Artigos
CAVALOS-MARINHOS
REVISITANDO O PROJETO HIPPOCAMPUS
A beleza e o fascínio dos cavalos-marinhos, uma espécie em extinção.
Marcelo Vidal: “As interações turísticas com a fauna silvestre, quando ordenadas, regulamentadas e monitoradas, têm o potencial de auxiliar na conservação das espécies, satisfazer as expectativas do visitante e promover a geração de renda nas comunidades receptoras”.
Eles são peixes que nadam em vertical. A cabeça pode ser semelhante a um cavalo, mas cada cavalo-marinho, mesmo de uma mesma espécie, tem aparência própria. Dizem os estudos que são mais de 45 espécies habitando as águas costeiras do Planeta. O cavalo-marinho tem cores diferentes e elas variam de acordo com a sua bagagem genética e a influência do ambiente para a camuflagem. Eles não têm escamas, mas placas ósseas cobertas de tecidos cutâneos. São lindos, místicos e lendários. Vamos conhecer mais sobre os cavalos-marinhos e revisitar o Projeto Hippocampus, hoje Instituto Hippocampus, que tem a sede, desde 2020, no Porto de Suape a 40 km de Recife-PE.
ROSANA BEATRIZ SILVEIRA – ENTREVISTA

A bióloga Rosana Beatriz Silveira, Coordenadora do Projeto Hippocampus, fala sobre as espécies de cavalos-marinhos, explica as pesquisas e o monitoramento em estuários, onde se verifica a ocorrência de espécies e o estado de conservação na Costa Brasileira.
FOLHA DO MEIO – O que são cavalos-marinhos e onde ocorrem. Quantas espécies existem no Brasil?
Rosana Silveira – Os cavalos-marinhos são peixes de osso (literalmente: possuem uma armadura de placas ósseas que revestem todo o seu corpo). Estão globalmente ameaçados de extinção. No Brasil existem 3 espécies: Hippocampus reidi, o cavalo-marinho do focinho longo. Hippocampus patagonicus, o do focinho curto. Hippocampus erectus, o cavalo-marinho raiado, que tem um tamanho de focinho intermediário entre as outras duas espécies. Todas as três espécies ocorrem no mar, porém H. reidi habita também, estuários e manguezais. Temos H. reidi e H. erectus com registros em toda costa do Brasil, sendo que H. patagonicus é restrito às regiões sudeste e sul do Brasil.

FMA – O que é “passeio do cavalo-marinho”?
Rosana – O “passeio do cavalo-marinho” é uma atividade turística que envolve interação com os cavalos-marinhos (Hippocampus reidi) durante um passeio realizado de jangada ou canoa pelos manguezais, onde o animal é capturado e colocado em vidros para observação e registro de imagens. Após a observação, o animal é solto no mesmo local onde foi capturado. Existem três locais principais onde tradicionalmente isto acontece: manguezal de Maracaípe, PE. No manguezal de Barra Grande, PI e em Mangue Seco, e na praia de Jericoacoara, Ceará. Os dois últimos, dentro de áreas protegidas federais, que são a APA Delta do Parnaíba e Parque Nacional de Jericoacoara, respectivamente. Em Maracaípe, as atividades ocorrem dentro de uma unidade de conservação estadual, a APA dos Rios Sirinhaém e Maracaípe.
FMA – A captura dos cavalos-marinhos durante os passeios turísticos afeta a espécie?
Rosana – Infelizmente sim. Nós trabalhamos monitorando as populações envolvidas nas interações turísticas por longos anos. Desde 2001 a 2021 em Maracaípe, Pernanbuco. De 2011 a 2015 em Jericoacoara, no Ceará. E de 2014 a 2015 no Delta do Parnaíba. Embora, e com certeza, esta não seja a única pressão sofrida pelos cavalos-marinhos, sem dúvida ela impactou na dinâmica populacional da espécie. Nossos resultados mostraram que no Parque Nacional de Jericoacoara houve significativa redução da população de cavalos-marinhos expostas às atividades turísticas. Este foi o primeiro estudo a identificar essas fragilidades e, serviu de apoio à decisão da gestão do Parque Nacional de Jericoacoara de proibir, desde 2023, a captura dos animais durante o passeio turístico. Na APA Delta do Parnaíba, além da diminuição populacional, houve grande desestruturação da população, aliás o que não ocorreu em Jericoacoara. A gestão da APA está consciente da questão e decidiu por um período de transição para que os canoeiros possam se adaptar à nova situação de não captura. Detalhes deste trabalho podem ser lidos em Silveira et al. (2022b). Em Maracaípe, a situação é a mais delicada de todas. A população desses animais estaria criticamente ameaçada, pois há muitos anos são emitidos relatórios e notas técnicas ao Município que, aliás ajudou a financiar a pesquisa de monitoramento. Mas não houve nenhuma ação para a conservação da espécie. No momento, estamos publicando os 20 anos de monitoramento dessa população.
