Reportagens

Expedição às nascentes do rio Parnaíba

Está comprovado: problemas em toda a bacia, embora escassamente povoada, sofreu a colonização pela corrida do boi e pela corrida da soja. Nem o Parque Nacional das Nascentes, criado por FHC, saiu do papel

Silvestre Gorgulho,
de Brasília – Expedições cumprem um ritual
de vida. Nunca morrem, diz Geraldo Gentil
Vieira, um apaixonado pelas questões
ambientais e que vem se dedicando em pesquisa
sobre recursos naturais e expedições.
Além da Expedição Américo
Vespúcio, foi o único técnico
do governo federal a participar da expedição
Parnaíba Vivo, que percorreu o mais
importante rio piauiense das nascentes até
o famoso delta, no Atlântico. Nós
da Folha do Meio Ambiente embarcamos em muitas
expedições nos 16 anos de vida
o jornal. Relatos destas expedições
não são feitos para ficar engavetados.
São sempre propostas vivas, inteligentes
com diagnósticos precisos de lugares
inusitados. Pelas páginas deste jornal
passaram muitas expedições ambientais
e científicas. Foram expedições
sobre o Jalapão em Tocantins, sobre
o Pantanal Matogrossense, sobre o rio Araguaia
e a Ilha do Bananal e sobre a nascente e foz
do rio Amazonas, de Roberto e Paula Saldanha.
Foram as expedições do engenheiro
Henrique Halfeld, sobre o rio São Francisco,
e do francês Emmanuel Liais, sobre o
rio das Velhas, ambas encomendadas por Pedro
II. Também foram as expedições
Américo Vespúcio, organizada
pelo próprio Geraldo Gentil, a expedição
pelo Deserto Vermelho de Gillbués (Piauí)
e a “Viagem poética ao sertão
roseano”, quando Cuia Guimarães
e Marcus Vinicius Andrade saíram à
vã pelo sertão de Minas Gerais,
redescobrindo paisagens e personagens do Parque
Grande Sertão Veredas. A estas expedições
citadas aqui e a tantas outras não
citadas por falta de espaço, soma-se
a aventura de quinze expedicionários
descendo de ponta a ponta o rio Parnaíba,
o Velho Monge.

Folha do Meio – Você
participou da exploração de
dois rios importantes: o rio São Francisco
e o rio Parnaíba. Foram os rios que
passaram em sua vida?
Geraldo Gentil –
É, eles não
só passaram como entraram na minha
vida. E eu na deles. A verdade é que
ainda me sinto como uma gota d’água
no rio, pelo muito a ser feito. Mas gratificante,
mesmo, foi ter participado, nos albores do
século 21, de duas grandes expedições:
“Parnaíba Vivo”, em abril
e maio de 2001, e “Américo Vespúcio”,
em novembro e dezembro de 2001, no rio São
Francisco. Ambas as expedições
foram inéditas, pois navegamos de ponta
a ponta os dois maiores rios que banham a
região Nordeste. Expedições
nunca morrem. Cada vez que navegamos um rio
sua história é recontada, já
dizia o grego Heráclito: “Não
atravessamos um rio duas vezes, porque tanto
eu como o rio já não somos os
mesmos”.


Quem é Geraldo Gentil Vieira(foto)
Engenheiro agrônomo, Geraldo Gentil
é bem conhecido de nossos leitores.
Observador atento e técnico respeitado,
Gentil Vieira está sempre escrevendo
para o jornal explicando detalhes, comentando
reportagens e sugerindo temas de interesse
coletivo.
Gentil formou-se em agronomia pela Universidade
Federal de Lavras (1975) e se especializou
em Irrigação e Solos pelo
Instituto Interamericano de Ciências
Agrícolas-IICA/FAO/Codevasf e
Solos/Recuperação de Desertos
pelo The Egyptian International Centre
for Agriculture-EICA, Cairo, Egito.
Nasceu em Iguatama-MG, uma das 10 cidades
das cabeceiras do rio São Francisco,
e foi o idealizador e coordenador técnico
da Expedição Américo
Vespúcio, que percorreu o Velho
Chico da nascente ao Atlântico.
Foi esta expedição que
selou a verdadeira nascente do rio São
Francisco, no Planalto do Araxá,
em Medeiros-MG. (Folha do Meio Ambiente,
edição 146/ abril/ 2004
e edição 147/maio/2004).

Geraldo Gentil foi o único técnico
do governo federal a participar da expedição
Parnaíba Vivo, que percorreu
o mais importante rio piauiense das
nascentes até o famoso delta,
no Atlântico.
Email:
geraldogentil@hotmail.com

FMA – Qual foi sua motivação
para organizar a expedição de
exploração ao Parnaíba?
GG –
Não, não fui eu
o idealizador. Participei como convidado e
observador (e muito aprendi com eles) pela
Codevasf. Os organizadores foram o juiz Marlon
Reis, a advogada Rosane Ibiapino e o Centro
de Defesa das Nascentes do Parnaíba
[CDPar]. Foi uma oportunidade única
para conhecer o rio e suas cidades ribeirinhas,
sua gente, sua vida, seu folclore, sua economia,
junto a uma equipe de alto nível, tanto
técnico quanto representativo das comunidades
que espontaneamente embarcavam e desembarcavam
no porto seguinte. Sem deixar de lado o real,
vejo as expedições também
pelo lado do imaginário. Só
assim vale a pena embrenhar-se rio a dentro…

FMA – Vamos à
expedição. Quanto tempo durou,
como foi a travessia da barragem de Boa Esperança
e que descobertas foram realizadas?
GG –
Foram 22 dias de descida, desde
Alto Parnaíba, no Maranhão,
Santa Filomena, no Piauí, até
Parnaíba e Luiz Correia, além
de Araiozes e ilha de Santa Isabel, no delta.
Um delta que é um éden de canais,
igarapés, ilhas, mangues e dunas. Navegávamos
das sete da manhã até pelas
seis da tarde. Os pernoites eram no barco
ou em hotéis das cidades ribeirinhas.
Passei até por Nova Iorque. Quem estava
a bordo era o jornalista Francisco José,
da TV Globo. Aliás, ele até
gravou um Globo Repórter da Nova Iorque
piauiense, comparando o maior edifício
da cidade, uma padaria de dois pisos, com
o Empire State Building e as Torres Gêmeas,
que daí a quatro meses desabaram. Também
enviei um postal para minha filha Luana com
o carimbo de NY…

FMA – E a viagem?
GG –
Olha, navegando o lago de Boa
Esperança de Uruçuí a
Porto Alegre, e daí a Nova Iorque e
Guadalupe, cruzamos a grande barragem num
arriscado traslado do barco PIPES Navegação.
O barco era de um verdadeiro herói
brasileiro, anônimo, chamado Pedro Iran
Pereira Espírito Santo. Tinha 15 toneladas
e chegou para navegar numa carreta Scania.
Aqui descobrimos uma eclusa inacabada, cheia
de mato, barrando a navegação.
Se o rio Parnaíba tem enorme potencial
hidroviário, a conclusão desta
obra pela Chesf poderia alavancar o também
enorme potencial de turismo fluvial e ecológico
em toda a sua extensão, gerador de
emprego e renda.
São descobertas como estas, somadas
à beleza cênica da paisagem,
que mantinham os expedicionários alertas,
boquiabertos e perplexos. Todos de prancheta,
GPS e máquinas de filmar em punho.
A propósito, tenho já pronto
o projeto de turismo “Caminho do Velho
Monge”, à semelhança do
Caminho de Santiago e Caminho da Estrada Real,
só que fluvial. Meus relatos de bordo
são um brado de alerta e uma viagem
gastronômica rio abaixo com suas peixadas
ao cheiro verde, o “arroz maria-isabel”,
a cajuína, a “manguerinha”,
e claro, suas lendas: o “papagaio falador”
de Amarante, o touro marruás de Porto,
o cabeça de cuia… (A PIPES também
executou em 2001, a expedição
Américo Vespúcio, percorrendo
o rio São Francisco da nascente à
foz. Até hoje, a PIPES não recebeu
pelo trabalho prestado, que foi terceirizado
à Domo Arquitetura e Projetos Culturais
,de Salvador-BA)


Ainda é comum a agricultura
primitiva pelo sistema “cultivo
no toco”. Urge um programa de melhoria
de renda e a criação de
muitas unidades de conservação.
Os desmatamentos e as queimadas degradam
as cabeceiras e margens dos rios.

