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ÁGUA SUBTERRÂNEA

O acelerado declínio dos aquíferos no mundo

 

A constatação é grave e merece a atenção dos organismos internacionais: nos últimos 40 anos houve um acelerado declínio dos aquíferos na Espanha, Irã, China e Estados Unidos. Os motivos são mais do que conhecidos: a implantação de sistemas de irrigação não compatíveis com a sustentabilidade por retirada excessiva de água e devido as mudanças climáticas. Segundo pesquisas do professor Scott Jasechko, da Universidade de Santa Bárbara, na Califórnia, mais de um terço dos 1.693 aquíferos existentes monitorados pelo estudo caíram pelo menos 0,1 metro por ano entre os anos 2000 e 2022, com 12% deles passando por declínios anuais superiores a 0,5 metro.

ÁGUAS SUBTERRÂNEAS

UM RECURSO MUITO NOBRE

Para falar sobre o tema, convidamos o engenheiro Raymundo Garrido, professor da Universidade Federal da Bahia e ex-Secretário Nacional de Recursos Hídricos.

Silvestre Gorgulho

 

RAYMUNDO GARRIDO – ENTREVISTA

 

 

 

FMA – Recente análise feita pelo jornal New York Times dá conta de que os aquíferos estão deplecionando rapidamente à escala mundial. O que está havendo?

Raymundo Garrido – Numa primeira abordagem, é fato amplamente conhecido que a irrigação é a atividade campeã quando se avalia a repartição das vazões de demanda pelos usos múltiplos da água. Isso ocorre, evidentemente, onde essa atividade econômica é praticada, isto é, nas bacias ou regiões onde se fizer presente, a irrigação estará sempre entre as que exercem a maior demanda. Ocorre também que, mesmo quando há irrigação, mas a atividade industrial é, também significativa, principalmente se os ramos de produção fabril forem intensivos no uso da água, o quinhão que cabe à irrigação diminui proporcionalmente. Os demais usos da água somente em alguns exemplos afrontam a irrigação. A referida pesquisa do NYT parece confirmar esse balanço entre os dois mencionados usos dos recursos hídricos e, considerando que a irrigação, sendo uma atividade notadamente rural, está naturalmente inclinada a usar águas subterrâneas, contribuindo para o deplecionamento dos aqüíferos. Mas é importante comentar que não é somente pelo comportamento da demanda por água que muitos aqüíferos estão tendo seus níveis rebaixados. As disponibilidades de água (oferta da natureza) também têm se reduzido em algumas regiões. De fato, a pesquisa indicou que em regiões secas e com vastas áreas dedicadas à agricultura tiveram seus aqüíferos deplecionados, caracterizando a influência da baixa oferta de água pelo meio natural.

 

FMA – Como fica esse balanço geral de acordo com a pesquisa do NYT?

RG – Foram pesquisados 1700 aquíferos em mais de 40 países e o resultado encontrado indicou que cerca de 50% dos aqüíferos estão deplecionando. Nos Estados Unidos, no Vale Central da Califórnia, juntamente com as Planícies Altas verificaram-se baixas acentuadas do nível dos aquíferos. Em várias outras regiões do mundo o cenário é mais ou menos o mesmo. No Irã, a redução dos níveis de águas das formações hidrogeológicas foi também notável. Verificou-se, ainda, que 16% dos aqüíferos tiveram seu nível de água aumentado, e em 20% a situação não pendeu nem para a depleção acentuada nem para a subida expressiva do nível da água. Nas regiões onde os aqüíferos estão experimentando uma subida de nível, os governos estão adotando medidas de regulamentação e/ou, como no caso da Espanha, estão executando a técnica de recarregar seus aqüíferos.

 

FMA – Qual a contribuição das águas subterrâneas para o abastecimento humano no Brasil?

RG – São extraídos cerca de 560m3/s de poços tubulares no Brasil, vazão suficiente para abastecer todo o País durante um ano. Cerca de 20% da população são atendidos por água de origem subterrânea que é distribuída por 52% de todos os 5570 municípios do País. As águas de sub-superfície representam um recurso nobre que deve ser preservado, tanto quanto possível, para usos igualmente nobres. Em conjunto com as águas de rios e lagos, elas propiciam soluções combinadas dependendo da demanda em cada local ou região e das disponibildades de cada fonte.

