Reportagens

Chegam ao mercado os vinhos da BRS Bibiana, uva desenvolvida pela pesquisa brasileira

Os primeiros vinhos comerciais da BRS Bibiana são de três vinícolas familiares da Serra Gaúcha

 

Lançada em 2019, a uva BRS Bibiana acaba de gerar os primeiros vinhos disponíveis no mercado. As bebidas estão sendo comercializadas por três vinícolas familiares da Serra Gaúcha: Casa Zottis, Vinícola Cainelli e Vinícola Buffon. Desenvolvida pelo programa de melhoramento genético “Uvas do Brasil”, da Embrapa, a BRS Bibiana apresenta alta produtividade e requer menos tratamentos fitossanitários, gerando mais sustentabilidade ambiental e economia ao produtor. A uva ainda tem excelente potencial enológico e é adaptada às condições do clima subtropical úmido da Serra Gaúcha.

A BRS Bibiana é uma uva branca, resistente às podridões de cacho, especialmente pelo fato de que os cachos são soltos e não compactos. O vinho elaborado apresenta perfil sensorial similar às uvas europeias com nível de açúcar, na maturação, em torno de 21 graus Brix e acidez variando de 100 a 120 miliequivalentes (mEq) por litro.

“Ao degustar o vinho elaborado com a BRS Bibiana, o perfil sensorial remete sutilmente ao Sauvignon Blanc, uva muito utilizada em diversos países do mundo, mas pouco adaptada à Serra Gaúcha, em função das condições climáticas”, explica o pesquisador Mauro Zanus, da Embrapa Uva e Vinho.

Zanus acredita que essa cultivar –  pela sua alta produtividade, adaptação e facilidade de manejo – é uma excelente oportunidade de inovação para as vinícolas. O vinho tem características sensoriais únicas, é refrescante e tem aromas varietais marcantes. A cultivar pode ser empregada tanto para vinhos brancos tranquilos como frisantes, além de ser uma opção para corte (blend) com outras variedades.

“Hoje o consumidor busca novas propostas, vinhos diferenciados; e nada melhor do que elaborar um vinho brasileiro com uma cultivar nacional, como a BRS Bibiana”, destaca o enólogo Roberto Cainelli Júnior, da Vinícola Cainelli (foto à direita). A vinícola familiar, localizada no município de Bento Gonçalves, existe desde 1929. A empresa passou um tempo parada e retomou as atividades em 2010, quando Cainelli Júnior assumiu como enólogo.

Ele relata que, já em 2011, conquistaram diversas premiações e, desde então, trabalham cada vez mais para trazer inovação ao setor vitivinícola. “A melhor maneira de contar a nossa história é através de nossos vinhos. E encontramos nas variedades da Embrapa uma alternativa para valorizar o produto nacional e oferecer um produto diferente para o nosso cliente”, reforça.

Além do lançamento da BRS Bibiana, o enólogo conta que a BRS Lorena, outra cultivar da Embrapa, faz sucesso na vinícola desde o seu lançamento. Na última safra, ele inovou e fez o vinho da BRS Lorena passar por barrica de carvalho, o que adiciona uma maior complexidade e novos aromas e sabores. Ele conta que o resultado foi um sucesso, com a produção totalmente vendida e já com um segundo lote atendendo a lista de encomendas.

O frisante da BRS Bibiana, elaborado pelo enólogo Anderson Buffon (foto à esquerda), também nasceu da busca por novidades para os clientes. Ele comenta que conheceu a uva durante uma degustação, promovida pela Embrapa durante a Fenavinho, em junho deste ano, e foi uma inspiração já no primeiro gole. “O vinho tem um sabor de frutas tropicais, como maracujá, manga e abacaxi. A partir do método tradicional, fiz vários testes e optei por elaborar com um frisante demi-sec. Ele ficou muito interessante”. Buffon complementa que os clientes que provaram já gostaram. Por isso, espera que as 400 garrafas elaboradas na vinícola familiar, que fica no distrito de Faria Lemos, de Bento Gonçalves, sejam logo vendidas, abrindo novas oportunidades de mercado para a cultivar. Ele também tem no seu portfólio produtos elaborados com a BRS Lorena.

