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JOSÉ PASTORE CONTA A A HISTÓRIA DA EMBRAPA QUE NINGUÉM CONTOU
INÉDITO – Leia a entrevista exclusiva com o economista e sociólogo JOSÉ PASTORE, que completa 90 anos agora em 3 de maio. Pastore conta todos os detalhes de como a Embrapa foi pensada e criada. Não foi da noite para o dia. Tudo começou em 1965, oito anos antes de sua instalação em 1973. Saiba os nomes de todos os envolvidos nessa epopeia.
EMBRAPA: HISTÓRIA BRASILEIRA DE SUCESSO 3
Quando o economista, ex-ministro da Previdência e ex-deputado federal por Minas, Roberto Brant, garante que o professor José Pastore é um dos melhores e mais preparados brasileiros, além de ser “a honestidade intelectual em pessoa”, Brant não está exagerando. É a mais cristalina verdade. Quando o cientista e ex-presidente da Embrapa, Eliseu Alves, coloca José Pastore no quadro de um dos 20 mais importantes brasileiros do século, também não está exagerando. O professor José Pastore fez e faz história num tripé que sustenta qualquer sociedade: educação, tecnologia e cultura. Além das dezenas de livros publicados, José Pastore ocupa a cadeira 29 da Academia Paulista de Letras, faz parte do Conselho Consultivo da Fundação OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de S. Paulo), do Instituto Baccarelli e, entre 1990-91, foi membro do Conselho da OIT – Organização Internacional do Trabalho. Em 1989, recebeu o título de ‘Doutor Honoris Causa’ pela Universidade de Wisconsin, onde fez o seu Ph.D (1964-67). Leia essa entrevista exclusiva e veja o porquê de José Pastore, um paulistano que completa 90 anos agora em 3 de maio, foi essencial na formulação e criação da Embrapa.
JOSE PASTORE – ENTREVISTA

JOSÉ PASTORE – “Em 1965, eu tive o privilégio de conversar com o professor Theodore Schultz, Prêmio Nobel de Economia. Ele veio revisitar a Universidade de Wisconsin onde obteve o seu Ph.D, em Economia em 1930. E ele me aconselhou: – Vejo que você gosta da área trabalho e de inovações tecnológicas. Wisconsin é uma universidade muito forte em agricultura. Sugiro que você mescle o seu interesse em trabalho, capital humano com as inovações agrícolas”.
Silvestre Gorgulho – Mestre, José Pastore, de onde veio a inspiração para a criação da Embrapa?
José Pastore – Silvestre, você é o primeiro jornalista a quem conto a pré-história da Embrapa. Digo pré-história porque a preocupação com a modernização das instituições que dão base à agricultura era antiga e se intensificou em meados de 1960, na Universidade de Wisconsin, em Madison, Wisconsin, e na Universidade de Purdue, em Lafayette, Indiana. Só o Eliseu Roberto de Andrade Alves e eu conhecemos essa origem remota que se refere à gestação das ideias básicas que habitavam a nossa mente muito antes de se pensar a Embrapa.
Silvestre Gorgulho – Dois brasileiros em duas universidades diferentes e nos Estados Unidos?
José Pastore – Sim, ambos estávamos em busca de conhecimento. Em 1964, fui para os Estados Unidos para fazer o Ph. D. em sociologia na Universidade de Wisconsin (Madison) (1964-1967) com ênfase em capital humano e relações do trabalho. Existia lá uma unidade de ensino e pesquisa muito forte nessa área: “Industrial Relations Research Institute”, ligado ao departamento de Ciências Sociais. Comecei meus estudos nas disciplinas básicas em sociologia e economia e disciplinas específicas em recursos humano, economia do trabalho etc. Wisconsin era muito forte em relações do trabalho e também em agricultura.
Silvestre Gorgulho – E qual foi a centelha que provocou toda essa revolução na sua cabeça?
José Pastore – Verdade, sempre somos provocados por alguma lição. Logo no início dos meus estudos, em 1965, eu tive o privilégio de conversar com o professor Theodore Schultz (*1), Prêmio Nobel de Economia. Ele veio revisitar a Universidade de Wisconsin onde obteve o seu Ph.D em Economia em 1930, dando uma conferência focada nas suas duas especialidades: capital humano e agricultura. Eu já tinha assistido algumas palestras dele na Universidade de Chicago, onde era professor. Mas, foi em Madison que recebi dele um importante conselho, ao dizer:
– Você está interessado em assuntos do trabalho, muito bem. Lembre-se, porém, que o Brasil está sob uma ditadura. Os sindicalistas estão sendo perseguidos, negociação coletiva nem pensar. Você vai ter problema para trabalhar nesse campo quando voltar ao Brasil. Vejo que você gosta também da área de inovações tecnológicas e Wisconsin é uma universidade muito forte em agricultura. Sugiro que você mescle o seu interesse em trabalho com as inovações agrícolas.
E foi o que fiz.
Silvestre Gorgulho – E qual foi o passo seguinte?
José Pastore – Olha, fui fundo nas duas áreas. Estudei muito os institutos internacionais de pesquisa agrícola que seriam a base da revolução verde na Índia, nas Filipinas, no México e em outros países.
Quando voltei ao Brasil, no final de 1967, de fato os sindicatos estavam fechados. Trabalhar nesse campo, nem pensar. Passei a me concentrar no ensino de sociologia econômica na Faculdade de Economia da USP, onde fiz a minha carreira acadêmica até chegar a professor titular. Mas, recebi logo um convite para ajudar a ABCAR (Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural) a modernizar a extensão rural. Schultz estava certo. Aceitei o convite em combinação com a minha atividade de professor e pesquisador na USP.
