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QUANDO RENÉ BURRI CHOROU POR UMA FOTO

A HISTÓRIA DE UMA FOTO EMOCIONANTE

 

Antes da inauguração de Brasília, com o Palácio do Planalto prontinho, lindo de morrer, um pedreiro que trabalhou no Palácio, aproveitou para levar sua família para ver sua obra prima. Ele sabia que não poderia estar com sua família (e nem ele próprio) na inauguração.
Era um domingo. René Burri passando ali na Praça dos 3 Poderes, viu aquela família simples (com roupa de ir à Missa) apreciando demoradamente o Palácio do Planalto. Não teve dúvidas. Burri desceu do Jeep e fez essas duas fotos abaixo.
Gostaria que os 22,1 membros deste MEMÓRIA lessem o que René Burri deixou registrado em seu livro BRASÍLIA (Editora Scheidegger & Spiess):
“Para mim Brasília era uma utopia que se transformou em realidade. Era uma cidade que saiu do nada em poucos anos. Existe uma foto no meu livro…ela mostra uma família que chega ao final. Eu tive de chorar quando vi essa imagem. Eram os chamados “candangos”, não? Ele chegou com um machado e chapéu de palha e, no final, quando o trabalho estava pronto, levou a mulher e os filhos com suas melhores roupas para ver o seu trabalho. E depois era a inauguração e esse pessoal teve de partir.”
O grande fotógrafo René Burri pertenceu à geração de fotógrafos que deu sua contribuição para a afirmação da fotografia jornalística e documental como meio de expressão independente e de caráter autoral.
Viajou o mundo. Retratou inúmeras personalidades importantes da História do século 20. Mas não se esqueceu de caminhar pelas ruas, essa fonte inesgotável de surpresas da vida cotidiana.
Ele começou a fotografar aos 13 anos, quando o primeiro ministro do Reino Unido Winston Churchill desfilava pela cidade. Formou-se em fotografia na faculdade de arte de Zurique.
FOTOS:
1 e 2) As duas FOTOS que René Burri tirou da família.
2) Foto do interior do Palácio do Planalto em construção.
3) A inauguração de Brasília, JK acena para o povo na Praça dos 3 Poderes.

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JEAN DE LÉRY – PARTE 5

A HISTÓRIA DO AVATI OU CAUIM

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Jean de Léry (1536-1613) aquele que entrou de gaiato no navio, para nossa sorte, continua suas histórias sobre o Brasil de 1550. Léry – só para relembrar – acreditou na balela do poderoso Nicolas Durand de Villegaignon e embarcou em um dos navios franceses que vieram colonizar a porção Antártica da França. O relato que o artesão e futuro pastor calvinista deixou aos brasileiros é precioso. Nesta Parte 5, Jean de Léry explica como nos primeiros anos do século XVI, os Tupinambás faziam e apreciavam o avati ou cauim. As cauinagens estavam presentes como um dos mais tradicionais festejos dos Tupinambás. Era uma espécie de “combustível” para comemorações sobre vitórias frente aos inimigos. Esses inimigos, quando derrotados, eram capturados e tidos como principal ingrediente da antropofagia indígena.

Jean de Léry conta em seus escritos como os índios fazem o avati, a bebida do milho. “São as mulheres, como já disse, que tudo fazem nessa preparação, tendo os homens a firme opinião de que se eles mastigarem as raízes ou o milho a bebida não sairá boa. (…) Os selvagens chamam essa bebida cauim; é turva e espessa como borra e tem como o gosto de leite azedo. Há cauim branco e tinto tal qual o vinho. (…) Quando querem divertir-se e principalmente quando matam com solenidade um prisioneiro de guerra para comer, é seu costume beber o cauim amornado e a primeira coisa que fazem as mulheres é um pequeno fogo em torno dos potes de barro para aquecer a bebida”.

(…) O curioso é que os Tupinambás nada comem durante as bebedeiras do mesmo modo porque não bebem às refeições muito estranhando ver-nos entremear uma e outra coisa à nossa moda”.

