Reportagens

Índio quer computador e universidade

A informática e a internet chegam às aldeias do extremo norte do Amazonas para promover a inclusão social

Silvestre Gorgulho


 A luta pela causa indígena não tem fim: mais saúde, demarcação de terra, educação e respeito. Mas esta luta, para muitas tribos, atingiu outro patamar: computadores, internet, cursos profissionalizantes e universidades. No final do ano passado, dez índios de três aldeias Tukano do Alto Rio Negro – Balaio, Taracuá e Pari-cachoeira – receberam diploma do 1º curso de Alfabetização Digital Diferenciada, no auditório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – Ibict. O programa, que é uma iniciativa do Ibict, com apoio da Funai e da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), tem como meta alfabetizar digitalmente as comunidades indígenas e inserir a internet na vida dos índios. Também objetiva proporcionar autonomia pela informática aos índios, fazendo com que os professores indígenas sirvam de multiplicadores e criem conteúdos sobre a cultura indígena, fortalecendo a sua história e linguagem. Segundo o diretor do Ibict, Emir Suaiden, esta ação, que recebeu o nome de Corredor Digital, é histórica, pois foi “a primeira vez que o Ibict, em 50 anos de existência, promoveu um evento como o da Alfabetização Digital Diferenciada, num programa importantíssimo de inclusão social”.As aldeias indígenas atendidas pelo programa do Ibict estão no extremo norte do Amazonas, perto da fronteira com a Colômbia e a Venezuela. Os dez índios treinados aprenderam a trabalhar com o Windows e o Microsoft Office.
Hoje eles são multiplicadores destas ações tecnológicas, mas na verdade quando vieram a Brasília fazer o curso, eles tiveram o primeiro contato com o computador. As três aldeias Tukano do Alto Rio Negro – Balaio, Taracuá e Pari-cachoeira estão separadas entre si por 1.600km.
 “É a primeira experiência de inclusão digital com comunidades indígenas. E resolvemos fazer com que fosse mais do que simplesmente levar computadores para lá. Queremos que funcione como uma ferramenta de for-talecimento da cultura e da língua dos tukanos”, explica Orlene Lúcia Carvalho, professora do Departamento de Lingüística da UnB. Ela trabalha no projeto com Cecília Leite e Dora Galesso, ambas do Ibict.


Mouse virou Bi’i


Um dado interessante: o programa previu a  personalização dos programas e equipamentos que os índios passaram a conhecer.
No encontro em Brasília eles definiram que nomes iriam dar para as partes do computador. O mouse virou Bi’í, que na língua deles quer dizer rato. Mas a lição maior veio de Sebastião Duarte, que vive na tribo de Taracuá, uma das três da etnia tukano: “Vocês brancos são muito fracos nisso. Não entendo como o brasileiro não tem a sensibilidade de perceber que isso também é uma forma de dominação”.
E seguindo o raciocínio de defesa de sua cultura, Sebastião Duarte foi além: o que mais atrai nossas tribos é a preservação dos próprios valores. “Para os índios é importante poder manter a própria cultura viva, armazenado na língua deles seus mitos e lendas”, concluiu.
Os conceitos da informática também passam por analogia com procedimentos do dia-a-dia das tribos. Para explicar o que são ferramentas, foto de uma enxada, e para falar do conceito de tecnologia, a feitura da bebida alcoólica que eles consomem por lá, a kaxiri. E como a intenção do programa é dar autonomia para as comunidades, os planos são preparar os programas para receberem as palavras da língua tukano.



“Para os índios é importante poder manter a própria cultura viva,
armazenado na língua deles seus mitos e lendas”
Sebastião Duarte


 “Tudo o que não aconteceu de 2003 a 2006 a gente fará acontecer até 2010. Vocês, índios, terão no meu segundo mandato muito mais atenção do governo”.
Do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aproveitando o Dia do Índio para fazer um mea-culpa por não ter melhorado, em seu primeiro mandato, a qualidade  de vida dos 700 mil índios do País.
O presidente reconheceu o descaso do governo nas aldeias.