Silvestre Gorgulho – Quando estudava nos Estados Unidos havia outros brasileiros com os mesmos interesses?
José Pastore – Sim! Em Madison, conheci o Renato Simplício Lopes que fazia o seu mestrado em comunicação rural, pois ele era funcionário da ACAR-MG. Além do Renato, que depois foi presidente da Emater-MG e da EMBRATER, em Brasília, foi meu colega o Fernando Rocha, professor da Escola de Agronomia de Viçosa-MG, que fazia o seu Ph. D. em sociologia rural. O Renato e o Fernando eram amigos do Eliseu Alves (*3), que também era funcionário da ACAR-MG. Ele fazia o Ph. D. em economia agrícola na Universidade de Purdue, em Lafayette, Indiana. Eu ainda não o conhecia, mas o Renato e o Fernando me diziam que o Eliseu era um gênio. O que comprovei depois. Nós três, em Madison, e Eliseu à distância pensávamos muito na necessidade de modernizar as instituições ligadas à agricultura brasileira – crédito, pesquisa agrícola e extensão rural. Era parte desse grupo, com a mesma preocupação, o Luís Fonseca, também ligado à ABCAR-MG, que fazia um mestrado em comunicação rural.
Silvestre Gorgulho – O que fez parte dessa preocupação e o que foi utilizado na criação da Embrapa?
José Pastore – Vamos lá. O Renato, o Fernando, o Eliseu e eu estudamos muito as instituições que eram responsáveis pelo avanço tecnológico na agricultura dos Estados Unidos e outros países. Liamos os mesmos livros. Devorávamos os ensinamentos de Everett Rogers, “Diffusion of Innovations” e de Charles Loomis & Allan Beegle, “Rural Sociology: the strategy of change”. Também nos debruçamos sobre vários “papers”, ainda não publicados na época, de autoria do Yujiro Hayami e Vernon W. Ruttan que estavam lançando a Teoria da Inovação Induzida. Em 1971, esses ‘papers’ foram reunidos no livro que se tornou um clássico na literatura: “Agricultural Development – An International Perspective”. Estudamos também vários trabalhos, também na forma de ‘papers’ não publicados, de Everett Rogers e Floyd Shoemaker que, em 1971, foram editados em um livro “Communicaton of Innovations”.
Silvestre Gorgulho – Mas, como isso tudo serviu para idealizar a Embrapa?
José Pastore – Como lhe disse, na volta ao Brasil, comecei uma consultoria à ABCAR no Rio de Janeiro para onde ia uma vez por semana, ficando lá um ou dois dias. A ABCAR era presidida pelo saudoso Aloisio Campelo. Ali eu ficava rascunhando ideias para a modernização das instituições que davam apoio ao sistema agropecuário, ou seja, a extensão rural, pesquisa agrícola, crédito agrícola, sistemas de seguro etc. Eu tinha feito coisa semelhante no sul da Espanha, em 1970, onde trabalhei como consultor da FAO, cujo projeto visitei no ano passado (2024) para constatar um sucesso retumbante. Fiquei feliz com isso.
“De nada adianta melhorar a extensão rural se os extensionistas não têm o que
divulgar para os agricultores”. ELISEU ALVES
Silvestre Gorgulho – Foi na ABCAR que se formou o grupo de trabalho que mais tarde veio a ser a Embrapa?
José Pastore – Isso mesmo. Foi em 1969. Na ABCAR fiquei conhecendo pessoalmente o genial Eliseu Alves que era da ACAR-MG e, também, era consultor da ABCAR. E ficamos amigos. Pela coincidência de leituras que fizemos, o nosso encontro deu química imediata. No início, a nossa atenção foi focada na extensão rural, mas, a ampla e iluminada visão do Eliseu Alves me fez pôr mais foco e atenção nas instituições de pesquisa agrícola. Ele tinha toda razão quando dizia: “De nada adianta melhorar a extensão rural se os extensionistas não têm o quê divulgar para os agricultores”. Vamos primeiro focar na pesquisa e depois na extensão. Foi o que fizemos. Veja a sequência: vários integrantes do Grupo de Trabalho que planejaram a criação da Embrapa, em 1972, propuseram a da Embrater, em fevereiro de 1975. Como você vê, a Embrapa não nasceu de um estalo. Ao contar toda essa pré-história, você vê que as ideias básicas da Embrapa foram gestadas por um bom tempo e por profissionais de várias especialidades.
Silvestre Gorgulho – Mas, como essas ideias evoluíram e com que grupo de profissionais?
José Pastore – Realmente. as discussões sobre a necessidade de alavancar as inovações agrícolas não paravam. Outros colegas foram entrando na roda. Esse foi o caso do respeitado Guilherme Leite da Silva Dias, que era meu colega na FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da USP). O Guilherme havia estudado em Chicago e fora aluno do professor Theodore Schultz. Na FEA-USP, ele e eu vivíamos a construção de um modelo de ensino e pesquisa que, mais tarde, foi uma fonte de inspiração do modelo da Embrapa. Trata-se do IPE (Instituto de Pesquisas Econômica). O IPE tinha um curso de mestrado em economia e, ao mesmo tempo, liderava um robusto programa nacional para a formação de economistas brasileiros no nível de doutorado nas melhores universidades dos Estados Unidos. O líder era o economista Miguel Colasuonno, que depois foi prefeito de São Paulo de 1973 a 1975. Ajudei muito o Miguel a buscar recursos nas fundações e bancos internacionais para garantir meios aos bolsistas brasileiros no exterior. Em poucos anos, conseguimos enviar cerca de 50 bons economistas para fazer Ph.D. Eram não apenas de São Paulo, mas também de outros estados. Enquanto isso, professores americanos vinham para lecionar no mestrado da FEA-USP e outras faculdades do Brasil.
