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Solidariedade e cidadania na reconstrução da região do vale do Taquari-RS

São muitas as provações que a população das regiões do Vale do Taquari e de Porto Alegre vêm sofrendo

 

São muitas as provações que a população das regiões do Vale do Taquari e de Porto Alegre vêm sofrendo. As chuvas de junho deixaram os gaúchos em alerta máxima. Aos primeiros pingos, reacende a agonia das últimas tragédias. E, agora, com um agravante: o frio muito intenso. Hoje, mais preparados e atentos ao clima, empresários e autoridades acompanham a evolução das chuvas sem interromper os trabalhos de reconstrução. O empresário Ângelo Fontana, de Encantado-RS, presidente da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, em entrevista à Folha do Meio, fala sobre o esforço para a recuperação da infraestrutura e mostra a importância da convergência entre a cidadania e a solidariedade.

 

A vida é uma professora severa. Primeiro aplica a prova, depois ensina a lição. As lições podem ser várias. Uma delas é fundamental para o bem-viver e o conviver: a solidariedade. Solidariedade é mais do que uma lição. É um ato de amor e um desafio humanitário. É onde o socorro, o apoio, a assistência e a doação começam por onde não se espera nada em troca. Contagia e se deixa contagiar. Toda tragédia traz reflexões e ações sobre como lidar com o desespero, com a aflição, com as perdas e a agonia. Essa entrevista com o empresário Ângelo Fontana, de Encantado-RS, presidente da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, mostra a importância da convergência entre a cidadania e a solidariedade. Fontana explica como foi construída essa solidariedade nas trágicas enchentes do Rio Grande do Sul e como as lideranças empresariais e políticas da região se deram as mãos para se fortalecerem diante dos alertas, das buscas de soluções imediatas e permanentes, para os restauros e a reconstrução da autoestima e da infraestrutura da região.

 

SOLIDARIEDADE É REVIVER

TRAJETÓRIA DOS PRIMEIROS IMIGRANTES.

 

Inauguração da Ponte de Ilópolis, dia 17 de maio, uma das 10 pontes em construção: “Estamos revivendo o espírito de colaboração que marcou a trajetória dos nossos imigrantes, que juntos ergueram escolas e igrejas. Se dependêssemos exclusivamente do poder público, essas pontes – como essa de Ilópolis – levariam muito mais tempo para se tornar realidade.” ADELAR STEFFLER, vice-presidente da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari e presidente da Cooperativa Vale Log.

 

Não foi a primeira e não será a última vez que uma grande tragédia se abate sobre uma região brasileira. O importante é fazer da solidariedade e do enfrentamento de cada desafio uma nova visão sobre como lidar com esses momentos de sofrimento para abrandar as dores, prevenir e mitigar os riscos.  Em maio de 2024, foi sobre o Rio Grande do Sul. O estado teve 96% do território atingido, 2,3 milhões de pessoas afetadas, 183 óbitos e prejuízos estimados em quase R$ 90 bilhões. Mas antes, tragédias de grande porte massacraram outros estados. Em 1983 e em 1984, Santa Catarina, especificamente o Vale do Itajaí, foi atingido por enchentes de grandes proporções. Em janeiro de 2000, ocorreu o vazamento de petróleo da Petrobras que despejou na Baia de Guanabara mais de 1,3 milhões de litros de óleo. Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de rejeitos de minério, em Mariana, quando 39 milhões de metros cúbicos de rejeitos escoaram por 663km pela bacia do Rio Doce. E, três anos depois, em janeiro de 2019, outro terrível acidente industrial e humanitário: o rompimento de barragem em Brumadinho, que causou a morte de 272 pessoas.

ÂNGELO FONTANA – ENTREVISTA

 Ângelo César Fontana completa 65 anos dia 21 deste mês. Natural de Encantado, é casado com Sônia Martini e pai de dois filhos: Gabriela e Eduardo. Graduado em Administração de Empresas, Ângelo é sócio proprietário da Fontana S/A, de Encantado, e atual presidente da Associação Comercial e Industrial do município. Pela primeira vez dirige uma entidade regional. Com uma extensa trajetória no associativismo voluntário, Ângelo Fontana – como toda sua família – se engajou de corpo e alma na luta pela reconstrução de todo o Vale do Taquari depois de duas enchentes seguidas. Ele tem muito a dizer porque sabe que o desafio é grande e que tem um longo trabalho pela frente.

 

SILVESTRE – As chuvas, agora, do final de junho vieram com um agravante: muito frio. Diferente das quatro enchentes anteriores de 2023 e 2024. O Vale do Taquari suporta mais este desafio e está preparado para os próximos?

ANGELO FONTANA – Olha, as chuvas de junho trouxeram transtornos, mas sem grandes estragos. O nível dos rios subiu, mas ainda está sob controle. A verdade é que estamos melhor preparados para enfrentar as adversidades climáticas. Porém, muita coisa, ainda, deve ser feita como: construção de residências fora área inundação, mobilidade e infraestrutura viária, rede pluvial, retenção de encostas e desassoreamento dos rios. Uma coisa chama a atenção. Temos um apagão de oferta de mão de obra. Há enorme oferta de empregos, porém há falta de candidatos. Motivos? O elevado assistencialismo governamental, a falta de mão de obra especializada e até a falta de interesse dos jovens em frequentar cursos profissionalizantes.

 

Silvestre – Uma grande tragédia em duas grandes enchentes seguidas. Como foi a reação da população, das autoridades (municipais, estadual e federal) e da classe empresarial?

ÂNGELO – A reação da comunidade foi de uma coragem que nos orgulha. Mesmo diante de uma das maiores catástrofes naturais da história do Brasil, com perdas imensuráveis, vimos uma mobilização espontânea para salvar vizinhos, amigos e desconhecidos. As autoridades municipais foram as primeiras a agir, pois estavam na linha de frente. Já os governos estadual e federal se engajaram para dar suporte. No início, com verbas e equipes para o emergencial, para salvar vidas. Depois, com políticas voltadas a recuperação. A tragédia de maio do ano passado foi de grandes proporções, atingiu todo o RS. Só que o Vale do Taquari já tinha sofrido com a enchente de setembro de 2023. Como já tínhamos uma base de enfrentamento, em especial para retomada produtiva das empresas, o nosso trabalho, em termos de organização e de diagnóstico, serviu de referência para outras regiões atingidas no Estado.