Mantendo a cultura


Depois da fase de treinamento em Brasília, técnicos e professores viajaram para as aldeias, localizadas numa região do Amazonas conhecida como Cabeça de Cachorro. Lá fizeram o acompanhamento e a manutenção dos equipamentos e do uso dos computadores.
Este processo vai durar ainda até o final deste ano. “A intenção de um acompa-nhamento de tão perto é para vermos os acertos e erros do processo.
E isso é importante porque há o interesse de continuar com essa ação em outros lugares e com outras etnias”, afirma Dora Galesso, diretora da ação Corredor Digital.
Nas aldeias os computadores acessam a internet por satélite e funcionam com placas de energia solar.
“A nossa intenção é levar a autonomia que a informática traz para que eles, e outras sociedades culturais diferentes da nossa, como os quilombolas, possam manter sua cultura e também disponibilizá-la para nós”, explica Dora Galesso. 
Orlene Lúcia Carvalho lembra sempre uma afirmação do índio Oséas Ramos Marinho, da aldeia de Pari-cachoeira, que fez o curso no Ibict. Para Oséas, “a inclusão digital dos índios é uma forma de poder lutar com os brancos usando a arma que eles usam”.  Explica o índio, hoje internauta, que “muitos jovens saíam de suas casas para ir atrás de estudos e oportunidades de emprego. Agora, essa oportunidade chegou à própria aldeia através da informática”.


“Muitos jovens índios saíam de suas casas para ir atrás de estudos e
oportunidades de emprego. Agora,
essa oportunidade chegou à própria aldeia através da informática”.
Oséas Ramos Marinho, da aldeia de Pari-cachoeira.


 


Dia do Índio chegou no Memorial


Pela primeira vez na história de Brasília
um índio é nomeado diretor do
Memorial dos Povos Indígenas


As Nações Unidas estabeleceram objetivos a serem alcançados no campo dos direitos humanos dos povos indígenas como as metas do milênio. E entre esses alvos está a necessidade de dar oportunidades às representações indígenas no planejamento e nas políticas públicas. O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, tem buscado mudanças concretas na gestão pública. Busca inovar, também, nos empreendimentos sócioculturais. Por exemplo, pela primeira vez na história de Brasília, um indígena será o coordenador das atividades do Memorial dos Povos Indígenas. É um reconhecimento ao indígena que resgatou as obras de Oscar Niemeyer, buscou recursos financeiros junto ao Banco do Brasil e para sua construção e buscou  apoio espiritual das lideranças indígenas tradicionais. Naturalmente nada disso teria sentido sem o apoio político e visionário do ex-governador José Aparecido de Oliveira. Foi Aparecido quem conseguiu da Unesco fazer de Brasília Patrimônio Cultural da Humanidade, um título que faz hoje 20 anos e será comemorado com um grande seminário internacional, em dezembro.


 Segundo o líder e novo diretor do Memorial dos Povos Indígenas de Brasília, o líder indigenista Marcos Terena, o conceito de um memorial indígena não pode incorrer em erros do pensamento museológico da conservação ou de um passado morto.
“Dentro de um mundo moderno e tecnológico – diz Terena – a sociedade e as informações se tornaram mais velozes e mais dinâmicas. O  respeito ao passado indígena e a história oral são formas de equilíbrio e boa convivência com os novos tempos e argumentos para o futuro melhor”. Assim, também, caminha a humanidade indígena.
Para Marcos Terena não existe no conceito indígena esse homenagear permanente aos mortos ou o constante reclamar dos erros desse passado que geralmente gera ódio e contradição. “As sociedades indígenas não compartem por exemplo que para gerar a paz, é preciso impor a guerra entre povos irmãos”.
Brasília, capital das culturas brasileiras, promove um novo o-lhar aos direitos indígenas. Por Brasília transitam mais de 100 povos a cada ano. Moram em Brasília e arredores cerca de 5 mil indígenas.
Segundo Terena, isso “é uma demonstração cabal de que Brasília  não é uma cidade leviana. Nem apenas um palco de políticos corruptos. Brasília faz parte de um povo que vive e convive com a realidade de negros, brancos e indígenas”.
Para Marcos Terena, talvez o Memorial dos Povos Indígenas não tem que responder de imediato às demandas da cultura indígena que corresponde a pelo menos 200 etnias, mas deve construir um sistema dinâmico que gere na sociedade nacional, uma nova consciência sobre o significado de ser brasileiro.
“Vale relembrar personalidades que já nos anos 70 buscavam seus direitos como o cacique Mário Juruna e seu inseparável gravador.
O importante é buscar um relacionamento de respeito mútuo entre os diferentes e relembrar sempre como erro a jamais ser repetido, o calvário e a morte de Galdino Pataxó”.
“Certamente – enfatiza Marcos Terena – atuar como coordenador das novas atividades do Memorial dos Povos Indígenas será, também, a busca de uma linha de parcerias com instâncias nacionais e internacionais para a reconstrução física desse importante espaço.
Um Café Indígena, um parque temático intercultural que gere convivência, e exercite a memória, a sabedoria e os conhecimentos tradicionais indígenas”.
“O espaço significa um habitat ecológico e cultural que possibilite à sociedade envolvente, um cenário das artes, das literaturas e do cotidiano indígena. Afinal – conclui o novo diretor do Memorial dos Povos Indígenas – existe em Brasília uma população indígena grande. Pessoas que  reconhecem com orgulho sua origem e defendem sua cultura, suas tradições e seu futuro como cidadãos”.
De fato, esse é um desafio a ser atingido e um exemplo a ser seguido pelas políticas públicas, seja para o indígena coordenador do Memorial, seja para o Governo de Brasília, seja para toda a sociedade brasileira”.
Esse dia do Índio chegou.