FMA – E as descobertas
de gente, de povo, de ribeirinhos?
GG –
Pelo lado humano, a maior lembrança
é da pequena Jisuis (Jesus), uma criança
de nove anos com aparência de seis,
filha de pescadores de Porto. Era curiosa
e vivaz, mesmo subnutrida. Guardo dela a alegria
ao entrar no grande barco e ao receber uma
bonequinha que compramos junto ao cais. Também
um senhor que pediu para descer até
Amarante – terra do poeta Da Costa e Silva
– e arrependido e tremendo, confessou um desmatamento
ciliar recente ao juiz que descia a bordo…
São pessoas muito honestas que nem
mesmo sabem a gravidade das agressões
ambientais.
Jamais me esquecerei dos prefeitos nos recepcionando
com bandas de música nos cais, e dos
anfitriões hospitaleiros que nos recebiam
em suas casas com comidas típicas,
além dos bailados folclóricos,
os bailes ao som da música brega e
do reggae maranhense.

FMA – Qual era a situação
do rio naquela época?
GG –
Olha, para falar a verdade,
era de um rio ainda vivo, no alto curso, nas
cabeceiras. Mas, sobrevoando a região,
se pode ver o mosaico, a colcha de retalhos
da soja lá embaixo, ocupando espaços.

Mais a baixo, o rio mostra os estertores da
agonia nos terços médio e inferior.
É impressionante a queda de barrancos
no terço médio. Registramos
os esgotos lançados de alto a baixo,
as matas ciliares inexistentes em longos trechos,
redes e “currais de peixes” nas
desembocaduras de afluentes.
As próprias belezas cênicas eram
ofuscadas por feridas e agressões aos
ecossistemas ainda autóctones, como
lavouras do agronegócio, até
a altura de Uruçuí. Na região
do baixo curso o deslumbrante complexo lacustre
vem sendo drenado para cultivo de arroz e
pastagens.
Na Área de Preservação
Ambiental e na Reserva Extrativista [Resex]
do delta do Parnaíba, o Ibama está
alerta para manter sob controle a carcinocultura
nos “salgados”, os cultivos tradicionais,
a cata do caranguejo e o impacto do crescente
turismo.

FMA – O senhor tem acompanhado
a vida do rio após a expedição?
GG –
Após a expedição
voltei a Balsas para um seminário em
que as lideranças e a comunidade pediam
unidades de conservação nas
cabeceiras do rio. Participei de outros encontros
no Baixo Parnaíba até o delta.
Desde a foz do rio Longá até
o oceano, abrangendo 16 municípios.
Mas tenho acompanhado meio de longe a vida
do rio. Hoje me dedico mais ao programa de
revitalização do rio São
Francisco. Nesses três anos e meio pós-expedição
foram realizados dois grandes levantamentos
pela Codevasf e o Governo do Piauí,
visando o planejamento para o desenvolvimento
sustentável da bacia: o Planap e o
Zoneamento Ecológico-Econômico
do Cerrado.
Mais recentemente voltei ao Núcleo
de Desertificação de Gilbués
no alto curso dos rios Uruçuí
Vermelho e Gurguéia, em uma visita
com vários técnicos de vários
órgãos. Aliás, que a
Folha do Meio Ambiente fez uma excelente matéria
“O Deserto Vermelho”.
Espero que os projetos sejam encaminhados
logo para aprovação. Sugeri
aí a criação de um parque
nacional, como uma forma de alavancar o setor
terciário da economia nesta exótica
região que abrange vários municípios.

Muitas outras unidades de conservação
precisam ser implantadas com urgência,
face à rapidez da ocupação
na alta bacia e afluentes, notadamente o Balsas
e os dois Uruçuí, o Vermelho
e o Preto, rios cênicos por excelência.
Aqui eu pergunto: como anda a APA do Uruçuí-Una?
Os rios podem perder a corrida. Então
será tarde.
Rio desmatado nas cabeceiras e nas margens
da calha principal e dos afluentes, é
rio assoreado, é rio sem peixes. É
rio morto.

FMA – O que pode ser
feito agora?
GG –
Quando descemos o rio era enorme
o anseio dos ribeirinhos na busca de soluções
e ações concretas em prol do
rio e afluentes. Mas é preciso que
as populações se apropriem dos
citados estudos e levantamentos e dos relatos
de bordo dos expedicionários que representavam
os diversos organismos federais e estaduais.
É preciso um programa de educação
ambiental nas escolas, o saneamento, viveiro
de mudas nas cidades. Tudo isto, para ontem!
Problemas pontuais e gerais ocorrem em toda
a bacia, que embora escassamente povoada,
já sofreu a colonização
pela corrida do boi, assim como hoje sofre
a corrida da soja .


A expedição comprovou
que é inadiável um plano
de recuperação das matas
ciliares.

FMA – O que mais chamou
sua atenção como pesquisador?
GG –
Parafraseando Heródoto,
eu diria que o Piauí é uma dádiva
do Parnaíba. Sem o Parnaíba
como seria o Piauí? É um estado
côncavo, suas águas correm para
dentro, ao contrário de Minas Gerais,
por exemplo, um estado convexo, montanhoso,
cujas águas correm para fora rumo ao
mar que não lhe pertence. Não
esquecendo que a bacia abrange grande parte
do Maranhão e parte do Ceará.
No geral é um rio típico de
planície, abrangendo três grandes
biomas: Cerrado, Caatinga e zona costeira,
como restingas, dunas e mangues. A pré-Amazônia
começa aqui.
O Piauí é um dos estados brasileiros
com mais rica biodiversidade, tanto animal
quanto vegetal: são inesquecíveis
as araras azuis em bandos, os jacús
e o pássaro xexéu, peixes em
piracema, buritizais, carnaubais e babaçuais,
– que outro estado tem três ecossistemas
de palmeiras? Vimos as “batedeiras”
ou corredeiras e os sustos nelas passados.
E os “talhados”, monolitos que bordejam
as águas, impressionam pela majestade,
e a luz solar que neles incide toma tonalidades
e sombras que lembram as pirâmides do
Egito. E não podemos esquecer a jóia
piauiense que é o Parque da Serra da
Capivara, pela biodiversidade e pela antropologia.

FMA – Que ações
emergenciais devem ser realizadas para preservar
a vida no rio?
GG –
Criar um programa de revitalização
do Parnaíba é o caminho, à
semelhança do rio São Francisco,
e que na minha opinião não seria
tarefa difícil – cada rio brasileiro
hoje deveria ter seu plano – uma vez que já
estão concluídos os levantamentos
citados como o Planap, o ZEE e outros, fundamentais
para um planejamento a médio e longo
prazos.
A curto prazo uma moratória nos desmatamentos
é a solução inadiável.
Os empresários, também na minha
opinião, poderiam arrendar lotes dos
projetos de irrigação “Tabuleiros
Litorâneos” e de “São
Bernardo” com toda a infraestrutura pronta,
porém se encontravam desativados. A
irrigação gera emprego, renda
e alta produção em áreas
reduzidas. Poderia assim reduzir a pressão
sobre todas as nascentes e veredas. Evitaria
a extinção dos buritizeiros
encobertos pelas veredas barradas para pivôs
e/ou assoreadas pela erosão do solo
descoberto, e dos pequizeiros que ardem nos
cerrados.
Urge o Ministério Público e
o Ibama ajustarem termos de conduta junto
aos empresários do Cerrado. Esses empresários
devem saber das suas responsabilidades ao
chegar a uma terra nova coberta de matas e
rios até então límpidos.
O valor dessa biodiversidade natural e hídrica
é imensurável. Este é
um patrimônio piauiense e maranhense
que deve ser preservado.
Nesta expedição, podemos ver
que é inadiável um plano de
recuperação das matas ciliares.
E o que fazer com a queda de barrancos após
Floriano, que atinge o pico em Parnarama,
até a altura de Teresina? O que fazer
quando vimos barrancos de aluviões
caindo como terremotos à passagem do
barco?