 

Silvestre – Sim, e aí veio a enchente de maio de 2024.

ÂNGELO – Justamente, aí veio a de maio do ano passado. A classe empresarial respondeu com responsabilidade e solidariedade. Em poucos dias, a Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari (CIC-VT) (1*) articulou doações que superaram os 6 milhões de Reais, sem que nenhuma das 19 associações sentisse peso extra. Atuamos com agilidade, mas também com critério, respeitando as prioridades e a realidade de cada município.

 

Silvestre – A primeira ação era de emergência: salvar vidas e patrimônio. Como foi organizado?

ÂNGELO – Na emergência, foi a união que fez a diferença. As associações comerciais da região viraram centros logísticos de acolhimento e distribuição de donativos. A CIC-VT concentrou esforços em articular as empresas e entidades que tinham estrutura para ajudar: máquinas, caminhões, alojamentos, alimentos e recursos financeiros. Em paralelo, mantivemos diálogo com os comandos municipais de crise e com os órgãos de segurança pública para garantir que as ajudas fossem eficientes e seguras.

As ações foram bem coordenadas, apesar de toda a dificuldade de logística, de comunicação e de recursos. Recursos humanos e financeiro. A experiência prévia no associativismo voluntário mostrou seu valor: tínhamos redes mais organizadas para se mobilizar. Ainda que não estivéssemos na linha de frente para salvar vidas, pois isso fica a cargo do poder público, buscamos atuar em rede, do mais básico, na coleta de doações, na organização de voluntários. Tínhamos que agir com velocidade e compromisso.

Silvestre – Depois, veio a segunda ação: programar a reconstrução.

ÂNGELO – A reconstrução começou enquanto a água ainda não tinha baixado totalmente. Entendemos que não bastava esperar. Iniciamos com levantamentos técnicos, ouvindo diretamente os setores mais impactados, como indústria, comércio, logística e agricultura. Definimos três prioridades: infraestrutura regional, reativação das atividades produtivas e apoio à mão de obra afetada.

“Na primeira fase, lideramos associações e ajudamos prefeituras para reconstruir dez pontes no interior, reconstruir estradas vicinais, onde as pessoas estavam ilhadas. Sem acesso não há recomeço.” – ÂNGELO FONTANA

 

Silvestre – Como foram os primeiros passos?

ÂNGELO – Criamos grupos de trabalho específicos para dialogar com os governos, levar dados confiáveis e apresentar propostas concretas. Participamos de audiências, entregamos relatórios e fomos presença constante em Porto Alegre e Brasília. A reconstrução não podia ser tratada apenas como obra física. Ela também é social e econômica. Por isso, defendemos linhas de crédito acessíveis, políticas de manutenção de empregos e investimentos estruturantes.

Entre eles, o programa Reconstrói RS, feito pela Federasul, por meio do Instituto Ling (2*) e do Instituto Floresta (3*). Na primeira fase, lideramos associações e ajudamos prefeituras a reconstruir dez pontes no interior. Escolhemos localidades do interior que ficaram ilhadas. Foram quase 10 milhões de Reais em investimento privado, para construção de aberturas de passagens em estradas vicinais, como forma de auxiliar no escoamento da produção agrícola, e na vida das comunidades. Imagina que nem vans escolares podiam passar para levar crianças às escolas.

Silvestre – Como foi feito o inventário da destruição e a prioridade do que deveria e poderia ser reconstruído?

ÂNGELO – Esse trabalho foi coletivo. Os municípios fizeram suas partes com apoio técnico da Defesa Civil e das secretarias estaduais. A Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari se somou ao processo com informações do setor produtivo, ouvindo as empresas e as associações locais. Criamos um mapeamento regional dos impactos, focado em infraestrutura, capacidade produtiva e perdas logísticas. Foi com esses dados que levamos as necessidades reais da região para o governo estadual e federal.

Ângelo Fontana, presidente da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, explica que “o objetivo central é a união de esforços e debater projetos que visem fortalecer a economia da região e melhorar a infraestrutura. Agora estamos em diálogo com o DNIT sobre a construção de uma segunda ponte sobre o rio Taquari”.

 

Silvestre – Houve um planejamento para tocar as obras da reconstrução?

ÂNGELO – A priorização se deu com base em três critérios: impacto econômico, função estratégica para a mobilidade e possibilidade de reativação rápida. A reconstrução das pontes, por exemplo, partiu de um projeto apoiado por doações empresariais, pois sabíamos que sem acesso não há recomeço. O inventário vem sendo atualizado conforme novos dados vão chegando. Aí buscamos as soluções mais viáveis técnicas e políticas.

 

Silvestre – Nesse “mutirão de solidariedade”, quem tomou as decisões? Era um grupo ou um conselho? Como era formado?

ÂNGELO – As decisões foram tomadas de forma colegiada. Criamos um núcleo de gestão emergencial, com representantes das associações empresariais, lideranças locais, membros da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari e, em muitos momentos, com a participação de autoridades municipais. Não houve protagonismo individual — tudo foi pensado em conjunto. A transparência foi uma diretriz. Trabalhamos com prestação de contas pública e ouvindo permanentemente os associados, os prefeitos e os técnicos das áreas de infraestrutura e desenvolvimento. A força da região do Vale está justamente nessa capacidade de trabalhar unido quando mais precisa.

Silvestre – Todo problema coletivo traz desafios e ensinamentos. Qual foi o maior desafio e o maior ensinamento?

ÂNGELO – O maior desafio foi transformar a dor em ação. As cenas que vivemos em setembro, novembro e maio foram duríssimas. Famílias inteiras perderam tudo. Mas não podíamos ficar paralisados. O desafio foi agir rápido, com responsabilidade, e manter o espírito coletivo. Para mim, o maior ensinamento foi entender, mais uma vez, que ninguém faz nada sozinho. A união entre setor produtivo, poder público e sociedade civil precisa deixar de ser eventual e virar permanente. Quando trabalhamos juntos, mostramos a força do Vale do Taquari. A força dos 37 municípios do Vale. Precisamos levar essa união para além das emergências, para o desenvolvimento contínuo da nossa região.

