Reportagens

Ceará: falta infraestrutura em quase 80% das unidades socioeducativas

Relatório mostra denúncias de violência em 13 unidades do sistema

 

Adolescentes que cumprem medidas de privação de liberdade no Ceará são submetidos à violência de agentes do estado, à falta de infraestrutura nas unidades conforme determina a lei e à oferta irregular de escolarização. Além disso, entre 2006 e 2022, 19 jovens foram mortos dentro do Sistema Socioeducativo Cearense em contexto de violência.

Brasília (DF) 05/12/2023 – Especial socioeducativo do Ceará
Foto: Socioeducativo do Ceará/Divulgação
Mais de 80% das instituições mostram falta de estrutura – Socioeducativo do Ceará/Divulgação

Os dados que apontam tais violações de direitos estão no relatório do 5º Monitoramento do Sistema Socioeducativo Cearense, que será lançado na próxima terça-feira (12) e foram antecipados à Agência Brasil. Foram entrevistados 23% dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação e semiliberdade do Ceará, ou seja, 132 de um total de 563, nas 18 unidades do sistema.

As visitas foram realizadas em maio e junho do ano passado pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará (Cedeca), pelo Fórum Permanente de ONGs em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Fórum DCA) e pelo Coletivo Vozes. Foram entrevistados também 52 profissionais, incluindo equipe técnica, socioeducadores e diretores das unidades.

A maior parte (78%) das unidades não tem estrutura adequada, de acordo com os parâmetros do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), que regulamenta a execução das medidas socioeducativas no país, destacou a coordenadora do Núcleo de Monitoramento de Políticas Públicas do Cedeca, Ingrid Leite.

“Mais da metade das unidades nunca passaram por uma reforma para poderem ser adequadas aos padrões, que seriam dormitórios ventilados e minimamente iluminados, que os banheiros tenham saneamento básico. Porque hoje são espaços extremamente insalubres, úmidos, com muito mofo, mal cheiro, muriçoca, rato, então é uma questão mesmo que fere a dignidade humana dos meninos”, aponta.

Em 13 centros socioeducativos, funcionários da própria unidade admitiram que houve denúncias de violências contra os adolescentes praticadas por agentes do estado. “Quem foi que afirmou? Socioeducador, direção e equipe técnica, porque a gente sempre triangulava essas informações. Então, 13 [unidades] afirmaram que há denúncias de violência contra adolescentes praticadas pelos socioeducadores”, relatou.

Mais da metade (58%) dos adolescentes que participaram de grupos focais durante o monitoramento – total de 100 jovens – relataram que já sofreram violência na unidade de internação. Dentro das denúncias de violência, estão ameaças, intimidações, maus tratos, agressões verbais, xingamentos e tortura.

O governo do estado do Ceará, por meio da Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo, destacou, em nota, que em 2023 não foram registradas “ocorrências, assim como situações de crises graves”. “As unidades socioeducativas do estado apresentam metodologia e equipes qualificadas para a prestação de serviço, e vem atuando para evoluir ainda mais na estrutura física e infraestrutura externa de algumas unidades para atender cada vez mais os padrões do Sinase”, diz a nota.

“Mãe de um jovem vivo”

“Eu nunca tive resposta por toda a tortura que meu filho vivenciou. Eu sou mãe de um adolescente, de um jovem hoje, de um jovem vivo”. O relato é de uma mãe que faz parte do Coletivo Vozes de Mães e Familiares do Sistema Socioeducativo e Prisional de Ceará, que prefere não se identificar. Ela faz questão de dizer que o filho está vivo.

Quando adolescente, o filho dela cumpriu medida socioeducativa em meio fechado de 2014 a 2017, enquanto outras mães perderam os filhos em um quadro de violências e violações nas unidades de internação do estado. “Nós, mães da periferia e mães institucionais, duelamos para manter os nossos filhos vivos e livres.”

Ela lembra que em 2015, com a entrada de facções criminosas no estado, foi um período muito duro para adolescentes institucionalizados. “Foi um período de severas rebeliões, de descasos e violações de direitos de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas.”

