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ESCÂNDALO E ULTRAJE NO JARDIM BOTÂNICO DO RIO

Acordo assinado dia 13 de outubro impede a remoção das invasões dentro do Jardim Botânico e tenta beneficiar 621 moradias clandestinas dentro do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

 

As terras do Jardim Botânico foram cedidas no século passado para moradia de funcionários. Aí, passando de pais para filhos, as terras foram alugadas e vendidas para construção de novas residências e até prédios. Hoje, com 621 moradias, o Jardim Botânico foi ultrajado e teve uma diminuição de área de mais ou menos 50%. Além da poluição nas nascentes do rio dos Macacos, que deságua na Lagoa Rodrigo de Freitas, as invasões comprometem um patrimônio natural histórico e cultural inestimável. Com o aval de quem deveria protegê-lo, o Ministério do Meio Ambiente e a sociedade carioca, agora é feito um escandaloso acordo que garante a permanência das 621 moradias dentro neste santuário brasileiro.

 

O vídeo abaixo tem 14 minutos e faz um resumo da importância do Jardim Botânico do RJ e dos pecados, omissões e agressões que, ao longo do tempo, este santuário cultural e ambiental vem sofrendo. Foi feito por Antônio Carlos de Souza Viard, em 1985. Segue o link.

https://www.youtube.com/watch?v=enzOGCPOOA0

 

 

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro é um patrimônio da Colônia, do Reinado, do Primeiro Império, do Segundo Império e da República. É a verdadeira História do Brasil. Hoje, a mais antiga e uma das mais importantes instituições de pesquisas do País está seriamente ameaçada. O motivo é o de sempre: descaso das autoridades, falta de recursos, invasões e ocupações ilegais. Fundado em 1808, por D. João VI, o JB-RJ têm 174 hectares e vem sofrendo com as invasões. São 621 imóveis ilegais, entre

oficinas e residências, algumas até com piscina. O rio dos Macacos, que atravessa o JB, está totalmente poluído pelo esgoto das casas e das oficinas clandestinas. Cartão de visitas do Rio, o Jardim Botânico retrata muito bem a decadência da cidade do Rio de Janeiro.

Invasões de 621 casas dilapidam, aos poucos, a joia

que é o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

 

 

CARLOS ALBERTO RIBEIRO DE XAVIER – ENTREVISTA

 

Carlos Alberto Ribeiro de Xavier foi Diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1983 a 1985. É formado em Contabilidade, Administração e Economia, mas na realidade é um ambientalista e educador. Foi diretor do antigo IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal e do Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico Nacional, onde presidiu o conselho consultivo. Trabalhou com 22 ministros de Estado, sendo o chefe de Gabinete de dois deles: Embaixador Sérgio Rouanet, da Cultura, e Murilo Hingel, da Educação. Nesta entrevista, Carlos Alberto explica por que o abandono do Jardim Botânico do Rio está atrelado a três fatores: autoritarismo, interferência de políticos e omissão das autoridades.

 

Silvestre Gorgulho – Carlos Alberto, como começou verdadeiramente sua luta para defender o Jardim Botânico do Rio?

Carlos Alberto Ribeiro de Xavier – Em 1977, eu era Diretor do IBDF e contratei Ângela Trezinari e Carlos Fernando de Moura Delphim, da Fundação de Amparo à Pesquisa da Universidade de Lavras, para realizar o Plano Geral de Orientação para a área do Jardim Botânico. Esse estudo desnudou as contradições, o abandono, as invasões e a degradação que vivia o Jardim Botânico.

 

Silvestre – Como uma entidade de tanto conceito e qualidade perdeu, de repente, esta proteção?

