Reportagens
As trilhas aéreas
Uma outra maneira de curtir a natureza e vigiar o meio ambiente

O belo lago de Serra da
Mesa, no trecho entre Colinas do Sul e Niquelândia
![]() Alexandre Curado e seu instrumento de trabalho número um: o ultraleve. O número dois é a câmera fotográfica |
Silvestre Gorgulho,
de Brasília
Ecoturismo é a atividade de lazer que
mais cresce dentro do segmento de turismo.
A observação de aves, visita
a parques nacionais e reservas ecológicas,
visitação de grutas, passeios
a pé, de jeep, de motos e a cavalo
são atividades que requerem algo em
comum: uma trilha. Em junho próximo
vai acontecer no Rio de Janeiro o I Congresso
Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas.
E por falar em trilha, uma outra novidade
surge nos céus do Brasil: a trilha
aérea. Este é um esporte que
pode ser feito em asa delta, em balão
ou, porque não, num ultraleve. Em Brasília,
o técnico da Codevasf Alexandre Curado
tem seu ultraleve e aproveita para monitorar
o meio ambiente, controlar desmatamentos,
cadastrar focos de poluição
e de erosão e fazer seus vôos
panorâmicos. Mas acima de tudo, Alexandre
Curado curte e divulga as belezas do Cerrado.
FMA – Como é
esta história de fazer trilha aérea?
Alexandre Curado – Na verdade comecei
fazendo trilha a pé. Depois a cavalo.
Depois de moto. Hoje estou fazendo as trilhas
aéreas, utilizando pequenas aeronaves
do tipo ultraleve, com tanques extras, a autonomia
chega a 12 horas podendo percorrer 1.200km
sem abastecimento.
FMA – Mas são
trilhas só para curtir o visual?
Alexandre – Mais do que o visual,
que já é algo fantástico.
Durantes as trilhas obtenho imagens de grande
formato verticais e oblíquas da superfície
do solo. As imagens ou fotos verticais, podem
ser montadas em conjunto na forma de mosaicos
georreferenciados em sistemas computadorizados.
Com os mosaicos é possível a
representação de áreas
maiores sem as quebras de imagem decorrentes
dos limites das fotos, sendo muito utilizados
para realizar planejamento urbano, mostrando
invasões, corredores urbanos, etc.
Para fazer cadastramento de imóveis
rurais, análises temporais baseadas
na imagem fotográfica, estudos hidrológicos,
bacias hidrográficas, assoreamento
de rios, lagos e inundações.
Na agricultura, por exemplo, as imagens aéreas
podem ser utilizadas para a identificação
e mapeamento de culturas agrícolas,
avaliação de áreas cultivadas,
detecção de áreas afetadas
por pragas e doenças, controle de poluição,
práticas de conservação
do solo e muitas outras finalidades ambientais,
técnicas e socioeconômicas.
FMA – A viagem é
solitária, vão duas pessoas
em cada ultraleve ou é num grupo de
mais de um ultraleve?
Alexandre – No meu caso é
solitária. Para se ter uma autonomia
de 12 horas, preciso levar combustível
extra, equipamentos para acampamento, ferramentas
para pequenos reparos, alimentos desidratados
e água para uns 10 dias. Além
disso levo instrumentos de navegação,
de comunicação e mapas detalhados
da região a ser percorrida.
FMA – Não é perigoso pilotar
e fotografar?
Alexandre – Por segurança e melhor
estabilidade do vôo a altura mínima
para um cobrimento fotográfico fica
em torno de 300m do solo. Essa altura mais
que suficiente para no caso de uma perda de
estabilidade o piloto tenha tempo para fazer
as correções necessárias
para recuperar os comandos e o vôo reto
nivelado.
FMA – Se houver alguém
curioso, que não tenha ultraleve e
queira voar, há possibilidade?
Alexandre – Claro que sim, o que
mais tem são pilotos em aeroclubes
ou em beira de praia dispostos a realizarem
vôos panorâmicos.
![]() Morro do Lagarto: região de Serra da Mesa, no trecho entre N.S. da Abadia do Muquém e Mimoso, em Goiás |
FMA – Essa história
de trilha aérea já é
algo institucionalizado, ou seja, é
algo comum em outros estados ou em outros
países?