 

SÓBRIOS NO COMER E EXCESSIVOS NO BEBER

“Cumpre notar que embora não observem horas de jantar, merendar ou cear, como o fazemos, nem trepidem em comer à meia-noite ou ao meio-dia, só o fazem quando têm fome e pode-se dizer que são tão sóbrios no comer quanto excessivos no beber. Alguns têm o bom hábito de lavar as mãos e a boca antes e depois da comida; quanto à boca, creio que o fazem porque do contrário a teriam sempre viscosa em razão das farinhas de raízes e de milho que consomem em lugar de pão. Quando comem observam admirável silêncio e se têm alguma coisa para dizer, esperam até acabar a comida. E quando nos ouviam tagarelar alegremente às refeições, como entre franceses é costume, punham-se a motejar”.

“Mas é principalmente quando emplumados e enfeitados que matam e comem um prisioneiro de guerra em bacanais à moda pagã, de que são sacerdotes ébrios, que se faz interessante vê-los rolar os olhos nas órbitas. Mas também acontece sentarem-se em redes de algodão e uns em frente dos outros beberem modestamente; mas como o seu costume é de se reunirem todos, de uma aldeia ou de muitas, para beber (o eu nunca fazem para comer), esses beberetes especiais são muito raros.

 

UMA HISTÓRIA TRAGICÔMICA

Bebam pouco ou muito porém, como não sofrem de melancolia, congregam-se todos os dias para dançar e folgar em sua aldeia. (…) vou contar uma história tragicômica que em sua aldeia me contou um ‘mussacá’, isto é, um bom e hospitaleiro pai de família: ‘Surpreendemos uma vez’, disse ele na sua rude linguagem, ‘uma caravela de pêros (isto é, portugueses, que são inimigos mortais dos nossos tupinambás) ma qual, de mortos e comidos todos os homens e recolhida a mercadoria existente, encontramos grandes ‘caramemos’ (tonéis e outras vasilhas de madeira) cheias de bebida que logo tratamos de provar. Não sei que qualidade de cauim era, nem se o tendes no vosso país; só sei dizer que depois de bebermos ficamos por três dias de tal forma prostrados e adormecidos que não podíamos despertar’. É verossímil que fossem tonéis de bom vinho da Espanha, com os quais os selvagens, sem o saber, festejaram a Baco”.

 

A MASTIGAÇÃO DO MILHO

“No que me diz respeito, ao chegarmos a esse país procuramos evitar a mastigação no preparo do cauim e fazê-lo de modo mais limpo. Por isso pilamos raízes de aipim e mandioca com milho, mas, para dizer a verdade, a experiência não provou bem. (…) às pessoas que, em vista do que disse acima acerca da mastigação das raízes e do milho no preparo da bebida, enjoem e engulhem, lembro o modo pelo qual entre nós se fabrica o vinho. Pois se tivermos em vista que nos lugares onde crescem os bons vinhedos os vinhateiros, no tempo da vindima, metem-se de sapatões, machucam as uvas e ainda as enxovalham na lagariça, veremos que nesse mister se passam muitas coisas talvez menos aprazíveis do que a mastigação das mulheres americanas”.

 

A HISTÓRIA DO PAPAGAIO DA ÍNDIA

Descreve os animais e as aves que encontra: “Maior maravilha ainda me pareceu, porém, um papagaio dessa espécie pertencente a certa índia de uma aldeia distante duas léguas de nossa ilha. Dir-se-ia que essa ave entendia o que lhe falava a sua dona. Quando por ali passávamos esta nos interpelava: ‘dai-me um pende ou um espelho e eu farei com que o meu papagaio cante e dance em vossa presença’. Se dávamos o que pedia, bastava-lhe uma palavra para que a ave começasse a saltar na vara em que pousava, a conversar, assobiar e arremedar os selvagens de partida para a guerra, de um modo incrível. E quando a dona dizia para cantar, ele cantava; e também dançava quando ela lho ordenava. Se, porém, não lhe dávamos nada, ela se limitava a dizer asperamente ao papagaio: ‘auge’, isto é ‘pára’ e ele se aquietava sem proferir palavra e por mais que lhe disséssemos não movia nem o pé nem a língua. (…) A índia chamava-o ‘cherimbabo’ o que quer dizer ‘coisa muito amada’. E o apreciava tanto, em verdade, que se lhe perguntávamos quanto queria por ele, para vender, respondia: ‘mocauaçu’, isto é ‘canhão grande’, de modo que nunca o pudemos obter”.