 

FMA – Sendo invisíveis as águas subterrâneas, como se dá o controle de seu uso no Brasil?

RG – Preliminarmente, vale lembrar que as águas subterrâneas pertencem ao domínio dos estados. Isso significa afirmar que, um mesmo aquífero que subjaza a dois estados vizinhos, A e B, por exemplo, tem dois domínios, um domínio de cada um desses dois estados federados. Portanto, todos os corpos d’água subterrâneos no Brasil são patrimônio dos estados por onde suas águas percolam ou se acumulam. Nesse caso, o controle rigoroso do uso dessas águas é da alçada dos estados. Entretanto um aqüífero pode interagir com as águas superficiais que escoam ou se acumulam no solo que se lhe sobrepõe. Sucede que as águas superficiais podem ser de domínio de um dado estado ou de domínio da União. Consequentemente, é prudente que os estados e a União (neste caso por meio da ANA) mantenham uma atividade de monitoramento do uso das águas subterrâneas. Convém mencionar, entretanto, que mesmo havendo a referida dominialidade, há casos de aqüíferos sobreexplotados em diversas partes do Brasil, indicativo que, no campo da gestão do uso das águas aubterrâneas, ainda há muito por se fazer.

 

FMA – Pode dar exemplos dessa superexplotação?

RG – Sim. São inúmeros, mas vou comentar apenas dois. Veja a situação de Itabira – MG. A indústria faz uso de 1.100 l/s da água do aqüífero Cauê, muito acima da capacidade de recarga desse corpo d’água que é de 140 l/s, e o SAAE extrai 110 l/s do aqüífero Piracicaba cuja capacidade de recarga é de 86 l/s[1]. Isso significa que esses dois corpos d’água estão sendo levados à exaustão caso não sejam adotadas medidas simultâneas de redução da demanda, o que é sempre possível, acompanhadas da eventual importação de águas por transposição, esta última muitas vezes de difícil colocação em prática. Um outro exemplo é o da cidade de Recife que está em uma planície costeira arrodeada de pequenas colinas e do oceano Atlântico, contendo um certo número de rios que cortam a Cidade. O bombeio excessivo de água subterrânea que vem ocorrendo nos últimos 50 anos já produziu um impacto significativo com o deplecionamento dessas águas.

 

FMA – E, afinal, como fugir preventivamente da superexplotação das águas subterrâneas?

RG – Eu aposto no compromisso que os agentes integrantes do Sistema Nacional de Recursos Hídricos (SNRH) e, por extensão, os agentes que participam dos Sistemas Estaduais, devem manter com os princípios, aplicação dos instrumentos e adoção e manutenção do arcabouço legal-institucional voltado para a gestão das águas para que novos episódios de sobrexplotação das águas subterrâneas não surjam, e que práticas já existentes vão desaparecendo pouco a pouco. A confiança que tenho no SNRH procede da constatação de experiências vitoriosas, brasileiras e de outros países que avançaram na gestão de suas bacias hidrográficas simplesmente pela aderência a tais princípios, instrumentos e estruturas de planejamento e gestão. Aqui estou me referindo a algo já bastante difundido no Brasil que são a bacia como unidade de gestão, o respeito aos usos múltiplos da água, a gestão descentralizada e participativa, os instrumentos da outorga e da cobrança pelo uso da água, o papel dos comitês de bacia e agências de água. Todos esses elementos não precisam mais ser discutidos tal é o reconhecimento da eficácia de sua aplicação.

 

FMA – Em que tipo de abastecimento as águas subterrâneas podem dar uma contribuição mais efetiva para a economia dos recursos hídricos?