FMA – Quando sai a publicação e qual a principal mensagem que ela traz?
Rosana – Nossa perspectiva é para este semestre. A publicação mostra a importância dos monitoramentos de longo tempo e a necessidade de ordenamento e fiscalização das atividades que envolvem interação coma fauna silvestre. E que a conservação dos cavalos-marinhos não implica em negligenciar as atividades de subsistência dos jangadeiros, existe um equilíbrio, como mostrado em Jericoacara.

“Passeio do cavalo-marinho” no Parque nacional de Jericoacoara. Foto: Marcelo Vidal
FMA – Pelo jeito, então, os trabalhos nos “passeios de cavalo-marinho” vão acabar…
Rosana – Não, não! Longe disso. Os passeios são totalmente sustentáveis, preparados com muito cuidado e tem um valor educacional imenso. Pelos passeios nossa equipe ajuda a conscientizar crianças e adultos. São muito importantes. Atualmente seguimos colaborando no projeto “Pesquisa e manejo do turismo interativo com cavalos-marinhos no litoral nordeste brasileiro” coordenado pelo analista ambiental Marcelo Vidal do CNPT/ICMBio e inserida no Plano Estratégico de Pesquisa e Gestão da Informação sobre Biodiversidade (PEP-ICMBio/2023) ou em Plano Específico de Pesquisa de Unidade de Conservação. Marcelo Derzi Vidal, doutor em Biodiversidade e Conservação, ministra palestra sobre “Turismo com fauna em Unidades de Conservação para estudantes de programa de Pós-graduação em Ecoturismo e Conservação em universidades, escolas públicas e eventos turísticos. Ele sempre diz que as interações turísticas com a fauna silvestre, quando ordenadas, regulamentadas e monitoradas, têm o potencial de auxiliar na conservação das espécies, satisfazer as expectativas do visitante e promover a geração de renda nas comunidades receptoras.
FMA – Tem um artigo científico sobre a pesca incidental de arrasto que ocorre sobre os cavalos-marinhos no estado do Rio de Janeiro. Mostra a gravidade da pesca. O que você pode falar sobre isso?
Rosana – Olha, é um estudo muito importante. A pesquisa de campo foi realizada entre 2016 e 2018 em toda a costa do Rio de Janeiro. Este estudo teve a colaboração efetiva de 10 pescadores em cinco portos, o de Angra dos Reis, Niterói, São Gonçalo, Cabo Frio e Macaé. O estudo mostra que foram coletados dados e materiais importantíssimos. Os pescadores, além de coletar os cavalos-marinhos presos nas redes, preenchiam o mapa de bordo, feito especialmente para os cavalos-marinhos, onde era possível obter informações de extensão e profundidade de ocorrência dos animais e quais espécies estavam envolvidas nesta retirada incidental. Muitos cavalos-marinhos já chegavam mortos pela pressão sofrida nas redes, seus órgãos eram evertidos para fora do corpo, outros morriam asfixiados. O estudo é base para muitos de nossos trabalhos. Um verdadeiro alerta!

Esquerda: Hippocampus patagonicus com seus órgãos evertidos pela pressão sofrida nas redes de arrasto (seta vermelha). Direita: Macho grávido morto com a bolsa incubadora aberta mostrando os embriões também mortos. Somente na amostra deste estudo, estimou-se mais de 81 mil embriões perdidos.
FMA – E que espécies seriam estas, elas são muito capturadas pelas redes de arrasto?
