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JOÃO PAULO BARBOSA

VIAJANTE DAS FLORESTAS, GELEIRAS, MARES E VULCÕES.

 

EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS

 

Em entrevista exclusiva à FMA, João Paulo Barbosa fala sobre suas expedições e a consequência da ação humana na mudança climática

 

Por Márcia Turcato – texto e entrevista.

João Paulo Barbosa – fotos.

 

Ele é cidadão do mundo. Mas seus documentos dizem que é brasiliense, apesar de ter nascido em Curitiba. O diploma universitário, da UnB, entrega que é bacharel em História. Mas ele combina o conhecimento acadêmico com atividades de fotografia, escalada, navegação, organizador de expedições antárticas e também para qualquer outro canto do planeta onde a curiosidade possa provocá-lo. O dono desse perfil é João Paulo Barbosa, 49 anos de idade, filho do químico Antônio e da advogada Joy, tem três irmãos, casado com a professora Aline Bacelar, pai do pré-adolescente Ian, e atualmente tendo a cidade de São Paulo como referência de endereço.

 

João Paulo Barbosa em águas da Antártica

 

QUEM É JOÃO PAULO BARBOSA

João Paulo atuou como pesquisador convidado da Faculdade de Educação da UnB e foi curador do Museu Virtual de Ciência e Tecnologia. Desde 1999, promove cursos, palestras e expedições ao redor do mundo. Seu trabalho foi premiado, exibido e publicado em cerca de 50 países e reconhecido pela National Geographic Society (EUA, Alemanha e Itália), Smithsonian Institution (EUA), Bruckmann (Alemanha), Banff Centre (Canadá), CICI (Coreia do Sul), The Guardian (Inglaterra), Glénat (França), Patagon Journal (Chile) e ICMBio, WWF e Greenpeace no Brasil, entre outros.

 

 

JOÃO PAULO, O FOTÓGRAFO AVENTUREIRO

Suas fotos fazem parte de coleções particulares e de acervos como o National Museum of the American Indian, em Washington DC, Museu de Fotografia de Fortaleza (Ceará), Instituto Moreira Salles, Itamaraty e Memorial dos Povos Indígenas. A partir de 2011, João Paulo começou a fazer viagens rotineiras à Antártica e atualmente está dedicado à documentação fotográfica e histórica das zonas frias do planeta para registrar as alterações provocadas pela ação humana. Tem 10 livros publicados. O último é ‘Caminhos Imprevisíveis’, edição limitada, onde ele diz “se eu tivesse que ter apenas um livro, teria um Atlas”.

 

 

Pico da Neblina (Yaripo – montanha do vento) está localizado na Amazônia e é a montanha mais alta do Brasil. Sua altitude é de 2.993,78 metros. A região do Parque Nacional do Pico da Neblina faz divisa com a Colômbia e a Venezuela e é uma das maiores áreas de preservação natural da América do Sul. Foto: João Paulo Barbosa

 

DO CERRADO AO PICO DA NEBLINA

Conheci João Paulo há cerca de 30 anos. Estávamos no mesmo grupo que fazia uma trilha de Jeep pelo Cerrado. Ele ainda era estudante de História e desde já apaixonado pela Antártica, onde eu já estivera para escrever ampla reportagem para a revista Isto É, e este foi nosso laço em comum. Depois estivemos juntos em algumas competições ‘off road’ e numa viagem de turismo de aventura no Amapá. Depois disso perdemos o contato porque João Paulo não parou mais de viajar. E se fosse possível percorrer a galáxia, com certeza ele já teria feito. Por tudo isso, foi um enorme prazer reencontrá-lo e fazer essa entrevista para que os leitores da Folha do Meio Ambiente possam conhecê-lo e também o lindo trabalho que realiza. Vale lembrar que João já foi colaborador da Folha do Meio, onde escreveu sobre sua primeira expedição ao Pico da Neblina, ou Yaripo (montanha do vento), na área Yanomami, na década de 90.

