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FAZENDA DOS PINTOS
(1925-1937)
ANTÔNIO NEGREIROS BERNARDES
Uma breve história das famílias GORGULHO, NEGREIROS, CAPISTRANO E BERNARDES que viveram e vivem em Maria da Fé, Pintos Negreiros, São Lourenço, Cristina, Pouso Alto e Dom Viçoso.
AGRADECIMENTOS
Ao meu filho, psicanalista, Wagner Siqueira Bernardes pela sua dedicação e incentivo. Apesar de seus múltiplos afazeres, teve uma participação decisiva na revisão dos textos.
À minha nora, arquiteta, Maria do Carmo “Lilia” pela planta da Casa Grande compondo a capa do livro e a parte interna da página n° 23.
DEDICATÓRIA
Dedico este livro à Myrthes, minha esposa e companheira, que há quase meio século tem estado ao meu lado, dando-me carinho, dedicação e compreensão. Ela é uma mulher inteligente, prestimosa, sensível e corajosa.
Aos meus filhos, Marco Antonio, Wagner, Walter, Míriam e Júlio César, que vieram completar nossas vidas, dando ao nosso lar, com suas presenças, tudo que um casal pode desejar. Formaram como um jardim florido, sem faltar a presença da rosa, que é o seu maior encanto.
Às minhas noras Adriana, Rosa e Lilia. e ao meu genro Nilo, criaturas bondosas, às quais muito prezo.
Finalmente aos últimos espécimes do nosso jardim, os meus netos Fabiana, minha primeira neta, um amor de menina, morena de cabelos pretos, inteligente e perspicaz. Uma de suas primeiras palavras foi “vovô” e uma das primeiras frases “Qui susto”, em uma freada repentina que dei no carro. Taciana e Mateus, lindas crianças. Ela, loirinha de cabelos lisos, ativa e peralta e ele, robusto de cabelos castanhos, um touro de menino. São os filhos do Marco Antônio e Adriana.
Adonai, o meu segundo neto, muito curioso, aplicado, inteligente e saudável, moreno de cabelos pretos e lisos. Parece muito com o pai, principalmente no modo de andar. Mora em São Paulo com os pais Júlio César e Rosa. Não esquece os avós e vem sempre nos visitar.
As três bonecas, que Walter e a Lilia me deram, a Clarissa, bem loirinha, de olhos azuis, tem o tipo de sua bisavó, a minha mãe. A Joana, uma mistura de morena e loira, tem os olhos castanhos e a Fernanda, a caçula dos netos, é uma gracinha, elas me adoram.
Finalmente, os três meninos espetaculares. Presente de minha filha Miriam, casada com o Nilo. O mais velho é o Eder, algo aloirado, com um lindo sorriso, acha que o avo é exclusividade dele. Tem gosto para o desenho e gosta de contar histórias.
Ícaro, um bonito menino, moreno de cabelos castanhos e rosto redondo, tem um sorriso discreto, mas uma carinha de malandro.
Lucas, o branquinho, como é chamado por nós, loirinho de cabelos dourados, é meigo e malicioso.
Agradeço a Deus pelos 70 anos de vida, dando-me saúde, tranquilidade e felicidade. Sem a sua ajuda eu não seria nada e não viveria para participar deste Universo fabuloso.
(Antônio Negreiros Bernardes)
PREFÁCIO
Fui, por três vezes, ao encontro de família nos Pintos “Encontro de Confraternização Independente de Morte ou Casamento”. Senti a necessidade e o dever de contribuir de alguma maneira para o fortalecimento e continuidade desse encontro anual. Achei que o melhor seria relatar fatos e acontecimentos sobre os Pintos e a família. Só assim, a nova geração que comparece anualmente aos Pintos tomará conhecimento da origem do lugar e de nossos antepassados.
Pensei escrever um livro, registrando com realismo e autenticidade o que é do meu conhecimento. A idéia amadureceu e eu comecei a transportá-la para o papel.
“FAZENDA DOS PINTOS” é a visão que tive dos Pintos da segunda e terceira décadas deste século e também dos conhecimentos transmitidos por minha mãe. Como os Pintos – hoje Pintos Negreiros – não consta do Mapa do Estado, espero que o livro seja um ponto de referência e conhecimentos da existência deste lugar tão maravilhoso.
SUMÁRIO
Fazenda dos Pintos (1925 – 1931) 1
As Pessoas Folclóricas dos Pintos 26
O Desaparecimento Prematuro de Henrique 31
Anos 1936 – 1937 67
ECIMOC 68
FAZENDA DOS PINTOS (1925 – 1931)
A fazenda os Pintos, hoje Pintos Negreiros, talvez devesse chamar-se Vale dos Pintos, dadas as características da região, próxima a Maria da Fé.
Terra dos Capistranos, Negreiros, Gorgulhos, Bernardes e outros ramos que deram origem a uma das maiores árvores genealógicas do Brasil, era um recanto desconhecido dos poderes públicos, mas abençoado por Deus.
Estava localizada entre duas serras que desciam o vale e se estendiam até ao rio Lourenço Velho, o maior rio da região. O Lourenço Velho separava o Vale da Barra, despejando suas águas no Sapucaí, próximo a ltajubá.
Hoje chega-se aos Pintos partindo de Itajubá ou de São Lourenço.
Através de Itajubá, pega-se uma estrada asfaltada em direção a Maria da Fé e, pouco antes de se chegar a essa cidade, entra-se à direita numa estrada de terra que corta uma região bastante montanhosa, até atingir a principal serra que, na sua vertente, forma o Vale dos Pintos. A partir deste ponto, continuando serra abaixo, chega-se aonde eram os limites da Fazenda dos Pintos, que pertenceu, como herança, à minha avó, Maria do Carmo Capistrano.
Partindo-se de São Lourenço, viaja-se também no asfalto e, antes de Carmo de Minas, entra-se á esquerda numa estrada também de terra, passando pelos Campos e por D. Viçoso. Até aí o acesso é relativamente fácil; são aproximadamente vinte e quatro quilómetros de estrada com poucas elevações. Do Rosário – antigo nome de D. Viçoso – aos Pintos, viaja-se por mais quinze quilômetros, sendo os dois primeiros na parte baixa, onde, há muito tempo, ficava a fazenda do Custodinho Ribeiro, ladeada por um rio e situada ao pé da serra. Até o rio – lembro-me bem – o clima era seco e quente e a região era de águas escassas. Porém, – capricho da natureza! – logo que começava a serra, havia uma mudança completa: o solo tornava-se fértil e úmido e as águas apareciam com mais freqüência, frias e cristalinas.
A estrada era ruim e pedregosa e, bem do alto da serra, onde antigamente começava a Fazenda dos Pintos, descortina-se uma paisagem deslumbrante, onde tudo se perde de vista. Ao fundo aparece a parte mais alta de São Lourenço que, na minha meninice, mostrava duas construções: a antiga caixa d’água e a a casa do tio Zeca Bernardes irmão de meu pai. Construções estas que, no início do século, se destacavam como as únicas no ponto mais alto do Bairro Carioca.
Na vertente da serra começava a Fazenda dos Pintos, cortada pela estrada que corria entre montes elevados, até atingir o vale. Dois quilômetros abaixo ficava a volta do caminho e, entrando-se à esquerda, a cerca de trezentos metros, a Casa Grande, sede da Fazenda.
UM LUGAR ESPECIAL
Os Pintos Negreiros tem para mim inestimável valor, pois lá eu nasci e vivi até aos dezessete anos. Procurarei descrevê-lo como o conheci. Não sei precisar a sua dimensão. Talvez tivesse cerca de cinco mil alqueires. Começava no alto da serra que se abre, formando dois braços, como se quisesse abraçar toda a fazenda. A estrada descia por entre montes que eram envolvidos pelas duas serras que disputavam a primazia na paisagem.
A da direita era, a meu ver, a mais importante por ser a mais visível e devido à sua extensão. Descia quase em linha reta até aos limites da fazenda, onde se situa hoje a estrada que leva a Maria da Fé, que antigamente era apenas uma trilha. A serra era mais visível depois que atingia o vale, sendo quase vertical em todo o seu percurso, e formando um paredão que tinha como única saída uma trilha, por onde só se passava a pé ou a cavalo e o transporte por conseqüência só podia ser feito em lombo de burro.
Na virada da serra havia um local chamado Pouso Frio, temido pela presença de onças que ali eram freqüentes. O lugar era muito deserto, sem uma choupana sequer. Todo percurso era feito entre as matas. A primeira casa que se avistava era a do Sr. Lucas, situada na Glória, um pequeno lugarejo. Logo depois chegava-se a Cristina, uma das cidades mais antigas de Minas.
A serra da esquerda se alternava entre montes em toda a sua frente, até à sede da fazenda – a Casa Grande – de onde sua predominância sobre os montes era visível e absoluta, num desafio à sua co-irmã da direita. A partir desse ponto, seguia junta e paralela à serra da direita, desistindo, dois quilômetros à frente, do desafio e mudando seu curso para a esquerda, onde formava um outro braço no vale, conhecido por Gabirobeiras.
Perpassando quase todo o vale havia um valo que o separava das serras. Do lado esquerdo da estrada, até à Casa Grande, a serra e os montes se revezavam, numa extensão incalculável. Era nessa área que ficava a maior parte da fazenda e na qual se localizavam os mais variados logradouros, os Pimentas, o Lourival, o Canelá, o Campo Feio, a Toca e o Chimangos, este atrás da serra, logo depois de onde ficava a casa da tia Imaculada.
No começo do vale, logo após a rasa da “Sá” Virgínia, a mulher mais folclórica dos Pintos, havia um pontilhão estendido sobre um córrego vindo da serra da direita. Nesse ponto iniciavam-se a várzea e o vale, que constituíam urna área de cerca de oitocentos metros de comprimento por trezentos de largura. Logo no começo do vale via-se a casa do João Negreiros, seguida da casa da “Sá” Merenciana, uma das mais antigas da várzea; logo depois, na beira da estrada, a casa do Fonseca e, aos fundos, ao pé de um monte, a casa de meus pais, ou melhor dizendo, uma fazenda, em vista do seu tamanho.
Era nesta área que se formava o rio dos Pintos, cujas águas eram engrossadas por um outro córrego que vinha ria serra da esquerda. O rio começava nos fundos da casa de “Sá” Merenciana, cortava a várzea quase ao meio e, depois da casa do Fonseca, passava sob um segundo pontilhão e esparramava suas águas entre as pedras. Em seguida recebia as águas de outros córregos, seguia abaixo, espremido entre o pé da serra e dois montes que tentavam impedir sua passagem. Mas o rio, alheio aos obstáculos, pacientemente os vencia a todos, indo desembocar na garganta formada por um último monte que ladeava o campo de futebol. Este monte tinha uma função especial, pois sua encosta servia de arquibancada para o público que se conscentrava em frente ao campo de futebol nos dias de disputas. Finalmente, bem em frente à casa da tia Imaculada, o rio recebia as águas de um outro que vinha do Canelá, passando pela Toca e descendo turbulento nos fundos da Casa Grande.
O que mais me fascinava nos Pintos eram as suas águas. De todos os lados e por todas as grotas surgiam córrregos e nascentes de águas frias e cristalinas. Desciam em abundância dos topos das serras e dos montes. Entre matas e pastos rolavam silenciosamente, por vezes barulhentos, anunciando sua passagem, até atingirem o vale. Daí seguiam engrossando as águas de outros rios e, indo várzea abaixo, desaguavam no Lourenço Velho, na Barra.
A estrada, após a casa do Fonseca, passava em frente à casa da Carmita e, logo depois da Volta do Caminho, se abria em duas: a da direita descia até atingir novamente a várzea bloqueada pelos dois montes, a da esquerda ia até à Casa Grande, que ficava logo na virada do monte, na parte plana, de onde se descortinava todo o vale até ao final da fazenda. O monte terminava abruptamente, formando uma pequena grota até à estrada que alcançava novamente a várzea.
Do lado direito da estrada ficava o campo de futebol e, do lado esquerdo, o monte se prolongava mais um pouco, até ao rio, que passava nos fundos da Casa Grande. Depois da junção dos dois rios, a estrada continuava à direita e, logo em seguida, ficava a casa da Augusta, onde hoje é a casa da Conceição. Quase em frente, entre a estrada e o rio, ficava a casa do Antônio Gorgulho e, logo abaixo, a casa do Antônio Marcelino, perto da ponte que leva à igreja. Em seguida, à direita, ficava a casa do Sebastião Balbino e, à esquerda, a do Rodolfo. Quase no final da várzea, na beira da estrada, havia a casa do Zotinho, à direita e à esquerda, depois o rio, a casa da Sinhá que era casada com um dos alemães, o Augusto.
O clima dos Pintos era ameno no verão e rigoroso no inverno, com temperaturas que beiravam O°C. As manhãs eram de uma beleza e limpidez contagiantes. O sol aparecia do cimo da serra da direita espalhando sua luz em toda a sua extensão. Em poucos minutos, atingia o vale, os montes e, por fim, a serra da esquerda, tudo isso num período aproximado de trinta minutos. Da Casa Grande podia-se apreciar sua trajetória, envolvendo quase a totalidade do vale.
No inverno, o espetáculo tornava-se deslumbrante. Ao amanhecer, as várzeas e os montes encontravam-se cobertos de geada, como que revestido por um imenso lençol branco e, com a chegada do sol, o gelo se desfazia e evaporava, deixando, por alguns minutos, uma fumaça leve e muito alva, que se desmanchava como que por encantamento. As tardes, o sol começavam a desaparecer na serra da esquerda, atingia o vale deixando atrás sua sombra, até ao ponto mais alto da serra da direita e, finalmente, se despedia, desaparecendo por completo.
As noites, indescritíveis, compunham um espetáculo maravilhoso. O céu de um negro muito escuro, ficava cravejado de estrelas cintilantes que, num empurra-empurra incessante, disputavam entre si um espaço no abóbada. A Lua, quando se media no seu máximo, se tornava a dona absoluta de todo aquele cenário encantador, deixando todos extasiados.
No entanto, em noites chuvosas e opacas, quando a escuridão tomava conta de tudo, só deixando lugar para o tímido piscar dos pirilampos, o ambiente tornava-se tenebroso. Sapos coaxavam num barulho infernal e corujas piavam soturnamente, criando um clima tão pavoroso que temíamos a qualquer momento a chegada de assombrações e de almas penadas.
As matas eram abundantes, com muita madeira de lei. Perobas, cedros, canjaranas, candeias e, sobretudo, pinheiros, que floresciam constantemente na região. Algumas frutas eram nativas, como o pêssego, o marmelo, a pitanga, o araçá e a gabiroba.
A pecuária era desenvolvida com um bom gado. Carneiros, cabritos, galinhas, porcos etc. A agricultura fornecia milho, feijão, batata, cebola e fumo em profusão, além de abóbora, mugango, melancia e chila.
Os Pintos, com toda sua abundância e fartura dependiam inteiramente, no entanto, do Rosário que, além de ser a vila mais próxima, era ainda a sua única porta de entrada e única via de escoamento de seus produtos, que eram levados até lá em lombo de burro e carro-de-bois. Lá, os moradores dos Pintos vendiam seus produtos e compravam os que não produziam, tais como remédios, ferramentas, querosene, sal, arroz, açúcar, farinha de trigo e macarrão.
A vila era o lugar onde os filhos dos Pintos eram registrados e batizados e lá se casavam.
Lá também assistiam às suas missas aos domingos e dias-santos-de-guarda e enterravam seus mortos.
Para se chegar ao Rosário percorriam-se cerca de quinze quilômetros que geralmente eram vencidos a pé, pois a maioria das pessoas não possuía cavalos.
O Rosário concentrava toda a economia e comércio, não só dos Pintos como, também, de todos os lugarejos da região e era ponto de referência para inúmeros deles que, como os Pintos, não tinham autonomia.
FANTASIA E REALIDADE
1925 – Com apenas cinco anos, começava eu a minha vida que, como a de tantos outros meninos, era cheia de fantasias. No entanto, foi marcada por acontecimentos fortes. As primeiras lembranças que tenho são de vida e de morte. Certo dia, percebi na casa um corre-corre e, logo em seguida, um choro de uma criança. Depois da confusão e quando a porta do quarto foi aberta, entrei. Apesar da tarde ensolarada, o quarto estava escuro e mal pude ver minha mãe e o bebê a seu lado. Era minha irmã Maria Esméria que acabava de nascer. A outra lembrança foi da morte do meu irmão Remígio, ainda pequeno, e que, segundo alguns, Deus tinha levado por causa do seu nome um tanto estranho.
Até os doze anos tudo para mim era belo e encantador: não conhecia tristeza ou dificuldades. Ajudava a tratar das criações, buscar as vacas no pasto para tirar o leite e, à tardinha, separar delas os bezerros. O resto do dia era comer, brincar e passear.
Eu sabia que meu pai era doente, que tinha problemas mentais. Ele vivia alheio a tudo e, vez por outra, ficava lúcido, dando a impressão de que ia se recuperar. No entanto, era uma melhora passageira e logo voltava ao estado de indiferença, tristeza, agitação ou até mesmo de violência. Só tomava banho, trocava de roupas, fazia a barba ou cortava os cabelos após longas Insistências de minha mãe, que se esmerava em trazê-lo limpo e bem cuidado, mesmo que isso lha custasse alguns safanões. Precisava, às vezes, da interferência de outras pessoas para acalmá-lo, pois ele ficava bravo e xingava muito.
Papai tinha sempre dois lugares preferidos para ficar: ou permanecia em pé rente a uma das janelas, ou ficava no terreiro da cozinha, falando e gesticulando. Não pegava em dinheiro e relutava muito em sair de casa.
Indiferente à saúde de meu pai e às dificuldades que começavam a surgir na vida de minha mãe, eu vivia tranqüilamente. Amava a vida, a natureza e os Pintos como um todo. Vivia na companhia de meus pais, irmãos e meu avô.
Gostava de todos os irmãos, mas especialmente do Henrique, talvez por ele ser apenas um ano e um mês mais velho. Estávamos sempre juntos, sentia-me seguro a seu lado no trabalho, nos brinquedos ou na escola. Ele era um menino diferente de todos, muito querido por outras crianças e admirado pelos adultos. Seus doze anos de vida foram dedicados mais aos outros do que a si mesmo. Talvez eu tivesse pressentido que ele iria ter uma vida curta e precisasse de todo o tempo para ficar a seu lado.
Logo ao clarear do dia, íamos buscar as vacas para tirar o leite, independente da chuva, do frio ou da geada. No inverno o frio era intenso, as várzeas e os pastos amanheciam cobertos pelas geadas e nós, com calças curtas e descalços, saíamos à procura das vacas. A maior parte delas ainda permanecia deitada e, depois de levantá-las, ficávamos em seus lugares aquecendo, por alguns segundos, os pés gelados. Quase sempre ele ia à frente, pelos piores lugares, deixando para mim os mais fáceis. Quando chegávamos à casa com as vacas, antes de tomarmos o café com leite, nos aquecíamos um pouco sobre a taipa do fogão. O leite era tirado por minha mãe e meu irmão José Maria. Depois do café íamos ao chiqueiro tratar dos porcos. Em seguida íamos ao paiol debulhar o milho e levá-lo ao moinho, onde o transformávamos em fubá ou canjiquinha, os quais eram trocados por milho com os moradores da vizinhança. O farelo era dado ao gado ou aos porcos.
OS TRÊS AMIGOS
Éramos três e estávamos sempre juntos: meu irmão Henrique, eu e o Zé Augusto – o mais novo dos três -, meu primo mais querido, filho do Tião e da tia Ita.
Por outro lado, tia Ita formava com minha mãe e tia Imaculada outro trio muito unido. Eram amigas desde solteiras e estudaram juntas em Mariana. Tinham quase a mesma idade e, depois de casadas, solidificaram ainda mais a amizade, pois a tia Ita, além de sobrinha de minha mãe, passou também a ser cunhada ao casar-se com o tio Joaquim e, depois, com o Tião, irmãos de minha mãe.
Todos os dias se encontravam, ora na casa de uma, ora na casa de outra. Costuravam, faziam doces ou quitandas e tinham assuntos para tudo. Elas transmitiam esta amizade a nós três que brincávamos a valer, enquanto elas se divertiam, contando as novidades.
Nós não parávamos um minuto sequer. Pulávamos os valos, saltávamos os rios, às vezes caindo na água, quando não alcançávamos a outra margem. Quase sempre era o Zé Augusto que caía, pois, além de ser o mais novo, era o mais molengo, precisando sempre de nossa ajuda para sair da água.
Íamos aos pastos e capoeiras à procura de pêssegos e frutas silvestres. Corríamos atrás dos animais e pegávamos o Rucinho, o cavalo de estimação do meu avô que, sendo muito manso, permitia, que o montássemos em pêlo, os três ao mesmo tempo. O Rucinho podia ser dirigido sem rédea ou cabresto, bastando dar-lhe uns tapinhas de um lado e do outro do pescoço para indicar-lhe a direção. Ele parecia ter sido ensinado para ser montaria de crianças.
Quando qualquer garoto caía, ele parava imediatamente e ficava estático. Foram inúmeras as vezes em que caíamos – e sempre os três juntos – pois um puxava o outro nas descidas ou subidas.
Umas das travessuras preferidas era a natação. Aproveitávamos as voltas dos rios por detrás dos montes ou as partes mais escondidas e, com a colaboração de outros meninos, represávamos a água com pedras, pedaços de pau e ramos, formando um poço mais fundo. Brincar nos rios era o que mais preocupava nossas mães, pois o perigo, acompanhado do imprevisto, poderia ser fatal. Certa vez surgiu uma cobra dentro do poço e tamanho foram o susto e a pressa em sairmos da água que quase nos afogamos.
