Artigos

JEAN DE LÉRY – PARTE 8

AS GUERRAS TRIBAIS E COMO TRATAM OS PRISIONEIROS

 

POR QUE OS ÍNDIOS GUERREIAM?

NÃO É PARA CONQUISTAR PAÍSES OU TERRAS

 

Jean de Léry (1536-1613) aquele que entrou de gaiato no navio, continua suas histórias sobre o Brasil de 1550. Léry – só para relembrar – acreditou na balela do poderoso Nicolas Durand de Villegaignon e embarcou em um dos navios franceses que vieram colonizar a porção Antártica da França. O relato que o artesão e futuro pastor calvinista deixou aos brasileiros é precioso. Nesta Parte 8, Jean de Léry explica que motivos levam os selvagens a guerrearem já que não pretendem terras, nem enriquecerem e muito menos receber resgate dos prisioneiros.

 

“Os selvagens se guerreiam não para conquistar países e terras uns aos outros, porquanto sobejam terras para todos; não pretendem tampouco enriquecer-se com os despojos dos vencidos ou o resgate dos prisioneiros. Nada disso os move. Confessam eles próprios serem impelidos por outro motivo; o de vingar pais e amigos presos e comidos, no passado. (…) E são tão encarniçados uns contra os outros que quem cai no poder do inimigo não pode esperar remissão”.

 

Léry e seus companheiros participam de uma guerra entre duas tribos rivais: “Confessarei que nos limitamos a assistir ao combate da retaguarda, apreciando as peripécias da luta. Devo acrescentar que embora tenha visto muitas vezes regimentos de infantaria e cavalaria nos países europeus, com seus elmos dourados e suas armas reluzentes, nunca espetáculo de combate me deu tanto prazer aos olhos. Mas além da diversão de vê-los saltar, assobiar e manobrar com destreza para todos os lados, causava encanto o espetáculo de tantas flechas emplumadas de vermelho, azul, verde e outras cores, brilhando aos raios do sol; e não era menos agradável ver os adornos feitos dessas penas naturais com que se vestiam os selvagens. (…) Nós, franceses, nada mais fizemos do que empunhar as nossas espadas e dar alguns tiros de pistola para o ar para estimular nossa gente, mas nada podia causar maior prazer aos nossos aliados do que irmos à guerra com eles e isso nos engrandeceu perante os velhos das aldeias que frequentávamos”.

 

INSATISFAÇÃO COM VILLEGAIGNON

Os indígenas têm lá suas razões para estarem insatisfeitos com Villegaignon. Ao resgatar uma mulher com seu filho de dois anos das mãos dos tupinambás, Léry escuta a lamúria do vendedor: “Não sei o que vai acontecer no futuro. Depois que pai Colás chegou aqui já não comemos nem a metade de nossos prisioneiros”.

 

“(…) quatro meses após a nossa chegada a esse país, escolhemos entre os quarenta ou cinquenta escravos comprados aos selvagens e empregados nos trabalhos do forte dez meninos que foram enviados para a França ao rei Henrique II, então reinante”.

 

 

Dentre as curiosidades recolhidas por Léry sobre o tratamento dado pelos indígenas aos prisioneiros de guerra, algumas demonstram bem o que pensam ser a finalidade de suas vidas: “Logo depois de chegarem (os prisioneiros) são não somente bem alimentados, mas ainda lhes concedem mulheres (mas não maridos às prisioneiras, não hesitando os vencedores em oferecer a própria filha ou irmã em casamento. Tratam bem o prisioneiro e satisfazem-lhe todas as necessidades. Não marcam antecipadamente o dia do sacrifício; se os reconhecem como bons caçadores e pescadores e consideram as mulheres boas para tratar das roças ou apanhar ostras conservam-nos durante certo tempo; depois de os engordarem matam-nos afinal e os devoram em obediência ao seguinte cerimonial. Todas as aldeias circunvizinhas são avisadas do dia da execução e breve começam a chegar de todos os lados homens, mulheres e meninos. Dançam então e cauínam. O próprio prisioneiro, apesar de não ignorar que a assembleia se reúne para se sacrifício dentro de poucas horas, longe de mostrar-se pesaroso enfeita-se todo de penas e salta e bebe como um dos mais alegres convivas. Depois de ter comido e cantado durante seis ou sete horas com os outros, é ele agarrado por dois ou três dos personagens mais importantes do bando e sem que oponha a menor resistência, é amarrado pela cintura com cordas de algodão ou de fibra de uma árvore a que chamam ‘imbira’, semelhante à nossa tília. Deixam-lhe os braços livres e o fazem passear assim pela aldeia, em procissão, durante alguns momentos. Não se imagina, porém, que o prisioneiro com isso se deprima. Ao contrário, com audácia e incrível segurança jacta-se das suas proezas passadas e diz aos que o mantêm amarrado:

