Artigos

Zé Aparecido

o maior candango do mundo

 

“Humanista”. Assim, sucinta e majestosamente, a atriz Fernanda Montenegro definiu o amigo querido José Aparecido de Oliveira. Zé — como era chamado, carinhosamente, pelos milhares de amigos que cultivou pelo Brasil e pelos continentes — ficou conhecido também como “o melhor mineiro do mundo” e “o Zé de todos os amigos”, tamanha a sua maneira afetuosa de tratar a tudo e a todos. O também amigo Alberto Pinto Coelho, parodiando o arquiteto húngaro Yona Friedman, sempre o chamava de “o homem das utopias realizáveis”, sublinhando a perseverança e os feitos de Zé Aparecido ao longo de sua extraordinária vida pública e política.

José Aparecido nasceu em Conceição do Mato Dentro, na região do Serro, conhecida por sua beleza natural e casario colonial, em 17 de fevereiro de 1929. Em 1947, aos 19 anos, foi aprovado no concurso para redator do Serviço de Radiodifusão de Minas Gerais. Em 1950, com apenas 21 anos, já se destacava como comentarista político do jornal Informe Comercial. Em 1953, atuante no Sindicato dos Jornalistas e na Associação Mineira de Imprensa, representou o Brasil no I Congresso Mundial de Jornalistas, no Chile. Em 1954, coordenou a campanha vitoriosa de Celso Mello Azevedo para a prefeitura de Belo Horizonte. Começava sua veloz carreira política. Em 1960, já em notável ascensão, coordenou, ao lado do deputado Virgílio Távora, a campanha vitoriosa de Jânio Quadros à Presidência da República. Secretário particular do presidente, trouxe para a assessoria de imprensa da Presidência o respeitado jornalista Carlos Castelo Branco. Foi um período curto, mas denso e, ainda hoje, pouco compreendido. Jânio renunciaria seis meses depois, no dia 25 de agosto de 1961.

Em 1962, Aparecido foi eleito deputado federal e integrou a chamada UDN Bossa Nova, ala udenista que defendia uma política mais nacionalista e um diálogo propositivo com o governo Goulart. “Aparecido, eu preciso de você ao meu lado”, disse Magalhães Pinto ao convidá-lo para assumir a Secretaria de Governo do Palácio Tiradentes. Apesar da grande amizade, a parceria política durou pouco. Ao perceber o golpe militar em curso e a participação do governador, José Aparecido voltou para a Câmara dos Deputados. Foi cassado na primeira leva, pelo Ato Institucional nº 1, no dia 10 de abril de 1964. Sem mandato, longe da política institucional, passou a cultivar o que, de fato, mais gostava: a cultura e os amigos.

Em 1982, já na agonia da ditadura, Tancredo Neves elegeu-se governador de Minas Gerais, e José Aparecido voltou à Câmara dos Deputados. Tancredo, entretanto, não lhe permitiu permanecer no Congresso: convidou-o para ser o primeiro secretário de Cultura de Minas Gerais. Em janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral elegeu Tancredo Neves presidente da República, que veio a falecer antes da posse. Já na Presidência, José Sarney nomeia José Aparecido ministro da Cultura. A realidade política de Brasília, na inspiração da reorganização democrática do país, mudou os planos e as expectativas de Aparecido. Sarney o convocou para o governo de Brasília, em maio de 1985. Ainda se aconchegando na cadeira presidencial, ele compreendia que o governante da capital de JK e da democracia precisava ter a estatura e a autoridade que o símbolo e a memória exigiam.

Aparecido era um homem do grande mundo. Conhecia e convivia com o universo empresarial, político e cultural da República, que lhe devotava respeito e admiração. Não poderia haver nome melhor para administrar e conduzir, naquele momento de construção, reconstrução e refazimento, a cidade de Brasília com toda a sinergia que ela mobilizava na cena magnífica da redemocratização do país.

José Aparecido fez por merecer. Reuniu novamente Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Marianne Peretti, Athos Bulcão e Burle Marx para revisitarem a cidade, completarem obras e criarem outras. Daí nasceram o Panteão da Pátria, o Teatro Nacional, o Espaço Cultural da República, o Museu de Arte Moderna, o Gran Circo Lar, o Espaço Lúcio Costa, a Casa do Cantador (em Ceilândia) e o Memorial dos Povos Indígenas. Iniciou a despoluição do Lago Paranoá e o primeiro esforço para a construção do metrô, ligando as cidades-satélites ao Plano Piloto. Criou as secretarias do Trabalho, da Indústria e Comércio, da Cultura e da Comunicação Social. Com determinação, enfrentou a ocupação irregular de áreas públicas e terras da União por posseiros, especuladores e invasores privilegiados. Criou o Conselho de Arquitetura e Urbanismo, o Arquivo Público, o Jardim Botânico e iniciou a construção de Samambaia.

Mas seu grande feito e maior obra foi o reconhecimento, pela Unesco, de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade. “Zé Aparecido, você fincou uma lança na Lua”, escreveu Darcy Ribeiro, naquele histórico 7 de dezembro de 1987, em bilhete entregue ao governador pelo então secretário de Comunicação, Silvestre Gorgulho — outra presença de raro requinte na história da cidade —, auxiliar e amigo do grande candango que veio das alterosas.

Em setembro de 1988, dias antes da promulgação da nova Constituição, o presidente José Sarney reconduziu o amigo José Aparecido ao Ministério da Cultura. Encerrava-se ali uma experiência única e extraordinária na história de Brasília, que não voltaria a se repetir. As motivações e consequências desse desfecho político, pelo menos até onde foi possível pesquisar, ainda não foram objeto da devida reflexão, compreensão e esclarecimento.