O casal Juliano e Daniela Zottis, proprietários da Casa Zottis, que fica no coração do Vale dos Vinhedos, também vai lançar o vinho tranquilo da BRS Bibiana, como parte da linha Cantare, uma homenagem ao “nono” Danilo. Eles foram parceiros da Embrapa desde o processo de validação da cultivar BRS Bibiana e agora também apostam ao ser um dos primeiros a lançar o vinho da variedade. “A gente consegue colher a uva com uma sanidade muito boa e isso reflete na taça, com aromas finos e muita refrescância”, comenta Daniela, que também é a enóloga da cantina.

Ela acredita que o vinho da BRS Bibiana seguirá o mesmo sucesso do vinho da BRS Lorena, que considera ser o ideal para os consumidores interessados em passar do suave para o seco. “As cultivares BRS nos diferenciam dos demais produtores, não apenas para a elaboração de vinho, mas pelas uvas sem semente que vendemos in natura, como a BRS Vitória, a BRS Clara e a BRS Isis, que são um sucesso com os turistas”, destaca.

Juliano Zottis, que fica responsável pela produção das uvas, reforça que as cultivares desenvolvidas pela Embrapa são excelentes para o viticultor pela qualidade e quantidade. Ele destaca que a sustentabilidade que essas cultivares possibilitam, com a redução da aplicação de agroquímicos, é um grande diferencial. Em alguns casos, nas uvas de mesa, é possível a produção orgânica.

Segundo avaliação do extensionista Thompson Didoné, um dos responsáveis pela legalização de pequenas vinícolas familiares no estado do Rio Grande do Sul, as variedades de uvas desenvolvidas pela Embrapa são uma grande oportunidade de agregação de valor para os pequenos produtores. “Acreditamos que as cultivares BRS são uma excelente alternativa para agregar valor ao vinho elaborado pela agricultura familiar. Já podemos ver isso nesses primeiros vinhos da BRS Bibiana que chegam ao mercado.”

Lançamento na Wine South America

As três vinícolas apresentarão os primeiros vinhos comerciais da BRS Bibiana na Wine South America, feira internacional que ocorre de 21 a 23 de setembro, em Bento Gonçalves (RS).

A Vinícola Cainelli estará no espaço do Sebrae; já a Vinícola Buffon e a Casa Zottis (foto à direita) estarão no espaço das Agroindústrias, apoiado pelo Banco Sicredi. A Embrapa também estará na feira com estande e promoverá duas masterclasses, com apresentação e degustação de vinhos das cultivares BRS Lorena e BRS Bibiana, que serão conduzidas pelos pesquisadores Celito Guerra e Mauro Zanus. Também no evento, o pesquisador Giuliano Elias Pereira realizará uma masterclass sobre as cultivares de uva para suco do programa de melhoramento genético da Embrapa. As inscrições para as masterclasses são gratuitas para os participantes da feira, porém, limitadas devido ao espaço das salas e podem ser realizadas neste endereço.

 

Produtores falam sobre os primeiros vinhos comerciais da BRS Bibiana

 

O melhoramento das uvas do Brasil

O programa de melhoramento genético de videiras da Embrapa “Uvas do Brasil” tem contribuído, ao longo de mais de 45 anos, com uma vitivinicultura mais sustentável a partir da oferta de novas cultivares. O processo de melhoramento busca cultivares, sobretudo, tolerantes às principais doenças. Com isso, há a possibilidade da utilização mais racional de insumos que resultam em uvas que recebem menos aplicações de fungicidas e cujos custos de produção são relativamente menores.

“Ao planejar um novo cruzamento, recorremos à nossa coleção de 1,5 mil tipos de uvas disponíveis no banco ativo de germoplasma de uvas, que já foram avaliadas quanto às características agronômicas e outras, como qualidade do mosto, com o objetivo de selecionar os progenitores e iniciar o desenvolvimento de uma nova cultivar”, explica Patrícia Ritschel, pesquisadora na área de melhoramento da Embrapa.

Ela conta que, desde 1977, o programa já lançou 21 cultivares; destas, três são consideradas tolerantes: a BRS Lorena, a BRS Margot e a BRS Bibiana, no segmento de vinhos, que remetem aos produtos elaborados com uvas europeias. A pesquisadora explica que o foco é desenvolver cultivares que sejam competitivas no mercado e agreguem valor aos produtos e renda para os produtores.