Alexandre – Comum não é,
mas conheço histórias de pilotos
com suas pequenas aeronaves, percorrendo grandes
distâncias, pousando em pequenos campos
de no máximo 50m de rolagem, praias
de rio, sobrevoando todo o litoral brasileiro
e acampando nas praias.
Já vi também uma reportagem
na televisão, onde um piloto de Trike
(modelo de ultraleve) saiu da França
e, depois de meses atravessando vários
paises, chegou à África do Sul.
Encontro vai debater
manejo de trilhas
I Congresso Nacional de Planejamento e Manejo
de Trilhas
O crescimento do ecoturismo
no Brasil e no mundo é uma realidade.
As estimativas de novos adeptos, da melhoria
da infra-estrutura de hotéis, pousadas
e trilhas crescem a olhos vistos. A massificação
desta tendência do Ecoturismo e das
atividades ligadas à natureza traz
conseqüências. Boas e más.
As boas podem ser listadas como o incremento
da economia, aumento de empregos e melhoria
de renda no interior, maior preocupação
em preservar. Mas há, também,
o outro lado da medalha: o aumento do impacto
e a descaracterização de muitos
atrativos, tanto pelo aumento das infraestruturas
de suporte, quanto da perda da biodiversidade
e das características responsáveis
pela vocação ecoturística
local. O I Congresso Nacional de Planejamento
e Manejo de Trilhas vai se realizar de 7 a
11 de novembro, no Rio de Janeiro
Neste cenário, apesar
do tema ecoturismo sustentável ser
amplamente divulgado e objeto de vários
encontros, a trilha e seu manejo de modo geral
é relegada a um segundo plano. Nem
sempre é reconhecida como infraestrutura
ou equipamento que deve ter atenção
diferenciada, não só por gestores
de unidades de conservação,
mas também pelos agentes turísticos
que se utilizam destes meios para gerar e
manter negócios. Assim o I Congresso
Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas
vem trazer mais relevância para a questão
do planejamento e manejo de trilhas como ferramentas
essenciais para o desenvolvimento das atividades
recreativas e esportivas na natureza dentro
dos modernos parâmetros de sustentabilidade
e proteção à biodiversidade.
O Congresso
Por ser inédito, este Congresso Nacional
busca evidenciar os principais aspectos onde
se aplicam os conhecimentos de planejamento
e manejo de trilhas. Entretanto, dada a variedade
de possibilidades de enfoques e riqueza de
aspectos a serem considerados e por entender
que se está iniciando uma promissora
caminhada, foram eleitos inicialmente quatro
eixos temáticos: a Trilha (manejo e
manutenção), o Homem (voluntariado
e educação ambiental), a Flora
e Fauna (manejo e recuperação
de áreas degradadas) e o Turismo (recreação
em áreas naturais, educação
e atividades esportivas).
Mais
informações:
http://www.infotrilhas.com/congresso
Depoimento
de Alexandre Curado
Quase no lago azul
do buraco do Inferno…
…O dia estava claro. Céu
azul e ventos moderados, mas um pouco turbulento
devido ao horário entre 12 e 14 horas.
Eu voltava de Serra da Mesa, em Goiás,
em direção a Brasília.
O GPS – Sistema de Posicionamento
Global indicava próximo ao Buraco do
Inferno. Estava em pré-stol ou numa
velocidade mínima de vôo. Preparei
para fazer a foto. Click… Pronto! Fui atingido
por uma corrente de vento ascendente na asa
esquerda e uma descendente na asa direita.
Por estar segurando a máquina fotográfica
com as duas mãos e não os comandos
de vôo, a aeronave entrou em um semi-espiral,
voltando ao vôo nivelado logo em seguida.
Durante aproximadamente três
segundos, tempo que durou esta manobra, vi-me
dentro do Buraco do Inferno. Literalmente!
De frente, tive a nítida sensação
de que estava sendo tragado… Era como se
um rodamoínho estivesse me levando
para seu interior.
Nos momentos de aflição,
lembrei-me dos nove mergulhadores, um cachorro,
um vaqueiro e tantos outros causos e lendas
já contabilizados nas entranhas do
Buraco.
Lembrei-me até, que iria
fazer companhia para as pequenas tartarugas
que vivem no belíssimo lago azul, lá
no fundo do Inferno.