 

 

João Paulo BarbosaENTREVISTA

 

FMA- Qual o principal foco das suas viagens?

João Paulo- Boa questão. Faço viagens e faço expedições. As expedições envolvem muita logística, equipamentos e pessoas, também tomam mais tempo de preparação e organização. Mas, o que não é uma expedição, passa a ser viagem. Varia muito o meu foco, às vezes eu estou participando de um projeto para fazer um livro ou uma exposição fotográfica. Às vezes eu viajo só para fazer uma escalada, como aconteceu recentemente no Paquistão. Mas preciso destacar que a viagem para o Paquistão também envolveu a relação com o clima, porque estou dedicado a um projeto sobre o gelo. É um projeto de quatro anos, estou fotografando o gelo ao redor do mundo e os glaciares do Paquistão fazem parte disto. Também faço viagens com cunho social porque trabalho para algumas organizações não governamentais, principalmente inglesas, para fazer reportagens. Já participei de expedições científicas, como o projeto Darwin, programas antárticos do Brasil e também do Chile, além de projetos com universidades. É bem variado meu leque de temas mas todos eles têm viagens.

 

 

João Paulo Barbosa faz um projeto de quatro anos fotografando o gelo ao redor do mundo, como nas altas montanhas do Paquistão

 

FMA- Como é esse projeto sobre o gelo no mundo?

JP-  O ‘N’Ice Planet’ consiste na realização, ao longo de quatro anos, de expedições ao redor do mundo para documentar zonas frias e divulgar as principais questões relativas ao gelo, como os dilemas populacionais, as migrações por conta de mudanças climáticas e o risco de extinção dos povos árticos. Também mostro ativistas ambientais que trazem mensagens importantes, que fazem alertas sobre os riscos que o planeta experimenta, relato conversas com cientistas e mostro trabalhos de geoengenharia que eles desenvolvem, e também procuro documentar o que está sendo feito para mitigar os efeitos do aquecimento global e consequente derretimento do gelo. É um projeto inédito e relevante por sua proposta abrangente e popular. Os conteúdos produzidos serão divulgados regularmente em redes sociais e diversas mídias com o objetivo de instigar o público a refletir, discutir, indagar e atuar por soluções junto aos governantes.

 

 

Céu,  lua e geleiras: o planeta Terra em movimento de beleza única.

 

 

FMA- Como é a urbanização nas montanhas geladas? Hoje existem até hotéis, não é?

JP – Sim, é verdade. Aí está a importância do projeto, pois documentar a urbanização das mais altas montanhas geladas do planeta é dos mais tristes temas que compõem a minha pesquisa sobre o gelo no Antropoceno. Este termo foi empregado pelo químico holandês Paul Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel de química de 1995, para designar uma nova época geológica caracterizada pelo impacto do homem na Terra. Será que logo mais haverá um hotel sofisticado na montanha K2 – também chamada Qogir Feng, o Himalaia – a exemplo do que já acontece no Aconcágua e no Everest? O ‘black carbon’ (concentração de fuligem na atmosfera) acelera o derretimento das geleiras. Foram trinta mil refugiados do clima na região do Himalaia apenas no último Verão.

 

FMA- Qual foi a sua primeira grande viagem?

JP- A primeira grande viagem foi o nascimento, a segunda grande viagem foi minha adoção, quando tinha um ano e meio, em Curitiba, e vim com meus pais para Brasília. Me considero brasiliense. A terceira grande viagem foram os sete meses que vivi na França, pois fui acompanhar minha família, durante o pós-doutorado do pai em Paris. Depois disso vieram inúmeras viagens, todas também importantes e inesquecíveis. 

 

FMA- Quais as melhores viagens e qual a sua região preferida?