Os 37 municípios do Vale do Taquari no Rio Grande do Sul

“Das dez pontes articuladas pela Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, todas tinham um papel estratégico. A mais difícil foi, sem dúvida, a primeira. Porque envolvia não só logística e recursos, mas também confiança de um começo”. – ÂNGELO FONTANA

 

Silvestre – Qual a relação das obras reconstruídas e qual foi a mais difícil?

ÂNGELO – Têm uma relação direta com a retomada da vida e da economia. Pontes, acessos e estradas são caminhos para o transporte escolar, para o escoamento da produção, para o socorro e para o reencontro das comunidades. Das dez pontes articuladas pela Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari, todas tinham um papel estratégico.

A mais difícil foi, sem dúvida, a primeira. Porque envolvia não só logística e recursos, mas também confiança. Era preciso mostrar que o setor empresarial podia liderar ações rápidas e efetivas, em parceria com as prefeituras. Depois da primeira ponte instalada, a credibilidade cresceu e as demais ações ganharam fôlego.

Inauguração, dia 31 de maio de 2025, da 6ª ponte do projeto “Construindo Pontes através do Associativismo”, na localidade de Linha Arroio Grande, no município de Arroio do Meio.

Na inauguração da ponte em Arroio do Meio, as presenças de autoridades locais e lideranças empresariais.

Silvestre – Planos futuros? Obras ainda a serem construídas?

ÂNGELO – Sim. Há muito o que fazer. Ainda temos acessos interditados, redes de abastecimento fragilizadas e estruturas precárias. Nosso foco é trabalhar para garantir que as obras prometidas saiam do papel, com recursos assegurados e cronogramas cumpridos. A Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari está mapeando essas demandas e cobrando providências constantes.

Lideranças da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari visitam o Instituto Ling e apresentam projetos de infraestrutura para 28 municípios. Na foto, da esquerda para a direita: Athos Cordeiro (Reconstrói-RS, Ivandro Carlos Rosa (Federasul), Eng. Luiz Todeschini (CIC-VT fiscalização de obras), Ângelo Fontana (presidente CIC-VT) e Sandra Mascovich (Instituto Ling). Atrás, Ricardo Portela Nunes e Mauro Touguinha Oliveira (ambos Reconstrói-RS). Depois, Adelar Steffler, Sérgio Klein (vice da CIC-VT), Eng. Marcelo Abella (Simon Engenharia), Antonino Schnorr (CIC-VT) e Horácio Joaelson Marins (Associação Cristo Protetor de Encantado).

 

Silvestre – Sim, o trabalho não para, mas cada um tem sua fase.

ÂNGELO – É verdade. São várias fases, e cada uma tem que ser cumprida e bem cumprida. Muito bem-feita! Agora estamos articulando as comunidades para a segunda fase dos projetos do Reconstrói RS. O total do fundo da Federasul é de R$ 40 milhões. Estamos com pelo menos 30 projetos inscritos para receber parte destes recursos.

 

Silvestre – E as obras para evitar novas tragédias?
ÂNGELO
 – Este é um ponto importante. Temos que reconstruir pensando sempre que a chuva vem e volta. Com maior ou menor intensidade. Por isto, primeiro, temos que ter estudos técnicos bem fundamentados. Depois viabilidade econômica. Antes de investir em contenções, proteção de encostas, redimensionamento de barragens e drenagens urbanas, também é preciso preparar a sociedade. Mudar a cultura. O Vale do Taquari sempre sofreu com enchentes. Claro, não na dimensão do que vimos entre 2023 e 2024. Mas precisamos de uma cultura voltada a prevenção. Cada família tem que estar preparada para seu próprio plano de contingência. Prioridade é sempre salvar vidas.

 

Silvestre – Os desafios quando bem enfrentados trazem também ensinamentos, não é?

ÂNGELO – Isso mesmo. A primeira coisa que as inundações nos ensinaram é algo simples, mas forte: temos que respeitar a natureza. Os municípios mais atingidos, estão revendo seus planos diretores. Não podemos permitir construções em áreas alagáveis ou quando há risco de deslizamento. Isso vale para indústrias, comércio e moradias.

 

Silvestre – Existe monitoramento e melhor planejamento?

ÂNGELO – Então, ao mesmo tempo que lutamos pela reconstrução temos que já pensar num melhor ou num conjunto de planejamento. Há necessidade de trabalhar com sensores capazes de antecipar as informações. A partir das tragédias, foram organizados fóruns e comissões multissetoriais e interdisciplinares. Temos especialistas, estudiosos, integrantes das defesas civis, da sociedade civil organizada, que estão construindo nossas estratégias. Tudo passa por previsibilidade, monitoramento e resposta. Isso precisa ficar muito claro para todo mundo.

Silvestre – Objetivamente, já existe projetos engatilhados para serem tocados?

ÂNGELO – Olha, estamos na segunda fase do Projeto ‘Reconstroi- RS’ e já temos, sim, 28 projetos prontos para serem tocados. Eles contemplam solicitações dos 37 municípios que compõem o Vale Taquari. Podem ser divididos em três setores: 1) Pontes em estradas vicinais dos municípios. 2) Restauro e construção de rede pluvial na zona urbana de vários municípios. 3) Muito importante, o trabalho de contenção de encostas.

 

“Nossa missão é a de administrar esses recursos desenvolvendo projetos, preparando orçamentos, fazendo as contratações, controlando a mão de obra, fiscalizando cada etapa e, no final, com transparência total, providenciando a prestação de contas para todos os entes e agentes envolvidos. Importante salientar: a obra pronta e inaugurada é doada integralmente a cada município”. – ÂNGELO FONTANA

 

Silvestre – E os recursos para implementação?
ÂNGELO – Essa é uma parte importante. Temos que viver a realidade de cada projeto. Por hora, os projetos com OK para serem executados remontam recursos na ordem de R$ 25 milhões. De onde vêm os recursos? Está tudo acertado: 70% via Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari como doação e 30% via administrações municipais e da comunidade.

