Artigos
Brasília não tem eleições municipais, mas você sabia que a capital federal já teve prefeitos?
Entre 1960 e 1969, a cidade teve 12 prefeitos, que eram escolhidos pelo presidente da República; apenas nove anos depois de inaugurada, o líder do Executivo local passou a ser o governador
Por Adriana Izel, da Agência Brasília | Edição: Ígor Silveira
A cada quatro anos, os eleitores do Distrito Federal acompanham à distância a movimentação nos 5.569 municípios brasileiros, onde os moradores vão às urnas para eleger os prefeitos e os vereadores da próxima legislatura. O Quadradinho fica de fora das Eleições Municipais devido a própria definição: a única unidade da federação que acumula as competências de estado e município.
Indicado por Jânio Quadros, Paulo de Tarso Santos foi prefeito por seis meses, em 1961 | Fotos: Arquivo Público do DF
Apesar disso, entre os anos de 1960 e 1969, a capital contava com prefeitos em vez de governadores no comando do Executivo. Isso porque o artigo 5º da Lei nº 3.751, de 13 de abril de 1960 – que estabeleceu a organização administrativa do Distrito Federal – previa que o governo seria exercido por um prefeito e pelos vereadores da Câmara do Distrito Federal.
O mineiro Israel Pinheiro da Silva foi o primeiro prefeito do DF
“A Lei nº 3.751 estabeleceu as competências do Distrito Federal, dizendo que a cidade tinha capacidade de elaborar leis complementares à União e de definir impostos, e que isso seria feito por um prefeito e uma Câmara Legislativa. Sendo o prefeito nomeado pelo presidente da República e a câmara eleita pelo povo, que escolheria 20 vereadores”, revela a historiadora do Arquivo Público do DF Cecília Mombelli.
De acordo com a historiadora, os prefeitos foram nomeados pelo presidente da República até a mudança da Constituição Federal em 1969, quando a figura do chefe do Executivo local passou a ser atribuída a um governador. Durante os nove anos em que Brasília teve prefeitos, 12 políticos exerceram o cargo, incluindo interinos. Já os vereadores nunca chegaram a ser eleitos, tendo o próprio Congresso Nacional e depois o Senado desempenhado o cargo até a criação do cargo dos deputados distritais na década de 1990.
O carioca Plínio Reis de Catanhede Almeida foi prefeito do Distrito Federal entre maio de 1964 e março de 1967
O primeiro prefeito de Brasília foi Israel Pinheiro da Silva. Até então presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) por convite do presidente Juscelino Kubitschek, o mineiro exerceu o cargo de 17 de abril de 1960 até 31 de janeiro de 1961, governando até a posse de Jânio Quadros. Além de conduzir a construção de Brasília, foi responsável pela criação de diversos órgãos necessários à organização administrativa da Nova Capital.
Já o último ocupante do cargo foi Wadjô da Costa Gomide, que foi prefeito de 31 de março de 1967 a 30 de outubro de 1969. Goiano de Catalão, ele assumiu vários cargos dentro do Governo do Distrito Federal antes de ser nomeado chefe do Executivo local. O Palácio do Buriti foi construído na gestão de Gomide, bem como a emancipação do Guará como região administrativa.
O engenheiro civil Wadjô da Costa Gomide (à esquerda) foi o último prefeito do DF, cargo que exerceu de março de 1967 a outubro de 1969
“Em 1969, com a Emenda Constitucional nº 1, mudou-se o nome. Não era mais prefeito do Distrito Federal, passou a ser governador, mas ainda era uma indicação do presidente e essa estrutura se manteve até a década de 1980. No processo de redemocratização, o DF buscou por mais autonomia política”, recorda a historiadora.
O primeiro governador da capital foi o gaúcho Hélio Prates da Silveira. Já o primeiro governador eleito por voto popular foi Joaquim Domingos Roriz, em 1990, junto aos 24 deputados distritais. Ele já ocupava o cargo desde 1988 por indicação do presidente José Sarney.
Conheça os prefeitos do Distrito Federal
Israel Pinheiro da Silva (17/4/1960 a 31/1/1961): Mineiro de Caeté, foi o primeiro prefeito de Brasília. Foi convidado para assumir a presidência da Novacap em 1956 por Juscelino Kubistchek.
Segismundo de Araújo Mello (05/5/1960 a 5/8/1960): Nascido em Luziânia, foi o primeiro secretário de Governo do Distrito Federal, presidente da Novacap e prefeito interino de maio a agosto de 1960.
Bayard Lucas de Lima (1º/2/1961 a 6/2/1961): Nascido em Bagé, estado do Rio Grande do Sul, o médico ocupou o Governo do Distrito Federal por cinco dias em fevereiro de 1961, durante a presidência de Jânio Quadros.
Paulo de Tarso Santos (6/2/1961 a 25/8/1961): Nasceu em Araxá (MG), começou a carreira política em 1955. Parceiro de Jânio Quadros, foi indicado pelo presidente ao cargo em fevereiro de 1961. Deixou o cargo após a renúncia de Quadros.
