Artigos

Descobridores do Brasil

Publicado

em









Silvestre Gorgulho


Sempre gosto de dizer que o Brasil foi descoberto muitas vezes. Pelos aventureiros das Entradas e Bandeirantes, por Auguste de Saint-Hilaire, por Peter Lund, por Jean-Baptiste Debret, por Langsdorff, pelo Marechal Rondon, pelos Irmãos Villas Boas, por Henrique Halfeld, por Arne Sucksdorff, por tantos outros e, até, por Pedro Álvares Cabral e seu escriba Pero Vaz de Caminha. Mas, ninguém “descobriu” mais o Brasil do que botânico Carl Friedrich von Martius [1794-1868] e seu companheiro de aventura, o zoólogo Johan Baptist von Spix [1782 – 1826].


Não é à toa que a viagem exploratória e a obra de von Martius – Flora Brasiliensis – tiveram o financiamento de três países: Bavária, pelo Rei Ludovico I; Áustria, pelo Imperador Ferdinando I; e o Brasil, por D. Pedro II. É uma obra magistral. Para concluí-la, houve a necessidade de se montar uma equipe de 65 cientistas, coordenada por August Wilhelm Gichler e Ignaz Urban. Ainda assim, a obra levou uns 90 anos para ficar pronta. E olha que von Martius esteve no Brasil aos 26 anos e morreu em 1868, aos 74 anos.


Essa expedição científica – que no fundo era o sonho de 10 entre 10 botânicos do mundo inteiro – acabou por ocupar o resto da vida dele e de Spix.
No Brasil de hoje existem poucos volumes disponíveis completos. Além da Biblioteca Nacional, há notícias de uma coleção da obra no Museu de História Natural e Jardim Botânico de Belo Horizonte, outra coleção da biblioteca de José Midlin. Daí a importância do trabalho coordenado pela Fapesp em digitalizar toda obra de von Martius.


Agora Flora Brasiliensis está disponível, em alta resolução, na web. Os desenhos poderão ser consultados pelo nome científico de cada espécie, pelo volume ou pelas páginas da obra impressa. (http://florabrasiliensis.cria.org.br)
Spix, ao contrário de Martius, viveu pouco. Mas produziu muito. Nos seus 44 anos de vida realizou várias viagens científicas pela Europa, escreveu muitos trabalhos e, com von Martius, realizou o sonho da expedição científica à exótica terra brasileira.


Dia 13 de março completaram 180 anos de sua morte. Sua lápide tinha a seguinte inscrição: “Aqui estão os restos mortais do mais sagaz, honrado e respeitável dos homens, Dr. Johann Von Spix – Cavaleiro da Ordem do Mérito Civil, membro da Academia Real das Ciências”. Tinha! Infelizmente os Bombardeios durante a Segunda Guerra destruíram tudo. Mas o que nenhuma bomba destruiu foram seus estudos e, sobretudo, sua última mensagem deixada há 200 anos. “É hora de cessar a destruição das florestas brasileiras decorrente de excessivo desmatamento para a construção de casas, a instalação de fábricas de açúcar e a escavação de minas de ouro”.
E olha que, naquela época, ainda nem se falava em barragens, soja, pecuária, biopirataria e comércio ilegal de mognos. Meus amigos, a destruição da floresta vem de longe. E o fim delas está cada vez mais perto.


summary


Discoverers of Brazil


I always say that Brazil was discovered many times. By the adventurers called Entradas and Bandeirantes, by Auguste de Saint-Hilaire, by Peter Lund, by Jean-Baptiste Debret, by Marechal Rondon, by Villas Boas, by Henrique Halfeld, by Arne Sucksdorff, by many others and also by Pedro Álvares Cabral and his scribe Pero Vaz de Caminha. But nobody ‘discovered’ Brazil more than the botanist Carl Friedrich von Martius [1794-1868] and his fellow adventurer, the zoologist Johan Baptist von Spix [1782 – 1826].


The exploratory trip and the work of von Martius – Flora Brasiliensis – were financed by three countries: Bavaria, by King Ludovico I; Austria, by Emperor Ferdinand I; and Brazil, by King Don Pedro II. It is a masterpiece.
A team of 65 scientists, coordinated by August Wilhelm Gichler and Ignaz Urban was necessary to finish it. Nevertheless, it took 90 years for the work to be completed. Von Martius came to Brazil when he was 26 years old and he died in 1868 at age 74.