Rosana – Sim, basicamente estamos falando de uma espécie capturada, Hippocampus patagonicus. Foram 2.041 indivíduos coletados nas redes de arrasto e apenas 6 indivíduos de H. reidi durante todo o período de estudo. Nenhum H. erectus, a terceira espécie brasileira, foi capturado. Com base nesta amostra e considerando o tamanho da frota pesqueira de arrasto que atua nas regiões sudeste e sul do Brasil, estimamos que mais de 2 milhões de H. patagonicus são retirados anualmente por essa prática. Sem contar que muitos são machos grávidos podendo-se considerar a perda de milhares e milhares de embriões que não vão nascer para compor o estoque natural. Esta espécie, que tem preferência por profundidades entre 40 e 60 m, e cuja única área brasileira de ocorrência é justamente as regiões piscosas do sudeste e sul. A região necessita de mais proteção e as áreas protegidas marinhas ainda são raras no sul do Brasil. Há necessidade de atender melhor essas espécies, pois as UCs que existem no RS não abrangem a área de ocorrência de H. patagonicus. Detalhes deste trabalho podem lidos em Silveira et al. (2023).
FMA – Você sempre cita ‘Silveira et al’. Quem é este tal de Silveira?
Rosana – Desculpe, é a forma resumida que se convencionou citar em textos científicos sobre os trabalhos já realizados: é o sobrenome do primeiro autor seguido de “et al.” (abreviação em latim que significa “e outros”) que são os coautores ou colaboradores. No caso, este tal Silveira é meu sobrenome e o “et al.” são os vários companheiros de pesquisa com quem trabalhei nas respectivas publicações, cujos nomes completos e afiliações podem ser conferidos nas mesmas.
FMA – Conte-nos sobre o trabalho atualmente realizado pelo Instituto Hippocampus em Pernambuco.
Rosana – Nosso trabalho está realizando o monitoramento em estuários e verificando a ocorrência de espécies e o estado de conservação delas nestes locais. Nosso resultado mais recente publicado (Silveira et al. 2024), aborda cavalos-marinhos em área impactadas por catástrofes ambientais, como o derrame de petróleo ocorrido em 2019 na costa brasileira. Avaliamos duas populações de locais próximos: a ilha de Cocaia e o estuário do rio Massangana, ambas dentro da área portuária de Suape, onde atualmente mantemos nossa sede. O derrame de petróleo de 2019 que tem origem desconhecida, afetou fortemente a costa brasileira, do nordeste ao sudeste, porém somente o estado de Pernambuco recebeu 30% de todo petróleo vazado, sendo Ipojuca e o Cabo de Santo Agostinho, dos municípios mais afetados e onde se desenvolveu este trabalho. Na ilha de Cocaia, exposta diretamente ao mar e altamente impactada pelo petróleo, os cavalos-marinhos coletados deram origem às proles malformadas, enquanto em Massangana, ponto mais interno do Porto e aparentemente saudável, não se observou as malformações. Este foi o primeiro registro de malformações em cavalos-marinhos oriundas de contaminantes ambientais em todo o mundo. Foi muito importante observar que os cavalos-marinhos adultos que foram coletados nestes manguezais eram perfeitos, de aparência saldável e muito bonitos. Jamais saberíamos que a população estava impactada se não tivéssemos levados os machos grávidos ao laboratório para estimar a fertilidade natural. Enquanto continuamos o trabalho, estamos sugerindo estes resultados como uma nova metodologia acurada de monitoramento ambiental.

As figuras A e B são recém-nascido e embrião com morfologia normal. As demais são todos malformados. Entre as principais malformações podemos identificar a escoliose severa, onde o peixe tem sua cauda voltada para trás e para cima, o que impede sua natação, promovendo sua morte, mesmo na ausência de outras malformações. Muito comum também, o focinho e crânio alterados, o formato dos olhos alterado e, frequentemente a falta deles, entre muitas outras anomalias.


Locais de coleta de H. reidi: Ilha de Cocaia (área afetada) e estuário do Rio Massangana (área aparentemente saudável). Informações sobre a extensão do litoral impactado e quantidade (t) de óleo derramado adaptadas de Magalhães et al. (2021). A e B, detalhes do derrame na Ilha de CocaiaM (Fotos governo de Pernambuco).
FMA – Em 2004, eu estive em Ipojuca, mais precisamente e Porto de Galinhas, e fiz uma matéria sobre o Projeto Hippocampus. Lá se vão 20 anos. O que mudou?