Diogo Lordello de Mello (26/8/1961 a 13/10/1961): Baiano, o advogado foi em 1961 o secretário-geral de Administração da Prefeitura do Distrito Federal. Posteriormente, entre setembro e outubro do mesmo ano, administrou a nova capital como prefeito interino.
Ângelo Dário Rizzi (13/10/1961 a 6/11/1961): O paulista ocupou interinamente a prefeitura entre outubro e novembro de 1961 no regime parlamentarista do primeiro ministro Tancredo Neves.
José Sette Câmara Filho (6/11/1961 a 22/8/1962): Antes de ser prefeito de Brasília, o mineiro foi chefe da Casa Civil de Juscelino Kubitschek e, em 1960, chegou ao governo do Estado de Guanabara.
Ivo de Magalhães (28/8/1962 a 31/3/1964): O carioca Ivo de Magalhães substitui José Sette Câmara a convite do presidente João Goulart.
Luiz Carlos Victor Pujol (3/4/1964 a 9/4/1964): O paulista assumiu a prefeitura de Brasília por apenas três dias, antes exerceu várias funções públicas no governo federal.
Ivan de Souza Mendes (9/4/1964 a 18/5/1964): Foi o único militar a ocupar a prefeitura de Brasília. Cargo que exerceu na condição de interino de abril a maio de 1964.
Plínio Reis de Catanhede Almeida (18/5/1964 a 15/3/1967): Nomeado pelo presidente Castelo Branco, estruturou de modo definitivo a Prefeitura do Distrito Federal entre maio de 1964 e março de 1967.
Wadjô da Costa Gomide (31/3/1967 a 30/10/1969): Goiano de Catalão, foi o último ocupante do cargo na condição de prefeito.
Quando se quer enganar a história, os fatos não fecham. E quando os fatos não fecham, nascem e renascem as hipóteses, os boatos, as mentiras, os rumores e o zumzum. E este zumzum, apesar de estar na canção alegre e predileta de Juscelino Kubitschek de Oliveira — Peixe Vivo — é de tristeza e revolta. Pois bem, o chamado “acidente” que matou JK no km 165 da rodovia Dutra, em 22 de agosto de 1976, há quase 50 anos, continua não fechando. E o assunto, longe de se esgotar, acaba de ganhar um novo e decisivo capítulo. Um país que não conhece seu passado não tem condições de erguer seu futuro.
Depois da atuação de diversas Comissões da Verdade (Nacional, estaduais, municipais), na década passada, o Ministério Público Federal realizou uma ampla e profunda investigação, com inúmeros depoimentos e duas perícias técnicas independentes. A divulgação dos resultados do Ministério Público Federal se deu, em 2021 e, depois de ter reiniciado suas atividades em 2023, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) foi instalada a se pronunciar sobre os novos resultados, bem como sobre o regime jurídico de reconhecimento das vítimas da ditadura.
A Comissão, criada por lei do governo FHC, na década de 1990, pode declarar a morte de Juscelino Kubitschek como “não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política do regime ditatorial instaurado em 1964.”
A mesma declaração já consta, desde janeiro de 2025, da certidão de óbito de Rubens Paiva, o deputado do PTB que está no centro do filme brasileiro vencedor do Oscar, “Ainda estou aqui”, com base na Resolução CNJ nº 601/2024. Para entender esse momento histórico, conversei com Marco Aurélio Cezarino Braga, advogado, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo, um dos organizadores do livro O Assassinato de JK pela Ditadura: Documentos Oficiais e integrante do Grupo de Trabalho Juscelino Kubitschek desde sua fundação”.
Marco Aurélio Braga, junto com os advogados Alessandro Octaviani e Lea Vidigal, organizaram o livro O Assassinato de JK pela Ditadura. (foto: Silvestre Gorgulho)
Por que o Caso JK voltou à tona com tanta força agora, em 2026?
Marco Aurélio Braga: Porque o trabalho acumulado ao longo de uma década finalmente encontrou o caminho institucional adequado. Hoje o Caso JK está formalmente instalado perante a CEMDP, que, pelo regime jurídico da memória e da verdade no Brasil, tem o poder-dever de aplicar o princípio ‘in dubio pro victima’ e de declarar a morte de JK como violenta e causada pelo Estado brasileiro.
Ao mesmo tempo, a Resolução CNJ nº 601/2024 criou o mecanismo operacional para a retificação das certidões de óbito, e em janeiro de 2025 a certidão de Rubens Paiva já foi retificada nesses termos. No Caso JK, esse é o passo seguinte natural e juridicamente necessário.
O que o inquérito do MPF trouxe de inédito ao debate?
O MPF fez um trabalho muito relevante, após os trabalhos também muito importantes das Comissões da Verdade: ouviu pessoas, como o chefe da Polícia Política chilena, Contreras, que afirmou a atuação conjunta das ditaduras no contexto da Operação Condor; ouviu o motorista Josias Oliveira e outras testemunhas, confirmando que jamais ocorreu colisão do ônibus com o Opala. Além disso, realizou duas perícias independentes, sobre a colisão e sobre os procedimentos médico-legais que demonstram, de maneira irretorquível, que a versão da ditadura foi uma farsa, com qualidade técnica sofrível. Essas provas devem ser analisadas pela Comissão sob o regime jurídico que é de sua competência aplicar: o da busca da verdade e da memória nacional, e de reconhecimento da hipossuficiência das vítimas.