Silvestre Gorgulho – O que isso teve a ver com a Embrapa?
José Pastore – O programa do IPE teve muito sucesso. Dezenas de economistas da Fundação Getúlio Vargas e das Faculdades de Economia do Rio Grande do Sul, Minas, Pernambuco, Ceará e outras enviaram professores para fazer o Ph. D. em economia no exterior, com o apoio do IPE. Foi minha primeira experiência prática de formar capital humano em grande escala. Na sua volta, aqueles jovens deram uma enorme alavancada no ensino e pesquisa de economia no Brasil. Formamos na FEA-USP a biblioteca mais atualizada em economia na América Latina. Isso fez muita diferença. Foi um projeto fascinante que continuou por muito tempo e, em 1973, foi transformado na atual FIPE (Fundação Instituto de Pesquisa Econômicas). Você me perguntou a relação disso com a Embrapa. Ocorre que o Guilherme e eu conversávamos muito sobre o modelo do IPE com os colegas do GT da ABCAR. Acho que os contaminamos com nosso entusiasmo.
Silvestre Gorgulho – Como o senhor conheceu o então ministro da agricultura, Cirne Lima?
José Pastore – Conheci o ministro Cirne Lima (*4) por intermédio do Aloisio Campelo, que era o presidente da ABCAR. Ao cumprimentá-lo, ele me fez uma pergunta a queima-roupa:
– Professor, sei que o senhor estudou muito os institutos de pesquisa agrícola internacionais. O que precisamos fazer para melhorar rapidamente o sistema de pesquisa agrícola do Brasil, onde os pesquisadores só estudam o café e a cana de açúcar, que são produtos exportáveis? Ninguém dá bola para o arroz, feijão, frutas, leite, soja e mandioca.
Também respondi a queima-roupa.
– Ministro, para ter um bom sistema de pesquisa é preciso ter bons pesquisadores.
– E como fazer isso rapidamente?
– Formando gente boa nas melhores universidades do mundo. É o que estamos fazendo em economia por meio do IPE.
Ele era professor de zootecnia no Rio Grande do Sul, tinha a vivência acadêmica e entendeu logo a mensagem. E pediu:
– Professor, gostaria que você fizesse uma proposta nesse sentido.
– Aceitei na hora. E com o apoio e o estímulo do Aloisio Campelo, parti para a ação.
Silvestre Gorgulho – Quem foi o primeiro contactado?
José Pastore – Sim, o primeiro foi o Eliseu Alves. Em seguida o próprio Guilherme Dias. Depois, veio o Carlos Geraldo Langoni, que também havia estudado na Universidade de Chicago e sabia muito sobre a importância do capital humano no crescimento econômico. Essa foi a semente da Embrapa. A partir dela, passamos a consultar outros colegas que conheciam bem o problema.
Silvestre Gorgulho – Onde surgiu e como foi a primeira reunião para tratar da criação da Embrapa?
José Pastore – As primeiras reuniões foram realizadas na sede da ABCAR, Rio de Janeiro. O Aloísio Campelo merece as mais altas homenagens por ter reunido o grupo de técnicos, pagos com modestíssimos honorários da ABCAR, e oferecido o projeto Embrapa ao governo brasileiro.
Silvestre Gorgulho – O senhor se lembra de quem participou da primeira reunião? Como começou e como foi o desfecho?
José Pastore – Sim, me lembro bem. Era o Eliseu Alves, Guilherme Dias, Renato Simplício Lopes, o Carlos Langoni e, na época, um ‘trainee’, também ex-Chicago e ex-aluno do Theodore Schultz, o Paulo Rabello de Castro e eu.
Aqui vale um detalhe muito importante. Na concepção do projeto Embrapa foi crucial a participação e orientação do professor Edward Schuh (*5) da Universidade de Purdue. Ele havia sido orientador do Ph.D do Eliseu Alves, em economia agrícola. Conhecia bem os problemas da economia e agricultura brasileiras, pois já havia lecionado na ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) de Piracicaba, e na Faculdade de Agronomia da Universidade Federal de Viçosa. Ele nos ajudou muito a “maquinar” o sonho de uma nova instituição de pesquisa que, mais tarde, veio a ser a Embrapa.
Silvestre Gorgulho – Foram muitas reuniões? O núcleo inicial foi acrescido de mais gente?
José Pastore – O grupo me nomeou coordenador. Dali para frente, foram muitas reuniões. Alargamos o grupo com a integração de mais agrônomos e economistas, como o professor mineiro de Araguari, Almiro Blumenschein da ESALQ, que havia feito um brilhante Ph. D. em North Carolina, nos Estados Unidos, cuja orientadora, Barbara McClintock, foi também Prêmio Nobel em 1983 (*6). Também chegou para colaborar o competente economista Affonso Celso Pastore, que, em 1969, havia defendido sua tese de doutoramento na FEA-USP sobre “Resposta da produção agrícola aos preços no Brasil” e que tinha muito a ver com a Teoria da Inovação Induzida.