Carlos Alberto – Simples, porque desde a mudança da capital para Brasília e, sobretudo, desde 1964 quando se iniciou a ditadura militar, as pessoas esqueceram que o JB não ia mudar para Brasília. Mesmo “imexível ou imutável”, tinha que ser preservado e cuidado. Mas aconteceu o contrário. O Jardim Botânico foi abandonado. Pior! Foi conspurcado e começou a ser invadido. O grosso das invasões ocorre justamente nesse período. A situação ficou tão absurda que, no início dos anos 80, havia uma troca constante de diretores (quatro em três anos) porque todas as notícias que saiam do JB eram para as páginas policiais. Virou um caso de polícia mesmo. Então, em 1983, eu fui nomeado diretor para literalmente arrumar a casa.

 

Silvestre – E arrumou?

Carlos Alberto – Fiz o que pude e o que não pude.  Eu contratei topógrafos, consultores, me reuni com uns amigos durante dois dias e fizemos como na revolução russa: primeiro as primeiras coisas, segundo, as segundas coisas, terceiro as terceiras coisas. Fizemos uma lista de 50 prioridades do “que fazer”. É claro que eu não consegui fazer as 50 coisas, mas fiz todas as coisas possíveis e as que precisávamos para entregar uma denúncia para o Ministério Público que se instalou no Rio logo no início da vigência da Lei. O procurador deu uma entrevista e falou: “Amanhã, vou estar na Avenida tal, no escritório do MPF para receber as denúncias que qualquer cidadão tiver contra as ameaças ao patrimônio, ao meio ambiente, ao consumidor”. 

 

 

“O direito individual à habitação não pode ombrear com o direito coletivo à preservação de sítios tombados, constitutivos dos hortos florestais. É inadmissível, pois, sob o argumento da garantia à moradia, a ocupação de áreas públicas, ou de bens de uso comum do povo, como ruas, praças, jardins e parques.”

Walton Rodrigues, ex-ministro do TCU

 

Silvestre – Pois é, depois de quase meio século de uma luta judicial, o Jardim Botânico do RJ perdeu. Os invasores de 621 residências ganharam. Não é um absurdo?

Carlos Alberto – Eu não digo que o Jardim Botânico perdeu. Esse acordo de autoridades e representantes locais de instituições federais não será mantido. Não tem poder de mudar decisões definitivas do Poder Judiciário em Tribunal Superior. Portanto, temos que esperar a manifestação do STJ, oportunamente, quando for provocado.

Vista Chinesa – Nascente do rio dos Macacos – “É um exemplo constrangedor. Como as autoridades cariocas permitem que um santuário como o JB seja invadido e que um rio de água mineral, que nasce perto de suas dependências, seja completamente poluído. Nasce água mineral e a 1.700m depois já é esgoto a céu aberto”.

 

 

Silvestre – Como pode o mais representativo patrimônio ambiental, cultural e histórico brasileiro sofrer uma derrota dessas?

Carlos Alberto – Não é necessário falar sobre a importância histórica e cultural do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Ela é sempre reconhecida. A derrota representa a leniência das autoridades, inclusive da direção do próprio Jardim Botânico que permitiu ou convive com a invasão. É da responsabilidade da administração do Jardim Botânico e deve ser responsabilizada. O diretor do Jardim Botânico apresentou denúncia ao Ministério Público Federal em 1984 e de lá para cá os diretores conviveram com a ocupação crescente, pois o número de moradores hoje é maior do que o do início do processo. Mais do que omissão é uma evidente falta de interesse público e cultural.

 

Silvestre – Juridicamente este acórdão pode ser revogado?
Carlos Alberto – O Acordão não pode ser revogado. Está vivo. Está valendo. Talvez possa ser reformado pela mesma autoridade, nunca por instâncias inferiores da Justiça.

 

Silvestre – No caso do Jardim Botânico do Rio, o que é mais importante: o interesse coletivo pela cultura e meio ambiente ou o interesse individual e privado?
Carlos Alberto – Não existe interesse maior do que manter os valores reconhecidos deste Bem cultural único, tombado desde 1937 e ratificado pelo IPHAN em diversas oportunidades. O interesse menor é conviver com a invasão da Floresta da Tijuca como está acontecendo agora, nos limites do Jardim Botânico com o Parque Nacional da Tijuca.