FMA – Queria falar sobre
a preservação do Parque Nacional
das Nascentes do Rio Parnaíba. Um parque
que ainda não saiu do papel e já
está sendo degradado…
GG –
É verdade! O rio Parnaíba
é um dos mais importantes rios brasileiros,
com uma extensão de 1.485 km e uma
bacia de 330.000 km². Um dos méritos
da Expedição Parnaíba
Vivo foi chamar a atenção para
o rio cantado em verso pelo poeta maior Da
Costa e Silva. (*) [Saudade – o Parnaíba
– velho monge / as barbas brancas alongando…
e ao longe / o mugido dos bois da minha terra…”

FMA – E como foi a
assinatura da Carta do Parnaíba?
GG –
Foi bom lembrar. Antes da largada
(16 de novembro de 2001) aconteceu uma memorável
audiência pública, organizada
pelas autoridades e as populações
de Alto Parnaíba, Santa Filomena e
outros municípios da região.
Quinze outras audiências foram realizadas
rio abaixo. Então foi assinada a “Carta
do Parnaíba”.
Vem daí e de outros pioneiros como
Judson Barros na sua descida solo, a luta
do CDPar e tantos outros, e mais recentemente
o artista Otoniel Fernandes na sua viagem
pictórica pelas pegadas do engenheiro
Gustavo Dodt, a renascença da magia,
das lendas e das cores do Parnaíba,

Na largada, quando a gente estava bem perto
das nascentes na chapada das Mangabeiras/serra
da Tabatinga, me lembrei muito do provérbio
chinês “Conheça a montanha
para conhecer o rio”.
Urge criar novas unidades de conservação
em todas as sub-bacias do Parnaíba.
E mais: há que se levantar as nascentes,
as altitudes e a extensão mais exata
do rio pelos modernos meios de geoprocessamento.

FMA – E qual a conclusão,
os frutos desta epopéia?
GG –
Primeiro, fazer esses levantamentos.
Aliás essa é uma proposta que
fiz à Codevasf, registrada no meu relato
de bordo “Navegando no Velho Monge –
de Alto Parnaíba ao Delta e daí
ao Oceano”, e enviado ao CDPar.
Mas, a cada viagem destas, a cada trabalho
e a cada estudo que participo sobre rios brasileiros,
me bate uma tristeza tremenda ao saber que
todo este esforço, toda esta luta,
todo esse grito de alerta pode ter sido em
vão. Me sinto como mais um destes idealistas,
verdadeiras formiguinhas ambientais, impotente
perante o poder econômico e o poder
político. São os fazendeiros
pressionando a Justiça, são
os políticos pressionando as autoridades
administrativas, são os gananciosos
dobrando a fiscalização…
Olha, fico até pensando quão
verdadeiras são as palavras do editorial
da Folha do Meio Ambiente de novembro de 2005.
A Carta do Leitor da Folha do Meio Ambiente
(edição 163/nov. 2005) foi muito
feliz quando mostrou que “a preservação
e a política ambiental defendidas com
discursos e promessas, mas atacada com metralhadoras
e motosseras”. É a pura verdade!
Não podemos sucumbir às metralhadoras
ambientais… E fico a pensar: temos que ser
as árvores do Cerrado, que para resistirem
nascem cascudas e tortuosas.


O Parque das Nascentes, apesar de
sua importância, ainda não
saiu do papel

O Parque das Nascentes

Proteger as nascentes do Rio
Parnaíba foi o principal objetivo para
se criar o Parque das Nascentes. O rio constitui
a base econômica dos estados do Piauí
e Maranhão onde milhares de pessoas
dependem de suas águas para o abastecimento,
irrigação, pesca e meio de transporte.
A Bacia Hidrográfica do Parnaíba
abrange cerca de 339.390 Km2 e envolve os
estados do Piauí, Maranhão e
Ceará. O Piauí domina 75% dessa
bacia, o Maranhão 19% e o Ceará
6%. Na Tabatinga, no Alto Parnaíba,
as nascentes se esboçam através
de ressurgências na Chapada das Mangabeiras,
que formam os cursos dos rios Lontra, Curriola
e Água Quente. A união desses
rios forma o rio Parnaíba.
Como sua nascente ainda é uma dúvida,
o percurso do rio Parnaíba está
estimado em 1.485km, até a foz no Oceano
Atlântico, onde desemboca após
se dividir em cinco grandes braços.
O maravilhoso delta do Parnaíba é
o divisor natural entre os estados do Piauí
e Maranhão.

Infelizmente, pela ação
predatória do homem, o rio Parnaíba
e seus afluentes vêm sendo degradados
sistematicamente num processo secular.
Queimadas, erosão das margens, assoreamento
do leito e lançamento de esgotos e
lixo são uma constante. O problema
já chegou às nascentes onde
dezenas de produtores agrícolas, oriundos
do Sul do país, ocuparam as terras
públicas e instalaram projetos agrícolas.

Em 2004, uma vistoria realizada
por técnico do Ibama/PI na área,
detectou a existência de 22 grandes
propriedades no platô da serra e um
desmatamento de mais 30 mil hectares.

Ameaçado por ações
de produtores agrícolas que ocupam
terras nas fronteiras dos estados do Piauí,
Maranhão, Bahia e Tocantins, o Parque
Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba,
de 730 mil hectares, pode ser extinto. Basta
o Tribunal Superior de Justiça acatar
a decisão do juiz da 3a Vara Federal
– Sessão Judiciária do Distrito
Federal, Osmani dos Santos, que suspendeu
o decreto da criação do Parque,
assinado pelo então presidente da República,
FHC, em 2002.

O juiz atende ação
movida por mais de dez proprietários
de grandes projetos de soja em áreas
do parque, que alegam não ter havido
audiências públicas, quando de
sua instalação. Mas vimos que
15 audiências públicas foram
realizadas durante a expedição
que precedeu a criação do parque.
(SG)

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reportagens

Nova programação do Cine Brasília e festas juninas agitam o fim de semana do DF

Agenda cultural do DF está recheada de eventos fomentados pelas secretarias de Turismo e de Cultura e Economia Criativa

Publicado

em

 

Por Mayara da Paz, da Agência Brasília | Edição: Ígor Silveira

 

Durante este fim de semana, diversas atividades promovidas pelas secretarias de Turismo (Setur) e de Cultura e Economia Criativa (Secec) vão garantir uma agenda movimentada para os brasilienses. Com opções que vão desde cinema de rua até exposições, oficinas e eventos literários, o público terá muitas escolhas para aproveitar os dias de descanso. Confira a programação cultural separada pela Agência Brasília para sexta-feira (21), sábado (22) e domingo (23).

Festas juninas

Tem início nesta sexta-feira o Circuito de Festejos Juninos do DF e da Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride).

Na primeira etapa, que termina no domingo, a programação será nas regiões administrativas de Ceilândia, Cruzeiro e Recanto das Emas. Veja abaixo.

