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Solidariedade e cidadania na reconstrução da região do vale do Taquari-RS

São muitas as provações que a população das regiões do Vale do Taquari e de Porto Alegre vêm sofrendo

 

São muitas as provações que a população das regiões do Vale do Taquari e de Porto Alegre vêm sofrendo. As chuvas de junho deixaram os gaúchos em alerta máxima. Aos primeiros pingos, reacende a agonia das últimas tragédias. E, agora, com um agravante: o frio muito intenso. Hoje, mais preparados e atentos ao clima, empresários e autoridades acompanham a evolução das chuvas sem interromper os trabalhos de reconstrução. O empresário Ângelo Fontana, de Encantado-RS, presidente da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, em entrevista à Folha do Meio, fala sobre o esforço para a recuperação da infraestrutura e mostra a importância da convergência entre a cidadania e a solidariedade.

 

A vida é uma professora severa. Primeiro aplica a prova, depois ensina a lição. As lições podem ser várias. Uma delas é fundamental para o bem-viver e o conviver: a solidariedade. Solidariedade é mais do que uma lição. É um ato de amor e um desafio humanitário. É onde o socorro, o apoio, a assistência e a doação começam por onde não se espera nada em troca. Contagia e se deixa contagiar. Toda tragédia traz reflexões e ações sobre como lidar com o desespero, com a aflição, com as perdas e a agonia. Essa entrevista com o empresário Ângelo Fontana, de Encantado-RS, presidente da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, mostra a importância da convergência entre a cidadania e a solidariedade. Fontana explica como foi construída essa solidariedade nas trágicas enchentes do Rio Grande do Sul e como as lideranças empresariais e políticas da região se deram as mãos para se fortalecerem diante dos alertas, das buscas de soluções imediatas e permanentes, para os restauros e a reconstrução da autoestima e da infraestrutura da região.

 

SOLIDARIEDADE É REVIVER

TRAJETÓRIA DOS PRIMEIROS IMIGRANTES.

 

Inauguração da Ponte de Ilópolis, dia 17 de maio, uma das 10 pontes em construção: “Estamos revivendo o espírito de colaboração que marcou a trajetória dos nossos imigrantes, que juntos ergueram escolas e igrejas. Se dependêssemos exclusivamente do poder público, essas pontes – como essa de Ilópolis – levariam muito mais tempo para se tornar realidade.” ADELAR STEFFLER, vice-presidente da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari e presidente da Cooperativa Vale Log.

 

Não foi a primeira e não será a última vez que uma grande tragédia se abate sobre uma região brasileira. O importante é fazer da solidariedade e do enfrentamento de cada desafio uma nova visão sobre como lidar com esses momentos de sofrimento para abrandar as dores, prevenir e mitigar os riscos.  Em maio de 2024, foi sobre o Rio Grande do Sul. O estado teve 96% do território atingido, 2,3 milhões de pessoas afetadas, 183 óbitos e prejuízos estimados em quase R$ 90 bilhões. Mas antes, tragédias de grande porte massacraram outros estados. Em 1983 e em 1984, Santa Catarina, especificamente o Vale do Itajaí, foi atingido por enchentes de grandes proporções. Em janeiro de 2000, ocorreu o vazamento de petróleo da Petrobras que despejou na Baia de Guanabara mais de 1,3 milhões de litros de óleo. Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de rejeitos de minério, em Mariana, quando 39 milhões de metros cúbicos de rejeitos escoaram por 663km pela bacia do Rio Doce. E, três anos depois, em janeiro de 2019, outro terrível acidente industrial e humanitário: o rompimento de barragem em Brumadinho, que causou a morte de 272 pessoas.

ÂNGELO FONTANA – ENTREVISTA

 Ângelo César Fontana completa 65 anos dia 21 deste mês. Natural de Encantado, é casado com Sônia Martini e pai de dois filhos: Gabriela e Eduardo. Graduado em Administração de Empresas, Ângelo é sócio proprietário da Fontana S/A, de Encantado, e atual presidente da Associação Comercial e Industrial do município. Pela primeira vez dirige uma entidade regional. Com uma extensa trajetória no associativismo voluntário, Ângelo Fontana – como toda sua família – se engajou de corpo e alma na luta pela reconstrução de todo o Vale do Taquari depois de duas enchentes seguidas. Ele tem muito a dizer porque sabe que o desafio é grande e que tem um longo trabalho pela frente.