The scientific expedition – which was the dream of all botanists around the world – kept him busy for the rest of his life and Spix’s life too. Today there are only a few complete volumes of his work in Brazil. Besides the one in the National Library, there is a collection of his work in the Natural History Museum and Botanic Gardens of Belo Horizonte and another in José Midlin’s Library. And that is why the digitalization of the entire work of von Martius, coordinated by Fapesp, is so important. Now, Flora Braziliensis is available in high resolution format on the Internet. It is possible to search the etchings by the scientific name of each species, by the volume, or by the pages of the printed work. ( http://florabrasiliensis.cria.org.br )


Spix, unlike von Martius, died early, at age 44. Nevertheless, his production was enormous. During his life, after several scientific trips around Europe, he wrote many books and with Martius, accomplished every scientist’s dream: the scientific expedition to the exotic Brazilian land. He died on March 13th, 180 years ago. His tombstone had the following inscription: “Here lies the body of the most intelligent, honest and respectable man, Dr. Johann Von Spix – Knight of the Order of Civil Merit, member of the Royal Academy of Sciences”. His tombstone had this inscription, but it doesn’t anymore! Unfortunately, bombings in the World War II destroyed it. But no bomb destroyed his studies and above all, his last message, left almost 200 years ago. “It is time to stop the destruction of the Brazilian forests for the construction of houses and factories to produce sugar, and digging for gold.”


And at that time, we were not talking yet about dams, soybean, cattle breeding, biopiracy and illegal commerce of mahogany. Dear friends, the destruction of the forest if very old. And their end is closer.


SG

Continue a Ler
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos

Jandaias, pombas, sabiás e bem-te-vis: todas as aves amam as cidades

Engenheiro e ornitólogo Johan Dalgas Frisch conta sua aventura passarinheira para proteger e alimentar as aves de São Paulo.

Publicado

em

 

Sem dependerem de qualquer tipo de transporte, sem se preocuparem com os terríveis engarrafamentos e sem se importarem se faz sol ou chuva, elas chegam às 7 horas da manhã. Numa algazarra incrível, elas vão direto para os dois refeitórios, abertos dia e noite, no jardim da casa de Johan Dalgas Frisch, na Praça Uirapuru, Bairro do Morumbi. Ali elas se alimentam à vontade de sementes de girassóis, frutas variadas e derivados de milho. Elas são as jandaias. De papo cheio, elas revoam e dão lugar às pombas asa-branca. Mais tarde, juntas, elas voltam para ao final do dia disputarem o que sobrou do precioso alimento. Todos os dias as revoadas se repetem. Por que? Simples, porque os pássaros amam as cidades como Fortaleza, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro, Belém e São Paulo, a maior do País. E os cidadãos urbanos também amam os pássaros.

 

Johan Dalgas Frisch, o Senhor dos Pássaros, ao receber o Prêmio Verde das Américas, por sua dedicação à preservação da avifauna brasileira.

 

O bem-te-vi está em todos os lugares e encantam as populações urbanas com seu canto e sua beleza. (foto: Roberto Harrop – Recife-PE)

 

CASO DE SÃO PAULO

Como muitas cidades brasileiras, a cidade de São Paulo é uma selva. Uma selva de prédios, de gente, de árvores e de aves. Fundada em 1554, pelos padres Jesuítas, no coração da Mata Atlântica, a capital paulista tem um território de 1.530 quilômetros quadrados, localizada em uma área de ecótono, ou seja, uma região entre três biomas fronteiriços: floresta ombrófila mista, floresta ombrófila densa e cerrado. Habitam este maior centro cosmopolita da América do Sul, mais de 12 milhões de moradores brasileiros e, também, nativos de 196 países diferentes, além de uma fantástica população da avifauna. São 372 espécies diferentes de aves catalogadas na cidade pela prefeitura na Divisão de Fauna Silvestre, incluindo aves migratórias, endêmicas e até mesmo espécies ameaçadas de extinção.

 

RESTAURANTES SEMPRE ABERTOS

O engenheiro e ornitólogo Johan Dalgas Frisch, autor de oito livros sobre aves e presidente da APVS – Associação de Preservação da Vida Selvagem, conhecido como Senhor dos Pássaros, tem vários “restaurantes” de aves em pleno bairro nobre do Morumbi, centro de São Paulo. Esses “restaurantes” estão na cobertura de seu apartamento, outros “restaurantes” na casa que funciona como seu escritório na Praça Uirapuru e, outros, dentro da Reserva Ecológica do Morumbi, que ele próprio cuida e protege. Todos eles ficam abertos dia e noite. Não sofrem nenhum tipo de proibição e embargo por causa da pandemia de coronavírus.