Sexta
→ Ceilândia: Circuito de Quadrilhas Juninas – Liga Independente de Quadrilhas Juninas do Distrito Federal e Entorno (Linq-DFE), na Praça do Trabalhador
→  Cruzeiro: Candangão Junino – Federação de Quadrilhas Juninas do Distrito Federal e Entorno (Fequaju), no estacionamento do ginásio
→ Recanto das Emas: Gonzagão – União Junina, no Quadradão, próximo ao Campo Sintético do Skate Parque

Sábado
→ Ceilândia: Circuito de Quadrilhas Juninas – Linq-DFE, na Praça do Trabalhador
→ Cruzeiro: Candangão Junino – Fequaju, no estacionamento do ginásio
→ Recanto das Emas: Gonzagão – União Junina, no Quadradão, próximo ao Campo Sintético do Skate Parque

Domingo
→ Ceilândia: Circuito de Quadrilhas Juninas – Linq-DFE, na Praça do Trabalhador
→ Cruzeiro: Candangão Junino – Fequaju, no estacionamento do ginásio
→ Recanto das Emas: Gonzagão – União Junina, no Quadradão, próximo ao Campo Sintético do Skate Parque.

Além do circuito de festejos, no domingo também será realizado o São João do Boi de Seu Teodoro, tradicional festa do Distrito Federal. A festa, que chega à sua 61ª edição, será realizada no Boi de Seu Teodoro, em Sobradinho, a partir das 17h de domingo.

São João do Boi de Seu Teodoro | Fotos: Divulgação

Cinema

Para os amantes de cinema de rua, o Cine Brasília retomou as atividades nesta semana com uma programação que promete entreter os espectadores com uma seleção de filmes clássicos e contemporâneos.

O longa-metragem Meu sangue ferve por você, do diretor Paulo Machline, que narra a vida do icônico cantor Sidney Magal, interpretado pelo ator Filipe Bragança, segue em cartaz na programação regular do espaço.

Em A filha do palhaço, de Pedro Diogenes, os espectadores poderão acompanhar uma adolescente de 14 anos, Joana, que se reaproxima do pai humorista, Renato, que se apresenta por meio do personagem Silvanelly. O longa-metragem oscila entre o drama e o humor.

No longa O estranho, das diretoras Flora Dias e Juruna Mallon, o aeroporto de Guarulhos (SP) é palco de uma trama que se desenvolve a partir do resgate ao passado e a perspectiva do futuro de uma família.

Também em cartaz, o filme A hora da estrela, da diretora Suzana Amaral, é considerado um dos maiores clássicos do cinema brasileiro e foi produzido em 1985, além de contar com a participação de um dos maiores ícones do segmento nacional, a atriz Fernanda Montenegro.

O Cine Brasília ainda recebe a estreia do longa Toda noite estarei lá, das diretoras Tati Franklin e Suellen Vasconcelos, que conta a história de uma fé inabalável sobre as provações de uma mulher transexual muito religiosa que foi proibida de entrar em uma igreja. Após a exibição,  haverá um debate com Tati Franklin e a protagonista do filme, Mel Rosário.

Para os pequenos, o filme selecionado pela curadoria do Cine Brasília foi a animação Kung Fu Panda 4, do diretor Mike Mitchell.

Os ingressos para as sessões regulares do Cine Brasília custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); na sessão infantil, R$ 5. As entradas podem ser adquiridas na bilheteria do cinema, entre as 9h e 21h, ou neste site.

Bienal de SP no Museu Nacional

Em parceria com a Fundação Bienal de São Paulo e a Secec, o Museu Nacional da República continua com a mostra itinerante da 35ª Bienal de São Paulo.

O público terá a oportunidade de ver obras de 13 artistas em uma seleção feita especialmente para o museu. O espaço funciona das 9h às 18h30 e tem entrada gratuita.

Feira de Troca de Livro

No sábado, o Planetário realizará a sexta edição da Feira de Troca de Livro, das 10h às 17h. Os interessados devem levar livros em bom estado de conservação. Não serão aceitos livros técnicos, didáticos, apostilas para concursos ou de cunho político-partidário. O Clube de Astronomia de Brasília disponibilizará telescópios para que o público possa observar o Sol e outros corpos celestes.

Espaço Cultural Renato Russo

A exposição Silenciado pelo destino segue em cartaz no Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul. O espaço ficará aberto ao público durante o fim de semana, das 10h às 20h.

A mostra é de Rafael Santos, conhecido como Odrus, grafiteiro, surdo, que utiliza a arte urbana para deixar a sua marca para outras pessoas surdas. A exposição com 20 obras explora a jornada pessoal e artística do grafiteiro, destacando as barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência e a maneira como a sociedade muitas vezes silencia essas vozes únicas.

Grafiteiro Rafael Santos, conhecido como Odrus

O Espaço Cultural Renato Russo também recebe, a partir desta sexta (21), o projeto Corpos de LuS. Considerada um depoimento poético de Luciana Luthi, a performance é uma fusão de arte sonora, eletrônica e eletroacústica, circo e visuais. O espetáculo ocorrerá às 20h, na sexta e no sábado, e às 18h, no domingo. Com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), a programação conta ainda com o workshop Dramaturgias do Circo: uma reflexão entre produções contemporâneas do Brasil e Áustria, desenvolvido por Will Lopes. O curso será promovido no sábado, a partir das 14h.

Projeto Corpos de LuS

Sesi Lab

O fim de semana também será de novidade no Sesi Lab, espaço interativo de arte, ciência e tecnologia que recuperou uma importante área no coração de Brasília por meio do programa Adote uma Praça, do Governo do Distrito Federal.

Uma nova exposição autoral do museu evidenciará a potência da bioeconomia para o desenvolvimento das diferentes faces da Amazônia, a partir da conservação de biodiversidade e mitigação dos impactos da mudança climática. A exposição BioOCAnomia Amazônica traz reflexões sobre uma nova forma de desenvolvimento econômico e social que envolve ciência, tecnologia, cultura e valoriza saberes intergeracionais e ancestrais. Os ingressos para o museu estarão gratuitos até domingo.

 

 

Continue Lendo

Reportagens

Superar o analfabetismo segue como meta inalcançada do PNE

Em entrevista à Agência Senado, a secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação, Zara Figueiredo, diz que, quanto à taxa de não alfabetizados, “não estamos regredindo, mas não temos conseguido melhorar esse dado”.

Publicado

em

 

Paula Pimenta
Publicado em 21/6/2024

Após mais de 20 anos como meta de duas edições do Plano Nacional de Educação, a superação do analfabetismo é uma barreira ainda não transposta, incompatível com a nona maior economia do mundo. São 11,4 milhões de brasileiros analfabetos — o equivalente à população do município de São Paulo ou de um país como a Bélgica — cerceados em sua liberdade e dignidade por não saberem ler e escrever. Os dados do Censo Demográfico de 2022 apontam desigualdades que permeiam esse grupo, com recortes etário, regional, econômico e racial bem pronunciados.

Apesar de o número ser bem menor do que na década de 1940 (quando a taxa de analfabetos na população acima de 15 anos chegava a 56%) e ter caído de 9,6%, em 2010, para 7%, em 2022, o analfabetismo continua sendo um sério problema estrutural no país. O Estado — por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) —, universidades públicas e privadas e ações comunitárias tentam atacar o problema, que ainda parece longe de ser superado.

Em entrevista à Agência Senado, a secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação, Zara Figueiredo, diz que, quanto à taxa de não alfabetizados, “não estamos regredindo, mas não temos conseguido melhorar esse dado”.

— Quando se pega a taxa de 1940, nós melhoramos, com redução significativa. Mas numa sociedade da informação, numa sociedade tecnológica, numa sociedade do conhecimento, você conviver com 11 milhões de pessoas não alfabetizadas é inaceitável. Porque isso tem efeito sobre a economia, sobre a democracia, sobre a cidadania. Nos últimos anos, nós não tivemos uma redução significativa desses indicadores de analfabetismo — afirma Zara.

Dos 11 milhões de não alfabetizados, pouco mais de 1 milhão tem entre 15 e 39 anos.

