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Artistas traduzem Brasília em telas, samba pisado, teatro e moda

Cidade completa 66 anos nesta terça-feira, 21 de abril

 

Luiz Claudio Ferreira – Repórter da Agência Brasil

“Não me é possível traduzir em palavras o que sinto e o que penso nesta hora, a mais importante de minha vida de homem público”. Até no primeiro discurso para a nova capital, há 66 anos, Juscelino Kubitschek ressaltava a dificuldade de encontrar os verbos, substantivos e melhores adjetivos para Brasília. Mais de seis décadas depois, artistas também buscam, em diferentes suportes, a inspiração, em uma complexa “candanguice”, para traduzir Brasília.

Um desses artistas usa gesto e silêncio. O mímico Miqueias Paz, de 62 anos, faz do movimento do corpo as nuances da cidade. As desigualdades, a bravura de quem veio de fora, a rotina de uma nova metrópole. Justo ele que chegou à capital com a família com apenas cinco anos de idade. Descobriu o poder no teatro na adolescência. Um teatro social que tratava da experiência das pessoas periféricas, dos imigrantes para a capital.

Ao encenar “Sonho de um retirante”, o primeiro espetáculo, e depois “História do homem”, ambos na década de 1980, recorda que fez as apresentações, em primeiro lugar para agentes da ditadura, que faziam cortes e classificações.

Sesi, Taguatinga, DF, Brasil 27.9.2018 
O primeiro mímico de Brasília, Miqueias Paz se apresenta na Quarta Cênica pelo projeto Sesi BRB Cultural. Foto: Helio Montferre/Sistema Fibra.
Mímico Miqueias Paz, de 62 anos, faz do movimento do corpo as nuances da cidade – Foto Helio Montferre/Sistema Fibra

Foi em Taguatinga que ele começou a fazer teatro a partir dos 16 anos, influenciado por companhias, como o H-Papanatas, que visitava a então jovem capital. Miqueias passou a se apresentar não apenas no palco, mas também na rua para levar a arte a ocupações, por exemplo. Levar conscientização por direitos. Sem usar uma palavra, mas com o olhar.

Ele lembra que, atuar com encenação física fez com que ele se tornasse alvo de microviolências, como abordagens frequentes de policiais. “Eu já começava a fazer mímica intuitivamente a partir das minhas histórias sociais: as coisas que eu vivia, que eu sentia, o ônibus apertado, a falta de grana. Esse passou a ser um eixo do meu trabalho”, diz.

Em 1984, ficou conhecido por celebrar o fim da ditadura com o gesto de um um coração na rampa do Congresso. “Eu acabei tendo mais visibilidade em relação às pessoas dos movimentos sociais e passei a ser muito chamado por sindicatos”. Atualmente, Miqueias investe no seu próprio teatro, o Mimo, espaço cênico que fica na comunidade periférica 26 de setembro, que tem por objetivo acolher artistas ambulantes da capital.

Samba pisado para cidade inventada

A tradução de Brasília também pode ser encontrada no sotaque nordestino do grupo “Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro”, criado pelo pernambucano Tico Magalhães. Foi ele que, sob o “assombro” que teve com o Cerrado e com a história de Brasília, criou o ritmo do samba pisado. A ideia era criar uma brincadeira. “Uma invenção para a cidade, uma tradição para ela, para essa cidade inventada”, afirmou.

A criação do samba pisado tinha uma mitologia própria com história, as figuras e festejos novos. “Achei que precisava criar algo que fosse novo também em relação a um pulso, um coração, uma batida própria. A gente chama de samba pisado e, a partir daí, a gente começa a tocá-lo”, diz Magalhães.

Eis então um ritmo sob inspiração do som nordestino do cavalo marinho, do maracatu nação, de baque solto e de baque virado. “Mas também é uma junção de vários outros ritmos”. Ele diz que Brasília se fez em cima de um território onde se cruzaram vários povos indígenas. “É uma terra cheia de memória e de encantamentos. Brasília traz esse sonho, uma cidade que é sonhada, pensada e inventada”. 