RG – A resposta a essa indagação está no conjunto de funções que têm os aqüíferos em geral. Em entrevista anterior sobre este mesmo tema das águas subterrâneas (FMA – março de 2022 –  link https://folhadomeio.com/2022/03/aguas-subterraneas/ > ), tive a oportunidade de comentar que os aqüíferos cumprem, primordialmente, a função de proteger e melhorar a qualidade da água (função filtro), transportar água, entre outras. Adicionalmente a essas funções, observa-se que o uso de águas subterrâneas presentemente no País tem dado uma expressiva contribuição ao meio rural como solução para o abastecimento doméstico e de alguns setores usuários que estejam presentes fora das zonas urbanas. Essa contribuição está chegando na medida em que as sedes municipais vão aumentando a sua cobertura dos serviços, especialmente o abastecimento de água e o esgotamento sanitário, fazendo com que o Setor Público volte seu olhar para as zonas censitárias de menor significado demográfico. Apesar de a cobertura desses serviços ainda não ter alcançado os níveis ideais à escala nacional, é forçoso reconhecer que o Saneamento Básico experimentou uma evolução não desprezivel no curso das últimas décadas e, nessa trajetória, as sedes municipais foram atendidas em primeiro lugar pela massa crítica populacional que reuniam.

 

FMA – Explique melhor as circunstâncias dessa trajetória do Saneamento Básico. O que são as zonas censitárias?

RG – Sobre a trajetória, de modo bem sucinto, o marco histórico contemporâneo foi o Plano Nacional de Saneamento (Planasa), de 1971, cujo centro nervoso esteve nas empresas estaduais de saneamento, então criadas, que atacaram de frente o déficit dos serviços, atuando primeiramente nas sedes municipais. A legislação avançou ao longo das décadas e vários programas se sucederam dotando as sedes municipais de um determinado nível, não ideal como disse, mas aceitável, de cobertura dos principais serviços de saneamento. Presentemente, o IBGE considera a classificação demográfica do País em oito setores censitários. A Figura seguinte apresenta esse conjunto de setores censitários que estão presentes em cada municipalidade. Os pontos fracos em termos de saneamento básico estão inscritos nos setores censitários 5, 6, 7 e 8, que abrangem os aglomerados rurais isolados dos tipos povoados (Setor Censitário 5) e núcleos (Setor Censitário 6); outros aglomerados rurais (Setor Censitário 7) e zona rural exclusive os aglomerados rurais (Setor Censitário 8). Esses setores censitários contam com populações muito pequenas e é justamente aí que reside a dificuldade devido aos elevados custos resultante da dispersão dos povoados, tanto de implantação quanto de operação. Resolver o problema de levar o saneamento a esses setores do meio rural constitui uma das metas da busca da universalização do saneamento no Brasil atualmente e essa tarefa pode ser solucionada por meio do uso de águas subterrâneas.

[1] saaeitabira.com.br/etas (acesso em 23fev2024).

 

 

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Viva Brasília 64 anos: As várias faces da estética brasiliense

Especial de aniversário da capital tem início com reportagem explorando a identidade brasiliense, do sotaque à culinária, passando pela moda

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Por ‌Jak Spies e Victor Fuzeira, da Agência Brasília | Edição: Vinicius Nader

Prestes a completar 64 anos de vida, Brasília é a capital responsável por abrigar todos: desde candangos que edificaram prédios, passando pelos descendentes e aqueles que vêm somente para visitar e conhecer a construção da identidade cultural do Quadradinho.

No especial Viva Brasília 64 anos, a Agência Brasília convida você a lembrar, conhecer e viver o jeitinho brasiliense, contemplado pela arquitetura, culinária, arte, esporte e outras áreas.

Forjada na diversidade, a capital tem gerações que nasceram aprendendo a fazer o balão, descer a tesourinha e pegar o zebrinha – coisas que fazem sentido para os brasilienses e compõem o estilo de vida da cidade, mas podem causar estranhamento a quem vem de fora.

Arte: Agência Brasília

Para a antropóloga e professora do departamento de sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Haydèe Caruso, Brasília pode ser pensada de forma muito diversa e com múltiplas identidades devido à própria concepção da cidade, que representa a junção de todas as partes e lugares do Brasil.

“A gente não estabelece padrões culturais por decretos ou protocolos, nós vamos vivendo e construindo a identidade cultural. É difícil dizer que há uma única identidade, até pelo distanciamento entre o Plano Piloto e as outras regiões administrativas, onde há vários movimentos que são berço do rap, do rock e do samba brasiliense. É um caldeirão que reúne o diverso que é o Brasil. A pluralidade pode ser nossa identidade”, explica a especialista.

Arte, cultura, arquitetura, moda e gastronomia ajudam a compor a identidade única de Brasília, cidade que reúne aspectos culturais de todas as partes do país | Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília

A antropóloga ressalta, ainda, que a identidade cultural é um processo contínuo de construção, em que a própria linguagem e expressões coloquiais locais podem ser citadas como exemplo.