O futebol era o de que mais gostávamos. Às tardes, juntávamos as outras crianças para as famosas peladas. O campo ficava na várzea, logo abaixo da Casa Grande e antes um pouco da casa da Imaculada. Ao fim do dia estávamos exaustos e nossa preocupação era justificar o porquê da nossa demora em chegar em casa.
MEU PAI
Virgílio Ribeiro Bernardes, nasceu em Jesuânia, próximo a Carmo de Minas. Era um homem organizado, preparado, educado, lido e atualizado com a política e os homens de sua época, como Rui Barbosa, Artur Bernardes, Hermes da Fonseca e outros. Seu escritor preferido foi Coelho Neto. Antes de se casar, morou no Rio de Janeiro. Negociava com jóias e era bom nadador, coisas confirmadas por ele nos momentos de lucidez. Seu único vício era o cigarro.
Vindo passear na casa de uma irmã, a tia Melica, que morava logo depois da fazenda, nas Gabirobeiras, ficou conhecendo a que viria a ser minha mãe. Apaixonaram-se e, logo depois, se casaram. Ele, com quarenta anos e ela com trinta. Mamãe, nesta época, morava na Casa Grande, onde já era a principal dona da casa, depois da morte de minha avó. A fazenda, por ser muito grande e por ser de meu avô, sempre alojava alguns dos filhos casados, estando a casa sempre cheia, pois, além dos filhos e netos, ainda havia as visitas que eram constantes.
Meu pai, sistemático e organizado, não se acostumou com a confusão que reinava na Casa Grande. Resolveu então, com o apoio de meu avô, construir uma casa menor e para lá se mudar com a família. O local escolhido foi próximo à casa do Fonseca, logo após o rio e à esquerda da estrada.
Mudaram-se logo que a casa ficou pronta e, em pouco tempo, a morada ficou sendo a mais cobiçada dos Pintos. Tinha curral, paiol, chiqueiro, galinheiro e pomar com as mais variadas frutas e hortaliças, coisas que não existiam na fazenda. Ficou famosa, principalmente devido a duas parreiras que tomavam toda a frente da casa e estavam sempre carregadas com deliciosas uvas.
Após a mudança, meu avô, que se acostumara a viver com sua filha, a “Sá” Glória – como ele a chamava – não teve dúvidas. Deixou a Casa Grande que ele construíra e na qual vivera até então, para morar com meus pais. A afeição que tinha para com minha mãe não se alterou em nada, nem mesmo depois do casamento, por causa da amizade e estima que tinha para com meu pai.
A casa era em forma de espigão, duas águas, de uns doze metros por seis. Os quartos ficavam na lateral esquerda da casa, com as janelas de frente para o caminho. Do lado direito, na entrada, a sala de visitas, com porta para um quarto. Em seguida, a sala de jantar, com portas para os dois quartos, e, quase no final, à direita, a porta para a cozinha. Cinco anos depois, já abrigando meus pais, seus quatro filhos e meu avô, a casa tornou-se pequena demais. Meu avô sugeriu então a meus pais que vendessem a casa e comprassem ou construíssem outra. A moradia foi vendida à Carmita e meus pais compraram uma que pertencia ao Zotinho. Esta ficou sendo nossa casa definitiva, uma agradável fazenda, a maior depois da Casa Grande.
NOSSA PEQUENA FAZENDA
A casa de meus pais, nos Pintos, onde passei a maior parte de minha infância, ficava à esquerda, no começo de um monte logo após a junção dos dois primeiros córregos da várzea, que davam origem ao rio dos Pintos. Era a primeira a ser vista, antes mesmo de começar o vale. A casa, um sobrado muito grande, tinha uma escada na frente, de doze ou treze degraus e uma pequena sacada, onde ficava a porta principal, que dava entrada para a parte superior da casa. Após a porta, um corredor com uma porta à direita e outra à esquerda. A da direita dava para a sala de visitas, que era bastante espaçosa e tinha um quarto para dentro. A da esquerda dava para um outro quarto, e, no final do corredor, o salão de jantar, que se estendia à esquerda, com cinco janelas, duas no seu final e três para os fundos da casa. Na lateral esquerda do salão ficava o quarto de meus pais, com uma porta que levava a um quarto interno. No começo do salão de jantar, à direita duas portas que davam acesso a dois quartos e, em seguida, achava-se a porta para a cozinha que, depois de uma pequena área formada por uma despensa, abria-se para a direita, cpmpletando seu corpo de cinco metros por quatro. Aí ficava o fogão, que ia até a parte lateral da casa, seguido de uma janela. No começo da cozinha, à esquerda, tinham três janelas e, aos fundos, ficava a porta, que abria para um pequeno terreiro, tendo na sua frente a bica d’água e ao lado o forno, com sua boca para dentro da cozinha.
A cerca de trinta metros da frente da casa, foi construído um paredão com pedras superpostas. O paredão começava na porteira que dava entrada para o terreiro e para o pasto. Ele se prolongava à direita numa extensão aproximada de cinqüenta metros e por dois de altura e oitenta centímetros de largura, e escorava o terreno que compunha a frente da casa. Mais ou menos no meio dele havia uma curiosa escada, com três ou quatro degraus, feitos com as próprias pedras. As pedras deveriam medir um metro e trinta de comprimento, sendo que oitenta centímetros faziam parte do paredão, sobrando as pontas que eram os degraus. Do lado de baixo, antes um pouco da porteira, ficavam o paiol, o curral e o chiqueiro. Um pouco abaixo passava o córrego do moinho, que ficava em uma depressão. Na sua frente, logo na porta de entrada, em meio a um pedregulho, havia uma fileira de cinco pinheiros e entre os dois últimos o caminho que ia à casa e a outras benfeitorias. Os pinheiros, todos seculares, eram enormes. Suas raízes se espalhavam sobre a superfície da terra. Retos até quase a copa, onde seus galhos se entrelaçavam, todos tinham a mesma altura, formando assim uma só copada. Eram tão grandes – talvez os maiores dos Pintos – que, para abraçar os seus troncos, seriam necessários dois homens.
Os móveis da casa eram simples. No quarto da minha mãe havia uma mesa com um orifício no meio com uma bacia e um jarro de louça decorados, a cama de casal e uma cadeira. Nos outros quartos, além das camas, uma mesinha e uma cadeira. Na sala de visitas, uma mesa ladeada por seis cadeiras de palhinha e um porta chapéus. Na sala de jantar, uma grande mesa, tendo um banco de madeira em uma de suas laterais e na outra seis cadeiras e mais duas, uma em cada cabeceira. No canto, do lado direito, uma rede e, do lado esquerdo, entre a porta do quarto de meus pais e a janela, uma mesinha, onde havia sempre uma talha com água fresca. O resto do salão ficava todo vazio. No inverno, usava-se como lareira um tacho de cobre contornado por uma aba, com uns dez centímetros de largura onde se punham os pés. Enchia-se o tacho com brasas, aquecendo a família reunida a seu redor. Na cozinha, entre a janela e a boca do forno, havia uma mesa de bom tamanho e alguns bancos, sendo um deles mais leve, usado especialmente por meu avô. Era colocado sobre a taipa do fogão ou no terreiro, onde ele se aquecia ao sol.
A casa era toda forrada com réguas apropriadas e o assoalho tinha tábuas grossas e largas apoiadas sobre os barrotes, incluindo o da cozinha, que se destacava das de outras casas que eram feitas de terra batida. Nessa época, nos Pintos, não se faziam sanitários dentro das casas, usavam-se as moitas e os barrancos. Não existia água encanada e a luz era de lamparinas ou lampiões a querosene.
Apesar de todo este primitivismo, todos viviam felizes e eram livres como os pássaros. Eu, particularmente, me sentia sempre assim. Só não gostava das noites, pois não suportava a escuridão que me provocava um medo que não sei descrever.
A MULHER-DE-SETE-MAMICAS
Numa certa tarde, acompanhei o José Maria e o Henrique, que foram catar pinhões no pasto, a uns seiscentos metros da nossa casa, logo na virada do morro. No final do pasto havia uma mata que era separada por um valo e, junto ao valo, uma trilha por onde passavam os lenhadores. Junto com meus dois irmãos, eu catava tranqüilamente os frutos, colocando-os em uma cuia – vasilha muito usada nos Pintos. De repente, meus irmãos saíram em desabalada carreira, gritando morro abaixo e dizendo que a mulher-de-sete-mamicas tinha me pegado. Eu, atônito, sem saber o que estava acontecendo e vendo que alguma coisa vinha atrás de mim, balbuciando palavras que eu não entendia, lembrei-me da história que os mais velhos contavam. Segundo a lenda, uma Mulher, de sete mamicas, costumava aparecer vez por outra. Saía da mata e vinha até às proximidades da várzea à procura de um filho que havia desaparecido quando ainda o amamentava. Da minha casa, meus pais, meu avô e mais dois oficiais que estavam fazendo uns reparos na casa, viram meus dois irmãos correndo e aos gritos, dizendo que o bicho havia me pegado. Meu pai, até então indiferente a tudo, foi o primeiro a sair à minha procura. Logo na vertente do morro me encontrou e, desesperado, tomou-me em seus braços e apertou-me aliviado. Em seguida chegaram os dois camaradas que trabalhavam na casa, depois minha mãe e, por último, o meu avô. Não tardou para chegar o causador de tamanha confusão. Era um lenhador saído da mata, com um feixe de lenha às costas, cantarolando. O coitado, percebendo o medo que nos causara, tentava se aproximar, porém, quanto mais fazia mais nos amedrontava. Eu, já sem forças para correr, me sentia preso às garras da mulher-de-sete-mamicas. Não é precise dizer do alívio que senti, nos braços protetores de meu pai e cercado por todos que foram ao meu socorro.
AS DUAS VACAS
Lembro-me ainda hoje do cuidado e dedicação que tinha meu pai, não só com as pessoas como também com os animais. Ele tinha duas vacas de sua estimação, a Boa Vista e a Vírgula.
Certa vez, a Boa Vista, ainda novilha e prestes a dar cria, entrou na roça de milho de um seu conhecido. O malvado, sem nenhuma consideração para com meu pai e nem um pouco de sensibilidade para com a dor alheia e muito menos para com a de uma novilha que carregava na barriga sua primeira cria, teve a audácia de ir à nossa casa dizer a meu pai que fosse buscar a vaca que entrara em sua roça para comer o milho e fora castigada com uma foiçada na pata.
Meu pai, homem pacífico e já doente, teve um momento de cólera e quis estrangular seu vizinho. Contido por minha mãe e já mais calmo, saiu para buscar a vaca. Sua tristeza foi maior quando viu a Boa Vista ensangüentada e com a perna dependurada. O corte foi no tendão, entre as partes superior e inferior da perna direita. Com muito trabalho, conseguiu tirar sua novilha da roça, deixando-a sob uma paineira grande e cheia de flores, perto da nascente do córrego que levava água à nossa casa. Lá foram feitos os primeiros curativos com a ajuda de minha mãe. Colocaram uma tala com pedaços de taquara rachada ao meio, enfaixando com tiras de pano. Debaixo da paineira ela ficou por muitos dias, sem poder se locomover, sendo ajudada por meu pai que colocava a água e o capim ao seu alcance. Não faltaram conselhos para que sacrificassem a vaca, tal a gravidade do ferimento. A idéia, no entanto, foi repelida e meu pai tentou por todos os meios até conseguir a cicatrização do corte. Passados trinta dias, a Boa Vista já tomava água no córrego e pastava nas proximidades da paineira. Pariu uma linda bezerra, graças aos cuidados e à persistência de meu pai que, dia após dia, pela manhã e à tarde, ia fazer os curativos e tratar da sua novilha de estimação. Testemunhei todo este trabalho, pois eu e meus dois irmãos acompanhávamos meu pai quase todos os dias, principalmente depois do nascimento da bezerra.
A outra vaca era a Vírgula, chumbada de preto e branco, gorda e muito bonita, boa de leite e que tinha como cria quase sempre bezerros machos. Sua particularidade era o modo como se preparava e a proteção que dava ao bezerro, antes e depois de parir. Nunca vi vaca igual: parecia que raciocinava. Ouvia meu pai contar à minha mãe como era difícil encontrar a Vírgula e sua cria e como construía ela seu abrigo e escondia o bezerro. Geralmente, depois de amamentar a cria, a Vírgula saía da sua toca para pastar e beber água, nunca se afastando muito do filhote.
Foi na sua terceira cria que acompanhei meu pai à procura da vaca e do bezerro. A recomendação dele era a de que eu não poderia falar nem fazer qualquer barulho. Ele já conhecia as manhas da vaca e tomava então todas as precauções, sendo a mais importante a de que não se levassem cachorros. De longe, meu pai localizou a Virgula, passando a segui-la discretamente e, por muito tempo, sem que ela percebesse a nossa presença. Ela desceu até o córrego, bebeu bastante água e depois voltou pastando de um lado para o outro, olhando, observando. Abanava as orelhas e o rabo e só depois de alguns minutos aproximou-se do esconderijo. Parou, depois de uns segundos desapareceu junto a um capão de samambaias muito cerrado. Meu pai aproximou-se do samambaial e eu o acompanhei. Na parte cerrada do samambaial havia uma pequena abertura e lá estava a vaca, amamentando um belo bezerro. Quase não acreditei no que vi, tamanho foi o meu deslumbramento. Encontrei um círculo, todo desmatado e amassado, coberto com a própria rama da samambaia, entrelaçada, seca e com alguns talos grossos e fibrosos, com quase dois metros de comprimento, dependurados aqui e ali, no meio do círculo, e que foram arrancados pela Vírgula. Rompi o silêncio, perguntando ao meu pai quem havia feito aquilo. Ele, com sua simplicidade, respondeu:
– Foi a Vírgula. Das outras vezes que pariu fez a mesma coisa, dando-me muito trabalho para achá-la.
Outra coisa importante a ressaltar era o entendimento entre a vaca e o bezerro. Nos primeiros dias de vida, quando a vaca costumava esconder o bezerro, ela o deixava em lugar seguro, nunca se afastava muito do local e ficava a uma distância da qual pudesse ouvir seu vagido, caso houvesse alguma emergência. O bezerro, por sua vez, obedecia à sua mãe, ficando deitado no lugar deixado pela vaca e permanecendo silencioso e imóvel até que ela voltasse. Ele só berrava e saia do esconderijo no caso de ser surpreendido por algum inimigo, ou em razão e uma ausência muito prolongada da mãe.
A CASA GRANDE
Era um casarão ímpar na região, talvez um dos maiores do Estado de Minas. Não conheci outro igual em tamanho, localização e imponência. Não poderia nunca ter desaparecido.
A Casa Grande, sede da fazenda dos Pintos, foi construída por meus avós no século passado, com a ajuda dos escravos. De estrutura sólida, assentava-se sobre paredões com mais de três metros de altura por um de largura, compostos por pedras enormes, colocadas uma sobre as outras, em uma área de mais de mil metros quadrados.
Depois da volta do caminho, logo na virada do morro, uma porteira dava início à sede da fazenda. Logo após a porteira havia o terreiro da frente, que se prolongava até o final da lateral esquerda da casa, onde começava o curral. No inicio da casa, à direita, ficava a escadaria também de pedras em forma de lajotas, com degraus de quase um metro de largura por dois de comprimento, com um parapeito contornando toda a sua lateral e indo até a altura do paredão, que era a base da casa. No topo da escadaria estava a porta principal. Todo o conjunto constituía uma verdadeira fortaleza.
Sobre os paredões, repousavam enormes vigas de madeira de lei e sobre estas, o corpo da casa.
A cozinha ficava num plano mais alto, em um pequeno aterro. As esquadrias das portas e janelas eram verdadeiras vigas, tais as suas proporções. A sala de visitas, bastante espaçosa, tinha uma porta, logo á direita, que dava entrada ao salão de festas e reuniões. Em frente a entrada principal, havia mais duas portas que davam acesso a dois pequenos quartos. A esquerda da porta da entrada, duas janelas de frente para a entrada da fazenda. Em seguida se sucediam os quartos que iam até ao final da lateral esquerda da casa. Dois com portas para a sala de visitas, três com portas para um grande corredor e mais dois com portas para o salão de jantar.
O corredor, começava no final da sala de visitas e ia até ao começo do salão de jantar. Tinha, à sua esquerda, as três portas para os quartos da lateral da casa, e à sua direita uma parede que, nas suas costas, dava seqüência a oito pequenos quartos, quatro deles com portas para o salão de jantar, dois para a sala de visitas e mais dois para o salão de festas. Estes quartos eram sem janelas, separados ao meio por uma parede. Dos quartos para o salão de jantar, dois eram usados para guardar doces e quitutes nos dias de festa e quitandas, consumidas diariamente pela família e hóspedes nos dias áureos da Casa Grande. Os outros dois guardavam selas e outros materiais de montaria. Nos quartos com portas que davam para as duas salas, eram guardadas as imagens de santos, em tamanho natural, destas usadas em procissões: Jesus carregando a cruz, Nosso Senhor dos Passos, Nossa Senhora das Dores e outras mais. Todas, com cabelos desgrenhados, traduziam estados de dor e sofrimento. Os quartos eram tão escuros que, mesmo em dias ensolarados, não entrava claridade.
O salão de festas, com mais ou menos quinze metros por seis, ia desde a sala de visitas até ao final da frente da casa. Tinha três janelas para a entrada da fazenda e, ao fundo, mais duas, de onde se viam toda a várzea e o vale até ao seu final. Depois dos quartos escuros havia mais uma porta, dando entrada a mais um quarto, bastante amplo, com um outro para dentro, com janelas para a várzea, completando assim o corpo da casa. O salão de jantar, ainda maior que o salão de festas, tinha quatro janelas com frente para o terreiro dos fundos, que media cerca de trezentos metros quadrados, calçados com grandes pedras. Depois das janelas havia a porta de entrada para a cozinha. Antes, porém, um grande corredor, com uma despensa à direita e, no seu final, à esquerda, uma porta que dava para a área calçada com pedras. Após o corredor e a despensa ficava a cozinha. Esta, respeitável pelo seu tamanho, tinha um fogão enorme, bem em frente ao corredor. Depois havia uma grande mesa e em seguida a boca de um forno, também grande. Na lateral direita, de frente para o vale, localizavam-se duas janelas e uma porta, que dava saí o para um pequeno terreiro. A poucos passos da porta da cozinha, hávia o córrego. Para ser mais preciso, um riacho, tal a quantidade de água que corria entre as pedras e que abastecia a fazenda.
As senzalas, eu não conheci, mas sei que existiram. Sei também que meus avós eram bastante liberais, só castigavam um escravo em último recurso. Tanto é verdade que os libertaram antes da abolição.
Uma criança não tinha coragem de entrar sozinha no interior da Casa Grande nem mesmo durante o dia, tal o seu tamanho. Os quartos que guardavam as imagens eram assustadores e, à noite, assombravam os adultos e aterrorizavam as crianças. De uma extremidade da casa podia-se gritar à vontade sem ser ouvido na outra, principalmente na cozinha onde, geralmente, se concentravam as pessoas. O pavor que todos tinham justificava-se devido à escassez de luz, pois só existiam lamparinas ou lampiões a querosene. Havia também o porão, sujo e abandonado, com uma única entrada, bastante larga. Ficava bem debaixo das duas janelas do salão de festas e com frente para o vale. A claridade que entrava por sua abertura era insuficiente para clareá-lo. Aquele ambiente carregado e apreensivo tornava-se assombroso devido à presença de corujas e morcegos. Mas também tinha a parte cômica e amena. Entre as corujas, duas ou três eram mansas, gostavam de ser acariciadas e atendiam por seus nomes. Uma delas se chamava João.
Do lado de baixo da Casa Grande, havia um terreiro seco e árido, sem horta nem pomar, apenas uma jabuticabeira, digna de menção. O curral ia até ao moinho e o córrego. O paiol ficava logo depois de ambos. A água, depois de servir o moinho, corria entre as pedras, na parte plana e, logo em seguida, era dividida. Uma parte abastecia a Casa Grande, a outra corria por uma valeta até encontrar o rio que vinha da Toca e que passava nos fundos.
AS JABUTICABEIRAS
Eram duas as jabuticabeiras e deviam ser seculares. Tinham troncos enormes e copas em forma de imensos guarda-chuvas. A mais importante ficava na parte árida do terreiro, bem defronte à abertura do porão. Sua altura era tamanha que quase chegava ao telhado da Casa Grande. Seu tronco, do chão até aos primeiros galhos, tinha aproximadamente três metros de altura e era tão grosso que se abriu, formando um buraco onde se escondiam as crianças quando brincávamos de pique. Para galgá-la era preciso colocar um pranchão, com uma ponta no chão e a outra apoiada nos primeiros galhos. Quantas vezes ficávamos presos na jabuticabeira, sem poder descer, por causa da malandragem dos maiores, que retiravam o pranchão e só o recolocavam depois de muito tempo ou por ordem dos adultos. A outra ficava no pasto dos porcos, logo abaixo do paiol, em um buraco em forma de caldeirão cercado de montes por todos os lados. Os dois pés davam tanta jabuticaba que todas as pessoas dos Pintos e da vizinhança iam a Casa Grande chupá-las.
Uma coisa bastante estranha era a escassez de frutas na Casa Grande. Apenas jabuticabas. Nem mesmo o pêssego, fruta nativa dos Pintos, existia. Acho que meu avô não era muito chegado a frutas e hortaliças, e muito menos o meu tio Sebastião, o Tião, como era chamado por quase todos. O Tião apossou-se indevidamente da Casa Grande, de suas benfeitorias, pastos, matas e de quase tudo que nela existia, depois da saída de meu avô, que foi morar com meus pais, sem, contudo, deixar de ser o seu único dono.