 

– ‘Também eu, valente que sou, já amarrei e matei vossos maiores’.

Cada vez mais feroz volta-se para ambos os lados exclamando para uns e outros:

–  ‘Comi teu pai, matei e moqueei a teus irmãos; comi tantos homens e mulheres, filhos de vós outros tupinambás, a que capturei na guerra, que nem posso dizer-lhes os nomes; e ficai certos de que para vingar a minha morte os maracajás da nação a que pertenço hão de comer ainda tantos de vós quantos possam agarrar’.

 

Em seguida, após ter estado assim exposto às vistas de todos, os dois selvagens que o conservam amarrado afastam-se dele umas três braças de ambos os lados e esticam fortemente as cordas de modo a que o prisioneiro fique imobilizado. Trazem-lhe então pedras e cacos de potes, e os dois guardas, receosos de serem feridos, protegem-se com rodelas de couro de tapir e dizem-lhe:

– ‘Vinga-te, antes de morreres’.

Começa o prisioneiro a atirar projéteis com todas as usas forças contra os que ali se reúnem em torno dele, algumas vezes sem número de três a quatro mil. E é desnecessário dizer que não escolhe suas vítimas. (…) Esgotadas as provisões de pedras e cacos e de tudo que o prisioneiro pode apanhar junto de si, o guerreiro designado para dar o golpe, e enfeitado com lindas plumas, barrete e outros adornos; e armado de um enorme tacape, aproxima-se do prisioneiro e lhe dirige as seguintes palavras:

– ‘Não és tu da nação dos maracajás, que é nossa inimiga? Não tens morto e devorado aos nossos pais e amigos?’

O prisioneiro, mais altivo do que nunca, responde no seu idioma:

– ‘Sim, sou muito valente e realmente matei e comi muitos’.

Em seguida, para excitar ainda mais a indignação do inimigo, leva as mãos à cabeça e exclama:

– ‘Eu não estou a fingir, fui com efeito valente e assaltei e venci os vossos pais e os comi’.

E assim continua até que seu adversário, prestes a matá-lo, exclama:

– ‘Agora estás em nosso poder e serás morto por mim e moqueado e devorado por todos’.

Mas tão resoluta quanto Atílio Régulo ao morrer pela República Romana, a vítima ainda responde:

– ‘Meus parentes me vingarão’.

O TACAPE MORTAL

 

(…) O selvagem encarregado da execução levanta então o tacape com ambas as mãos e desfecha tal pancada na cabeça do pobre prisioneiro que ele cai redondamente morto sem sequer mover braço ou perna. (…) Em seguida, as outras mulheres, sobretudo as velhas, que são mais gulosas de carne humana e anseiam pela morte dos prisioneiros, chegam com água fervendo, esfregam e escaldam o corpo a fim de arrancar-lhe a epiderme; e o tornam tão branco como na mão dos cozinheiros os leitões que vão para o forno.

 

Logo depois o dono da vítima e alguns ajudantes abrem o corpo e o espostejam com tal rapidez que não faria melhor um carniceiro de nossa terra ao esquartejar um carneiro. E então, incrível crueldade, assim como os nossos caçadores jogam a carniça aos cães para torná-los mais ferozes, esses selvagens pegam os filhos uns após outros e lhes esfregam o corpo, os braços, e as pernas com o sangue inimigo a fim de torná-los mais valentes. (…)

 

Todas as partes do corpo, inclusive as tripas depois de bem lavadas, são colocadas no moquém, em torno do qual as mulheres, principalmente as gulosas velhas, se reúnem para recolher a gordura que escorre pelas varas dessas grandes e altas grelhas de madeira; e exortando os homens a procederem de modo que elas tenham sempre tais petiscos, lambem os dedos e dizem: ‘iguatu’, o que quer dizer ‘está muito bom.

