticas mostram que, há 30 anos, exportávamos 19% da produção nacional de soja. Em 2024, exportamos cerca de 63% da produção de soja, ao mesmo tempo em que aumentamos o consumo per capita desse bem a uma taxa anual de 3,2%.

3) Pensar que a produção ameaça a sustentabilidade ambiental. Os números comprovam que o Brasil é o país que mais preservou florestas com a matriz energética mais limpa do mundo.

4) Falar que o produto agropecuário gera baixo valor agregado. Não se exporta da noite para o dia. Logo, é preciso investir na terra. Conceitualmente, este investimento é valor agregado na veia do produtor. Por exemplo, a soja é insumo barato na produção de ração, que é insumo barato na cadeia produtiva de carnes, que são produtos caros vendidos no mercado internacional.

5) Supor que o setor é fortemente subsidiado. A taxa de proteção do Brasil foi de 1% do valor bruto da produção de 2017 a 2019, dado muito menor do que a média mundial de 16,2%.

6) Por fim, talvez a maior mentira já contada seja a afirmação de que a agricultura familiar respondia por 70% da produção nacional. Em dezembro do ano passado, o ex-ministro José Graziano disse que inventou esse número na década de 1970 (https://www.youtube.com/live/r51nGdO-Kao?si=-lUa0_ozGRL-C9he – em 1:31 há a fala do ex-ministro). Os dados dos dois últimos censos agropecuários nunca mostraram isso. Em 2014, o professor Rodolfo Hoffmann já tinha dito que “o valor de toda produção da agricultura familiar correspondia a menos de 25% do total das despesas das famílias brasileiras, dizendo que não era preciso criar falsas estatísticas para justificar a importância de políticas públicas para o pequeno produtor”. Particularmente, sobre este último mito, criar falsas estatísticas faz com que os governos estimem diagnósticos equivocados da realidade. E como falei anteriormente, o bom diagnóstico é importante para economizarmos os recursos escassos. Portanto, com dados e números, bom preparo, podemos realizar bons estudos e contribuir com nossa sociedade. É o que a Embrapa sempre fez ao longo de sua existência.

 

 

 

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Visitação Institucional ao Congresso cresce 20% e alcança melhor resultado desde 2012

Há 13 anos, as visitas eram feitas todos os dias da semana, sem limite de visitantes por grupo. No ano passado, já não havia visitas guiadas às terças e quartas-feiras, dias das sessões nos plenários da Câmara e do Senado, e os grupos foram de no máximo 50 pessoas

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Bruno Spada/Câmara dos Deputados

 

A Visitação Institucional ao Congresso Nacional recebeu 167.462 visitantes no ano passado, contra 139.173 em 2024. O resultado representa recorde diário e o maior público anual desde 2012, quando a visitação operava com dois dias a mais por semana (terça e quarta). Mesmo com essa diferença de dias de funcionamento, 2025 alcançou patamar próximo ao daquele ano, evidenciando o fortalecimento do programa e o crescente interesse do público em conhecer a Câmara dos Deputados e o Senado Federal.

Engajamento e aproximação com a sociedade
O desempenho de 2025 reflete um conjunto de iniciativas voltadas a aprimorar a experiência do visitante e reforçar o papel institucional do turismo cívico como porta de entrada para o público conhecer, de forma qualificada e acolhedora, o Congresso Nacional, sua arquitetura, seus espaços simbólicos e o funcionamento da Câmara dos Deputados, contribuindo para uma relação mais próxima entre a instituição e a sociedade.

Ações especiais em 2025
Ao longo do ano, foram realizadas diversas atividades que ampliaram o alcance do programa e impulsionaram o engajamento do público visitante, entre as quais:
• Comemorações dos 65 anos do Congresso Nacional (abril): roteiro inédito, com passagem por áreas nunca antes visitadas e ampla cobertura jornalística externa. Apenas nos quatro dias de visitações especiais, foram 5.182 visitantes.
• Visitas às cúpulas (maio e outubro): programação especial com trabalhadores terceirizados, no mês de maio (mês do trabalhador), e com servidores, em outubro, em período próximo ao Dia do Servidor.
• Espaço Criança no Congresso (julho): ação voltada a famílias, com programação especial para o público infantil.
• Inauguração do Espaço Plenarinho (Salão Negro): ampliação da oferta de atividades para crianças durante a visita.
• “Orelhão” da Rádio Câmara (Salão Negro): iniciativa interativa para que visitantes pudessem pedir músicas, tornando a experiência mais participativa.
• Programação de Natal (dezembro): cantatas com participação especial de uma carreata de Natal ao final da apresentação.
• Visite EnCena: intervenções com esquetes teatrais integradas à visitação, aproximando o público de personagens e “vozes” ligadas à história do Brasil e do Parlamento.
• Visite 360: experiências imersivas com filmes em realidade virtual, utilizando óculos e fones de ouvido, para que o visitante vivencie narrativas marcantes do Parlamento.
• Implantação do Espaço do Visitante: com destaque para a réplica da tribuna do Plenário Ulysses Guimarães, que vem sendo amplamente utilizada pelos visitantes.

Ações em andamento (janeiro) e próximos passos
Os programas Visite EnCena e Visite 360 seguem em realização, ampliando as alternativas culturais e imersivas para o público. No Espaço do Visitante, a tribuna já está à disposição para fotos das 9h às 17h, todos os dias, e a Loja Institucional da Câmara será inaugurada em breve.

