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Parque Ana Lídia chega aos 55 anos como um marco para três gerações de brasilienses

Espaço abriu suas portas em 12 de outubro de 1969, antes até do Parque da Cidade; manutenção constante reforça memória afetiva, ao mesmo tempo que possibilita o uso pelos mais novos

 

Por Fernando Jordão, da Agência Brasília | Edição: Débora Cronemberger

 

Em 1969, ano em que o homem pisou na Lua pela primeira vez, um foguete aterrissou no coração do Plano Piloto. Uma pequena construção — de 10 metros de altura —, mas um gigantesco marco na história da capital federal. Nascia ali o, hoje, Parque Ana Lídia.

Um dos primeiros equipamentos públicos de lazer de Brasília, o Parque Ana Lídia completa 55 anos neste sábado (12) | Fotos: Matheus H. Souza/Agência Brasília

O espaço, que completa 55 anos, abriu suas portas em 12 de outubro, em pleno Dia das Crianças. Um dos primeiros equipamentos públicos do tipo, foi um presente aos pequenos que habitavam a nova capital — que nem sequer havia completado sua primeira década. O local é mais antigo, inclusive, que o próprio Parque da Cidade, que só viria a ser inaugurado nove anos depois, em 11 de outubro de 1978.

À época da criação, o parque recebeu o nome de Iolanda Costa e Silva, esposa do general Arthur Costa e Silva, presidente do país até agosto daquele ano — e que viria a morrer em dezembro. Depois, foi renomeado em homenagem à criança vítima de um crime brutal, até hoje não solucionado.

O Parque Ana Lídia faz parte da memória de infância do professor Agnaldo Cuoco. “É um lugar muito especial, muito a cara da gente que nasceu aqui”

Mas o nome que pegou mesmo foi o de sua principal atração. “A gente sempre chamou ele de ‘Parque do Foguetão’”, conta o professor Agnaldo Cuoco. Nascido em 1966, ele curtiu bons momentos da infância no local. Adulto, continuou voltando ao Ana Lídia para levar os filhos e, posteriormente, os netos: “Ele tem muita importância simbólica para Brasília. Eu acho que é um lugar muito especial, muito a cara da gente que nasceu aqui, que teve o privilégio de poder brincar nessa areia, subindo nesse foguetão. Esses brinquedos são quase todos os mesmos de quando eu era criança. Não mudou absolutamente nada do meu tempo de infância. Isso é muito legal”.

Os brinquedos, de fato, são os mesmos. Eles, aliás, são divididos em três áreas, sendo uma mais alusiva a conto de fadas — com carruagem de abóbora e animais gigantes —, outra remetendo ao Velho Oeste e a última futurista, onde está o foguete. Mas, para manter a ideia de que nada mudou, é preciso muito trabalho. Recentemente, foi feita a reforma dos banheiros. Brinquedos e areia também passam por manutenção constante. Além disso, houve a instalação de iluminação de LED, em 23 postes, e a troca da iluminação no corredor central, conhecido como Minhocão.

“A gente fica muito feliz em ter o Parque Ana Lídia no Parque da Cidade e saber que é uma referência na memória afetiva do brasiliense”, diz o administrador do Parque da Cidade, Todi Moreno

“A gente faz aquela pergunta sempre: ‘Quem nunca subiu no foguetinho? Quem nunca teve uma história, algum momento, a marcação de um encontro ou um fato que aconteceu exatamente naquelas areias?’. Então, a gente fica muito feliz em ter o Parque Ana Lídia hoje aqui no Parque da Cidade e saber que é uma referência na memória afetiva do brasiliense. A gente está muito contente e preparando, cada vez mais, para que fique um parque agradável, que seja um parque que possa receber todas as classes sociais, enfim, que as pessoas possam se divertir e ter boas memórias”, pontua o administrador do Parque da Cidade, Todi Moreno.

“O Parque Ana Lídia é um verdadeiro símbolo de lazer e bem-estar para as famílias brasilienses. Ele não apenas proporciona um ambiente saudável e agradável, mas também faz parte da memória afetiva de muitos adultos, que agora levam seus filhos para aproveitar esse espaço lúdico. É um lugar onde as gerações se encontram, criam laços e revivem experiências. Além disso, todos os investimentos que vêm sendo realizados no parque têm sido fundamentais para a sua valorização e melhoria contínua. Essas ações visam garantir que o local permaneça como um espaço acessível e acolhedor para todos, promovendo o convívio social entre os brasilienses”, complementa o secretário de Esporte e Lazer, Renato Junqueira.

