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Gentileza com o cidadão

Escrever com ritmo, simplicidade e beleza é uma arte. Escrever com clareza é uma obrigação.


Silvestre Gorgulho


Escrever com ritmo, simplicidade e beleza é uma arte. Escrever com clareza é uma obrigação. A professora-jornalista Dad Squarisi gosta sempre de lembrar, em suas aulas gráficas, o filólogo mineiro Celso Cunha (tio do governador Aécio Neves) que plantou uma verdade: “Ser claro é uma gentileza com o leitor”. Escrevo isto para lembrar e exaltar o texto do Procurador Geral da República, Antônio Fernando Barros e Silva de Souza, ao denunciar os arrolados no inquérito do “Mensalão”. Sem um “data vênia”, sem uma frase em latim e nem mesmo uma rebuscada citação de algum imortal, Antônio Fernando foi extremamente claro, didático e transparente. Um texto livre, leve e solto para o motorista, a secretária, o publicitário e até o deputado entender. O Procurador Geral foi bem objetivo nas 136 páginas que citou os 40 indiciados: os nomes são estes, os fatos são estes, os crimes são estes, as provas são estas e as testemunhas são estas.


O texto de Antônio Fernando contrasta com a grande maioria das sentenças e apelações judiciais feitas para mostrar o conhecimento técnico e cultural do autor. Ou para mostrar erudição e impressionar seus pares e clientes. Textos tão requintados e esmerados que fazem dos leitores comuns, vítimas de uma linguagem jurídica.


E o que esta questão tem a ver com o meio ambiente? Tudo! Pois tem a ver com a qualidade de vida da sociedade em geral e das pessoas em particular. O conhecimento e a compreensão do que se lê, seja sobre um texto de referência política, econômica, médica, ambiental ou jurídica faz uma primeira justiça: ser compreendido por cidadãos comuns.
Se o judiciário tem reduzidíssima sensibilidade para ser entendido pelo cidadão comum, como terá sensibilidade para os interesses dos mais fracos, dos mais pobres e dos interesses coletivos? Para as ações do Ministério Público terem maior alcance e melhor resultado elas precisam ser compreendidas pela maior parte da sociedade.


O próprio procurador regional da República, Alexandre Camanho, explica que a Constituição brasileira atribuiu ao Ministério Público também a defesa do meio ambiente.


Esta circunstância permite uma visão de conjunto muito mais eficaz na defesa da Natureza, na preservação de unidades de conservação, na gestão da água, nas discussões sobre passivo ambiental, no julgamento de crimes ambientais. Mas se em suas ações, os membros do Ministério Público ficarem falando ou escrevendo para si próprios, com textos vangloriosos, afetados e pretensiosos, o recado não vai chegar a quem precisa. É inaceitável levar ao público um texto confuso e ininteligível. Toda atividade jurídica também é uma sessão pública. O maior interessado é sempre o cidadão. Textos rebuscados, confusos e intelectualizados vão obrigar o cidadão comum a contratar um intérprete.
Antônio Fernando Souza deu um exemplo. Foi duro, honesto e escreveu com clareza.


Ser claro é, também, uma gentileza com o cidadão.