Silvestre Gorgulho – Logo se definiu por uma empresa estatal federal?
José Pastore – Foi uma evolução. Quando se definiu que seria uma empresa estatal federal, entrou no time o Dr. Demoro (Paulo Teixeira Demoro), um experiente advogado que desenhou o projeto com enorme precisão. Estrou também o José Irineu Cabral, que trabalhava no IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura), ligado ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), e que foi o primeiro presidente da Embrapa. O Irineu tinha muita experiência com projetos internacionais na área de agricultura e, sobretudo, em formação de pessoal. Também colaborou bastante o Edmundo Gastal que veio a ser um dos primeiros diretores da Embrapa.
Silvestre Gorgulho – E as primeiras ações?
José Pastore – Como disse, a semente foi o modelo do IPE. Mas propusemos um projeto muito mais arrojado para formar capital humano de modo maciço, seguro, acelerado e em várias especialidades da agricultura. Nessa hora tive pouco a colaborar. Não sou agrônomo. As sugestões, vindas de vários especialistas em agricultura, foram consolidadas pelo Almiro e Eliseu. O grupo sugeriu, de cara, o treinamento de 1.000 pesquisadores brasileiros nas melhores universidades do mundo e, enquanto isso, a contratação de dezenas de pesquisadores estrangeiros para vir ao Brasil. Hoje, fico feliz ao saber que a Embrapa, mandou mais de 2,5 mil pesquisadores para fazer mestrado e doutorado no exterior que voltaram a transformaram a agricultura brasileira.
Silvestre Gorgulho – Quem vendeu a ideia ao ministro Cirne Lima, da Agricultura?
José Pastore – Cono lhe disse, conheci o ministro Cirne Lima através do Aloisio Campelo, que era o presidente da ABCAR. Não esqueço e volto a salientar, como ele me provocou no primeiro encontro:
– Professor, qual a saída? Os pesquisadores só pesquisam para escrever ‘papers’ para revistas científicas sobre produtos de exportação, o café e a cana de açúcar. E os produtos da cesta básica?
Mas depois do primeiro encontro, tive pessoalmente muitas conversas com o ministro Cirne Lima. Até hoje somos amigos, como também ocorre com o Eliseu. O Cirne Lima costumava vir a São Paulo para eventos na Secretaria de Agricultura, Instituto Agronômico de Campinas e CEASA, hoje CEAGESP. Os papos eram feitos em minha casa, até altas horas. Ele perguntava muito sobre os Institutos Internacionais de Pesquisa e ficou fascinado com a ‘Teoria da Inovação Induzida’ lançada por Hayami e Ruttan. Passei vários textos para ele ler. Fui à Brasília muitas vezes, a pedido dele, onde os papos eram realizados na sua casa. Nas conversas, eu sentia que ele havia lido e assimilado aqueles textos. Numa palavra, com a competência de um excelente professor e a visão de um verdadeiro estadista, Cirne Lima comprou a ideia e tocou o projeto em frente.
Silvestre Gorgulho – Como se conseguiu um apoio incondicional do presidente Médici? Este apoio surpreendeu o senhor e o grupo que discutiu a criação da Embrapa?
José Pastore – O projeto foi entregue ao ministro Cirne Lima em 1972. Ao receber o projeto com a proposta de treinar mais de 1.000 brasileiros no exterior ele não se assustou e disse que iria defender o projeto junto ao presidente Médici. O que foi feito. Teve apoio imediato. Ele relatou que o próprio presidente raciocinou assim: de fato, o que falta para nós é conhecimento, pois, o Brasil tem tudo para ser uma potência agrícola com terra abundante, bom clima e muita água.
No meu primeiro encontro com o ministro Cirne Lima, ele me provocou a queima roupa:
– Professor, sei que o senhor estudou muito… O que precisamos fazer para melhorar rapidamente o sistema de pesquisa agrícola do Brasil, onde só estuda café e cana de açúcar? Ninguém dá bola para arroz e feijão!
Silvestre Gorgulho – Ao saberem da aprovação do presidente Médici, isso contagiou o grupo…
José Pastore – E como contagiou! Ficamos muito felizes com a notícia, é claro. Dali para frente nossa tarefa foi a de ajudar a conseguir o dinheiro para treinar tanta gente. Os cursos de mestrado e doutorado no exterior eram muito caros. Os brasileiros precisavam de bolsas de estudo.
Passamos a contactar as instituições norte-americanas que conhecíamos e que tinham apoiado os nossos estudos nos Estados Unidos, como a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller, os bancos internacionais e, sobretudo a USAID. Aliás, a ajuda da USAID foi preciosíssima. Eu já conhecia bem o seu Diretor no Brasil, William Ellis. Até hoje meu amigo. Ellis já havia apoiado o IPE e outros projetos nos quais trabalhei em São Paulo. Fomos parceiros em inúmeros projetos inovadores. Ele tinha muita confiança em mim. O Bill foi crucial na viabilização das primeiras matrículas no exterior, sempre caríssimas, bolsas de estudo para os brasileiros e a vinda de pesquisadores americanos para o Brasil. Mas, sempre manteve o seu estilo quieto e de ‘low profile’. Uma única vez ele se sentou numa mesa de evento da Embrapa – com foto registrada no livro dos 50 anos da Embrapa. Vale a pena conversar com ele hoje. Está com 95 anos – incrivelmente lúcido. Lembra mais fatos do que eu sobre as nossas parcerias de inovação em São Paulo e no Brasil. Bom salientar que na busca de recursos e apoio internacional, o Irineu Cabral teve um papel preponderante. Como ex-diretor do IICA, era muito respeitado e conhecia muita gente nos Estados Unidos.