(Alexandre Curado)
Reportagens
Análise técnica do Congresso diverge de parte dos vetos à Lei Orçamentária
Nota das Consultorias de Orçamento subsidia análise do Congresso (ao fundo) sobre vetos do Planalto (em 1º plano)
Leonardo Sá/Agência Senado
Uma nota técnica divulgada pelas Consultorias de Orçamento do Senado e da Câmara dos Deputados questiona parte dos vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Orçamento de 2026. A contestação abrange quatro dispositivos vetados que somam R$ 119,7 milhões em emendas parlamentares.
A análise dos consultores não tem caráter decisório, mas busca oferecer subsídios técnicos para que senadores e deputados possam avaliar, de forma qualificada, a manutenção ou a rejeição dos vetos presidenciais pelo Congresso.
A Lei Orçamentária de 2026 (Lei 15.346) foi sancionada na quarta-feira (14) com vetos do Poder Executivo a 22 dispositivos incluídos no texto por senadores e deputados. No total, os pontos vetados somam R$ 393,7 milhões em emendas.
Segundo a nota técnica, as razões apresentadas pelo Palácio do Planalto para justificar quatro dos vetos “não são pertinentes” do ponto de vista técnico e jurídico.
Um exemplo é o dispositivo que destinava R$ 30,4 milhões a projetos de agricultura irrigada no Nordeste. Segundo a análise, o veto pode gerar o descumprimento de uma regra constitucional que determina a aplicação mínima de 50% dos recursos de irrigação na região.
Outros dois vetos questionados na nota técnica liberavam R$ 89,1 milhões em emendas parlamentares para as áreas de atenção hospitalar e atenção primária à saúde. Segundo o Poder Executivo, as programações seriam “usualmente destinadas a acomodar emendas que teriam destinação específica estabelecida pelos parlamentares”.
De acordo com as consultorias, o argumento “não é cabível”. “As dotações classificadas com o identificador RP 2 [de livre execução pelo Executivo] não são passíveis de indicação, para execução orçamentária, pelos parlamentares. Assim, entende-se que não há pertinência das razões de veto apresentadas pelo Poder Executivo”, pontua o documento.
O último veto considerado não pertinente pelos consultores trata de recursos para a implantação da Escola de Sargentos do Exército em Recife. A programação previa R$ 100 mil.
Pontos convergentes
A nota técnica considera pertinentes os argumentos do Poder Executivo para os outros 18 pontos vetados. Segundo o Palácio do Planalto, a inclusão das programações contraria a Lei Complementar 210, de 2024. Segundo a norma, as mudanças propostas pelos parlamentares no Orçamento precisam observar, cumulativamente, três critérios:
- incidir sobre despesas não identificadas;
- ser de interesse nacional; e
- não ter destinatário específico.
Alguns pontos vetados destinavam recursos para ações de saúde em estados específicos, obras rodoviárias com localização definida e investimentos incluídos por emendas de bancadas e comissões, sem previsão no projeto original do Orçamento.
Um dos trechos vetados reservava R$ 7,5 milhões para a Universidade Federal do Delta do Parnaíba, no Piauí. Outros exemplos são dotações assistência hospitalar e ambulatorial nos estados de Amapá, Tocantins, Ceará, Paraíba, Bahia, São Paulo, Goiás e no Distrito Federal.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Reportagens
Projeto Ciência na Estrada leva experiências científicas a 12 regiões do DF
A programação inclui atividades práticas, exposições e ações educativas voltadas a diferentes faixas etárias
Agência Brasília* | Edição: Chico Neto
Sucesso em 2005, quando reuniu mais de 55 mil participantes em suas edições, o projeto Ciência na Estrada, iniciativa da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti-DF) junto ao Instituto de Gestão e Execução de Projetos (Igepex), segue reforçando a popularização científica em diversas regiões da capital. Neste ano, serão promovidas ações em 12 regiões administrativas, com encerramento previsto no Planetário de Brasília (Plano Piloto).
“Vamos aproximar crianças, jovens e adultos de temas como tecnologia, astronomia, pesquisa científica e tudo que envolva inovação”, afirma o titular da Secti-DF, Rafael Vitorino. “Ao imergir nesse mundo, o conhecimento se amplia, e há uma maior valorização da ciência como ferramenta social de transformação.”