Mais informações sobre a Visitação Institucional ao Congresso estão disponíveis no portal

 

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CLDF anuncia novo concurso de fotografia “Brasília Sob Lentes”

A iniciativa pretende estimular a educação para a cidadania por meio da arte e da cultura, além de incentivar um olhar crítico e sensível sobre a capital federal

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Foto: Pedro França / Agência Senado

A Câmara Legislativa do Distrito Federal instituiu, por meio do ato da segunda vice-presidente, deputada Paula Belmonte (PSDB), publicado no Diário da Câmara Legislativa (DCL) no último dia 9, o concurso de fotografia “Brasília Sob Lentes”. A iniciativa pretende estimular a educação para a cidadania por meio da arte e da cultura, além de incentivar um olhar crítico e sensível sobre a capital federal.

Segundo o texto, o concurso será aberto à participação da comunidade em geral, com categorias, critérios e prazos definidos em edital específico a ser divulgado. As fotografias selecionadas também serão premiadas conforme as regras estabelecidas.

O ato determina, ainda, que a Escola do Legislativo do Distrito Federal (Elegis) será responsável por planejar, coordenar e executar o concurso, podendo firmar convênios e acordos de cooperação com instituições públicas e educacionais, tanto públicas quanto privadas.

Para a deputada Paula Belmonte, o projeto é uma oportunidade de fortalecer o vínculo entre a CLDF e a sociedade, incentivando o pertencimento, a identidade e a participação social. “A fotografia é uma poderosa ferramenta de expressão e cidadania. Com esse concurso, queremos aproximar a população da Câmara Legislativa e valorizar os múltiplos olhares sobre Brasília”, enfatiza a parlamentar.

*Com informações do gabinete da deputada Paula Belmonte (PSDB)

Agência CLDF

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Vestibular da USP vai cobrar obras indígenas e quadrinhos

Universidade divulgou livros de leitura obrigatória entre 2030 e 2033

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Guilherme Jeronymo – Repórter da Agência Brasil

 

A Universidade de São Paulo (USP) divulgou as obras de literatura para leitura obrigatória que será cobrada dos vestibulandos nos exames de 2030 a 2033. A lista traz mudanças em relação aos autores do ciclo 2026-2029 e amplia gêneros literários e a origem dos autores.

A nova relação foi aprovada em reunião do Conselho de Graduação da universidade, por unanimidade, e traz o retorno de obras de teatro como referência, gênero que esteve de fora nos últimos exames, além de incluir os quadrinhos, por meio de uma graphic novel (romance gráfico).

Será a primeira vez que os autores indígenas serão cobrados na Fuvest, com a obra Originárias: uma Antologia Feminina de Literatura Indígena, uma coletânea de contos de Trudruá Dorrico e Maurício Negro, no biênio 2030-2031, e Fantasmas, de Daniel Munduruku, para 2032-2033.

“Temos a preocupação de trazer visões mais contemporâneas, abordando um espectro de problemas mais amplo e favorecendo a avaliação comparativa entre escolas literárias e as próprias obras”, explicou o diretor executivo da Fundação para o Vestibular (Fuvest) Gustavo Monaco.

A abordagem, que tem sido o tom tanto na Fuvest quanto em outros vestibulares e no próprio Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), vem de uma percepção que Monaco resume como a de que o conhecimento é fracionado apenas por razões didáticas. Ele destaca a importância de os estudantes que chegam à universidade serem capazes de estabelecer relações entre essas concepções e narrativas diferentes.

A ampliação também impacta a correção das questões. A banca de português é a maior da Fuvest, pois todos os candidatos da segunda fase fazem a prova, e são cerca de 30 mil pessoas. Metade das questões envolve literatura, e a correção delas cabe a professores da USP, doutorandos, ex-alunos de doutorados e alunos de pós-doutorado. Com a ampliação, cresce a complexidade das perguntas, e também das respostas.

“Tem sido mais comum, durante a correção, que surjam debates, pois algumas respostas trazem novas formas de pensar os temas, com abordagens que levam a pensar novas formas de comparação”, comenta Monaco.

A lista amplia a retomada de autores masculinos, já que as obras cobradas entre 2026 e 2028 tinham somente autoras, e manterá a paridade de gêneros.

Confira a lista de obras:

Lista de livros para 2030 e 2031

  • Laços de Família, Clarice Lispector (contos)
  • Originárias: uma Antologia Feminina de Literatura Indígena, Trudruá Dorrico e Maurício Negro (contos)
  • A Moratória, Jorge Andrade (teatro)
  • Uma Faca só Lâmina, João Cabral de Melo Neto (poesia)
  • Beco do Rosário, Ana Luiza Koehler (graphic novel)
  • Esaú e Jacó, Machado de Assis (romance)
  • Memorial do Convento, José Saramago (romance)
  • A Ilha Fantástica, Germano Almeida (romance)
  • Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus (romance)

Lista de livros para 2032 e 2033

  • Laços de Família, Clarice Lispector (contos)
  • Orfeu da Conceição, Vinicius de Moraes (teatro)
  • Uma Faca só Lâmina, João Cabral de Melo Neto (poesia)
  • Beco do Rosário, Ana Luiza Koehler (graphic novel)
  • Úrsula, Maria Firmina dos Reis (romance)
  • Esaú e Jacó, Machado de Assis (romance)
  • O Plantador de Abóboras, Luís Cardoso (romance)
  • Casa de Família, Paula Fábrio (romance)
  • Fantasmas, Daniel Munduruku (romance)
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