Trinca de ouro na criação da Embrapa: José Pastore, Eliseu Alves e o ex-ministro Cirne Lima. Lembra José Pastore: “O Eliseu se fazia respeitar junto aos políticos. O Delfim apoiava integralmente o critério do mérito. Na minha opinião, essa chama de racionalidade e retidão de conduta do Eliseu, foi a força-motriz do sucesso da Embrapa e, por consequência, da modernização da agricultura brasileira. O Brasil e todos nós brasileiros devemos muito ao Eliseu”.
Silvestre Gorgulho – Depois de 51 anos atuando, vencendo barreiras e entregando à sociedade brasileira vitórias, inovações e resultados surpreendentes, qual foi o segredo dessa longevidade, num País onde o sucesso institucional é quase sempre comprometido por uma politicagem populista de vários interesses?
José Pastore – Quem pode responder melhor essa questão é o Eliseu que tocou a Embrapa desde o início. Eu nunca participei da administração. Fui apenas membro do Conselho e só no início (1973-74). Mas, sei que o Eliseu teve sucesso aplicando uma regra de ouro: “na pesquisa agrícola não se admite indicações políticas. Só entra quem tem mérito comprovado”. É uma regra simples, mas crucial para o sucesso de qualquer entidade de pesquisa. O Eliseu se fazia respeitar junto aos políticos. O Delfim o apoiava integralmente na defesa do critério do mérito. Na minha opinião, essa chama de racionalidade e retidão de conduta do Eliseu, foi a força-motriz do sucesso da Embrapa e, por consequência, da modernização da agricultura brasileira. O Brasil e todos nós brasileiros devemos muito a ele.
Silvestre Gorgulho – Por que, antes da Embrapa, havia tantas limitações para a agricultura brasileira e para o desenvolvimento da agricultura tropical?
José Pastore – Faltava conhecimentos para explorar muitas áreas importantes. A maioria dos pesquisadores, pesquisava para publicar seus ‘papers’ em revistas importantes. Mas, negligenciavam as verdadeiras necessidades do Brasil na área da alimentação e exploração de novas alternativas de cultivo. Com pessoal altamente qualificado e criativo, a Embrapa foi explorando, pesquisando e descobrindo essas alternativas. Agricultura não é como uma máquina que você importa, contrata um grupo de engenheiros e faz outra igual. Ou paga ‘royalty’ e monta outra aqui. Agricultura exige estudar, pesquisar, desenvolver técnicas, criar variedades de semente, corrigir solo, fixar nitrogênio, fazer controle biológico de pragas. Não sou agrônomo, mas, fiquei fascinado logo com os primeiros resultados das pesquisas da Embrapa no Cerrado. Não adiantava trazer semente de soja ou milho do clima temperado para plantar aqui. O solo e as condições do clima tropical são diferentes. Muito diferentes do clima temperado. Então, o Brasil tinha essa imensidão de área, mas pouco conhecimento, apesar de esforços isolados da ESALQ, Faculdade de Viçosa, ESAL de Lavras e do Instituto Agronômico de Campinas. As pesquisas da Embrapa descobriram um modo de explorar o Cerrado e aí está o resultado com soja, milho, algodão, hortaliças e até trigo!
Silvestre Gorgulho – O decreto de criação da Embrapa é de dezembro de 1972. Cinco meses depois, em maio de 1973, Cirne Lima se desentendeu com o ministro da Fazenda, Delfim Netto, e deixou o Ministério da Agricultura. Qual foi a reação do grupo. Vocês temeram por uma reviravolta?
José Pastore – Olha ficamos muito preocupados, pois tudo ia tão bem. Mas o decreto estava assinado. (Obs. Em 7/12/1972, o presidente Médici, sancionou a Lei nº 5.851, que autorizava o Poder Executivo a instituir empresa pública, sob a denominação de Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura. O artigo 7º estabelecia um prazo de 60 dias para a expedição dos estatutos e determinava que o decreto fixasse a data de instalação da empresa. O Decreto nº 72.020, de 28/3/1973, aprovou os estatutos da Empresa).
Silvestre Gorgulho – O movimento continuou, apesar da saída do Cirne Lima do Ministério…
José Pastore – Sim, o movimento continuou. Mas a verdade é que a ideia já tinha vingado, pois, àquela altura, tínhamos o apoio do presidente Médici e de dois ministros fortes do governo: o da Fazenda, Delfim Netto, e o do Planejamento, Reis Veloso. Delfim e Veloso tinham muita sensibilidade. Eles vinham de uma cepa acadêmica e valorizavam a formação de capital humano. O Delfim foi decisivo. Deu a mais alta prioridade na liberação de recursos para a Embrapa. O Eliseu formou uma dupla poderosa com o Delfim. E, em maio de 1974, no governo Geisel, chegou no Ministério da Agricultura, o professor Alysson Paolinelli (*7). Tudo desanuviou. Ele também era de cepa acadêmica, tinha sido diretor da ESAL, em Lavras, e Secretário da Agricultura do governo Rondon Pacheco, em Minas. Além do mais, era muito amigo do Eliseu Alves, do Renato Simplício e do Irineu. O Paolinelli deu a força e o incentivo pessoal, profissional e institucional que faltava. O resultado está aí para se comprovar. A Embrapa é um exemplo de política pública que deu certo.