Sotaque brasiliense

Para o brasiliense é comum pegar um baú ou camelo e ir ao Eixão do Lazer ou até mesmo morgar embaixo de um ipê e admirar o céu

Para o brasiliense, é comum pegar um baú ou camelo e ir ao Eixão do Lazer ou até mesmo morgar embaixo de um ipê e admirar o céu de Brasília – aquele conhecido como o mar da cidade. Depois, quem sabe, ir à Igrejinha e mais tarde ao Cine Drive-In ou ao Conic para um frevo.

Se você não é de Brasília, o parágrafo acima pode ser um pouco confuso de entender. Mas não se preocupe, nós o ajudamos a entender o dialeto da cidade que é só o ouro para você não pagar vexa, tá ligado, véi?

Essas são apenas algumas expressões típicas que fazem parte do sotaque brasiliense, tão claro para alguns e questionado por outros. O assunto foi tema do documentário Sotaque Capital, produzido pela jornalista Marcela Franco em 2013.

No curta, a resposta é que sim, existe um sotaque com características próprias no DF, fruto de uma mistura de diversas regiões do país. “Vinham pessoas de todos os estados para cá. Daí nasceu esse sotaque; dizem que é falado de forma cantada e que comemos algumas letras das palavras”, acentua a jornalista.

Outro termo peculiar é “babilônia”, usada para se referir às únicas quadras comerciais do Plano Piloto com ligação subterrânea. Considerada uma quebra de padrão entre as quadras modelos do Plano Piloto, a 205/206 Norte era conhecida como “a quadra estranha do Plano Piloto”, malvista por muitos e amada por alguns, e tema do documentário Babilônia Norte, dirigido por Renan Montenegro, 34.

O cineasta estava entre os que passavam pela quadra e a viam de forma diferente. Lançado em 2013, o curta explora os ângulos e espaços arquitetônicos do espaço, fazendo parte de um movimento de identificação cultural em Brasília que surgiu no mesmo ano. “O que mais potencializou esse movimento foi ser um trabalho feito por brasilienses, convidando mais artistas brasilienses para um público brasiliense. É um discurso bem bairrista: feito aqui, por nós, sobre nós e para nós. É pertencer à cidade e dar ressignificado para as coisas”, conta Renan.

O diretor aponta que o ano de 2013 foi uma virada para a identidade brasiliense e fez diferença na quadra para o que ela é hoje. A mesma lógica, que parte de ocupar os espaços públicos, é aplicada ao Carnaval de Brasília, que já tem um circuito a contemplar os brasilienses que não precisam mais viajar só para se divertir em bloquinhos.

“Para uma cidade nova, dez anos fazem muita diferença. Há um desenvolvimento dos artistas locais e do público. Brasília sempre foi muito fria pela construção arquitetônica e urbanística e pelos endereços cheios de números. Então, até esse movimento de apelidar os lugares, por exemplo, ajuda no processo de chamar a cidade de nossa”, destaca o cineasta.

Moda e gastronomia

O chef André Castro defende a gastronomia com ingredientes locais: “Precisamos começar a olhar para o quintal da gente”

Essa construção de identidade entra em outros campos. Os alimentos típicos do Cerrado são usados na elaboração de menus executivos, festivais gastronômicos e cardápios especiais. Entre os restaurantes que ressaltam essa culinária local está o Authoral, localizado na Asa Sul e comandado pelo chef de cozinha André Castro.

Durante o período em que esteve na Europa, André assimilou o importante aprendizado de enaltecer o local. “Valorizar o ingrediente que está próximo a você, seja porque ele faz parte da cultura, seja porque chega até você mais fresco: isso é valorizar, também, toda a cadeia produtiva que está próxima”, pontua.

Atualmente, há dois pratos incluídos no cardápio nessa linha. O primeiro leva óleo de babaçu tostado no lugar do óleo de gergelim. É um filé de pescada-amarela com crosta de castanhas brasileiras, musseline de batata-doce roxa, creme de moqueca e vinagrete de milho tostado. No outro preparo, é usada uma técnica espanhola para fazer uma croqueta com massa de galinha caipira com emulsão de pequi.