Marcos Terena
Um nome que se confunde com a própria natureza: rica, dadivosa,


exuberante, amiga e fiel.


Silvestre Gorgulho, de Brasília


O índio, piloto e líder Marcos Terena tem história. Criou o primeiro movimento indígena no Brasil e idealizou e organizou a Conferência Mundial dos Povos Indígenas sobre território, meio ambiente e desenvolvimento, durante a RIO/92, onde foi escrito a Carta da Terra com 109 recomendações e a Declaração da Kari-Oca. Terena é membro do Comitê Intertribal e da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, da Coalizão Internacional Land is Life e da Cátedra Indígena Internacional.



Voltemos no tempo. Em 1990, o jornalista Zózimo Barroso do Amaral deu em sua coluna do Jornal do Brasil uma nota, com o título “Procura-se”. A nota dizia que um índio de nome Marcos Terena acabara de ser demitido da Funai, onde era piloto – mesmo tendo entrado em avião só como passageiro e, assim mesmo, morrendo de medo. Foi na resposta de Marcos Terena ao JB, que se conheceu o valor, a grandeza, a altivez e a dignidade de Marcos:
“Sou um dos 240 mil índios brasileiros e um dos seus interlocutores junto ao homem branco. Quando ainda tinha nove anos, fui levado a conhecer o mundo. Era preciso ler, escrever e falar o português.
Um dia, a professora me pôs de castigo, não sabia por que, mas obedeci. Fiquei de frente para o quadro negro, de costas para a sala. Quando meus colegas entraram, morreram de rir. Não sabia o motivo, mas sentia-se orgulhoso por fazê-los rir. Eles riam porque descobriram meu segredo: meu sapato não tinha sola, apenas um buraco, amarrado por arame.
Naquele momento, sem querer, acabei descobrindo o segredo do homem civilizado: suas crianças não eram apenas crianças.
Apenas uma palavra as separava das outras crianças: pobreza.”
 E Terena continua sua carta:
 “Um dia me chamaram de “japonês”. Decidi adotar essa identidade. E fiz isso por 14 anos.”
Foi passando por japonês que Marcos Terena conseguiu estudar, entrar para a FAB, aprender a pilotar. Veio para Brasília. Deixou de ser japonês para voltar a ser índio. Ai descobriu que era “tutelado”. Mais: como tinha estudo, começou a explicar a lei para seus companheiros de selva. É ele quem diz:
“Expliquei e fui acorrentado. Pelos índios, como irmãos. Pela Funai, como subversivo da ordem e dos costumes”.
Veio o drama: continuar sendo branco-japonês e exercer sua profissão de piloto, ou voltar a ser índio, mesmo sendo subversivo.
Marcos Terena era o próprio filho pródigo. Sabia ler, escrever, analisar o mundo, entender outras línguas. Mas, como índio, recebeu um castigo dos tutores da Funai: não podia exercer sua profissão, pilotar. Só depois de muita luta, recebeu seu brevê do Ministério da Aeronáutica.
A carta de Terena ao JB continua. É linda. Uma lição. Quando publicada, mereceu uma crônica especial da Acadêmica Rachel de Queiroz. E Terena, ao concluir sua carta, deixou uma lição a todos os jornalistas e aos homens de boa vontade:
 “Não guardo rancores pela nota. Foi mais uma oportunidade de fazer valer a nossa voz como índio. Gostaria apenas que o jornalista inteirasse dessas informações todas e soubesse de minha vontade em tê-lo como amigo”.
Respeitado por índios e brancos – sul-matogrossense de Taunay –  Marcos Terena, 53 anos,  maior líder do movimento indigenista brasileiro  é um exemplo.
Seu nome, sua obra e sua luta se confundem com a própria natureza: rica, dadivosa, exuberante, amiga e fiel. 