Foi nesse momento que ela pensou qual deveria ser o papel das mães nesse cenário. “Houve uma virada de chave. Vou me tornar defensora de direitos humanos, porque eu estava tentando defender e reivindicar os direitos básicos do meu filho”, relembra.

“Eu nunca acreditei no caráter ressocializador, que esse espaço pudesse entregar o meu filho de volta, tanto que eu tive a sorte de ser uma mãe que o filho migrou para o sistema prisional, porque muitos dos meninos dessa época foram assassinados”, conta a integrante da organização. É nesse contexto que surge o Coletivo Vozes.

Prioridade absoluta

A especialista do Cedeca avalia que os dados de violência refletem que não há prioridade absoluta para os adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas no estado. “Ainda faltam muitas ações, principalmente essas que garantem integridade física dos meninos lá dentro. Os centros socioeducativos, a depender da gestão, do diretor, a gente percebe que ainda não tem um cenário de estabilidade”, disse. Segundo Ingrid Leite, a falta de prioridade se dá principalmente na perspectiva pedagógica no cumprimento das medidas.

Em 12 unidades, foram verificadas revistas corporais com desnudamento dos adolescentes, embora não conste, na Portaria 4/2021 da Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo (Seas) que se despir seja uma forma de revista. O desnudamento em revistas também é um descumprimento da lei sobre o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), ressalta Ingrid.

Gênero e educação

No dia da visita, havia seis adolescentes grávidas nas unidades socioeducativas, o que está em desacordo com resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) 233/2022. “Isso é muito alarmante. A resolução do Conanda estabelece que a internação não deve ser aplicada a adolescentes gestantes, lactantes, mães ou que [tenham] na guarda delas crianças e adolescentes”, esclareceu Ingrid. Como alternativa a medidas de privação de liberdade, poderiam ser aplicadas às jovens a liberdade assistida e a prestação de serviço à comunidade.

A coordenadora do Cedeca ressalta que o levantamento identificou ainda que há uma seletividade racial na privação de liberdade no estado do Ceará, já que 74,2% dos adolescentes entrevistados são negros.

“Em 2021, a educação regular ofertada aos adolescentes de 12 a 15 anos de idade estava de forma irregular, porque conforme a lei de diretrizes curriculares de educação, a modalidade EJA, que é a educação de jovens e adultos, só tem que ser fornecido a partir dos 15 [anos], caso o adolescente esteja numa faixa etária irregular de escolarização de dois anos”, explica.

No entanto, a modalidade EJA estava sendo ofertada de forma totalizante para todas as unidades. Já durante as visitas da pesquisa, no ano passado, 40% dos adolescentes entrevistados não estavam sequer tendo acesso aos estudos.

Alas disciplinares, chamadas de “trancas” pelos adolescentes, estão presentes em 12 das 18 unidades. Essas áreas são dormitórios separados dos demais, para onde os jovens são levados quando infringem alguma regra da unidade. Lá eles passam de 5 a 7 dias. O documento aponta que as trancas costumam ser ambientes insalubres, quentes e úmidos.

Houve relatos de que nas trancas não são disponibilizados blusas, chinelos, lençol, colchão, produtos de higiene, bem como atividades escolares, de lazer e esporte, e os banhos são reduzidos. As entidades apontam que trancas estão em desacordo com o Sinase, que estabelece que a “arquitetura socioeducativa deve ser concebida como espaço que permita a visão de um processo indicativo de liberdade, não de castigos e nem da sua naturalização”.

“Quando o adolescente está na tranca, são suspensas todas as atividades pedagógicas dele. Em alguns centros, a gente identificou que até é retirado o direito à sala de aula. Isso é muito perigoso, porque ameaça diretamente não só o objetivo da medida [socioeducativa], mas reforça esse viés da violência e da punição, que não é a proposta que as unidades deveriam ter, e não é o que o ECA preconiza”, explica Ingrid.

Saúde mental

Ingrid também relata que foi percebido aumento de adolescentes com adoecimento mental e consequente automutilação dentro das unidades. Dos jovens entrevistados, 43% relataram apresentar pensamentos suicidas e também 43% relataram já terem se lesionado.