summary


Kindness to citizens


It is an art to be able to write with rhythm, simplicity and beauty. To write with clarity is an obligation. The professor and journalist, Dad Squarisi likes to remind students in her graphic classes of the philologist Celso Cunha from the state of Minas Gerais (uncle of the state governor Aécio Neves) who planted the seed of the truth: “To be clear is a kindness to the reader.” I write this to remind us of and applaud the statement made by the Attorney General of the Republic, Antônio Fernando Barros e Silva de Souza, when condemning the underhanded dealings, which took place during the investigation of the “Monthly Kickback” system. Without any ‘data venia’, no references in Latin and no fancy quotes from some immortal personage, Antônio Fernando was very clear, informative and transparent. His statement was couched in language easy enough for anyone from a driver, to a secretary, publicity agent or state representative to understand. The Attorney General was extremely objective in the 136 pages in which he named the 40 persons indicted: those are the names; these are the facts; these are the crimes, the evidence and the testimony.
The text by Antônio Fernando contrasts greatly when compared to that of the large majority of sentences and judicial appeals handed down to demonstrate the technical knowledge and cultural level of the author, or made to depict his/her erudition and impress their peers and clients – texts which are so refined and steeped in legalese that the make the common readers victims of legal language.
So what does this have to do with the issue of the environment? Everything. It has to do with the quality of life of the society in general and the people in particular. The knowledge and understanding of what is read, be it a text that has a political, economic, medical, environmental or judicial reference must be fair in the first place; the common citizenry must understand it.
If the judicial branch does not have even the smallest amount of compassion to want to be understood by the common citizen, how will it be compassionate enough on behalf of the weakest, the poorest and the collective interests? To enable the actions of the Government to have greater reach and better results, it must be understood by the majority of the society.
The Federal regional attorney general himself, Alexandre Camanho, explains that the Brazilian Constitution has assigned to the Government as well, the defense of the environment. This circumstance enables a much more efficient vision of the whole in defense of Nature, in the preservation of the conservation units, water management, discussions regarding environmental liabilities, and in the judgment of environmental crimes. However, if in its actions the members of the Government continue speaking or writing to themselves using vainglorious, affected and pretentious rhetoric, the message will not be received by those who need it. It is unacceptable to provide the public with confusing and unintelligible statements. All judicial activities are also a public session. The most interested party is, at all times, the citizen. Fancy, confusing and intellectualized texts will oblige the citizen to hire an interpreter.
Antônio Fernando Souza set the example. He was tough, honest and wrote with clarity. Being clear is also a kindness to the citizens.


SG

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ORGANIZADOR DO LIVRO O ASSASSINATO DE JK PELA DITADURA

“Os elementos são avassaladores”

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»Entrevista | MARCO AURÉLIO BRAGA | ORGANIZADOR DO LIVRO O ASSASSINATO DE JK PELA DITADURA

 

SILVESTRE GORGULHO
Especial para o Correio

Qual foi a força que levou à tona o que mostram JK foi assassinado na Via Dutra?
Porque o trabalho acumulou ao longo de uma década finalmente encontrou caminho institucional adequado. Hoje o caso JK está formalmente instalado perante a CEMDP, que, pela primeira vez na democracia e de verdade no Brasil, tem o poder-dever de aplicar o princípio in dubio pro victimae e declarar a morte de JK como violenta e causada pelo Estado. O mesmo tempo, a Resolução nº 50/2024 criou o mecanismo operacional para a retificação das certidões de óbito, e em janeiro de 2025, a certidão de Rubens Paiva foi retificada nesses termos. No caso JK, esse é o passo seguinte natural e juridicamente necessário.

O que o inquérito do MPF trouxe de inédito ao debate?
O MPF fez um trabalho muito relevante, pois o trabalho também muito importantes das Comissões da Verdade: ouviu pessoas, como o chefe da Polícia Política chilena, Contreras, que afirmou a atuação conjunta das ditaduras no contexto da Operação Condor; ouviu o motorista José Oliveira e outras testemunhas, confirmando que jamais ocorreu colisão do ônibus com Opala. Além disso, realizou perícias independentes, sobre a colisão e sobre os procedimentos médico-legais que demonstram, de maneira irretorquível, que a versão da ditadura foi uma farsa, com qualidade técnica sofrível.

Essas provas devem ser analisadas pela Comissão sob o regime jurídico que é da sua competência: apuração de busca da verdade e da memória nacional, e de reconhecimento da responsabilidade das vítimas.

Qual é a importância do princípio in dubio pro victimae para o desfecho do caso?
É o coração jurídico do processo. O princípio reconhece uma realidade que qualquer pessoa honesta pode admitir: é próprio para o processo de reconstrução histórica para eliminar evidências, fabricar laudos, forjar versões. Exigir, quase 50 anos depois, a mesma prova plena que se exigiria num processo penal comum é premiar exatamente essa estratégia de ocultamento. E fazer o Estado se beneficiar dos seus próprios crimes. No caso JK, os elementos são avassaladores para a atuação: por esse critério. A notícia da morte foi plantada na imprensa dias antes de ocorrer. O laudo oficial foi considerado tecnicamente inepto pelo próprio Judiciário da ditadura. Existem documentos e serviços de inteligência estrangeiros registrando planos de eliminação de JK. Há testemunhos e ameaças recebidas. Tentativas de suborno e outras alterações do motorista do ônibus foi incoerente. Tudo isso, avaliado pelo in dubio pro victimae, aponta numa única direção: a declaração pelo assassinato político.