O formato itinerante faz uso de recursos tecnológicos que tornam o aprendizado mais acessível e envolvente. Um dos principais atrativos é o ônibus Ciência na Estrada, uma estrutura com ambientação futurista que simula uma nave espacial, equipada com realidade virtual 360 graus, jogos digitais e conteúdos educativos interativos.
Entre as atrações, destaca-se o projeto Einstein Júnior, iniciativa voltada ao público infantil que promove contato com conceitos científicos por meio de experimentos, oficinas e mediação educativa, complementando as experiências tecnológicas oferecidas pelo projeto.
Para participar, basta acessar a plataforma Sympla e retirar os ingressos gratuitamente conforme as datas escolhidas.
Confira, abaixo, o calendário com os locais de datas para o Ciência na Estrada 2026.
⇒ Ceilândia: 21 a 25 deste mês
⇒ Paranoá: 18 a 22 de fevereiro
⇒ Samambaia: 18 a 22 de março
⇒ Cruzeiro: 22 a 26 de abril
⇒ Estrutural (SCIA), SIA e Guará: 20 a 24 de maio
⇒ Santa Maria: 17 a 21 de junho
⇒ Vicente Pires: 22 a 26 de julho
⇒ Brazlândia: 26 a 30 de agosto
⇒ Arapoanga: 23 a 27 de setembro
⇒ Gama: outubro
⇒ Riacho Fundo: novembro
⇒ Planetário de Brasília (encerramento): dezembro.
*Com informações da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação
Reportagens
Atual sucesso do cinema nacional reflete anos de investimento no setor
Para presidente da RioFilme políticas de Estado foram importantes
Anna Karina de Carvalho – repórter da Agência Brasil
O cinema brasileiro atravessa um de seus períodos mais visíveis e simbólicos no cenário internacional, impulsionado por uma combinação de políticas públicas, continuidade institucional e reconhecimento em grandes festivais. Para especialistas do setor, o atual momento, marcado por prêmios, presença em vitrines globais e renovação de talentos, não é fruto do acaso, mas resultado de décadas de investimento e construção de uma política de Estado para o audiovisual.

A avaliação é do presidente da RioFilme, Leonardo Edde, que destaca a importância de transformar o bom momento em um ciclo duradouro.
“O momento do cinema brasileiro é realmente fantástico. É um momentum, como outros que já tivemos ao longo das décadas, sempre com altos e baixos. O que a gente tenta agora é que esse momentum seja o mais extenso possível”, afirmou.
Segundo ele, a recente sequência de destaques ─ que vai de produções consagradas no Oscar e no Globo de Ouro a filmes selecionados em Cannes e, agora, no Festival de Berlim ─ revela a diversidade regional e criativa do país.
“Você tem o Rio, com Ainda Estou Aqui, Pernambuco, com O Agente Secreto, e agora o Brasil chegando a Berlim com projetos de jovens cineastas. É São Paulo, é diversidade, é o Brasil aparecendo”, disse.
Para Leonardo Edde, a chave para sustentar esse crescimento está na continuidade das políticas públicas.
“O que a gente está estruturando é uma política pública perene, com ciclos longos, sem interrupções como vimos em outros momentos da história”.
“Se não houver interrupção, o cinema brasileiro vai estar sempre em alta, porque a gente tem realizadores, artistas, produtores e empresas incríveis”, afirmou.
Ele lembra que o reconhecimento internacional dialoga diretamente com a economia criativa e outros setores. “Isso anda junto com turismo, PIB, indústria. O audiovisual é indústria.”
Na avaliação do presidente da RioFilme, o Brasil avança no caminho de uma indústria audiovisual mais sólida, mas ainda enfrenta desafios estruturais.
“A gente está numa crescente. O Brasil é a bola da vez, mas precisa ser a bola da vez com mais recorrência. Temos um mercado interno forte, mas precisamos nos internacionalizar mais”, disse.
Leonardo Edde reforça também que o papel do poder público vai além do financiamento da produção. “Não é só fomento. É distribuição, promoção e salas de cinema. A sala ainda é o ambiente mais nobre para o filme, e é nossa responsabilidade cuidar desse ecossistema.”