A parcela de 41% dos adolescentes afirmaram que estavam fazendo uso de medicamentos psicotrópicos. Outro dado considerado alarmante pelas entidades é que 94% dos centros socioeducativos visitados tinham adolescentes fazendo uso de medicação psiquiátrica.

Foi o que a mãe do Coletivo Vozes entrevistada pela Agência Brasil relatou. “Eles dopavam os meninos desde o presídio de Aquiraz [município da região metropolitana de Fortaleza]. Foi um contexto bem difícil para mim, porque o meu filho usou mais drogas no cumprimento da medida dele do que fora. Para mim, o Estado me devolve outro filho e é sempre assim que a gente fala. Nós não reconhecemos os meninos quando passam por esses espaços. Eu falo de uma época anterior, mas as violações de direitos aconteceram.”

“Sabemos desse contexto de adoecimento mental, mas tem nos preocupado que uma das principais medidas para o tratamento dos adolescentes tem se restringido à medicação. Na política de saúde mental, fala-se muito desse atendimento integral”, pontuou a coordenadora do Cedeca. O atendimento integral incluiria apoio psicológico regular, oferta significativa de atividades e oficinas, de forma a preencher o dia dos jovens e estimular sua criatividade e autoestima.

Recomendações

Há uma grande dificuldade de identificar o que é tortura dentro das instituições, segundo apontou a coordenadora do Cedeca. Diante disso, ela avalia que é fundamental a existência de protocolos de combate a torturas e maus tratos contra crianças e adolescentes.

Outras medidas relevantes seriam a existência de um Mecanismo Estadual de Combate e Prevenção à Tortura no Ceará, que não está implementado no estado, e a criação de um fluxo institucionalizado para registro de denúncias de violações de direitos. Atualmente, o que existe é uma corregedoria interna da Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo do Ceará (Seas), relatou Ingrid.

“É necessário ter um espaço externo, uma ouvidoria externa também para mães, familiares, realizarem as denúncias, não só um órgão interno, e que esse fluxo pudesse de fato existir. A gente tem feito uma articulação com a Defensoria Pública e com o Ministério Público, mas é preciso institucionalizar esse fluxo de recebimento [de denúncia], acompanhamento, investigação e responsabilização dos casos que ocorrem”, acrescentou.

O Cedeca, o Fórum Permanente de ONGs em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente e a Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e o Adolescente (Anced) fizeram uma denúncia, em 2015, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). As entidades relataram tortura, maus tratos e revista vexatória no socioeducativo no Ceará. Em razão da denúncia, em janeiro de 2016, a CIDH expediu medidas cautelares para que o Brasil adotasse ações urgentes para garantir os direitos dos jovens.

No entanto, o Cedeca avalia que tais medidas não foram completamente implementadas e reafirma que unidades do sistema socioeducativo continuam registrando ameaças, agressões e intimidações a adolescentes por parte de agentes do estado, além de violência sexual.

Governo

Sobre a escolarização, a Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo aponta que ela é feita por meio de ações regulares de atendimento, com execução intermediada com secretarias municipais e estadual de Educação. Informa ainda que, a partir de 2021, três escolas regulares da Secretaria Estadual de Educação, uma na capital e duas no interior, foram designadas para atender adolescentes e jovens abaixo do corte etário da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Eles permaneciam com matrícula regular nas escolas de origem.

“Os adolescentes e jovens estudantes em salas de aulas nos Centros Socioeducativos (CS) têm sua matrícula cadastrada em um estabelecimento de ensino da rede estadual ou municipal, credenciado e com cursos autorizados e reconhecidos pelos respectivos Conselhos de Educação.”

Ainda de acordo com o governo, dados de outubro de 2023 mostram a existência de 85 salas de aula para atendimento de jovens em internação provisória e internação, com 433 adolescentes e jovens matriculados na EJA ou em ensino regular. Os jovens em cumprimento de semiliberdade frequentam as atividades de forma externa à unidade.

Edição: Aline Leal

ebc

 

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Reportagens

Escritor Joaquim Arena preenche vazios de Europa negra invisibilizada

Autor participa do Clube do Livro do CCBB-RJ

Publicado

em

Por

Ana Cristina Campos – Repórter da Agência Brasil

Revelar uma Europa negra, apagada das narrativas oficiais, é o que propõe o autor luso-cabo-verdiano Joaquim Arena, que revisita a presença de africanos e seus descendentes no continente europeu por meio do livro Debaixo da nossa pele (2017).

