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SETE NOMES PARA CONHECER E ADMIRAR

Dos muitos professores brasileiros e estrangeiros que influenciaram ou participaram da discussão e da implantação da Embrapa, pelo menos sete nomes (além, é lógico, do professor José Pastore – ler sua entrevista) saltam à vista com um efetivo, contínuo e sólido trabalho. Dos oito, apenas três estão vivos e atuantes: ex-ministro Cirne Lima, José Pastore e Eliseu Alves. Os outros cinco são: Theodore Schultz – Aloísio Monteiro Campelo – G. Edward Schuh – Barbara McClintock – Alysson Paolinelli.

 

EMBRAPA: HISTÓRIA BRASILEIRA DE SUCESSO 4

(*1) THEODORE SCHULTZ – (1902-1998)

Theodore Schultz: “O investimento em capital humano é responsável pela prosperidade e pela maior parte do aumento nos ganhos reais por trabalhador”.

 

THEODORE SCHULTZ recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1979 por seu trabalho sobre desenvolvimento econômico, focado na economia agrícola. Ele fez o seu doutorado em economia na University of Wisconsin–Madison, tendo completado em 1930. Ele dedicou sua vida à análise do papel da agricultura na economia e seu trabalho teve profundas repercussões nas políticas públicas de vários países. Após a Grande Guerra, Schultz pesquisou a rápida recuperação da Alemanha e do Japão, comparando a situação desses países à do Reino Unidos, onde houve racionamento de alimentos por muito tempo. Concluiu que a velocidade de recuperação se devia a uma população saudável e altamente educada. Segundo ele, a educação torna as pessoas produtivas e a boa atenção à saúde aumenta o retorno do investimento em educação. Foi o pai das teorias de capital humano.

 

 

(*2) ALOÍSIO CAMPELO (1927-1999)

 

ALOÍSIO MONTEIRO CARNEIRO CAMPELO foi Secretário do Ministro da Agricultura em 1946. Chefe do Departamento Administrativo da ABCAR no período de 1958 a 1966, nesse mesmo ano foi nomeado secretário executivo da ABCAR onde permaneceu até 1973. O prestígio da ABCAR e do secretário Aloísio Campelo era muito grande junto ao ministro Cirne Lima. O sistema ABCAR eram os olhos e os braços do governo, numa expressão do próprio ministro da Fazenda     Delfim Netto. Aloísio Campelo ocupava um cargo importante no ministério. Entretanto, um dos opositores pessoais de Campelo era seu conterrâneo, o pernambucano Moura Cavalcante, na época, presidente do INCRA. Nesse momento histórico, ocorre um desentendimento entre o ministro Cirne Lima e Delfim Netto. O ministro Cirne Lima pede demissão, e o presidente Médici nomeia, em seu lugar, justamente Moura Cavalcanti, que promoveu a exoneração de Aloísio Campelo do cargo de secretário executivo da ABCAR. Depois, Aloisio Campelo foi nomeado presidente da Suframa (2/01/1975 a 15/03/1979).

 

(*3) ELISEU ALVES

Eliseu Alves recebe a comenda Ordem do Sol Nascente, dada pelo Imperador do Japão, entregue pessoalmente pelo embaixador Teiji Hayashi.  A parceria entre a Embrapa e a JICA [Agência de Cooperação Internacional do Japão] resultou na produção de alimentos no Cerrado brasileiro e viabilizou o acesso de produtos agropecuários em quantidade qualidade à população do Brasil e do Japão.

(*3) ELISEU ROBERTO DE ANDRADE ALVES é daqueles brasileiros que tem uma obra muito mais conhecida do que a si próprio. A sua modéstia, simplicidade e pureza de propósitos são contagiantes. O seu papel na consolidação da Embrapa foi crucial, por ter participado de sua criação, ter sido diretor de Recursos Humanos e, presidente da empresa entre 1980-1985. Eliseu Alves foi o único que trabalhou no projeto, na criação e na implantação da Embrapa. É o pioneiro do antes, do durante e do depois. Até os dias atuais. Nenhum outro nome esteve tão envolvido com a Embrapa como ele. Na década de 1970, como diretor de Recursos Humanos, Eliseu enviou para as melhores universidades do mundo cerca de 2.500 jovens agrônomos, economistas rurais e veterinários brasileiros, trazendo-os de volta com títulos de Mestrado e Ph.D. Este foi o segredo de sucesso da Embrapa.