MINHA AVÓ
Maria do Carmo Capistrano de Negreiros, conforme relato feito por minha mãe, era uma mulher inteligente, dinâmica e obstinada, mas obediente ao seu marido. Ela recebeu de seu pai, Luiz Capistrano, como herança, além de escravos, pratarias e cristais – como o espelho que deveria medir um metro e meio por um, do qual me recordo dependurado na parede do salão de jantar – as terras fabulosas que deram origem aos Pintos. Era casada com o Capitão Antônio José de Negreiros, homem que nada possuía, mas era preparado, dinâmico e idealista, além de ser muito teimoso.
Como dizia minha mãe, minha avó era uma mulher fina, educada e de muita pose e, ao contrário do meu avô, não tinha nenhum estudo, apenas assinava o nome. No entanto, tinha uma inteligência privilegiada. Recebia e mantinha diálogos com altas personalidades, tais como padres, bispos e médicos como era o caso do seu irmão, o médico Dr. Augusto Capistrano de Alkimim, e também seu genro.
Uma de suas particularidades era a religiosidade e a crendice. Sentindo-se inferiorizada perante o seu marido, o irmão e outras pessoas, fez uma promessa: pediu a Deus que lhe concedesse a graça de aprender a ler e caso fosse atendida em seu pedido, só leria livros religiosos. Foi atendida e cumpriu rigorosamente a sua promessa.
MEU AVÔ
Chamava-se Antônio José de Negreiros. Era homem letrado, alto, magro e já bastante curvado, de fisionomia austera, mas bondoso e muito humano. Barbas aparadas, brancas e cerradas, misturando-se com o bigode. Orelhas grandes, sobrancelhas compridas e espessas. Usava óculos de lentes bastante grossas e sua visão era prejudicada pela catarata. Andava sempre apoiado em uma bengala preta, de madeira envernizada, cujo punho era uma cara de cachorro com orelhas grandes e caídas. Morreu como um passarinho, com noventa e dois anos, deixando muitos netos, bisnetos e tetranetos. Uma de suas frases prediletas: minha neta, dê cá teu neto.
Ele gostava de todos os netos, mas parecia ter mais afeição pelos filhos de minha mãe, sendo eu o neto preferido. Todas as coisas boas que comia, partilhava comigo. Uma das coisas indispensáveis para ele, como sobremesa, era o leite tirado em duas vasilhas, com bastante espuma e tomado após o almoço e o jantar com farinha de milho. Participei com ele daquela sobremesa por muito tempo.
Meu avô acordava muito cedo, sendo quase sempre o primeiro a se levantar. Gostava que o fogo do fogão estivesse aceso. Após lavar o rosto, assentava-se em seu banco sobre a taipa, onde tomava café acompanhado de uma quitanda: biscoito de polvilho, bolacha ou bolo de fubá. Logo depois, já com o sol um pouco quente, saía para dirigir os trabalhos de limpeza da várzea. Quando ia a lugares mais distantes ou ia cuidar da manutenção da estrada, pegava seu cavalo, o Rucinho, que já estava arreado e à sua espera. O almoço e o café do meio-dia eram levados por um de nós ou por um camarada. Mas, por recomendação da minha mãe, voltava para casa antes do escurecer e já encontrava o jantar pronto. Nos dias que não tinha camarada e serviço determinado, ele próprio ia arrancar as pragas que apareciam nas proximidades da casa. Nos dias chuvosos e mais frios fazia suas refeições assentado sobre a taipa do fogão.
Meus avós não mediram esforços no aprimoramento e educação dos filhos, que estudaram nos melhores colégios da época, só não tendo feito o curso universitário.
Minha mãe e a tia Imaculada estudaram no internato do colégio de Mariana, considerado um dos melhores daquele tempo. Elas só iam à casa uma vez ao ano, dadas as dificuldades da viagem e da distância. O percurso era feito a cavalo e gastavam-se mais de trinta dias.
Ainda em vida, o casal fez um testamento deixando a cada neto cem mil réis, aos netos afilhados quinhentos mil réis e à filha Maria da Glória um conto de réis em terra. Como garantia, reservaram uma terça de seus bens que era a parte mais valorizada – a Casa Grande, sede da fazenda dos Pintos, toda a várzea, os pastos e matas que iam além da Toca. O testamento seria cumprido após a morte do último cônjuge. Foi nomeado como primeiro testamenteiro o filho Sebastião Capistrano de Negreiros e, como segundo e terceiro, respectivamente, o filho José Bruno de Negreiros e o genro João Gorgulho. Reservaram ainda mais de trinta alqueires na serra da direita, fazendo divisa com as terras de minha mãe e que seriam do último membro sobrevivente do casal, o qual seria também o responsável e dono da terça até à sua morte. O restante das terras – muitos alqueires – foram dados aos filhos. Minha mãe, por exemplo, ficou com mais de oitenta alqueires, mas teve quem herdasse mais de duzentos, talvez por serem mais distantes e de menor valor.
A POPULAÇÃO DOS PINTOS
Moravam nos Pintos três dos quatro filhos – minha mãe, tia Imaculada e o Tião – netos, alguns poucos ex-escravos com seus filhos, os colonos e todos que chegavam aos Pintos e solicitavam moradia. Tinham sempre o consentimento do meu avô e assim construíam suas casas, cercando uma pequena área em volta. Podiam ter um cavalo, uma vaca, galinhas e porcos. Todas as criações ficavam soltas na várzea e viviam como em uma comunidade. Não existiam cercas, exceto as que separavam a várzea das terras de cultura. A única condição imposta aos moradores pelo meu avô era a de que dessem dois dias de serviço ao mês e que consistiam na limpeza da várzea e na manutenção da estrada dos Pintos a D. Viçoso, trazendo assim benefício a todos. De seus descendentes nada era exigido.
A UNIÃO DOS IRMÃOS
Conheci e convivi com três dos irmãos da minha mãe: o Tião, assim chamado por todos os sobrinhos, o tio Zé Bruno e a tia Imaculada. Fui testemunha da união e amizade que existiam entre eles e do respeito que tinham para com o meu avô. Digo respeito porque a dedicação ficava por conta de minha mãe, com quem meu avô morou até à sua morte. Eles se encontravam diariamente, menos o tio Zé Bruno que morava no Rosário e ia aos Pintos uma vez por semana, no sábado ou domingo. O Tião, por seu poderio e sua importância ou pelo seu fascínio, exercia poder de mando sobre os demais. Talvez por ser o mais velho dos quatro ou, quem sabe, por ser o primeiro inventariante da terça deixada em testamento e das terras que ficaram para meu avô.
Era moreno, pequeno, cerca de um metro e sessenta e deveria pesar uns sessenta quilos. Tinha bigodes e sobrancelhas grandes e já o conheci ligeiramente grisalho e curvado. Era agradável, envolvente e também mandão. Político e muito inteligente, chegava a ser vaidoso. Era respeitado e temido por todos. Contemporâneo de Rui Barbosa, era seu admirador. Era o líder dos Pintos e tinha influência também no Rosário, Carmo de Minas e Cristina. Duas coisas ele não dispensava à noite e que ficavam sempre na mesinha de cabeceira: a garrafa térmica com o café e os cigarros de palha. Ele fumava muito e a Tia Ita também.
O Tião casou-se três vezes. Sua primeira mulher chamava-se Maria José e era irmã do tio João do Morro – João Gorgulho. Desta união nasceram, Zotinho, Goica, Garotita, Niquinho, João Negreiros e José Bartolomeu. O segundo casamento foi com sua prima Lavinha, filha do tio João Negreiros, que era irmão do meu avô e que morava em São Lourenço. Deste matrimônio nasceram o Erasmo, que morreu ainda pequeno, e o José Maria Negreiros. Finalmente, o casamento com sua sobrinha e ex-cunhada, a tia Ita, de cuja união, nasceram o José Augusto, a Maria José, o Afonso, o Tomaz e Maria Tereza.
O tio José Bruno era bondoso, sério e discreto. Desencantado com as coisas dos Pintos, afastou-se, talvez para não entrar em choque com o Tião. Era casado com tia Marica, de uma família de Virgínia e que tinha um péssimo vício: cortava um pedaço de fumo, colocava na boca e mascava o dia todo. Era repugnante vê-la mastigando aquele pedaço de fumo, arrastando os pés de um lado para outro. Tiveram sete filhos: Conceição, Ordália, Carminha, Geraldina, Benedita, Antônio Bruno e Lourdinha.
O tio José Bruno vendeu as terras que recebeu de herança nos Pintos, mudando-se para o Rosário, onde viveu o resto de sua vida. Era o capitalista da família. Diziam que possuía mais de cem contos de réis, naquela época uma fortuna. Tornou-se uma espécie de agiota. Enquanto meu avô era vivo, ia muito aos Pintos.
Usava um lenço branco, muito limpo, passado embaixo do queixo tampando as duas orelhas e com as pontas amarradas no alto da cabeça. Certa vez, perguntei à minha mãe por que o tio José Bruno usava aquele lenço. Ela, sem subterfúgios, me respondeu:
-“Foi um acontecimento muito triste meu filho. Quando já morava no Rosário, conheceu um casal, cujo marido era muito ciumento. Um dia o Zé Bruno foi buscar um cavalo no pasto e, quando passava perto da casa do casal, foi chamado pela mulher, que chegou à porta e pediu para ele entrar um pouco, pois ela estava com problemas e precisava de seus conselhos. O Zé Bruno entrou, sem saber que se tratava de uma cilada. O marido que estava escondido atrás da porta, desfechou-lhe um golpe com um facão afiado arrancando uma de suas orelhas.”
Terminada a triste e espantosa narração, atônito, olhei para minha mãe e vi que ela estava com os olhos cheios d’agua. Disse-me então que ele era inocente.
Afastado da igreja por muitos anos, pouco antes de morrer confessou ao padre sua inocência, autorizondo-o a revelar sua confissão, depois de sua morte.
MINHA MÃE
A penúltima da prole era chamada “Sá ” Glória pelo meu avô, de Glorinha, pelos irmãos e, de tia Glorinha, pelos sobrinhos, sobrinhos-netos e toda a geração que conviveu com ela. Viveu por muitos anos, cercada do carinho de todos, principalmente dos sobrinhos, filhos da tia Imaculada. Morreu em Belo Horizonte, com noventa e um anos, na década de setenta.
As primeiras impressões que tive foram as de que ela tinha tido uma vida de baronesa, tal a sua postura. De estatura média, não muito gorda, vaidosa e elegante, vestia-se muito bem. Conviveu com os escravos e tinha a sua mucama, que continuou com ela até mesmo depois da abolição da escravatura, ainda na sua juventude. Afinal, era neta de um Capistrano, possuidor de uma das maiores fortunas da região, cujas terras começavam na Estação de Pouso Alto, estendiam-se por quilômetros e quilômetros, passando por D. Viçoso e indo além da fazenda dos Pintos.
Nos primeiros anos de casada teve a vida que pediu a Deus. Meu pai ainda era sadio e ela dizia que ele era o melhor dos maridos. Teve, além de mim, mais sete filhos, três mais velhos do que eu: o José Maria, a Maria do Rosário e o Henrique; – e quatro mais novos: a Maria do Carmo, o Remijo, a Maria Esméria e o Manoel.
No entanto, após o surgimento da doença de meu pai, sua vida começou a mudar, com os filhos para criar e educar e mais o meu avô para cuidar. Cheia de problemas e dificuldades, fazia freqüentes mudanças, buscando a cura de meu pai, mas tudo era em vão. Até se adaptar à situação adversa e tomar suas próprias decisões, já estava tudo perdido, restando apenas terras abandonadas e dívidas a pagar.
Tia Imaculada: Era a caçula, cerca de um ano mais nova que minha mãe. Casou-se com menos de vinte anos, com o João Gorgulho, conhecido como João do Morro. Ele era seu cunhado casado primeiramente com a sua irmã, a tia Quinhinha, que morreu logo após o casamento, sem deixar filhos. Com a tia Imaculada o tio João teve muitos filhos: José Gorgulho, Antônio Gorgulho, Carma, Glória, Rafael, Gabriel, Miguel, Catarina, Maria e Zuzu, além de dois que morreram ainda pequenos.
Tia Imaculada, mulher magra, irrequieta, muito hábil e inteligente, por demais religiosa, chegou mesmo a ser carola. Catequista por convicção, tinha muita facilidade para transmitir seus ensinamentos. Era a “tia Culada” da criançada. Todos nos Pintos da minha geração, crianças ou adultos, sobrinhos ou não, devem ou deveram a ela um pouco do que sabem, principalmente no que diz respeito à religião ou à Bíblia. Aos domingos, por volta das duas da tarde, reuníamos-nos em casa para o catecismo. Era uma reunião espontânea que durava cerca de uma hora. Primeiro, era dada uma aula de religião e depois, ela contava uma história da Sagrada Escritura deixando sempre o final para o domingo seguinte, criando natural expectativa. Ao término da reunião, distribuía laranjas ou balas. As reuniões eram feitas no porão de sua casa.
Morreu bem antes de minha mãe, em São Lourenço. A Igreja e o Cemitério dos Pintos são frutos de seu trabalho e persistência.
Alguns irmãos de minha mãe não cheguei a conhecer: tia Quinhinha, que foi a primeira mulher do tio João do Morro e não deixou filhos; a tia Antoninha, casada com um português; tio Manduca, seus filhos: Carminha, Augusta, José Olegário, Ciro, Zacarias, Pequetita, Bolinha, Santinha, Idália e Basilissa; a tia Manoela, que se casou com o Dr. João Braúlio de Vilhena, deixando, como filhos, a tia Ita, Zé Bráulio, Zezé, Toniquinho e a Das Dores; o tio Joãozinho, que era casado com a tia Marica Paiva e teve dois filhos, Geraldo e a Cão; a tia Aluna – parece que era a filha mais velha do meu avõ – que era casada com seu tio, Dr. Augusto, médico e irmão de minha avó, do qual teve três filhos, o Monsenhor José Augusto, a Jesus e Joaquim que era farmacêutico; o Tio Joaquim, primeiro marido da tia Ita, que deixou duas filhas, a Sinhá e a Inês.
FREI CAMILO
Frei Camilo era um franciscano alemão, altura média, um pouco obeso, usava sempre uma batina marrom que arrastava no chão e era presa à cintura por um cordão branco e grosso, com as pontas caídas para o lado esquerdo, além de um crucifixo à altura do peito. As sandálias franciscanas, com tiras em couro, bem largas, eram artesanais. Parecia mais um mascate do que um missionário. Viajava em um burro tordilho, quase preto, alto e elegante, que não era bravo, mas traiçoeiro e refugador, se espantando com qualquer coisa que aparecesse em sua frente. Chamava-se Mimoso e era o seu burro de sela. Possuía ainda um burro cargueiro, o Redondo, cujo nome traduzia o seu porte. Era um burro castor claro, com uma listra branca que começava na parte de baixo do pescoço, indo até ao final da barriga. Era baixo, curto e gordo. No seu lombo Frei Camilo transportava as mais diversas bugigangas e mercadora: terços, crucifixos, medalhas, santinhos, livros de orações etc.
Não sei como o Frei Camilo descobriu os Pintos e em que circuntância conheceu nossa família, mas, dada a hospitalidade e a religiosidade de meus avós, suas idas aos Pintos tornaram-se freqüentes e em muito pouco tempo ele passou a ser um membro da família.
Tendo ido à Alemanha a passeio, retornou ao Brasil trazendo consigo dois sobrinhos e um primo: Carlos, Rodolfo e o Augusto que, logo de início, como não podia deixar de ser, instalaram-se na Casa Grande, nessa época já habitada pelo Tião. O pouco que falavam de português foi ensinado por Frei Camilo, o resto aprenderam com a nossa família.
Frei Camilo não perdeu tempo. Arranjou logo as noivas para os três alemães, pois queria vê-los casados para que pudesse continuar com suas andanças. Poucos meses depois já estavam todos casados: Carlos, com a Carmita, filha do Tião, o Rodolfo, com a Carma, filha da tia Imaculada e o Augusto, com a Sinhá, filha da tia Ita, do seu primeiro casamento. A cerimônia foi celebrada no salão de festas da Casa Grande, por um padre amigo da família. Todos se casaram no mesmo dia. Foi uma festança, a última merecedora de registro.
Frei Camilo deixou aos sobrinhos seus burros, o Redondo para o Carlos e Mimoso para o Rodolfo e, após algum tempo, desapareceu, não retornando mais aos Pintos.
OS TRÊS ALEMÃES
Do Carlos lembro-me pouco, sei que era mais velho que o Rodolfo e não se parecia nada com o irmão. Era baixo e de fisionomia triste, mas bondoso. Morreu três ou quatro anos depois da vinda para o Brasil, deixando a Carmita viúva e com dois filhos, Eduardo e Alda.
O Rodolfo, o mais novo dos três, era um alemão alto, moreno e simpático, muito inteligente, calmo e sossegadão. De tudo entendia um pouco, estava sempre inovando e inventando coisas. A Carma parecia ter sido feita para ele calma e desligada, morena, alta e um pouco gorda. Tiveram cinco filhos: Justina, Elza, José, Diva e Sebastião.
Finalmente o Augusto, o terceiro dos alemães, foi o que mais tempo viveu. Era louro, baixo, forte e tinha pernas curtas. Dizia que tinha participado da primeira Guerra Mundial, contava coisas horríveis, principalmente da escassez de comida e das vezes que tinham que comer carne de cavalo. Apesar de ter participado da guerra, não ficou com nenhum trauma, ao menos aparentemente. Era saudável, trabalhador e vivia apressado. Ele e a Sinhá formavam uma boa dupla: ela também era baixa, um pouco gorda e ruiva. Foram morar na casa que deveria ser herança do tio Joaquim. Ficava quase no final de várzea, fazendo divisa com as Gabirobeiras. Tiveram vários filhos, sendo os mais velhos o Joaquim e a Carolina.
O Carlos e o Rodolfo construiram suas casas no Canelá, a cerca de sete quilômetros da Casa Grande e depois da Toca. O acesso era ruim, apenas uma trilha. Depois que se atravessava o rio, na Toca, subia-se até o ponto mais elevado e, logo na virada, ficava o Canelá, uma bacia cercada por montes e a serra da esquerda. Ao fundo corria o rio, que ia desaguar no rio dos Pintos, logo depois da Casa Grande. Um lugar, a meu ver, feio, frio e sombrio e de noites muito escuras. As casas eram de pau-a-pique, barreadas como quase todas as outras, mas cobertas com folhas de zinco. Quando chovia, principalmente granizo, o barulho era tão intenso que parecia que o mundo ia desabar e as noites tornavam-se um horror.
Foi depois da mudança dos dois alemães para o Canelá que fiquei conhecendo aquele lugar tão isolado e que tanto me amedrontava. As minhas idas à casa do Rodolfo tornaram-se freqüentes e, com o tempo, o Canelá ficou familiar, tanto para mim como para o meu irmão Henrique e meu primo, o Zé Augusto, pois Carlos era seu cunhado. Os três éramos inseparáveis e muito estimados pelos alemães, que ficaram pouco tempo no Canelá.
O Rodolfo, com a morte do seu irmão, que deixou um casal de filhos ainda muito pequenos, o Eduardo e a Alda, ficou desesperado e muito nervoso: achava que o irmão ia aparecer como um fantasma para pedir ou dizer algo. Antes da morte de Carlos ele teve vários avisos. Tendo levado o irmão doente para o Rosário, de volta, no caminho, sentiu uma cerca balançar; à noite, já deitado, teve a impressão de que a porta do quarto se abriu e o irmão chegou à beira de sua cama chamando-o. Logo que amanheceu, voltou para o Rosário, ficando junto ao irmão, que faleceu naquele mesmo dia.
O COBREIRO
Diziam que o cobreiro era uma doença produzida pelo contato da roupa no corpo, se sobre ela houvesse passado cobra ou sapo. O certo foi que eu a contraí e foi para valer. Foi a doença mais grave que tive. Eu devia estar com mais de sete anos quando apanhei a doença no pescoço. A crença popular era a de que se o cobreiro se alastrasse chegando até a nuca, a morte seria fatal. A doença deveria ter sido transmitida por sapos, com os quais eu gostava de brincar: não só os pegava para jogar nos outros como também os colocava em minha cabeça. O cobreiro era uma espécie de ecsema, coçava e minava sem parar. Tomou quase todo o meu pescoço faltando apenas a nuca para o desfecho final.
Remédios e rezas não adiantaram e minha mãe, desanimada, apelou para a benzedura. Foi a Carma, irmã do Miguel, a benzedeira providencial. Ela estava morando na casa do Antônio Gorgulho, que ficava entre a estrada e o rio, na beira do primeiro córrego, depois do encontro dos dois rios. O córrego de águas límpidas e geladas passava ao lado da casa, entre umas laranjeiras. A simpatia tinha que ser feita antes do romper do dia, logo ao amanhecer. Para facilitar, passei a dormir em sua casa. Levantávamo-nos antes do dia clarear, eu meio adormecido e quase encarangado pelo frio que fazia.
Chegávamos à beira do córrego e eu, sem camisa, agachava ou ajoelhava para que a Carma fizesse a benzedura. Ela pegava um galho da laranjeira com folhas bem tenras, de preferência com flores, mergulhava-a naquela água fria e virgem que descia da serra e borrifava sobre todo o cobreiro, repetindo o ato três vezes. Fazia orações e, cada vez que mergulhava o ramo na água, dizia: – “água, leva consigo este cobreiro, teimoso e malvado”. A operação foi feita por vários dias, até que, pouco a pouco, o cobreiro começou a secar e foi diminuindo gradativamente. Dentro de dois ou três meses desapareceu, sem deixar nenhum vestígio em meu pescoço.
Coincidência ou não, o certo foi que este mesmo córrego que me curou do cobreiro e salvou minha vida, quase me tragou com suas águas. Foi em uma tarde chuvosa, quando eu e minha mãe voltávamos para casa, quase ao escurecer. Eu, que deveria acompanhá-la, atravessando na parte mais rasa e com a água esparramada não o fiz: pulei na parte mais estreita e caudalosa, desiquilibrei-me e caí. Como o córrego estava cheio com a água da chuva, quase fui levado pela correnteza. Minha mãe correu em meu socorro e, depois de muito custo, conseguiu agarrar-me pelos cabelos, antes que eu me afogasse.