Rosana – Muita coisa aconteceu neste período. De lá para cá tivemos muitas parcerias fundamentais para o crescimento do Projeto Hippocampus, como a Refinaria Abreu & Lima (PE) de 2008 a 2013 (foram três convênios); a Petrobras Socioambiental de 2014 a 2016 (um patrocínio); Funbio de 2016 a 2018 (um convênio); Município do Ipojuca (três convênios em várias ocasiões). Desde 2020, quando tivemos que fechar a sede de visitação e entregar a casa por conta da covid-19, estamos com sede temporária no Porto de Suape que numa ação voluntária, conhecendo nossa trajetória, acolheu nossos laboratórios na área do complexo portuário e tem prestado apoio aos nossos trabalhos desde então. Atualmente contamos com novos parceiros, como a TECON, a DISLUB e o escritório de Morais Amaral Arquitetura.
SAIBA MAIS
BOX 1
O QUE É O PROJETO HIPPOCAMPUS?
O Projeto Hippocampus, desenvolvido pelo Instituto Hippocampus, existe desde 1994, oriundo do Rio Grande do Sul. O Projeto pesquisa a biologia dos cavalos-marinhos brasileiros em laboratório e em ambientes naturais em apoio aos programas de manejo e conservação para as espécies. Em março de 2001, esse Projeto foi transferido para o município de Ipojuca, em Pernambuco, onde teve sede em Porto de Galinhas até 2020. Desde julho de 2020, o Instituto Hippocampus está sediado no Porto de Suape, próximo a Recife, e é mantido por meio de doações e parcerias. O Porto de Suape cedeu um espaço no Centro de Treinamento (Cetreino) para que o Instituto mantenha suas atividades de pesquisa de campo e laboratório. O Instituto Hippocampus conta a parceria de pesquisadores em várias universidades e áreas do conhecimento.
CURIOSIDADES SOBRE CAVALO-MARINHO
O nome do gênero dos cavalos-marinhos Hippocampus significa, em grego, “monstro marinho semelhante a um cavalo” ou, segundo outra tradução, “lagarta semelhante a um cavalo”.
O hipocampo no cérebro humano leva o nome do cavalo-marinho (gênero Hippocampus) devido a seu formato semelhante ao peixe.
A bolsa incubadora de um cavalo-marinho macho pode conter simultaneamente mais de mil embriões.
Durante o desenvolvimento dos filhotes na bolsa do cavalo-marinho macho, ele os nutre através de uma falsa placenta, um epitélio altamente vascularizado que passa aos embriões cálcio para formação do esqueleto, vitaminas e fatores de crescimento, assim como regula a concentração salina dentro da bolsa evitando choque osmótico aos embriões enquanto o macho move-se entre salinidades distintas. Também protege a prole de choques mecânicos.
MANUAL de PROTEÇÃO
Três lembretes importantes para quem quiser ajudar na preservação dos cavalos-marinhos:
1 – Não comercialize, não compre e não use cavalos-marinhos como remédio e como decoração, pelo menos até que este animal sai da lista de espécies em extinção.
2 – Cuide das águas estuarinas, dos manques e da água do mar. Eles precisam de muita qualidade de água para sobreviverem, assim como nós.
3 – Não retire estes animais de seus habitats e denuncie o uso ilegal ao IBAMA, ICMBio e MPF.
DESMISTIFICANDO
Não existe nenhuma comprovação científica, mas a cultura popular diz que os cavalos-marinhos são afrodisíacos, bons para saúde humana, para curar unha encravada, câncer e muitas outras doenças. E é aí que está o perigo, porque atraídos por estas fantasias farmacêuticas e pela fama de curadores, os cavalos-marinhos são caçados aos montes e vendidos como peças secas nos mercados pesqueiros por míseros R$ 10,00. Chegam a estar ameaçados de extinção. Evidente que além do comércio para remédios e simpatias, têm um outro comércio forte: peixes ornamentais para aquários. No exterior existem empresas fazendo o cultivo de cavalos-marinhos para venda como peixes ornamentais.