 

SILVESTRE – As chuvas, agora, do final de junho vieram com um agravante: muito frio. Diferente das quatro enchentes anteriores de 2023 e 2024. O Vale do Taquari suporta mais este desafio e está preparado para os próximos?

ANGELO FONTANA – Olha, as chuvas de junho trouxeram transtornos, mas sem grandes estragos. O nível dos rios subiu, mas ainda está sob controle. A verdade é que estamos melhor preparados para enfrentar as adversidades climáticas. Porém, muita coisa, ainda, deve ser feita como: construção de residências fora área inundação, mobilidade e infraestrutura viária, rede pluvial, retenção de encostas e desassoreamento dos rios. Uma coisa chama a atenção. Temos um apagão de oferta de mão de obra. Há enorme oferta de empregos, porém há falta de candidatos. Motivos? O elevado assistencialismo governamental, a falta de mão de obra especializada e até a falta de interesse dos jovens em frequentar cursos profissionalizantes.

 

Silvestre – Uma grande tragédia em duas grandes enchentes seguidas. Como foi a reação da população, das autoridades (municipais, estadual e federal) e da classe empresarial?

ÂNGELO – A reação da comunidade foi de uma coragem que nos orgulha. Mesmo diante de uma das maiores catástrofes naturais da história do Brasil, com perdas imensuráveis, vimos uma mobilização espontânea para salvar vizinhos, amigos e desconhecidos. As autoridades municipais foram as primeiras a agir, pois estavam na linha de frente. Já os governos estadual e federal se engajaram para dar suporte. No início, com verbas e equipes para o emergencial, para salvar vidas. Depois, com políticas voltadas a recuperação. A tragédia de maio do ano passado foi de grandes proporções, atingiu todo o RS. Só que o Vale do Taquari já tinha sofrido com a enchente de setembro de 2023. Como já tínhamos uma base de enfrentamento, em especial para retomada produtiva das empresas, o nosso trabalho, em termos de organização e de diagnóstico, serviu de referência para outras regiões atingidas no Estado.

 

Silvestre – Sim, e aí veio a enchente de maio de 2024.

ÂNGELO – Justamente, aí veio a de maio do ano passado. A classe empresarial respondeu com responsabilidade e solidariedade. Em poucos dias, a Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari (CIC-VT) (1*) articulou doações que superaram os 6 milhões de Reais, sem que nenhuma das 19 associações sentisse peso extra. Atuamos com agilidade, mas também com critério, respeitando as prioridades e a realidade de cada município.

 

Silvestre – A primeira ação era de emergência: salvar vidas e patrimônio. Como foi organizado?

ÂNGELO – Na emergência, foi a união que fez a diferença. As associações comerciais da região viraram centros logísticos de acolhimento e distribuição de donativos. A CIC-VT concentrou esforços em articular as empresas e entidades que tinham estrutura para ajudar: máquinas, caminhões, alojamentos, alimentos e recursos financeiros. Em paralelo, mantivemos diálogo com os comandos municipais de crise e com os órgãos de segurança pública para garantir que as ajudas fossem eficientes e seguras.

As ações foram bem coordenadas, apesar de toda a dificuldade de logística, de comunicação e de recursos. Recursos humanos e financeiro. A experiência prévia no associativismo voluntário mostrou seu valor: tínhamos redes mais organizadas para se mobilizar. Ainda que não estivéssemos na linha de frente para salvar vidas, pois isso fica a cargo do poder público, buscamos atuar em rede, do mais básico, na coleta de doações, na organização de voluntários. Tínhamos que agir com velocidade e compromisso.

Silvestre – Depois, veio a segunda ação: programar a reconstrução.

ÂNGELO – A reconstrução começou enquanto a água ainda não tinha baixado totalmente. Entendemos que não bastava esperar. Iniciamos com levantamentos técnicos, ouvindo diretamente os setores mais impactados, como indústria, comércio, logística e agricultura. Definimos três prioridades: infraestrutura regional, reativação das atividades produtivas e apoio à mão de obra afetada.

“Na primeira fase, lideramos associações e ajudamos prefeituras para reconstruir dez pontes no interior, reconstruir estradas vicinais, onde as pessoas estavam ilhadas. Sem acesso não há recomeço.” – ÂNGELO FONTANA

 

Silvestre – Como foram os primeiros passos?