Em 1992, já no governo Itamar Franco, José Aparecido foi nomeado embaixador do Brasil em Lisboa, onde, com o apoio do amigo Mário Soares, concretizou o sonho antigo de criar a Comunidade dos Países da Língua Portuguesa. “Dificilmente um homem de origem simples como José Aparecido conseguia emocionar e satisfazer de ser o centro de uma espontânea confraria de pessoas ilustres, importantes, talentosas ou, até mesmo, pura e simplesmente belas”, disse, certa feita, Millôr Fernandes. O filho dileto da região do Serro faleceu no dia 19 de outubro de 2007, em Belo Horizonte.

JORGE HENRIQUE CARTAXO* | jorgehenrique.cartaxo@gmail.com

* Jornalista e mestre em história pela Universidade de Paris-Sorbonne.

Artigos

EMILIANO PEREIRA BOTELHO

(1948-2026)

Publicado

em

Por

 

O Brasil perdeu ontem à noite (11/08) um cidadão empreendedor, dedicado e que deixa um legado incomensurável para a agricultura tropical: EMILIANO PEREIRA BOTELHO.
Paracatu perdeu um filho ilustre e eu perdi um amigo, inclusive, que escreveu a abertura do meu livro “DE CASACA E CHUTEIRAS – JK-BRASÍLIA-PELÉ – A Era dos Grandes dribles na Política, Cultura e História”.
Nesse livro, Emiliano, como presidente da CAMPO – Companhia de Promoção Agrícola, escreveu sobre o Planalto Central e a história da revolução verde-amerela do Cerrado, focando na chegada dos japoneses das famílias Kanegae, Hayakawa, Ogawa, Ikeda e Okudi para desbravar a região do Distrito Federal.
Como jogador de futebol, amante da boa música e torcedor do Cruzeiro, EMILIANO BOTELHO tinha seu lado alegre e festeiro. Como profissional da agropecuária, deixa uma história de empreendedorismo: logo depois de ser o superintendente e, depois, presidente da Cooperativa Agropecuária do Vale do Paracatu, a Coopervap, presidiu por mais de 30 anos a CAMPO – Companhia de Promoção Agrícola, ligada ao Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento dos Cerrados, o Prodecer.
FOTOS
1) Emiliano Botelho quando foi homenageado pela Casa de Cultura e pela Prefeitura Municipal de Paracatu como Personalidade que fez e faz diferença na região.
2) Emiliano, o Ministro Alysson Paolinelli e o primeiro presidente da CAMPO, Paulo Afonso Romano.
3) Emiliano e sua paixão pelo Cruzeiro, que hoje no jogo com o Flamengo bem podia fazer um minuto de silêncio em sua Memória.
Continue Lendo

Artigos

UnB tem finalistas no Prêmio Jabuti Acadêmico 2026

Obras dos docentes Edileuza Penha, Gabriele Cornelli e Elimar Pinheiro concorrem nas áreas de Artes; Tradução; e Ciências Agrárias e Ciências Ambientais. Premiação ocorre em 11 de agosto, em São Paulo

Publicado

em

Por

 

Continue Lendo

Artigos

Eleições 2026: conheça as regras e faça do seu voto um instrumento de transformação

Entenda o calendário eleitoral, as principais normas do pleito e a importância de buscar informação de qualidade para exercer um voto consciente e fortalecer a democracia brasileira.

Publicado

em

Por

 

Antes de escolher um candidato, o eleitor escolhe o futuro do país. Em 2026, milhões de brasileiros voltarão às urnas para eleger presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Mais do que um direito, o voto é um dos principais instrumentos da democracia e uma oportunidade de influenciar os rumos do Brasil pelos próximos anos.

As eleições deste ano seguem regras definidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que buscam garantir transparência, igualdade entre os candidatos e segurança no processo de votação. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro, enquanto o segundo turno, caso necessário para presidente e governadores, ocorrerá em 25 de outubro. A campanha eleitoral oficial começa em 16 de agosto, quando passam a ser permitidas as propagandas e os atos de campanha previstos na legislação.

Além do calendário, algumas normas ganharam destaque em 2026. O TSE atualizou regras relacionadas ao uso da inteligência artificial nas campanhas, reforçou medidas de combate à desinformação, aprimorou procedimentos de auditoria das urnas eletrônicas e promoveu ajustes na regulamentação do Fundo Eleitoral. O objetivo é aumentar a transparência, proteger a integridade do processo eleitoral e oferecer mais segurança aos eleitores.

Mas conhecer as regras é apenas parte da responsabilidade do eleitor. O voto consciente começa muito antes do dia da eleição. É importante pesquisar a trajetória dos candidatos, avaliar suas propostas, verificar seu histórico de atuação e confirmar se as informações compartilhadas nas redes sociais são verdadeiras. Em um cenário marcado pelo grande volume de conteúdos digitais, desconfiar de mensagens sem fonte confiável e consultar os canais oficiais da Justiça Eleitoral faz toda a diferença.

Também vale lembrar que votos brancos e nulos não são direcionados a nenhum candidato e não alteram o cálculo dos votos válidos utilizados para definir os eleitos. Por isso, participar de forma consciente significa escolher um candidato de acordo com suas convicções e acompanhar, depois da eleição, o trabalho dos representantes escolhidos.

A democracia não se fortalece apenas no dia da votação. Ela depende da participação permanente da sociedade, do respeito às instituições e do compromisso de cada cidadão com a informação de qualidade. Informar-se, comparar propostas e votar com responsabilidade são atitudes que ajudam a construir um país mais justo, transparente e representativo.

Para conferir o calendário completo, as regras atualizadas e outras informações oficiais sobre as Eleições 2026, consulte a página oficial das Eleições 2026 do TSE e o Calendário Eleitoral.

Continue Lendo

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010