Ritschel destaca que os cruzamentos, que envolvem diversas espécies do gênero Vitis, originam cultivares híbridas, cujos vinhos ainda sofrem preconceito, mas se observa uma mudança de cenário devido à busca pela sustentabilidade vitícola e à adaptação da cultura às mudanças climáticas. Um exemplo prático dessa nova orientação é que países tradicionais produtores de vinhos, como os da Comunidade Europeia, estão aceitando variedades híbridas para elaboração de vinhos quando a maioria dos genes são oriundos de variedades viníferas.

“O que importa são as características das uvas e, principalmente, como o vinho se apresenta na taça, quanto aos seus atributos visuais, olfativos e gustativos, e não a sua constituição genética”, também defende o pesquisador Giuliano Elias Pereira, da área de enologia da Embrapa.

Os técnicos entendem que o Brasil pode ocupar um espaço de vanguarda na busca pela sustentabilidade da vitivinicultura, visto que já dispõe de cultivares tolerantes, à disposição do setor produtivo. O que é necessário é que o consumidor conheça mais os produtos elaborados com essas cultivares e o setor produtivo se aproprie dessa genética desenvolvida, especialmente, para as condições brasileiras.

Os pesquisadores acreditam que as uvas BRS da Embrapa ajudam a criar uma identidade única para o vinho brasileiro, com características diferenciadas e sustentáveis do campo à taça. Eles destacam que essa conquista se dá em conjunto com o setor produtivo, com destaque para as pequenas vinícolas, que estão se apropriando das tecnologias e agregando valor ao produto final, uma conquista importante para um mercado considerado muito exigente.

BRS Bibiana

A inspiração para o nome veio da personagem Bibiana Terra Cambará, gaúcha forte e eternizada no romance “O Tempo e o Vento”, escrito por Érico Veríssimo, há mais de 70 anos (1949). Além de numerosas reedições, o livro foi eternizado em adaptações para o cinema e a televisão.

 

Pesquisador Mauro Celso Zanun detalha a importância do programa de melhoramento genético de uvas e fala sobre os diferenciais da uva BRS Bibiana

Uvas BRS em destaque

A expectativa da Embrapa Uva e Vinho é que a BRS Bibiana siga a trajetória de sucesso da BRS Lorena, lançada em 2001, e muito utilizada por produtores; inclusive, é destaque nos portfólios dos viticultores que estão lançando os primeiros vinhos da BRS Bibiana. A BRS Lorena é conhecida por ter seus vinhos selecionados em degustações às cegas, com outros moscatéis, em que se destaca pela tipicidade, intensidade, qualidade dos aromas e sabor.

“Temos observado cada vez mais consumidores buscando produtos elaborados com a BRS Lorena. Por outro lado, diversos vitivinicultores estão apostando na cultivar, desenvolvendo produtos de qualidade, com uma excelente apresentação, seja no modelo da garrafa, nos rótulos diferenciados ou tipos de embalagens, o que agrega valor ao produto”, comenta Marcos Botton, chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Uva e Vinho.

Um dos exemplos mencionados por ele é o da Vinícola Goés, de São Roque (SP), que comercializa o vinho “Tempos de Goes”, produzido com a BRS Lorena, que ainda tem uma versão em lata. A vinícola também apostou na cultivar para criar um Vinho Licoroso – Edição Especial Gumercindo de Góes 2011, internacionalmente premiado.

Botton destaca que, na Serra Gaúcha e em outras regiões produtoras, diversas vinícolas estão incluindo os produtos elaborados com a BRS Lorena em seus portfólios ou mesmo valorizando as outras cultivares desenvolvidas pela Embrapa, como é o caso da Adega Chesini, uma pequena empresa de Farroupilha.

A Adega Chesini, liderada por Ricardo Chesini, foi além e desenvolveu a coleção Le Ragazze – As Garotas de Identidade Brasileira (foto), na qual, além da tradicional cultivar Isabel, desenvolveu produtos especiais com a BRS Lorena, BRS Cora, BRS Rúbea e BRS Carmem, todas provenientes do programa de melhoramento genético “Uvas do Brasil”, da Embrapa.