MAIS INFORMAÇÕES: o Projeto tem apoio socioambiental do Complexo Industrial Portuário de Suape, Tecon, Dislub e Morais Amaral Arquitetura. Os artigos científicos referentes aos trabalhos citados nesta matéria podem ser baixados do site: www.projetohippocampus.org ou solicitados pelo e-mail: labaquac@yahoo.com – @projetohippocampus
Silvestre Gorgulho – Jornalista. Foi Secretário de Estado de Comunicação e Secretário de Estado da Cultura de Brasília.
Há 70 anos, em 18 de abril de 1956, Brasília começou a vencer a burocracia para sair do papel e entrar na fase do concreto, com a Mensagem de Anápolis.
Em 21 de abril de 1960, a capital era inaugurada com pompa e circunstância pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Lá se vão 66 anos. Nos 65 aniversários anteriores, os brasilienses assistiram a comemorações variadas: algumas simples, mas eufóricas. Outras apoteóticas. Todas sempre regadas a danças e festanças. Mas, nunca, o aniversário de Brasília foi comemorado com tanta displicência, apatia e baixo astral, como agora. A festa dos 66 anos de Brasília ficou restringida à bela edição do irmão gêmeo de Brasília, o Correio Braziliense, inclusive com a tradicional e empolgante Maratona.
Parece que Brasília está em depressão.
Lembro-me que, em 21 de abril de 2010, no Cinquentenário da Cidade, depois da capital ter passado pela crise de ter quatro governadores, a Câmara Legislativa elegeu, indiretamente, dois dias antes, um novo ocupante do Buriti. Mesmo com tantas cicatrizes, a cidade lavou a alma com uma ‘Festa dos 50 Anos’, que levou mais de um milhão de pessoas à Esplanada dos Ministérios.
Não havia nem um político no palco. A festa foi totalmente paga pela iniciativa privada com apoio logístico da Secretaria de Cultura. Deram às mãos o Sinduscon, Associação Comercial, Ademi, Asbraco e Fecomércio. Brasília cantou e dançou com Daniela Mercury – que foi âncora de um show histórico na Esplanada, onde se apresentaram com ela nada menos de 39 artistas da cidade.
À meia noite. Uma grande surpresa estava guardada a sete chaves. Apenas cinco pessoas sabiam. Além da Daniela Mercury, eu como Secretário de Cultura e mais duas pessoas de minha equipe. E, também, o próprio gênio da MPB que iria se apresentar, cantando apenas uma canção.
Apagaram-se as luzes. Estava anunciado o início da queima de fogos. Antes, um canhão de luz focou diretamente o palco e uma voz límpida e forte, a capela, ecoou pela escuridão. Aos poucos, sob o holofote, surge Milton Nascimento.
– ” Como pode o peixe-vivo / viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”
Foi uma apoteose!
A voz de Milton Nascimento reverberou pelos quatro cantos do Brasil. Sim, a TV Globo transmitiu tudo ao vivo. Um misto de euforia e de emoção tomou conta da multidão.
Na segunda estrofe, entra Daniela Mercury que faz dueto com Milton. Aos poucos, começam a entrar cada um dos 39 artistas brasilienses que tinham se apresentado.
E a Esplanada, num coral de um milhão de vozes, sacudiu o Cerrado:
– “Como pode o peixe-vivo /viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”
Vi muita gente chorando. A energia de tantos candangos celebrando os 50 anos de Brasília contagiou a cidade e ajudou a levantar o astral de um tempo triste e sombrio que a cidade vivia.
Agora, nos 66 anos da Capital, faltou ao atual governo sensibilidade e criatividade para tirar Brasília de uma depressão que a cidade está mergulhada.
BRASÍLIA ANO 1 – Para não dizer que falei apenas dos 50 anos da cidade, vou lembrar a comemoração de quando Brasília fez um ano, em 21 de abril de 1961. O presidente da República era Jânio Quadros. Ele estava de costas para a cidade. Falava até em voltar a Capital para o Rio de Janeiro. O prefeito, Paulo de Tarso, assoberbado com finalizações de infraestrutura e questões administrativas, nem pensou no assunto.
Na semana anterior, o então Secretário da Cultura (na época presidente da Fundação Cultural) o poeta maior José Ribamar Ferreira ou, simplesmente, Ferreira Gullar, organizou as comemorações do primeiro aniversário. Evidente, com todas as dificuldades de uma cidade ainda na placenta da História. O que ficou da festa – além de um singelo coquetel no gabinete do prefeito Paulo de Tarso, foi a poesia que nasceu da pena de Ferreira Gullar.