Em 1985, Eliseu recebeu o título de Doutor Honoris Causa conferido pela Universidade de Purdue, onde fizera o doutorado. Em maio de 2017, a Universidade de Viçosa lhe conferiu o mesmo título. 

Em 1987, a Associação das Universidades Públicas Americanas, que reúne 238 instituições, 5,7 milhões de estudantes (graduação e pós-graduação), 1,2 milhões de empregados e investe cerca de 40 bilhões de dólares em pesquisas, reconheceu Eliseu Alves como um dos mais destacados estudantes estrangeiros que já passaram por suas salas de aula. Até então, apenas cinco outros brasileiros haviam merecido tal honraria, entre eles o sociólogo José Pastore.

O jornalista Sebastião Nery deixou registrado em livro que “Eliseu Alves foi um dos responsáveis pela Revolução Verde Tropical, pelas tecnologias agropecuárias desenvolvidas para a região tropical e fez do AGRO brasileiro uma ‘siderúrgica’ para matar a fome do mundo. Eliseu passou a vida formando técnicos e tendo disponibilidade de recursos públicos para gerir e aplicar na formação de capital humano. Tanto na Embrapa como na Codevasf.

Hoje, aos 94 anos, Eliseu Alves se afastou da vida pública de forma honrada. Como os profetas, Eliseu Alves entrou e saiu da cidade do poder de mãos limpas”.

 

 

(*4) MINISTRO CIRNE LIMA

Para professor Cirne Lima, ex-ministro da Agricultura “investir na educação de jovens é investir na transformação da sociedade”.

 

(*4) MINISTRO LUIZ FERNANDO CIRNE LIMA (Porto Alegre, 01/janeiro/1933) é um educador e empreendedor brasileiro dos bons. Entrou para a Faculdade Federal de Agronomia do Rio Grande do Sul em 1951 e se formou em 1954. Com dois anos de formado, fez concurso para professor e ocupou a cadeira de Zootecnia. Foi ministro da Agricultura no governo Emílio Garrastazu Médici, de 30 de outubro de 1969 a 9 de maio de 1973. Cirne Lima é referência como gestor, consultor e teve participação política destacada não só no setor agrícola como, também, o industrial. Foi presidente da Copesul (Companhia Petroquímica do Sul) sempre investindo na infraestrutura de escolas da região, com o melhoramento dos laboratórios de informática, quadras esportivas e bibliotecas. Para Cirne Lima, “investir na educação de jovens é investir na transformação da sociedade”.

Cirne Lima foi o primeiro brasileiro a julgar bovinos de raça na Inglaterra, no ‘Royal Show’, berço da genética. Cirne deu impulso à pecuária do Sul. Em 1968, ele era presidente da Farsul (Federação da Agricultura do RS) quando a Secretaria da Agricultura decidiu fazer a primeira Expointer em Esteio.

Aos 92 anos, até hoje o ex-ministro cobra investimentos em pesquisa e na infraestrutura para escoamento da safra agrícola. Para ele, o que cabe ao setor público constitui o grande drama do agronegócio brasileiro. ‘Não temos logística de infraestrutura para a agricultura. É inadmissível que caminhões carregados com soja deixem Rondonópolis, em Mato Grosso, em direção ao porto de Santos que, muito congestionado, obriga os caminhões a seguirem viagem para outros portos”. E diz mais: “Claro que temos que aumentar a produtividade nas lavouras, mas o governo precisa cumprir um pouco a sua parte. Nossa produtividade média é superior à dos Estados Unidos em soja e algodão, somos inferiores somente em milho. Mas a infraestrutura norte-americana faz a diferença.” O fato é que o ministro Cirne Lima fez, faz e fará sempre a diferença na gestão da agropecuária brasileira.