 

 

‘GUANAMBI’ OU BEIJA-FLOR

“Como não me seria possível especificar minuciosamente todas as aves existentes no Brasil, tão diversas das nossas nas cores que lhes são peculiares, isto é, encarnado, branco, roxo, cinzento, púrpura, etc., finalizarei pela descrição de uma, entre as demais, que os selvagens têm em grande estima. Muito se penalizariam se alguém lhe fizesse mal e ai de quem a matasse! É cinzenta e maior do que o pombo e tem a voz mais aguda e plangente ainda do que a coruja.

 

‘Guanambi’, que os portugueses batizariam de ‘beija-flor’.

 

Os nossos tupinambás imaginam, entretanto ao ouvirem-na cantar à noite, principalmente, serem seus parentes e amigos mortos que a enviam em sinal de boa fortuna, para animá-los na guerra”.

Assim Léry descreve o ‘guanambi’, que os portugueses batizariam de ‘beija-flor’.

 

 

PRÓXIMA EDIÇÃO 365 – Agosto 2024 – JEAN DE LÉRY – Parte 6 

Jean de Léry conta que “as abelhas da América não se parecem com as nossas (europeias); antes se assemelham às pequenas moscas pretas que temos no estio e, principalmente, no tempo das uvas. Fazem seu mel e sua cera, produtos que os selvagens sabem aproveitar, em paus das florestas. Às colmeias, chamam os selvagens ‘ira-ictic’, de ‘ira’, mel e ‘ietic’, cera. (…) Acrescentarei ainda que sob as pedras encontram-se no Brasil escorpiões, os quais menores que o da Provença, são venenosos e mesmo mortais, como verifiquei.

 

 

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Índias brigadistas voluntárias

Mulheres indígenas estão mapeando nascentes e reflorestando margens de igarapés no Maranhão.

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O povo Guajajara habita a Terra Indígena (TI) de 15.002,91 hectares, cujo território é quase inteiramente localizado no município de Bom Jardim-MA, distante pouco mais de 240 km da capital São Luís. Apenas uma pequena porção de 2% está no município de Monção. Na área, o Rio Pindaré dá nome ao lar dos Guajajara e marca uma parte das divisas da TI.

 

Enquanto o Estado do Maranhão desmata, os Guajajaras protegem e 

retomam paisagens ricas em biodiversidade na Terra Indígena Rio Pindaré.

Foto: Robert Miller/Acervo ISPN

 

A Brigada Voluntária Indígena, também chamada de “Mãe D’água: das nascentes para reflorestar mentes”, em parceria com outros grupos, como o das mulheres indígenas Wiriri Kuzá Wá, estão fazendo milagres: mapeiam nascentes da região e reflorestam as margens dos igarapés.

 

DADOS ALARMANTES

A iniciativa das mulheres e a parceria proposta por meio do projeto segue na contramão dos dados alarmantes de desmatamento no Maranhão. Conforme o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD) 2023 do MapBiomas, o estado é primeiro lugar na perda de vegetação nativa, com uma área desmatada que contabiliza 331.225 hectares. Isso significa um aumento de 95,1% no desmatamento, o que implica na nova posição de líder do desmatamento assumida pelo estado do Maranhão em 2023.

 

 

Organização de mulheres e os brigadistas voluntários da TI Rio Pindaré durante o plantio de 80 mudas de árvores frutíferas nas margens de nascentes de igarapés em abril. Foto: Robert Miller/Acervo ISPN

 

PRÁTICAS CULTURAIS E AMBIENTAIS

É em um cenário de resistência que mais de 50 mulheres da Wiriri, juntamente com 15 homens da Brigada Voluntária, empenham uma luta para fortalecer as práticas culturais e ambientais de seu povo. Excursões na mata ocorreram em abril deste ano nas aldeias Januária; Piçarra Preta, Novo Planeta e Guarimã, para identificar cinco nascentes de igarapés prioritárias para o reflorestamento e para o plantio de 80 mudas de espécies nativas nas margens, principalmente frutíferas. No geral, as atividades propostas pelo projeto envolvem jovens, adultos e anciãos das nove aldeias do território, com destaque para as mulheres indígenas.