“Infelizmente, o brasiliense ainda conhece pouco do Cerrado. As pessoas nascem e crescem no Cerrado, mas não conseguem falar cinco ingredientes encontrados aqui. Precisamos começar a olhar para o quintal da gente”, comenta o chef.

Na loja Verdurão, Wesley Santos trabalha com duas ‘estações do ano’: seca e chuva

Não só a culinária é influenciada por características locais do DF, mas também a moda. Enquanto muitos países apresentam estações do ano bem-definidas, a marca de roupas Verdurão, criada em 2003, entende que isso não existe na realidade brasiliense.

“Temos duas estações: seca e chuva. E é assim que operamos, com roupas para época de seca e época de chuva. Eu até brinco que a Verdurão começou a falar da identidade cultural de Brasília em uma época em que a gente nem sabia que tinha uma identidade. A marca ajudou a mapear e explicitar essa identidade aos brasilienses”, afirma o diretor criativo da Verdurão, Wesley Santos.

Além de ser uma rede de apoio à economia local e às várias famílias que vivem da produção do vestuário, a Verdurão produz roupas sem nada de origem animal. Algumas são feitas com tecidos biossustentáveis, como fibra de bananeira e de cânhamo.

“Eu já rodei o mundo inteiro e nunca vi nada minimamente parecido com Brasília. É uma cidade cenário diferente de tudo”

Wesley Santos, diretor criativo

Uma das missões da empresa é, segundo Santos, “promover Brasília até para gringo conhecer” e “mostrar para o resto do país o quanto Brasília é massa”. Para o diretor criativo, não é tarefa difícil trabalhar com estampas que retratam o cotidiano da capital federal, usando e abusando dos símbolos brasilienses – placas, fauna, flora, gírias, costumes e cartões-postais.

“Estamos em uma cidade fora do normal, incrível. Temos um estilo de vida que não se encontra em nenhuma cidade do país. Eu já rodei o mundo inteiro e nunca vi nada minimamente parecido com Brasília. É uma cidade-cenário diferente de tudo”, afirma.

Brasília é poesia

Com oito livros repletos de poesias que falam sobre Brasília, o poeta Nicolas Behr compartilha dessa paixão pela cidade onde mora há 50 anos. O autor frisa que tudo está relacionado ao choque inicial que teve com Brasília, quando chegou aos 14 anos, vindo de Cuiabá (MT), e deu de cara com uma cidade estranha, nova e árida.

O poeta Nicolas Behr foi buscar inspiração nas curvas de Brasília para sua arte | Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

“Essa aridez me causou um estranhamento, uma dificuldade de aceitar essa cidade e uma tentativa constante de dialogar com ela. Foi daí que nasceu a minha poesia, da tentativa de decifrar Brasília antes que ela me devorasse. É um conflito bom, que vai diminuindo à medida que você vai se incorporando à cidade”, observa.

Behr também comenta que a parte mais visível da estética brasiliense é a contribuição para a arquitetura, sendo impossível falar de Brasília sem passar pelas obras de Oscar Niemeyer. “Antes de Brasília, a arquitetura moderna era feia, pesada, sem leveza, sem graça, sem a criatividade que Oscar Niemeyer nos trouxe. Ele tirou os ângulos retos e trouxe as curvas, deu beleza ao que antes era uma coisa pesada”.

Para o poeta, Brasília representa a maior realização do povo brasileiro. “A grande história de Brasília é o que ela simboliza como uma ideia: a transposição para o papel e para o chão de uma tentativa de organizar o caos. Brasília é a cidade mais racional do mundo. É uma cidade instigante, que ganhou em vida e perdeu em mistério”, declara.

Ele finaliza reforçando que Brasília, por si só, rende muita poesia: “Aqui não existe limite para a criação intelectual. Brasília é uma cidade muito nova e, por ser nova, não tem uma tradição literária. Isso é bom para o artista, porque a tradição é um peso. Em Brasília, o horizonte está na sua frente”.