— Imagina hoje o que é para pessoas jovens, que estão no mercado de trabalho ou deveriam estar, não ler ou escrever. O WhatsApp, só usam por meio de áudio. Elas precisam de ajuda para usar o caixa automático, elas criam estratégias principalmente para saber qual ônibus pegar, porque têm vergonha de não serem alfabetizadas. Então, esse é um dado sério — diz a gestora.

Às vésperas de perder a vigência e com a maioria das metas não cumpridas, o PNE 2014-2024, que finda neste mês de junho (com possibilidade de ser prorrogado caso seja aprovado o PL 5.665/2023, recém-encaminhado à Câmara pelo Senado), tem como meta 9 “erradicar o analfabetismo absoluto” e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo funcional (quando a pessoa sabe ler ou escrever, mas não consegue compreender textos simples ou fazer operações matemáticas). Também prevista na edição 2001-2010 do PNE, a superação do analfabetismo inevitavelmente continuará a ser meta a perseguir no próximo plano, que o governo federal deve encaminhar ao Congresso em breve.

Turma de Educação de Jovens e Adultos em Palmeira dos Índios, Alagoas, tem como lema “Nunca é tarde para começar” Prefeitura de Palmeira dos Indios-AL

Professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, Soraya Maria Romano Pacífico é categórica em afirmar que não dá mais para pensar a alfabetização estritamente como uma questão pedagógica ou linguística.

— É uma questão sócio-histórica e ideológica, porque a gente não tem uma divisão social de saber, e ela não é a mesma para todos. Até hoje não se conseguiu pensar que a educação é a base de uma sociedade. Não se colocou a educação como prioridade. Ela está no discurso, aparece nos documentos, mas fica lá. Não é colocada em prática — diz a professora.

Não por acaso, a Comissão de Educação e Cultura (CE) do Senado, presidida pelo senador Flávio Arns (PSB-PR), acaba de aprovar a criação de uma subcomissão permanente para monitorar as políticas da EJA, voltada àqueles que não conseguiram o diploma do ensino fundamental ou médio na faixa etária correspondente. A CE também instalou neste ano a Subcomissão Permanente da Alfabetização na Idade Certa.

Eleito presidente do colegiado da Alfabetização na Idade Certa, o senador Cid Gomes (PSB-CE), representante de um dos estados que têm os melhores índices educacionais, definiu como plano de trabalho fortalecer o regime de colaboração com foco na alfabetização.

— É fundamental envolver prefeituras, estados e governo federal, e nós temos um ambiente propício, nunca tivemos um ambiente tão propício para isso como agora — avalia o senador.

O plano de trabalho prevê ainda, entre outras ações, engajar o Senado na agenda da alfabetização das crianças e propor projetos de lei que visem ao fortalecimento das políticas públicas com esse fim.

Para a senadora Janaína Farias (PT-CE), que propôs a subcomissão permanente para acompanhar as políticas da EJA, há dois grandes desafios: de um lado, superar o analfabetismo; de outro, qualificar a educação de jovens e adultos, aumentando os anos de escolaridade do público-alvo, hoje estimado em 68 milhões de pessoas que não concluíram a educação básica.

“A alfabetização não é apenas um conhecimento fundamental para a comunicação e a compreensão do mundo; é também um pilar indispensável para a inclusão social e a cidadania plena. O acesso à educação e ao conhecimento possibilita a inserção no mercado de trabalho, o exercício dos direitos civis e a participação ativa na sociedade. Portanto, o combate ao analfabetismo entre jovens, adultos e idosos é uma tarefa essencial para o desenvolvimento social e econômico do Brasil”, justifica a senadora.

Os senadores Cid Gomes, da Subcomissão da Alfabetização na Idade Certa; Janaína Farias, que propôs subcomissão sobre EJA; e Flávio Arns, presidente da CE. Edilson Rodrigues, Roque de Sá e Geraldo Magela, da Agência Senado

O analfabetismo atinge a população brasileira de forma desigual. Ele é maior entre os mais velhos — a taxa entre as pessoas idosas acima de 65 anos chega a 20,3%, de acordo com o Censo Demográfico 2022: Alfabetização. Mas o percentual quase caiu à metade, se comparado ao ano 2000, quando 38% desse grupo eram analfabetos. O grupo mais jovem, dos 15 aos 19 anos, tem o menor índice (1,5%).

Mulheres que sabem ler e escrever são 93,5%, um ponto percentual acima dos homens. Elas são minoria apenas na faixa etária dos 65 anos ou mais, quando os homens alfabetizados chegam a 79,9%, contra 79,6% delas. A maior diferença registrada entre os gêneros é para o grupo de 45 a 54 anos, com 2,7 pontos percentuais a mais de alfabetização para o público feminino.

Municípios menores, com população entre 10.001 e 20.000 habitantes, têm a maior taxa média de analfabetismo: 13,6%, percentual pelo menos quatro vezes superior ao dos municípios com mais de 500 mil habitantes (3,2%), o que, de alguma maneira, reflete o poderio econômico das cidades e suas populações.

As piores taxas de analfabetismo foram registradas na Região Nordeste (14,2%), que tem vários municípios com percentuais acima de 30% — caso de Floresta do Piauí (PI), com 34,7%. Mas o pior índice municipal do país está mesmo é no Norte, em Alto Alegre (RR), que somou 36,8%. Na contramão, está a Região Sul, onde a alfabetização alcança 96,6% da população. Em São João do Oeste (SC), não chega a 1% o percentual de habitantes que não sabem ler e escrever.

As discrepâncias de raça/cor e socioeconômicas também afetam a alfabetização. Enquanto entre as pessoas de raça branca e amarela os índices de analfabetismo são de 4,3% e 2,5%, respectivamente, as de raça preta e parda amargam percentuais mais do que duas vezes maiores: 10,1% e 8,8%. Entre os indígenas, são 16,1%, ou seja, quase quatro vezes mais do que entre brancos.

Na comparação entre 2010 e 2022, a diferença percentual entre brancos e pretos sofreu queda de 8,5 para 5,8 pontos percentuais, e de 7,1 para 4,3 pontos entre brancos e pardos.

Segundo a diretora executiva do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), Cristina Lopes, há várias razões para essa desigualdade, e a primeira delas é o racismo institucional, que de uma forma geral “trata pior pretos e pardos do que os brancos em qualquer nível socioeconômico”.

— Também é importante mencionar as próprias discrepâncias socioeconômicas entre esses grupos. No que diz respeito à trajetória escolar, os alunos negros apresentam mais atraso do que os alunos brancos, seja por reprovação ou abandono. E a escola não tem como compensar todos esses efeitos. Um dado que ilustra bem essa desigualdade é a distorção idade/série, que é um atraso de pelo menos dois anos em relação à idade/série adequada. Essa distorção é maior entre os alunos negros do que entre os alunos brancos — afirma Cristina.

A diretora do Cedra lembra que no passado o Estado proibiu as pessoas negras de estudar. Além disso, afirma, “promoveu a imigração europeia com o intuito de branquear o Brasil”.

— Então, o Estado brasileiro, que não foi neutro no passado, precisa agora ser proativo em políticas de promoção de equidade racial. É importante aperfeiçoar a política de cotas, investir mais na educação, desde a básica até o ensino superior. A desigualdade racial não é um fato isolado, não está só no setor público, ela é um problema de todas as áreas da vida social brasileira. As instituições e organizações da sociedade precisam se envolver no combate ao racismo nas várias dimensões em que ele se apresenta, considerando que o racismo é estrutural na sociedade brasileira — conclui Cristina.

Já existe uma compreensão no setor privado, mas é preciso expandir essa compreensão, mostrando que o racismo atrasa o desenvolvimento brasileiro, diz a especialista. A luta contra a desigualdade racial precisa ser uma questão de toda a sociedade brasileira, combinada também com a promoção da equidade de gênero, o que, sustenta Cristina, possibilitará promover o desenvolvimento socioeconômico brasileiro.