A partir de viagens por Portugal, arquivos e relatos, o escritor reconstrói trajetórias de personagens negros pouco conhecidos. A jornada também se cruza com a história da migração cabo-verdiana para Lisboa e com a trajetória do próprio escritor.

Arena nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 1964. É filho de pai português e de mãe cabo-verdiana e viveu grande parte da sua vida em Lisboa. Em Portugal, ele se formou em direito e iniciou a carreira em jornalismo.

O escritor está no Rio de Janeiro para participar do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ), no centro da capital fluminense, às 17h30 desta quarta-feira (14).

Autor de seis romances, traduzidos em várias línguas, Arena escreveu Siríaco e Mister Charles, vencedor do Prémio Oceanos de Literatura, na categoria Prosa, em 2023. Atualmente, reside em Cabo Verde, na cidade de Praia.

Cabo Verde e Brasil

Com o tema “Romance histórico: onde a realidade encontra a ficção”, o encontro gratuito propõe uma conversa sobre memória, pertencimento, identidade e as marcas do passado colonial que permanecem no presente.

A partir da obra de Arena, o evento busca aproximar experiências históricas e culturais de Cabo Verde e do Brasil, dois países atravessados por deslocamentos populacionais, encontros entre diferentes culturas e pelas relações entre África e Europa.

O autor conta que Debaixo da nossa pele fala da miscigenação e da circulação dos povos da África para a Europa. O público poderá perceber semelhanças com a formação do Brasil.

“Debaixo da nossa pele fala dessa condição humana de deslocamento das pessoas de um país a outro, levadas por questões econômicas, sociais e políticas. O livro faz essa síntese, pois a circulação continua ainda hoje, é positiva, abre oportunidades de novas janelas de vida para muitas pessoas”, diz Arena.

 

Rio de Janeiro (RJ), 14/10/2026 – O escritor luso-cabo-verdiano, Joaquim Arena, que participará do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB-RJ),  fala à Agência Brasil, no centro da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O escritor luso-cabo-verdiano, Joaquim Arena, que participará do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB-RJ). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Preenchendo vazios

Para o escritor, a história tem um poder atrativo mais forte do que o presente.

“Sou levado a encontrar, no meio dos fatos históricos, os vazios. São esses vazios que eu pretendo preencher através da minha ficção. Aproveito episódios verídicos que são muito inspiradores para que nós imaginemos uma personagem. Fico com vontade de saber mais, senão eu invento a personagem”, afirma o autor.

Arena conheceu a literatura brasileira aos 12 anos, com a obra de Jorge Amado. Ele se identificou com o livro Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, que também fez parte da sua formação. Para ele, foi uma porta de entrada de uma literatura que não era portuguesa, europeia nem africana.

“Nós, das antigas colônias portuguesas, recebemos a literatura brasileira como uma janela para um mundo muito semelhante ao nosso”.

“Jorge Amado, com sua Bahia, está na formação de muitos autores lusófonos na África. Depois, vamos crescendo e encontrando Guimarães Rosa, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos. O romance da década de 30 fala dos retirantes, da seca. É uma realidade muito próxima da nossa”, diz Arena.

O autor acredita que um clube de leitura é um reduto onde se mantém ainda uma magia e em que se ouve falar de invenções.

“Há um pacto do autor com o público. O escritor sabe que o que ele inventou não existiu. O leitor sabe que o romance saiu da imaginação. Isso cada vez mais num mundo acelerado, com redes sociais, com streamings”.