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reportagens

Pesquisa identifica oito planetas candidatos a ter vida extraterrestre

Estudo foi feito por pesquisador brasileiro no Observatório Nacional

Publicado

em

Por

Vitor Abdala – Repórter da Agência Brasil

Um pesquisador brasileiro identificou oito planetas localizados fora do Sistema Solar, os chamados exoplanetas, que têm uma possibilidade maior de ter água em estado líquido e, consequentemente, permitir o desenvolvimento de vida. O levantamento foi feito pelo cientista Fábio Calabrio Evangelista da Silva, sob a orientação do professor Marcelo Borges Fernandes, do Observatório Nacional.

Silva analisou as informações de mais de 6 mil exoplanetas já descobertos até agora, a partir de um banco de dados da Nasa, a agência espacial estadunidense. Ele examinou informações como raio, densidade e distância em que orbitam em relação à estrela.

A partir dessas informações, conseguiu identificar aqueles que têm um raio e densidade semelhantes aos do planeta Terra. Separou também aqueles que estão na chamada zona de habitabilidade.

“A zona de habitabilidade é uma zona que possibilita a água líquida porque não é nem tão quente, mais próximo da estrela, e nem tão frio, para longe da estrela. Então é a zona perfeita. A gente chama de Goldilocks Zone, a Zona dos Cachinhos Dourados”, explica Silva.

Por fim, estimou as características da atmosfera, além da pressão e temperatura da superfície. Silva, então, elencou os oito exoplanetas mais parecidos com o nosso, portanto, com maiores possibilidades de possuir água em estado líquido e sustentar vida.

“A Terra é o único exemplo que a gente vai ter, por enquanto, para se definir vida, para se definir quais são as características necessárias para se ter água líquida”, afirma o pesquisador, que apresentou seu trabalho nesta semana, na 6ª edição do Astrobion, evento sobre astrobiologia organizado pelo Observatório Nacional, no Rio de Janeiro.

Dos oito exoplanetas, o mais parecido com a Terra é chamado de GJ 1002b, que, segundo a pesquisa do Observatório Nacional, tem 98% de similaridade com o nosso planeta.

Descoberto em 2022, o GJ 1002b, localiza-se a 16 anos-luz do nosso planeta (ou seja, a luz leva 16 anos para fazer o trajeto entre os dois planetas). Ele orbita uma estrela anã-vermelha (tipo M), que é mais fria que o Sol. Cada volta em torno da estrela, leva apenas 10 dias.

Busca por extraterrestres

“A gente está buscando um planeta que tenha condições similares à Terra. Mas isso não quer dizer que seja o único lugar possível de ter vida no universo, porque podem existir outras formas de vida que a gente ainda não conheça e que precisem de características químico-físicas diferentes”, ressalta o professor Marcelo Borges Fernandes.

A possibilidade de haver vida fora da terra é parte do imaginário popular há séculos. Na Grécia Antiga, pensadores já especulavam sobre a possibilidade de haver vida na Lua. A busca por organismos extraterrestres ganhou força com o início da corrida espacial, entre os anos 50 e 60.

Nas primeiras décadas, no entanto, a busca se focou em nosso Sistema Solar, em especial naqueles corpos celestes mais próximos da Terra, como a própria Lua e o planeta Marte, e na recepção de sinais enviados por eventuais civilizações extraterrestres.