ÂNGELO – Criamos grupos de trabalho específicos para dialogar com os governos, levar dados confiáveis e apresentar propostas concretas. Participamos de audiências, entregamos relatórios e fomos presença constante em Porto Alegre e Brasília. A reconstrução não podia ser tratada apenas como obra física. Ela também é social e econômica. Por isso, defendemos linhas de crédito acessíveis, políticas de manutenção de empregos e investimentos estruturantes.

Entre eles, o programa Reconstrói RS, feito pela Federasul, por meio do Instituto Ling (2*) e do Instituto Floresta (3*). Na primeira fase, lideramos associações e ajudamos prefeituras a reconstruir dez pontes no interior. Escolhemos localidades do interior que ficaram ilhadas. Foram quase 10 milhões de Reais em investimento privado, para construção de aberturas de passagens em estradas vicinais, como forma de auxiliar no escoamento da produção agrícola, e na vida das comunidades. Imagina que nem vans escolares podiam passar para levar crianças às escolas.

Silvestre – Como foi feito o inventário da destruição e a prioridade do que deveria e poderia ser reconstruído?

ÂNGELO – Esse trabalho foi coletivo. Os municípios fizeram suas partes com apoio técnico da Defesa Civil e das secretarias estaduais. A Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari se somou ao processo com informações do setor produtivo, ouvindo as empresas e as associações locais. Criamos um mapeamento regional dos impactos, focado em infraestrutura, capacidade produtiva e perdas logísticas. Foi com esses dados que levamos as necessidades reais da região para o governo estadual e federal.

Ângelo Fontana, presidente da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, explica que “o objetivo central é a união de esforços e debater projetos que visem fortalecer a economia da região e melhorar a infraestrutura. Agora estamos em diálogo com o DNIT sobre a construção de uma segunda ponte sobre o rio Taquari”.

 

Silvestre – Houve um planejamento para tocar as obras da reconstrução?

ÂNGELO – A priorização se deu com base em três critérios: impacto econômico, função estratégica para a mobilidade e possibilidade de reativação rápida. A reconstrução das pontes, por exemplo, partiu de um projeto apoiado por doações empresariais, pois sabíamos que sem acesso não há recomeço. O inventário vem sendo atualizado conforme novos dados vão chegando. Aí buscamos as soluções mais viáveis técnicas e políticas.

 

Silvestre – Nesse “mutirão de solidariedade”, quem tomou as decisões? Era um grupo ou um conselho? Como era formado?

ÂNGELO – As decisões foram tomadas de forma colegiada. Criamos um núcleo de gestão emergencial, com representantes das associações empresariais, lideranças locais, membros da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari e, em muitos momentos, com a participação de autoridades municipais. Não houve protagonismo individual — tudo foi pensado em conjunto. A transparência foi uma diretriz. Trabalhamos com prestação de contas pública e ouvindo permanentemente os associados, os prefeitos e os técnicos das áreas de infraestrutura e desenvolvimento. A força da região do Vale está justamente nessa capacidade de trabalhar unido quando mais precisa.

Silvestre – Todo problema coletivo traz desafios e ensinamentos. Qual foi o maior desafio e o maior ensinamento?

ÂNGELO – O maior desafio foi transformar a dor em ação. As cenas que vivemos em setembro, novembro e maio foram duríssimas. Famílias inteiras perderam tudo. Mas não podíamos ficar paralisados. O desafio foi agir rápido, com responsabilidade, e manter o espírito coletivo. Para mim, o maior ensinamento foi entender, mais uma vez, que ninguém faz nada sozinho. A união entre setor produtivo, poder público e sociedade civil precisa deixar de ser eventual e virar permanente. Quando trabalhamos juntos, mostramos a força do Vale do Taquari. A força dos 37 municípios do Vale. Precisamos levar essa união para além das emergências, para o desenvolvimento contínuo da nossa região.

Os 37 municípios do Vale do Taquari no Rio Grande do Sul

“Das dez pontes articuladas pela Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, todas tinham um papel estratégico. A mais difícil foi, sem dúvida, a primeira. Porque envolvia não só logística e recursos, mas também confiança de um começo”. – ÂNGELO FONTANA

 

Silvestre – Qual a relação das obras reconstruídas e qual foi a mais difícil?

ÂNGELO – Têm uma relação direta com a retomada da vida e da economia. Pontes, acessos e estradas são caminhos para o transporte escolar, para o escoamento da produção, para o socorro e para o reencontro das comunidades. Das dez pontes articuladas pela Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, todas tinham um papel estratégico.