Políticas de incentivo
Nesse sentido, políticas públicas como o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e a Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet, cumprem papéis complementares: a Rouanet estabelece segmentos específicos que podem receber apoio por meio de incentivo fiscal, como produções audiovisuais de curta e média-metragem e a construção e manutenção de salas de cinema, enquanto os longas-metragens recorrem majoritariamente ao FSA.
No caso de O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui, as obras premiadas não utilizaram recursos da Rouanet, já que a lei não financia longas.
Em declarações recentes, em janeiro de 2026, Wagner Moura defendeu enfaticamente a Lei Rouanet e outros mecanismos de fomento, reagindo a críticas e desinformação sobre o tema, ao afirmar:
“Eu não posso explicar a Lei Rouanet para quem ainda não assimilou a Lei Áurea”, sugerindo que a resistência às políticas culturais reflete uma incompreensão histórica sobre o papel do Estado.
Já o FSA, administrado pela ANCINE, é hoje um dos principais instrumentos do setor, investindo em todas as etapas da cadeia produtiva: que vai do desenvolvimento à distribuição e sendo amplamente utilizado por grande parte dos longas-metragens brasileiros de maior repercussão.
Desafio de atrair o público
Para a crítica de cinema Flávia Guerra, o atual reconhecimento do cinema brasileiro, impulsionado por títulos como O Agente Secreto, tem um impacto que vai além da bilheteria imediata.
“Toda vez que a gente vive uma boa fase como essa, iniciada no ano passado e que continua agora, é importante lembrar que isso é fruto de décadas de trabalho e de política pública de Estado para o audiovisual”, afirmou.
Flávia pondera que o prestígio internacional não se converte automaticamente em público nas salas, um desafio ampliado pela pandemia e pelo avanço do streaming.
“Ainda enfrentamos dificuldades para levar os filmes brasileiros ao cinema, para conquistar o público e para se manter em cartaz. Mas há um ganho imenso de prestígio. O público começa a ver o filme brasileiro como algo natural no multiplex.”
Nesse contexto, ela destaca a fala de Kleber Mendonça Filho no Globo de Ouro, dirigida especialmente aos jovens.
“Esse clima de ‘Copa do Mundo’ da cultura é muito importante. Assim como no esporte ou na música, ver nossos artistas lá fora inspira jovens a enxergar o audiovisual como profissão, como carreira possível”, disse o diretor.
Para a crítica, a mensagem de Kleber dialoga com um momento global de crise, mas também de oportunidade. “Não desistam do audiovisual. Ele emprega uma cadeia inteira, do motorista da van ao catering, da pousada ao mercadinho. É indústria. A Coreia do Sul está dando aula nesse sentido há anos.”
Berlim e a nova geração
A presença brasileira no Festival de Berlim 2026 se consolida com produções selecionadas em diferentes mostras: Feito Pipa (Gugu’s World), de Allan Deberton, integra a Generation Kplus; Papaya, de Priscilla Kellen, primeiro longa brasileiro de animação selecionado na história do festival, também está na Generation Kplus; A Fabulosa Máquina do Tempo, documentário de Eliza Capai, completa a presença brasileira na mesma mostra; e Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira, foi escolhido para a mostra Panorama, uma das vitrines centrais da Berlinale.
Para Flávia Guerra, o destaque de filmes de jovens cineastas em Berlim exemplifica o efeito positivo da atual fase. “Ver filmes brasileiros ocupando esses espaços é fundamental para garantir continuidade. Não é ser o país de um filme só, mas de uma cinematografia.”
Ela cita ainda a força de obras que dialogam com o público jovem e com temas históricos sob novas abordagens.
“São filmes de gênero, filmes de época, que falam de assuntos muito atuais. Isso cria diálogo com o público e amplia o alcance do nosso cinema.”
Para os especialistas, o desafio agora é transformar reconhecimento em política duradoura e presença constante nas salas e nos festivais. “Quando um filme como O Agente Secreto abre a cabeça do público internacional, ele leva todo o cinema brasileiro junto”, resume Flávia Guerra.
“As indicações e prêmios dependem de muitos fatores, mas o mais importante é garantir que o Brasil seja reconhecido não por um título isolado, e sim por uma cinematografia diversa, contínua e viva.”
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