A verdade é que, com seus pouco mais de 100 mil habitantes (hoje são mais 3 milhões), Brasília teve mais poesia do que festança.
Sem nenhum tipo de condução e sem nenhum apoio logístico para celebrar o Ano 1 da nova Capital, Ferreira Gullar buscou solução no Exército Nacional. Marcou audiência.
Um major o recebeu educadamente. Depois de muita conversa, o oficial se saiu com essa:
– Dr. Gullar, tudo bem, mas o problema é viatura e gasolina.
– Eu sei, mas qual a solução?
– Dr. Gullar, não tem solução!
Sem solução, sem apoio, com bastante poeira e muita inspiração, Ferreira Gullar aproveitou o vinho comemorativo no final de tarde do dia 21, na sala do prefeito Paulo de Tarso, sacou do bolso um poema em forma de embolada e discursou aos convivas:
Não adianta, seu prefeito, abrir estrada.
Não adianta Carnaval na Esplanada.
Não adianta Catedral de perna fina
Não adianta rebolado de menina
Que o problema é viatura e gasolina.
Todo mundo riu muito, mas ninguém perdeu o ritmo:
– O problema é viatura e gasolina.
Bons tempos aqueles, quando o astral era altíssimo e o problema era só viatura e gasolina.

Artigos
Inhotim celebra 20 anos com inauguração de três novas obras
Instituto articula natureza, arte e educação em Brumadinho
Ana Cristina Campos – repórter da Agência Brasil
O Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, abriu neste sábado (25) as comemorações dos seus 20 anos com a inauguração de três obras: Contraplano, de Lais Myrrha, Dupla Cura, de Dalton Paula, e Tororama, de Davi de Jesus Nascimento. Considerado o maior museu a céu aberto da América Latina, o Inhotim reúne trabalhos de artistas nacionais e internacionais e uma rica flora. 

Para a diretora artística, Júlia Rebouças, as três obras se conectam em algo que é também a vocação do instituto: articular arte, natureza e educação.
“Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente”, disse.
Júlia destaca que os novos trabalhos conversam com o acervo reunido ao longo da história do instituto.
“São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim”, completa a diretora artística.
Contraplano
Sobre um dos pontos mais altos de Inhotim, a escultura monumental Contraplano faz referência ao prédio projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, na capital mineira. Feita de lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, materiais usados na arquitetura moderna, a obra se descortina sobre áreas do jardim do museu e da mata no entorno e sobre fragmentos de cavas de mineração nas regiões próximas.
O título da obra remete a um espelhamento dessa paisagem modificada pela mineração. A artista mineira Lais Myrrha conta que gostaria de propor uma reflexão em torno da relação da arquitetura com a paisagem, o tempo, a natureza, a montanha e a mineração.
“Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante”, afirmou a artista à Agência Brasil.
A psicóloga belo-horizontina Paola Prates, de 29 anos, estava em sua quarta visita ao Inhotim e entrou em contato pela primeira vez com o trabalho de Lais.
“Achei uma obra muito interessante, porque está posicionada próximo à mineração e eu acho que ela dialoga muito com isso. É uma obra que causa conforto porque, quando se está aqui dentro, você sente o frescor e o acolhimento, mas, ao mesmo tempo, você também olha para a mineração e lembra o que ela é capaz de fazer”, ponderou a visitante.
Dupla Cura
Abrigada na Galeria Mata, uma das primeiras edificações do Inhotim, a exposição de longa duração Dupla Cura, de Dalton de Paula, inclui cerca de 120 obras do artista brasiliense que mora e trabalha em Goiânia.
A mostra reúne o mais amplo conjunto de suas obras já exibido no Brasil, com pinturas, fotografias, vídeos e instalações que remetem à ancestralidade, à memória e à valorização da cultura afro-brasileira.
A curadora Beatriz Lemos explica que o título da exposição é uma referência “ao pacto espiritual que a permeia”. Segundo ela, o aspecto dual, ligado à devoção a São Cosme e São Damião, “manifesta-se no entendimento de que o fortalecimento individual é indissociável do bem-estar comunitário”.