É inquestionável: para se criar e consolidar
uma boa instituição de pesquisa, em qualquer campo,
impõe-se investir pesado e corretamente
em bons talentos e manter o critério de mérito.
De posse do conhecimento, eles fazem o resto…
revolucionam o mundo.

O professor e sociólogo JOSÉ PASTORE toca seus estudos sobre capital humano com o mesmo entusiasmo com que toca seu instrumento preferido: o violino. Especializado nas áreas da Educação, Trabalho e Recursos Humanos, Pastore sempre é acionado por autoridades e entidades de classe para consultas e conselhos. Nas fotos, José Pastore está com os ex-presidentes João Figueiredo, FHC, Lula, Dilma Rousseff e, ainda, com o ex-ministros Jarbas Passarinho e José de Alencar. José Pastore também recebe do ex-presidente da CNI, Armando Monteiro, e de Dilma Rousseff a Comenda-Homenagem pelos 70 anos da Confederação Nacional da Indústria. Pastore já recebeu inúmeras medalhas, entre elas “Ordem do Mérito da Justiça do Trabalho” e “Ordem do Rio Branco”.
Silvestre Gorgulho – Além da Embrapa e da Embraer existe alguma outra estatal que tenha trazido tantos benefícios ao Brasil?
José Pastore – Uma boa indagação. Boa lembrança. O caso da Embraer é idêntico. Nos idos dos anos de 1950, o Marechal-do-Ar Casimiro Montenegro Filho depois de visitar muitos centros de formação nos Estados Unidos, propôs a criação do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). No final dos anos de 1960, o engenheiro aeronáutico, Ozires Silva trilhou o mesmo caminho para criar a empresa pública Embraer (1969). Ou seja, para viabilizar a empresa-infante, trouxe os melhores técnicos internacionais para lecionarem e trabalharem no ITA e na própria Embraer. E, simultaneamente, promoveu a ida de milhares de engenheiros brasileiros para as melhores universidades e centros de pesquisa do mundo. Foi o mesmo modelo. É inquestionável: para se criar e consolidar uma boa instituição de pesquisa, em qualquer campo, impõe-se investir pesado e corretamente em bons talentos e manter o critério de mérito. De posse do conhecimento, eles fazem o resto… revolucionam o mundo.
SAIBA MAIS:
- No site < www.josepastore.com.br > estão hospedados cerca de 400 trabalhos. O material pode ser livremente utilizado pelos interessados.
- Leia a seguir detalhes sobre sete nomes que participaram e são referências na construção e instalação do projeto da Embrapa: (*1) THEODORE SCHULTZ – (*2) ALOÍSIO MONTEIRO CARNEIRO – (*3) ELISEU ALVES – (*4) MINISTRO CIRNE LIMA – (*5) G. EDWARD SCHUH – (*6) BARBARA MCCLINTOCK – (*7) ALYSSON PAOLINELLI.
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UnB tem finalistas no Prêmio Jabuti Acadêmico 2026
Obras dos docentes Edileuza Penha, Gabriele Cornelli e Elimar Pinheiro concorrem nas áreas de Artes; Tradução; e Ciências Agrárias e Ciências Ambientais. Premiação ocorre em 11 de agosto, em São Paulo
- Da Secretaria de Comunicação da UnB
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UnB marca presença entre os finalistas na tradicional premiação brasileira com coletâneas e obra traduzida. Arte: Secom UnB Alegria, reconhecimento coletivo e satisfação por ver trajetórias acadêmicas alcançarem projeção nacional são algumas das sensações que aproximam os três docentes da Universidade de Brasília finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026.
As três publicações que representam a instituição na lista final de uma das principais premiações do país contemplam conhecimentos de áreas distintas. Indicada na categoria Artes, a coletânea organizada pela professora Edileuza Penha de Souza e por Ceiça Ferreira, doutora em Comunicação pela UnB, aborda o cinema negro realizado por mulheres.
Já a interpretação contemporânea de um diálogo de Platão, feita por Gabriele Cornelli, concorre na área de Tradução. O protagonismo dos jovens diante das mudanças climáticas é o eixo central do livro organizado por Elimar Pinheiro do Nascimento e Alfredo Pena-Vega, finalista no grupo das Ciências Agrárias e Ciências Ambientais.
Os autores concordam que, para além de seus trabalhos individuais, as indicações valorizam os temas, as equipes e os espaços de pesquisa que permeiam a produção das obras.
“É uma maravilha que a gente tenha, numa única universidade no Centro-Oeste, três docentes finalistas dessa edição do Prêmio Jabuti“, comemora Edileuza Penha, professora vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (PPGDH/Ceam/UnB).
O Prêmio Jabuti Acadêmico, criado em 2024, reconhece e valoriza livros científicos, técnicos e profissionais publicados no Brasil. A edição de 2026 recebeu mais de 2 mil inscrições em categorias que estão distribuídas nos eixos Ciência e Cultura ou Prêmios Especiais. Os autores vencedores receberão uma estatueta do Jabuti Acadêmico, além da premiação de R$ 5 mil. As editoras responsáveis pelas obras também serão contempladas com o troféu.
Os vencedores serão conhecidos em 11 de agosto, durante cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. O evento será transmitido ao vivo pelo canal da Câmara Brasileira do Livro no YouTube.