A REVOLUÇÃO DE 1930
A Revolução de 1930 também passou pelos Pintos. Não sei como, por que e nem de onde veio, mas, num belo dia, inesperadamente, apareceu uma unidade da Polícia Militar de Minas Gerais, comandada por um tenente, todos a pé, exaustos e famintos. Acho que estavam perdidos e queriam chegar a Itajubá onde encontrariam o grosso da tropa, para então seguirem até Piquete, onde combateriam os paulistas. O aparecimento dos soldados nos Pintos foi um Deus nos acuda, todos ficaram apavorados, uma correria sem precedentes. Os Pintos, sendo um lugar pacato e de difícil acesso, com pequena população, não estava acostumado a ver soldados, muito menos com fuzis e baionetas. O pânico foi tamanho, que o Fonseca, casado com a Carminha, sobrinha da minha mãe, na pressa de fugir, acabou-se atolando no brejo que ficava no fundo de sua casa, sendo socorrido pelos próprios soldados. Outros se embrenharam nas matas, só retornando no dia seguinte. Depois do susto e esclarecida a presença dos soldados, a calma voltou aos Pintos. Foi-lhes oferecido um bom jantar, pernoitaram e, no dia seguinte, já descansados, seguiram para Itajubá. Partiram bem cedo, pois ainda tinham pela frente uma boa caminhada.
ASSOMBRAÇÕES
Nos Pintos, ao chegar à noite, o ambiente tornava-se propício às assombrações. A Casa Grande apavorava pelo seu tamanho e pelo aspecto sombrio. As Voltas do Caminho, por suas cavidades e escuridão – duas eram especialmente famosas e muito temidas: A primeira, a Volta Funda ou Volta do Caminho, propriamente dita, começava a uns cem metros da casa da Carmita, estendia-se por cerca de trinta metros e terminava logo no início do caminho que levava à Casa Grande. Era formada por dois barrancos pardacentos e argilosos, que corriam paralelos, sendo o da esquerda mais alto. O da direita, tinha três ou quatro cavidades por onde passavam pequenos animais ou uma pessoa magra. À noite, quando a estrada desaparecia na curva, a escuridão era grande. Nas noites de luar, as sombras formavam figuras assombrosas, que variavam de acordo com a imaginação e o medo de cada um. Era quando apareciam os fantasmas, uns após os outros.
Foi numa noite de luar, na Volta do Caminho, que Henrique, Zé Augusto e eu tivemos a idéia de assombrar alguém que vinha em sentido contrário. Estávamos na casa da Goíca, irmã do Zé Augusto por parte de pai e que, naquela época, já morava com a Carmita. Ela estava com visitas e precisava de um colchão a mais. Mandou então que fôssemos à Casa Grande buscar um emprestado. Já passava das oito horas, quando trazíamos o colchão de casal, revestido de pano bege com listras pretas, cheio de palha de milho, rasgada. Quando nos aproximamos da Volta do Caminho, vimos um vulto de homem e tivemos a tenebrosa idéia. Agachamos um atrás do outro, coloca-mos o colchão sobre nossas cabeças, com as laterais arrastando no chão e caminhamos lentamente dando a impressão de que era um caixão de defunto se locomovendo. À medida que andávamos, o homem, visivelmente inseguro, chegava perto. A brincadeira só não teve um desfecho mais emocionante porque não tivemos a paciência de esperar mais um pouco. Temendo que o homem estivesse armado e pudesse atirar em nós, levantamos e reconhece-mos o Rodolfo, e ele a nós. Foi com alívio, a voz ainda trêmula e aquele sotaque caregado dos alemães que ele disse: “Ah, Henrique, eu já ia correr…”
A segunda Volta temida era a Volta da Henriqueta, onde havia uma cruz, no barranco, do lado de cima do caminho. Ficava no cruzamento em direção à Casa Grande. Segundo a história, contada pelos mais velhos, a escrava Henriqueta, envergonhada por ter sido castigada, suicidou-se, amarrando um cipó no pescoço e dependurando-se numa árvore, local onde foi colocada a cruz com uma coberta protegendo-a e que era conhecida por todos nós. A Volta, depois da morte da escrava, passou a ter o seu nome. Segundo os mais fantasiosos, a escrava Henriqueta, nas noites mais escuras, saía da Casa Grande, envolta num lençol branco e ia até a cruz, pedindo socorro às pessoas que passavam pela estrada.
O REDONDO
O burro de carga que o Frei Camilo deixou para o sobrinho Carlos, após sua morte ficou para a Carmita, que o vendeu à minha mãe. Eu e o Henrique ficamos doidos para ir buscá-lo. Ele estava muito longe, no Lourival, que ficava entre os Pimentas e o Canelá e que naquela época era muito isolado e habitado por lobos, veados e até onças. Minha mãe tinha receio de que fôssemos sozinhos, mas, para não nos contrariar, deu-nos permissão desde que, antes, cortássemos os cabelos com o tio João do Morro.
No dia seguinte, logo após terminarmos nossas obrigações e tomarmos o nosso café com leite e farinha de milho, como era de costume, fomos ao tio João, de cabresto e pente na mão e pedimos a ele que cortasse rapidamente nossos cabelos, no que fomos prontamente atendidos. Em seguida fomos ao Tião, que estava morando na casa que era da Sinhá, para buscar o Zé Augusto e irmos juntos procurar o Redondo. Sem dizer nada a seus pais, saímos com ele em direção ao Lourival, passamos pela Toca, pegamos o caminho do Canelá morro acima, até chegarmos à virada do monte, de onde se avistavam as casas dos alemães, que já estavam abandonadas e serviam de abrigo aos animais. Logo na virada, no início da baixada, descia o rio em cuja margem esquerda havia um cocho, onde se punha sal para o gado. Atravessamos o rio com a água acima dos joelhos, na esperança de que o burro estivesse naquelas imediações. Ao invés do burro, estava um lindo veadinho que, com a nossa aproximação, levantou a cabeça, com as orelhas em prumo, olhou-nos por alguns segundos e, em seguida, saiu em disparada, desaparecendo na mata. Depois da surpresa e admiração, voltamos à procura do Redondo. Apesar do adiantado da hora – mais de três da tarde – e da fome com que nos encontrávamos, não desistimos, pois, queríamos achar o burro de qualquer jeito. Voltamos, atravessamos novamente o rio de águas frias e cristalinas, retornamos ao caminho e chegamos às casas em ruínas. Primeiro a do Rodolfo, depois à do Carlos. Elas ficavam a uns cinqüenta metros, à direita do rio e no final da parte plana, cercada de montes e com a serra ao fundo. O rio, nesta altura, era encachoeirado. Passamos sobre ele em um pau roliço, pegamos um trilho no meio da relva quando, então, vimos um pessegueiro com frutos pequenos e avermelhados. Com aquela fome, corremos como loucos até a ele, mas tivemos uma grande decepção: os pêssegos estavam duros e verdes. Continuamos no caminho morro acima, quase a pique e, à medida em que caminhávamos, a mata de adensava e o trilho desaparecendo. Com o sol quase sumindo entre as árvores, chegamos ao topo do morro, um pequeno planalto, entre o Canelá e os Pimentas, local onde deveria estar o burrinho. Já quase escuro, na mata espessa e com os olhos mais aguçados, achamos o tão desejado Redondo, mas, não conseguimos pegá-lo. Só nos restavam duas opções, antes que ficasse completamente escuro: desistir do burro e voltar pelo mesmo caminho ou acompanhar o Redondo, que descera pelo lado direito do monte e possivelmente sairia na Toca. Não tivemos dúvidas, acompanhamos o burrinho, embolados, um após o outro, morro abaixo, ao lado de uma grande laje, por baixo do mato e no meio dos espinhos. Mais rolando do que caminhando, chegamos a uma grota profunda e no seu final, encontramos o rio que haviamos cruzado por três vezes. Já noite e tendo perdido o burro novamente, examinamos o local e concluímos que estávamos bem perto da Toca. No fundo da grota havia uma pequena clareira e logo em seguida o rio. Tentamos achar o caminho e sair daquele lugar, cercado de obstáculos por todos os lados. Queríamos atravessar o rio para ganhar o pasto e subir em linha reta até o caminho que ía do Canelá até a Casa Grande. Devido a correnteza e ao barulho das águas que caíam nas cachoeiras, isso não foi possível. Sem enxergarmos nada naquela escuridão, voltamos com dificuldade para dentro da mata. Foi quando o meu irmão Henrique, com a tranqüilidade de um menino adulto, disse:
– “Não há jeito, temos que passar a noite aqui e esperarmos o dia clarear”:
Zé Augusto, com a voz grossa e um pouco rouca, protestou:
– “Está louco, Henrique? Neste mato cheio de bichos e até mesmo com onças? Isso nunca!”
Meu irmão, com toda calma e procurando nos tranquilizar, respondeu:
– “Não, Zé Augusto, nada vai nos acontecer, a não ser o frio que pode nos incomodar, e não temos como evitar. Estamos sem sapatos e com calças curtas, sem poder tirar o paletó, pois os braços ficariam descobertos”.
Eu, que conhecia muito bem meu irmão, sabia que ele estava falando sério. Sorrateiramente comecei a procurar um lugar para ficar entre os dois. Tive a impressão de que estávamos sobre uma pedra, onde mal caberiam os três. Assim, marquei o meio e fiquei firme, sem arredar o pé. Zé Augusto acabou concordando, mas queria ir para a clareira. Eu e o Henrique preferíamos ficar embaixo das árvores, onde estaríamos mais protegidos do sereno e do vento, mas, para satisfazê-lo, concordamos. A situação era tão dramática e a escuridão tão intensa, que não tivemos como sair daquele lugar. As laterais da pedra, com o capim e as folhas caídas das árvores, estavam tão frias que pareciam molhadas. Frente à situação, irreversível, tratei de assegurar o espaço do meio, pois me sentia mais protegido ficando entre os dois. Deitamos para descansar e tentar dormir um pouco. Foi impossível. O frio e o medo eram intensos. A noite foi longa e cheia de suspense. Qualquer barulho provocado pelo vento, por algum bicho, o pio de algum pássaro ou ainda o movimento de sombras que apareciam com o balanço das árvores nos dava a sensação de que íamos ser devorados por um animal, ou outra coisa qualquer. Durante toda noite, Zé Augusto, que estava do meu lado direito, não parava, por um só instante, de pedir para que eu trocasse de lugar com ele. Pela ordem natural das coisas, eu deveria deixá-lo ficar no meio, pois ele era o mais novo dos três. Mas, morrendo de medo, não quis saber de conversa: permaneci imóvel, amparado como estava pelos dois, do frio e do medo. O Henrique não demonstrava nenhum medo, pedia-nos calma e paciência. O alívio foi imenso quando rompeu a aurora, expulsando a escuridão daquela noite que parecia interminável. Sentimo-nos salvos e inteiros e demos Graças a Deus por ver terminada aquela aventura. Tratamos de achar o caminho e foi com espanto que vimos o trilho que se achava aos nossos pés, mas coberto por uma fina relva. Não pensamos mais no Redondo, nossa preocupação era chegar à casa. Sabíamos que minha mãe estava muito preocupada e tia Ita, de resguardo de sua última filha, a Maria Teresa, também. Se ela soubesse que o Zé Augusto não tinha dormido em nossa casa, poderia ter uma recaída. Viramos o espigão, descemos em desabalada carreira e quase chegando aos pessegueiros que ficavam perto da Toca, dei falta do pente que estava no meu bolso. Voltamos para procurá-lo, apesar dos protestos do Zé Augusto. Felizmente o encontramos logo e retomamos o caminho de casa.
Quando chegamos à Casa Grande, ainda antes de romper o sol, o João Negreiros já ia começar a tirar o leite. Muito espantado com nossa presença àquela hora, foi logo perguntando por que estávamos ali. Ele foi o primeiro a saber da nossa aventura. De lá fomos direto para a nossa casa. Eu e Henrique tínhamos consciência da preocupação de nossos pais e irmãos. Meu avô não tinha notado nossa ausência. Os pais do Zé Augusto, como havíamos suposto, também não, pois pensavam que ele estava dormindo em nossa casa. Foi entre abraços, risos e choros de minha mãe que fomos recebidos. Mamãe mandou imediatamente avisar a tia Ita, antes que ela ficasse sabendo por outras pessoas, antes mesmo que os moradores dos Pintos tivessem conhecimento de nossa proeza.
Meu irmão José Maria e o Miguel Gorgulho, que deveriam, ambos, estar com quinze anos, portanto cinco mais que eu, riram e criticaram-nos por não termos trazido o Redondo e ainda termos ficado perdidos no mato. Dias depois eles foram buscar o burrinho, após darmos todas as dicas. Saíram cedo e também quase se perderam. Num dado momento, segundo eles, desnorteados e sem saber onde estavam, desistiram do burro e passaram a procurar o caminho de volta, não encontrando. Por sorte, o burro reapareceu e eles é que seguiram até os pessegueiros e dali à Casa Grande. Assim a situação se inverteu: eles que foram buscar o Redondo, acabaram sendo trazidos de volta pelo burro.
AS MUDANÇAS DE MINHA MÃE
Foram inúmeras as vezes em que minha mãe ia passar uns tempos no Rosário e em São Lourenço, principalmente no Rosário, onde chegamos a ter duas casas, grandes e confortáveis. Quando ia para São Lourenço, ficávamos na casa do tio Zeca, irmão de meu pai. Ele era viúvo e sem filhos. A casa era de tamanho regular, com um pomar muito bom. Ficava no Bairro Carioca, bem no topo do morro, com a frente para São Lourenço Velho. Ele tinha um excelente pasto, com um bom gado Gersey. Titrava bastante leite, que vendia ou do qual fazia manteiga ou queijo. Criava galinhas de raça, gostava de bons cavalos e, todas as manhãs, levava-os ao Parque das Águas para serem alugados aos veranistas. Na seca, levava o gado para os Pintos, onde tinha muito pasto, e também a palhada que ficava depois da colheita do milho.
As andanças de minha mãe começaram depois da doença de meu pai. Ele ficava nervoso, cheio de manias e agressivo. Minha mãe sentia-se mais segura perto do cunhado, o Tio Zeca, a quem meu pai respeitava mais. Ela nunca media sacrifício em busca da saúde de meu pai e também de nossa educação, chegando a ser censurada pela família. Tudo que foi possível ela fez, e até mesmo o quase-impossível, internando-o em São Paulo. Mas era tudo em vão.
Com as freqüentes mudanças e o abandono das casas e dos terrenos, tudo foi desaparecendo: gado, porcos, plantações e outras economias. Não eram poucas as críticas dos parentes, principalmente as do Tião, em quem ela mais confiava e a quem entregava seus negócios.
Uma das estadas mais prolongadas em São Lourenço ocorreu quando meu irmão José Maria foi acometido de uma enfermidade na perna, chegando a ter de usar muletas. Nesta ocasião, havia um médico muito famoso em São Lourenço, o Dr. Salgado, que tratou por vários meses do José Maria, curando-o completamente. Tratou também de meu pai, infelizmente sem nenhum resultado.
Meu irmão Manoel foi o único que nasceu em São Lourenço, na casa do tio Zeca. Depois do seu nascimento, minha mãe passou a morar em casas alugadas e sempre no Bairro Carioca. Foi quando começou a levar uma vaca dos Pintos, que ficava no pasto do tio Zeca. Com isso ela garantia o leite em nossa casa, sem maiores despesas. A vaca era emprestada pela tia Imaculada, melhor dizendo, pelo Rafael que nesta época havia assumido o papel de chefe da casa, auxiliado pelo Gabriel e Miguel, devido a enfermidade de seu pai, o tio João do Morro, que ficava sempre em um canto da cozinha, de onde quase não saía.
O responsável por levar a vaca para São Lourenço e trazê-la de volta aos Pintos, quando desmamasse, era o Henrique, auxiliado por mim. Gastávamos três dias, pois não podíamos forçar o bezerro, que era sempre novo. No primeiro dia íamos até o Rosário, pousávamos na fazenda do Tonico Ribeiro e sua mulher Amélia, prima de meu pai e muito amiga de minha mãe. No segundo dia chegávamos aos Campos, lugarejo que ficava entre o Rosário e São Lourenço, mais ou menos na metade do caminho. Lá, pousávamos no rancho, abrigo de tropeiros que ficava na beira da estrada ou, então, na casa de seu proprietário. A vaca ficava em um pequeno pasto, onde os rancheiros soltavam a tropa para o descando para passar a noite. O jantar e o café da manhã eram oferecidos, como gentileza, pelos tropeiros, que já eram nossos conhecidos. Finalmente, no terceiro dia, chegávamos a São Lourenço, onde a vaca ficava enquanto estivesse dando leite.
O retorno era bem mais fácil. A vaca conhecia o caminho e o bezerrc já estava bem-criado.
Menina foi a última vaca que levamos para São Lourenço. Era uma vaca manhosa e roceira e foi a que nos deu mais trabalho. Certa manhã, estando nos Campos, fomos buscá-la no pasto a fim de seguirmos viagem. Fomos então surpreendidos com a sua fuga. Havia escapado do pasto. Saí-mos em seu encalço e Henrique ía à frente deixando-me para trás, sozinho e amedrontado, tentava, então, alcançá-lo. Dois ou três quilômetros depois, ele alcançou a Menina e sua cria, trazendo-as de volta. Juntei-me a eles e fizemos o resto da caminhada de uma só vez. Chegamos a tardinha a São Lourenço, cansados e famintos.
SÃO LOURENÇO
Em São Lourenço passei grande parte da minha meninice. A cidade era ainda pequena, com poucos hotéis e algumas pensões. Tinha duas ruas principais, uma que saía da estação ferroviária e passava sobre o rio Verde, em uma ponte de madeira toda esburacada, indo até ao Hotel Palácio, a um quarteirão dos correios. A outra, que começava entre as fontes Magnesiana e Ferruginosa, ia até à casa do Dico Junqueira, onde é hoje a Praça da Federal. A atração principal desta rua eram os bondinhos, puxados por burros, em toda sua extensão.
Os hotéis mais conhecidos eram o Hotel da Estação, o Esplanada, o Hotel Silva – entre o Parque das Águas e São Lourenço Velho, o Hotel Brasil, o mais badalado, o Universal, o Hotel Palácio e, ainda, a Pensão Central que era dos Cabizucas. Esta ficava na esquina da rua principal, hoje Pedro II, com a rua que vai direto ao Parque.
As casas comerciais mais importantes eram a Casa Dutra, a Casa Pojo e o Bazar Ponto Chic que era o mais sofisticado, todo decorado. As paredes e divisões em paus roliços envernizados. O Ponto Chic ficava no quarteirão entre a rua do Bonde e a rua do Grupo – o único da época – e, logo depois, havia uma cava profunda, com barrancos laterais muito altos, cuja rua dava saída para Carmo de Minas e Dom Viçoso.
Outra atração, talvez a mais importante, era a Capela São Lourenço, plantada no meio da mata, bem no topo do morro que dá proteção à Fonte Magnesiana. Tinha duas entradas, uma pelo Hotel Silva, no começo de São Lourenço Velho e outra – a principal – quase em frente à Fonte Ferruginosa e à ponte por onde passavam os bondinhos. Para se chegar lá, passava-se por um caminho que ficava sobre um rochedo pedregoso, com as laterais mais altas, com uns três metros de largura e com uns duzentos metros de subida até a capela, muito bonita e acolhedora. Ela não era muito visível devido às árvores da mata.
Mais tarde, no caminho pedregoso, foi feita a escadaria por onde passava a população que ia à única Igreja existente em são Lourenço até a terceira década deste século. Posteriormente a entrada principal foi fechada criminosamente ao público, sem que nenhum prefeito até hoje tenha tomado providências para que a escadaria seja devolvida ao povo, seu único e verdadeiro dono.
O Parque das Águas começava próximo ao riacho que passava em frente às fontes Magnesiana, Ferruginosa e Gasosa e também ao Bosque. Era todo aberto. Lá se tomava água à vontade, podendo levá-la para casa em garrafas ou garrafões. A mais consumida era a Gasosa, que jorrava por dois grossos canos de ferro em um tanque cimentado.
ROSÁRIO DE DOM VIÇOSO
No Rosário minha mãe tinha uma casa montada, onde meu pai chegou a ter uma venda. A agência dos correios, tinha por titular a Das Dores, irmã da tia Ita. Era lá que minha mãe ficava mais tempo, principalmente nas épocas de festas como Natal, Semana Santa e mês de maio. No Rosário e nos Pintos aprendi o catecismo e as primeiras letras. Nos Pintos, com a tia Imaculada e suas filhas, e no Rosário com as primas Doquinha e Vitorina, com as quais me preparei para a primeira comunhão. Na escola, que funcionava no prédio da cadeia minha melhor professora foi a D. Maria Torre.
As semanas santas do Rosário foram as melhores a que já assisti. Começavam num domingo e terminavam no outro, com todas as representações e com a participação do Bispo e padres de outras paróquias. Os mais esperados e famosos da região eram o Padre Leite, de Cristina e o Padre Dalisio, de Virgínia, este o mais brilhante de todos, orador incomparável. Seus sermões, tais como o “Encontro da Virgem Maria com seu filho”, “Sermão das Sete Palavras” e “Descimento da Cruz”, eram aguardados com ansiedade por todos os presentes. Quando ele começava a falar o silêncio era total, só quebrado pelos soluços das mulheres, principalmente as mais beatas.
Nas festas, a banda de música bem ensaiada, uniformes de gala e instrumentos brilhando, acompanhava a Procissão e tocava no coreto de madeira, bem no centro da praça.