 

 

(*5) G. EDWARD SCHUH (1931-2008)

Edward Schuh: “Durante muito tempo o Brasil procurou sua expansão agrícola incorporando novas terras. Essa política foi de baixa produtividade.  A partir da Embrapa, o Brasil optou por uma política de alta produtividade. Decisão acertada que promete ter ainda maiores e melhores resultados”.

 

(*5) G. EDWARD SCHUH (1931-2008) Se existe algum brasilianista de cara e coração ele se chama Edward Schuh, ou Ed Schuh, como gostava de ser chamado. Além de vários estudos e publicações sobre o Brasil, como “O desenvolvimento da agricultura no Brasil/G. Edward Schuh, em colaboração com Eliseu Roberto Alves”, o professor Schuh foi um mestre que mudou a economia nos Estados Unidos, onde nasceu, e no Brasil, onde lecionou e trabalhou, como afirma o professor Terry Roe, da Universidade de Minnsota, Ed Schuh valorizou a agricultura no contexto macroeconômico e fez com suas aulas e estudos uma enorme diferença em todas as dimensões da vida.

Formou-se em Agricultural Education na Purdue University em 1952. Obteve o título de Master of Science em Agricultural Economics na Michigan State University em 1954. Após dois anos servindo ao Exército Americano na Coréia do Sul e no Japão, ingressou na University of Chicago em 1956, onde obteve os títulos de Master of Arts em 1958 e de Ph.D em 1961.

Na Purdue University, realizou brilhante carreira de professor entre 1961 e 1979. Atraiu um bom número de brasileiros para realizar programas de Ph.D em economia rural. Eliseu Alves, Antônio Salazar Pessoa Brandão, Alberto Veiga, Mauro Lopes, Ignez Lopes, José Ramalho, Andrés Villas, Túlio Barbosa, Teotônio Teixeira, Antônio Jorge de Oliveira, Guilherme Dias (em pesquisa sobre agricultura de baixa renda) são bons exemplos de uma sólida convivência acadêmica com o professor-amigo Ed Schuh. Entre 1984 e 1987, foi diretor do Departamento de Agricultura e Desenvolvimento Rural do Banco Mundial, em Washington-DC. Em seguida, retorna à University of Minnesota, como dean do Humphrey Institute of Public Affairs (1987-1997) e, depois, como coordenador de International Fellowship Programs desse Instituto (1997-2003).

Tal como acontecera na Purdue University, outros brasileiros – como Geraldo Calegar, Carlos Santana, Ana Lucia Kassouf, Afonso Negri Neto, Geraldo de Camargo Barros, Vitor Hoeflich, Carlos Ayres, Petrônio Vilela Filho e o próprio Salazar Brandão – realizaram seus programas de Ph.D, de pós-doutorado ou de professor visitante na University of Minnesota.

Em sua aposentadoria foi homenageado, em maio de 2007, com a realização do chamado Schuh Symposium sobre o tema “Toward a Global Food and Agricultural for an Open International Economy” em Minneapolis. 

Na academia, vale dizer, Schuc orientou pelo menos 150 dissertações e teses de mestrado e doutorado. Desse total, 40 foram sobre problemas brasileiros.

 

(*6) BARBARA McCLINTOCK (*1902-+1992)

Barbara McClintock, doutora em Botânica, é considerada uma das três figuras mais importantes da história da genética. McClintock, nasceu em Hartford, capital do estado de Connecticut, estudou na Faculdade de Agricultura de Cornell-Nova York e venceu o Prêmio Nobel de Medicina em 1983.

O foco principal da pesquisa de Barbara McClintock era na citogenética do milho e em formas de visualizar e caracterizar os cromossomos da planta. Ela foi a responsável por publicar o primeiro mapa genético do cereal. Descobriu ainda que a informação genética não é imóvel e que os genes podem ligar ou desligar a manifestação de certos fenótipos. Também é dela uma das maiores revelações da genética: os genes saltadores que causam o fenômeno conhecido como transposição genética. Esses genes têm a capacidade de se inserirem dentro de outros genes e podem causar doenças, assim como modificar a informação genética do organismo — em humanos, o fenômeno é aplicado em terapias gênicas, por exemplo, com a inserção de mecanismos que podem consertar ou regular defeitos genéticos.