 

Silvestre – O IPHAN tem poder para assinar um acordo desses?

Carlos Alberto – O representante do IPHAN que participou do acordo com os moradores não tem nenhuma autoridade para mudar a decisão judicial. Nem o próprio presidente da autarquia, Leandro Grass, poderia fazê-lo antes de parecer do Conselho Consultivo do IPHAN.

 

“Penso que o Acordão do Ministro Hermann continua valendo e o acordo assinado no Rio, dia 13 de outubro, será anulado pelo STJ, quando for provocado”.

Carlos Alberto Ribeiro de Xavier

 

 

 

Silvestre – Como fica a decisão jurídica do ministro Herman Benjamin do STJ?

Carlos Alberto – O Acórdão do Ministro Hermann Benjamim continua válido. Com certeza o acordo assinado no Rio será anulado no STJ, quando for provocado. É bom lembrar que qualquer cidadão ou entidade representativa pode apresentar reclamação na Justiça, pedindo a anulação do acordo feito agora e pedir o cumprimento da sentença de retirada dos invasores. Começou com a retirada do Clube Caxinguelê e parou… por quê? quem deixou de cumprir a decisão?

 

 

“Nem mesmo o acórdão unânime do Superior Tribunal da Justiça foi respeitado. Somente alguns ambientalistas e a liberdade de expressão lograram defender o bem de todos”.

Carlos Fernando de Moura Delphim

 

O Acordão não pode ser revogado. Está vivo. Está valendo. Talvez possa ser reformado pela mesma autoridade, nunca por instâncias inferiores da Justiça.

 

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MARIANNE NORTH

(Parte 2)

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A bióloga-pintora que correu o mundo para pintar plantas e paisagens e é personalidade retratada na entrada da cidade de Tenerife, nas Ilhas Canárias.

Visitei Tenerife duas vezes. A primeira, em 2019, quando fiz a travessia de navio “MSC Seaview” de Civitavecchia (Itália) para o Brasil. A segunda vez, em abril de 2024, também de navio, desta vez no “Norweguian Star”, do Rio de Janeiro para Lisboa. Em ambas as oportunidades deixei o navio para passar o dia em Tenerife.

 

A cidade me chamou a atenção por vários motivos. Primeiro, porque logo na saída do porto, a gente se depara com um monumento cultural e turístico: os totens ou pedestais que traz os nomes das maiores personalidades mundiais que já visitaram Tenerife. Deve ter uns 80 totens com fotos e pequena descrição de cada um. Lá estão Charles Darwin, Churchill, escritores, reis e rainhas. Vale andar pausadamente para ver este desfile de visitantes ilustres.

Deve ter uns 80 totens com fotos e pequena descrição de cada um. Lá estão Charles Darwin, Churchill, escritores, reis e rainhas.

Várias dessas personalidades já foram motivo de reportagens aqui na Folha do Meio Ambiente como Charles Darwin, Alexander Von Humboldt e Marianne North, que abriu uma grande série que fizemos no jornal chamada “NATURALISTAS VIAJANTES”. Estamos repetindo agora.

Von Humbolt, fundador da moderna geografia física e autor do conceito de meio ambiente geográfico, fez uma das mais belas metáforas que já li quando visitou o Brasil e viu uma vereda coberta de vagalumes:

“OS VAGALUMES FAZEM CRER QUE, DURANTE UMA NOITE NOS TRÓPICOS, A ABÓBODA CELESTE ABATEU-SE SOBRE OS PRADOS”.

 

SANTA CRUZ DE TENERIFE:

QUANTA BELEZA, ARTE E CIVILIDADE

As figuras expostas no Passeio de Visitantes Ilustres, proporcionam aos visitantes da cidade de Tenerife um percurso emblemático. Além de prestar homenagem a figuras universais que deixaram uma marca indelével na História, tendo atracado o porto de Tenerife em diferentes momentos, eles consolidaram os seus laços com este ponto de passagem histórico. O turista têm um aprendizado do legado deixado por essas personalidades.