A mais difícil foi, sem dúvida, a primeira. Porque envolvia não só logística e recursos, mas também confiança. Era preciso mostrar que o setor empresarial podia liderar ações rápidas e efetivas, em parceria com as prefeituras. Depois da primeira ponte instalada, a credibilidade cresceu e as demais ações ganharam fôlego.

Inauguração, dia 31 de maio de 2025, da 6ª ponte do projeto “Construindo Pontes através do Associativismo”, na localidade de Linha Arroio Grande, no município de Arroio do Meio.

Na inauguração da ponte em Arroio do Meio, as presenças de autoridades locais e lideranças empresariais.

Silvestre – Planos futuros? Obras ainda a serem construídas?

ÂNGELO – Sim. Há muito o que fazer. Ainda temos acessos interditados, redes de abastecimento fragilizadas e estruturas precárias. Nosso foco é trabalhar para garantir que as obras prometidas saiam do papel, com recursos assegurados e cronogramas cumpridos. A Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari está mapeando essas demandas e cobrando providências constantes.

Lideranças da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari visitam o Instituto Ling e apresentam projetos de infraestrutura para 28 municípios. Na foto, da esquerda para a direita: Athos Cordeiro (Reconstrói-RS, Ivandro Carlos Rosa (Federasul), Eng. Luiz Todeschini (CIC-VT fiscalização de obras), Ângelo Fontana (presidente CIC-VT) e Sandra Mascovich (Instituto Ling). Atrás, Ricardo Portela Nunes e Mauro Touguinha Oliveira (ambos Reconstrói-RS). Depois, Adelar Steffler, Sérgio Klein (vice da CIC-VT), Eng. Marcelo Abella (Simon Engenharia), Antonino Schnorr (CIC-VT) e Horácio Joaelson Marins (Associação Cristo Protetor de Encantado).

 

Silvestre – Sim, o trabalho não para, mas cada um tem sua fase.

ÂNGELO – É verdade. São várias fases, e cada uma tem que ser cumprida e bem cumprida. Muito bem-feita! Agora estamos articulando as comunidades para a segunda fase dos projetos do Reconstrói RS. O total do fundo da Federasul é de R$ 40 milhões. Estamos com pelo menos 30 projetos inscritos para receber parte destes recursos.

 

Silvestre – E as obras para evitar novas tragédias?
ÂNGELO
 – Este é um ponto importante. Temos que reconstruir pensando sempre que a chuva vem e volta. Com maior ou menor intensidade. Por isto, primeiro, temos que ter estudos técnicos bem fundamentados. Depois viabilidade econômica. Antes de investir em contenções, proteção de encostas, redimensionamento de barragens e drenagens urbanas, também é preciso preparar a sociedade. Mudar a cultura. O Vale do Taquari sempre sofreu com enchentes. Claro, não na dimensão do que vimos entre 2023 e 2024. Mas precisamos de uma cultura voltada a prevenção. Cada família tem que estar preparada para seu próprio plano de contingência. Prioridade é sempre salvar vidas.

 

Silvestre – Os desafios quando bem enfrentados trazem também ensinamentos, não é?

ÂNGELO – Isso mesmo. A primeira coisa que as inundações nos ensinaram é algo simples, mas forte: temos que respeitar a natureza. Os municípios mais atingidos, estão revendo seus planos diretores. Não podemos permitir construções em áreas alagáveis ou quando há risco de deslizamento. Isso vale para indústrias, comércio e moradias.

 

Silvestre – Existe monitoramento e melhor planejamento?

ÂNGELO – Então, ao mesmo tempo que lutamos pela reconstrução temos que já pensar num melhor ou num conjunto de planejamento. Há necessidade de trabalhar com sensores capazes de antecipar as informações. A partir das tragédias, foram organizados fóruns e comissões multissetoriais e interdisciplinares. Temos especialistas, estudiosos, integrantes das defesas civis, da sociedade civil organizada, que estão construindo nossas estratégias. Tudo passa por previsibilidade, monitoramento e resposta. Isso precisa ficar muito claro para todo mundo.

Silvestre – Objetivamente, já existe projetos engatilhados para serem tocados?

ÂNGELO – Olha, estamos na segunda fase do Projeto ‘Reconstroi- RS’ e já temos, sim, 28 projetos prontos para serem tocados. Eles contemplam solicitações dos 37 municípios que compõem o Vale Taquari. Podem ser divididos em três setores: 1) Pontes em estradas vicinais dos municípios. 2) Restauro e construção de rede pluvial na zona urbana de vários municípios. 3) Muito importante, o trabalho de contenção de encostas.