 

Silvestre – Então, a Câmara da Indústria e Comércio recebe 70% do custo da obra.  Como é a operação desses recursos?
ÂNGELO – Isso mesmo. Nossa missão é a de administrar esses recursos desenvolvendo projetos, preparando orçamentos, fazendo as contratações, controlando a mão de obra, fiscalizando cada etapa e, no final, com transparência total, providenciando a prestação de contas para todos os entes e agentes envolvidos. Importante salientar: a obra pronta e inaugurada é doada integralmente a cada município.

 

O Cristo Protetor de Encantado – o maior do Brasil – simboliza a solidariedade e a força da união. O monumento foi erguido pela população da cidade durante pandemia e duas enchentes seguidas. (Foto: Maurício Tonetto)

 

Silvestre – O Cristo Protetor de Encantado foi construído na hora certa para ajudar na reconstrução da cidade pelo empreendedorismo turístico e para aumentar a autoestima do povo. Fale um pouco sobre o Cristo Protetor.

ÂNGELO – O Cristo Protetor é um símbolo. Para Encantado, representa fé, coragem e visão de futuro. Ele foi construído com esforço comunitário, com doações, com trabalho voluntário e isso, por si só, já diz muito sobre o espírito da nossa gente.

Durante o trabalho de salvamento e reconstrução, o Cristo Protetor se tornou um ponto de esperança. Recebemos visitantes, doações e muito apoio. As pessoas olhavam para aquela imagem imponente e se lembravam de que somos capazes de fazer o impossível, orquestrar grandes obras mesmo em tempos difíceis. Além disso, o Cristo Protetor restaura nossa fé e é como um motor, uma luz que ilumina nosso caminho para a reconstrução e para o desenvolvimento. O turismo em Encantado cresceu, novos negócios surgiram, e o município tem uma nova frente de empreendedorismo sendo aberta. O Cristo representa proteção espiritual, mas também um novo caminho de prosperidade para a cidade e para o Vale do Taquari.

 

SAIBA MAIS

 

(1*) A Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari é uma entidade da classe produtiva que foi criada, em 23 de junho de 2024, para unificar e suprir as necessidades de gestão e apoio na reconstrução dos 37 municípios da região. São 19 entidades empresariais filiadas. Existe um portal para destacar e dar visibilidade as potencialidades e o dinamismo econômico e social do Vale do Taquari. < https://cicvaledotaquari.com.br >

 

(2*) – O Instituto Ling foi criado em 1995 pela família Ling, controladora da Évora S.A., com o objetivo de contribuir, de maneira justa e progressiva, na transformação da sociedade brasileira, valorizando a meritocracia, liberdade e solidariedade. < https://institutoling.org.br >

 

(3*) O Instituto Cultural Floresta (ICF) criou ações de solidariedade e apoio à Segurança Pública do RS desde 2016. O ICF nasceu da necessidade premente de apoiar os profissionais da segurança e evoluiu como uma força estratégica para soluções para comunidades e escolas gaúchas.

https://institutoculturalfloresta.org.br/ >

 

 

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JOSÉ TRUDA PALAZZO JR. – ENTREVISTA

ALBARDÃO: um território estratégico para equilíbrio do clima, da biodiversidade marinha e das espécies de aves migratórias.

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PARQUE NACIONAL MARINHO DO ALBARDÃO

Silvestre Gorgulho

Albardão é albarda grande. Geograficamente é uma Cadeia de coxilhas e baixadas ao longo de cursos de água. Pode ser uma depressão na lombada de um monte ou simplesmente uma faixa de terra elevada e longa, à beira de rios ou lagunas. Mas o Parque Nacional Marinho do Albardão é tudo isso e muito mais: o Albardão é um verdadeiro berçário marinho, essencial para a reprodução de espécies, a manutenção da biodiversidade e a sustentabilidade da pesca. Fechando a reportagem, uma entrevista exclusiva com José Truda Palazzo Jr., Coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte e o maior defensor do Parque Nacional Marinho do Albardão.

O Albardão, uma área marinha de inestimável riqueza em nutrientes, acaba de se tornar o maior parque nacional marinho costeiro do País, com 1.004.480 hectares. Fica no extremo sul do Brasil, onde a praia parece não ter fim e o vento modela dunas que avançam como organismos vivos. É uma região tão isolada que, por décadas, quase não entrou nos mapas do debate ambiental. (foto: Pablo Bech/NEMA)

Criado pelo decreto n. 12.868, no dia 6 de marco deste ano, o Parque Nacional do Albardão e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão têm como objetivo proteger a biodiversidade e contribuir para a manutenção dos estoques pesqueiros do Atlântico Sul.

O Parque Nacional é uma unidade de conservação de proteção integral, na qual não são permitidas atividades que envolvam a extração de recursos naturais, tais como a pesca. Já a APA, uma categoria de uso sustentável, permite que atividades econômicas sejam desenvolvidas de forma sustentável, entre elas a pesca.

Além do Parque e da APA, o decreto também traz a delimitação de uma zona de amortecimento para o Parque Nacional, com o objetivo principal de, após a elaboração do plano de manejo, ordenar atividades que possam gerar impactos no parque.

O Farol do Albardão foi construído em 1909 devido ao excesso de naufrágios na região. Muitos perderam a vida por falta de conhecimento de rota. A torre atual é de 1948 e possui 44 metros de altura. O farol está localizado na maior praia do mundo, entre a praia do Cassino e Hermenegildo, uma faixa de areia deserta e extensa, que vai do Rio Grande até a fronteira com o Uruguai. Um local praticamente virgem que faz parte da história dos Campos Neutrais.

Segundo Ivan Carlos Maglio, Engenheiro civil e estudioso dos mares, a importância do Albardão não se limita à proteção de espécies emblemáticas como baleias, golfinhos e tartarugas. Sua função é estrutural: trata-se de uma área-chave para a dinâmica ecológica do oceano. “Ecossistemas como esse operam como reguladores naturais — sustentam cadeias alimentares, recuperam estoques pesqueiros e contribuem para a estabilidade climática. Em um contexto de mudanças climáticas e colapso da biodiversidade, essas áreas deixam de ser “reservas” e passam a ser infraestruturas ecológicas críticas”, salienta Ivan Maglio.

O boto-de-Lahille (Tursiops gephyreus) que é endêmico no Atlântico Sul Ocidental. Ele está presente em águas costeiras próximas à zona de arrebentação em baías, estuários e lagoas no Sul do Brasil, no Uruguai e Argentina. Estima-se que existam apenas 600 indivíduos.