Tico Magalhães avalia que o grupo assume características da cidade e oferece outras características. Para ele, Brasília configura-se em uma pequena diáspora brasileira.

“Quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições. O Seu Estrelo carrega a junção de tanta gente. A cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade”.

Roupas e arquitetura

A inspiração de Brasília ilumina as mentes criativas de um casal de estilistas nascidos em regiões administrativas periféricas. Mackenzo, de 27 anos, de Samambaia, e Felipe Manzoli, de 29, de Planaltina, literalmente transformaram espaços arquitetônicos da capital em roupas.

Brasília -DF- 21/04/2026 - Artistas traduzem Brasília sem precisar de palavras.  FOTO: Divulgação.
Estilistas dizem que arquitetura da cidade é fonte de inspiração – Foto/Divulgação

Felipe aprendeu a costurar com a avó aos 10 anos de idade. Mackenzo, que também era músico, arriscava-se em croquis ousados inspirados pelo que via da janela do ônibus. “Eu tive tias baianas que trabalharam com o próprio Juscelino Kubitschek e que fizeram parte da construção da cidade. Nós temos essa paixão pela arquitetura”.

O estilista defende que produzir uma peça exige saberes quase arquitetônicos. Terrenos retos ou curvilíneos.

“O terreno, que é o corpo, é essa parte da engenharia da peça. Porque Brasília, para mim, não é apenas essa arquitetura. Ela é quase mítica”.

Ambos os estilistas avaliam que o trabalho homenageia a família deles. “Quando a gente pega Brasília para produzir uma coleção ou se inspira nessas questões arquitetônicas para produzir outras coleções, eu me inspiro muito nesse sonho grandioso. A realidade foi realmente dura de quem construiu esse sonho”.

“Nós somos muito metódicos e dramáticos. Eu sempre penso como é que eu posso transformar as coisas em roupas”.

Repertório

Outra estilista, Nara Resende, de 54 anos, é arquiteta de formação. “As formas simples e a geometria sempre marcaram muito o meu processo criativo. Estar hoje em Brasília, com a minha marca, só reforça o quanto esse repertório foi construído a partir dessas bases”, explicou.

Ela diz que a cidade respira arte, e a natureza cria um contraste com o brutalismo das edificações. “Isso me atravessa diretamente. Minha inspiração acontece muito nas ruas, onde a vida pulsa e as pessoas circulam”.

Alma da cidade

A artista visual Isabella Stephan, de 41 anos, que tem trabalho com telas e também estamparia, diz que se inspira nas cores de Brasília para traduzir a “alma da cidade”. “São obras que transitam entre o figurativo e o abstrato que exaltam a alegria enquanto tema”.

Brasília -DF- 21/04/2026 - Artistas traduzem Brasília sem precisar de palavras.  FOTO: Niklas Stephan
Isabella Stephan diz que se inspira nas cores de Brasília para traduzir a “alma da cidade” – Foto Niklas Stephan/Divulgação

Inicialmente, eram telas. Os quadros foram vendidos e resolveu transformar as pinturas em vestuário. “Brasília é uma cidade de muito branco, onde reina o concreto na arquitetura da cidade, uma cidade cheia de linhas”.

Nas obras, a artista resolveu traduzir o multicolorido do movimento e da alegria do brasiliense.

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Homenagem à Orquestra Filarmônica de Brasília celebra 41 anos de dedicação à música erudita e popular

Proposto pelo deputado Fábio Felix (PSOL), o evento acontece no plenário da Casa

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Foto: Agência Brasília

A Câmara Legislativa do Distrito Federal realiza sessão solene nesta sexta-feira (24) em homenagem à Orquestra Filarmônica de Brasília (OFB). Proposto pelo deputado Fábio Felix (PSOL), o evento acontece no plenário da Casa a partir das 14h.