 

(*7) ALYSSON PAOLINELLI (10/julho/1936 – 29/junho/2023)

A chegada de Alysson Paolinelli ao Ministério, em 1974, desanuviou tudo. Ele também era da cepa acadêmica e acompanhava de perto, como secretário da Agricultura de Minas Gerais, tudo o que vinha acontecendo no setor. Como era amigo do grupo como o Eliseu, Renato Simplício, do Irineu, do Cirne Lima e meu, os tempos de entusiasmo voltaram”.

 

ALYSSON PAOLINELLI – Com a posse da primeira diretoria no dia 26 de abril de 1973, marco inicial da sua fundação, a Embrapa passou a se dedicar à organização e à estruturação da empresa. Começou com a incorporação do patrimônio do extinto DNPEA. As transformações mais impactantes, no entanto, só foram acontecer em 1974, durante o governo Ernesto Geisel, tendo à frente, como ministro da Agricultura, o engenheiro agrônomo mineiro e professor da ESAL, Alysson Paolinelli. Bem diz José Pastore: “A chegada de Alysson Paolinelli ao Ministério desanuviou tudo. Ele também é da cepa acadêmica e acompanhava de perto, como secretário da Agricultura de Minas Gerais, tudo o que vinha acontecendo no setor. Como era amigo do grupo como o Eliseu, Renato Simplício, do Irineu, do Cirne Lima e meu, os tempos de entusiasmo voltaram”.

Quando assumiu o Ministério da Agricultura, em 15 de março de 1974, Paolinelli continuou o programa que tinha no governo de Minas que era a ocupação do Cerrado. “Naquela época, dizia ele, a região do Cerrado era mais para mineração e pastagem extensiva. Era terra de fazer longe… Só herdada ou dada. Foi a Embrapa e os investimentos na busca de novas tecnologias que mudaram este quadro. Hoje o Cerrado é um celeiro, um centro produtor de soja, trigo, milho, café, algodão, frutas e hortaliças com produtividade altíssima.

Filho do engenheiro agrônomo Antônio Paolinelli, Alysson deixou Bambuí, sua cidade natal, aos 15 anos, para estudar na ESAL, hoje Universidade Federal de Lavras. Formou-se em 1959.  No mesmo ano tornou-se professor na instituição, onde mais tarde ocuparia o cargo de diretor. No governo Rondon Pacheco, em 1971, assumiu a Secretaria de Agricultura de MG e criou incentivos e inovações tecnológicas que colaboraram para que o Estado se tornasse o maior produtor de café do Brasil.

Em 2006, Alysson Paolinelli ganhou o prêmio World Food Prize, equivalente ao Nobel da alimentação, dado a pessoas que ajudaram consideravelmente a população a melhorar a qualidade, quantidade ou disponibilidade de alimentos no mundo.

 

SAIBA MAIS:
https://folhadomeio.com/2025/02/jose-pastore-conta-a-a-historia-da-embrapa-que-ninguem-contou/

 

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Os últimos dias de JK

Perseguição e tensão marcaram os dias antes de sua morte.

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JORGE HENRIQUE CARTAXO
Especial para o Correio

“O presidente JK que trouxe meu pai para construir esta cidade. Eu vim junto com meu pai. JK será eterno porque mudou a minha família, mudou o Brasil, e eu tenho que agradecer aqui ao meu amado presidente. Custe o que custar!”

O pequeno e emocionado discurso do policial militar que rompeu as mãos dadas — para acalentar suas palavras — com as mais de duas dezenas de companheiros que cercavam, em proteção, o túmulo ainda aberto de Juscelino Kubitschek no Campo da Esperança foi a última e inesperada saudação ao fundador de Brasília antes que o corpo do grande estadista fosse guardado e entregue ao silêncio eterno, no longínquo 23 de agosto de 1976. A noite escura abraçava o cemitério de Brasília apinhado de candangos que, numa algaravia comovente, entre a tristeza, a revolta e a saudade, pranteavam o último adeus a JK. Todos seguiam as luzes difusas das câmeras de TV que se dirigiam ao jazigo, em busca do último registro da lamentável e indesejada cena histórica.