A toninha é uma espécie de golfinho e está ameaçada de extinção. A diferença entre a  toninha (Pontoporia blainvillei) e os golfinhos comuns está no tamanho, formato dos dentes e comportamento. As toninhas são menores e possuem focinho longo e fino.

Os CONCHEIROS do Albardão, localizados na região, representam uma área de extrema importância paleontológica e geológica, frequentemente estudada como geossítio e sítio fossilífero de relevância nacional. (foto: Pablo Bech/NEMA)

 

JOSÉ TRUDA PALAZZO – ENTREVISTA

 (Foto: Eduardo Melo/Projeto Baleia Jubarte.

 

Tem nome e sobrenome um dos mais valentes guerreiros das causas ambientais para proteção da costa marinha: o professor José Truda Palazzo. Discípulo do grande José Lutzemberger,  José Truda, gaúcho de Porto Alegre, 63 anos, consultor de meio ambiente, escritor, mergulhador e articulista de temas científicos vive por mares rasos e profundos de todo litoral brasileiro. Truda é coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte e Coordenador Geral do Projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande. Foi um dos idealizadores do Parque Nacional do Albardão.

 

 

Silvestre Gorgulho – José Truda, fale sobre o Albardão e por que ele é importante do ponto de vista ambiental?

José Truda Palazzo – A região do Albardão – assim chamada pela paisagem de dunas onduladas na costa, de formato similar às albardas, selas rústicas utilizadas nas montarias dos gaúchos de antigamente – fica localizada no extremo sul do Brasil, entre aproximadamente o Farol do Albardão e a fronteira com o Uruguai, marcada pela desembocadura do arroio Chuí. Trata-se de uma região costeira ainda remota, com bem pouca ocupação humana, onde as lagoas costeiras bordejadas pelas dunas emolduram uma praia arenosa de mais de 200 km de extensão, a maior do planeta.

Silvestre – Eu conheço lá. Senti o encantamento e a monotonia de um deserto.

José Truda – Sim, mas a aparente monotonia desta costa esconde uma imensa biodiversidade. Não apenas a linha de praia é refúgio para aves migratórias de longo curso, mas também o mar agitado e escuro abriga fundos rochosos e calcáreos recobertos de corais, esponjas, hidróides e outros organismos, e esse conjunto de fundos consolidados serve como berçário e área de alimentação para muitas espécies marinhas vulneráveis, ameaçadas e criticamente ameaçadas de extinção, como a toninha e o boto-de-Lahille, ambos pequenos cetáceos endêmicos da costa leste sul-americana; tubarões-martelo, mangonas, cações-anjo e raias-viola; e tartarugas-marinhas.

 

Silvestre – Verdade, mas além dessas belezas biodiversas toda região é muito linda.

José Truda – Mais do que linda! A beleza cênica da região e seu isolamento também são de enorme valor para o Ecoturismo, com potencial especialmente para caminhadas de longo curso. E tem mais: na costa do Albardão também fica o mais importante sítio paleontológico da costa brasileira, os Concheiros, no qual milhões de conchas fósseis recobrem quilômetros de praia e no qual são frequentemente achados fragmentos de mamíferos já extintos, de mastodontes a tatus-gigantes.

 

Silvestre – Quando começou a luta pela proteção do Albardão?

José Truda – A região do Albardão já vinha sendo reconhecida como de muito alta importância para proteção desde que o Ministério do Meio Ambiente realizou as primeiras avaliações de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade, em 1999. Sucessivos estudos vieram confirmando essa importância e, já no início dos anos 2000, a sociedade civil, liderada pelo NEMA – Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental, sediado em Rio Grande do Sul, passou a demandar a proteção formal da área através de uma Unidade de Conservação.

 

Silvestre – Quais as principais ameaças à biodiversidade da região?

José Truda – Historicamente o mar do Albardão vinha sendo vítima de um processo contínuo de defaunação causado pela sobrepesca industrial. Várias décadas de estudos contínuos comprovaram o declínio das toninhas, e a causa principal foi apontada, sem sombra dúvida, como sendo a morte em redes da pesca industrial, que também vinham vitimando indiscriminadamente os tubarões e toninhas e várias espécies de tartarugas. Além da pesca, há pedidos de concessão de grandes áreas ao longo da costa gaúcha para a instalação de complexos eólicos offshore que incluíam a área proposta para proteção no Albardão.

 

As aves migratórias têm no Albardão um ponto de pouso e de alimentação. (foto: Pablo Bech/NEMA)

 

UN SOLO MAR

Silvestre – Sei que foi um desafio a criação do Parque. Como se deu o processo para a criação da Unidade de Conservação?

José Truda – O processo efetivo para proteção do Albardão se deu realmente a partir de iniciativas do NEMA, que ainda em 2008 reuniu uma série de outras organizações da sociedade civil em torno de uma campanha comum para defender a região. Essa campanha, que começou com manifestos e moções ao governo federal, como as aprovadas sucessivamente nos Congressos Brasileiros de Unidades de Conservação e em mobilizações nas redes sociais para chamar a atenção para ao valores ambientais da região. O movimento ganhou força em anos subsequentes com a adesão do Fórum do Mar Patagônico, que representa entidades do Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Em 2020, deu-se a criação do Projeto UN SOLO MAR, uma iniciativa das ONGs do Brasil e do Uruguai para gerar conscientização nos dois países para a importância da biodiversidade marinha na região. Isso estimulou a criação de novas áreas protegidas nos dois países. Em 2023, uma reunião técnica definiu tanto uma proposta de categoria de Unidade de Conservação – Parque Nacional – como uma proposta de limites, com cerca de um milhão e seiscentos mil hectares. Esta proposta foi validada junto ao ICMBio e levada a Consultas Públicas em 2024.

 

Silvestre – Foi aí que vieram os desafios?