JP- Existem muitas melhores viagens. Inclusive a da imaginação, que é viajar quietinho. A viagem à Ásia, que comento em meu último livro (Caminhos Imprevisíveis, Editora Caseira e Ateliê Casa das Ideias), foi entre 2007 e 2008.  Fiz uma viagem de 480 dias que foi muito importante pra mim, quando vi o Himalaia pela primeira vez e fiquei alguns meses na região. Mas eu gosto muito do deserto do Atacama, gostei muito das duas expedições que fiz ao Pico da Neblina, no Amazonas, em área Yanomami, que chamamos de Yaripo, que significa montanha do vento. A Patagônia, principalmente os fiordes da Terra do Fogo, que são lugares em que eu frequento de veleiro, é um lugar lindíssimo. E claro, meu lugar preferido é a Antártica, a Península Antártica e a costa oeste da península, que acho muito especial.

 

 

Lugar preferido de João Paulo: a Patagônia, principalmente os fiordes da Terra do Fogo. Na foto, uma colônia de pinguins

 

FMA- Quantas vezes você esteve na Antártica? 

 

JP- Neste mês de fevereiro de 2023 eu vou participar da minha sexta expedição antártica e será minha sétima embarcado no veleiro Kotik. O veleiro é o Kotik, de 40 toneladas, 60 pés, cinco camarotes e espaço para 10 tripulantes.

 

 

 

O deserto de Atacama, no norte do Chile, tem mais de 100 mil quilômetros quadrados. A maior parte é composta por terreno pedregoso, lago de sal e areia, visto pela lente de João Paulo Barbosa

 

FMA – Qual a melhor experiência que você experimentou?

 

JP- Quando eu tinha 18 anos de idade e estava no norte do Canadá, em Quebec, e vi a aurora boreal, foi uma experiência fantástica, eu estava acampado com seis amigos. A aurora boreal durou horas, muito colorida, foi emocionante. Os primeiros mergulhos utilizando garrafa (cilindro com oxigênio) também foram emocionantes. Escalar o Aconcágua, a maior montanha da cordilheira do Andes, na Argentina, com 6.961 metros de altura, sozinho, aos 20 anos, também foi muito emocionante.

Em 2014, na minha terceira viagem para Antártica a bordo do veleiro Kotik foi incrível porque eu sonhava em viajar nesse barco e com uma galera que eu sonhava muito em estar junto. Durante muito tempo eu chorei de emoção ao chegar na Antártica e chorava de tristeza quando tinha de ir embora.

 

FMA – E só montanhas geladas, nunca vulcões?

JP – Os vulcões também fazem parte dessa experiência. É outra ótima experiência, muito boa, quando subo montanhas e chego aos vulcões. Sempre com amigos, sem mídia, sem publicidade, só por amizade e com esforço físico.

Em 2020, eu tive a experiência de remar por nove dias, na Antártica, numa canoa polinésia para três pessoas, a V3, e eu remei com dois campeões brasileiros de canoa.  Inclusive eles são representantes do Brasil no campeonato mundial de canoagem: os remadores Marcelo Bosi e Rudah Caribe.  Também foi muito bom.

 

 

Um iceberg polar fotografado por João Paulo Barbosa

 

FMA – Qual a maior dificuldade que você experimentou?

JP- Essa é fácil. É o estreito de Drake, também chamado de mar ou passagem. Passar o estreito de Drake em um veleiro não é brincadeira não. Eu já passei 14 vezes, ida e volta. Três vezes foram terríveis, de terror e pânico. Pensei que ia morrer, mas aí lembrei que estava num barco feito para essa situação adversa, com mono casco de aço, feito por um ex-cientista da Nasa, com uma tripulação incrível, e então não me entreguei emocionalmente, reagi. O corpo fica acabado, mas o espírito aguenta. O estreito de Drake é o maior perrengue da galáxia.

 

 

FMA- Qual a melhor forma de viajar, sozinho ou em grupo?