“Todo o projeto foi bastante pensado. Desde a escolha das cultivares, a descrição dos rótulos, os desenhos, a embalagem. Enfim, foi um trabalho bastante gratificante e que está sendo muito valorizado pelos consumidores”, avalia Chesini.

 

 

 

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reportagens

Escritor Joaquim Arena preenche vazios de Europa negra invisibilizada

Autor participa do Clube do Livro do CCBB-RJ

Publicado

em

Por

Ana Cristina Campos – Repórter da Agência Brasil

Revelar uma Europa negra, apagada das narrativas oficiais, é o que propõe o autor luso-cabo-verdiano Joaquim Arena, que revisita a presença de africanos e seus descendentes no continente europeu por meio do livro Debaixo da nossa pele (2017).

A partir de viagens por Portugal, arquivos e relatos, o escritor reconstrói trajetórias de personagens negros pouco conhecidos. A jornada também se cruza com a história da migração cabo-verdiana para Lisboa e com a trajetória do próprio escritor.

Arena nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 1964. É filho de pai português e de mãe cabo-verdiana e viveu grande parte da sua vida em Lisboa. Em Portugal, ele se formou em direito e iniciou a carreira em jornalismo.

O escritor está no Rio de Janeiro para participar do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ), no centro da capital fluminense, às 17h30 desta quarta-feira (14).

Autor de seis romances, traduzidos em várias línguas, Arena escreveu Siríaco e Mister Charles, vencedor do Prémio Oceanos de Literatura, na categoria Prosa, em 2023. Atualmente, reside em Cabo Verde, na cidade de Praia.

Cabo Verde e Brasil

Com o tema “Romance histórico: onde a realidade encontra a ficção”, o encontro gratuito propõe uma conversa sobre memória, pertencimento, identidade e as marcas do passado colonial que permanecem no presente.

A partir da obra de Arena, o evento busca aproximar experiências históricas e culturais de Cabo Verde e do Brasil, dois países atravessados por deslocamentos populacionais, encontros entre diferentes culturas e pelas relações entre África e Europa.

O autor conta que Debaixo da nossa pele fala da miscigenação e da circulação dos povos da África para a Europa. O público poderá perceber semelhanças com a formação do Brasil.

“Debaixo da nossa pele fala dessa condição humana de deslocamento das pessoas de um país a outro, levadas por questões econômicas, sociais e políticas. O livro faz essa síntese, pois a circulação continua ainda hoje, é positiva, abre oportunidades de novas janelas de vida para muitas pessoas”, diz Arena.

 

Rio de Janeiro (RJ), 14/10/2026 – O escritor luso-cabo-verdiano, Joaquim Arena, que participará do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB-RJ),  fala à Agência Brasil, no centro da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O escritor luso-cabo-verdiano, Joaquim Arena, que participará do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB-RJ). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Preenchendo vazios

Para o escritor, a história tem um poder atrativo mais forte do que o presente.

“Sou levado a encontrar, no meio dos fatos históricos, os vazios. São esses vazios que eu pretendo preencher através da minha ficção. Aproveito episódios verídicos que são muito inspiradores para que nós imaginemos uma personagem. Fico com vontade de saber mais, senão eu invento a personagem”, afirma o autor.

Arena conheceu a literatura brasileira aos 12 anos, com a obra de Jorge Amado. Ele se identificou com o livro Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, que também fez parte da sua formação. Para ele, foi uma porta de entrada de uma literatura que não era portuguesa, europeia nem africana.

“Nós, das antigas colônias portuguesas, recebemos a literatura brasileira como uma janela para um mundo muito semelhante ao nosso”.

“Jorge Amado, com sua Bahia, está na formação de muitos autores lusófonos na África. Depois, vamos crescendo e encontrando Guimarães Rosa, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos. O romance da década de 30 fala dos retirantes, da seca. É uma realidade muito próxima da nossa”, diz Arena.

O autor acredita que um clube de leitura é um reduto onde se mantém ainda uma magia e em que se ouve falar de invenções.

“Há um pacto do autor com o público. O escritor sabe que o que ele inventou não existiu. O leitor sabe que o romance saiu da imaginação. Isso cada vez mais num mundo acelerado, com redes sociais, com streamings”.