Em 1992, no entanto, os primeiros exoplanetas, chamados de Poltergeist e Phobetor, foram descobertos. De lá para cá, foram mais de 6 mil descobertas na nossa galáxia, elevando assim o número de locais onde a vida pode ter se desenvolvido.

A busca por vida nesses locais, no entanto, é uma tarefa difícil, uma vez que todos eles estão a anos-luz da Terra, o que inviabiliza, pelo menos com a tecnologia existente, que sejam visitados. O estudo desses exoplanetas é feito por meio de observações intermediadas pela estrela à qual eles orbitam.

A forma de verificar a possível existência de vida nesses casos é através do exame da atmosfera desses exoplanetas. Telescópios, como o James Webb, possuem equipamentos que analisam as ondas de luz emitidas pela estrela quando o planeta está transitando em frente a ela. Esses aparelhos conseguem perceber as variações ocorridas quando elas interagem com a atmosfera do exoplaneta, já que cada substância química tem sua própria marca.

“Com alta resolução espectral, você pode ver se existe uma atmosfera, determinar a composição química da atmosfera e, com isso, você vai juntando cada pecinha do quebra-cabeça de forma tentar definir se aquele planeta pode ter condições ideais para existência da vida ou não”, explica Fernandes.

O que os cientistas que buscam vida fora da Terra, os chamados astrobiólogos, buscam são as chamadas bioassinaturas. São substâncias ou uma combinação delas que, na Terra, são comumente produzidas pela ação de mecanismos biológicos, como é o caso da coexistência dos gases metano e oxigênio.

Recentemente um estudo liderado pela Universidade de Cambridge analisou a atmosfera do exoplaneta K2-18b e encontrou sinais de metano e dióxido de carbono. Também foi detectada uma assinatura que poderia ser sulfeto de dimetila (DMS), uma molécula que, na Terra, é produzida apenas por seres vivos, como os fitoplânctons.

Como este é um planeta que tem probabilidade de ser coberto por um oceano de água global, veículos de imprensa noticiaram que cientistas haviam descoberto sinais de vida em um planeta distante.

Evidências

O problema é que muitas das bioassinaturas, inclusive as substâncias encontradas em K2-18b, poderiam ser produzidas também por meios abióticos, como processos geológicos ou radiação.

“A gente tem que ter sempre muito cuidado para analisar isso e comparar com o único exemplo que a gente tem, que é a Terra, para saber se a única explicação seria uma fonte de vida ou se pode ser de fontes geológicas ou atmosféricas não ligadas à vida, que reproduziriam aquela possível bioassinatura”, ressalta Fernandes.

De acordo com o pesquisador do Laboratório Analítico de Astrobiologia da Nasa José Aponte, encontrar bioassinaturas de forma isolada no espaço não é sinal inequívoco de vida. “Nenhuma análise, por si só, pode garantir uma confirmação definitiva [da existência de vida]. É preciso haver mais de uma linha de evidência para que isso aconteça”.

Aponte destaca que a combinação de três aspectos pode ser um forte indicador de que aquelas bioassinaturas são mesmo produzidas por seres vivos. O primeiro seria a repetição de moléculas no ambiente. “Se aquela molécula se repete exaustivamente e isso é consistente depois de várias medições, isso poderia representar uma bioassinatura”.

A segunda linha de evidências seria a predominância de um tipo de quiralidade. Moléculas quirais são aquelas que têm a mesma estrutura química, mas não são exatamente iguais. Algumas desviam a luz para a esquerda e outras, para a direita. Um bom exemplo para explicar isso são as mãos esquerda e direita. Elas são a imagem espalhada uma da outra, mas se formos sobrepô-las (ambas com as palmas para baixo), elas não se encaixam.

Na Terra, os organismos usam quase que exclusivamente os aminoácidos de configuração L (ou seja, são como nossa mão esquerda), salvo poucas exceções. Já os açúcares são praticamente todos de configuração D (isto é, como a mão direita). “Então uma segunda linha de evidência seria encontrar a predominância de um tipo de molécula quiral [no lugar investigado]”.

E a terceira linha de evidências seria a análise de isótopos, isto é, elementos químicos que têm massas diferentes. Na Terra, a vida tem preferência pelos isótopos mais leves, como o carbono 12, em vez do carbono 13, e pelo hidrogênio em vez do deutério (isótopo mais pesado do hidrogênio).