O jornalista Silvestre Gorgulho, à época assessor do então ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli, estava na Catedral de Brasília naquela tarde melancólica, quando o esquife com o corpo de JK deixou o nosso primeiro templo e seria acondicionado sobre um carro do Corpo de Bombeiros. Num átimo, os candangos em multidão — cerca de 300 mil — apoderaram-se do corpo de Juscelino e o levaram de mão em mão, de braço em braço, de ombro em ombro, até o cemitério. Nos longos oito quilômetros que separam a Catedral do Campo da Esperança, parte percorrida pela Esplanada e parte pela W3 Sul, os candangos cantaram Peixe Vivo — a música preferida de JK — e o Hino Nacional, clamaram por Juscelino, silenciaram em preces e espargiram lágrimas de saudades e dor.

“Não houve honras oficiais, nem salões ou palácios da cidade que ele fez construir. Apenas a casa de Deus, as ruas e as orações candangas”, lembra Silvestre Gorgulho, que acompanhou o cortejo da Catedral até o Campo da Esperança e presenciou toda a cerimônia. Essas cenas estão contadas, com vantagens, no livro De Casaca e Chuteiras — A Era dos Grandes Dribles na Política, Cultura e História / 1956 — 1977 / Brasília-JK-Pelé, um brinde de Gorgulho a Brasília.

Primeiro recado

No dia 17 de fevereiro de 1976, o jornalista Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, fez uma visita ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, no Rio de Janeiro. “Juscelino, trago um recado do Armando. Militares pretendem coisas dramáticas contra a sua vida”, teria dito Roberto Marinho a um apreensivo, mas sempre sereno JK. Armando Falcão, então ministro da Justiça do governo Geisel, havia sido também ministro da Justiça entre 1956 e a inauguração de Brasília, em 1960. Na foto clássica de JK com Jango e Israel Pinheiro entrando no Palácio do Planalto no final da tarde daquele histórico 21 de abril de 1960, igualmente de casaca, ao lado de Jango, estava lá ele, Armando Falcão.

No sábado, 7 de agosto daquele mesmo ano, uma “notícia” se espalharia pelo país: Juscelino teria morrido num acidente automobilístico na estrada Rio-São Paulo. A imprensa se mobilizou. Dona Sarah foi procurada no Rio. Recluso na sua Fazendinha, em Luziânia, Juscelino foi surpreendido pela visita de uma dezena de fotógrafos e jornalistas movidos pela pauta tenebrosa e, de certo modo, premonitória. Apreensiva, Vera Brant se deslocou de Brasília até Luziânia para conversar com JK. “Juscelino, acho que jogaram esse alarme falso para avaliar que tipo de emoção causaria no país a sua morte. Cuidado, que vão te matar”, vaticinou Vera ao abraçar o amigo ainda perplexo com o vasto ruído.

O desmentido viria na noite do dia seguinte, no programa Fantástico, da TV Globo. A vontade de tirar a vida de JK não era nova na ditadura militar. Em junho de 1968, um grande atentado foi abortado no país. O caso Para-Sar (tropa especial de elite da Aeronáutica especializada em busca, salvamento e operações especiais) foi um plano arquitetado pelo então brigadeiro João Paulo Burnier. As vítimas finais seriam os principais líderes civis do país perseguidos pelo golpe de 1964: Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Dom Hélder Câmara e mais 40 militantes da oposição. Jango estava no exílio.

A primeira fase da operação terrorista consistia em realizar uma série de atentados a bomba tendo como alvo empresas norte-americanas, como o Citibank e a Sears, além da explosão de um gasômetro na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro. Os crimes seriam atribuídos aos movimentos de esquerda. Estabelecido o caos, os líderes civis seriam sequestrados e mortos. O capitão Sérgio Miranda de Carvalho (um cavalheiro conhecido pela tropa como Sérgio Macaco), convocado para coordenar a operação terrorista, recusou-se a praticar os atos ilegais e denunciou o horror aos seus superiores. A violência pública proposta por Burnier mergulharia nos porões — tortura, sequestros e mortes — com o AI-5, em dezembro de 1968.