Para o ornitólogo Dalgas Frisch, paulistano a quatro meses de completar 91 anos, “as aves amam São Paulo. E a recíproca é verdadeira: São Paulo ama as aves”.

 

DIVERSIDADE DE VIDA

Johan Dalgas Frisch explica que não são apenas as aves corriqueiras como sabiás, tico-tico, bem-te-vi, maritaca, pombas, rolinhas e outras mais de 370 espécies que habitam a capital paulista. “Essas são aves endêmicas, bem brasileiras, naturais das matas e arredores que habitam os 62 parques municipais e estaduais, como por exemplo o da Cantareira e o da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo. Também habitam São Paulo muitas espécies ameaçadas de extinção como arara, papagaio, jandaia, mutum, jacu, codorna, saíra-sete-cores. Inclusive aves migratórias, como as andorinhas azuis (progne subis) e falcões peregrinos, que vêm para o Brasil fugindo do inverno do hemisfério norte”.

Salienta Dalgas Frisch: “Nós paulistanos temos que seguir o lema de nossa cidade, presente em seu brasão oficial, que é “Non ducor, duco”, uma frase latina que significa “Não sou conduzido, conduzo“. É justamente com educação ambiental, respeito à natureza e solidariedade entre humanos e o meio ambiente que vamos conduzir nosso povo, nossos trabalhos para um bom termo de nossas vidas. Nós temos de agradecer por tanta diversidade que recebemos”, enfatiza Dalgas Frisch.

 

O ornitólogo Johan Dalgas Frisch lembra que as aves são prestadoras de serviços ambientais de valores inestimáveis. “As aves são essenciais para a polinização de flores, dispersão de sementes e, sobretudo, para o controle de pragas. Nunca podemos esquecer o valor das aves migratórias como as andorinhas-azuis que se alimentam de pequenos insetos, larvas, lagartas e pernilongos. Esses mosquitos são transmissores de malária, dengue, febre amarela e até da zica. Sem o predador natural, esses insetos começam a se procriar de maneira alucinante. O que acontece? Evidente que vão aumentar as doenças.

Conta Johan Dalgas Frisch que em 1980, esteve em Tóquio, no Palácio Aoyama, numa audiência com a equipe do então príncipe Naruhito. “Entreguei a ele meus livros e relógios sobre as Aves Brasileiras. Ele me disse que seu pai, o Imperador Akihito, tinha nos jardins do Palácio Imperial vários comedouros para diversas espécies de aves. Consegui autorização para ver de perto como era o local. A visita me inspirou a fazer o mesmo aqui em São Paulo”.

 

JANDAIAS, ASA BRANCA E BURLE MARX

Em suas publicações, Dalgas mostra que a natureza dá à vida do homem um sentido divino. Temos que entender a vida de forma holística, pois seus ciclos obedecem a caprichosos caminhos e mudanças. As aves são joias da natureza.

 

As jandaias têm hora marcada para chegar aos refeitórios construídos pelo ornitólogo Jahan Dalgas Frisch.

 

Dalgas Frisch lembra bem de um encontro que teve com o paisagista Roberto Burle Marx. Na conversa com o maior paisagista do mundo, Burle Max foi taxativo:

– “Olha, Dalgas, um botânico não entende de pássaros. E você, como ornitólogo, também não domina o conhecimento sobre as plantas. Mas aí está sua importância que é justamente fazer essa ponte entre o ornitólogo e o paisagista, duas profissões que tem a natureza como matéria prima. Você é um engenheiro apaixonado pela ornitologia e pela botânica. Use seu dom de divulgar os cantos das aves e de escrever sobre plantas para promover a arborização das praças e dos parques para compor um ambiente que valorize as cores e os cantos do Brasil”.

Dalgas Frisch aprendeu a lição e assumiu sua responsabilidade. Por isso, à véspera de completar 91 anos, Dalgas Frisch continua protegendo as águas e as florestas, gravando cantos das aves, filmando, fotografando essas joias da natureza.

 

AS JANDAIAS

Nos seus livros, o ornitólogo explica que a fauna mundial é muito diversificada, o que faz com que diversos gêneros de animais acabem gerando um grande número de espécies. E quando se fala especificamente de aves, é a mesma coisa. Elas também fazem parte desse grupo de animais que possuem diversos exemplares diferentes para o mesmo gênero. É também o caso das jandaias. A jandaia é uma ave que possui três variações de espécies com várias diferenças entre si.