A enfermeira Silvana Dias levou a filha Sarah para aproveitar o parque: “O foguete é um clássico. O meu pai subia com a gente, e agora o pai dela está subindo com ela”

Moreno ainda projeta serviços futuros no parque. Ele afirma que há conversas com a Secretaria de Esporte e Lazer (SEL-DF) para a reabertura da lanchonete do local. Também cita a instalação de novos brinquedos — alguns inclusivos para pessoas com deficiência —, mas sem jamais esquecer os antigos: “A gente não pode, de forma alguma, deixar de cuidar desses brinquedos, que já fazem parte da história do brasiliense”.

O respeito à história é fundamental para que o local continue chegando a mais gerações. A enfermeira Silvana Dias, por exemplo, tem o Ana Lídia em suas lembranças de infância. “Quando era pequenininha, vinha muito aqui. Meu pai sempre trouxe a gente, minha mãe, minhas irmãs, todos nós temos fotos”, relata. Agora, ela quer criar memórias com a filha, Sarah: “Hoje a gente veio com ela, com oito meses, para ela conhecer esse parque que tem história já. O foguete é um clássico. O meu pai subia com a gente, e agora o pai dela está subindo com ela”.

 

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ORGANIZADOR DO LIVRO O ASSASSINATO DE JK PELA DITADURA

“Os elementos são avassaladores”

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»Entrevista | MARCO AURÉLIO BRAGA | ORGANIZADOR DO LIVRO O ASSASSINATO DE JK PELA DITADURA

 

SILVESTRE GORGULHO
Especial para o Correio

Qual foi a força que levou à tona o que mostram JK foi assassinado na Via Dutra?
Porque o trabalho acumulou ao longo de uma década finalmente encontrou caminho institucional adequado. Hoje o caso JK está formalmente instalado perante a CEMDP, que, pela primeira vez na democracia e de verdade no Brasil, tem o poder-dever de aplicar o princípio in dubio pro victimae e declarar a morte de JK como violenta e causada pelo Estado. O mesmo tempo, a Resolução nº 50/2024 criou o mecanismo operacional para a retificação das certidões de óbito, e em janeiro de 2025, a certidão de Rubens Paiva foi retificada nesses termos. No caso JK, esse é o passo seguinte natural e juridicamente necessário.

O que o inquérito do MPF trouxe de inédito ao debate?
O MPF fez um trabalho muito relevante, pois o trabalho também muito importantes das Comissões da Verdade: ouviu pessoas, como o chefe da Polícia Política chilena, Contreras, que afirmou a atuação conjunta das ditaduras no contexto da Operação Condor; ouviu o motorista José Oliveira e outras testemunhas, confirmando que jamais ocorreu colisão do ônibus com Opala. Além disso, realizou perícias independentes, sobre a colisão e sobre os procedimentos médico-legais que demonstram, de maneira irretorquível, que a versão da ditadura foi uma farsa, com qualidade técnica sofrível.

Essas provas devem ser analisadas pela Comissão sob o regime jurídico que é da sua competência: apuração de busca da verdade e da memória nacional, e de reconhecimento da responsabilidade das vítimas.

Qual é a importância do princípio in dubio pro victimae para o desfecho do caso?
É o coração jurídico do processo. O princípio reconhece uma realidade que qualquer pessoa honesta pode admitir: é próprio para o processo de reconstrução histórica para eliminar evidências, fabricar laudos, forjar versões. Exigir, quase 50 anos depois, a mesma prova plena que se exigiria num processo penal comum é premiar exatamente essa estratégia de ocultamento. E fazer o Estado se beneficiar dos seus próprios crimes. No caso JK, os elementos são avassaladores para a atuação: por esse critério. A notícia da morte foi plantada na imprensa dias antes de ocorrer. O laudo oficial foi considerado tecnicamente inepto pelo próprio Judiciário da ditadura. Existem documentos e serviços de inteligência estrangeiros registrando planos de eliminação de JK. Há testemunhos e ameaças recebidas. Tentativas de suborno e outras alterações do motorista do ônibus foi incoerente. Tudo isso, avaliado pelo in dubio pro victimae, aponta numa única direção: a declaração pelo assassinato político.