JP- Eu tenho quatro formas de viajar: sozinho, com a família, com amigos e por conta do trabalho. Todas são muito legais. Mas eu gosto muito de viajar sozinho e recomendo que todo mundo tenha essa experiência. É muito importante viajar sozinho para aprender, para se misturar com a população local. Entretanto, tem lugares que é muito bom viajar com um grupo de amigos para se divertir com eles, como eu fiz nos fiordes da Terra do Fogo.

 

PARA SABER MAIS siga João Paulo no Instagram: @joaopaulobarbosaphotography

 

 

 

 

 

BOX

 

O MAR DE DRAKE

Mar onde há mudanças bruscas nas condições de temperatura, visibilidade e, principalmente, do vento.  Comandantes de aeronaves e de navios passam por processo de treinamento especial para operar nessa área.

 

 

O Mar de Drake é o terror dos navegantes. Estima-se que 800 embarcações tenham naufragado no Drake. É o ponto mais austral da América do Sul e mais próximo da Península Antártica, com 650 km de extensão e quase cinco mil metros de profundidade, onde os oceanos Atlântico e Pacífico se encontram, se afunilam e se confrontam num grande espetáculo, provocando ondas gigantes.  Até a base brasileira, a Comandante Ferraz, são 900 km de distância.

 

Um antigo ditado marinheiro ajuda a explicar o medo que o Drake inspira: “abaixo dos 40 graus de latitude não existe lei. Abaixo dos 50, não existe nem Deus”.

 

 

O nome é em homenagem ao navegador britânico Francis Drake, mas ele nunca esteve nessas águas. A travessia do Drake é fustigada por tempestades cíclicas cerca de 300 dias dos 365 dias do ano. Então, é inevitável passar por intermináveis horas de turbulência no trajeto que, em média, demora quatro dias. Um antigo ditado marinheiro ajuda a explicar o medo que o Drake inspira: “abaixo dos 40 graus de latitude não existe lei. Abaixo dos 50, não existe nem Deus. (Márcia Turcato)

 

 

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A promessa que originou a Igreja Nossa Senhora de Fátima

A Igrejinha, como é conhecida, é patrimônio tombado e um ponto de encontro entre turismo, fé e beleza na capital

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Jak Spies, da Agência Brasília | Edição: Igor Silveira

 

Completando 66 anos em 2024, a Igreja Nossa Senhora de Fátima foi o primeiro templo religioso construído em Brasília. A paróquia surgiu a partir de uma promessa da família Kubitschek, tendo sido erguida em apenas 100 dias para atender a um importante casamento na cidade.

A Igrejinha foi inaugurada em 28 de junho de 1958 | Fotos: Divulgação/Arquivo Público de Brasília

Conhecida popularmente como Igrejinha da 308 Sul – ou só Igrejinha -, a capela foi projetada por Oscar Niemeyer, e a arquitetura, composta por três pilares que sustentam uma laje, faz referência aos antigos chapéus usados por freiras.

Agência Brasília transporta você a um dos espaços mais emblemáticos da capital, relembrando a história da Igreja Nossa Senhora de Fátima em mais uma matéria da série especial #TBTdoDF, que utiliza a sigla em inglês de Throwback Thursday (em tradução livre, “quinta-feira de retrocesso”), para relembrar fatos marcantes da nossa cidade.

Construção de uma promessa

Os registros históricos nos livros da paróquia revelam que o projeto foi feito a pedido da primeira-dama Sarah Kubitschek, como agradecimento pela cura da filha, Márcia, que sofria de um problema na coluna.

O projeto de Oscar Niemeyer é inspirado nos chapéus usados por freiras

A sugestão da promessa foi dada pelo presidente de Portugal, Craveiro Lopes, que estava no Brasil na época e, ao saber da situação, relembrou à esposa de Juscelino Kubitschek a história das aparições de Nossa Senhora de Fátima.