É um reconhecimento da comunidade aos visitantes e estamos ao mesmo tempo que acrescenta um valor importante à cidade sobre o ponto turístico e cultural.

 

A pequena biografia e imagens dos mais ilustres visitantes de Tenerife em totens ou pedestais reafirmam a importância da ilha como um espaço de memória coletiva. O monumento convida os visitantes a conhecer melhor esses personagens fundamentais na História Universal. (Foto: Silvestre Gorgulho)

 

 

Marianne North esteve em Tenerife de 13 de janeiro a 29 de abril de 1875. (Foto: Silvestre Gorgulho)

 

PINTURAS DE MARIANNE NORT

EM TENERIFE

Nos quatro meses que a bióloga e pintora inglesa Marianne North passou em Tenerife, ela fez várias pinturas de plantas e paisagens das Ilhas Canárias.

 

 

Pintura de Marianne North no Jardim Botânico de Tenerife em 1875.

 

A Árvore do Dragão no jardim de Tenerife por Marianne North.

A cidade de Tenerife vista do alto por Marianne North.

 

 

Naturalistas Viajantes – Edição 382 – janeiro 2026

MARIANNE NORTH (Parte Final)

Nenhum dos artistas viajantes do Século 19 foi capaz de retratar a paisagem e a flora brasileiras com a intensidade e o colorido dos óleos da pintora inglesa Marianne North. O apoiador mais famoso de Marianne North foi Charles Darwin, o naturalista inglês cujas observações meticulosas se tornaram a base da biologia evolutiva.

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A INVENÇÃO NOTA 10 E O VEXAME DA COP30

O Brasil, sede da COP30, perdeu a chance de celebrar sua maior inovação sustentável. Por quê?

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Reginaldo Marinho inventor com módulo e maquete em exposição na Feira da Indústria da Construção, Feicon-São Paulo.

 

 

O Brasil, sede da COP30 em 2025, deveria estar exportando tecnologias de inovação de ruptura para o mundo. Contudo, nossa maior contribuição para a Economia Ecológica e habitação sustentável jaz abandonada há 14 anos. A Construcell – a estrutura construtiva solar e modular, premiada internacionalmente, que transforma o passivo ambiental de garrafas PET em moradias de alta resiliência – é a prova do diagnóstico amargo: a “Opção pela Mediocridade” brasileira. O inventor Reginaldo Marinho, cuja jornada foi reconhecida pelo Prime/Finep com Nota Máxima (10,00) em Grau de Inovação e, em seguida, ignorada por 14 anos pelo Estado, fala sobre a sabotagem institucional, a urgência geopolítica da COP30 e o vexame de perdermos nossos gênios para quem realmente valoriza o futuro.

 

 REGINALDO MARINHO – ENTREVISTA

Ele é um visionário. Reginaldo Marinho, paraibano de João Pessoa, estudou três anos de engenharia e dois anos de arquitetura na Universidade de Brasília para receber com todo orgulho o diploma de inventor. No Brasil, já fez de tudo para emplacar seu invento. Percorreu ministérios, agências de desenvolvimento, estatais e até redações de jornais para convencer autoridades e influenciadores de que não era nem maluco e que sua invenção era muito séria e importante para a sustentabilidade. Pouco conseguiu. Mas o que seu país, lhe negou este brasileiro arretado conseguiu no exterior: reconhecimento, prêmios e medalhas. Sim, a Medalha de Ouro do Salão Internacional de Invenções da Europa, em Genebra, concorrendo com mais de 600 inventores de 44 países.

 

 

Silvestre Gorgulho – Reginaldo, lá se foram mais de duas décadas e sua invenção se tornou um “triste símbolo” no Brasil. Explica por que a COP30 gosta mais de ideologia do que de tecnologia e o que significa essa “Invenção Sustentável” totalmente ignorada pela COP30, em Belém?