José Truda – Isso mesmo. Desde que a proposta foi divulgada publicamente ela enfrentou a oposição ferrenha de dois grupos de interesse principais: o lobby da pesca industrial, tanto de Rio Grande como de Santa Catarina, que se recusavam a aceitar qualquer restrição a suas atividades predatórias na região, e do sindicato patronal que representa as empresas de energia eólica, defendendo em particular os interesses de uma empresa japonesa, a Shizen Energy, que tinha a pretensão de receber concessões de áreas offshore exatamente na área proposta para o Parque Nacional. Esses interesses fizeram uma campanha bastante forte junto a políticos locais, e estes mobilizaram grupos que tentaram tumultuar as Consultas Públicas realizadas na região, nas quais os representantes ambientalistas precisaram ser escoltados por um contingente armado da Polícia Federal por conta das muitas ameaças de violência. Não foi nada fácil.

 

Silvestre – E após as consultas públicas, o caminho foi mais fácil?

José Truda – Os desafios continuaram. Depois disso, o ICMBio, com apoio do NEMA, realizou mais uma série de estudos técnicos abrangendo principalmente a pesca. Após diversas negociações, que envolveram entre outros atores o governo do Estado do Rio Grande do Sul, o Ministério da Pesca e Aquicultura e o Ministério de Minas e Energia, foi acordado o desenho final da proposta, com um Parque Nacional de pouco mais de um milhão de hectares, uma APA de aproximadamente 55.000 hectares e uma Zona de Amortecimento de 558.000 hectares. Por fim, o presidente Lula assinou o histórico decreto federal criando esse Parque Nacional, e sua APA anexa, no dia 12 de março último. Vale lembrar que foi muito a propósito, pois foi antes da realização da Convenção de Espécies Migratórias no Brasil, pois várias das espécies que o Albardão vai proteger são migratórias.

 

Silvestre – Que benefícios diretos a região podem esperar com a criação do Parque?

José Truda – O principal benefício imediato que a proteção integral dessa grande área do Albardão vai trazer é a possibilidade de recuperação das espécies ameaçadas que têm ali um habitat crítico para seu ciclo de vida. Mas também há benefícios econômicos diretos à vista: primeiro, a pesca no seu entorno tende a ser beneficiada, pois o aumento da biomassa no interior do Parque vai gerar um efeito de “transbordamento” de pescado para o resto da região, algo já amplamente comprovado em outras áreas marinhas protegidas ao redor do mundo. Depois, o Ecoturismo, que já existe na região de forma ainda modesta, deverá ser muito ampliado, com a projeção internacional que essa região já está recebendo com a criação do Parque e a possibilidade de se observar ali, na área terrestre e costeira, muitas espécies de aves e outras de interesse do público como golfinhos e baleias, agora protegidos e não mais ameaçados pelas redes industriais.

As dunas do Parque Nacional do Albardão

 

Silvestre – Com o Parque criado, quais os próximos passos para assegurar a proteção da biodiversidade marinha na região?

José Truda – Espera-se que o MMA e ICMBio, com apoio da Marinha, do IBAMA e da Polícia Federal, dediquem recursos imediatamente para estruturar a fiscalização da área do Parque contra a pesca ilegal. Há que controlar também o acesso à faixa costeira, principalmente por veículos nas áreas mais sensíveis como os Concheiros. Outro ponto é a mobilização imediata de ferramentas de sensoriamento remoto como complemento à presença física do órgão gestor. Também a criação do Conselho Consultivo e elaboração do Plano de Manejo de forma participativa com os atores da região vão ser passos importantes para assegurar a proteção desse patrimônio natural inestimável.

 

Silvestre – Com a criação do Parque, como fica o Brasil em relação à meta 30×30 para a proteção do bioma marinho?

José Truda – Importante isso. Com a criação do Parque Nacional do Albardão o Brasil o Brasil chega perto de 27% de seu mar jurisdicional abrangido por Unidades de Conservação. Para atingirmos a meta de 30% até 2030, com representatividade adequada dos nossos ambientes marinhos, ainda precisamos avançar na urgente ampliação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, que abrange somente 1,8% daquele riquíssimo banco de coral, no sul da Bahia. Temos que conseguir a criação da área protegida dos Montes Submarinos de Fernando de Noronha e há ainda outras iniciativas na região Sudeste que ainda estão em estudo.

 

Silvestre – Essa foi uma vitória que fortalece o sonho de outras conquistas?

José Truda – Pura verdade. Vencer esses desafios mostrou que tudo é possível e desejável. A grande vitória da criação do Parque do Albardão renovou nossa esperança e fortaleceu nossa luta. Tudo indica que com vontade política chegaremos lá, mesmo contra interesses poderosos que ainda resistem à conservação adequada de nosso patrimônio natural marinho.

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ASTROTURISMO 2

A conservação que vai além da paisagem

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Nos grandes centros urbanos a falta de céu já é uma realidade. Os moradores de Copacabana, no Rio, fora da Avenida Atlântica, já não veem mais o céu, um dos mais lindos do mundo. Não souberam preservar o céu de Copacabana, de São Paulo, do Balneário de Camboriú, do Recife e de outras capitais brasileiras. O céu para uma cidade grande ou pequena agrega um valor simbólico, sentimental e faz bem aos olhos. Nem é questão de turismo ou astroturismo. É questão de qualidade de vida. A verdade é que a população mundial vem perdendo o contato com o céu estrelado. Segundo o site do Entre Parques, estima-se que cerca de 80% das pessoas já não conseguem observar a Via Láctea, nem as Três Marias, nem o Cruzeiro do Sul a partir de suas áreas de residência, em razão do crescimento da poluição luminosa.

 

O ASTROTURISMO NO BRASIL

E O PROJETO ‘ENTREPARQUES’

O crescimento do astroturismo acompanha uma tendência global de valorização do turismo de natureza e de experiências com baixo impacto ambiental. Em áreas protegidas, essa modalidade permite que visitantes explorem o ambiente natural durante o período noturno, ampliando as possibilidades de visitação e promovendo novas formas de sensibilização ambiental.

Essa necessidade de conservação da paisagem e preservação do espaço celeste em áreas protegidas vem sendo debatida e estudada. Justamente pelo potencial do astroturismo. Nesse sentido nasceram inciativas diversas, como o projeto desenvolvido pelo ‘Instituto Entre Parques’ e o ‘Instituto AstroParques’, que criou o uma ferramenta que avalia o potencial de parques nacionais para a prática do astroturismo. O projeto se chama IASTR e considera fatores como poluição luminosa, condições climáticas e infraestrutura disponível para visitantes.