A festa de sua padroeira, Nossa Senhora do Rosário, era comemorada no primeiro domingo de outubro. Começava uma semana antes com barraquinhas e leilões, com os famosos cartuchos cheios de doces e biscoitos, bolos e prendas as mais variadas. Leiloavam-se também galinhas, porcos e gado. Para encerrar, havia o discurso do Tião, orador empolgante, que também gostava de passar uns tempos no Rosário.
Maio era o mês de Coroação, estávamos sempre presentes, mesmo morando nos Pintos. Tínhamos que ver o charme das meninas coroando: as filhas do Zotinho que moraram muito tempo no Rosário, a Aparecida do Custodinho Ribeiro, a Dulce do Tonico Ribeiro, a Deoclides do Zé Pereira e tantas outras…
Quando morávamos nos Pintos e íamos às missas no Rosário, aos domingos e dias de festas, nosso almoço era na casa da tia Faustina, uma preta já idosa, ex-escrava e ex-mucama de minha mãe. Tia Faustina, como era chamada por todos, era muito estimada não só pelos mais velhos como também pelas crianças. Ela tinha um carinho todo especial para com minha mãe. Minha mãe fornecia os mantimentos e o resto ficava por conta dela. Para mim aquilo era um banquete! Comia-se à vontade e eram pratos tão gostosos que a gente ficava a lamber os beiços, como era costume dizer. À tarde nos despedíamos das garotas, com a promessa de voltarmos o mais breve possível. A Aparecida, que morava numa das maiores fazendas do Rosário, na saída para os Pintos, ia para a janela, sempre com uma boneca e um lenço branco na mão, acenando até que desaparecêssemos.
No Rosário aconteciam coisas incríveis. Era um lugar pequeno, mas cheio de lances curiosos, não só na política – onde as rivalidades se faziam sentir – como também nas brigas e choques com a polícia, envolvendo famílias, com capangas e jagunços. Além do episódio envolvendo o meu tio Zé Bruno, que perdeu uma das orelhas, um outro fato ficou famoso: uma surra com um rabo de tatu que o Zeca levou dos capangas do seu próprio cunhado. Outro caso famoso foi o do Justo, que entrava à noite no chiqueiro de seu cunhado Custodinho, para roubar capado. Matava, tirava a barrigada e a deixava em cima do paredão, junto com um aviso de que voltaria para buscar outro. E o Custodinho, que morria de medo do cunhado, nada fazia contra ele.
Na eleição em que Washington Luiz foi candidato a presidente da República, os jagunços da corrente contrária quiseram invadir a casa do tio Zé Bruno para dar-lhe uma surra, mas a família, que era grande e unida, impediu, com veemência, a tentativa de invasão. Outra cena de vandalismo ocorreu numa Semana Santa com tiroteio entre a polícia e arruaceiros, deixando três mortos e um ferido.
A FUGA DE MEU PAI
Numa das temporadas de minha mãe no Rosário, meu pai, que não saía de casa a não ser forçado, simplesmente desapareceu. Tínhamos ido à missa e, quando voltamos, ele já não estava. Minha mãe, como uma doida, virou pelo avesso a vila, indo de casa em casa, sem obter nehuma notícia. Mandou o José Maria procurá-lo nos Pintos e, lá também não foi encontrado. Veio a noite e ninguém tinha visto. Então, minha mãe concluiu que só havia duas possibilidades: ou ele teria ido para Virgínia, onde moravam duas de suas irmãs, ou para São Lourenço, para a casa do tio Zeca. Só restava uma solução: esperar o dia seguinte e aguardar notícias de um ou do outro lugar. Foi exatamente o que aconteceu. Logo de manhã chegou um mensageiro de Virgínia com a notícia de que ele estava na casa de sua irmã, a tia Dadica, e que não precisávamos nos preocupar, pois ele estava passando bem.
Para buscá-lo, fui com minha mãe a pé, o que para mim não era nenhuma novidade, nem sacrifício, pois estava acostumado a andar léguas e léguas em um só dia. Saímos pela manhã e chegamos à casa da tia Dadica, que era casada com o tio Raul, à tardinha.
A outra tia, a tia Zizinha, era simpática e bondosa, mas um pouco reservada. Era casada com o tio Murilo, dono de um patronato. Era sisudo, de pouca conversa e parecia-me um pouco severo com minha tia. Eles tinham uma boa casa, com um invejável pomar à qual fui poucas vezes. Tinham três filhos: Maria, Ivone e Milton.
O tio Raul, este era fora de série, o melhor entre todos os meus tios. Amável e sociável, moreno, baixo e ligeiramente grisalho. Era comerciante e morava no segundo andar de um bonito sobrado. No térreo era a casa de comércio com várias portas, onde se vendia de tudo. Era viúvo quando se casou com a minha tia. Deste casamento nasceram cinco filhos: Elza, Antônio, Raulzinho, Henrique e Olavo. Fiquei mais amigo dos três últimos, por causa das idades próximas, especialmente do Raulzinho, que era um pouco mais velho que eu.
Morava ainda em Virgínia a Deoclides, sobrinha de meu pai, filha da tia Melica, que era viúva e morava em São Lourenço. A Deoclides era casada com o Tito. O casal tinha vários filhos: Aparecida, Dirce, Nau, Vera e José, entre outros.
Durante os quinze dias que passei em Virgínia pude conhecer melhor meus tios e também meus primos e, de modo especial, os filhos do tio Raul. Foi com muita saudade que voltei, também a pé, para casa, junto com meus pais. Desde então foram freqüentes nossos encontros. Ou eu ia a Virgínia ou eles vinham aos Pintos ou ao Rosário. Isto durou até aos meus doze anos. Depois tudo mudou em nossas vidas.
AS PESSOAS FOLCLÓRICAS DOS PINTOS
Como todos os lugares, os Pintos também tiveram seus personagens pitorescos. Eram pessoas boas e prestativas, quase todos serviçais que ficavam ora em casa de um, ora em casa de outro.
Havia o Mudinho do Flozino, que andava em toda a várzea, para baixo e para cima, de casa em casa, mas onde mais ficava era na casa da tia Imaculada. Quase não parava, andando de um lado para o outro, sempre esfregando o queixo no sentido vertical, com o indicador, gesticulando e emitindo um som como se fosse uma cantiga e que era ouvido de uma boa distância. Comunicava-se por meio de sinais. Buscava lenha, apanhava água da bica e era muito prestativo, desde que não estivesse nervoso.
O Teófilo Preto, morava logo depois da várzea, na Beira do Caminho, depois da virada de um pequeno morro. Era magro e espigado, calado e muito rápido, quase só falava se a gente lhe perguntasse algo. Uns diziam que ele era um homem voador, pois aparecia em vários lugares quase ao mesmo tempo. Outros afirmavam que era um feiticeiro, pois fazia coisas estranhas e previsões quando consultado, e havia ainda os que diziam que ele virava lobisomem nas noites de lua cheia. Apesar de todas essas histórias a seu respeito, o certo é que ele era casado e tinha umas filhas bonitas e prestimosas.
Calixto, o preto de um olho vasado, morava perto da casa da tia Imaculada. Ajudava nos serviços da fazenda e também a olhar o tio João do Morro que estava enfermo. O Calixto era preguiçoso e muito comilão. Comia por três ou quatro pessoas e de uma só vez, tomava o garrafão de leite com farinha de milho ou com angu, sem falar o quanto comia no almoço e no jantar.
Outro era o Manoelzinho, o lenhador que trabalhava como um burro de carga tamanha a sua força e a quantidade de lenha que trazia às costas de uma só vez. Sua especialidade era ajuntar a lenha das queimadas e transportá-las para as casas. Cada feixe que carregava era quase igual ao transportado por um burro. Ele fazia jus ao que comia, pois, ao contrário do Calixto, era muito trabalhador. Homem baixo e forte, perna e braços curtos e grossos, estava sempre com um cachimbo na boca, soltando fumaça como se fosse uma chaminé. Era solicitado por muitos, mas preferia trabalhar para minha mãe.
Finalmente havia a Sá Virgínia. Esta coitada, era muito corcunda e quase cega. Reconhecia as pessoas pela voz, ou até mesmo pelo tropel. Gostava de ir à nossa casa, chamava minha mãe de Sá Glória, como meu avô. Morava em um quartinho perto do córrego, no começo da Várzea. O quarto, bastante pobre, coberto com telha, barreado, mas esburacado e de chão de terra batida. Tinha um pequeno fogão, cuja taipa era o próprio piso. Tinha também uma tarimba com paus roliços sustentada por quatro pequenas estacas. Sobre a tarimba, um colchão encardido cheio de palhas rasgadas e um pequeno caixote que servia de mesa. Eu e o Henrique íamos à sua casa, se é que se poderia chamar de casa a um cômodo tão pequeno. Nós íamos levar leite e mantimentos para ela e até mesmo para conversar um pouco e sentir a satisfação em que ela ficava com a nossa visita. Mesmo com a dificuldade que tinha para caminhar, conseguia ir à nossa casa e a outras mais próximas. Executava um serviço como ninguém: rasgar palha de milho, fina e sem nenhum nó, e com elas encher colchões. Certa vez “Sá” Virgínia foi à Casa Grande e quando entrou no curral, foi atacada pela A.B.C., uma vaca branca com manchas alaranjadas, mocha de nascença e que não gostava de mulher. Meus primos, que estavam nas imediações do curral, ouviram os gritos e gemidos da Sá Virgínia, correram em seu socorro e encontraram a coitada estirada no chão, sendo pisoteada e borrada pela A.B.C. Socorrida, foi levada para dentro de casa, onde as mulheres fizeram os curativos. Como ficou muito machucada, teve que ficar alguns dias na Casa Grande. Depois que melhorou foi levada para sua casa, de onde quase não saía mais.
O LOBISOMEM
Eram várias as pessoas que diziam ter visto o lobisomem. Eu, ainda criança, ouvia de uns e de outros as histórias de homens que viravam lobisomem, como o caso do Teófilo Preto. Eu e todas as crianças dos Pintos acreditávamos e não era para menos! Nas noites sem luz, os caminhos cheios de curvas e as voltas com cruzes aqui e ali indicando a morte de alguém, como a Volta da Henriqueta, eram o ambiente propício… Havia sempre quem dissesse ter sido atacado pelo lobisomem ou por outra assombração.
Não se sabia se eram histórias verdadeiras ou falsas, até que, numa certa noite, o Zé Gorgulho, que ficava fora até tarde devido aos afazeres na fazenda do seu sogro no Pinhal, ao chegar aos Pintos, logo depois da Volta do Caminho e antes um pouco da Volta da Henriqueta, arrepiou-se todo, pois, sentiu a presença de alguma coisa muito estranha a persegui-lo. Não teve dúvidas, desta vez era o lobisomem. Tremendo de medo e vendo aquele vulto escuro se aproximar, rangendo os dentes, balançando a cabeça e batendo as orelhas, prestes a atacá-lo, pensou em disparar o cavalo, mas não teve forças para fazé-lo. Num lampejo de coragem e confiança em Deus, resolveu enfrentá-lo com a única arma que possuía. Meteu a mão no bolso, tirou o terço que tinha um crucifixo bastante grande e, com um dos braços inclinado para trás, com o terço dependurado, enfrentou o bicho. Com a outra mão controlou o cavalo e apressou o trote, mas sem disparar, deixou que seu agressor se aproximasse. De repente deu uma parada no cavalo como se fosse se atracar com o bicho que estava a segui-lo rangendo os dentes. Só ai reconheceu o tão falado lobisomem: era um cachaço, reprodutor enorme e peludo, de queixada e presas grandes e com orelhas caldas sobre os olhos. O cachaço andava por toda a várzea à procura das fêmeas e, quando não as encontrava, dependendo da fase da lua, ficava furioso, chegando mesmo a atacar outros animais e até mesmo as pessoas. Assim, o lobisomem dos Pintos foi desmascarado pelo corajoso e destemido José Gorgulho!
DECADÊNCIA DA CASA GRANDE
Com a saída de meu avô da Casa Grande e com a ida e a posse indevida do Tião, o esplendor da Fazenda dos Pintos foi aos poucos esmorecendo e, com ele, ruindo todo um passado de glórias que fora construído com tanto sacrifício por meus avós. Ainda me lembro da última grande festa na Casa Grande, dada por ocasião do casamento dos três alemães. Famosos também eram o carro de carneiros com suas respectivas juntas, a porcada e o gado, um dos mais admirados e respeitados da região.
Quem da minha época não se lembra da Espanhola, a vaca holandesa que vivia solta no pasto, sem nenhum trato especial, e, mesmo assim, dava uma média de trinta a quarenta litros de leite por dia? E dos dois reprodutores, o sementai e o holandês, denominados Aeroplano e Balão, respectivamente? E do zebu, menos importante que os outros dois, mas digno de menção pelo seu tamanho e beleza? O sementai era um touro enorme, pesado e de muita força. O holandês, também grande, era mais leve e ágil. Seus pescoços eram como dois pedaços de tronco de árvore, dois tarugos ligando a cabeça ao tronco. Tinham chifres pequenos e curvados para dentro.
O encontro entre aqueles dois gigantes na várzea e a disputa pelo rebanho eram espetáculos maravilhosos e cheios de emoções. Quando percebiam a presença um do outro, começavam a urrar, raspando ruidosamente as patas dianteiras sobre a terra, arrancando grama e relva. Com os chifres, cavavam barrancos, arrancavam arbustos, arrebentavam cercas e tudo mais que se colocasse em seu caminho. Antes do confronto, curvavam as cabeças para baixo, engrossando ainda mais os pescoços que entortavam de um lado para o outro, procurando assim encontrar a melhor posição de combate, evitando uma estocada traiçoeira do oponente. O encontro das duas cabeças se dava num estrondo e parecia o choque de duas rochas. No corpo a corpo, Aeroplano levava vantagem, pois, como um rolo compressor, obrigava o holandês a uma retirada estratégica e, em seguida, procurando melhor posição, voltava ao contra-ataque. A luta recomeçava e a única solução era separá-los, sem que houvesse vencido nem vencedor. O sementai, ciente de sua força, permanecia calmo, à espera de um próximo confronto, enquanto o holandês, magoado e inconformado, saía urrando como se estivesse jurando vingança. As cenas se repetiam todas as vezes que os dois gigantes se encontravam.
Outro espetáculo maravilhoso era oferecido pelos cavalos reprodutores que viviam juntos a outras criações, na várzea. Eram garbosos e elegantds, compunham uma visão inesque avel dos Pintos e da minha infância. Nos seus domínios, conduziam suas manadas de um lado para outro, sem que elas pudessem protestar ou contrariar suas ordens. Esticavam o pescoço, abaixavam a cabeça, murchavam as orelhas e, com dentadas, levavam a manada para onde queriam. Soberbos em ímpetos amorosos, eram majestosos em seus galanteios. Só faziam a cobertura depois que suas amadas estivessem indefesas e rendidas às suas conquistas. Nas suas brigas, em disputa pela manada, pela égua preferida ou ainda pelo domínio do território, proporcionavam uma visão emocionante. Empertigavam-se, tomavam ares altivos e, no confronto, apoiavam-se nas patas trazeiras e, erectos, mordiam e davam patadas. Ora apoiavam-se nas patas dianteiras, atirando as trazeiras com tamanha violência que seriam capazes de matar um ser humano. A luta geralmente terminava com a fuga do perdedor, sendo perseguido impiedosamente pelo vencedor. Acontecia também terminar sem um ganhador.
Neste caso, a manada era dividida e conduzida para locais diferentes.
Todo esse esplendor, no entanto, foi destruído e desapareceu em pouco tempo, sem deixar vestígios.
GUARATINGUETÁ
1931 – Minha mãe, que já não possuía quase nada a não ser a casa e as terras dos Pintos e a casa do Rosário, tomou a decisão de mudar para Guaratinguetá, no Estado de São Paulo, onde morava um seu primo, André Capistrano, sobrinho de minha avó. Ele possuía uma fazenda perto da cidade que mamãe arrendou junto com algumas cabeças de gado leiteiro. Ela já estava acostumada com mudanças, de tantas que fizera dos Pintos para São Lourenço ou para o Rosário. Desta vez foi para bem mais longe. Vendeu ao Porfírio, um mulato alto e magro, um quarto de suas terras, a parte que ficava na cabeçeira da serra. Recebeu uma pequena parte em dinheiro, para as despesas da viagem, além de uma casa no Rosário e o restante em vacas.
Ela não foi sozinha, levou a Carma, sua sobrinha casada com o Rodolfo, pais da Justina. O Rodolfo, o José Maria, o Henrique e mais um camarada foram por terra, levando as vacas adquiridas do Porfírio, que, somadas com as do André, dariam uma boa produção de leite. Nós outros fomos para São Lourenço, onde pegamos o trem até Guaratinguetá.
Financeiramente, a mudança foi excelente, tanto para minha mãe quanto para o “primo André”, como era chamado por minha mãe. O leite aumentou consideravelmente e era todo consumido na cidade. O rebanho ficou maior e mais bonito. As tarefas eram divididas e Belmiro, o único camarada, ia buscar as vacas no pasto e preparava o vasilhame. Eu ia buscar os bezerros. José Maria e o Henrique ajudavam mamãe a tirar o leite que, logo após, era levado à cidade, pelo José Maria e pelo Belmiro, que o vendiam.
Foi em Guará que Henrique, com onze anos de idade na época, realizou sua última façanha. O João, um dos filhos do André e que conhecia muito bem a fazenda e o gado, foi com o Belmiro buscar o touro para mostrar a uma pessoa interessada em comprá-lo. Não o encontrando, disse à minha mãe que o touro devia ter fugido para outra fazenda. O Henrique, que ouviu toda a conversa, disse:
– Deixa-me acabar de almoçar, que vou buscar o touro.
O João colocando a mão sobre seu ombro, respondeu:
– Ora, Henrique, eu e o Belmiro acabamos de chegar do pasto e não o encontramos. Não será você, uma criança, que irá achá-lo.
O Henrique retrucou:
– Espere-me um pouco, que logo estarei aqui com o touro!
Eu ouvia todo o diálogo. Sabia que encontraria touro e que seria seu companheiro em mais uma de suas proezas. Só não poderia imaginar que esta seria a última.
Saímos à procura do touro e em pouco mais de uma hora, o touro estava no curral. O João, admirado, cumprimentou o Henrique por sua coragem e bravura.
Devido ao estado de nervosismo em que se encontrava meu pai, era impossível continuar em Guará. O Rodolfo já havia regressado aos Pintos com a Carma e sua filha Justina. Minha mãe então escreveu ao tio Zeca em São Lourenço solicitando-lhe que fosse buscá-la. Ele aproveitou a viagem e levou meu pai para visitar duas irmãs que moravam no Estado do Rio, tia Nininha, em Rezende e tia Marica, em Santana dos Tocos. Eu e minha irmã Maria do Rosário fomos com eles, sendo que minha mãe e os outros irmãos seguiram para São Lourenço. Nós continuamos no mesmo trem até Rezende, a primeira etapa de nosso passeio. Chegamos, à tardinha à casa da tia Nininha, a qual já conhecíamos. Ela era bondosa, bonita e elegante, casada com um viúvo que tinha três ou quatro filhos, o Sr. Cutrim, fazendeiro próspero em Rezende. Tinha uma grande e bonita casa, gado e cavalos de raça criados na cocheira. Ficamos em sua casa uma semana. Depois partimos para Santana dos Tocos. Fomos de trem até Itatiaia, onde atravessamos o Paraíba em uma balsa, pegamos os cavalos que já estavam à nossa espera e chegamos à casa da tia Marica, que ficava à margem direita do Paraíba. Era uma casa baixa, quase quadrada, modesta, porém bem cuidada. Tia Marica era a irmã mais velha de meu pai. Era viúva e tinha muitos filhos, alguns já casados. Ao contrário da tia Nininha, era simples e discreta, mas muito amável. Ficou satisfeitíssima com a chegada, pois não poderia pensar que, depois de tantos anos, iria rever meu pai e ficar conhecendo pelo menos dois de seus filhos.
Duas coisas marcaram o passeio que fiz à sua casa. A primeira foram as gansos, pela quantidade, tamanho e braveza. Cabeças erguidas e imponentes, eram verdadeiros guardiães da casa. Foram inúmeras as carreiras que tomei para não ser bicado e pisoteado por eles. A simples presença de um estranho bastava para um deles dar o alarme e o resto do bando se reunir em forma de V e partir para o ataque, numa gritaria infernal. A outra coisa que me impressionou foram os peixes: Eu que nunca gostei de pescar, ficava fascinado ao ver meus primos pescarem no Paraíba com tanta facilidade, pois o rio era abundante em peixes. O resto era por conta da minha tia, que sabia prepará-los como ninguém. Jamais comi peixes tão saborosos! E para completar, minha tia tinha mais uma especialidade, a paçoca de amendoim que era comida com bananas colhidas em seu próprio quintal.
Foram quinze dias maravilhosos, passados em Santana dos Tocos.
A viagem de volta foi tranquila, mas um pouco cansativa. Saímos de manhã a cavalo até Itatiaia, atravessamos o Paraíba na balsa e pegamos o trem da Central do Brasil até Cruzeiro onde baldeamos para a Rede Mineira de Viação, chegando à noite em São Lourenço. Reunímo-nos com o resto da família na casa do tio Zeca e, dias depois, estávamos de volta aos Pintos.