Reginaldo Marinho – Olha, quem prometeu uma COP30 da verdade, entregou uma COP da hipocrisia. Sim, hipocrisia da preservação ambiental, hipocrisia da agenda climática. A verdade é que a COP, todas elas, viraram um movimento mais ideológico do que de sustentabilidade. Tanto que a COP30, em Belém, ficou esvaziada. Apenas 17 chefes de Estado e ninguém dos BRICs e das grandes lideranças mundiais. Estados Unidos fora e a maioria da própria América Latina. Não se pode falar em sustentabilidade sem tecnologia e sem educação.

 

Silvestre – Você mencionou a hipocrisia da agenda. Essa falha de visão do Estado brasileiro é recente, ou a Construcell já havia sido rejeitada em outras grandes vitrines internacionais que o Brasil promoveu?

Reginaldo Marinho – Está aí um grande paradoxo. Há 25 anos, a Construcell não era apenas engenharia. Era um paradigma em Economia Ecológica: um sistema construtivo solar e modular que transforma o passivo ambiental mais problemático do planeta – as garrafas PET – em moradias de baixo custo e alta resiliência. O Brasil, sede da COP30, deveria celebrar essa tecnologia e outras tecnologias como sua maior contribuição para a sustentabilidade global. No entanto, o Construcell se tornou um símbolo da ‘Opção pela Mediocridade’ que paralisa nosso desenvolvimento tecnológico.

 

Silvestre Gorgulho – Nesse sentido, você já havia experimentado alguma rejeição à sua invenção?

Reginaldo Marinho – Sim. Depois da Exposição Universal de Hannover, EXPO 2000; do Ano do Brasil na França, 2005; da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, RIO+20; da Copa da FIFA, 2014; na COP 30, o Brasil perde a quinta oportunidade de mostrar para o mundo uma tecnologia ambiental disruptiva que continua inédita na engenharia civil. Foram oportunidades de ouro que o Brasil perdeu. Não foram apenas perdas econômicas. Nós perdemos oportunidades de manifestar o orgulho nacional.

 

Silvestre Gorgulho – Por que o Brasil rejeitou uma tecnologia com esse potencial?

Reginaldo Marinho – A raiz está na aversão cultural à inovação de ruptura. Enquanto o mundo busca soluções urgentes para a crise plástica e climática, o Brasil rejeitou ativamente a única tecnologia capaz de absorver todo o PET do planeta de forma construtiva. Essa falha de visão já foi ecoada pela presidente da Academia Nacional de Ciências dos EUA (NAS), Marcia McNutt, que, em entrevista publicada no Estadão, diagnosticou: “a ciência brasileira precisa ser mais ousada”. O nosso caso prova que a inação do Estado é o maior obstáculo.

Maquete impressa em 3D na paisagem arquitetônica de Brasília.

 

Silvestre Gorgulho – Mas isso é generalizado?

Reginaldo MarinhoSim. No final do século passado, eu visitei o dono do maior centro de ensino superior privado do Centro-Oeste para apresentar Construcell, quando chegaram a esposa de dois filhos adolescentes. Enquanto eles assistiram ao vídeo demonstrativo, a esposa exclamou: – Meu amor, que coisa linda! Derruba aquela lanchonete horrorosa que tem no pátio e constrói outra com essa tecnologia. Os filhos endossaram em coro: – É mesmo, pai, faz isso. O reitor contestou gravemente: – Não. Só depois que alguém fizer a primeira. Aversão ao pioneirismo é um hábito está na matriz do pensamento nacional. Marcia McNutt tem razão.

 

Silvestre Gorgulho – A rejeição à Construcell foi técnica? Como o Estado validou, e ao mesmo tempo sabotou, a invenção?

Reginaldo Marinho – O Construcell não falhou por deficiência técnica. O projeto foi ativamente rejeitado por uma política implícita de Estado. Sua excelência foi, paradoxalmente, validada pelo próprio sistema que o abandonou: no Edital PRIME da FINEP/MCTI, a Construcell foi classificada em primeiro lugar, obtendo a Nota Máxima (10,00) em Grau de Inovação após análise de cerca de 80 especialistas. O projeto não só foi classificado com mérito, como sua Prestação de Contas Final foi formalmente aprovada em dezembro de 2011. O Edital Prime prova esse descompasso, pois os recursos foram direcionados para consultorias. A promessa para o investimento na própria tecnologia é aguardada há 14 anos.