>> Conheça todos os finalistas da 3ª edição do Prêmio Jabuti Acadêmico

“Os nossos filmes, na maioria das vezes, não vinham sendo curados, não vinham sendo sequer falados”, afirma Edileuza Penha, coautora da obra Cinema negro no feminino: afetos e pertencimentos além das telas. Foto: Arquivo pessoal MULHERES PROTAGONISTAS – Organizada por Edileuza Penha e Ceiça Ferreira, a coletânea Cinema negro no feminino: afetos e pertencimentos além das telas reúne pessoas negras, em sua maioria, para destacar narrativas e intersecções entre gênero, raça e os processos do “fazer cinema”.
Para Penha, a obra incorpora aos campos da comunicação, do audiovisual e das artes as experiências de mulheres negras em espaços historicamente marcados pela predominância masculina e branca. “A principal contribuição é dar visibilidade a um cinema que, durante muito tempo, foi marginalizado”, sintetiza.
Organizado em quatro eixos, o livro inclui discussões sobre a pesquisa e a construção do cinema negro como campo de estudos e sobre as dimensões estética e política dessas produções. Resgata ainda a memória de pioneiras como Adélia Sampaio e Antônia Ágape, aprofundando questões relacionadas à visibilidade das mulheres negras na história do cinema, bem como traz artigos sobre crítica, curadoria e exibição.
“Os nossos filmes, na maioria das vezes, não vinham sendo curados, não vinham sendo sequer falados”, observa a pesquisadora, que também dirigiu curtas-metragens premiados, entre eles Filhas de Lavadeiras (2019) e Vão das Almas (2023).
Penha conta que, durante o percurso para a publicação do livro, a proposta recebeu respostas negativas de quatro editoras. Tornou-se possível depois que o trabalho foi contemplado pela iniciativa Rouanet nas Favelas. A obra foi publicada pela editora Nau e já é adotada em cursos de mestrado e doutorado em cinema, a exemplo da Universidade Federal Fluminense.
A indicação ao Jabuti Acadêmico chega em um momento especial para as autoras, pois evidencia “o reconhecimento de um trabalho silencioso e de formiguinha”. “Estamos muito felizes, estou explodindo de alegria. A indicação é uma grande vitória”, celebra Edileuza Penha.
A docente da UnB ainda defende a inserção de uma disciplina voltada às relações raciais nos currículos das licenciaturas, uma formação que contribuiria para preparar futuros docentes de diferentes áreas e pertencimentos raciais para compreender a diversidade da sociedade brasileira, com ênfase na educação para as relações étnico-raciais.
OBRA CLÁSSICA – O professor do Departamento de Filosofia Gabriele Cornelli é finalista com uma nova tradução de Fédon, de Platão. O livro traz o último dia de Sócrates, condenado a beber veneno, com abordagens sobre conhecimento, vida filosófica, morte, alma e justiça.

Tradução de Fédon é resultado da tese defendida por Gabriele Cornelli, em 2024, para promoção a professor titular na UnB. Foto: Arquivo pessoal “‘Acreditamos que a morte seja algo?‘ Essa é a pergunta com que Sócrates inicia sua discussão com os amigos, em seu último dia”, explica Cornelli. O personagem procura demonstrar que a morte não seria o fim do ser humano nem algo que um filósofo deveria temer. Platão também apresenta Sócrates encontrando familiares e amigos, preparando o corpo para a morte, rindo, realizando gestos de carinho, permanecendo em silêncio e, finalmente, tomando o veneno.
“No Fédon, a morte não é somente discutida. Ela é também, e sobretudo, representada”, afirma o tradutor. “O corpo de Sócrates que morre embaralha o discurso filosófico. A lógica dos argumentos esmaece, por vezes, na frente do desejo de persuadir e consolar os amigos.”
O pesquisador conta que, ao realizar a tradução, procurou recuperar o caráter público e cotidiano da filosofia de Platão. Para ele, o filósofo grego desenvolveu o pensamento filosófico por meio do diálogo e do debate sobre questões como felicidade, justiça e linguagem.
De acordo com Cornelli, Platão não procurou criar uma linguagem técnica separada da vida cotidiana. Por isso, uma tradução excessivamente formal poderia passar a impressão de que o filósofo não fala a língua das gerações atuais ou de que a filosofia não pode ser plenamente expressa em português brasileiro.
Assim, o docente destaca que trabalhou com recursos próprios da nossa língua ao traduzir o clássico. Um exemplo está na passagem em que Sócrates procura consolar Fédon, sentado em um banco abaixo dele. O verbo utilizado no texto grego significa apertar ou pressionar para descrever um movimento realizado nos cabelos do jovem.
“Os tradutores de outros idiomas sofreram muito para traduzir esse estranho movimento de uma pressão nos cabelos. Mas o português brasileiro me regalou imediatamente: Sócrates, para consolar Fédon, ‘fez cafuné’ nele”, relata.
A edição foi publicada pela Companhia das Letras, na coleção Clássicos Penguin. Além do trabalho com a língua, Cornelli propõe uma leitura crítica da apropriação histórica do platonismo por discursos coloniais e por concepções de superioridade da cultura europeia.
Segundo ele, ideias associadas a Platão foram utilizadas ao longo da modernidade para justificar hierarquias, processos de colonização e projetos de supremacia racial ou cultural. A tradução e os comentários procuram retornar ao texto para separar a obra dessas interpretações posteriores.
O livro é resultado da tese defendida pelo tradutor, em 2024, para sua promoção a professor titular da UnB, coroando seus 20 anos de trabalho na Universidade. A trajetória inclui as atividades desenvolvidas na Cátedra Unesco Archai sobre as Origens Plurais do Pensamento Ocidental, coordenada por ele desde 2011.