Especialista em políticas educacionais, o professor José Marcelino de Rezende Pinto, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP em Ribeirão Preto, afirma que os números do analfabetismo do Brasil só não são mais graves “porque os velhinhos vão morrendo”, e é entre as pessoas idosas que estão os piores índices. Mas ter analfabetos na idade escolar é um grande nó.

O problema todo é estrutural, segundo o professor da USP. Pinto enfatiza que ainda não se conseguiu incorporar no sistema educacional uma política para realmente enfrentar o analfabetismo. Para o acadêmico, a EJA — por muito tempo conhecida como supletivo — é tradada como “uma educação pobre para pobre, onde qualquer pessoa pode dar aula, pode alfabetizar”.

Além de defender concursos específicos para professores da educação de jovens e adultos — a maioria hoje atua na área regular e acaba complementando horas nessa modalidade —, Pinto afirma que a atual política de financiamento da EJA é um grande complicador. Para ele, seria preciso apostar em uma política de fomento, com valores por aluno além do previsto no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).

O professor destaca que, na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2024, a subfunção EJA tem R$ 287 milhões, dez vezes mais do que o empenhado em 2022, mas ainda muito longe do que seria necessário.

— É 0,2% do orçamento da função Educação. A gente vê um início de movimento, mas ainda é dinheiro “de pinga”. Quem banca a educação básica são os estados e municípios, que estão no limite. Com a municipalização da EJA, está sobrando para os mais pobres — afirma Pinto.

A meta 10 do atual PNE, que estipula a oferta mínima de 25% das matrículas da EJA, nos ensinos fundamental e médio, na forma integrada à educação profissional é, para o professor da USP, a mais estratégica, por não ser “alfabetizar por alfabetizar”, e sim fazer com que a educação tenha sentido na vida do cidadão.

— Não é a pessoa aprender a escrever o nome. A alfabetização tem que entrar na vida daquela pessoa, seja como conscientização política, seja para o mundo do trabalho. E essa meta, que é 25% (quer dizer, já é baixa), está em apenas 1,6%. Piorou ao longo do tempo — alerta o professor.

A secretária Zara Figueiredo, Soraya Maria Romano Pacífico, Cristina Lopes e José Marcelino de Rezende Pinto. Roque de Sá/Agência Senado, A Língua tem Museu/USP Ribeirão Preto, Cedra dados raciais/Instagram, Pedro França/Agência Senado

A professora Soraya Pacífico complementa que a escola tradicional, que se baseia no discurso autoritário, em que o aluno apenas repete, acaba por excluir a muitos. O letramento, diz a professora, se dá tanto pela oralidade quanto pela escrita. Uma criança que saiba produzir textos por meio do oral, quando chega no ensino fundamental só precisa aprender a escrever, enquanto uma que só reproduz o que está na lousa, “desenhando letras”, não sabe o que está escrevendo, “porque elas não leem, apenas copiam”.

— Infelizmente, a escola ainda funciona como um aparelho ideológico de Estado. A escola não sabe olhar para todos, não sabe lidar com a diversidade. Diversidade, nem estou falando só de gênero, de necessidades especiais, e tudo isso que ela não está mesmo preparada para a inclusão. Mas a necessidade de diversidade de interpretações, diversidade de sujeitos que vão produzir esses ou outros sentidos. Ela [a escola] se engessa e quer engessar os alunos. E hoje eu acho que os alunos não cabem nessa forma tão rígida como nós coubemos — diz a pedagoga, que há 40 anos acompanha o ambiente escolar.

As falhas do letramento, ressalta a professora da USP, fazem com que hoje muitas pessoas se vejam reféns da desinformação e das fake news, o que mostra que é preciso muito mais do que apenas alfabetizar.

— As pessoas realmente acreditam cegamente no que elas recebem, não conseguem virar a chave e refletir. Muitas vezes, nem o próprio professor tem segurança de deixar as crianças interpretarem sentidos diferentes. Essa criança, esse jovem, esse adulto crescem achando o quê? “Tudo que está escrito, é daquele jeito. Não vou duvidar, está escrito” — alerta a professora.

Apesar de a EJA ser uma das principais fontes de ação na superação do analfabetismo e estar incluída em três metas do PNE, o número de alunos e escolas que ofertam as turmas (geralmente no período noturno) vem caindo há um bom tempo. Há dez anos, 36,7 mil unidades escolares ofereciam esse tipo de educação, número 17,5% menor em 2023, quando havia 30,3 mil unidades.

Da mesma forma, em 2014 foram 3,65 milhões de matrículas, enquanto no ano passado os matriculados na EJA eram 2,58 milhões, uma diferença a menor de 29,11%.

Para a secretária Zara Figueiredo, o trabalho do colegiado do Senado que vai acompanhar a educação de jovens e adultos “é vital” e trará uma contribuição imensa à EJA. Ela lembra que superar o analfabetismo e melhorar os anos de estudo das pessoas são metas em uma política multifacetada.

— A EJA nasce subfinanciada. Desde que o Fundeb foi criado, a primeira vez na história que a EJA teve um aumento de recurso de 0.8 para 1.0 foi no final do ano passado — ressalta a secretária do MEC.

Isso quer dizer que um aluno da EJA representava 80% do valor de um aluno do ensino fundamental I — o que não fazia sentido, segundo Zara, já que essa modalidade precisa de muito mais recursos por abranger turmas maiores, que precisam de pedagogia diferenciada, currículo diferenciado e que, para melhorar a qualidade, precisa acontecer integrada ao ensino técnico.

— Há poucos incentivos para as redes fazerem um movimento para qualificar a EJA. Há poucos incentivos em políticas públicas. Não há monitoramento eficaz como no ensino fundamental I, na alfabetização de crianças. Todos esses elementos mostram para nós que, de fato, historicamente a EJA vem sendo assumida como uma política de segunda classe. E também há pouco incentivo para que o estudante venha se alfabetizar na rede ou fora da rede.

Por isso, a ação não deve ser restrita à oferta, mas deve atingir também a demanda. A evasão, por exemplo, é alta. Entre 2018 e 2023, houve perda de 27% de matrículas da EJA.

Palestra para alunos de EJA em Luziânia (GO) e estudante em sala de aula para jovens e adultos em Japeri (RJ). Pillar Pedreira/Agência Senado, Prefeitura de Japeri-RJ

Com públicos diferentes, as lógicas de oferta (tempo, formação, método) também precisam ser diferenciadas. Não há como alfabetizar um jovem que trabalha o dia inteiro da mesma forma daquele que só estuda, segundo a secretária.

Assim, uma das apostas do governo federal é o chamado Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da Educação de Jovens e Adultos, que passará a oferecer, pela primeira vez, a formação continuada para 10 mil professores, de forma que passem a ter mais elementos para trabalhar com esse público diferenciado.

Dados elaborados pelo Cedra apontam que as escolas predominantemente negras (com mais de 60% dos alunos declarados negros) têm 33% dos professores com formação adequada, ou seja, aqueles que lecionam na área em que se formaram. Já nas escolas predominantemente brancas, essa proporção era o dobro em 2019.

Outra ação governamental é atuar com o Programa Dinheiro Direto na Escola (PPDE-EJA) para um conjunto de redes com mais necessidades, que deverá beneficiar 792 mil alunos, a partir de salas de acolhimento para atender, por exemplo, filhos de adolescentes que muitas vezes abandonam a escola por não terem com quem deixar seus pequenos.

Recentemente também foi anunciado o Programa Pé-de-Meia EJA, que deverá atender, em um primeiro momento, 135 mil matrículas no EJA ensino médio, em um incentivo financeiro para que os estudantes não abandonem as salas de aula. Outra iniciativa agregada ao pacto é o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Pro-Jovem), que acolhe alunos em áreas urbanas e rurais. Para o programa, deverão ser ofertadas até o fim da gestão 100 mil vagas, sendo 28 mil já este ano.