A estruturação do índice foi resultado de uma expedição realizada pelo ‘Projeto Entre Parques’ ao longo de mais de três anos. A ferramenta foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais das áreas de turismo, economia, psicologia, geografia e astronomia, incluindo especialistas vinculados a instituições públicas e acadêmicas.

Com base em conceitos de ciência cidadã e no uso de dados públicos disponíveis, o índice passou a avaliar os parques nacionais considerando critérios como a qualidade do céu noturno, a probabilidade de céu aberto ao longo do ano e a existência de infraestrutura turística, como condutores e locais adequados para pernoite.

Diversas unidades de conservação federais apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento do astroturismo. Entre os exemplos estão o Parque Nacional das Emas, em Goiás, conhecido pela baixa poluição luminosa e pelo fenômeno da bioluminescência de larvas de vagalumes, além do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, também em Goiás, e do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, reconhecidos pelas excelentes condições de observação do céu noturno.

 

CÉU DAS CATARATAS

A noite nas Cataratas do Iguaçu: luz nas águas combinando com o céu estrelado. (Foto: Leo Caldas)

 

No Parque Nacional do Iguaçu (PR), uma das experiências mais recentes voltadas ao astroturismo é o programa “Céu das Cataratas”, que convida visitantes a contemplar o céu noturno em meio a um dos cenários naturais mais emblemáticos do país.

A atividade ocorre ao anoitecer e conduz os participantes até um mirante com vista para as Cataratas do Iguaçu, onde são realizadas observações do céu estrelado e apresentações que combinam conhecimentos da astronomia com saberes tradicionais dos povos originários, especialmente da cultura Guarani.

Durante a experiência, os visitantes têm acesso a explicações sobre a formação de estrelas, planetas e galáxias, além da observação de constelações e outros corpos celestes em um ambiente com baixa interferência de luz artificial, favorecendo a contemplação do céu noturno.

 

O CÉU DAS MONTANHAS DE MINAS

Minas Gerais sabe conectar suas montanhas com os céus. Montanhas e céus mineiros são vários, vibrantes e acolhedores. Melhor dizendo, apaixonantes. Minas tem ganhado destaque nacional e internacional no astroturismo. Tem parque quase se tornando ‘Dark Sky Park’, com observatório gigante em construção. Tem cidades com noites superescuras e tem até expedição astronômica em cavernas. Para quem quiser fazer um teste, lá vão algumas dicas.

 

  1. AIURUOCA e CARRANCAS

Ambas as cidades, no pé da Mantiqueira, têm altitude elevada, clima seco e quase nenhuma poluição luminosa, o que deixa o céu absurdamente limpo. Em noites claras, dá para ver constelações, planetas e até a Via Láctea brilhando forte, criando um show visual por entre montanhas e o céu. Apaixonante de dia e deslumbrante à noite.

DICA DE HOSPEDAGEM – Pousada Canto das Bromélias (Dadá) – Estrada dos Garcia KM 08 – Aiuruoca-MG Tel: 035) 99780-8351

 

  1. SÃO THOMÉ DAS LETRAS

A 1.400 metros de altitude é o destino clássico e místico, mas também perfeito para observar estrelas. Em S. Tomé das Letras tudo é embriagante: grutas, pedras e o céu.

Turistas em São Tomé das Letras se aglomeram para

esperar o milagre do pôr do sol…

 

.. e o milagre chega arrebatador!

 

  1. Luminárias – Quer um céu estrelado? Luminárias entrega uma experiência linda, com montanhas ao redor e pouca poluição luminosa. É um lugar ótimo para quem gosta de observar o céu e curtir o silêncio do interior.

 

  1. Gonçalves – Em plena Serra da Mantiqueira, chegando a quase 2.000 metros de altitude, Gonçalves tem noites frias, secas e super transparentes. Um prato cheio pros apaixonados por constelações. (foto: @nossashistoriasoficial)

 

  1. Parque Estadual do Ibitipoca – Um dos parques mais amados de Minas e um dos melhores para ver estrelas. Como o acesso é controlado, o céu fica super preservado. Em noites de lua nova, o espetáculo da Via Láctea impressiona.

 

6 – Parque da Serra da Canastra – Quer um céu realmente escuro, daqueles de perder o fôlego? É na Canastra. A região é enorme, cheia de mirantes naturais, com vista 360°. Ver estrelas ali é quase uma cerimônia. (blog: Rotas da Canastra – foto @leofroesft)

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ASTROTURISMO

O turismo que tem como motivação a observação dos astros e fenômenos celestes

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“Não tenho certeza de nada,

mas sei que a visão das estrelas me faz sonhar”.

Vincent van Gogh (1853-1890

 

Há duas dimensões infinitas: o Universo e a imaginação dos Homens. Justamente nessa interação, dos astros e dos seres humanos, nasceu o astroturismo que alguns preferem chamar de turismo astronômico. Na verdade, o corpo pode ser limitado, mas a mente, com o apoio ou não de equipamentos, pela fantasia e pela criatividade, é livre para explorar o universo. A prática, considerada uma das principais tendências do setor, une ciência, natureza e contemplação, impulsionando destinos rurais e naturais. Essa modalidade turística, voltada à observação do céu noturno, astros e fenômenos celestes, é realizada em locais com baixa poluição luminosa e atmosférica.

 

As unidades de conservação têm papel importante na atividade astro turística. Visitadas com frequência e localizadas longe de luzes artificiais, os parques nacionais e as áreas protegidas se destacam na preservação dos céus escuros e na proteção do céu noturno, por isso ideais para a promoção de todos os tipos de turismo sustentável e na conservação da biodiversidade.

 

O QUE ENVOLVE O ASTROTURISMO

Observação Estrelar: Uso de telescópios e observações a olho nu de constelações, planetas, galáxias e cometas.

Eventos Astronômicos: Viagens focadas em eclipses, chuvas de meteoros e auroras.

Visitas Técnicas: Observatórios, planetários e museus astronômicos.

Astrofotografia: Oficinas e ‘tours’ para fotografar o céu noturno.