O DESAPARECIMENTO PREMATURO DE HENRIQUE
Pouco depois de nossa volta de Guaratinguetá, minha mãe foi passar o mês de outubro no Rosário para participar das festas de sua padroeira, Nossa Senhora do Rosário. Desta vez ficou na casa que havia comprado do Porfírio, maior e mais confortável do que a outra que ela possuía. Eu e o Henrique ficamos na Casa Grande com o Zé Augusto e pretendíamos ir para o Rosário nos últimos dias do mês. A fatalidade, porém, atrapalhou os nossos planos: o Henrique adoeceu e tivemos que ir às pressas para o Rosário, buscando o apoio de nossa mãe. Como meu irmão não melhorava e não havendo médico no Rosário, minha mãe chamou o Valdemar, farmacêutico, que primeiramente suspeitou de tifo, mas depois constatou que deveria ser alguma doença do fígado. Passou remédios, injeções e meu irmão não apresentava nehuma melhora. Mamãe desesperada, redobrou suas preces, pedindo a Deus que restituísse a saúde ao filho amado, mas Ele, que sabe mais do que todos nós, achou que a missão do Henrique aqui na terra estava cumprida e o levou com apenas doze anos.
Foram quinze dias de aflição e desespero, quinze dias que acabaram com uma infância emocionante e cheia de belos momentos e que transformaram completamente minha vida. Sei que meus pais, meus irmãos e meu avô também sentiram seu desaparecimento, mas acho que minha situação era diferente. Toda a minha vida tinha sido ao seu lado, brincando, estudando, trabalhando e, principalmente, acompanhando-o nas aventuras. Ele era para mim uma espécie de guia e protetor. No Rosário, aos sábados e domingos, ganhando alguns trocados, levando e trazendo cavalos de parentes e conhecidos ao pasto, em troca de um tostão ou duzentos réis, que era muito dinheiro. Naquela época, comprava-se com esse dinheiro uma tábua de rapa-dura, uma dúzia de bananas ou ainda um pão sovado daqueles bem grandes e gostosos. Os trocados aumentavam quando os primos de Itanhandu, o Geraldo e o donas, respectivamente filho e genro de meu tio Joãozinho Negreiros, nos visitavam. Eles iam aos Pintos verificar suas terras, herdadas de meu tio já falecido, e ficavam em nossa casa. Quando voltavam para Itanhandu, nos davam uns bons trocados. Desgraçadamente tudo isso se perdeu com a morte do meu irmão. Como eu iria ficar sem sua presença na escola, no catecismo e nos brinquedos? E em São Lourenço, onde freqüentamos o Grupo Escolar por várias vezes e onde ele deixou a marca de sua passagem e de seus méritos, na árvore que plantou e que floreceu mais que as outras e finalmente nos Pintos, marco da nossa existência, o nosso torrão natal e que foi o palco de nossas maiores aventuras, quase sempre com a participação do Zé Augusto? Agora estava tudo acabado, mas a vida não podia parar e ainda restava meu primo e amigo Zé Augusto e toda uma vida para ser vivida.
A FAMÍLIA FERNANDES
A família Fernandes morava em Várzea Alegre, lugarejo que ficava a cerca de vinte quilómetros de Cristina. Meus primos José Olegário e Antônio Gorgulho, foram os primeiros a se casarem com as filhas do Kim Fernandes, de Várzea Alegre. Alguns anos depois, João Negreiros casou-se com a Nair e, finalmente, por volta de 1938, o Rafael Gorgulho e a Geralda, a mais nova da família Fernandes, se casaram. Com o casamento das duas primeiras filhas do Kim, a Maria e a Anita deu-se a integração das duas famílias. Tivemos com eles uma amizade permanente, não só com as casadas, como também com todos os outros irmãos, Mariana, Doca, José, Nenem, Antônio e Geraldo. Este, logo depois do casamento da Nair, mudou-se definitivamente para os Pintos.
A Doca, a mais badalada, deixou muitos rapazes apaixonados, tal a fama de sua beleza e simpatia. O mais apaixonado de todos, foi sem dúvida o Antônio Bruno, filho de tio Zé Bruno. Ele foi criado com todo carinho, por ser o único filho homem do meu tio e, ainda por ser filho do único capitalista da família, que, naquela época, possuía mais de cem contos de réis. Boêmio, cantava e tocava violão regularmente. Era simpático e agradável. Teve uma paixão violenta pela Doca e ela também por ele. Não sei porque não se casaram. Parece-me que ela morreu solteira e ele se casou com a Aparecida do Tonico Ribeiro, uma moça linda e prendada. Mas não foram felizes. Acho que ele não conseguiu esquecer a Doca.
A Nair também foi muito disputada. Entre seus admiradores, estava o Rafael, mas o seu preferido foi o João Negreiros. Por último a Geralda, também cortejada por muitos, como o Rafael, o Gabriel, o Miguel, o José Maria e até por mim mesmo. Acabou casando-se com o Rafael.
VÁRZEA ALEGRE
Fui ao casamento do João Negreiros em Várzea Alegre, onde estive pela primeira e única vez. Foi urna festança com peru, leitoa, muitos doces e quitandas. Fiquei lá três dias e os meus maiores amigos foram o Antônio e o José que eram mais ou menos da minha idade. Dormimos os três na mesma cama, dada a dificuldade de acomodar todos os que foram ao casamento.
Minha ida ao casamento foi bastante tumultuada e cheia de lances. Eu estava em São Lourenço e minha mãe deixou-me ir com o Zotinho, irmão mais velho do João. Ele tinha um Ford, acho que era vinte e nove. O motorista era o Geraldo, amalucado e que, vez por outra se envolvia em complicações com a polícia. Ele era muito sociável, inteligente, engraçado e estimado pelo patrão, o Zotinho. Eu já estava acomodado em um dos bancos laterais da carroceria quando, de repente, apareceu a polícia, comandada pelo delegado Nenem Bacha, para prender o Geraldo. Foi um corre-corre. O Geraldo quis fugir, mas não houve tempo. Ele foi preso e conduzido à delegacia. Eu, que tinha muito medo de soldado, vendo o delegado, um homem alto, forte, gordo e com fama de bravo, fiquei apavorado e, antes de chegarmos à ponte de madeira sobre o Rio Verde, saltei da carroceria, com o fordeco em movimento. Tomei um bruto tombo, rolando na poeira e me arranhados todo. Em seguida, caminhei até perto da delegacia, que ficava nas proximidades do mercado municipal. De longe, fiquei observando o desenrolar do acontecimento. O Zotinho, que não estava conosco na estação, sendo avisado da prisão foi à delegacia a fim de soltar o seu motorista. Pagou a fiança e o Geraldo foi liberado. Saímos imediatamente, pois o caminho para Cristina e de lá para Várzea Alegre era de terra e muito ruim. Em Cristina pegamos o pessoal dos Pintos, que estava à nossa espera. Chegamos depois das dez horas da noite à Várzea Alegre. O casamento estava marcado para as dezesseis horas do dia seguinte.
O SONHO DO BARTOLOMEU
Certa vez meu irmão José Maria, pousando na Casa Grande, dormiu no quarto, junto com o Bartolomeu e o José Maria Negreiros. A noite, os dois acordaram com os gritos do Bartolomeu. Assustados e apavorados, pularam da cama no quarto semiescuro, chegando junto à porta, onde o Bartolomeu se apoiava, gritando:
– Segura que vem a coisa. Força! Vocês não estão me ajudando a segurar a porta. Se não me ajudarem, a coisa vai nos pegar – repetia, gritando sem parar.
Os dois, sem saber do que se tratava, pensaram logo que fosse uma assombração. Juntos à porta, com as pernas bambas, ajudaram o Bartolomeu a segurar a porta e gritaram pedindo socorro aos demais. João e Niquinho, que dormiam no quarto ao lado, acordaram e foram ver o que estava acontecendo. Encontrando a porta fechada do lado de fora, pediram que a abrissem perguntando o que estava acontecendo. Foi com dificuldade que os dois conseguiram tirar o Bartolomeu, que estava segurando a porta, para que o João e o Niquinho pudessem entrar. Depois que acenderam a luz dé lamparina viram que o Bartolomeu, que ainda gesticulava, estava dormindo e os dois outros tremiam e estavam banhados em suor, tamanha a força que fizeram.
Só depois que o Bartolomeu acordou foi que souberam que tudo aquilo não passou de um sonho, ou melhor, de um terrível pesadelo. Ele tinha recolhido os carneiros na cozinha para que fossem atrelados ao carro e depois de tudo pronto, comandou-os, levando o carro, em direção à porta de saída para o terreiro, mas os carneiros tomaram a direção do salão do jantar. Vendo o salão escuro, ele não teve dúvidas: saltou do carro, isto é, da cama e correu para segurar os carneiros. Foi quando junto à porta, pediu ajuda aos companheiros, gritando apavorado:
– “Segura que vem a coisa”.
AFILHADO PROMETIDO
O José Gorgulho era casado com a Aninha, filha do português Diamantino Pereira Maduro. O casal morava a cerca de oitocentos metros da casa da tia Imaculada, na beira do caminho que ia à Toca. A casa ficava logo depois de uma grota e era cercada por árvores. O caminho era um trilho margeando os pés de marmelo, que começavam no curral e iam até à casa do Flozino. Eram verdadeiras touceiras formadas por vários pés, entrelaçados uns aos outros como se fossem touceiras de bambu. Além de darem muitos frutos, serviam também de cerca divisória entre a várzea e a parte de cultura.
Zé Gorgulho viajava muito, chegava tarde da noite e muitas vezes pela madrugada. Eu era a companhia de preferência da Aninha e pousava sempre em sua casa que era muito isolada. O casal não tinha filhos e a Aninha ficava muito só. Ela gostava de minha companhia e, apesar de ser uma criança, eu lhe dava certa segurança. Foi numa dessas noites, quando aquecíamos ao fogo, sobre a taipa do fogão, que ela me disse:
– “Antônio, você vai ser o padrinho do primeiro filho que eu tiver. E uma promessa que estou fazendo!” – eu acreditei e fiquei esperando o afilhado que não veio, pois eles acabaram por não terem nenhum filho.
Muitos anos se passaram. Eu, casado e morando em São Lourenço, onde eles também estavam morando, fui certo dia, surpreendido em minha casa por Aninha que, sem subterfúgios, foi logo dizendo:
–”Antônio, vim convidar a Myrthes para crismar a Conceição, cumprindo assim a promessa que fiz a você há muitos anos, lá nos Pintos. Você se lembra?” – fiquei aturdido com a lembrança daquela promessa que me fora feita em uma noite fria, naquela cozinha branca, com janelas e portas azuis, escondida no meio do mato. Promessa feita a um menino e cumprida muitos anos depois. Além do mais, a Conceição seria a minha segunda afilhada. Todas aquelas lembranças vieram como um relâmpago em minha memória. Recuperado do espanto, pude apenas responder à Aninha que não podia imaginar que ela ainda se lembrasse da promessa, não por sua culpa, mas pelos desígnios de Deus, que não a deixou ter filhos. Mas, com a vinda da Conceição, veio também mais alegria ao seu lar que, de certa forma, foi também o meu.
– “Eu e Myrthes sentimo-nos lisonjeados com o convite – e eu, particularmente – por você ter-nos distinguido com esta afilhada, tão querida, que você ganhou, já batizada”. Foi o que pude dizer.
VIDA EM COMUM
Minha convivência com os primos foi muito boa, especialmente com o Zé Augusto, amizade que aumentou depois da morte do meu irmão Henrique. Foram inúmeras as vezes em que eu fiquei em sua casa. Quando ele morava na casa que foi da Sinhá, eu passava dias e mais dias com ele e era tratado com muito carinho por todos, não só os seus pais, como também seus irmãos, a começar por Inês, sua irmã por parte de mãe, e os outros, Maria José, Afonso, Tomás e Maria Tereza, além do José Bráulio, que sempre morou com eles.
O Zé Augusto, apesar de muito amigo, sempre foi um pouco pretencioso e mandão, como o pai. No entanto não possuia a inteligência e a argúcia daquele. Era um pouco moleirão, não só para o trabalho como também para os brinquedos. Jogava xadrez, era bom nas damas e regular no futebol.
Já o José Bráulio, seu tio, era cheio de manias e ficava bravo com seu cunhado, o Tião, que tossia muito à noite, irritando-o.
Zotinho, o filho mais velho do Tião com sua primeira mulher, tia Maria José, era perfeito de nascença. No entanto, teve uma queda de um cavalo, ainda pequeno e fraturou o joelho, ficando defeituoso para o resto da vida. Não era complexado e tinha uma atividade impressionante. Morava em boas casas, dava conforto à mulher e às filhas. Tinha bons cavalos sendo o mais famoso o Bico Branco. Foi com esse cavalo que desafiou meu pai, para ver quem andava e marchava mais, se o Bico Branco ou a égua mangalarga de meu pai, a Maravilha.
O Zotinho, de certo modo, contribuiu muito para o progresso dos Pintos. As novidades que surgiam eram levadas por ele, como o gramofone e o primeiro caminhão que apareceu nos Pintos.
Freqüentei muito sua casa, não só nos Pintos como também no Rosário, onde morou por muito tempo. Brincava com suas filhas. Alaíde, Bebé, Dorinha e Glorinha. As outras ainda eram bens pequenas.
Alaíde, a mais velha, foi o homem que o Zotinho não teve. Não só nos brinquedos como também no traoalho. Ela foi minha competidorp nas capinas de milho, fumo, feijão e batatas. Muito boa na enxada, deixava-me para trás, pois a roça nunca foi o meu forte.
A Bebé não gostava da roça, mas ajudava sua mãe nos serviços domésticos. Brincalhona, não levava nada a sério e tinha forte tendência para o teatro.
Já em relação a Dorinha, sou suspeito para fazer comentários. A bem da verdade, porém, não me posso omitir. Ela foi a paixão da minha juventude. Era uma linda camponesa, de pés pequenos, olhos esverdeados, cabelos aloirados e lisos, caídos até os ombros, altura mediana e corpo esguio. Usava vestidos na altura dos joelhos e tinha pernas bem-feitas. Eu a amava e foram muitas as oportunidades que tive para dizer o que meu coração sentia por ela. Mas, como poderia dizer, se eu era um jovem inexperiente, sem malícia e sem nenhum conhecimento sobre o amor e sobre o que poderia ser um relacionamento entre dois seres opostos? Foram inúmeras as vezes em que ficamos a sós durante o dia ou à noite. Nos encontros dos domingos, antes e depois do futebol. Quando ela morava nos Pimentas, a cerca de três milhas da Casa Grande, eu a acompanhava até a sua casa. Uma vez saímos sozinhos pelo mato, à procura de um cavalo. Num dado momento paramos debaixo de uma árvore, sentamo-nos por um bom tempo, conversamos e trocamos olhares apaixonados. Minha vontade era a de tomá-la em meus braços, apertá-la e beijar aqueles lábios ardentes. Mas, como saciar os meus desejos, se eu era um menino tímido e ingênuo, e nem sequer tinha coragem de tocar suas mãos? Por causa da minha timidez fui trocado por outros. A decepção que tive foi muito grande e vi desaparecer uma paixão de criança, que nada mais foi que um sonho como tantos outros, desfeitos com o apareci-mento de rivais mais velhos e experientes, com o Rafael e o José Maria Negreiros, seu próprio tio. Finalmente, aos dezessete anos, tomei a decisão de esquecê-la, deixando definitivamente os Pintos e mudando-me para São Lourenço, onde construí uma nova vida.
A Goíca, alta e magra, parecia sofrer de uma bronquite crônica. Era casada com um italiano, o Otelo, de rosto redondo, baixo e gordo. Sua especialidade era a fabricação de manteiga e queijos, principalmente do tipo parmesão. O casal morava na beira da estrada, na primeira casa que fora dos meus pais e, posteriormente, da Carmita.
Lembro-me de seus filhos, o Walter muito bom de bola e o melhor driblador da turma, o José, a Ana Maria e os gêmeos Rómulo e Remo.
A Carmita, casada com o Carlos, que morreu poucos anos depois, deixando um casal de filhos, Eduardo e Alda. Depois da morte do Carlos, a Goíca passou a morar com a Carmita. Nunca vi duas irmãs e filhos combinarem tanto! A Carmita era a afilhada de minha mãe e sempre a chamou de madrinha. O Eduardo também fazia parte de nossa turminha.
O Niquinho, só me lembro dele depois de formado, era farmacêutico. Morava em Cruzilha, onde se casou com a Otacília. Sempre teve um carinho e respeito muito grande pelos meus pais. A amizade que tinha por nós durou ate à sua morte e sempre foi recíproca.
O João Negreiros, discreto e amigo, foi o meu ídolo no futebol. Era o maior e mais completo centroavante da época. Era um jogador nato pela sua elegância e capacidade. Era casado com a Nair e sempre morou nos Pintos.
O José Bartolomeu, que era conhecido por todos nós como o Canjarana, gostava de tirar uma soneca durante o dia e com razão, pois era o marido da professora. Casou-se com a Lourdes, filha do Sr. Lucas, que morava na Glória. Ela era professora e amiga das crianças. Bartolomeu foi o último filho do Tião com a tia Maria José.
Finalmente o José Maria Negreiros, o único filho do Tião com tia Lavinia, do seu segundo matrimônio, pois o outro morreu ainda pequeno. O José Maria morou mais com o Niquinho, seu irmão, do que mesmo nos Pintos. Era o boêmio da família. Inteligente, lia muito, principalmente romances. Cantava e tocava violão. Em suma, foi sempre um “bonvivant”.
Os Gorgulhos
Eram os filhos da tia Imaculada e tio João do Morro. O primeiro foi o José Gorgulho, casado com a Aninha. Não tiveram filhos e, mais tarde, adotaram a Conceição, depois de duas décadas de casados. Homem robusto, trabalhador, amigo de todos, sincero e leal. Dedicado à esposa que era frágil e não gozava de boa saúde. Tinha com ela uma paciência de Jó. Ele era a pessoa de confiança do sogro, o Diamantino, que morava no Rosário e tinha uma fazenda no Pinhal, próximo à Ponte do Carmo. Minha mãe tinha muita admiração pelos sobrinhos, filhos da tia Imaculada, mas, um carinho especial pelo José Gorgulho e também pela Glória, com os quais ela teve uma convivência muito grande nos seus primeiros anos de vida. O Zé Gorgulho, como era chamado por todos, tinha uma particularidade rara: deixava todos à vontade e sem constrangimento. Quando menino, freqüentei muito sua casa. Sempre me sentia bem em sua presença. Sua personalidade era tamanha que ultrapassava os limites dos Pintos. Era solicitado pelo Antônio Bruno, no Rosário, para resolver seus problemas, pois só ele tinha acesso à sua casa, nas crises de ciúmes, com sua mulher. Também o era pelo Nhonhô da fazenda do Aterrado e por muitos outros.
Antônio Gorgulho era considerado o intelectual da família, não tanto pela sua inteligência, mas, talvez, pelo seu esforço e gosto em demosntrar sua superioridade. Sucessor do Tião, principalmente na política, Bernardista fervoroso, filiou-se ao P. R. quando este foi criado, na mesma época do P. S. D. e da U. D. N. Ele não tinha a firmeza de um José Gorgulho ou de um Rafael, talvez pela circunstância e responsabilidade de suceder uma liderança, a do Tião, que já estava bastante desgastada, mas ainda não contestada por ninguém. Eles não ousavam contestar o outrora poderoso Sebastião Capistrano de Negreiros. Não seria o Antônio Gorgulho que iria contestá-lo, pois ainda não poderia contrariá-lo. A característica principal do Antônio Gorgulho era a obstinada insistência ne defesa de suas idéias, tornando-se, às vezes, impertinente. Sempre atento na defesa de seus pais e irmãos. Apesar de suas múltiplas atividades, não obteve muito sucesso, era algo inconstante em seus negócios. Batalhador incansável na educação de seus filhos e sua própria, nunca parou de estudar. Formou-se em Direito, já quase septuagenário. Casado com a Anita, da família Fernandes de Várzea Alegre, teve muitos filhos, sendo os mais velhos, Celso, Zezé, Tereza, Amélia Alcides. Eu ia muito a sua casa, mas confesso que não me sentia muito à vontade, quando Antônio estava presente. Talvez fosse pela diferença de idade ou, quem sabe, pela diferença do nível cultural. Só nos tornamos amigos quando eu, já casado, morava em São Lourenço. Numa de suas idas à minha casa, me fez uma indagação:
–”Antônio, por que você é da U. D. N., se todos os outros da família me acompanharam votando no P. R.”?
Eu lhe respondi:
–”Ora Antônio, é uma questão de ponto de vista e um ideal diferente do seu”.
Nossa amizade continuou sem nenhuma interrupção. Nossas visitas eram recíprocas, mesmo depois de minha vinda para Belo Horizonte. Trabalhou muito pelos Pintos, mas era um pouco restrito a grupos ou pessoas específicas, perdendo de vista a coletividade, que nem sempre era ouvida. Nunca trabalhou, por exemplo, por uma estrada, que seria mais importante do que a mudança do nome para Pintos Negreiros. Enquanto outros trabalhavam junto às autoridades governamentais, no D.E.R. e até mesmo com autoridades federais, pedindo que fizessem uma estrada ligando São Lourenço à ltajubá e que passasse pelos Pintos, mesmo que fosse vicinal e que pudesse beneficiar não só a população dos Pintos, como também uma enorme e fértil região.
Carma, casada com o Rodolfo, professora e catequista, calma e sossegada, dava a impressão de que não se preocupava com nada. Morou com minha mãe em Guaratinguetá, quando só tinha a Justina. Depois teve mais quatro filhos, Elza, José, Diva e Sebastião. Foi ela que curou o cobreiro que tive no pescoço, com rezas e simpatias.
Glória casou-se com o Sebastião Balbino, próspero comerciante, viúvo e com três filhos, José Balbino, Ana e Auxiliadora. A Glória também foi uma das sobrinhas que minha mãe ajudou a criar e que recompensou minha mãe pelo carinho e dedicação que sempre lhe dispensou. Não sei como foi sua vida de solteira, mas sei que, depois de casada, não gozava de muita saúde. Era cheia de manias e tinha respeito e medo do Sebastião Balbino. Demorou a ter filhos. Foi minha madrinha de representação.