Dalton de Paula conta que umas das questões que mais lhe atrai é a reflexão sobre a memória.
“Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante”, disse à Agência Brasil.
Morador da capital mineira, o engenheiro de som Marcos Soares, de 40 anos, já esteve seis vezes no Inhotim e foi conhecer o trabalho de Dalton.
“Curti muito os desenhos, as pinturas, a expressão gráfica dele é bem rica. O processo de construção da arte dele é bem interessante de acompanhar. Abre uma nova forma de vida que eu nunca teria a chance de vivenciar se não fosse vendo uma exposição como essa do Dalton”.
Tororama
A poucos passos do Contraplano, está a Galeria Nascente, que abriga a instalação Tororama, de Davi de Jesus Nascimento, que nasceu e mora em Pirapora, no norte mineiro.
O espaço reúne três pinturas e um vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em Minas Gerais. A instalação conta ainda com carrancas feitas pelo Mestre Expedito, importante figura da arte popular, que não produzia peças novas há dez anos.
Segundo o curador Deri Andrade, o nome da instalação aparece como uma expressão no conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, “que aborda a relação do protagonista com um curso d’água”.
“O trabalho de Davi está totalmente relacionado ao Rio São Francisco, a partir de uma pesquisa voltada para sua família que mergulha nesse rio. É um projeto completamente imersivo, que traz vídeo performance e uma paisagem sonora”, destacou o curador.
Davi conta que vem de uma família de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros.
“A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d’água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013”, disse o artista. “Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador”.
Irmã de Davi, Ana Paula Vieira do Nascimento, de 36 anos, visitou a obra que lhe remeteu a tudo o que a família vivenciou desde a infância.
“Nossa infância foi sempre dentro do rio. Somos barranqueiros e me remeteu muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição”.
Instituto Inhotim
O museu do Inhotim fica no município de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte. É uma organização sem fins lucrativos, mantida com recursos de doações de pessoas físicas e jurídicas – diretas ou por meio das leis federal e estadual de Incentivo à Cultura – , pela bilheteria e realização de eventos.
Foi idealizado desde a década de 1980 pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz. No solo ferroso de uma fazenda da região, surgiu em 2006.
Sua localização, entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, e as paisagens exuberantes ao longo dos 140 hectares de visitação proporcionam uma experiência única que mistura arte e natureza.
Cerca de 1.862 obras de mais de 280 artistas, de 43 países, compõem o acervo e são exibidas ao ar livre e em galerias em meio a um Jardim Botânico com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, vindas de todos os continentes.
*A reportagem viajou a convite do Instituto Inhotim.
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Museu do Catetinho estreia experiência em realidade virtual com inspiração em Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Temporada do filme ‘Água de Beber’ começa neste sábado (25) e segue até setembro, com acesso gratuito aos visitantes
Por
Agência Brasília* | Edição: Chico Neto
O Museu do Catetinho, espaço gerido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF), inaugura neste sábado (25) a exibição do curta-metragem Água de Beber em realidade virtual. A experiência estará disponível ao público até setembro, com seis óculos instalados em pontos fixos do museu para uso dos visitantes.
Com oito minutos de duração, o filme recria a inspiração da canção homônima de Tom Jobim e Vinicius de Moraes a partir da fonte localizada no próprio Catetinho. Dirigido por Filipe Gontijo e Henrique Siqueira, o curta propõe uma imersão sensorial que conecta memória, música e patrimônio histórico em um dos espaços simbólicos da capital federal.
A iniciativa conta com o Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), instrumento público de fomento que viabiliza projetos culturais em diferentes linguagens e territórios. No caso da produção audiovisual, o recurso permite ampliar o acesso da população a novas formas de fruição cultural, incorporando tecnologias como a realidade virtual ao circuito de visitação.
Para o secretário interino de Cultura e Economia Criativa do DF, Fernando Modesto, a ação evidencia o papel das políticas públicas no fortalecimento da cultura e na valorização dos espaços históricos. “Ao ocupar o Museu do Catetinho com uma experiência que dialoga com a história da música brasileira e com a identidade do espaço, ampliamos as possibilidades de fruição cultural e reforçamos o compromisso do poder público com a democratização da cultura”, afirma.
*Com informações da Secretaria de Cultura e Economia Criativa
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