 

 

BIODIVERSIDAD E OFERECEM CONDIÇÕES PARA O ASTROTURISMO

 

Via Láctea ilumina o céu no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO), onde a baixa poluição luminosa favorece a observação astronômica e o desenvolvimento do astroturismo. (ICMBio)

 

Além de proteger a biodiversidade, as unidades de conservação preservam paisagens naturais e condições ambientais essenciais para a observação astronômica. Essa conexão entre conservação e visitação contribui para sensibilizar visitantes e fortalecer a valorização do patrimônio natural.

Para Serena Reis, Coordenadora substituta de Estruturação e Qualificação da Visitação do ICMBio, o astroturismo está diretamente alinhado com os objetivos das unidades de conservação. “O astroturismo dialoga diretamente com os objetivos das unidades de conservação ao promover a valorização do patrimônio natural e a sensibilização dos visitantes para a importância da conservação. A atividade também contribui para a aproximação de diferentes perfis de visitantes e reforça a importância da proteção de ambientes com baixa poluição luminosa”.

Entre as atividades que podem ser realizadas nas unidades, destacam-se a observação do céu estrelado, fotografia noturna e astrofotografia, caminhadas em trilhas durante a noite e ações educativas voltadas à astronomia.

No Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, a baixa incidência de nuvens e a reduzida poluição luminosa tornam a região uma das mais indicadas para a observação do céu noturno no Brasil. Em áreas mais afastadas das cidades, é possível visualizar a Via Láctea em determinados períodos do ano, uma experiência cada vez mais rara em regiões urbanizadas.

André Ribeiro, Diretor do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, destaca que além da observação do céu noturno, o pôr do sol também integra as experiências ligadas ao astroturismo na unidade. “As paisagens naturais da região – explica André Ribeiro – tornam esse momento um dos mais valorizados pelos visitantes. Aqui na Chapada dos Veadeiros, pelas paisagens todas, o pôr do sol é parte importante do astroturismo”.

Segundo André, preservação do céu escuro é um diferencial importante para a visitação e uma preocupação constante diante do crescimento urbano e da expansão da iluminação artificial. “Quando a iluminação não é adequada, vamos perdendo gradativamente a possibilidade de observar o céu noturno. A poluição luminosa é uma preocupação crescente, especialmente com o avanço das cidades e a ocupação de áreas rurais”, destaca.

 

Via Láctea registrada no céu do Parque Nacional da Serra da Capivara (PI)- Foto: Rafael Pereira

 

 

TRAVESSIA DAS SETE QUEDAS

A Travessia das Sete Quedas, uma trilha de 23,5 km percorrida em 2 ou 3 dias, conhecida por acampar à beira do Rio Preto e passar por paisagens selvagens do Cerrado, é uma nova experiência de contemplação do céu da Chapada. A Travessia foi ampliada ao longo dos anos. Em 2013, a abertura da Travessia das Sete Quedas permitiu que visitantes passassem a pernoitar dentro do parque, vivenciando o ambiente noturno em meio à natureza

Já em 2022, trilhas passaram a ser abertas para visitação noturna na região de São Jorge, iniciativa viabilizada no contexto do contrato de concessão firmado pelo ICMBio e a concessionária Parquetur, com acompanhamento obrigatório de condutores credenciados, garantindo segurança aos visitantes e reduzindo possíveis impactos ambientais.

 

CONSERVAÇÃO QUE VAI

ALÉM DA PAISAGEM

Preservar áreas com baixa luminosidade não beneficia apenas o turismo, é essencial para a manutenção dos ciclos naturais de diversas espécies.

No Parque Nacional das Emas (GO), por exemplo, a baixa presença de iluminação artificial no entorno contribui diretamente para a qualidade do céu noturno e para a conservação da biodiversidade.

 

Estrelas no céu e nos cupinzeiros: bioluminescência de larvas de vagalumes ilumina cupinzeiro no Parque Nacional das Emas (GO), fenômeno natural que depende da preservação de céus escuros e da baixa incidência de luz artificial – Foto: Alisson da Silva

 

De acordo com a analista ambiental do ICMBio, Taynara Castro, a distância das áreas urbanas é um fator decisivo para a visibilidade do céu estrelado na unidade. “A baixa presença de luz artificial ao redor do Parque Nacional das Emas faz toda a diferença para a qualidade do céu noturno por aqui. Como quase não tem iluminação forte por perto, a poluição luminosa é bem baixa, e o céu acaba sendo classificado como ‘ótimo’ pelo Índice de Potencial Astroturístico dos Parques Nacionais (IASTRO), principalmente na parte norte do Parque”.

Em condições favoráveis, é possível observar constelações, planetas e até mesmo o braço da Via Láctea com nitidez. Esse cenário também favorece fenômenos naturais raros, como a bioluminescência de larvas de vagalumes presentes em cupinzeiros, um espetáculo natural que depende diretamente da ausência de luz artificial.

 

CÉU ESCURO AJUDA O EQUILÍBRIO NATURAL

Segundo a analista, manter o céu escuro é essencial para garantir o equilíbrio ecológico. “Vai além de ser um atrativo turístico. Ele é importante para a biodiversidade e para o equilíbrio ecológico, pois muitas espécies dependem da escuridão para se orientar, caçar, se alimentar e se reproduzir”.

A expansão urbana e o crescimento de atividades humanas próximas às unidades de conservação representam desafios para a manutenção dos céus escuros. A poluição luminosa, causada pelo excesso de iluminação artificial, pode comprometer a observação astronômica e afetar diretamente os ecossistemas.

Segundo Taynara, medidas simples e planejamento territorial adequado são fundamentais para evitar esses impactos. “É importante pensarmos no planejamento do território e reduzir atividades que joguem luz em excesso para o céu ou causem impacto direto na unidade. A fiscalização dos empreendimentos na zona de amortecimento também precisa ser reforçada, para garantir que o céu continue limpo e escuro”.

Entre as ações recomendadas estão o uso de iluminação direcionada e de baixa intensidade, a substituição de lâmpadas por modelos mais eficientes e a criação de regras municipais que limitem o excesso de luz artificial próximo às áreas protegidas.

Campanhas de conscientização com moradores e produtores rurais também são consideradas fundamentais, pois ajudam a demonstrar que a preservação do céu noturno pode trazer benefícios ambientais, científicos e econômicos.

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