O que a decisão da comissão significa para o Brasil?
Significa que o Estado, finalmente, assume a verdade. Não como um gesto simbólico, mas como um ato jurídico com todas as consequências que isso implica para a memória, para a reparação, para a história. Significa também que a democracia tem memória longa e suficiente para não deixar impunes as mentiras que a ditadura fabricou. E tem um significado que vai além do caso JK. Cada vez que o Estado brasileiro diz “essa morte foi política, foi causada por nós, no contexto de uma perseguição sistemática”, ele está construindo uma barreira contra a repetição. Está dizendo às gerações que vêm depois que aquilo teve nome, teve vítimas, teve responsáveis — e teve consequências. O caso JK não é sobre o passado: é sobre o futuro do país — um país que não conta mentiras e diz que suas verdades; um país em que podemos acreditar no Estado e nas autoridades; um país decente.

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TORRE DIGITAL DE BRASILIA

Uma epopeia no céu da capital em noite de lua cheia.
Trem bonito demais.
(foto: Leo Caldas)

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Projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, a Torre Digital de Brasília é um dos marcos mais contemporâneos da capital federal. Inaugurada em 2012, a estrutura se destaca pela forma futurista e pela função estratégica: centralizar a transmissão de sinais de rádio e televisão para o Distrito Federal e região.

Com aproximadamente 182 metros de altura, a torre combina tecnologia e estética. Seu design remete a uma flor do Cerrado — referência direta ao bioma predominante na região — com duas cúpulas de vidro que funcionam como mirantes. Do alto, é possível contemplar uma vista privilegiada de Brasília, evidenciando o planejamento urbano característico da cidade.

Mais do que um equipamento técnico, a Torre Digital representa a evolução da comunicação no Brasil e reafirma a vocação de Brasília como cidade símbolo de inovação arquitetônica.

No campo da literatura, o livro A Flor do Cerrado, de Silvestre Gorgulho, oferece uma leitura sensível e profunda sobre o Cerrado brasileiro. A obra reúne crônicas, reflexões e narrativas que valorizam a biodiversidade e a riqueza cultural desse bioma, frequentemente subestimado.

Silvestre Gorgulho constrói, ao longo do livro, uma homenagem à natureza resiliente do Cerrado. Suas palavras revelam a beleza escondida nas paisagens aparentemente áridas, destacando a força das flores que resistem ao clima seco e às queimadas naturais. Ao mesmo tempo, o autor chama atenção para a necessidade de preservação ambiental e para os impactos da ação humana.


Conexões entre arquitetura e literatura

A Torre Digital e A Flor do Cerrado dialogam de maneira simbólica. Enquanto a torre traduz em concreto e vidro a inspiração nas formas orgânicas do bioma, o livro transforma essa mesma essência em linguagem poética.

Ambos representam diferentes formas de enxergar o Cerrado: uma pela inovação arquitetônica, outra pela sensibilidade literária. Juntas, essas expressões reforçam a identidade cultural de Brasília e destacam a importância de valorizar o patrimônio natural brasileiro.

Assim, seja pela imponência da Torre Digital ou pela delicadeza das palavras de Silvestre Gorgulho, o Cerrado se revela não apenas como cenário, mas como protagonista da história e da cultura do país.

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BRASÍLIA NA ROTA 66

E A FALTA
DE UM PARABÉNS PRÁ VOCÊ

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Silvestre Gorgulho – Jornalista. Foi Secretário de Estado de Comunicação e Secretário de Estado da Cultura de Brasília.

 

Há 70 anos, em 18 de abril de 1956, Brasília começou a vencer a burocracia para sair do papel e entrar na fase do concreto, com a Mensagem de Anápolis.

Em 21 de abril de 1960, a capital era inaugurada com pompa e circunstância pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Lá se vão 66 anos. Nos 65 aniversários anteriores, os brasilienses assistiram a comemorações variadas: algumas simples, mas eufóricas. Outras apoteóticas. Todas sempre regadas a danças e festanças. Mas, nunca, o aniversário de Brasília foi comemorado com tanta displicência, apatia e baixo astral, como agora. A festa dos 66 anos de Brasília ficou restringida à bela edição do irmão gêmeo de Brasília, o Correio Braziliense, inclusive com a tradicional e empolgante Maratona.

Parece que Brasília está em depressão.