 

 

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Programa leva estudantes para visitas guiadas no Museu de Arte de Brasília

Mais de 3 mil alunos da rede pública já visitaram o Museu de Arte de Brasília por meio de projeto que oferece transporte gratuito, alimentação e oficinas educativas para os jovens

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Por Jak Spies, da Agência Brasília | Edição: Igor Silveira

 

Foi a primeira vez que a estudante Maiara Kelly Soares dos Santos, de apenas 6 anos, foi ao Museu de Artes de Brasília. De primeira, ela já demonstrou afeição pelas obras, elogiando não só as oficinas com brincadeiras, mas principalmente os quadros que viu durante a visita guiada. “Eu gostei mais das obras de arte, nunca vim aqui. É tudo bonito. Aprendemos o que é mais quente e mais frio”, destacou a pequena, referindo-se à tonalidade das cores ensinadas durante o passeio.

Já foram realizadas 168 visitas guiadas no equipamento público, que ocorrem desde 17 de abril de 2023 | Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília

Maiara é uma entre os 140 alunos de educação infantil da Escola Classe Córrego Barreira, uma escola rural localizada na Ponte Alta Sul do Gama, e está entre os 3 mil estudantes do DF que já visitaram o museu por meio do MAB Educativo, que conta com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec-DF). Além das mediações e práticas artísticas, o programa oferece transporte gratuito e lanche para as crianças.

Já foram realizadas 168 visitas guiadas no equipamento público, que ocorrem desde 17 de abril de 2023. Mais de sete mil pessoas já foram alcançadas pelo programa do MAB, divididas entre público espontâneo e público escolar, além de 335 professores de 94 escolas, de 20 regiões administrativas do DF – sendo 90 de escolas públicas e quatro de escolas particulares. Mais de mil pessoas foram atendidas com o transporte gratuito.

“É uma oportunidade que eles têm de sair do ambiente deles, porque nossa escola é do campo e os alunos são de comunidade bem carente, então é uma parceria muito importante. Melhora muito a criatividade, o repertório visual e de palavras, além do desenvolvimento deles no campo da arte”, destacou a vice-diretora da Escola Classe Córrego Barreira, Marlene Alves.

Mais de sete mil pessoas já foram alcançadas pelo programa do MAB, divididas entre público espontâneo e público escolar, além de 335 professores de 94 escolas, de 20 regiões administrativas do DF – sendo 90 de escolas públicas e quatro de escolas particulares

Essas visitas só foram possíveis porque o MAB foi reaberto em 2021, antes fechado desde 2007. A reabertura do espaço cultural foi um dos presentes do aniversário de 61 anos da capital federal. Para o aniversário de Brasília, além das atividades normais durante a semana, o Museu está com uma programação de oficinas especiais nos finais de semana. O MAB fica no Setor de Hoteis e Turismo Norte, trecho 1, Projeto Orla.

Interação com o mundo

O projeto, que tem capacidade atual de receber 480 crianças por semana, também disponibiliza visitas acessíveis em libras e um material educativo para as crianças. De acordo com a coordenadora pedagógica do MAB Educativo, Luênia Guedes, a acessibilidade e o transporte gratuito são a parte principal do programa. “Muitas dessas escolas estão em regiões que ficam longe e não têm condição financeira de levar esse acesso às crianças”, ressaltou.

Com supervisão pedagógica, a turminha recebe a visita mediada de forma lúdica pelo acervo, onde as crianças participam dos jogos desenvolvidos pela equipe de mediadores. Depois, elas seguem para uma oficina no laboratório, que conta com atividades interativas.

“Essa proximidade com a arte já começa transformando e dando a sensação de pertencimento para essas crianças, para que elas possam perceber que o museu é um espaço para a comunidade. A experiência com a arte acessa o sensível, o criar, as possibilidades de reflexão, de interação com o mundo e a capacidade de construir novas realidades e mundos possíveis. Esse trabalho é fundamental para a formação cidadã de cada criança”, reforçou a coordenadora.

 

 

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O ACONCÁGUA

A montanha mais alta fora da Ásia, com 6.961 metros de altitude, e, por extensão, o ponto mais alto tanto no hemisfério ocidental quanto no hemisfério sul.

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O Aconcágua, na Cordilheira dos Andes, com altitude 6.961 metros, localizado na província de Mendoza, Argentina, é o ponto mais alto do hemisfério sul e do Ocidente. A montanha e seus arredores fazem parte do Parque Provincial Aconcágua, que abriga uma série de importantes geleiras.