 

“Nossa missão é a de administrar esses recursos desenvolvendo projetos, preparando orçamentos, fazendo as contratações, controlando a mão de obra, fiscalizando cada etapa e, no final, com transparência total, providenciando a prestação de contas para todos os entes e agentes envolvidos. Importante salientar: a obra pronta e inaugurada é doada integralmente a cada município”. – ÂNGELO FONTANA

 

Silvestre – E os recursos para implementação?
ÂNGELO – Essa é uma parte importante. Temos que viver a realidade de cada projeto. Por hora, os projetos com OK para serem executados remontam recursos na ordem de R$ 25 milhões. De onde vêm os recursos? Está tudo acertado: 70% via Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari como doação e 30% via administrações municipais e da comunidade.

 

Silvestre – Então, a Câmara da Indústria e Comércio recebe 70% do custo da obra.  Como é a operação desses recursos?
ÂNGELO – Isso mesmo. Nossa missão é a de administrar esses recursos desenvolvendo projetos, preparando orçamentos, fazendo as contratações, controlando a mão de obra, fiscalizando cada etapa e, no final, com transparência total, providenciando a prestação de contas para todos os entes e agentes envolvidos. Importante salientar: a obra pronta e inaugurada é doada integralmente a cada município.

 

O Cristo Protetor de Encantado – o maior do Brasil – simboliza a solidariedade e a força da união. O monumento foi erguido pela população da cidade durante pandemia e duas enchentes seguidas. (Foto: Maurício Tonetto)

 

Silvestre – O Cristo Protetor de Encantado foi construído na hora certa para ajudar na reconstrução da cidade pelo empreendedorismo turístico e para aumentar a autoestima do povo. Fale um pouco sobre o Cristo Protetor.

ÂNGELO – O Cristo Protetor é um símbolo. Para Encantado, representa fé, coragem e visão de futuro. Ele foi construído com esforço comunitário, com doações, com trabalho voluntário e isso, por si só, já diz muito sobre o espírito da nossa gente.

Durante o trabalho de salvamento e reconstrução, o Cristo Protetor se tornou um ponto de esperança. Recebemos visitantes, doações e muito apoio. As pessoas olhavam para aquela imagem imponente e se lembravam de que somos capazes de fazer o impossível, orquestrar grandes obras mesmo em tempos difíceis. Além disso, o Cristo Protetor restaura nossa fé e é como um motor, uma luz que ilumina nosso caminho para a reconstrução e para o desenvolvimento. O turismo em Encantado cresceu, novos negócios surgiram, e o município tem uma nova frente de empreendedorismo sendo aberta. O Cristo representa proteção espiritual, mas também um novo caminho de prosperidade para a cidade e para o Vale do Taquari.

 

SAIBA MAIS

 

(1*) A Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari é uma entidade da classe produtiva que foi criada, em 23 de junho de 2024, para unificar e suprir as necessidades de gestão e apoio na reconstrução dos 37 municípios da região. São 19 entidades empresariais filiadas. Existe um portal para destacar e dar visibilidade as potencialidades e o dinamismo econômico e social do Vale do Taquari. < https://cicvaledotaquari.com.br >

 

(2*) – O Instituto Ling foi criado em 1995 pela família Ling, controladora da Évora S.A., com o objetivo de contribuir, de maneira justa e progressiva, na transformação da sociedade brasileira, valorizando a meritocracia, liberdade e solidariedade. < https://institutoling.org.br >

 

(3*) O Instituto Cultural Floresta (ICF) criou ações de solidariedade e apoio à Segurança Pública do RS desde 2016. O ICF nasceu da necessidade premente de apoiar os profissionais da segurança e evoluiu como uma força estratégica para soluções para comunidades e escolas gaúchas.

https://institutoculturalfloresta.org.br/ >

 

 

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Os últimos dias de JK

Perseguição e tensão marcaram os dias antes de sua morte.

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JORGE HENRIQUE CARTAXO
Especial para o Correio

“O presidente JK que trouxe meu pai para construir esta cidade. Eu vim junto com meu pai. JK será eterno porque mudou a minha família, mudou o Brasil, e eu tenho que agradecer aqui ao meu amado presidente. Custe o que custar!”