Em janeiro de 1971, o assassinato do ex-deputado federal Rubens Paiva no DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, sinalizou a fase do terror da ditadura militar. Somente em 1974, com a vitória do MDB nas eleições gerais de novembro, os limites do autoritarismo assumiriam contornos mais visíveis. É bem verdade que, em agosto de 1974 — cinco meses após a sua posse como presidente da República, em março —, o general Ernesto Geisel, num encontro com os dirigentes da Arena — partido político que dava sustentação simbólica e congressual à ditadura —, anunciou a famosa proposta de distensão política, por ele chamada de “lenta, gradual e segura”.

Como a história republicana assinala, os quartéis nunca foram exatamente harmônicos, disciplinados, amigos das leis e da legitimidade. No dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi torturado e morto nas dependências do II Exército de São Paulo, que abrigava o temido DOI-CODI. Herzog havia se apresentado voluntariamente ao general Eduardo D’Ávila Mello no dia 24 daquele mesmo outubro. Em janeiro de 1976, três meses após a morte de Vladimir Herzog, no mesmo II Exército, ainda sob o comando do general D’Ávila, seria morto o operário e sindicalista Manoel Fiel Filho.

Os dois assassinatos atingiram em cheio o governo militar e desafiaram frontalmente o presidente Geisel. O general D’Ávila foi demitido três dias após a morte de Fiel Filho. Na madrugada do dia 14 de abril de 1976, a famosa estilista Zuzu Angel foi esmagada, dentro do próprio carro, na saída do Túnel Dois Irmãos, em São Conrado, no Rio. Zuzu lutava desesperadamente pelo paradeiro de seu filho, Stuart Angel, preso, torturado e morto pela ditadura em 1971.

No dia 19 de agosto de 1976, uma bomba explodiu na sede da ABI e outro artefato foi desativado na sede da OAB, ambas no Rio. Ainda em 1976, JK seria morto no dia 22 de agosto; o ex-presidente João Goulart morreria em dezembro, também num rastro de suspeitas de atentado. Em maio de 1977 seria a vez de Carlos Lacerda, também em um cenário igualmente suspeito. No dia 12 de outubro de 1977, o presidente Geisel demitiu o então ministro do Exército, general Silvio Frota, um inimigo militante da abertura política e candidato, já em campanha, à sucessão de Geisel. Tornava-se pública a grave crise militar que abalava a ditadura, além da expressiva derrota nas eleições de 1974.

A partir daí, o terror se acentuaria. Dois atentados marcaram a época e se espalham pelo mundo. Em 27 de agosto de 1980, uma carta-bomba explodiu nas mãos da secretária da presidência da OAB, Lyda Monteiro, no Rio, ceifando-lhe a vida. Na noite do dia 30 de abril de 1981, no estacionamento do Centro de Convenções Riocentro, uma bomba explodiu no colo do sargento do Exército Guilherme do Rosário, matando-o, e deixou gravemente ferido o então capitão do Exército Wilson Dias Machado. Naquela noite, Chico Buarque, Gal Costa, Clara Nunes, Gonzaguinha, Elba Ramalho, Alceu Valença, Beth Carvalho, Moraes Moreira e João Bosco estavam se apresentando para 20 mil pessoas que lotavam o Riocentro. Um “acidente de trabalho” impediu que a tragédia se consumasse. Entre 1978 e 1983, de acordo com relatórios oficiais, a extrema-direita praticou mais de 187 ataques terroristas. Os alvos mais evidentes eram as redações de jornais, as bancas de revistas que vendiam publicações da oposição e as instituições — OAB, ABI… — que se mobilizavam pela redemocratização do país.

Retomando a cena política

Na manhã do dia 20 de agosto de 1976, uma sexta-feira, o ex-presidente Juscelino Kubitschek embarcou num avião da Vasp em Brasília com destino a São Paulo. Estavam no aeroporto e no mesmo voo o então senador José Sarney e sua esposa Marly, o ex-senador Franco Montoro e o ex-deputado federal Ulysses Guimarães. O mau tempo em Congonhas obrigou o desvio da aeronave para Viracopos, em Campinas. Durante toda a viagem, Ulysses, Montoro e JK conversaram sobre a conjuntura política do país, que se redesenhava velozmente depois da vitória do MDB nas eleições de 1974. “Hoje está cada vez mais clara a necessidade de normalização da ordem pública. Isso é um desejo de todo o povo brasileiro, à exceção de uns poucos radicais de direita e de esquerda”, disse JK a Ulysses Guimarães em um certo momento daquele último encontro.