Continue Lendo

Reportagens

Técnicos apresentam o andamento das metas fiscais do governo

Apresentação feita à CEOF mostra que, até agosto, receita corrente líquida do DF foi de R$ 28 bilhões, o que significa cerca de 72% da meta

Publicado

em

Por

 

Foto: Felipe Ando/Agência CLDF

Com relação à despesa total empenhada, GDF gastou R$ 31 bilhões até agosto, dos R$ 47,6 bilhões previstos para o ano

A Comissão de Economia, Orçamento e Finanças da Câmara Legislativa realizou audiência pública na manhã desta quinta-feira (15) para avaliar as metas fiscais do Governo do Distrito Federal nos primeiros 8 meses de 2026. Na ocasião, técnicos do governo apresentaram à comissão números referentes a receitas e despesas do GDF nos dois primeiros quadrimestres do ano em comparação às metas previstas nas leis orçamentárias. 

Confira a cobertura fotográfica no Flickr da CLDF

Com relação às receitas correntes, a previsão inicial para 2026 era de R$ 39 bilhões e o valor alcançado até agosto é de R$ 28 bilhões, o que significa um alcance de 71,85% da meta. As receitas de capital até agosto somam R$ 1,1 bilhão, enquanto a previsão inicial para 2026 era de R$ 726 milhões, o que representa 163,16% de alcance da meta. O total de receitas tributárias até agosto soma R$ 20,1 bilhões, enquanto a previsão para o ano era de R$ 25,4 bilhões, representando 79,29% da meta estabelecida. O ICMS, sozinho, representa 46,2% de toda a arrecadação com impostos e taxas. Com relação à despesa total empenhada, a dotação autorizada para 2026 era de R$ 47,6 bilhões, sendo que o governo gastou R$ 31 bilhões até agosto, o que representa 65,3% da dotação.

Para o deputado Eduardo Pedrosa (União Brasil), presidente da CEOF, os números são positivos para o governo. “De maio a agosto, tivemos um incremento na casa de R$ 1 bilhão fruto da alienação de bens. Assim chegamos a 72% do total previsto a realizar de receita. Já temos um indicativo de que teremos excesso de arrecadação ao longo do último quadrimestre. Estamos chegando a quase 50% do saldo total previsto para investimentos no ano, que é de R$ 3,5 bilhões. Isso mostra que os investimentos não pararam mesmo diante de situações orçamentárias excepcionais”, avaliou.

Representando o governo, o assessor especial de política fiscal da Secretaria de Economia do DF, Luiz Barreto, ressaltou que o ano de 2026 foi impactado pelo déficit orçamentário do ano anterior. “O DF, nos últimos dois anos, apresentou déficit. E esse déficit teve impacto em 2026. Nós entramos em 2026 com quase R$ 3 bilhões de déficit. Por isso, a execução orçamentária de 2026 precisa priorizar o que é relevante, como saúde e educação. Até o presente momento temos um resultado primário de superávit de R$ 1,8 bilhão na Lei de Diretrizes Orçamentárias e déficit de R$ 1,5 bilhão na Lei Orçamentária Anual”, explicou.

O assessor também comentou os números relacionados a gastos com pessoal e repasses obrigatórios para a educação. “Até agosto tivemos um índice de 40,54% do orçamento destinado para gasto com pessoal, o que está dentro do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal. Sobre os mínimos empenhados em educação, a lei determina que ao final do exercício temos que atingir 25% e hoje estamos em 23%”, relatou Barreto. A íntegra da audiência pública está disponível no canal da TV Câmara Distrital no YouTube.

 

 

Eder Wen – Agência CLDF

Continue Lendo

Reportagens

Debatedores alertam para diferentes formas de violência contra meninas

A audiência foi presidida pela senadora Leany Lemos (C)
Geraldo Magela/Agência Senado

Publicado

em

Por

 

Crianças e adolescentes representam um terço dos usuários de internet no mundo. No Brasil, um em cada cinco adolescentes foi vítima de alguma forma de abuso ou exploração sexual facilitada pela tecnologia em 2025. A maioria das vítimas é formada por meninas, e a violência ocorre principalmente em aplicativos conhecidos, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A informação foi apresentada nesta quinta-feira (15) em audiência da Comissão de Direitos Humanos (CDH), que debateu os desafios das políticas públicas para garantir a proteção integral das meninas no país. Os participantes também alertaram para outras formas de violência contra meninas e defenderam medidas de prevenção e proteção.