Rafael, Gabriel e Miguel, ganharam estes nomes em obediência à religiosidade da tia Imaculada, que prometera, caso tivesse três filhos homens na mesma seqüência, daria a eles os nomes dos três Arcanjos. Não deu outra, tamanha era sua fé.
Rafael Arcanjo Gorgulho era o solteirão da família. Simpático e agradável, tinha muita personalidade. Foi o tipo de rapaz que sempre admirei. Bom cavaleiro e até mesmo um pouco acrobata, gostava de andar em pé sobre os cavalos e sem arreio. Seu único apoio era a rédea, com a qual dirigia elegantemente o animal. Vestia-se bem e passeava muito. Tinha um gado regular e gostava de bons cavalos. Seu preferido foi um burro tordilho, bem escuro, marchador, bonito e fogoso. Quando se casou com a Geralda, eu já havia mudado dos Pintos. Ele foi o único dos irmãos que nunca morou fora dos Pintos, só saindo de lá a passeio ou a trabalho. Fora dos Pintos, ele não respirava, faltava-lhe o oxigênio necessário à vida.
Gabriel Arcanjo Gorgulho gostava mais do estudo de que do trabalho. Ficou vários anos em São Paulo, em um seminário. Voltou aos Pintos já rapaz, onde passou sua mocidade, junto ao Rafael. Elegante e namorador, tinha fama de bonitão. Tinha várias fãs entre elas minha irmã, Maria do Rosário. Sua preferida foi a Ana, do Sebastião Balbino, enteada da Glória, sua irmã. Quando se casou eu já estava em São Lourenço.
Miguel Arcanjo Gorgulho, o último dos Arcanjos, homem maravilhoso, pela sua generosidade, espírito de união e religiosidade, atributos característicos de toda a família Gorgulho. O Miguel também plantou suas raízes nos Pintos, mesmo tendo mudado para São Lourenço, aos vinte e poucos anos. Não só conservou as terras que recebeu como herança de seus pais, mas ainda as ampliou, comprando outras partes, inclusive a sede da fazenda onde nasceu. Em São Lourenço, tornou-se um grande comerciante, casou-se com a Amélia, irmã da minha cunhada Terezinha, viúva de meu irmão José Maria. Teve cinco filhos, quatro homens e uma mulher. Em relação aos filhos, ficamos empatados, por uma coincidência ou um capricho do destino.
Minha amizade com o Miguel tornou-se mais sólida depois da morte de meu avô, quando começaram as desavenças de minha mãe com o meu tio Tião, o que fez esfriar a minha amizade com o Zé Augusto. O ponto de partida desta amizade foi a romaria que fizemos a Aparecida do Norte, promovida pela tia Ita. Depois, foram inúmeros os nossos encontros e passeios. Os encontros que mais me marcaram foram as minhas idas à casa do João Caetano, onde ele morou, à casa de seu cunhado Sebastião Balbino, de quem ele era o retireiro e os encontros na venda do Otelo. E e tomava conta da fábrica de queijo e da venda onde passou a morar. Eu e José Maria estávamos morando no rancho que construímos junto à lavoura e assim ficamos mais próximos um do outro e nossos encontros passaram a ser mais frequentes.
Catarina, foi a paixão do meu irmão José Maria. Bonita e atraente, morena esguia e de boa altura. Seu fraco era o cigarro, e como fumava! Foi a minha parceira nas capinas dos carneiros de fumo, com aquelas leiras compridas, com ruas muito estreitas e que só podiam ser capinadas com chuva ou dias nublados. Trabalhávamos também nos andaimes, onde se dependurava o fumo depois de colhido. Sempre houve uma grande amizade entre nós quando se casou com o Pedro Virgilino, eu já morava em São Lourenço.
Com a Maria e Zuzu tive pouca convivência. Nem por isso nossa amizade foi menor. Maria casou-se com o João Virgilino, irmão do Pedro, ambos, excelentes pessoas. Zuzu, a caçula, casou-se com o Afonso com o qual tive pouco conhecimento. No entanto pude conhecê-lo melhor através de sua filha, escritora Eliana, autora do magnífico livro “Simplesmente Viver”, que retrata com inteligência, simplicidade e objetividade o drama vivido pela autora com a doença do filho, sempre buscando e renovando sua coragem junto a seus pais e irmãos e principalmente, na fé depositada em Deus. O livro traz palavras amorosas e carinhosas para com seu pai e sobretudo o esforço e resignação para suportar a dor não apenas pela doença do filho, mas também pelo desaparecimento inesperado do pai.
PASSA QUATRO
Com a morte do meu irmão Henrique, com apenas doze anos, ocorrida no Rosário, minha mãe, desesperada e desorientada, não sabendo como preencher aquele vazio deixado pelo seu filho, foi procurar refúgio em um lugar diferente, onde não conhecia ninguém, um lugar onde pudesse educar os filhos, sem se afastar de nenhum deles. Foi então que surgiu a idéia de mudar para Passa Quatro. Lá ela poderia arranjar trabalho para o José Maria, colégio para a Maria do Rosário, escola para mim, a Maria do Carmo e, posteriormente, para Maria Esméria e Manoel. Nem meu avô conseguiu impedir a mudança, nem mesmo ela sabendo que ele não iria, pois só a acompanhava quando ela ia para o Rosário. Minha mãe abandonou tudo novamente e partia para mais uma aventura.
Mudamos para Passa Quatro e tudo corria de acordo com suas previsões. Quanto a mim, com quase doze anos, a mudança para Passa Quatro foi muito boa, sempre tive facilidade em me adaptar a qualquer lugar. Fiz o segundo ano primário no Grupo Escolar, e tive uma excelente professora, a D. Nica, que mais tarde seria a sogra da Maria do Rosário. Fiz muitas amizades com meninos e meninas, principalmente com o Vadinho, o Euzebinho e o Joaquim. Íamos muito a ltanhandu, à casa da tia Marica Paiva. A ÇÃO já era casada e o Geraldo ainda estava solteiro. Nossas idas a Itanhandu eram sempre feitas a pé, pois as cidades eram próximas. O primeiro Natal passamos com tia Marica. Foi um dos melhores de minha infância. Gostava muito das barraquinhas, músicas e muita gente. Fiz muita farra com meus amigos, roubando peras e uvas nos quintais da vizinhança e na várzea, entre a casa do Joaquim e do Rio Verde, onde jogávamos bola e nadávamos.
Em Passa Quatro presenciei o maior desastre jamais visto em toda a minha vida. Foi num sábado, às quatro da tarde, hora em que passava o trem, no cruzamento sobre a linha, vindo de Itanhandu e bem na entrada da cidade. Morávamos à beira da estrada de ferro, separados apenas pelas moitas de erva cidreira e uma cerca com trilhos. Assim que ouvimos seu apito prolongado, antes do cruzamento, corremos à janela como fazíamos sempre e vimos um automóvel que atravessava a linha. Ato contínuo, o trem não teve tempo de parar, colhendo o carro arrastando-o, despedaçando não só as ferragens, mas também os seus passageiros. Quando o trem conseguiu parar não restava mais nada, a não ser sangue e pedaços de corpos espalhados por todos os lados. Depois ficamos sabendo que era um casal de noivos e mais três crianças. Os noivos estavam indo à Capela das Irmãs para se casarem e os convidados já estavam na Capela à espera do casamento.
Um outro episódio vivido em Passa Quatro foi o da revolução de 1932, quando anunciaram a chegada da cavalaria da Polícia Militar de Belo Horizonte e que poderia haver um combate na cidade entre militares mineiros e os soldados paulistas, entrincheirados no túnel, divisa de Minas com São Paulo, mas que vinham todos os dias até à Estação de Passa Quatro. As autoridades aconselhavam à população deixar a Cidade. Como muitas outras famílias, minha mãe também deixou a cidade, com papai e os filhos, ficando apenas o José Maria. Fomos para Varginha a pé. Viajamos a noite toda e chegamos, no dia seguinte pela manhã à casa do tio Raul. Tanta correria e cansaço por nada: Não houve combate na cidade. Os paulistas, que praticamente tinham dominado a cidade, com a chegada da cavalaria fugiram para o túnel onde estavam entrincheirados e que era mais estratégico para os combates, os quais duraram alguns dias, mas sem nenhum perigo para a população da cidade.
No entanto, toda a nossa aventura em Passa Quatro não durou mais de quinze meses. Minha mãe se esqueceu do mais importante, ou seja, do planejamento das despesas que fatalmente teria, pois seria impossível viver com a pequena renda de suas terras. As casas do Rosário teriam de ficar fechadas, não havia ninguém para alugá-las. Restava ainda o dinheiro do emprego do José Maria que era muito pouco para tamanha despesa. Antes mesmo de completar um ano, minha mãe já estava endividada e sem crédito na praça. Tentou equilibrar a situação por todos os meios, chegando até a lavar roupas e dar pensão para alguns operários que estavam reformando o colégio das irmãs onde a Maria do Rosário estudava. Como a situação não melhorava, tivemos que voltar para o Rosário.
DESTRUIÇÃO
No final de 1932, ainda morando em Passa Quatro, fui passar minhas férias nos Pintos com meu primo e amigo Zé Augusto, na Casa Grande. Quando cheguei, fui surpreendido com a demolição da metade da Casa Grande que ficou completamente desfigurada. Acabava assim um patrimônio símbolo e recordação dos áureos tempos deixado em testamento por minha avó, Maria do Carmo Capistrano de Negreiros. Monumento histórico e já estava na quarta geração e tinha sido construída por meus avós com muito sacrifício, logo que se casaram.
O Tião, responsável pela demolição, estava cometendo um crime. Por que não dizer? Desrespeitou meu avô e seus irmãos, que não foram ouvidos nem consultados e, mais ainda, esquecendo-se das privações e lágrimas derramadas por minha avó, para salvar a Casa Grande, com todas as suas terras, da falência. Ele, mais que ninguém, sabia da história da Casa Grande. Segundo minha mãe, nun dado momento, quando tia Antoninha, já estava casada com o português Manduca, meu avô resolveu construir uma serraria na fazenda, destinada ao preparo e aproveitamento da madeira que ia em grande quantidade nos Pintos, principalmente o pinheiro. Seria a serraria com máquinas sofisticadas, que preparava adequadamente a madeira, ficando assim mais fácil de ser transportada em burros ou carros de bois, até a Ponte do Carmo ou a Pouso Alto e de lá pela estrada de ferro para centros consumidores, Rio de Janeiro e São Paulo. Minha mãe sempre assegurava:
– “O papai pôs em prática a sua idéia, apesar das opiniões contrárias quase todos, principalmente de mamãe que achava impraticável e, até mesmo, uma loucura”.
Eram máquinas importadas que viriam do Rio ou de São Paulo, por estrada de ferro, até Pouso Alto e depois por carros de boi ou carretas até Pintos. O papai contratou um engenheiro, no Rio, para fazer a montagem quando estava quase pronta, o Manduca lhe disse que poderia dispensar o genheiro que ele, Manduca, terminaria a montagem. O meu avô, segundo minha mãe, já com as finanças abaladas, devido ao montante do dinheiro gasto com o engenheiro e para diminuir as despesas, acabou concordando com genro. Dispensou o engenheiro e tio Manduca continuou o trabalho de montagem do engenho. Depois de pronto, ligadas as máquinas, nada funcionou, apesar da boa queda d’água. Segundo minha mãe, o resultado foi castrófico, com prejuízo total. Tiveram que hipotecar a fazenda e meus avós ficaram à beira da falência. Sabe Deus como e quanto sacrifício tiveram para levantar a hipoteca. Foi através de rezas, promessas, privações, lágrimas e dor de minha avó, que conseguiram manter a fazenda dos Pintos intacta, livre e desembaraçada, distribuindo-a ainda em vida a seus filhos e deixando uma terça para garantir o cumprimento do testamento.
Os destroços do engenho e a grande roda d’água que deveria medir uns quatro metros de diâmetro, faziam parte dos brinquedos das crianças da minha geração bem como os tubos de ferro, com uns seis metros de comprimento e uns cinquenta centímetros de diâmetro, os quais atravessávamos de um lado ao outro. Esse era um dos lugares preferidos para a criançada se esconder. Todo esse conjunto, parte integrante da Casa Grande, testemunhava o sacrifício de meus avós para deixar a seus descendentes esse patrimônio que o Tião não tinha o direito de destruir. Eu fiquei confuso com tudo aquilo que se misturava com as minhas recordações e, em meio a tudo isso, ainda tive de ajudar, carregando telhas e madeiras da destruição da Casa Grande, que foi derrubada a marreta e a golpes de machado. Com a destruição, começou a ruir também o império, o mando e a prepotência do Tião.
Voltando das férias contei a minha mãe o que o Tião estava fazendo com a Casa Grande e ela fico indignada. Logo depois de voltarmos para o Rosário, o Tião mudou-se para Passa Quatro. Ele havia alugado a chácara e os pastos do Sr. Euzébio, pai do meu amigo Euzebinho aonde ainda voltei algumas vezes. O Tião não ficou muito tempo em Passa Quatro, voltou para os Pintos logo depois da morte do meu avô.
Minha mãe não deixou que Maria do Rosário ficasse noiva antes de se mudar para o Rosário. Pensava que, com a distância e dificuldades de se encontrarem, aquele namoro desse em nada. Minha irmã era muito nova e o José Maria estava radicalmente contra o casamento. O Magalhães era um rapaz de boa família, mas sem futuro, operário de uma fábrica de fumo. Era trabalhador, mas tinha pouca iniciativa. Nada conseguiu demovê-los do namoro, nem mesmo a distância. Suas vindas ao Rosário para ver minha irmã já estavam se tornando freqüentes e os dois, cada vez mais apaixonados, acabaram ficando noivos e logo se casaram. O casamento foi realizado em nossa casa, com muitos convidados, não só dos Pintos e do Rosário, como também de outras cidades. No dia seguinte, foram para Passa Quatro, onde passaram a morar.
O AUGE DA CRISE FINANCEIRA
Depois do casamento da Maria do Rosário as coisas foram se agravando; minha mãe endividava-se cada vez mais. Vendeu a casa em que morávamos e mudou-se para a outra que nunca havia sido alugada. O comércio fechou-lhe as portas. A pressão e o cerco para que ela pagasse as contas eram cada vez mais fortes, principalmente por parte do Zezinho Maduro, filho do Diamantino e seu sucessor no Rosário. Ele era a testa de ferro do Manoel Delfim, de Passa Quatro, e dos Irmãos Dutra, de São Lourenço. Passou a ameaçar minha mãe com polícia e penhora. Em troca de alguns trocados, ele se esquecera da amizade, que sempre existira entre minha mãe e seus pais que levaram minha mãe para batizar um de seus filhos, o Sebastião Pereira Maduro. Diante das ameaças do Zezinho, minha mãe teve que fazer o que não era de seu feitio. Expulsou-o de nossa casa, depois de dizer que não negava as dívidas e que as pagaria quando pudesse, mas não por seu intermédio. A situação chegou a tal ponto, que foi preciso vender as vidraças da casa, ao Sr. José Ambrósio, o único comerciante que não lhe cortou o crédito. No entanto, mesmo com dificuldades, minha mãe nunca deixou faltar nada aos filhos, a meu pai e meu avô, que já contava com cerca de noventa anos.
A VOLTA AOS PINTOS
Minha mãe, atendendo ao pedido do meu avô, que queria ir para os Pintos e também devido à situação que se tornava cada vez mais insuportável no Rosário, voltou para os Pintos disposta a recuperar o que ainda lhe restava e que estava abandonado e nas mãos dos outros. Ainda lhe restava a casa e parte das terras que herdara de meus avós bem como a parte de meu avô que ele lhe dera para desfrutar. Ela, desta vez, chegou à conclusão de que seria tudo ou nada e como era uma mulher forte e determinada, resolveu jogar duro, seria a sobrevivência ou o caos.
Com a ajuda do José Maria, que passou a ser o homem da casa e a dos outros filhos, iniciou-se uma nova vida. Aos poucos foi-se recuperando a casa, o galinheiro e o moinho, que era um dos melhores dos Pintos. Este era muito importante, pois com a troca do milho pelo fubá e a canjiquinha ficava-se com a sobra para ajudar nas despesas, além do farelo que era dado às criações. Fizemos uma boa horta e com isto tínhamos as verduras. O leite foi garantido com o empréstimo da vaca pelo Rafael. O milho e o feijão recebido dos arrendamentos, tanto da parte de minha mãe, como da parte de meu avô, foram recuperados e aumentados. Pegamos firme nas lavouras de milho, feijão, batatas e fumo, os quais, já no primeiro ano, nos deram uma boa safra. O começo foi penoso. Estávamos sem crédito e sem dinheiro, mas logo começamos a ter as mercadorias para vender e o dinheiro foi aparecendo.
Comprávamos o que não produzíamos, tal como sal, café, querosene, açúcar e outros. Com coragem e persistência, minha mãe contornou a situação e passamos a viver com maior independência.
O DOCUMENTO
Meu avô, já bastante velho, mas ainda lúcido, vendo as dificuldades que minha mãe enfrentava, a chamou e disse:
–”Sá Glória, já que não posso ajudá-la pagando uma pensão, quero ajudá-la de outra maneira. Procure um advogado para que lhe passe um documento garantindo uma pensão. Sempre morei com você e quero morar até aos meus últimos dias. Não é justo eu ficar só dando trabalho enquanto você, o Sr Virgílio e seus filhos só me dão dedicação e carinho. Quero recompensá-la, não importa que seja depois de minha morte, o importante é que você receba”.
Minha mãe, a princípio resistiu à idéia, dizendo-lhe que não era preciso. O que ela queria era sua saúde e seu bem-estar. Vovô insistiu para que ela procurasse um advogado e sugeriu o Sr. Dario Bráulio Vilhena que era casado com a Santinha, uma das netas de meu avô e que morava em Varginha. Ele era um bom advogado, mas acabou na magistratura.
Mamãe foi a Varginha e, por coincidência, a Santinha, sua sobrinha, estava prestes a dar à luz sua última filha. Como ela não estava passando bem, minha mãe ficou lá até que nascesse a criança. Por uma fatalidade do destino, a Santinha faleceu, logo depois, deixando o Dario viúvo e com três filhos pequenos. Minha mãe permaneceu em Varginha por um mês, inicialmente cuidando da sobrinha e depois da recém-nascida, da qual foi madrinha de batismo. Quando voltou, trouxe com ela o documento, passado pelo Sr. Dario, que lhe garantia receber a pensão depois da morte do meu avô, conforme seu desejo.
PAGAMENTO AOS CREDORES
De volta aos Pintos e, antes mesm ide completar dois anos, com as boas colheitas de nossa lavoura e com a parte recebida de arrendamentos, minha mãe equilibrou a situação, restaurou a independência econômica e ainda sobrou dinheiro para liquidar suas dívidas no Rosário, São Lourenço, Itanhandu e Passa Quatro. Ela tez questão de ir pessoalmente aos credores, acompanhada pelo José Maria. Liqüidou todos os seus débitos com os respectivos juros. Foi com surpresa e espanto que os credores a receberam, pois não contavam mais com aquele dinheiro. Ela voltou para casa sem um tostão, mas aliviada e com renovada esperança no futuro.
Minha mãe continuou sua luta com mais determinação. Aumentou a lavoura e logo tínhamos porcos, galinhas e um cavalo, além de uma boa horta. As tarefas eram divididas. Minhas irmãs cuidavam da casa, eu das criações e da horta, ajudado pelo Manoel, e minha mãe e o José Maria cuidavam da lavoura e dos camaradas. Na época da colheita era até divertido, pois era grande a quantidade de mantimentos. O milho era o principal produto, chegava em lombo de burros, em dois jacás, entulhados até à boca e dependurados nos cabeçotes da cangalha, quase arrastando ao chão. Eram tão pesados que os burros chegavam a gemer ao carregá-los. Quando chegavam ao terreiro em frente ao paiol, os jacás eram virados por dois homens, uns após outros, desde o primeiro até ao último burro, que aliviados, saíam para outras viagens e assim sucessivamente. Nos jacás, junto com o milho, vinham também, abóboras, morangas, morangos e até melancias. O fumo era vendido antes da colheita, por estimativa. Feijão e batatas, colhiam-se duas vezes ao ano.
O ÚLTIMO GEMIDO
As coisas já se normalizavam e as finanças também, mas minha mãe começava a preocupar-se com meu avô que já estava com noventa e dois anos. Apesar da boa saúde, a mente e as pernas já começavam a fraquejar e a visão já estava bastante comprometida. Tinha sido operado de catarata, mas pouco adiantou. Já não cavalgava e não mais administrava os camaradas na limpeza da várzea e na conservação do caminho dos Pintos para o Rosário. Sua atividade ficou restrita à limpeza do pasto em redor de nossa casa, sempre acompanhado por um de nós.
Nos últimos dias de sua vida, encontrava-se praticamente cego e surdo e para se locomover tinha que ser amparado por duas pessoas, um de cada lado. Continuava, porém, alimentando e dormindo bem.
Maria do Rosário, que morava em Passa Quatro, já com sua primeira filha e minha primeira sobrinha, a Edmea, veio para os Pintos ajudar minha mãe a cuidar do meu avô. Ele se deitava e levantava-se muito cedo.
Costumava sempre dizer:
– “Deito-me e levanto-me com as galinhas”!
Nos últimos dias só se locomovia da cama para a taipa do fogão ou para o terreiro da cozinha, onde ficava tomando um pouco de sol, sempre sentado em seu tradicional banquinho. Tinha o sono pesado e roncava para valer. Já estava desligado das coisas terrestres e já não conhecia as pessoas, a não ser os de casa que, mesmo assim, tinham que falar bem alto, para que ele reconhecesse a voz. Já não usava mais a bengala, porém o cigarro de palha nunca dispensou, tendo fumado até ao último minuto de sua vida.