O que a decisão da comissão significa para o Brasil?
Significa que o Estado, finalmente, assume a verdade. Não como um gesto simbólico, mas como um ato jurídico com todas as consequências que isso implica para a memória, para a reparação, para a história. Significa também que a democracia tem memória longa e suficiente para não deixar impunes as mentiras que a ditadura fabricou. E tem um significado que vai além do caso JK. Cada vez que o Estado brasileiro diz “essa morte foi política, foi causada por nós, no contexto de uma perseguição sistemática”, ele está construindo uma barreira contra a repetição. Está dizendo às gerações que vêm depois que aquilo teve nome, teve vítimas, teve responsáveis — e teve consequências. O caso JK não é sobre o passado: é sobre o futuro do país — um país que não conta mentiras e diz que suas verdades; um país em que podemos acreditar no Estado e nas autoridades; um país decente.

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TORRE DIGITAL DE BRASILIA

Uma epopeia no céu da capital em noite de lua cheia.
Trem bonito demais.
(foto: Leo Caldas)

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Projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, a Torre Digital de Brasília é um dos marcos mais contemporâneos da capital federal. Inaugurada em 2012, a estrutura se destaca pela forma futurista e pela função estratégica: centralizar a transmissão de sinais de rádio e televisão para o Distrito Federal e região.

Com aproximadamente 182 metros de altura, a torre combina tecnologia e estética. Seu design remete a uma flor do Cerrado — referência direta ao bioma predominante na região — com duas cúpulas de vidro que funcionam como mirantes. Do alto, é possível contemplar uma vista privilegiada de Brasília, evidenciando o planejamento urbano característico da cidade.

Mais do que um equipamento técnico, a Torre Digital representa a evolução da comunicação no Brasil e reafirma a vocação de Brasília como cidade símbolo de inovação arquitetônica.

No campo da literatura, o livro A Flor do Cerrado, de Silvestre Gorgulho, oferece uma leitura sensível e profunda sobre o Cerrado brasileiro. A obra reúne crônicas, reflexões e narrativas que valorizam a biodiversidade e a riqueza cultural desse bioma, frequentemente subestimado.

Silvestre Gorgulho constrói, ao longo do livro, uma homenagem à natureza resiliente do Cerrado. Suas palavras revelam a beleza escondida nas paisagens aparentemente áridas, destacando a força das flores que resistem ao clima seco e às queimadas naturais. Ao mesmo tempo, o autor chama atenção para a necessidade de preservação ambiental e para os impactos da ação humana.


Conexões entre arquitetura e literatura

A Torre Digital e A Flor do Cerrado dialogam de maneira simbólica. Enquanto a torre traduz em concreto e vidro a inspiração nas formas orgânicas do bioma, o livro transforma essa mesma essência em linguagem poética.

Ambos representam diferentes formas de enxergar o Cerrado: uma pela inovação arquitetônica, outra pela sensibilidade literária. Juntas, essas expressões reforçam a identidade cultural de Brasília e destacam a importância de valorizar o patrimônio natural brasileiro.

Assim, seja pela imponência da Torre Digital ou pela delicadeza das palavras de Silvestre Gorgulho, o Cerrado se revela não apenas como cenário, mas como protagonista da história e da cultura do país.

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BRASÍLIA NA ROTA 66

E A FALTA
DE UM PARABÉNS PRÁ VOCÊ

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Silvestre Gorgulho – Jornalista. Foi Secretário de Estado de Comunicação e Secretário de Estado da Cultura de Brasília.

 

Há 70 anos, em 18 de abril de 1956, Brasília começou a vencer a burocracia para sair do papel e entrar na fase do concreto, com a Mensagem de Anápolis.

Em 21 de abril de 1960, a capital era inaugurada com pompa e circunstância pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Lá se vão 66 anos. Nos 65 aniversários anteriores, os brasilienses assistiram a comemorações variadas: algumas simples, mas eufóricas. Outras apoteóticas. Todas sempre regadas a danças e festanças. Mas, nunca, o aniversário de Brasília foi comemorado com tanta displicência, apatia e baixo astral, como agora. A festa dos 66 anos de Brasília ficou restringida à bela edição do irmão gêmeo de Brasília, o Correio Braziliense, inclusive com a tradicional e empolgante Maratona.

Parece que Brasília está em depressão.