“Bioassinaturas em outros lugares também poderiam ser ricas nos isótopos mais leves. Então, não se trata apenas de encontrar uma única molécula, mas sim de encontrar mais de uma linha de evidência combinada”, explica o pesquisador da Nasa.

Ingredientes da vida

Mesmo aquelas moléculas orgânicas que são chamadas de ingredientes da vida, como os aminoácidos ou as bases nitrogenadas que formam nosso código genético, não podem ser consideradas provas da existência de vida extraterrestre.

Aponte é parte do grupo de cientistas que analisou amostras de rochas coletadas por uma sonda no asteroide Bennu, que orbita próximo à Terra. Dezenas de moléculas orgânicas foram detectadas no corpo celeste, entre elas os três componentes dos ácidos nucleicos: fosfatos, o açúcar ribose (que é parte da estrutura do RNA, o ácido ribonucleico) e as cinco bases nitrogenadas que formam os nucleotídeos de todos os seres vivos: adenina, guanina, citosina, timina e uracila.

Também foram detectados, nada menos que 14 dos 20 aminoácidos usados na produção de proteínas pelos organismos terrestres, inclusive o triptofano, que nunca havia sido observado em amostras extraterrestres.

Nada disso, no entanto, é sinal de vida extraterrestre, já que essas moléculas podem ter sido formadas de forma abiótica pela ação de radiação ou de reações químicas em um ambiente aquoso, há centenas de milhões de anos.

“No caso de encontrarmos um composto do tipo nucleotídeo ou uma cadeia de RNA, a história é outra. Isso poderia ser uma evidência mais robusta, porque moléculas como essas são muito frágeis e se decompõem muito rapidamente em termos geológicos”, afirma Aponte.

Expectativas

Apesar das dificuldades para se localizar vida fora da Terra, há grandes expectativas em relação a futuras missões não tripuladas dentro do próprio Sistema Solar, como a Europa Clipper, que deve chegar, em 2030, a Europa, satélite que orbita Júpiter. Há indícios de que, sob a crosta de gelo dessa lua joviana, exista um oceano de água salgada, que pode ter condições de abrigar vida.

Outra missão, a Dragonfly, deverá ser lançada em 2028, rumo a Titan, uma das luas de Saturno, que possui uma atmosfera possivelmente rica em nitrogênio, além de metano em forma líquida em sua superfície. O robô, que tem o mesmo nome da missão, deve chegar a Titan em 2034 e buscará indicadores químicos de vida baseada em água ou em hidrocarbonetos, como o metano.

Há expectativas também em relação a outra lua de Saturno, Enceladus, que, assim como Europa, também pode abrigar um oceano sob sua crosta de gelo; e a Marte, onde há calotas de gelo e possivelmente reservatórios subterrâneos de água.

Continue Lendo

Reportagens

Voluntários transformam tempo em cuidado há 61 anos no Hospital de Base

Com 52 integrantes, serviço acolhe pacientes e ajudou a abrir caminho para outras iniciativas de voluntariado na unidade 

Publicado

em

Por

 

Por

Agência Brasília | Edição: Plácido Fernandes

Há 61 anos, o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) conta com pessoas que escolheram transformar tempo e disposição para ajudar em uma forma de cuidado. Criado em 1965, o Serviço Auxiliar de Voluntários (SAV) acompanha quase toda a trajetória do hospital, que completou 66 anos, e mantém o paciente no centro de sua atuação. Atualmente, 52 voluntários participam de atividades como acolhimento nos leitos, reiki, doação de kits de higiene e artigos hospitalares, além de ações voltadas à socialização e ao bem-estar. Ao longo de seis décadas, o SAV também ajudou a abrir espaço para a chegada de outras iniciativas de voluntariado ao HBDF.

Para ser voluntário, basta procurar o escritório do serviço no Hospital de Base para passar por uma entrevista. Outra opção é realizar o cadastro pelo site da entidade, preencher o formulário disponível e aguardar o contato da equipe. A presidente do SAV, Vandelícia Dias, ressalta que não é preciso ter experiência para participar, mas disposição para doar tempo.