A OFB surgiu em 1985, inicialmente com o nome de “Orquestra Jovem de Brasília”, integrada por estudantes de música da Universidade de Brasília (UnB) e da Escola de Música de Brasília (EMB), com as bençãos do maestro Claudio Santoro, que regeu a primeira apresentação do grupo. O objetivo era democratizar o acesso à música e promover a formação cultural no DF.

Ao longo dos anos, a Orquestra Filarmônica de Brasília consolidou-se como um dos principais grupos sinfônicos do DF, com um repertório que une música clássica e popular. Além disso, a OFB desenvolve uma série de projetos educativos, de incentivo a novos talentos e de formação de público.

 

Foto:Andressa Anholete / Agência CLDF

“Celebrar quatro décadas de atuação é reconhecer não apenas a excelência artística da Orquestra, mas também o empenho de músicos, maestros e colaboradores que se dedicaram à construção de um patrimônio cultural de inestimável valor para a sociedade”, destaca o autor da homenagem, deputado Fábio Felix.

Serviço
O que:
 sessão solene em homenagem à Orquestra Filarmônica de Brasília
Quando: sexta-feira (24), às 14h
Onde: plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal

Denise Caputo – Agência CLDF

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Receita abre consulta a lote da malha fina do Imposto de Renda

Cerca de 415 mil contribuintes receberão R$ 592 milhões

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Wellton Máximo – Repórter da Agência Brasil

Cerca de 415 mil contribuintes que caíram na malha fina e regularizaram as pendências com o Fisco podem saber se receberão restituição. Às 10h desta quinta-feira (23), a Receita Federal libera a consulta ao lote da malha fina de abril. O lote também contempla restituições residuais de anos anteriores.

Ao todo, 415.277 contribuintes receberão R$ 592,2 milhões. Desse total, R$ 256,8 milhões irão para contribuintes com prioridade legal no reembolso.

As restituições estão distribuídas da seguinte forma:

  •    334.614 contribuintes que usaram a declaração pré-preenchida e/ou optaram simultaneamente por receber a restituição via Pix;
  •    32.231 contribuintes sem prioridade;
  •    28.572 contribuintes de 60 a 79 anos;
  •    10.521 contribuintes cuja maior fonte de renda seja o magistério;
  •    4.731 contribuintes acima de 80 anos;
  •    4.608 contribuintes com deficiência física ou mental ou doença grave.

A consulta pode ser feita na página da Receita Federal na internet. Basta o contribuinte clicar em “Meu Imposto de Renda” e, em seguida, no botão “Consultar a Restituição”. Também é possível fazer a consulta no aplicativo da Receita Federal para tablets e smartphones.

Pagamento

O pagamento será feito em 30 de abril, na conta ou na chave Pix do tipo CPF informada na declaração do Imposto de Renda. Caso o contribuinte não esteja na lista, deverá entrar no Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (e-CAC) e tirar o extrato da declaração. Se verificar uma pendência, pode enviar uma declaração retificadora e esperar os próximos lotes da malha fina.

Se, por algum motivo, a restituição não for depositada na conta informada na declaração, como no caso de conta desativada, os valores ficarão disponíveis para resgate por até um ano no Banco do Brasil. Nesse caso, o cidadão poderá agendar o crédito em qualquer conta bancária em seu nome, por meio do Portal BB ou ligando para a Central de Relacionamento do banco, nos telefones 4004-0001 (capitais), 0800-729-0001 (demais localidades) e 0800-729-0088 (telefone especial exclusivo para deficientes auditivos).

Caso o contribuinte não resgate o valor de sua restituição depois de um ano, deverá requerer o valor no Portal e-CAC. Ao entrar na página, o cidadão deve acessando o menu “Declarações e Demonstrativos”, clicar em “Meu Imposto de Renda” e, em seguida, no campo “Solicitar restituição não resgatada na rede bancária”.