 

Silvestre Gorgulho – E qual foi o resultado prático após essa aprovação incontestável?

Reginaldo Marinho – Apesar dessa chancela incontestável, a promessa de liberação de recursos para a execução do produto – esperada no ano seguinte – jamais se concretizou em 14 anos. O abandono e a recusa posterior do INPI em conceder a patente sela o veredito: a Construcell foi punida por ser uma inovação de ruptura que confronta a mediocridade vigente.

 

Maquete digitalizada totalmente transparente simulando estande de exposições.

 

Silvestre Gorgulho – Onde o Estado brasileiro está falhando? E qual é o risco da COP30?

Reginaldo Marinho: O Estado falha em sua obrigação constitucional. A Constituição Federal (Artigos 218 e 219) é clara sobre a obrigação do Estado de promover o desenvolvimento científico e tecnológico. É um ato de negligência observar o Estado investindo energia em prioridades desalinhadas, enquanto o dever constitucional de fortalecer a C&T é cronicamente ignorado. O Brasil, para falar a verdade, depois da COP30, continua a sofrer o constrangimento final, pois perdeu sua maior inovação sustentável justamente para aqueles que valorizam o pioneirismo e o futuro.

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MISSÃO EDUCAÇÃO

Medalha Anísio Teixeira – Honra ao Mérito Educação

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A vida ensina sempre. E, em 1665, em São Luís do Maranhão, o Padre Antônio Vieira ensinou que a “educação e a humildade são moedas de ouro. Valem muito em qualquer lugar e em qualquer tempo”. A essas duas virtudes, quando se fala do professor Anísio Spínola Teixeira (*12/julho/1900, em Caetité-BA +11 de março de 1971, no Rio de Janeiro) temos que acrescentar pelo menos mais uma virtude: visionário.

 

Anísio Teixeira defendeu uma educação universal e a implantou em Brasília. Seu objetivo era fazer da Educação não só um produto da revolução social, mas ele queria gerar uma revolução social. Não defendia uma meia revolução, mas uma revolução total. Tinha um propósito certeiro: “Educação não é privilégio. É valor universal. Tem que ser gratuita, interativa e acessível a todos”.

 

NOVA EDUCAÇÃO: MANIFESTO

Vinte e oito anos antes da inauguração de Brasília, sempre visionário, o Patrono da Educação Pública do Brasil assinou o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”, projetando-se como um dos maiores educadores nacionais. Para elaborar, e desenvolver este documento, Anísio Teixeira trouxe as ideias do professor, filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey, o “pai” da Escola Nova. Dewey formulou os princípios básicos do movimento para uma educação baseada na participação ativa do aluno. Criticava o modelo tradicional focado na memorização.

Mais do que aderir ao pensamento de Dewey, Anísio Teixeira realizou traduções das obras do autor. Sempre idealista, ante uma realidade em que a maioria da população permanecia sem qualquer acesso à formação básica, enquanto uma elite frequentava escolas de formação clássica, Anísio se lançou na missão da educação. Lutou muito para mudar o cenário da educação pública no Brasil.

O “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” (detalhe: usou o mesmo termo Nova do professor Dewey) propunha que o conhecimento tinha de ser construído pela prática e pela interação com o mundo real, visando formar cidadãos criativos e capazes de gerenciar sua própria liberdade em uma sociedade democrática. Era uma reforma radical no sistema educacional brasileiro.  O manifesto foi redigido por 26 intelectuais. Além de Anísio Teixeira, assinaram Cecília Meireles, Fernando Azevedo, Delgado de Carvalho, Roquette Pinto e Hermes de Lima.