Voluntários visitam paciente no Hospital de Base: “O primordial é o acolhimento, é ceder seu tempo para ouvir a outra pessoa. Pode ser que ele precise de alguém para conversar”, observa a presidente do SAV, Vandelícia Dias | Fotos: Divulgação

Para Vandelícia Dias, a essência desse trabalho está na disponibilidade para o outro. “O primordial é o acolhimento, é ceder seu tempo para ouvir a outra pessoa. Pode ser que ele precise de alguém para conversar”, afirma.

Desde 2010, a entidade alcança uma média de 3,7 mil acolhimentos a pacientes por mês, entre atendimentos realizados dentro do hospital e itens doados. Parte das ações é viabilizada com recursos obtidos por meio das vendas do bazar do SAV, abastecido por doações. “No que estiver dentro da nossa condição, nós sempre iremos ajudar. De pouquinho em pouquinho, nós vamos atendendo as demandas e espalhando o bem”, comemora Vandelícia.

 

Uma história construída dentro do hospital

Fundado pelo médico Oscar Moren, o SAV iniciou o trabalho com foco na pediatria e, ao longo dos anos, ampliou a atuação para outras áreas do Hospital de Base. Entre as frentes que ganharam destaque está a psiquiatria, onde são desenvolvidas atividades lúdicas voltadas para a socialização e o bem-estar dos pacientes.

Essa trajetória também contribuiu para fortalecer a presença do voluntariado na unidade. “O SAV e o Hospital de Base caminharam juntos desde o começo. Nosso trabalho abriu portas e permitiu que outras instituições também viessem para cá. Servimos de exemplo”, afirma Vandelícia.

Atividades lúdicas voltadas à socialização e ao bem-estar dos pacientes ganharam destaque nas atividades dos voluntários no HBDF

Ao mesmo tempo em que acolhe pacientes, o trabalho deixa marcas em quem escolhe dedicar parte da própria vida ao outro. Salete Paulina Malinski entrou para o SAV há 29 anos, depois de ouvir no rádio um anúncio que convidava pessoas para o voluntariado.

“Amo trabalhar com pacientes. A gente sempre consegue levar um pouco de alegria, um pouco de leveza. Gosto de me doar para os outros, de conversar e de trazer paz. Me sinto muito bem”, confessa.

Se Salete carrega quase três décadas de experiência, Rosimeire Costa representa quem está começando essa trajetória. Aposentada, ela decidiu dedicar parte do tempo livre ao voluntariado e integra o SAV há dois meses.

“Aqui, você consegue ser uma gotinha de coisas boas na vida de outras pessoas. É muito gratificante promover um momento de descanso, de alegria, de descontração a um paciente que está passando por um momento difícil. Isso traz sentido para a vida”, comemora.

Continue Lendo

Reportagens

Câmara Legislativa realiza sessão solene em homenagem ao Beach Tennis e ao Tênis

Cerimônia está marcada para terça-feira (22), a partir das 19h, e terá transmissão ao vivo pela TV Câmara Distrital e pelo YouTube

Publicado

em

Por

 

Foto: Francisco Arrais

Homenagem presta reconhecimento público a atletas, professores, treinadores, dirigentes e organizações que contribuem para o fortalecimento do Beach Tennis e do Tênis no DF

A Câmara Legislativa fará uma sessão solene, na próxima terça-feira (22), às 19h, em homenagem ao Beach Tennis e ao Tênis. De autoria do deputado Martins Machado (Republicanos), o evento visa destacar a relevante contribuição dessas modalidades para o desenvolvimento do esporte no Distrito Federal. A solenidade ocorrerá no plenário e será transmitida ao vivo pela TV Câmara Distrital.

De acordo com Martins Machado, além de promover hábitos saudáveis, as modalidades incentivam a disciplina, a superação de desafios e a convivência social. “A expansão dessas práticas esportivas também gera impactos positivos na economia local, por meio da realização de torneios, eventos, capacitações e atividades ligadas ao setor esportivo, promovendo oportunidades de trabalho e fortalecendo o turismo esportivo”, ressalta o distrital.

Ainda de acordo com o parlamentar, a homenagem representa o reconhecimento público aos atletas, professores, treinadores, dirigentes, organizadores de eventos, clubes e academias que contribuem para o fortalecimento do Beach Tennis e do Tênis no DF.

Agência CLDF

Continue Lendo

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010