Lembro-me que, em 21 de abril de 2010, no Cinquentenário da Cidade, depois da capital ter passado pela crise de ter quatro governadores, a Câmara Legislativa elegeu, indiretamente, dois dias antes, um novo ocupante do Buriti. Mesmo com tantas cicatrizes, a cidade lavou a alma com uma ‘Festa dos 50 Anos’, que levou mais de um milhão de pessoas à Esplanada dos Ministérios.

Não havia nem um político no palco. A festa foi totalmente paga pela iniciativa privada com apoio logístico da Secretaria de Cultura. Deram às mãos o Sinduscon, Associação Comercial, Ademi, Asbraco e Fecomércio. Brasília cantou e dançou com Daniela Mercury – que foi âncora de um show histórico na Esplanada, onde se apresentaram com ela nada menos de 39 artistas da cidade.

À meia noite. Uma grande surpresa estava guardada a sete chaves. Apenas cinco pessoas sabiam.  Além da Daniela Mercury, eu como Secretário de Cultura e mais duas pessoas de minha equipe. E, também, o próprio gênio da MPB que iria se apresentar, cantando apenas uma canção.

Apagaram-se as luzes. Estava anunciado o início da queima de fogos. Antes, um canhão de luz focou diretamente o palco e uma voz límpida e forte, a capela, ecoou pela escuridão. Aos poucos, sob o holofote, surge Milton Nascimento.

– ” Como pode o peixe-vivo / viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”

Foi uma apoteose!

A voz de Milton Nascimento reverberou pelos quatro cantos do Brasil. Sim, a TV Globo transmitiu tudo ao vivo. Um misto de euforia e de emoção tomou conta da multidão.

Na segunda estrofe, entra Daniela Mercury que faz dueto com Milton. Aos poucos, começam a entrar cada um dos 39 artistas brasilienses que tinham se apresentado.

E a Esplanada, num coral de um milhão de vozes, sacudiu o Cerrado:

– “Como pode o peixe-vivo /viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia…”

Vi muita gente chorando. A energia de tantos candangos celebrando os 50 anos de Brasília contagiou a cidade e ajudou a levantar o astral de um tempo triste e sombrio que a cidade vivia.

Agora, nos 66 anos da Capital, faltou ao atual governo sensibilidade e criatividade para tirar Brasília de uma depressão que a cidade está mergulhada.

BRASÍLIA ANO 1 – Para não dizer que falei apenas dos 50 anos da cidade, vou lembrar a comemoração de quando Brasília fez um ano, em 21 de abril de 1961. O presidente da República era Jânio Quadros. Ele estava de costas para a cidade. Falava até em voltar a Capital para o Rio de Janeiro. O prefeito, Paulo de Tarso, assoberbado com finalizações de infraestrutura e questões administrativas, nem pensou no assunto.

Na semana anterior, o então Secretário da Cultura (na época presidente da Fundação Cultural) o poeta maior José Ribamar Ferreira ou, simplesmente, Ferreira Gullar, organizou as comemorações do primeiro aniversário. Evidente, com todas as dificuldades de uma cidade ainda na placenta da História. O que ficou da festa – além de um singelo coquetel no gabinete do prefeito Paulo de Tarso, foi a poesia que nasceu da pena de Ferreira Gullar.

A verdade é que, com seus pouco mais de 100 mil habitantes (hoje são mais 3 milhões), Brasília teve mais poesia do que festança.

Sem nenhum tipo de condução e sem nenhum apoio logístico para celebrar o Ano 1 da nova Capital, Ferreira Gullar buscou solução no Exército Nacional. Marcou audiência.

Um major o recebeu educadamente. Depois de muita conversa, o oficial se saiu com essa:

– Dr. Gullar, tudo bem, mas o problema é viatura e gasolina.

– Eu sei, mas qual a solução?

– Dr. Gullar, não tem solução!

Sem solução, sem apoio, com bastante poeira e muita inspiração, Ferreira Gullar aproveitou o vinho comemorativo no final de tarde do dia 21, na sala do prefeito Paulo de Tarso, sacou do bolso um poema em forma de embolada e discursou aos convivas:

Não adianta, seu prefeito, abrir estrada.

Não adianta Carnaval na Esplanada.

Não adianta Catedral de perna fina

Não adianta rebolado de menina

Que o problema é viatura e gasolina.

Todo mundo riu muito, mas ninguém perdeu o ritmo:

– O problema é viatura e gasolina.

Bons tempos aqueles, quando o astral era altíssimo e o problema era só viatura e gasolina.

 

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