 

PATRONO DA EDUCAÇÃO PÚBLICA NO BRASIL

Quando, na construção de Brasília, Anísio Teixeira concebeu e implantou o Plano de Construções Escolares da nova capital, com as icônicas “Escolas Parques”, que até hoje empunham a bandeira de uma escola única, pública, laica, obrigatória e gratuita. Ela é alma do Manifesto de 1932.

Em boa hora, a Secretária de Estado do DF, Hélvia Paranaguá, com sensibilidade de Mestra em Educação, teve a perspicácia e sensatez de resgatar e trazer aos holofotes da política e da comunidade pedagógica os ensinamentos e a obra de Anísio Teixeira. Hélvia levou ao governador a ideia de homenagear o legado do “Patrono da Educação Pública no Brasil” pelos muitos de seus seguidores que souberam plantar seus métodos e aos que contribuíram para o fortalecimento e a valorização da Educação Pública. Ibaneis Rocha encampou a proposta e, em 13 de junho de 2023, assinou o Decreto nº 44.620 criando a “Medalha Anísio Teixeira”, que foi entregue dia 14 de novembro.

 

MEDALHA ANÍSIO TEIXEIRA

Sou muito grato e extremamente honrado por ter sido agraciado com a ‘Medalha Anísio Teixeira’ na sua primeira edição. Recebi da Secretária de Estado de Educação do Distrito Federal, Hélvia Paranaguá, a seguinte mensagem: “Jornalista SILVESTRE GORGULHO, a SEE-DF tem a honra de informar que V.Sa. foi agraciado com a Medalha Anísio Teixeira – Honra ao Mérito Educação, em reconhecimento à sua destacada contribuição para o fortalecimento e a valorização da Educação Pública do Distrito Federal”.

 

O professor Anísio Teixeira elaborou e implantou o Plano de Construções Escolares de Brasília.

 

IDEÁRIO ANÍSIO TEIXEIRA: TOMBAMENTO

Voltando no tempo. Ao tomar por base os ensinamentos de Anísio Teixeira no desenvolvimento de ações para formação cidadã e, assim, qualificar o cidadão para o mercado de trabalho buscando a superação das desigualdades que, em 2007, como Secretário de Estado da Cultura, sempre muito bem orientado pelas historiadoras Martita Icó e Luciana Ricardo e pelo professor José Carlos Coutinho, fizemos o estudo para o tombamento da obra e do legado de Anísio Teixeira, a pedido do então governador José Roberto Arruda.

No dia 4 de julho de 2007, entre vários ‘considerando’ enaltecendo a obra e legado de Anísio Teixeira, o governador Arruda assinou o decreto nº 28.093, tombando e registrando o “Ideário Pedagógico de Anísio Teixeira” por ter elaborado e implantado o Plano de Construções Escolares de Brasília.

Vale lembrar que além desse registro de tombamento, ainda fizemos outros dez: o do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, do Cine Brasília, o Clube do Choro, a Via Sacra do Morro da Capelinha, o Teatro Dulcina e Acervos, Escola EIT de Taguatinga, Revista Brasília, Unidade de Vizinhança 107/108, ARUC e o Clube de Golfe.

Tombamento é uma palavra de origem portuguesa que significa registrar um bem material ou imaterial no livro da Torre do TOMBO, em Portugal. A Torre do Tombo, situada na torre do Castelo São Jorge, hoje tem um nome pomposo: Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo. E o Brasil segue essa tradição.

De minha parte, ainda continuo com outro sonho: tombar o Céu de Brasília. Afinal, para Lucio Costa “o céu é o mar de Brasília” e o céu é parte de seu genial Plano Piloto. Um dia chegaremos lá.

 

BRASÍLIA é cidade única no mundo que se pode ver o céu olhando para cima ou para baixo. O tombamento do céu de Brasília é a agregação de um valor simbólico, sentimental. Se não cuidarmos, corre-se o risco de não ter mais a integridade da paisagem, de não se poder ver e sentir o infinito desta paisagem, de qualquer lugar do Plano Piloto, do nascer ao pôr do sol.

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