Lembro-me que, em 21 de abril de 2010, no Cinquentenário da Cidade, depois da capital ter passado pela crise de ter quatro governadores, a Câmara Legislativa elegeu, indiretamente, dois dias antes, um novo ocupante do Buriti. Mesmo com tantas cicatrizes, a cidade lavou a alma com uma ‘Festa dos 50 Anos’, que levou mais de um milhão de pessoas à Esplanada dos Ministérios.

Não havia nem um político no palco. A festa foi totalmente paga pela iniciativa privada com apoio logístico da Secretaria de Cultura. Deram às mãos o Sinduscon, Associação Comercial, Ademi, Asbraco e Fecomércio. Brasília cantou e dançou com Daniela Mercury – que foi âncora de um show histórico na Esplanada, onde se apresentaram com ela nada menos de 39 artistas da cidade.

À meia noite. Uma grande surpresa estava guardada a sete chaves. Apenas cinco pessoas sabiam.  Além da Daniela Mercury, eu como Secretário de Cultura e mais duas pessoas de minha equipe. E, também, o próprio gênio da MPB que iria se apresentar, cantando apenas uma canção.

Apagaram-se as luzes. Estava anunciado o início da queima de fogos. Antes, um canhão de luz focou diretamente o palco e uma voz límpida e forte, a capela, ecoou pela escuridão. Aos poucos, sob o holofote, surge Milton Nascimento.

– ” Como pode o peixe-vivo / viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”

Foi uma apoteose!

A voz de Milton Nascimento reverberou pelos quatro cantos do Brasil. Sim, a TV Globo transmitiu tudo ao vivo. Um misto de euforia e de emoção tomou conta da multidão.

Na segunda estrofe, entra Daniela Mercury que faz dueto com Milton. Aos poucos, começam a entrar cada um dos 39 artistas brasilienses que tinham se apresentado.

E a Esplanada, num coral de um milhão de vozes, sacudiu o Cerrado:

– “Como pode o peixe-vivo /viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”

Vi muita gente chorando. A energia de tantos candangos celebrando os 50 anos de Brasília contagiou a cidade e ajudou a levantar o astral de um tempo triste e sombrio que a cidade vivia.

Agora, nos 66 anos da Capital, faltou ao atual governo sensibilidade e criatividade para tirar Brasília de uma depressão que a cidade está mergulhada.

BRASÍLIA ANO 1 – Para não dizer que falei apenas dos 50 anos da cidade, vou lembrar a comemoração de quando Brasília fez um ano, em 21 de abril de 1961. O presidente da República era Jânio Quadros. Ele estava de costas para a cidade. Falava até em voltar a Capital para o Rio de Janeiro. O prefeito, Paulo de Tarso, assoberbado com finalizações de infraestrutura e questões administrativas, nem pensou no assunto.

Na semana anterior, o então Secretário da Cultura (na época presidente da Fundação Cultural) o poeta maior José Ribamar Ferreira ou, simplesmente, Ferreira Gullar, organizou as comemorações do primeiro aniversário. Evidente, com todas as dificuldades de uma cidade ainda na placenta da História. O que ficou da festa – além de um singelo coquetel no gabinete do prefeito Paulo de Tarso, foi a poesia que nasceu da pena de Ferreira Gullar.

A verdade é que, com seus pouco mais de 100 mil habitantes (hoje são mais 3 milhões), Brasília teve mais poesia do que festança.

Sem nenhum tipo de condução e sem nenhum apoio logístico para celebrar o Ano 1 da nova Capital, Ferreira Gullar buscou solução no Exército Nacional. Marcou audiência.

Um major o recebeu educadamente. Depois de muita conversa, o oficial se saiu com essa:

– Dr. Gullar, tudo bem, mas o problema é viatura e gasolina.

– Eu sei, mas qual a solução?

– Dr. Gullar, não tem solução!

Sem solução, sem apoio, com bastante poeira e muita inspiração, Ferreira Gullar aproveitou o vinho comemorativo no final de tarde do dia 21, na sala do prefeito Paulo de Tarso, sacou do bolso um poema em forma de embolada e discursou aos convivas:

Não adianta, seu prefeito, abrir estrada.

Não adianta Carnaval na Esplanada.

Não adianta Catedral de perna fina

Não adianta rebolado de menina

Que o problema é viatura e gasolina.

Todo mundo riu muito, mas ninguém perdeu o ritmo:

– O problema é viatura e gasolina.

Bons tempos aqueles, quando o astral era altíssimo e o problema era só viatura e gasolina.

 

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Reportagens

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