Porta de entrada do Aconcágua

 

O maior glaciar do Aconcágua é o Ventisquero Horcones Inferior, com cerca de 10 km de comprimento, que desce a partir da face sul da montanha, com aproximadamente 3.600 metros de altitude, perto do acampamento Confluência. Dois outros grandes sistemas de geleira são o Ventisquero de las Vacas Sur e Glaciar Este/Ventisquero Relinchos, com cerca de 5 km de comprimento. A face mais conhecida é a do Nordeste, chamada de Glaciar dos Polacos, uma rota desbravada por montanhistas da Polônia em 9 de março de 1934.

No entanto, a primeira tentativa de chegar ao cume do Aconcágua foi em 1883, por um grupo liderado pelo geólogo alemão Paul Gussfeldt. A rota que ele fez é agora um itinerário bastante usado.

A pessoa mais jovem a chegar ao cume do Aconcágua foi Tyler Armstrong, da Califórnia, Estados Unidos. Ele tinha nove anos de idade quando alcançou o cume em 24 de dezembro de 2013.  A pessoa mais velha a escalar foi Scott Lewis, que alcançou o cume em 26 de novembro de 2007, aos 87 anos de idade. No ano de 2022, 4.600 montanhistas participaram de expedições ao Aconcágua e, deste total, 153 perderam a vida tentando alcançar o cume.

Para saber mais: Siga no Instagram @pehauck e @altamontanha

 

 

A primeira tentativa de chegar ao cume do Aconcágua foi em 1883, por um grupo liderado pelo geólogo alemão Paul Gussfeldt. A rota que ele fez é agora um itinerário bastante usado

 

 

TRÊS ALPINISTAS BRASILEIROS

Em 3 de fevereiro de 2024, completaram 26 anos da tragédia que se abateu sobre três alpinistas brasileiros quando tentavam o feito inédito de chegar ao cume do Aconcágua pela face sul. Alexandre Oliveira, Mosart Catão e Othon Leonardos foram arrastados por uma avalanche, estando os corpos até hoje na Cordilheira dos Andes.

 

Citado três vezes no ‘Guinness Book’, Mosart Catão era considerado um dos melhores do Brasil no esporte. Alexandre Oliveira tinha dez anos de escalada e se destacava na rocha e em alta montanha, devido à sua excelente capacidade de aclimatação.  Othon Leonardos era de Brasília e esta era sua primeira vez no Aconcágua. A tragédia aconteceu seis dias depois deles terem saído do acampamento base, sendo dois a espera pela melhora no tempo.

Essa poesia foi capa da Folha do Meio Ambiente, edição Ecoturismo – março de 1998.

 

 

Três amigos e três heróis: Aconcágua serás!

ACONCÁGUA SERÁS!


Silvestre Gorgulho


Meu fascínio é teu desafio
e ambos são os preços para tua glória.
Fascínio e desafio são minhas oportunidades
para fazer amigos e heróis.
Amigos, aqueles que chegam aqui em cima, me acariciam e voltam.
Heróis, aqueles que aqui permanecem
e que, por todo o sempre, dormirão ao meu lado,
dividindo comigo magias e encantos.

 

Eu sinto falta de meus amigos,
aqueles que me visitam e retornam às suas casas.
Sentirás falta de teus amigos,
aqueles que aqui plantam sua morada.
Não chores por eles.
São meus heróis. Meus escolhidos.
Serão sentinelas brancas,
marcando o território de suas pátrias.
Serão Aconcáguas como eu.


Neste meu céu, sem pássaros e sem flores,
sem o voo solitário do Condor,
minha natureza é o ar, a pedra, a neve e meus alpinistas.
Sim, meus centenas alpinistas, meus heróis,
que como Mozart, Alexandre e Othon
deram um tempo na sua escalada
e quedaram neste céu para sempre.


Todos eles buscaram a glória. E a tiveram.
Venceram o ermo e a solidão.
Cada um deles tem consigo a bandeira congelada de sua Pátria
que seria desfraldada em calorosas emoções, risos e lágrimas.


Montanhista!
Ao beijar a minha testa,
terás o mundo a teus pés.
Mas, se por acaso, o destino
deixar que repouses ao meu lado,
dorme… dorme, meu Herói!
Dorme tranquilo que velarei por ti eternamente…
Aconcágua serás!

 

 

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