 

(…) Quando a carne do prisioneiro, ou dos prisioneiros, pois às vezes matam dois ou três num só dia, está bem cozida, todos os que assistem ao fúnebre sacrifício se reúnem em torno dos moquéns, contemplando-os com ferozes esgares; e por maior que seja o número de convidados, nenhum dali sai sem o seu pedaço.

 

PRÓXIMA EDIÇÃO 368 – novembro de 2024 –

JEAN DE LÉRY – Parte 9

A festa canibalesca continua. Mas não comem a carne, como poderíamos pensar, por simples gulodice. (…) Move-os a vingança, salvo no que diz respeito às velhas, como já observei. Por isso, para satisfazer o seu sentimento de ódio, devoram tudo do prisioneiro, desde os dedos dos pés até o nariz e a cabeça, com exceção, porém dos miolos, em que não tocam”.

 

Artigos

Merendeiro premiado nacionalmente em Brasília é recebido pelo secretário da Educação

Evandro dos Santos foi recebido pelo secretário da Educação após vencer o Concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, promovido pelo FNDE, que reuniu 2.983 profissionais de todo o Brasil.

Publicado

em

Por

Merendeiro premiado nacionalmente é recebido pelo secretário da Educação
Foto: Silvio Turra/SEED

 

O merendeiro Evandro dos Santos, do Colégio Estadual Cívico-Militar Professor Vicente de Carli, em Francisco Beltrão, foi recebido nesta quarta-feira (24) pelo secretário de Estado da Educação, Roni Miranda, na sede da pasta, em Curitiba. O encontro reconheceu a conquista do profissional, que foi um dos vencedores da 3ª edição do Concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, promovido pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Evandro recebeu a premiação na terça-feira (23), em Brasília, durante o evento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) 2026, realizado no Centro Internacional de Convenções do Brasil. Ele participou da disputa com o prato “Yaki do Chefe”, selecionado entre as 55 receitas vencedoras da competição nacional.

O concurso reuniu 2.983 profissionais da alimentação escolar de todas as regiões do Brasil. Foram premiadas duas receitas por unidade da Federação e uma da rede federal de ensino, escolhidas por voto popular.

Para o secretário Roni Miranda, a conquista reforça a importância dos profissionais que atuam diariamente na alimentação escolar da rede estadual. Segundo ele, o reconhecimento valoriza o trabalho dos quase 7.800 merendeiros do Paraná, responsáveis pelo preparo de cerca de 1,5 milhão de refeições por dia.

“A conquista do Evandro é motivo de orgulho para o Paraná e mostra a qualidade, a dedicação e o compromisso desses profissionais, que transformam a alimentação escolar em um momento de acolhimento, cuidado e aprendizagem”, destacou o secretário.

Emocionado, Evandro afirmou que o prêmio representa muito mais do que uma realização individual. Para ele, a homenagem reconhece o esforço coletivo da equipe escolar e fortalece ainda mais sua dedicação aos estudantes.

“É uma emoção muito grande receber esse prêmio. Já sabia que estava entre os melhores do Brasil, mas viver essa homenagem, diante de tantas pessoas, foi algo difícil de descrever. Sou muito grato à equipe do colégio e a todos que estiveram comigo nessa caminhada. Esse reconhecimento me dá ainda mais força para continuar trabalhando com amor e dedicação pelos nossos alunos”, disse.

A cerimônia em Brasília contou também com a presença da responsável técnica pelo PNAE no Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional (Fundepar), Andrea Bruginski, que representou a autarquia vinculada à Seed-PR.

Considerado um dos principais encontros nacionais da alimentação escolar brasileira, o Prêmio PNAE reúne gestores, nutricionistas, merendeiras, professores, diretores, conselheiros, agricultores familiares, pesquisadores e estudantes. A iniciativa valoriza os profissionais que contribuem diariamente para a oferta de refeições saudáveis e de qualidade nas escolas públicas do país.

Continue Lendo

Artigos

ADEUS A MARIO RAMOS VILELA

Mário Ramos Vilela, o criador do Estoque Regulador, foi o pai das CEASAS. Depois foi ainda presidente do Incra.