O primeiro casamento

Inicialmente, a construção seria um grande santuário onde atualmente se encontram as superquadras 307/308 Sul. Mas os planos mudaram após a necessidade de uma igreja para a cerimônia de casamento da filha do presidente da Novacap, Israel Pinheiro, que era o engenheiro responsável pela administração das obras na construção da nova capital.

Logo, o plano original da família Kubitschek foi substituído com urgência pelo projeto de uma capela mais simples, que é a atual Igreja Nossa Senhora de Fátima. Em 100 dias, a paróquia foi inaugurada, antes mesmo de Brasília, em 28 de junho de 1958. O casal Maria Regina Uchoa Pinheiro e Hindemburgo Pereira Diniz selou lá a união matrimonial e teve como padrinho o jornalista e embaixador Assis Chateaubriand.

O primeiro casamento no local foi o da filha do então presidente da Novacap, Israel Pinheiro

Passados 58 anos do primeiro casamento realizado em suas dependências, a pequena capela continua com as celebrações de matrimônio, marcando a vida de centenas de casais – como os brasilienses Larissa Sudbrack e Paulo Cavalcante, que se casaram na Igrejinha da 308 Sul em 2016.

A arquiteta de 36 anos conta que começou a frequentar o espaço há dez anos, após uma promessa, tornando natural a escolha do local para a cerimônia com o marido. Católica e moradora da 108 Sul, ela conta que, além da proximidade da igreja com seu apartamento e a promessa de ir à missa todos os domingos durante seis meses, o nome de sua mãe de Larissa é Fátima – o que deixou, ao seu ver, tudo apontado para a escolha da capela. Mais um sinal viria a seguir: quando o casal ia fazer dez anos de namoro, Larissa comprou um quadro com azulejos de Athos Bulcão e, no mesmo ano, Paulo a pediu em casamento.

“Para mim, a Igrejinha é o desenho por metro quadrado mais especial da cidade, cheio de significado. Tem uma ligação com a natureza e é bem aberta, uma experiência muito rica do espaço”, comenta Larissa. Ela recorda que também escolheu o local para o batizado dos dois filhos pequenos. “É um local de apoio religioso perto de casa; a gente pode fazer uma rápida oração, e me sinto bem quando estou ali, acolhida e protegida”, acrescenta a arquiteta.

Os azulejos de Athos Bulcão são marca registrada da Igrejinha

Patrimônio histórico

O templo católico comporta até 40 pessoas e foi tombado pela Unesco como patrimônio cultural e histórico nacional, entrando no Conjunto Urbanístico de Brasília inscrito no Livro do Tombo Histórico em 14 de março de 1990. O local também é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2007, como parte do conjunto das obras de Oscar Niemeyer, em homenagem ao centenário do arquiteto.

A parte externa da parede é revestida por azulejos de Athos Bulcão que simbolizam a descida do Espírito Santo e a Estrela da Natividade. Já no seu interior, o monumento apresenta pinturas de Francisco Galeno, aluno de Alfredo Volpi, artista italiano responsável pela primeira obra artística da igreja.

O templo católico comporta até 40 pessoas e foi tombado pela Unesco como patrimônio cultural e histórico nacional, entrando no Conjunto Urbanístico de Brasília inscrito no Livro do Tombo Histórico em 14 de março de 1990 | Fotos: Geovana Albuquerque/ Agência Brasília

Segundo informações da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, a primeira pintura feita por Volpi no interior da igreja apresentava afrescos com bandeirolas e anjos que remetiam a uma quermesse e às festas juninas.

As pinturas modernistas causaram estranhamento em alguns paroquianos, que se queixaram da personalização artística e apontaram “falta de religiosidade” na obra. Dessa forma, a arte chegou a ser coberta de tinta azul quatro anos após a inauguração, mas foi restaurada por Francisco Galeno entre janeiro e junho de 2009. A inspiração festiva em Volpi foi mantida, mas de uma forma mais discreta.