As jandaias são encontradas mais facilmente nas matas brasileiras. Existem pelo menos três espécies, que fazem parte da família Psittacidae, a mesma família a que animais como a calopsita, o papagaio, a aratinga e o periquito pertencem, o que explica um pouco mais profundamente seu nome científico. É um pássaro de porte pequeno, medindo no máximo 30 centímetros, pesando no máximo 130 gramas, sendo pouco menor do que o papagaio.

Quanto à sua cor, as penas tendem a ser verdes, com pontos amarelos na região da cabeça, enquanto a barriga se aproxima do vermelho. As jandaias são ameaçadas por conta da caça ilegal, já que é uma espécie muito dócil e de rara beleza.

 

 

POMBA ASA BRANCA

Há algum tempo, depois das campanhas de proteção às aves, a pombinha asa-branca voltou aos parques e jardins de São Paulo. Tem o nome científico de Patagioenas picazuro. Voltou, diz a lenda, porque seus conterrâneos nordestinos viraram paulistanos. Ou, quem sabe, por encontrar benfeitores, como Dalgas Frisch, que promoveram um “Fome Zero” para as aves.

O fato é que as pombas asa-branca estão de volta como mostram a filmagem anexa de Johan Dalgas Frisch. Como na canção de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, a Asa Branca é uma promessa de dias melhores. De esperança. De deixar as lágrimas para cantar a volta do amor.

…Quando o verde de teus oios

Se espaiá na plantação

Eu te asseguro, num chore não, viu?

Que eu voltarei, viu? Meu coração…                                     

 

ASAS URBANAS

Com o isolamento social, a grande maioria da população confinada em casa tem olhares mais atentos para a natureza

 

Picapau

Beija-flor

 

As aves urbanas são inteligentes e têm capacidade maior de adaptação a ambientes diversos. É o que dizem as pesquisas. Segundo ornitólogos, como Johan Dalgas Frisch, as aves urbanas – das grandes e pequenas cidades – tem cérebros mais desenvolvidos e se adaptam com maior facilidade. Principalmente se elas encontram reservas, parques e matas próximas onde podem se reproduzir com segurança.

 

A coruja-buraqueira (Athene cunicularia também chamada caburé-do-campo, coruja-da-praia, coruja-do-campo, coruja-mineira e urucuera.

O gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea) é uma ave passeriforme da família Fringillidae. Também é conhecido pelos nomes de bonito, gaturamo-itê e guiratã.

Sabiá laranjeira, ave símbolo nacional, presente no cotidiano da vida nacional e a mais cantada em verso e prosa pelo cancioneiro popular.

 

Com o combate intensivo ao tráfico de animais e com o maior respeito pelas aves, se pode notar o aumento da quantidade e da diversidade das aves.
Com o isolamento social, a grande maioria da população confinada em casa tem olhares mais atentos para a natureza. E podem sentir melhor a sua presença. As aves estão por todos os lados. As espécies encontradas em áreas urbanas tendem a ser “comuns”, mas isso não diminui a importância delas, tão pouco a beleza e o brilho de contemplá-las.

 

TESE DE DOUTORADO

O doutor em Ecologia Alexandre Gabriel Franchin fez sua tese de doutorado sobre a “Avifauna em áreas urbanas brasileiras, com ênfase em cidades do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba”. Em sua tese, apresentada à Universidade Federal de Uberlândia, Alexandre Franchin diz que a despeito da existência de vários trabalhos isolados sobre a avifauna em cidades brasileiras, o conhecimento sobre essas aves em uma escala mais ampla ainda é incipiente. Fanchin focou sua pesquisa no Triângulo Mineiro, mas lembra que há muito a pesquisar outras regiões urbanas, em biomas diferentes como Mata Atlântica, Campos do Sul, Cerrado, Caatinga e Amazônia. Quais são as espécies que ocorrem nas cidades brasileiras? Como elas se distribuem em termos regionais? As áreas urbanas podem manter uma avifauna valorosa em termos conservacionistas? Qual é a avifauna encontrada nas cidades no Brasil e qual a status de conservação dessa avifauna no ambiente urbano?