O debate foi requerido pela presidente do colegiado, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), em alusão ao Dia Internacional da Menina, celebrado no domingo (11), por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU). A reunião foi presidida pela senadora Leany Lemos (PSB-DF), suplente da senadora licenciada Leila Barros (PDT-DF). Para Leany, é preciso prevenir violências e permitir que cada menina desenvolva plenamente as suas capacidades.

— Quantas meninas ouvem que a liderança não é para elas? Quantas assumem responsabilidades domésticas e do cuidado antes de terem condições de construir seus próprios projetos de vida, e nisso elas nem sonham ser outras coisas, porque elas não têm essas oportunidades? Quantas meninas, na maioria negras ou pobres das periferias e das regiões distantes do Brasil, enfrentam obstáculos ainda maiores para exercer esses direitos, que são direitos universais? Então, essas perguntas têm que orientar as nossas políticas públicas — afirmou.

Ambiente digital

A coordenadora-geral de Direitos Humanos da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Fernanda Souza Carlos, afirmou que a exploração sexual de crianças e adolescentes exige novas estratégias de enfrentamento, diante da migração de parte dos crimes para o ambiente digital. Ela defendeu a articulação entre órgãos públicos e sociedade civil para ampliar a proteção às meninas.

— O crime que a gente via antigamente com as meninas, as crianças à beira da rodovia, hoje, a gente não vê mais. Esse crime está no digital. Então, cada vez mais fica mais complexo o combate aos crimes voltados à exploração sexual de crianças e adolescentes, porque, de certa forma, ele está invisível. Então, precisa-se de um trabalho muito maior, porque tem muita coisa que a gente não está vendo fisicamente aqui, mas está acontecendo pelo aparelho de celular, que todo mundo tem hoje em mãos — afirmou.

A diretora de Projetos Especiais da SaferNet Brasil, Juliana Cunha, alertou para o uso da inteligência artificial generativa na produção de material de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Segundo ela, mulheres e meninas são as principais vítimas desse tipo de violência. A diretora afirmou que o caráter artificial do conteúdo leva parte da população a subestimar o crime, que provoca danos às vítimas.

O representante do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ricardo de Lins e Horta, destacou mudanças na legislação brasileira, entre elas a entrada em vigor em 2025 do ECA Digital e da Lei 15.487, de 2026, que aumenta penas para crimes sexuais contra crianças e adolescentes na internet. Segundo ele, o país avançou no enfrentamento de crimes como a violência sexual on-line, o cyberbullying e a extorsão sexual, mas precisa garantir a implementação das normas e das políticas de proteção.

— A gente tem uma base legislativa sólida, o desafio é implementar toda ela — afirmou.

Outras violências

Coordenadora de Políticas Educacionais da ONG Associação Serenas, Graziela Larissa da Silva Santos chamou a atenção para comportamentos que podem ser tratados como brincadeiras, mas que violam os direitos das meninas. Segundo pesquisa da organização, sete em cada dez professores ouvidos presenciaram “cantadas” indesejadas dirigidas a meninas nas escolas, e 42% relataram ter visto alunos tocar ou acariciar o corpo de meninas sem consentimento. Ela defendeu a formação de professores e gestores para prevenir a violência, acolher as vítimas e encaminhá-las à rede de proteção.

A delegada-chefe adjunta da Polícia Civil do Distrito Federal, Cyntia Cristina de Carvalho e Silva, destacou que o atendimento não deve se limitar à investigação criminal. Para ela, é necessário articular os serviços de segurança pública, saúde e assistência social, considerando também situações de dependência financeira e os riscos enfrentados pelas vítimas após a denúncia.

— A proteção e a responsabilização precisam caminhar juntas — afirmou.

Os participantes ainda abordaram a gravidez na adolescência e seus impactos na trajetória escolar e profissional, além de questões relacionadas à saúde menstrual e à violência sexual dentro de casa.

Também participaram do debate a especialista em gênero e inclusão da Plan International Brasil, Ana Nery Lima; a coordenadora de Relações Governamentais do Instituto Alana, Tayanne Galeno; a gerente de Comunicação do Instituto Liberta, Renata Greco; e a gerente Meal e Estratégia da Organização Visão Mundial, Manuela Franchini Melani.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

Continue Lendo

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010