Além de prefeito da 308 Sul, Matheus Seco é arquiteto e evidencia as características arquitetônicas da quadra modelo e da Igrejinha, ressaltando que é o local mais fiel ao projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer.

O interior do monumento também conta com obras de arte

“As quadras fazem parte de um conceito de rede, não são quadras isoladas, elas se complementam e apresentam o ápice do projeto arquitetônico brasileiro de Niemeyer. A obra é formalmente simples, mas muito forte, com influências do barroco mineiro, detalhes sutis de sombras, encontro das colunas e uma sofisticação de desenho muito bonitos”, observa.

Entre os pontos destacados pelo arquiteto, ele aponta a maneira com que a construção aproveita a ventilação e a iluminação natural e como a recomposição das pinturas foi feita preservando o patrimônio moderno.

Um local de fé

À frente da paróquia há quatro anos, o frei Reinaldo do Santos Pereira destaca que, apesar do movimento maior ser religioso, a Igrejinha atrai pessoas com interesse além da fé, voltadas para a história do patrimônio e a arquitetura.

“É importante mostrar e valorizar aquilo que é nosso. A Igrejinha é pequena, mas acolhe todo mundo. As pessoas que vêm aqui passam pela praça e se sentem acolhidas pelo tamanho e pela singeleza do espaço”, observa o pároco. Segundo ele, os candangos já faziam da igreja, ainda em construção, um lugar de prece e pedidos de milagres.

“O espaço faz parte do nosso turismo religioso, além de ser um cartão-postal da cidade. A Igrejinha enaltece a memória de quem ajudou a construir a nossa capital e contribuiu para a história de fé de muitos moradores”, reforça o administrador do Plano Piloto, Valdemar Medeiros.

A empregada doméstica Edileusa Bezerra da Silva, 57, trabalha ao lado da Igrejinha e vai ao templo todos os dias para rezar. Ela conta que é devota de Nossa Senhora de Fátima e que encontrar um espaço tão pertinho de onde passa a maior parte do tempo foi um conforto. “É muito importante para mim, traz ânimo no dia a dia e me dá muita força”, observa.

As missas da Igreja Nossa Senhora de Fátima são celebradas toda segunda-feira às 18h30, e, de terça a sábado, às 6h30 e às 18h30. Aos domingos, as celebrações são as 7h, 9h, 11h, 18h e 19h30. Em 1º de maio começa a conhecida quermesse da igrejinha da 308 Sul, que engloba três dias de festa, com barracas de comida e outras atividades.

 

 

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Projeto trabalha a autoestima de mulheres em Planaltina

Com foco no público feminino na faixa dos 60 anos, iniciativa oferece neste fim de semana oficinas de maquiagem, fotografia, palestras

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Jak Spies, da Agência Brasília | Edição: Débora Cronemberger

 

Buscando trabalhar a autoestima e a autoconfiança de mulheres da região de Planaltina, este sábado (17) marcou o início de uma das etapas do projeto Mulher Nota 10, com oficinas de maquiagem, fotografia, palestras e apresentações culturais. O evento gratuito é realizado pelo Instituto LumiArt em parceria com Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec).

A programação ocorre no Estacionamento de Múltiplas Funções de Planaltina e se estende até este domingo (18), ocorrendo entre 13h e 18h. A programação inclui conversas sobre a saúde mental das mulheres e uma homenagem a dez moradoras idosas de Planaltina.

Ação em Planaltina inclui exposição de artesanato e oficinas de maquiagem e fotografia, por exemplo | Fotos: Geovana Albuquerque/Agência Brasília

De acordo com o secretário de Cultura e Economia Criativa, Cláudio Abrantes, o projeto é focado nas mulheres com mais de 60 anos e apoia artistas e artesãs locais. Ele ressalta que há a possibilidade do programa avançar para outras cidades. “É um projeto muito interessante, porque em tempos de violência contra a mulher, que a gente tem que combater com muita força, é extremamente importante fazer com que a mulher se sinta empoderada e digna, trabalhando a força e a criatividade”, pontua.