 

 

 

 

 

Continue a Ler

Artigos

Dia da Caatinga

O bioma Caatinga ocupa cerca de 11% do Território Nacional

Publicado

em

 

A Caatinga também tem seu dia. E a comemoração ocorreu no final de abril, dia 28. Sempre houve comemorações para ratificar a importância do ecossistema da Caatinga no cenário ambiental brasileiro. Seminários, demarcação de unidades de conservação como a criação do Parque Nacional e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Boqueirão da Onça, protegendo cerca de 843 mil hectares.

 

CAATINGA É 11% DO BRASIL

 

A Caatinga ocupa cerca de 11% do território nacional. Abrange áreas dos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Sergipe e o norte de Minas Gerais. Vinte e sete milhões de pessoas vivem atualmente na região, o que causa forte impacto sobre os recursos naturais. Nada menos que 80% dos ecossistemas originais foram alterados, principalmente por meio de desmatamentos e queimadas, em um processo de ocupação que começou nos tempos do Brasil colônia. Ainda hoje, grande parte da população da Caatinga utiliza os recursos da biodiversidade para sobreviver. Importante salientar que esses mesmos recursos, se conservados e explorados de forma sustentável, podem impulsionar o desenvolvimento da região.

A proteção da Caatinga tem ainda ligação com a mudança do clima que, entre outras coisas, causa a redução do volume das chuvas e, em consequência, a dificuldade de recarga dos aquíferos – fator decisivo para acelerar o processo de desertificação. Tudo isso alerta ainda mais a sociedade para a importância de se conservar o bioma.

 

A Caatinga é frequentemente associada à seca, pobreza e pouca biodiversidade, mas ao contrário do que se pensa, esse bioma confere valores biológicos e econômicos significativos para o país. A “floresta branca”, como é chamada em tupi-guarani, evita a emissão do gás carbônico (CO2), conserva a água e o solo e é fonte de matérias primas como frutos silvestres, forragem, fibras e plantas medicinais.

 

Poligonal do Parque Nacional do Boqueirão da Onça

 

 PONTO DE VISTA

 CAATINGA: O VALOR DA FLORESTA BRANCA

 Por Arnóbio de Mendonça Barreto Cavalcante –  Pesquisador-adjunto, ecólogo do Ministério da Ciência e Tecnologia e do Instituto Nacional do Semiárido

O Decreto Federal de 20 de agosto de 2003, publicado no Diário Oficial da União, seção 1, edição 161, página 5, de 21 de agosto de 2003 instituiu o Dia Nacional da Caatinga, comemorado no dia 28 de abril de cada ano. A data homenageia o professor João Vasconcelos Sobrinho (1908-1989), pioneiro na área de estudos ambientais no Brasil. (Ver matéria especial sobre o prof. João Vasconcelos Sobrinho)

 

O Dia Nacional da Caatinga foi celebrado oficialmente pela primeira vez no Seminário “A Sustentabilidade do Bioma Caatinga”, ocorrido nos dias 28 e 29 de abril de 2004, em Juazeiro, na Bahia.

Caatinga é um termo de origem Tupi-Guarani e significa floresta branca.

O termo resulta da combinação dos elementos ca-a (floresta), tî (branco) e o sufixo ngá, (que lembra). A razão para esta denominação reside na aparência que a floresta revela durante a estação seca, quando a quase totalidade das plantas estão sem folhas e os troncos brancos e brilhosos, extraordinárias estratégias para diminuir as perdas de água nesta estação. Outra estratégia destacável são as folhas modificadas na forma de espinhos.

 

Caatinga: tempo de pesquisa e estudos na Floresta Branca.

 

VEGETAÇÃO XERÓFILA

Com esse conjunto mínimo de adaptações à deficiência hídrica, a Caatinga se mostra como uma vegetação xerófila (amiga da seca), espinhosa e caducifólia, de certo, seus aspectos mais nítidos. Carl von Martius (1794-1868) renomado botânico alemão que esteve no Brasil no século XIX, referiu-se a caatinga como silva horrida (floresta feia).

Verdadeiramente, parece não existir beleza e alegria em algo seco e branco, no entanto, quando as primeiras chuvas caem sobre a caatinga uma extraordinária explosão de cor e vida emerge, numa mudança repentina de paisagem das mais espetaculares do mundo.

 

ECOSSISTEMA BRASILEIRO

Essa cobertura vegetal exclusivamente brasileira é singular, ou seja, não é encontrada em nenhum outro lugar do mundo além do Nordeste do Brasil. Ocupa uma área de aproximadamente 900 mil quilômetros quadrados englobando de forma contínua parte dos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Minas Gerais.