Os atentados a bomba que haviam ocorrido na véspera também foram objeto da conversa entre eles. “Tenho sentido uma inquietação crescente nos meios econômicos e bancários com os quais tenho conversado nos últimos tempos”, revelou ainda JK aos dois notáveis interlocutores. O voo inicia o seu procedimento de pouso em Viracopos, naquele final de uma manhã diluviana em São Paulo. Apesar dos temas delicados do diálogo com Ulysses e Montoro, JK não escondia o seu contentamento com a recente retomada da cena pública. No aeroporto havia dado autógrafos. Na decolagem em Brasília, tão logo o avião alcançou a estabilidade dos 10 mil pés, a voz do comandante Sérgio informou: “Tenho o prazer de anunciar que está a bordo o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira”. Os passageiros entoaram aplausos, sinalizando empatia e acolhimento.

Jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne.

Legenda da foto: “Mais de 300 mil pessoas foram dar o último adeus a JK em agosto de 1976.”

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SEBASTIÃO NERY

SAUDADES

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Vi hoje um video produzido pela Câmara Municipal de Jaguaquara-BA, terra natal do Tião Nery, que me trouxe lembranças queridas e uma saudade imensa do meu amigo.
Como eu gostava de viajar nos livros, nas palavras e nos causos do NERY. Sobretudo na companhia dele e da Bia. Ainda bem que viajamos muito por este mundo a fora. Até nas montanhas dos Pintos Negreiros, lá perto de São Lourenço, um distrito de Maria da Fé (na Mantiqueira) nós formos. Rodamos a Amazônia, Chapada dos Veadeiros, Líbia, Marvão, a Europa, Líbia, França e Bahia… Fomos juntos, pelo menos, quatro vezes ao Pantanal.
Ganhamos um PRÊMIO ESSO juntos… Uma história fantástica que ocupa cinco páginas (pag.414) de seu livro “A NUVEM – 50 Anos de História do Brasil”.
Mas vamos ao vídeo, um bom resumo da vida desse `Guerrilheiro das palavras`.
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EMILIANO PEREIRA BOTELHO

(1948-2026)

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O Brasil perdeu ontem à noite (11/08) um cidadão empreendedor, dedicado e que deixa um legado incomensurável para a agricultura tropical: EMILIANO PEREIRA BOTELHO.
Paracatu perdeu um filho ilustre e eu perdi um amigo, inclusive, que escreveu a abertura do meu livro “DE CASACA E CHUTEIRAS – JK-BRASÍLIA-PELÉ – A Era dos Grandes dribles na Política, Cultura e História”.
Nesse livro, Emiliano, como presidente da CAMPO – Companhia de Promoção Agrícola, escreveu sobre o Planalto Central e a história da revolução verde-amerela do Cerrado, focando na chegada dos japoneses das famílias Kanegae, Hayakawa, Ogawa, Ikeda e Okudi para desbravar a região do Distrito Federal.
Como jogador de futebol, amante da boa música e torcedor do Cruzeiro, EMILIANO BOTELHO tinha seu lado alegre e festeiro. Como profissional da agropecuária, deixa uma história de empreendedorismo: logo depois de ser o superintendente e, depois, presidente da Cooperativa Agropecuária do Vale do Paracatu, a Coopervap, presidiu por mais de 30 anos a CAMPO – Companhia de Promoção Agrícola, ligada ao Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento dos Cerrados, o Prodecer.
FOTOS
1) Emiliano Botelho quando foi homenageado pela Casa de Cultura e pela Prefeitura Municipal de Paracatu como Personalidade que fez e faz diferença na região.
2) Emiliano, o Ministro Alysson Paolinelli e o primeiro presidente da CAMPO, Paulo Afonso Romano.
3) Emiliano e sua paixão pelo Cruzeiro, que hoje no jogo com o Flamengo bem podia fazer um minuto de silêncio em sua Memória.
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Reportagens

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