Em Piaçabuçu, em Alagoas, há busca ativa de alunos para EJA e incentivo à participação, com ajuda de custo. Prefeitura de Piaçabuçu-AL

A proposta do MEC é, até 2027, reduzir em 50% o atual número de analfabetos entre 15 e 39 anos. A pasta pretende ainda diminuir em pelo menos 20% o analfabetismo entre pessoas com 40 anos ou mais.

— Esse é o público mais difícil. Eles não são alfabetizados na escola, mas por meio de alfabetização popular — afirma a secretária Zara.

Para quem não concluiu a educação básica, o governo trabalha com projeção de aumento de 22% nas matrículas por ano na EJA.

— Essa é uma grande ambição nossa. Porque aí chegaríamos em 2028 com um índice de recuo satisfatório. E para a EJA integrada à educação profissional, a nossa meta é que a gente consiga chegar em 2028 com 12,5% de oferta.

Propaganda do Mobral, em 1973, e sala de aula do curso; seminário de formação com Paulo Freire (cujo método usava contexto social na alfabetização), em 1990, e aluno em Angicos (RN). Reprodução/Propagandas históricas, Reprodução/Nova Escola, Marcio Novais/Memorial da Educação Municipal de São Paulo, Reprodução/Paulo Freire e as 40 horas de Angicos-RN

Programa de alfabetização de universidade cresce no DF

Além da oferta pelo poder público (especialmente por estados e municípios, responsáveis por mais de 90% das matrículas de EJA), cursos de instituições comunitárias e outras ações, como programas de extensão de universidades, são alternativas para quem quer passar a ver o mundo com os olhos de quem lê e escreve. Uma das mais longevas iniciativas é encabeçada pela Universidade Católica de Brasília (UCB), que desde 1993 oferece alfabetização a quem não conseguiu frequentar os bancos escolares da rede regular de ensino.

O Programa de Alfabetização Cidadã (PAC) surgiu como uma construção da própria universidade para atender inicialmente os funcionários. Mas o projeto de extensão se ramificou e deu frutos em Brasília e em outras regiões administrativas do Distrito Federal. Atualmente são em média 150 matriculados por ano.

Turma do PAC na Cidade Estrutural-DF 
Turma do PAC na Cidade Estrutural (DF) (foto: Arquivo PAC)

A UCB faz o acompanhamento e monitoramento do projeto, além da formação continuada das alfabetizadoras, que geralmente pertencem à comunidade onde são abertas as salas de aula. O programa conta com diversos parceiros, como a rede Rotary.

Com atendimento a comunidades vulneráveis, o PAC abrange atualmente quatro turmas na Estrutural e três no Sol Nascente, além de salas em Santa Maria, Samambaia, Recanto das Emas e Areal. Algumas das 11 alfabetizadoras recebem bolsas de ajuda de custo, outras são inteiramente voluntárias.

O ensino ocorre três vezes por semana, com aulas que duram de 120 a 180 minutos. São duas turmas vespertinas e nove noturnas. O Centro de Educação Paulo Freire (Cepafre) de Ceilândia é quem cede o material.

— São as alfabetizadoras que buscam esses alfabetizantes, porque elas são da comunidade. Elas fazem geralmente alguma campanha, botam cartaz na igreja, na escola, no comércio. De boca em boca também, pois muita gente já sabe do projeto. Elas que vão atrás dos estudantes. A gente tem esse período de captação para que as aulas comecem até abril, com a formatura em dezembro — diz a coordenadora do PAC, a professora da UCB Rafaela Nunes Marques.

Os que não consolidaram a aprendizagem nesses primeiros nove meses podem se manter no projeto no ano seguinte. A maior parte dos alunos tem mais de 40 anos e são mulheres. Os poucos homens muitas vezes são levados pelas esposas.

014_BOX_Formatura-das-turmas-do-PAC-em-2023.jpg 
Cerimônia de formatura das turmas do PAC, em 2023 (foto: Arquivo PAC)

A universidade também desenvolve o PAC Digital, para inserir as pessoas no letramento digital, e busca parcerias para ajudar os alunos, como conseguir consultas no oftalmologista e óculos. Durante o ano, muitas ações são direcionadas a esses grupos. Neste mês de junho, por exemplo, os graduandos do curso de letras vão promover uma noite de contação de histórias e sarau para os jovens e adultos do programa.

Assinar documentos e tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) são metas para muitos. Depois da alfabetização inicial, alguns acabam se matriculando na EJA para continuar aprendendo, e há casos até de quem chegou ao ensino superior.

— Muitos deles se sentem à vontade no projeto, porque tem esse caráter mais de educação popular. É diferente. Talvez, também, porque são três dias na semana, com até duas horas e meia [de aula], que é o tempo que a metodologia do projeto diz que é adequada para pessoas que ficaram tanto tempo longe da escola. Tudo isso também é parametrizado. A metodologia é “paulofreiriana” [relativa ao método desenvolvido pelo educador pernambucano Paulo Freire, referência mundial em alfabetização]. E tem essa ideia do círculo de cultura, de sempre debater em torno das questões geradoras, da palavra geradora daquela semana — explica a coordenadora.

Professora universitária e da rede regular de ensino, Rafaela lamenta que as escolas venham reduzindo as ofertas para a EJA e diz que, para a superação do analfabetismo, são necessárias políticas públicas.

— A educação de jovens e adultos está com um problema seriíssimo, e essa é uma modalidade essencial para a erradicação do analfabetismo. É essencial para o prosseguimento, para que a gente não fique só no âmbito do “escrevo meu nome”, quase do analfabetismo funcional. É preciso um letramento que vai passar pelo letramento matemático, pelo letramento científico. Enfim, eles só vão ter essa emancipação mesmo quando conseguirem perceber todos esses gêneros que circulam na sociedade e conseguirem produzi-los. Isto demanda prosseguimento dos estudos — enfatiza a coordenadora.

Alunos do Programa de Alfabetização Cidadã em diferentes localidades do Distrito Federal. Arquivo PAC

Alfabetização é apenas o primeiro passo

Alfabetizadora do PAC Onilia dos Santos, 60 anos 
Onilia dos Santos, alfabetizadora do PAC  (foto: Arquivo PAC)

A alfabetizadora do PAC Onilia dos Santos, 60 anos, teve o sonho de terminar os estudos interrompido aos 16 anos para se casar e depois ter filhos. Já bem mais tarde, com a prole criada, ela concluiu o que antes era chamado de supletivo do ensino fundamental e do ensino médio. E foi mais além, ao se formar em pedagogia e se especializar em psicopedagogia, para melhor ajudar uma neta com paralisia cerebral.

Em 2008, apareceu a oportunidade de ser alfabetizadora do projeto, chance que Onilia agarrou com força e paixão, enquanto também atuava no DF Brasil Alfabetizado. Desde então, nunca mais parou. Hoje é alfabetizadora na Samambaia Norte e ainda atende em casa duas senhoras (uma delas com 86 anos) que não querem ir para a escola, mas não desistem da vontade de saber ler e escrever. Não foram poucas as vezes que a professora dedicada tirou dinheiro do próprio bolso para comprar material.

A timidez e a cabeça baixa pela vergonha de não saber são recorrentes entre os alunos. Por isso, a formatura das turmas no fim de cada ano dignifica uma dedicação que Onilia define como “um presente”.

— É o melhor momento, por ver que, com tantas lutas, que não são fáceis, a gente consegue ter aquele aluno alfabetizado. Isso não tem preço — relata Onilia, que se emociona ao ver seus alunos chorando ou pulando pela emoção de enxergar o mundo de outra forma, dizendo que lhes “tiraram as vendas”.

Aluna do PAC Geuza Pereira da Silva, 59 anos 
Geuza Pereira da Silva quer continuar a estudar (foto: Arquivo PAC)

Uma das alunas do curso é Geuza Pereira Silva, 59 anos. Natural da Paraíba, onde chegou a estudar pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização — o Mobral, mantido durante a ditadura militar (1967 e 1985) —, Geuza sempre teve o sonho de “terminar ao menos o primeiro ano”, mas agora já pensa adiante.