O pequeno e emocionado discurso do policial militar que rompeu as mãos dadas — para acalentar suas palavras — com as mais de duas dezenas de companheiros que cercavam, em proteção, o túmulo ainda aberto de Juscelino Kubitschek no Campo da Esperança foi a última e inesperada saudação ao fundador de Brasília antes que o corpo do grande estadista fosse guardado e entregue ao silêncio eterno, no longínquo 23 de agosto de 1976. A noite escura abraçava o cemitério de Brasília apinhado de candangos que, numa algaravia comovente, entre a tristeza, a revolta e a saudade, pranteavam o último adeus a JK. Todos seguiam as luzes difusas das câmeras de TV que se dirigiam ao jazigo, em busca do último registro da lamentável e indesejada cena histórica.

O jornalista Silvestre Gorgulho, à época assessor do então ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli, estava na Catedral de Brasília naquela tarde melancólica, quando o esquife com o corpo de JK deixou o nosso primeiro templo e seria acondicionado sobre um carro do Corpo de Bombeiros. Num átimo, os candangos em multidão — cerca de 300 mil — apoderaram-se do corpo de Juscelino e o levaram de mão em mão, de braço em braço, de ombro em ombro, até o cemitério. Nos longos oito quilômetros que separam a Catedral do Campo da Esperança, parte percorrida pela Esplanada e parte pela W3 Sul, os candangos cantaram Peixe Vivo — a música preferida de JK — e o Hino Nacional, clamaram por Juscelino, silenciaram em preces e espargiram lágrimas de saudades e dor.

“Não houve honras oficiais, nem salões ou palácios da cidade que ele fez construir. Apenas a casa de Deus, as ruas e as orações candangas”, lembra Silvestre Gorgulho, que acompanhou o cortejo da Catedral até o Campo da Esperança e presenciou toda a cerimônia. Essas cenas estão contadas, com vantagens, no livro De Casaca e Chuteiras — A Era dos Grandes Dribles na Política, Cultura e História / 1956 — 1977 / Brasília-JK-Pelé, um brinde de Gorgulho a Brasília.

Primeiro recado

No dia 17 de fevereiro de 1976, o jornalista Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, fez uma visita ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, no Rio de Janeiro. “Juscelino, trago um recado do Armando. Militares pretendem coisas dramáticas contra a sua vida”, teria dito Roberto Marinho a um apreensivo, mas sempre sereno JK. Armando Falcão, então ministro da Justiça do governo Geisel, havia sido também ministro da Justiça entre 1956 e a inauguração de Brasília, em 1960. Na foto clássica de JK com Jango e Israel Pinheiro entrando no Palácio do Planalto no final da tarde daquele histórico 21 de abril de 1960, igualmente de casaca, ao lado de Jango, estava lá ele, Armando Falcão.

No sábado, 7 de agosto daquele mesmo ano, uma “notícia” se espalharia pelo país: Juscelino teria morrido num acidente automobilístico na estrada Rio-São Paulo. A imprensa se mobilizou. Dona Sarah foi procurada no Rio. Recluso na sua Fazendinha, em Luziânia, Juscelino foi surpreendido pela visita de uma dezena de fotógrafos e jornalistas movidos pela pauta tenebrosa e, de certo modo, premonitória. Apreensiva, Vera Brant se deslocou de Brasília até Luziânia para conversar com JK. “Juscelino, acho que jogaram esse alarme falso para avaliar que tipo de emoção causaria no país a sua morte. Cuidado, que vão te matar”, vaticinou Vera ao abraçar o amigo ainda perplexo com o vasto ruído.

O desmentido viria na noite do dia seguinte, no programa Fantástico, da TV Globo. A vontade de tirar a vida de JK não era nova na ditadura militar. Em junho de 1968, um grande atentado foi abortado no país. O caso Para-Sar (tropa especial de elite da Aeronáutica especializada em busca, salvamento e operações especiais) foi um plano arquitetado pelo então brigadeiro João Paulo Burnier. As vítimas finais seriam os principais líderes civis do país perseguidos pelo golpe de 1964: Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Dom Hélder Câmara e mais 40 militantes da oposição. Jango estava no exílio.