Publicado

em

Por

 

Figura ímpar! Ser humano fantástico… seu coração era um mundo de solidariedade!
Lembro que quando Mario Vilela foi presidente da COBAL, em 1974, o ministro da Agricultura Alysson Paolinelli extinguiu vários organismos e passou todas as atribuições para o Conselho Nacional de Abastecimento (Conab).
Foi nesse ano que nasceram as CEASAS com o funcionamento das primeiras em Brasília, Fortaleza, Rio de Janeiro e, eu acho, de São Paulo. Em 1975, nasceram as Ceasas de Manaus, Campinas, Maringá. Belém, Goiânia e Maceió.
Mário Vilela e sua equipe mudaram a comercialização de hortifrutigranjeiros no Brasil, Como? A verdade é que a comercialização de hortigranjeiros era uma atividade quase marginal. Muito desorganizada.
As CEASAS ajudaram a reduzir os custos para o varejo e estimular os supermercados; também reduziu a flutuação da oferta e aperfeiçoou o mecanismo de formação de preços, elevando o nível de renda das empresas agrícolas. Importante: eliminou os sérios problemas urbanísticos com as comercializações feitas literalmente nas ruas.
Graaaaande Mário Vilela! Deixou seu legado.
FOTOS:
O ministro Alysson Paolinelli e seu amigo e diretor da Cobal, Mário Ramos Vilela.
2) Inauguração da Ceasa-DF: Presidente Geisel, governador Elmo Serejo e Alysson Paolinelli.
Continue Lendo

Artigos

OS BONS PARTEM CEDO

Comandante Dato Oliveira deixou um legado na aviação, na literatura e no trabalho socioambiental

Publicado

em

Por

 

DATO OLIVEIRA voava alto — talvez por isso tenha nos deixado tão cedo. O comandante Odailton de Oliveira, um dos grandes nomes da aviação brasileira, tornou-se meu amigo por acaso em meados de 1998, em Teresina. Um encontro inusitado que marcou minha trajetória. Sua partida foi muito rápida. Odailton de Oliveira, escritor, um exímio piloto de helicóptero foi baleado na cabeça durante um assalto na tarde do dia 19 de maio, na região do Butantã, na Zona Oeste de São Paulo. Após o disparo, o assaltante fugiu. O carro de DATO perdeu o controle e bateu em um ônibus. Odailton de Oliveira foi levado ao Hospital Universitário, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.

O ator Wagner Moura e o comandante Dato Oliveira durante gravações do filme VIPs, lançado em 2011. Para o piloto-escritor, uma das maiores aventuras  foi na região de São Raimundo Nonato, no Parque Nacional da Serra da Capivara, acompanhando o fotógrafo André Pessoa.

 

DATO havia sido contratado a dedo pelo empresário Paulo Guimarães para otimizar os seus deslocamentos entre São Luís e Teresina, bases de seus maiores empreendimentos — como a distribuidora de remédios, as concessionárias Alemanha e Canadá, o Poupa Ganha (liderado por Silvio Leite) e o Grupo Meio Norte de Comunicação. Preocupado com a segurança, o empresário queria o melhor piloto do Brasil para operar a nova aeronave do grupo.

Mesclado por “causos” e casos ocorridos durante muitos anos na aviação, além de alguns textos, poemas e frases, o comandante DATO Oliveira fala das dificuldades da formação de pilotos, sobre cinco acidentes aéreos e um sequestro, além de resgastes e histórias que viveu como piloto de helicóptero.

 

 

PRIMEIRA AVENTURA: SERRA DA CAPIVARA

Nossa primeira aventura, naturalmente, foi na região de São Raimundo Nonato, um território que eu já dominava. A ideia era sobrevoar o Parque Nacional da Serra da Capivara e registrar imagens impactantes da reserva, que dava seus primeiros passos no turismo. DATO estava entusiasmado: mesmo já tendo conhecido o mundo inteiro, aquela era uma novidade para ele.
O sucesso das publicações foi tão estrondoso que logo propus um novo destino: a selvagem Serra das Confusões, que na época estava prestes a se tornar Parque Nacional. E assim fizemos. Comigo, representando o jornal Meio Norte e o repórter Marcelo Rocha comandando as matérias da TV, realizamos voos incríveis sobre uma região que o Piauí, o Brasil e o mundo ainda precisavam descobrir.
Eram tempos de seca brava, com muita gente passando necessidades no semiárido piauiense. Ao voltarmos com as imagens para Teresina, José Osmando e Silvio Leite ficaram encantados com a beleza da região, mas muito tristes com a pobreza da população.