Depois de se casar e se mudar para Brasília, em 1989, somente em 2013 ela pôde retornar ao banco escolar. Aprendeu a assinar seu nome e agora comemora já escrever pequenas frases. Ela retornou ao PAC e já planeja dar continuidade aos estudos na EJA. Geuza conseguiu até arrastar para a turma da Católica uma vizinha, de 60 anos, “que não sabia de nada”.

— Toda a vida eu trabalhei com crianças. Eu queria estudar para poder ensinar essas crianças e as minhas netas também. Eu já sei fazer um monte de coisa. Já sei mexer até no Pix — relata a babá, que antes chegava a dizer que “estava ruim das vistas por conta da diabetes” para justificar não conseguir ler o nome do itinerário do ônibus.

Além de ter vergonha por não saber ler e responder o que as pessoas perguntavam, Geuza conta que muitas vezes acabou sendo enganada também.

— A gente sem estudo não é nada, porque ficar perguntando as coisas para o povo é muito ruim. Tem gente que ensina bem e tem gente que ensina mal. Eu perguntava onde era a [avenida] W3 Sul e ia parar na W3 Norte. Era o que o povo fazia comigo. Agora, não.

Fonte: Agência Senado

 

 

Continue Lendo

Reportagens

CLDF aprova Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília

Publicado

em

 

Foto: Carlos Gandra/ Agência CLDF

Projeto congrega plano de preservação; legislação de uso e ocupação do solo; e Plano de Desenvolvimento Local

Nesta quarta-feira (19), a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou o Projeto de Lei Complementar nº 41/2024, que institui o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB). Aprovado em dois turnos, o texto somou 18 votos favoráveis e seis contrários (veja ao final).

O Governo do Distrito Federal enviou o projeto do PPCUB à Câmara Legislativa no dia 4 de março deste ano. A proposição, que estabelece regras sobre o que pode e o que não pode ser feito na área tombada da capital, transitou por cinco comissões da Casa e recebeu centenas de emendas, grande parte das quais foram acatadas.

A validação do Plenário veio após relatórios favoráveis das comissões de Assuntos Fundiários (CAF); de Desenvolvimento Econômico Sustentável (CDESCTMAT); de Economia, Orçamento e Finanças (Ceof); bem como da de Constituição e Justiça (CCJ). O parecer da Comissão de Educação, Saúde e Cultura (Cesc) foi contrário ao projeto, mas a maioria dos deputados rejeitou o documento. Sobre discordâncias, o deputado Roosevelt (PL) destacou que “é normal que os relatórios das comissões tenham divergências, porque cada uma analisa a matéria sob uma ótica”.

A sessão desta tarde dedicou-se, exclusivamente, ao PPCUB. Após votação das lideranças partidárias, optou-se por abrir mão do procedimento regimental que estabelece o Comunicado de Líderes e o Comunicado de Parlamentares na abertura da sessão. A oposição criticou a medida. “A gente nunca nesta Casa subtrai o debate dos líderes”, declarou Fábio Felix (Psol). “Há uma tentativa de aprovação a qualquer custo”, criticou.

 

 

Nesse sentido, as deputadas Dayse Amarilio (PSB) e Paula Belmonte (Cidadania) lamentaram a “votação atropelada” do PLC e a “falta de transparência para a sociedade”. Em resposta às colegas, o líder do governo na CLDF, Robério Negreiros (PSD), apontou que a Casa promoveu quatro comissões gerais com ampla divulgação para discutir a matéria.

Por sua vez, o distrital Chico Vigilante (PT) opinou que o projeto “fere de morte o tombamento de Brasília”. Ele acrescentou que “o projeto será liquidado na Justiça; portanto, a Câmara não deveria se submeter a esse tipo de coisa”. O parlamentar chegou a comparar o governador Ibaneis Rocha ao imperador romano Nero: “Quer tocar fogo em Brasília”.

Os parlamentares governistas sustentaram que o PCL precisava ser avaliado neste momento. “Nós tivemos a coragem de pegar um projeto que está posto nesta Casa há mais de dez anos. Estamos fazendo uma atualização necessária para que haja segurança jurídica e Brasília possa continuar crescendo com segurança”, endossou Doutora Jane (MDB).

PPCUB

O projeto congrega três aspectos: plano de preservação; legislação de uso e ocupação do solo; e Plano de Desenvolvimento Local (PDL), esse último reunindo plano de projetos, de ações e de obras.

A área de tombamento abrange aproximadamente 120 km² e inclui o Eixo Monumental; as superquadras, os setores centrais; a orla e o espelho d’água do Lago Paranoá; os Setores de Embaixadas; os grandes parques, incluindo as áreas de transição urbana; a W3 Norte e Sul; Setores Residenciais Complementares; Vilas Residenciais; Setores Complementares das áreas Oeste e Leste; e Setores de Serviços Complementares. Em resumo, o CUB vai desde a Candangolândia até o Lago Norte, incluindo a orla e o espelho d’água do Paranoá.

A região é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia federal responsável pelo Patrimônio Cultural Brasileiro. Além disso, Brasília também é reconhecida como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Trata-se do primeiro conjunto urbano do século XX a receber o título da Unesco, chancelado em 1987.

Altura de hotéis

Ao longo da votação, o distrital Vigilante dirigiu duras críticas ao aumento do gabarito de hotéis no centro do Plano Piloto, nos setores hoteleiros Norte e Sul. Os hotéis mais baixos (atualmente de três andares) poderão chegar a 35 metros de altura, passando a ter até 12 andares. “Quero trazer meus netos para ver uma cidade bonita, não quero ver a destruição do projeto pensado por Lucio Costa”, disse o deputado.

Prevista no texto original do Buriti, a mudança no gabarito dessas edificações havia sido retirada por emenda acatada pela Comissão de Assuntos Fundiários (CAF) nesta manhã. Na sessão, contudo, a alteração foi rejeitada.

Questão ambiental

Já o líder da Minoria na Casa, Gabriel Magno (PT), afirmou que o PLC votado apresenta lacunas do ponto de vista ambiental. O distrital ressaltou que “não tem uma linha prevendo os efeitos extremos dos desastres climáticos que estamos vivendo”. Além disso, criticou a exploração comercial à beira do Lago Paranoá e definiu que “temos nesta Casa um plano de negócios de exploração do conjunto urbanístico de Brasília”.

Moradia

Outro ponto que rendeu discussões no púlpito foi a habitação. Para Max Maciel (Psol), a forma como Brasília se desenvolveu afastou a moradia dos trabalhadores de menor renda do Plano Piloto. “O projeto que está aqui continua proibindo pobre de morar na cidade”, comentou.

Na mesma linha, Magno defendeu que “não vamos resolver o problema do déficit habitacional, porque vamos construir moradia para quem não precisa, vamos alimentar a especulação imobiliária”. Ele também refletiu sobre a população em situação de rua, pontuando que o PLC não acolhe essas pessoas, só as tira do Plano Piloto.

Confira como votaram os distritais

Votos favoráveis: Hermeto (MDB); Pepa (PP); Daniel Donizet (MDB); Eduardo Pedrosa (União Brasil); Doutora Jane (MDB); Iolando (MDB); Joaquim Roriz Neto (MDB); Jorge Vianna (PSD); João Cardoso (Avante); Martins Machado (Republicanos); Pastor Daniel de Castro (PP); Robério Negreiros (PSD); Rogério Morro da Cruz (PRD); Thiago Manzoni (PL); Wellington Luiz (MDB); Roosevelt (PL); Jaqueline Silva (MDB) e Paula Belmonte (Cidadania).

Votos contrários: Gabriel Magno (PT); Ricardo Vale (PT); Dayse Amarilio (PSB); Max Maciel (PSol); Fábio Felix (PSol); e Chico Vigilante (PT).

 

 

Daniela Reis – Agência CLDF

 

 

Continue Lendo

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010