A primeira fase da operação terrorista consistia em realizar uma série de atentados a bomba tendo como alvo empresas norte-americanas, como o Citibank e a Sears, além da explosão de um gasômetro na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro. Os crimes seriam atribuídos aos movimentos de esquerda. Estabelecido o caos, os líderes civis seriam sequestrados e mortos. O capitão Sérgio Miranda de Carvalho (um cavalheiro conhecido pela tropa como Sérgio Macaco), convocado para coordenar a operação terrorista, recusou-se a praticar os atos ilegais e denunciou o horror aos seus superiores. A violência pública proposta por Burnier mergulharia nos porões — tortura, sequestros e mortes — com o AI-5, em dezembro de 1968.

Em janeiro de 1971, o assassinato do ex-deputado federal Rubens Paiva no DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, sinalizou a fase do terror da ditadura militar. Somente em 1974, com a vitória do MDB nas eleições gerais de novembro, os limites do autoritarismo assumiriam contornos mais visíveis. É bem verdade que, em agosto de 1974 — cinco meses após a sua posse como presidente da República, em março —, o general Ernesto Geisel, num encontro com os dirigentes da Arena — partido político que dava sustentação simbólica e congressual à ditadura —, anunciou a famosa proposta de distensão política, por ele chamada de “lenta, gradual e segura”.

Como a história republicana assinala, os quartéis nunca foram exatamente harmônicos, disciplinados, amigos das leis e da legitimidade. No dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi torturado e morto nas dependências do II Exército de São Paulo, que abrigava o temido DOI-CODI. Herzog havia se apresentado voluntariamente ao general Eduardo D’Ávila Mello no dia 24 daquele mesmo outubro. Em janeiro de 1976, três meses após a morte de Vladimir Herzog, no mesmo II Exército, ainda sob o comando do general D’Ávila, seria morto o operário e sindicalista Manoel Fiel Filho.

Os dois assassinatos atingiram em cheio o governo militar e desafiaram frontalmente o presidente Geisel. O general D’Ávila foi demitido três dias após a morte de Fiel Filho. Na madrugada do dia 14 de abril de 1976, a famosa estilista Zuzu Angel foi esmagada, dentro do próprio carro, na saída do Túnel Dois Irmãos, em São Conrado, no Rio. Zuzu lutava desesperadamente pelo paradeiro de seu filho, Stuart Angel, preso, torturado e morto pela ditadura em 1971.

No dia 19 de agosto de 1976, uma bomba explodiu na sede da ABI e outro artefato foi desativado na sede da OAB, ambas no Rio. Ainda em 1976, JK seria morto no dia 22 de agosto; o ex-presidente João Goulart morreria em dezembro, também num rastro de suspeitas de atentado. Em maio de 1977 seria a vez de Carlos Lacerda, também em um cenário igualmente suspeito. No dia 12 de outubro de 1977, o presidente Geisel demitiu o então ministro do Exército, general Silvio Frota, um inimigo militante da abertura política e candidato, já em campanha, à sucessão de Geisel. Tornava-se pública a grave crise militar que abalava a ditadura, além da expressiva derrota nas eleições de 1974.

A partir daí, o terror se acentuaria. Dois atentados marcaram a época e se espalham pelo mundo. Em 27 de agosto de 1980, uma carta-bomba explodiu nas mãos da secretária da presidência da OAB, Lyda Monteiro, no Rio, ceifando-lhe a vida. Na noite do dia 30 de abril de 1981, no estacionamento do Centro de Convenções Riocentro, uma bomba explodiu no colo do sargento do Exército Guilherme do Rosário, matando-o, e deixou gravemente ferido o então capitão do Exército Wilson Dias Machado. Naquela noite, Chico Buarque, Gal Costa, Clara Nunes, Gonzaguinha, Elba Ramalho, Alceu Valença, Beth Carvalho, Moraes Moreira e João Bosco estavam se apresentando para 20 mil pessoas que lotavam o Riocentro. Um “acidente de trabalho” impediu que a tragédia se consumasse. Entre 1978 e 1983, de acordo com relatórios oficiais, a extrema-direita praticou mais de 187 ataques terroristas. Os alvos mais evidentes eram as redações de jornais, as bancas de revistas que vendiam publicações da oposição e as instituições — OAB, ABI… — que se mobilizavam pela redemocratização do país.