Serra das Confusões: As fotos de André Pessoa têm a parceria com o comandante Dato de Oliveira com seu helicóptero.

Essa realidade não era nova para mim. Todo ano, eu e a repórter Tânia Martins percorríamos, para o jornal Meio Norte, os principais municípios do sertão piauiense, documentando a seca que a cada ano se expandia e criava mais e mais vítimas. Logo, Osmando e Leite decidiram criar uma grande campanha para arrecadação de alimentos, que seriam doados para as vítimas da seca.

 

TRABALHO SOCIOAMBIENTAL

DATO não colocava empecilhos para voar e aterrissar nos lugares mais inusitados, perigosos ou improváveis. A chegada do helicóptero com os alimentos nessas áreas era uma festa, e o seu sorriso mostrava que ele estava realizado. No pouso em Guaribas, em um velho campo de terra, a poeira encobriu as dezenas de crianças que correram com medo da aeronave.
O impacto da campanha foi gigante. Foi quando sugeri usarmos o helicóptero para acessar comunidades isoladas por terra, como a região de Guaribas — que pouco tempo depois ganharia projeção nacional como berço do Programa Fome Zero, no início do governo Lula. Sob a pilotagem segura e corajosa do comandante DATO, singramos os céus para levar mantimentos às áreas mais vulneráveis do semiárido.
Para o comandante Dato, não havia tempo ruim nem pista impossível; ele pousava nos lugares mais inusitados e arriscados. Ver o helicóptero chegar com comida era um motivo de festa para o povo, e o sorriso dele refletia o sentimento de dever cumprido. Lembro-me bem do pouso em Guaribas: em um velho campo de terra, o turbilhão de poeira levantado pela aeronave cobriu dezenas de crianças, que corriam assustadas com o gigante de ferro.

 

 

SERRA DAS CONFUSÕES 

A vista aérea da Serra das Confusões teve a participação do comandante Dato Oliveira.

 

Foram anos de parceria intensa em Teresina. Voamos para o Delta do Parnaíba, cruzamos a região de Picos e Oeiras e, em Coronel José Dias, chegamos a pousar em plena BR-020 — que, na época, não passava de uma estrada de terra batida e pedreiras. A cada pouso, os moradores rompiam a rotina e corriam fascinados para perto da aeronave. Dato os recebia sempre com a mesma generosidade e atenção que lhe eram peculiares.
Estivemos juntos em São Raimundo Nonato por diversas vezes. Lá, tive a alegria de proporcionar aos amigos Barreto, Júnior e Waltercio a experiência de voar pela primeira vez ao lado daquele piloto extraordinário. Marcamos época, e DATO plantou amizades profundas por onde passou.
Hoje, no entanto, o choque me paralisou: recebi a notícia de que ele foi morto em uma tentativa de assalto em São Paulo. Ironicamente, o crime aconteceu em uma avenida colada ao apartamento da minha filha, Nina — que, nas últimas semanas, sentiu na pele essa mesma violência ao ter o celular furtado e, dias depois, suas bicicletas levadas enquanto passeava com amigos no Parque do Ibirapuera.
São Paulo perdeu o controle. Mas eu jamais poderia imaginar que um homem que sobreviveu a quatro acidentes aéreos, a um sequestro e à célebre e audaciosa façanha de passar com um helicóptero por dentro de um dos túneis da rodovia dos Imigrantes, perderia a vida dessa forma, vítima da violência urbana.
O que fica é a saudade e o orgulho gigante de termos feito história juntos no Piauí. Desbravamos cenários que hoje são o coração do turismo no interior do Nordeste, levamos esperança em forma de alimento aos que mais precisavam e, acima de tudo, dividimos sorrisos e multiplicamos alegrias entre o povo piauiense.

Continue Lendo

Reportagens

SRTV Sul, Quadra 701, Bloco A, Sala 719
Edifício Centro Empresarial Brasília
Brasília/DF
rodrigogorgulho@hotmail.com
(61) 98442-1010