“Planaltina é um celeiro de cultura, é a cidade mais antiga do Distrito Federal. Aqui temos mulheres extremamente importantes na construção da cidade que abrigou a ideia da nova capital. Então o começo por Planaltina é porque Brasília também começou por aqui”, acrescentou o secretário.

Um espaço para elas

A coordenadora do projeto, Cleuza Brandão, falou das etapas que fazem parte do projeto, como a seleção das mulheres e o ensaio fotográfico. Para tirar as fotos, as participantes passaram por um dia de beleza. As imagens são expostas junto a homenagens. Cleuza frisa a importância desse processo para a redescoberta da beleza feminina, independente da idade.

“Acho que o legal do projeto é que ele coloca a mulher madura em foco, então foi gostoso e desafiante, porque mexe com a timidez e a insegurança, mas ao final é muito bom”, diz Muna Ahmab Yousef, uma das participantes do ensaio fotográfico

“A gente trabalhou essas maquiagens sem um espelho na frente. Quando elas se olharam, a maioria chorou na frente do espelho, foi uma emoção muito grande. Algumas disseram que não sabiam que eram tão bonitas, saíram dali se sentindo valorizadas”, recorda.

A professora Muna Ahmab Yousef, 59, foi uma das fotografadas no projeto. Ela destaca a importância de repensar a idade em uma sociedade imersa na era da estética e da imagem. “Foi superpositivo, porque estou em um momento da minha vida que percebo o tanto que a sociedade é etarista, o tanto que é exigido de nós mulheres desde sempre. Participar do Mulher Nota Dez foi bem bacana, porque ninguém é novo eternamente, todo mundo vai ficar velho se tiver sorte. Acho que o legal do projeto é que ele coloca a mulher madura em foco, então foi gostoso e desafiante, porque mexe com a timidez e a insegurança, mas ao final é muito bom”, ressalta.

Quem reforça os desafios de enfrentar o etarismo na sociedade é a DJ Nilma Maria Silva Costa, 52, conhecida como DJ Nilma Naiz. No ramo da música há cerca de seis anos, Nilma sempre gostou de estar nesse meio, frequentando bailes desde os anos 1980. Mas, por viver em um relacionamento que a limitava a ficar em casa, nunca conseguiu explorar esse lado. Ela conta que tem conseguido conquistar cada vez mais espaço.

“A discotecagem é uma coisa muito masculinizada, então tem pouco tempo que a mulher veio e está entrando aos pouquinhos, conquistando respeito. Esses eventos voltados para a mulher são de uma ajuda gigante, pois mostram que somos capazes. É muito importante ter esses espaços para podermos mostrar o trabalho da gente e sermos reconhecidas”, observa.

 

 

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CONCEITO E HISTÓRIA

Origem, exigências e prática: quem se importa, vence!

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As siglas são constantes na vida moderna. Elas são formadas pelas letras iniciais de outras palavras e não precisam ser lidas letra a letra. Se viram uma palavra, podem ser chamadas de acrônimo. Está no vocabulário da modernidade. Exemplo de acrônimo: Unesco, ONU, ESG, Pnuma e USP. Já CBF, FGTS e CLT são apenas siglas. A sigla ESG, no Brasil tem dois significados. Pode ser ESG – Escola Superior de Guerra e, agora, é muito mais usada para identificar políticas de meio-ambiente, responsabilidade social e governança. ESG, como muitas outras siglas, vem do inglês: Environmental, Social and Governance. Cada vez mais conhecido dentro dos círculos especializados, o conceito de ESG reúne as políticas de meio ambiente, responsabilidade social e governança, que será cada vez mais cobrado das empresas.

 

A sigla ESG surgiu em 2004, em uma publicação do Pacto Global em parceria com o Banco Mundial, chamada WHO CARES WINS, que pode ser traduzido em “QUEM SE IMPORTA VENCE”.