“O futuro está nas mãos dos e das jovens”, defende Elimar Pinheiro sobre a necessidade de ação e protagonismo da juventude para mudar a trajetória das mudanças climáticas no mundo. Foto: Arquivo pessoal JOVENS E CLIMA – Concorrendo na área de Ciências Agrárias e Ciências Ambientais, o livro Juventude e Clima: Vozes e Futuro foi coordenado por Alfredo Pena-Vega e pelo professor Elimar Pinheiro do Nascimento, do Programa de Pós-Graduação do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS/UnB). A obra teve colaboração de 20 autores entre cientistas e jovens de Brasil, França, Áustria, Chile e Colômbia.
A motivação central é mostrar como os jovens reagem às mudanças climáticas, em especial aos eventos climáticos extremos. A obra reúne reflexões científicas, experiências de diálogo entre pesquisadores e jovens e propostas de atuação em diferentes territórios.
Para Pinheiro, o enfrentamento das mudanças climáticas exige estudos que permitam compreender com precisão as causas e os desdobramentos do fenômeno. Entretanto, segundo o pesquisador, a produção de conhecimento precisa ser acompanhada de decisões e ações capazes de alterar a trajetória das mudanças provocadas pelas atividades humanas. “Conhecer não é suficiente. É preciso, com base nos achados científicos, agir.”
Nesse sentido, a contribuição do livro é mostrar que os jovens não devem ocupar apenas o lugar de pessoas afetadas pelas mudanças climáticas, mas podem participar da construção de respostas científicas, políticas e sociais para o problema. O programa internacional Global Youth Climate Pact (GYCP), cuja experiência é tratada na obra, demonstra como os participantes se apropriam dos conhecimentos científicos, tomam iniciativas, mobilizam a criatividade e agem diante dos efeitos das mudanças climáticas.
A publicação é dividida em quatro partes, apresentando análises das mudanças climáticas de maneira simples e acessível. Os capítulos abrangem desde a educação ambiental até as transformações na concepção de desenvolvimento sustentável; analisam como os jovens brasileiros compreendem as mudanças climáticas, suas causas e os impactos; e trazem depoimentos de jovens que participaram do GYCP.
A obra também reuniu propostas para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima formuladas por especialistas e integrantes de povos originários.
A indicação ao Jabuti foi recebida por Elimar Pinheiro como um reconhecimento que ultrapassa a trajetória dos autores e coordenadores. “Foi não apenas uma alegria pessoal e profissional, mas também uma alegria cidadã: o reconhecimento da importância do protagonismo dos jovens na luta do clima”. O docente reitera: “O futuro está nas mãos dos e das jovens.”
ATENÇÃO – As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos. Crédito para textos: nome do repórter/Secom UnB ou Secom UnB. Crédito para fotos: nome do fotógrafo/Secom UnB.
Artigos
Eleições 2026: conheça as regras e faça do seu voto um instrumento de transformação
Entenda o calendário eleitoral, as principais normas do pleito e a importância de buscar informação de qualidade para exercer um voto consciente e fortalecer a democracia brasileira.
Antes de escolher um candidato, o eleitor escolhe o futuro do país. Em 2026, milhões de brasileiros voltarão às urnas para eleger presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Mais do que um direito, o voto é um dos principais instrumentos da democracia e uma oportunidade de influenciar os rumos do Brasil pelos próximos anos.
As eleições deste ano seguem regras definidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que buscam garantir transparência, igualdade entre os candidatos e segurança no processo de votação. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro, enquanto o segundo turno, caso necessário para presidente e governadores, ocorrerá em 25 de outubro. A campanha eleitoral oficial começa em 16 de agosto, quando passam a ser permitidas as propagandas e os atos de campanha previstos na legislação.
Além do calendário, algumas normas ganharam destaque em 2026. O TSE atualizou regras relacionadas ao uso da inteligência artificial nas campanhas, reforçou medidas de combate à desinformação, aprimorou procedimentos de auditoria das urnas eletrônicas e promoveu ajustes na regulamentação do Fundo Eleitoral. O objetivo é aumentar a transparência, proteger a integridade do processo eleitoral e oferecer mais segurança aos eleitores.
Mas conhecer as regras é apenas parte da responsabilidade do eleitor. O voto consciente começa muito antes do dia da eleição. É importante pesquisar a trajetória dos candidatos, avaliar suas propostas, verificar seu histórico de atuação e confirmar se as informações compartilhadas nas redes sociais são verdadeiras. Em um cenário marcado pelo grande volume de conteúdos digitais, desconfiar de mensagens sem fonte confiável e consultar os canais oficiais da Justiça Eleitoral faz toda a diferença.
Também vale lembrar que votos brancos e nulos não são direcionados a nenhum candidato e não alteram o cálculo dos votos válidos utilizados para definir os eleitos. Por isso, participar de forma consciente significa escolher um candidato de acordo com suas convicções e acompanhar, depois da eleição, o trabalho dos representantes escolhidos.
A democracia não se fortalece apenas no dia da votação. Ela depende da participação permanente da sociedade, do respeito às instituições e do compromisso de cada cidadão com a informação de qualidade. Informar-se, comparar propostas e votar com responsabilidade são atitudes que ajudam a construir um país mais justo, transparente e representativo.
Para conferir o calendário completo, as regras atualizadas e outras informações oficiais sobre as Eleições 2026, consulte a página oficial das Eleições 2026 do TSE e o Calendário Eleitoral.

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