 

GARIMPANDO NASCENTES

Durante dois dias de excursões, os grupos visitaram esses cinco pontos prioritários de nascentes, se deslocando de barco pelo rio ou em caminhada por babaçuais. Com a identificação das nascentes, houve a qualificação e marcação dos pontos por GPS, acompanhado do plantio de mudas de juçara, bacaba e cupuaçu, provenientes do viveiro da Brigada Voluntária na Aldeia Januária.

 

 

Mapear e reflorestar as margens para recuperar as nascentes tem o principal intuito de fortalecer as práticas culturais e ambientais do povo Guajajara. Foto: Robert Miller/Acervo ISPN

 

Para a liderança indígena local Vanussa Viana Guajajara, participar das excursões foi um momento de reconexão com a natureza, um preenchimento na memória das histórias contadas pelos mais velhos sobre a riqueza de animais e paisagens outrora intocadas em diversos pontos da TI. Além, de membro da Wiriri Kuzá Wá, Vanussa faz parte da Articulação de Mulheres Indígenas do Maranhão (AMIMA), é acadêmica de Ciências Biológicas na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), agricultora familiar e pescadora artesanal.

“É uma parte da história que estava faltando, um vácuo que precisava ser preenchido. Meu pai já foi cacique e contava sobre os lugares que visitamos, dizia ‘Ah, eu conheci, a gente fazia esse monitoramento’. Isso desde a infância dele e dos ‘mais antigos’. Mas, só quando a gente começa a entender que o espiritual vem antes de qualquer outro tipo de articulação, a gente se sente mais fortalecido. Sentimos a necessidade desse vínculo, é uma carga de energia que não pode ser explicada, mas é sentida por cada um que compartilha desses momentos”, comenta Vanussa.

 

RESGATE DAS MEMÓRIAS

O resgate das memórias da paisagem da TI com as anciãs e anciões é uma etapa essencial das atividades do projeto, onde a vivência completa esses relatos que estão nas lembranças dos adultos e são repassados aos mais jovens. Durante as excursões na mata, além de ser uma oportunidade para visualizar aquilo que os “mais antigos” contam em suas histórias, foi um momento de relembrar alguns cenários já observados por algumas das participantes há tempos. É o caso da agente de saúde Eloide Rodrigues Guajajara, que também quer contar essas histórias aos seus filhos e netos.

“Vi esses lugares quando criança, mas são poucas as lembranças. A luta para preservar nosso território vem desde a minha mãe, foi uma luta da minha vó e é uma luta que vem antes delas. Quero mais tarde poder mostrar para os meus filhos e netos, quero deixar minha história e que as pessoas digam ‘Ela sempre esteve nessa luta, ela sempre esteve aqui’, quero mostrar para eles nossa luta indígena. Para isso, temos que partir para as atividades de reflorestar aquilo que foi perdido”, explica Eloide.

 

 

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Adasa se reúne com representantes do Instituto e do Escritório de Arquitetura e Urbanismo Oscar Niemeyer

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A Diretoria Colegiada da Adasa, composta pelo diretor-presidente, Raimundo Ribeiro, e pelos diretores Vinicius Benevides, Felix Palazzo, Apolinário Rebelo e Rogério Rosso, recebeu nesta terça-feira (09/07) visita do secretário de Relações Internacionais do Governo do Distrito Federal (Serinter), Paco Britto, do advogado Allan Guerra e do engenheiro Eduardo Fontenelle, representantes do Instituto e do Escritório de Arquitetura e Urbanismo Oscar Niemeyer.

Memorial Internacional da Água - MINA é apresentado durante o Conexão Brasília Museu Aberto - Associação Brasileira de Agências Reguladoras

A pauta da reunião foi o Memorial Internacional da Água – MINA, projeto coordenado pela Agência, em parceria com o GDF e com a Caesb, que representará um marco na disseminação de informações e discussões em torno dos recursos hídricos no Distrito Federal e no mundo. O complexo arquitetônico é assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

 

Assessoria de Comunicação Institucional da Adasa (ACI)

 

 

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