Durante muito tempo a Caatinga foi descrita como ecossistema pobre em espécies e endemismo. No entanto, estudos recentes apontam o contrário. A flora já levantada registra aproximadamente mil espécies, das quais um terço são espécies endêmicas (exclusivas). Estima-se que o total de espécies vegetais alcance 2 mil a 3 mil. Ademais, mamíferos, peixes, aves, répteis e anfíbios superam mil espécies com um nível de endemismo bastante variado. É desse patrimônio biológico que o sertanejo obtém madeira, carvão, carnes, frutas, plantas medicinais, fibras, mel e forragem para os rebanhos.

 

ESTRESSE AMBIENTAL À CAATINGA

 

Infelizmente, o mau uso e ocupação da terra pelo Homem têm, há tempos, levado um estresse ambiental à Caatinga sem precedentes na história. Isso ficou definitivamente constatado quando o Ibama divulgou um estudo apontando que 45% da Caatinga sofreu drásticas alterações provocadas pelo Homem.

As razões para esse desmantelamento da Caatinga tem sido o uso da mata nativa para lenha e carvão e o avanço de polos agropecuários. Para dar uma ideia da velocidade da destruição, entre 2002 e 2008, a Caatinga foi removida o equivalente a 1.657.600 campos de futebol, conforme o estudo do Ibama.

Essas informações são graves e mais graves se tornam quando apenas 7% da Caatinga recebem cuidados mediante unidades de conservação.

Que nos sirva de consolo a criação do Parque Nacional do Boqueirão da Onça (BA). Duplica a área protegida de Caatinga atual. Com cerca de 800 mil hectares será a maior unidade de conservação do Nordeste e a maior fora da Amazônia.

O Boqueirão da Onça é um lugar muito especial, importante pela sua natureza, com destaque para as onças. O parque, além de preservar a natureza, promoverá o turismo e permitir que a sociedade conheça essas maravilhas”.

O Parque Nacional do Boqueirão da Onça é um parque nacional brasileiro localizado na Bahia, nos municípios de Campo Formoso, Juazeiro, Umburana, Sobradinho e Sento Sé, às margens do rio São Francisco. A região do parque guarda a maior população de onças-pintadas da Caatinga.

 

Continue a Ler

Artigos

Alimentação e segurança para as aves urbanas

Comedouros para pássaros estimulam diversidade de aves nas cidades

Publicado

em

 

Tem sempre alguém que pergunta: alimentar pássaros silvestres nas casas, jardins ou praças das cidades é prejudicial? A resposta é complexa, mas bem fácil de entender. Existe um mundo ideal que é justamente proteger as florestas e matas para que os animais, incluindo pássaros, possam viver em liberdade e encontrem naturalmente seus alimentos. Mas o mundo real é diferente. Os seres humanos ao construírem suas casas, seus abrigos, seus empreendimentos e suas cidades vão ocupando as áreas selvagens e encurralando – até expulsando – os animais de seus habitats. E mais ainda: as aves exercem um fascínio muito grande sobre os seres humanos, por isso alimentar pássaros é uma atividade muito antiga, que ocorre em todos os cantos do mundo. Assim, não prendendo aves e outros animais selvagens em cativeiros ou gaiolas, deixando-os soltos na natureza, mas buscando ajudá-los na alimentação e oferecendo proteção para que desfrutem também o ambiente urbano é uma ação exitosa que recebe incentivo de biólogos e urbanistas.

 

Os comedouros para aves podem ser sofisticados e muito simples como esses providenciados por Roberto Harrop no seu condomínio Bosque Águas de Aldeia, em Pernambuco.

 

 

 

 

Os especialistas dizem que, na Europa, alimentar pássaros é uma atividade comum. Não é considerada ilegal, muito pelo contrário, é incentivada pelas comunidades. Há também um empreendimento que caminha junto com essa atividade: a indústria e as lojas especializadas na venda de rações balanceadas para pássaros. Existem até o comércio de ninhos artificiais e de bebedouros dos mais variados. O rigoroso inverno europeu causa, muitas vezes, um grande impacto em determinadas espécies devido à dificuldade em buscar alimentos, principalmente quando a camada de neve permanece no solo durante algumas semanas. Nessas condições, recomenda-se alimentar os pássaros.

 

 

 

 

 

 

Continue a Ler

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010