Qual é a importância do princípio ‘in dubio pro victima’ para o desfecho do caso?
É o coração jurídico do processo. O princípio reconhece uma realidade que qualquer pessoa honesta precisa admitir: o próprio aparato de repressão foi construído para eliminar evidências, fabricar laudos, forjar versões. Exigir, quase 50 anos depois, a mesma prova plena que se exigiria num processo penal comum é premiar exatamente essa estratégia de ocultamento. É fazer o Estado se beneficiar dos seus próprios crimes.
No Caso JK, os elementos são avassaladores quando avaliados por esse critério. A notícia da morte foi plantada na imprensa dias antes de ocorrer. O laudo oficial foi considerado tecnicamente inepto pelo próprio Judiciário da ditadura. Existem documentos de serviços de inteligência estrangeiros registrando planos de eliminação de JK. Há testemunhos de ameaças recebidas. Tentativas de suborno e outras aberrações. O motorista do ônibus foi inocentado. Tudo isso, avaliado pelo ‘in dubio pro victima’, aponta numa única direção: a declaração pelo assassinato político, assim como ocorreu em precedentes da própria CEMDP, como Zuzu Angel, Abílio Clemente Filho, Vladimir Herzog.
O que a decisão da CEMDP sobre a morte de JK significa para o Brasil?
Significaria que o Estado brasileiro, finalmente, assume a verdade. Não como um gesto simbólico, mas como um ato jurídico com todas as consequências que isso implica — para a memória, para a reparação, para a história. Significaria também que a democracia tem memória longa o suficiente para não deixar impunes as mentiras que a ditadura fabricou.
E tem um significado que vai além do Caso JK. Cada vez que o Estado brasileiro diz “essa morte foi violenta, foi causada por nós, no contexto de uma perseguição sistemática”, ele está construindo uma barreira contra a repetição. Está dizendo às gerações que vêm depois que aquilo teve nome, teve vítima, teve responsável — e teve consequências. É por isso que esse processo importa. Não é sobre o passado. É sobre o país que queremos ser, o que vamos ensinar para nossos filhos e netos.
O “Caso JK” não é sobre o passado: é sobre o futuro do país – um país que não conta mentiras e diz que são verdades; um país em que podemos acreditar no Estado e nas autoridades; um país decente.
Artigos
O RECORDE MUNDIAL DE MIGRAÇÃO
O rastreamento via satélite confirma façanha do maçarico-de-cauda-barrada que não parou para comer, beber ou descansar.
O maçarico-de-cauda-barrada, conhecido cientificamente como ‘limosa lapponica’, é uma ave migratória de médio porte que chama atenção pela capacidade de realizar voos intercontinentais sem pousar. Este pássaro é capaz de voar 12.000 km sem parar: uma ida e volta Brasília – Lisboa.
Pesquisadores já registraram rotas com mais de 12.000 quilômetros de distância, que ligam regiões árticas de reprodução a zonas costeiras mais quentes. Dessa forma, o pássaro cruza oceanos abertos por vários dias seguidos. Estudos mais recentes, com uso de transmissores por satélite, detalham cada vez melhor o caminho percorrido e o esforço envolvido nessa jornada.

Um jovem maçarico-de-cauda-barrada quebrou o recorde mundial de migração ao voar sem paradas do Alasca até a Austrália. Com apenas cinco meses de vida, a ave percorreu 13.560 quilômetros em 11 dias e uma hora de voo contínuo sobre o Oceano Pacífico.

Para suportar o esforço, ela dobrou seu peso com gordura e reduziu órgãos internos para ficar mais leve. Além disso, consegue descansar metade do cérebro enquanto voa e utiliza o campo magnético da Terra para se guiar.
O rastreamento via satélite confirmou que o pássaro não parou para comer, beber ou descansar durante todo o trajeto. O feito é considerado um dos maiores exemplos de resistência física e instinto de navegação na natureza.

-
Artigos3 meses agoFestival inédito de cultura coreana chega a Brasília com show internacional
-
Artigos3 meses agoDIA MUNDIAL DA ÁGUA HISTÓRICO DAS COMEMORAÇÕES
-
Reportagens2 meses agoCLDF reajusta tabelas salariais de servidores do Detran-DF
-
Reportagens2 meses agoSessão solene entrega título de Cidadão Honorário a Sebastião de Carvalho Neto
-
Artigos3 meses agoA VENDA DOS OLHOS DE QUEM
-
Reportagens4 meses agoRessaca de Carnaval e cultura gratuita movimentam o fim de semana no DF
-
Reportagens4 meses agoNovo Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) entra em vigor
-
Reportagens3 meses agoSequenciamento pioneiro no Brasil avança no controle da murcha do ciclame