Os critérios ESG estão totalmente relacionados aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos pelo Pacto Global, iniciativa mundial que envolve a ONU e várias entidades internacionais.

Para os técnicos, ESG significa uma tomada de decisão. Uma atitude para transformar o negócio mais inclusivo, ético e ambientalmente sustentável, que garanta a qualidade de vida para todos. E o sucesso dessa jornada de transformação vai depender da habilidade das empresas em desenvolver e implementar práticas de negócios que alinhem lucro, propósito e transparência.

 

HISTÓRIA DO ENVIRONMENTAL,

SOCIAL AND GOVERNANCE

Há muito tempo, pesquisadores, filósofos e gestores públicos pensam e estudam sobre danos ambientais ou os males que certas ações e produtos causam a sociedade e ao Planeta.  A criação da rede interdisciplinar do Clube de Roma, em 1968, e seu relatório inaugural (The Limits to Growth, 1972) foi um passo fundamental para mudar o paradigma das atividades econômicas que sempre interagem com o mundo natural por três formas: 1) na produção com o uso de recursos naturais. 2) na transformação ou industrialização pelo uso de energia e descartes de rejeitos. 3) No consumo e uso dos produtos pela população.

Outro divisor de águas foi 1972. Entre os dias 5 a 16 de junho, ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano em Estocolmo, quando se reuniram 113 países que firmaram um compromisso: “O homem tem a responsabilidade especial de preservar e administrar judiciosamente o patrimônio representado pela flora e pela fauna silvestres, bem assim o seu habitat, que se encontram atualmente em grave perigo por combinação de fatores adversos”.

Na década de 1990, veio o marco contábil. As empresas deveriam levar em conta seu desempenho social e ambiental, além de seus resultados financeiros. Ou seja, investidores deveriam levar em consideração também os custos ambientais e sociais. Surgiu então o primeiro índice de ações “socialmente responsável”, o índice Domini 400 Social, e o “triple bottom” (também conhecida como TBL e 3BL) ou “pessoas, planeta e lucros”.

 

LEGITIMAÇÃO DA ESG

A oficialização do ESG começou em 2004. Tudo começou com 63 signatários, supervisionando US$ 6,5 trilhões em ativos. Até 2020, este volume cresceu para mais de 3 mil signatários, com mais de 100 trilhões de dólares em ativos. A meta da ONU é alcançar os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e criar oportunidades no valor estimado de US$ 12 trilhões até 2030.

 

LETRAS MÁGICAS PARA O FUTURO

Environmental, Social and Governance é traduzido em português como Meio Ambiente, Social e Governança. E pode ser melhor explicado assim:

 

E – A letra E, da sigla, representa o impacto que uma empresa causa no ambiente natural. Isso inclui questões como poluição (emissões de carbono, produtos químicos e metais tóxicos, embalagens e outros resíduos), o uso de recursos naturais (água, terra, árvores) e as consequências para a biodiversidade (a variedade de vida na Terra), bem como tenta minimizar a nossa pegada ambiental (eficiência energética, agricultura sustentável, edifícios verdes).

 

S – A letra S, de responsabilidade social, da sigla, indica os fatores que afetam as pessoas – sejam funcionários, clientes ou a sociedade em geral. Isso envolve segurança de produtos para consumidores ou privacidade e segurança de dados para seus usuários.

 

G – A letra G de Governança tem relação com o fato de a empresa ser bem administrada, levando em conta o negócio de maneira responsável. Deve ser levado em consideração os requisitos éticos de ser um bom cidadão corporativo, como políticas anticorrupção e transparência tributária, além das preocupações tradicionais de governança corporativa, caso do gerenciamento de conflitos de interesse, diversidade e independência do conselho, qualidade das divulgações financeiras e avaliação sobre se os acionistas minoritários são tratados de forma justa pelos acionistas controladores.

 

 

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Reportagens

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