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Hábitos de higiene do sono favorecem qualidade de vida de pessoas e famílias atípicas

Material desenvolvido por especialista do Hospital Regional de Taguatinga é utilizado na rede pública de saúde; campanha Abril Azul é dedicada à conscientização do transtorno

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Agência Brasília* | Edição: Vinicius Nader

A literatura demonstra que de 40% a 80% das pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) apresentam algum distúrbio do sono. Constatando essa incidência durante os atendimentos realizados no Centro de Especialidades Odontológicas (CEO) do Hospital Regional de Taguatinga (HRT), a cirurgiã-dentista Andréia Aquino decidiu ampliar as oportunidades de conscientização das famílias atípicas.

A ideia de desenvolver o folder O sono e o autismo surgiu da observação da importância de noites bem-dormidas para a saúde global e, de modo especial, para a qualidade de vida das pessoas com o transtorno. “Queríamos destacar que a privação ou a baixa qualidade do sono pode exacerbar sintomas do TEA, acarretando prejuízos cognitivos, sociais, emocionais e comportamentais, com impactos não apenas para a pessoa autista, mas também para toda a família”, explica a especialista no atendimento a pessoas com deficiência (PcDs).

O material educativo foi desenvolvido há dois anos. Desde então, tem sido utilizado, no Sistema Único de Saúde (SUS) do Distrito Federal, como instrumento de educação, sensibilização e orientação, especialmente em ações voltadas ao cuidado de PcD e à atenção às famílias atípicas.

 Novos hábitos

Foi durante o Encontro Atípico, terapia comunitária oferecida todos os meses de 2025 no HRT, que Danielle Nunes Lacerda, de 39 anos, conheceu o que é higiene do sono. A ocasião, além de garantir a oferta gratuita do material impresso, serviu para que a mãe de Murilo Lacerda, 12, ouvisse o relato de famílias que já haviam colocado em prática o conjunto de hábitos recomendados para melhoria da qualidade e da duração do sono.

O garoto convivia com excessiva sonolência durante o período em que fez uso de medicação antipsicótica. Além disso, a demora para dormir, junto ao costume de acordar frequentemente cedo, causavam prejuízos ao seu humor e ao rendimento nas atividades apresentadas ao longo do dia.

 

A campanha Abril Azul conscientiza a sociedade para os cuidados com TEAs

A suplementação de melatonina — recomendada pelo neurologista com quem ele faz acompanhamento — e a incorporação de práticas de higiene do sono modificaram esse cenário. “A partir do momento em que começamos a aplicar a higiene do sono, ele melhorou 100%. Continua acordando cedo, mas tem uma noite de sono muito melhor”, relata Danielle.

A rotina de sono dificultosa causava desapontamentos no ambiente familiar. “A gente ficava um pouco frustrado às vezes, por dormir tarde e acordar cedo. Quando ele se levantava, a gente precisava se levantar também. Isso afetava a rotina dele e também a nossa”, detalha a professora e moradora de Taguatinga.

Abril Azul

O Dia Mundial da Conscientização do Autismo, comemorado em 2 de abril, foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007. Ao longo de todo o mês, ações da campanha são dedicadas à ampliação do conhecimento sobre o transtorno, ao enfrentamento do preconceito e à promoção da inclusão das pessoas com TEA na sociedade.

A rede pública de saúde do DF registrou mais de 8,2 mil atendimentos individuais na atenção primária à saúde, além de quase 135 mil procedimentos na atenção especializada e na rede contratada em 2025. Em dezembro, o Governo do Distrito Federal (GDF) inaugurou o primeiro Centro de Referência Especializado em Transtorno do Espectro Autista (Cretea) do DF. O TEA atinge cerca de 34,5 mil pessoas, equivalente a 1,2% da população distrital, segundo censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

*Com informações da Secretaria de Saúde (SES-DF)

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