Continue Lendo

Reportagens

Técnicos apresentam o andamento das metas fiscais do governo

Apresentação feita à CEOF mostra que, até agosto, receita corrente líquida do DF foi de R$ 28 bilhões, o que significa cerca de 72% da meta

Publicado

em

Por

 

Foto: Felipe Ando/Agência CLDF

Com relação à despesa total empenhada, GDF gastou R$ 31 bilhões até agosto, dos R$ 47,6 bilhões previstos para o ano

A Comissão de Economia, Orçamento e Finanças da Câmara Legislativa realizou audiência pública na manhã desta quinta-feira (15) para avaliar as metas fiscais do Governo do Distrito Federal nos primeiros 8 meses de 2026. Na ocasião, técnicos do governo apresentaram à comissão números referentes a receitas e despesas do GDF nos dois primeiros quadrimestres do ano em comparação às metas previstas nas leis orçamentárias. 

Confira a cobertura fotográfica no Flickr da CLDF

Com relação às receitas correntes, a previsão inicial para 2026 era de R$ 39 bilhões e o valor alcançado até agosto é de R$ 28 bilhões, o que significa um alcance de 71,85% da meta. As receitas de capital até agosto somam R$ 1,1 bilhão, enquanto a previsão inicial para 2026 era de R$ 726 milhões, o que representa 163,16% de alcance da meta. O total de receitas tributárias até agosto soma R$ 20,1 bilhões, enquanto a previsão para o ano era de R$ 25,4 bilhões, representando 79,29% da meta estabelecida. O ICMS, sozinho, representa 46,2% de toda a arrecadação com impostos e taxas. Com relação à despesa total empenhada, a dotação autorizada para 2026 era de R$ 47,6 bilhões, sendo que o governo gastou R$ 31 bilhões até agosto, o que representa 65,3% da dotação.

Para o deputado Eduardo Pedrosa (União Brasil), presidente da CEOF, os números são positivos para o governo. “De maio a agosto, tivemos um incremento na casa de R$ 1 bilhão fruto da alienação de bens. Assim chegamos a 72% do total previsto a realizar de receita. Já temos um indicativo de que teremos excesso de arrecadação ao longo do último quadrimestre. Estamos chegando a quase 50% do saldo total previsto para investimentos no ano, que é de R$ 3,5 bilhões. Isso mostra que os investimentos não pararam mesmo diante de situações orçamentárias excepcionais”, avaliou.

Representando o governo, o assessor especial de política fiscal da Secretaria de Economia do DF, Luiz Barreto, ressaltou que o ano de 2026 foi impactado pelo déficit orçamentário do ano anterior. “O DF, nos últimos dois anos, apresentou déficit. E esse déficit teve impacto em 2026. Nós entramos em 2026 com quase R$ 3 bilhões de déficit. Por isso, a execução orçamentária de 2026 precisa priorizar o que é relevante, como saúde e educação. Até o presente momento temos um resultado primário de superávit de R$ 1,8 bilhão na Lei de Diretrizes Orçamentárias e déficit de R$ 1,5 bilhão na Lei Orçamentária Anual”, explicou.

O assessor também comentou os números relacionados a gastos com pessoal e repasses obrigatórios para a educação. “Até agosto tivemos um índice de 40,54% do orçamento destinado para gasto com pessoal, o que está dentro do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal. Sobre os mínimos empenhados em educação, a lei determina que ao final do exercício temos que atingir 25% e hoje estamos em 23%”, relatou Barreto. A íntegra da audiência pública está disponível no canal da TV Câmara Distrital no YouTube.

 

 

Eder Wen – Agência CLDF

Continue Lendo

Reportagens

Debatedores alertam para diferentes formas de violência contra meninas

A audiência foi presidida pela senadora Leany Lemos (C)
Geraldo Magela/Agência Senado

Publicado

em

Por

 

Crianças e adolescentes representam um terço dos usuários de internet no mundo. No Brasil, um em cada cinco adolescentes foi vítima de alguma forma de abuso ou exploração sexual facilitada pela tecnologia em 2025. A maioria das vítimas é formada por meninas, e a violência ocorre principalmente em aplicativos conhecidos, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A informação foi apresentada nesta quinta-feira (15) em audiência da Comissão de Direitos Humanos (CDH), que debateu os desafios das políticas públicas para garantir a proteção integral das meninas no país. Os participantes também alertaram para outras formas de violência contra meninas e defenderam medidas de prevenção e proteção.