Retomando a cena política

Na manhã do dia 20 de agosto de 1976, uma sexta-feira, o ex-presidente Juscelino Kubitschek embarcou num avião da Vasp em Brasília com destino a São Paulo. Estavam no aeroporto e no mesmo voo o então senador José Sarney e sua esposa Marly, o ex-senador Franco Montoro e o ex-deputado federal Ulysses Guimarães. O mau tempo em Congonhas obrigou o desvio da aeronave para Viracopos, em Campinas. Durante toda a viagem, Ulysses, Montoro e JK conversaram sobre a conjuntura política do país, que se redesenhava velozmente depois da vitória do MDB nas eleições de 1974. “Hoje está cada vez mais clara a necessidade de normalização da ordem pública. Isso é um desejo de todo o povo brasileiro, à exceção de uns poucos radicais de direita e de esquerda”, disse JK a Ulysses Guimarães em um certo momento daquele último encontro.

Os atentados a bomba que haviam ocorrido na véspera também foram objeto da conversa entre eles. “Tenho sentido uma inquietação crescente nos meios econômicos e bancários com os quais tenho conversado nos últimos tempos”, revelou ainda JK aos dois notáveis interlocutores. O voo inicia o seu procedimento de pouso em Viracopos, naquele final de uma manhã diluviana em São Paulo. Apesar dos temas delicados do diálogo com Ulysses e Montoro, JK não escondia o seu contentamento com a recente retomada da cena pública. No aeroporto havia dado autógrafos. Na decolagem em Brasília, tão logo o avião alcançou a estabilidade dos 10 mil pés, a voz do comandante Sérgio informou: “Tenho o prazer de anunciar que está a bordo o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira”. Os passageiros entoaram aplausos, sinalizando empatia e acolhimento.

Jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne.

Legenda da foto: “Mais de 300 mil pessoas foram dar o último adeus a JK em agosto de 1976.”

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SEBASTIÃO NERY

SAUDADES

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Vi hoje um video produzido pela Câmara Municipal de Jaguaquara-BA, terra natal do Tião Nery, que me trouxe lembranças queridas e uma saudade imensa do meu amigo.
Como eu gostava de viajar nos livros, nas palavras e nos causos do NERY. Sobretudo na companhia dele e da Bia. Ainda bem que viajamos muito por este mundo a fora. Até nas montanhas dos Pintos Negreiros, lá perto de São Lourenço, um distrito de Maria da Fé (na Mantiqueira) nós formos. Rodamos a Amazônia, Chapada dos Veadeiros, Líbia, Marvão, a Europa, Líbia, França e Bahia… Fomos juntos, pelo menos, quatro vezes ao Pantanal.
Ganhamos um PRÊMIO ESSO juntos… Uma história fantástica que ocupa cinco páginas (pag.414) de seu livro “A NUVEM – 50 Anos de História do Brasil”.
Mas vamos ao vídeo, um bom resumo da vida desse `Guerrilheiro das palavras`.
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EMILIANO PEREIRA BOTELHO

(1948-2026)

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O Brasil perdeu ontem à noite (11/08) um cidadão empreendedor, dedicado e que deixa um legado incomensurável para a agricultura tropical: EMILIANO PEREIRA BOTELHO.
Paracatu perdeu um filho ilustre e eu perdi um amigo, inclusive, que escreveu a abertura do meu livro “DE CASACA E CHUTEIRAS – JK-BRASÍLIA-PELÉ – A Era dos Grandes dribles na Política, Cultura e História”.
Nesse livro, Emiliano, como presidente da CAMPO – Companhia de Promoção Agrícola, escreveu sobre o Planalto Central e a história da revolução verde-amerela do Cerrado, focando na chegada dos japoneses das famílias Kanegae, Hayakawa, Ogawa, Ikeda e Okudi para desbravar a região do Distrito Federal.
Como jogador de futebol, amante da boa música e torcedor do Cruzeiro, EMILIANO BOTELHO tinha seu lado alegre e festeiro. Como profissional da agropecuária, deixa uma história de empreendedorismo: logo depois de ser o superintendente e, depois, presidente da Cooperativa Agropecuária do Vale do Paracatu, a Coopervap, presidiu por mais de 30 anos a CAMPO – Companhia de Promoção Agrícola, ligada ao Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento dos Cerrados, o Prodecer.
FOTOS
1) Emiliano Botelho quando foi homenageado pela Casa de Cultura e pela Prefeitura Municipal de Paracatu como Personalidade que fez e faz diferença na região.
2) Emiliano, o Ministro Alysson Paolinelli e o primeiro presidente da CAMPO, Paulo Afonso Romano.
3) Emiliano e sua paixão pelo Cruzeiro, que hoje no jogo com o Flamengo bem podia fazer um minuto de silêncio em sua Memória.
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