O debate foi requerido pela presidente do colegiado, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), em alusão ao Dia Internacional da Menina, celebrado no domingo (11), por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU). A reunião foi presidida pela senadora Leany Lemos (PSB-DF), suplente da senadora licenciada Leila Barros (PDT-DF). Para Leany, é preciso prevenir violências e permitir que cada menina desenvolva plenamente as suas capacidades.

— Quantas meninas ouvem que a liderança não é para elas? Quantas assumem responsabilidades domésticas e do cuidado antes de terem condições de construir seus próprios projetos de vida, e nisso elas nem sonham ser outras coisas, porque elas não têm essas oportunidades? Quantas meninas, na maioria negras ou pobres das periferias e das regiões distantes do Brasil, enfrentam obstáculos ainda maiores para exercer esses direitos, que são direitos universais? Então, essas perguntas têm que orientar as nossas políticas públicas — afirmou.

Ambiente digital

A coordenadora-geral de Direitos Humanos da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Fernanda Souza Carlos, afirmou que a exploração sexual de crianças e adolescentes exige novas estratégias de enfrentamento, diante da migração de parte dos crimes para o ambiente digital. Ela defendeu a articulação entre órgãos públicos e sociedade civil para ampliar a proteção às meninas.

— O crime que a gente via antigamente com as meninas, as crianças à beira da rodovia, hoje, a gente não vê mais. Esse crime está no digital. Então, cada vez mais fica mais complexo o combate aos crimes voltados à exploração sexual de crianças e adolescentes, porque, de certa forma, ele está invisível. Então, precisa-se de um trabalho muito maior, porque tem muita coisa que a gente não está vendo fisicamente aqui, mas está acontecendo pelo aparelho de celular, que todo mundo tem hoje em mãos — afirmou.

A diretora de Projetos Especiais da SaferNet Brasil, Juliana Cunha, alertou para o uso da inteligência artificial generativa na produção de material de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Segundo ela, mulheres e meninas são as principais vítimas desse tipo de violência. A diretora afirmou que o caráter artificial do conteúdo leva parte da população a subestimar o crime, que provoca danos às vítimas.

O representante do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ricardo de Lins e Horta, destacou mudanças na legislação brasileira, entre elas a entrada em vigor em 2025 do ECA Digital e da Lei 15.487, de 2026, que aumenta penas para crimes sexuais contra crianças e adolescentes na internet. Segundo ele, o país avançou no enfrentamento de crimes como a violência sexual on-line, o cyberbullying e a extorsão sexual, mas precisa garantir a implementação das normas e das políticas de proteção.

— A gente tem uma base legislativa sólida, o desafio é implementar toda ela — afirmou.

Outras violências

Coordenadora de Políticas Educacionais da ONG Associação Serenas, Graziela Larissa da Silva Santos chamou a atenção para comportamentos que podem ser tratados como brincadeiras, mas que violam os direitos das meninas. Segundo pesquisa da organização, sete em cada dez professores ouvidos presenciaram “cantadas” indesejadas dirigidas a meninas nas escolas, e 42% relataram ter visto alunos tocar ou acariciar o corpo de meninas sem consentimento. Ela defendeu a formação de professores e gestores para prevenir a violência, acolher as vítimas e encaminhá-las à rede de proteção.

A delegada-chefe adjunta da Polícia Civil do Distrito Federal, Cyntia Cristina de Carvalho e Silva, destacou que o atendimento não deve se limitar à investigação criminal. Para ela, é necessário articular os serviços de segurança pública, saúde e assistência social, considerando também situações de dependência financeira e os riscos enfrentados pelas vítimas após a denúncia.

— A proteção e a responsabilização precisam caminhar juntas — afirmou.

Os participantes ainda abordaram a gravidez na adolescência e seus impactos na trajetória escolar e profissional, além de questões relacionadas à saúde menstrual e à violência sexual dentro de casa.

Também participaram do debate a especialista em gênero e inclusão da Plan International Brasil, Ana Nery Lima; a coordenadora de Relações Governamentais do Instituto Alana, Tayanne Galeno; a gerente de Comunicação do Instituto Liberta, Renata Greco; e a gerente Meal e Estratégia da Organização Visão Mundial, Manuela Franchini Melani.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

Continue Lendo

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010