Minha mãe apreensiva e pressentindo o desfecho final mudou-o para o quarto em que dormíamos em criança e que se comunicava com o dela, colocando sua cama num ponto em que ela pudesse vé-lo sem se levantar. Mesmo assim, Maria do Rosário passou a dormir a seu lado, isto é, no mesmo quarto.
Uma semana depois da mudança de quarto, à tarde, logo depois de seu jantar, minha mãe levou-o para a cama, ajudada pelo José Maria. Notou que seu pai estava mais cansado que de costume. Teve uma estranha sensação e a impressão de que seria a última vez que o levava para o quarto. Deitou-se, mas não dormiu. Pouco depois da meia noite, ela ouviu-o pedir um cigarro e chamou a Maria do Rosário para atendê-lo. Ele não quis pegar o cigarro e minha mãe ouviu um pequeno gemido, pulou da cama e correu para seu lado. Logo que chegou à beira da cama, percebeu que meu avô estava morrendo e gritou por minha irmã. Meu pai também se levantou e minha mãe, desesperada, pediu uma vela, colocando-a em sua mão. Meu avô, já estava morto. Foi-se como um passarinho, dando um pequeno gemido e permanecendo como se estivesse dormindo, só que agora não roncava mais.
Quando acordei e fui a seu quarto, pude comtemplar aquele semblante adormecido, com pequenos olhos, nariz grande e afilado, testa larga e o rosto de barbas alvas e bigode branco e espesso, deixando aparecer um pequeno sorriso em seus lábios semiabertos
Assim o vi pela última vez. Não quis vê-lo mais, nem antes nem depois de ser colocado no caixão, que fora amarrado em um pau, sobre toda a extensão da tampa, dobrando duas pontas nas extremidades. Carregado por dois homens, que desceram as escadas, pegando o caminho rumo ao Rosário. O caixão foi acompanhado por muitos homens a pé, que se revezavam na tarefa de carregá-lo. Os homens mais velhos e as mulheres, a cavalos, acompanharam o cortejo, até à sua última morada, no cemitério do Rosário.
Quando minha mãe constatou que meu avô estava morto sua primeira lembrança foi avisar sua irmã, a tia Imaculada. Como não tinha nenhuma pessoa para ir, pois eu e José Maria não tínhamos coragem de irmos sozinhos, ela nos acompanhou deixando o resto da família velando o corpo. Chegamos à casa da tia Imaculada que despertada se assustou e saiu imediatamente com minha mãe. Eu, José Maria e Miguel saimos um pouco depois e, por último, o Rafael e o Gabriel.
Apesar da gravidade do momento, ainda tivemos tempo para nossas infantilidades. Quando chegamos na volta do caminho pensamos em assombrar o Rafael e o Gabriel que vinham logo atrás. Entramos em uma das cavas, deitamos sobre o barranco e pegamos algumas pedras para jogar sobre os dois, quando passassem. Eu, que sempre fui muito medroso, quis ir embora, antes que aparecesse alguma assombração para nós.
Logo que amanheceu, todos os dos Pintos ficaram sabendo da morte do meu avô e foram para a nossa casa, que ficou cheia de parentes e amigos. Tia Imaculada encarregou-se de mandar avisar o tio Zé Bruno no Rosário.
Mandou também um emissário a Passa Quatro para avisar o Tião. Ele só chegou dois dias depois do enterro de seu pai e não visitou minha mãe.
O Tião como primeiro testamenteiro e também inventariante, se reuniu na casa da tia Imaculada, com a participação do Antônio Gorgulho, dando início ao cumprimento do testamento e divisão do espólio. A meu ver, houve abuso de poder, contando com a conveniência ou a omissão, não só do Antônio Gorgulho, como também de seus pais, tio João do Morro e da tia Imaculada, que permitiram que o Tião desrespeitasse minha mãe, em sua casa. Pois ela, além de herdeira, era também a única filha contemplada no testamento, além dos netos e afilhados.
Só depois de cumprido todos os preceitos do testamento, é que, a Casa Grande, com todo o seu conjunto de pastos, matas e várzeas, poderia ser repartida entre os herdeiros. Havia ainda as terras que ficaram para o meu avô e que poderiam garantir a pensão deixada por ele no documento passado pelo Dr. Dario, caso fosse reconhecido pelo inventariante, o que lamentavelmente não aconteceu, tendo sido decidido pela Justiça. O Tião fez exatamente o contrário, só cumprindo o testamento para contemplar os seus e todos aqueles que estavam com ele.
Além de tudo isso, disse que iria tomar um pedaço do pasto que fazia parte de nossa casa, pasto que estava em poder de minha mãe há quase vinte anos e que tinha sido fechado pelo meu avô. Pretendia doá-lo a sua filha Carmita, alegando que era para garantir o abastecimento de água na sua casa. No entanto, tal argumento não procedia, uma vez que a água que abastecia a sua casa era a mesma de quando comprou a casa que fora de meu pai, já tendo, portanto, direito de uso dela.
O ENCONTRO COM O ADVOGADO
Depois de muito disse-me-disse ficou comprovado o procedimento de meu tio. Minha mãe recebeu tudo isso como provocação, agressão e desrespeito à memória do meu avô. Não restando outra alternativa, foi procurar o Dr. Dario, autor do documento e também primo e sobrinho de ambos e herdeiro por parte da Santinha, sua mulher, neta e afilhada de meus avós, e que fora contemplada no testamento com quinhentos mil réis. Fez um minucioso relato ao Dr. Dario, sobre o que se estava passando.
O Dario ficou estarrecido e indignado com o que acabara de ouvir. Afinal, ele também fora menosprezado pelo Tião, que pôs em dúvida sua capacidade e honestidade. Tomou então as primeiras providências, visando a assegurar os direitos de minha mãe e a validade do documento. Deu-lhe instruções de como deveria proceder e disse que logo iria a Silvestre Ferraz, hoje Carmo de Minas, local onde iria se desenrolar o processo e onde teria um novo encontro com minha mãe.
Minha mãe voltou aos Pintos mais tranquila. Quando chegou, o Tião já havia retornado a Passa Quatro. O ambiente nos Pintos era de reticência. Ninguém queria tocar no assunto, nem mesmo tia Imaculada e o tio João do Morro, com os quais minha mãe sempre mantivera laços afetuosos. Eles deixaram transparecer o medo e o receio de serem prejudicados pelo Tião, caso tomassem qualquer atitude ou mesmo se manifestassem, de algum modo, em favor de minha mãe. Ela compreendeu a situação delicada em que se encontravam. O Antônio Gorgulho, também estava reticente, já que, sonhava e ensaiava ser o herdeiro do Tião, político e mandatário dos Pintos. Ele sabia que o reinado do Tião estava prestes a terminar, mas aquele ainda não podia ser contrariado, senão seriam prejudicados, visto que os contemplados no testamento e possíveis herdeiros que ainda moravam nos Pintos tinham suas casas nas terras deixadas no testamento.
O cumprimento do testamento com a participação de todos nele contemplados, morando ou não nos Pintos, implicaria na diminuição de suas partes, ou seja, do bolo preparado pelo Tião. Ele, principalmente, que se apossara arbitrariamente do que não lhe pertencia, a Casa Grande e as terras que a circundavam. Além do mais, com o reconhecimento pela justiça, da dívida para com minha mãe, que seria paga com as terras de cultura deixadas pelo meu avô, sobraria pouco para ser inventariado.
Minha mãe tinha esperança de que, com a volta do Tião, as coisas se modificassem e o testamento fosse cumprido no seu texto integral. Mas enganou-se. Um mês depois, o Tião voltava de Passa Quatro e desta vez, com a mudança. Continuou a partilha com a mesma obstinação de antes. Não procurou minha mãe e não quis conversa, nem diálogo com ela. Ele achava que ela não ousaria enfrentá-lo, pois ainda se julgava o todo-poderoso. E, de certa forma, ele tinha razão, pois era temido. Lembro-me de quando eu estava na casa da tia Imaculada, onde nunca deixamos de freqüentar e o Tião chegava, com aquele sorriso espontâneo e aberto. Tia Imaculada, ia logo dizendo:
– “Cuidado! O Sebastião não pode ser contrariado e nem saber do que a gente está conversando”.
A DEMANDA
Não restando mais nenhuma possibilidade de acordo, minha mãe comunicou-se com o Dr. Dario, encontrando-se com ele em Silvestre Ferraz. Depois de tomar conhecimento de tudo que estava acontecendo, este entrou com o documento na justiça e o feito foi julgado procedente pelo Juiz Dr. Paulo Bráulio de Vilhena, primo de ambos.
O Tião, como testamenteiro e inventariante, foi intimado a comparecer à audiência marcada pelo Juiz e, perante à lei, a prestar contas de seus atos como testamenteiro e inventariante. Foi então que contratou o Dr. Orfila como seu advogado.
A demanda foi iniciada, o Dr. Dario veio mais uma ou duas vezes a Silvestre Ferraz e diante da impossibilidade de continuar como advogado de minha mãe, devido a distância e seus afazeres em Varginha, indicou como seu substituto o Dr. José Gorgulho, dizendo a minha mãe que ela estaria em boas mãos, que ele era um jovem advogado, mas brilhante, além do mais, morando em Silvestre Ferraz daria mais assistência a ela. O Dr. Dario não cobrou nada pelo que havia feito, nem mesmo as despesas com as viagens e ainda se colocou à disposição de minha mãe, caso houvesse alguma necessidade.
O Dr. José Gorgulho, que nada tinha a ver com a família Gorgulho, dos Pintos, depois de tomar conhecimento do processo, já na qualidade de advogado de minha mãe, continuou a demanda. Penso que o Dr. Paulo Bráulio de Vilhena, o juiz, foi imparcial nos julgamentos das diversas etapas da demanda. Se eu tivesse que fazer algumas restrições a seus julgamentos, seria no tocante à morosidade de suas decisões, o que era justificável, devido ao seu temperamento, a meu ver, calmo demais. O mesmo acontecia com o Dr. José Gorgulho. Isto pude constatar, apesar de ser uma criança, nas inúmeras vezes em que fui a Silvestre Ferraz, acompanhando minha mãe e nos contatos que tive com ambos. As viagens a Silvestre Ferraz eram penosas e feitas quase sempre a pé. Dependíamos de favores de outros para comer e dormir. Até na casa do Dr. Paulo Vilhena chegamos a pousar e almoçar.
O advogado de minha mãe, Dr José Gorgulho, cometeu dois grandes erros, logo no início da demanda. O primeiro por não ter afastado o Tião como testamenteiro por sua comprovada parcialidade. O segundo por não ter penhorado as terras de cultura deixadas por meu avô, como garantia da pensão à minha mãe.
A demanda se arrastou por dois longos anos, com minha mãe ganhando em todos os julgamentos. No entanto, enquanto o Dr. José Gorgulho procurava ganhar na justiça o Dr. Orfila, sabendo que a causa era perdida e procurando tirar proveito dos erros de seu adversário, ganhava tempo suficiente para que o Tião pudesse fazer o que bem entendesse sem ser molestado, inclusive usando da força e da violência, arrancando e mudando cerca e invadindo a propriedade de minha mãe para beneficiar sua filha, a Carmita.
A INVASÃO
Enquanto em Silvestre Ferraz se desenrolava morosamente a demanda, nos Pintos, contrariando a ética, os bons costumes e o ambiente pacífico e cordial que sempre existiu entre todos, o senhor Sebastião Capistrano de Negreiros comandava a invasão de nossa propriedade, com a derrubada e mudança da cerca. Para tal, teve a ajuda de alguns filhos e camaradas, consumando assim a violência. Acredito que as razões para tal ato deveram-se à sua vaidade e ao seu amor-próprio ferido, pois não suportava ver sua autoridade ser contestada.
O episódio só não ganhou conseqüências desastrosas devido à intervenção de minha mãe, que sempre foi contra a qualquer tipo de violência e de minha irmã Maria do Rosário, ambas tentando conter o Serrinha e o José Maria que quiseram impedir a derrubada da cerca, a bala.
Meu cunhado, o Serrinha, há poucos meses tinha-se mudado para os Pintos. Ele participara da Revolução de 1930, em Passa Quatro, onde fazia tiro-de-guerra. Com a debandada dos Paulistas, após o confronto com os mineiros, ele se apossou de um fuzil, uma baioneta e alguns pentes de bala. Pois bem, seria com esta arma perigosa, privativa do Exército, que ele e José Maria, da janela de nossa casa, poderiam derrubar todos os invasores, sem que corressem qualquer perigo a não ser o de ficarem criminosos. Felizmente, tudo isto foi evitado, não tendo havido nenhuma morte. Após o incidente, minha mãe e o José Maria foram às pressas a Silvestre Ferraz comunicar ao Dr. José Gorgulho mais esta arbitrariedade e a violência do Tião.
A denúncia de minha mãe nada adiantou e o punido foi o meu cunhado, que foi intimado a devolver a arma do Exército, denunciado pelo agressor. Depois deste acontecimento, as relações entre as duas famílias pioraram muito e mais uma vez fui atingido, pois eu gostava muito do Tião, da tia Ita e de todos os seus filhos, principalmente do Zé Augusto. Esta amizade e união acabavam de ser desfeitas.
A demanda continuava se arrastando em Silvestre Ferraz e nos Pintos. O Tião distribuiu como quis a várzea e ficou com a sede da Fazenda dos Pintos, a Casa Grande e também com as terras ao seu redor que abrangiam alguns quilômetros quadrados, ignorando assim o testamento deixado por meus avós. Ainda mais, vendeu uma parte das terras de cultura, alegando que o fruto da venda era para pagar as despesas do inventário. O Dr. José Gorgulho, alertado por minha mãe, não pediu ao juiz a destituição do Tião como primeiro testamenteiro e nem impugnou a distribuição ilegal feita por ele. Apenas penhorou a parte que restava das terras de cultura.
Meses depois, o Juiz deu a sentença final, que foi favorável a minha mãe. O resto das terras foi a leilão e o dinheiro arrecadado mal deu para as despesas de minha mãe com a demanda. Ela perguntou ao Dr. José Gorgulho como ia ficar a situação e ele simplesmente lhe respondeu, que iria por o seu irmão na cadeia. A reação de minha mãe, foi imediata e decisiva, proibindo-o de tomar tal decisão e dizendo que ficaria sem receber, mas não permitiria que seu irmão fosse para a cadeia.
Mais um grave erro de nosso advogado que ao invés de por o Tião na cadeia, deveria mover um processo contra ele, responsabilizando-o pelos desmandos e abuso de poder.
Minha mãe ficou sem receber a pensão e o Tião desmoralizado e terminava assim o seu império de mando e desrespeito para com os outros.
Muitos anos depois, fui a Silvestre Ferraz, a fim de ver e conhecer o processo. Lá estava ele, no Forum, talvez um dos maiores e mais volumosos da Comarca. Paralizado com a última sentença do juiz que reconhecia a validade do documento passado por Dr. Dario Bráulio de Vilhena, em todos os seus itens e determinando que o inventariante cumprisse as suas determinações.
MEU PRIMEIRO COMPROMISSO
Com a demanda, a situação financeira voltou a se agravar. Apesar de continuarmos nos Pintos, tocando a lavoura e recebendo alguns frutos de arrendamentos, já não tínhamos a mesma vontade e entusiasmo dos dois primeiros anos. O dinheiro era pouco, minha mãe só nos dava o necessário e não nos deixava comprar fiado. Quando eu ia à venda do Otelo, o italiano, tinha que prestar contas à minha mãe de todo o dinheiro gasto.
Certa vez, fui à venda e vi um menino comendo um pão sovado com manteiga, fabricada pelo Sr. Otelo. Tive vontade de comer um igual àquele. Respirei fundo e gaguejando, propus ao balconista, o João Negreiros, que me vendesse um pão sovado com muita manteiga, que eu o pagaria na outra semana. O João me vendeu o pão, prontamente, ainda mais caprichado que o do menino. Satisfiz meu desejo, mas só Deus sabe o aperto que passei. A semana passou e eu não tinha o dinheiro e não podia pedir à minha mãe. Sabia que ela me arranjaria, mas eu seria castigado. O jeito foi pedir ao João Negreiros mais um prazo. Minha sorte foi ter aparecido um servicinho extra. O Zacarias, sobrinho de minha mãe, pediu a ela que eu fosse ajudá-lo a levar uns porcos a Cristina. Gastamos dois ou três dias, na viagem. Levamos os porcos amarrados pelos pés, de dois em dois, para não fugirem. Subimos a serra, atravessamos o Pouso Frio, chegamos à Glória à tardinha e pernoita-mos na casa do Sr. Lucas. No dia seguinte, chegamos a Cristina. Depois de entregar os porcos, o Zacarias recebeu o dinheiro e me deu uns trocados. Voltei para casa satisfeito e minha primeira preocupação foi liquidar minha dívida, que tanto me atormentava. Antes mesmo de chegar em casa, passei pela venda e liqüidei meu débito para com o João Negreiros. Foi então que pude entender a ordem dada por minha mãe para que ninguém comprasse fiado e o pavor que ela ainda tinha em pensar nas dívidas contraídas anteriormente em vários lugares. Voltei para casa aliviado e entreguei o resto do dinheiro à minha mãe.
A ROMARIA
Certa vez tia lta organizou uma romaria a Aparecida do Norte, em cumprimento a uma promessa feita. Teria que ser por terra e a pé. Como não poderia deixar de ser, contou com a participação da tia Imaculada e de minha mãe, as quais, dando-lhe uma demonstração de solidariedade, caminharam juntas com ela até Aparecida.
Da Romaria participou muita gente: moradores dos Pintos e do Rosário, entre jovens e adultos. Uma pequena parte da caravana foi a pé e o restante a cavalo. Alguns burros de carga transportavam roupas, alimentos e colchões. Previa-se gastar uns seis dias, mas cumprimos o percurso em cinco. Levamos também algumas cozinheiras e um ajudante, sob a minha supervisão, a do Miguel e a do Zé Augusto. Várias moças participaram, entre elas, a Alaíde, a Bebé e duas filhas do Fonseca, a Dulce e a Marinés. Foram ainda duas filhas do Benedito de Melo, do Rosário, a Olindinha, que foi a vedete da turma e sua irmã. Elas tocavam violão e cantavam, dando mais animação às nossas paradas e pousadas. Zé Augusto, Miguel e eu, começamos a cortejar a OLINDINHA mas a disputa mais acirrada foi entre mim e o Miguel. Não perdíamos de vista a nossa encantadora e atraente companheira de peregrinacão, mas ela, com suas artimanhas não permitiu que houvesse um vencedor.
A viagem foi calma, sem nehum acidente, até chegarmos à serra da Mantiqueira, na divisa de Minas com São Paulo. No topo da serra fizemos uma das paradas para o almoço, já no terceiro dia. Depois do descanso, continuamos a viagem até Piquete, onde passaríamos a terceira noite. Enquanto Miguel e eu ficamos para trás, ajudando desmontar o acampamento, o resto do pessoal desceu a serra, rumo a Piquete. Como nossas mães eram as primeiras a sair e as últimas a chegar, passamos por elas no meio da serra, chegando a Piquete onde iríamos pousar. Quando todos já haviam chegado, vimos que faltavam minha mãe e um pequeno grupo de moças, entre elas a Alaíde. Tia Ita e Tia Imaculada, assustadas, foram logo perguntando onde estavam minha mãe e as outras meninas. Miguel e eu saimos à procura das retardatárias. Fomos até a cidade, perguntando a algumas pessoas, mas não tivemos nenhuma notícia. Fomos apenas informados de que poderiam ter pegado a estrada velha, de difícil acesso.
Como já era noite, resolvemos esperar o amanhecer, para irmos procurá-las. Se de um lado a ausência de minha mãe me preocupava, por outro, fiquei tranquilo pois sabia da sua experiência e ainda estava com ela a Alaíde, que tinha uma disposição de homem. Pensava que o mais provável era elas terem ficado em algum casabre à beira do caminho.
Assim que o dia clareou, pegamos a estrada velha, cercada de mato e buracos por ambos os lados, e começamos a subir a serra, seguindo o caminho já quase destruído, atentos a qualquer sinal do grupo desaparecido. Depois de caminharmos cerca de dois quilômetros, encontramos as ovelhas desgarradas. Aliviados abraçamos minha mãe e o resto das meninas.
No caminho de volta elas nos contaram o que havia acontecido. À medida que caminhavam, a estrada piorava, ficando mais estreita e cheia de buracos perigosos. Ao perceberem que haviam tomado a estrada errada, decidiram voltar e pegar a outra. Já quase escuro, viram uma luz, não muito longe do caminho e, vendo que era uma casa, em pouco bateram à porta. Foram atendidas por um senhor de meia idade que ali morava com sua mulher e dois filhos pequenos. Disseram-lhes que estavam perdidas e não sabiam como chegar a Piquete. O homem, depois de ouvi-Ias disse-lhes:
– “Vocês não estão perdidas. Esta é a estrada velha, que é perigosa, principalmente quando a noite está escura e ameaça chover. Vocês correm perigo de até rolarem em uma barranceira. Convém entrarem e esperarem o amanhecer”.
Arranjou então alguns caixotes para elas se sentarem para descansar. Minha mãe deu graças a Deus e aceitou a oferta daquele homem que lhe pareceu uma ótima pessoa. Todas então pousaram naquela choupana, que tinha apenas dois cômodos, mal cabendo as pessoas. O Sr. Jeremias e a Sra Malvina, os anfitriões, amáveis e bondosos, ainda improvisaram um jantar com arroz e frango e passaram a noite, fazendo companhia às hóspedes que, mesmo sentadas, puderam cochilar um pouco. Logo que amanheceu, o Sr. Jeremias levou-as até a estrada velha, explicando-lhes o caminho de Piquete.
Quando chegamos ao rancho, tia Ita e tia Imaculada já estavam a caminho e o resto do pessoal estava a nossa espera. A chegada de minha mãe com as meninas foi saudada pelos demais com alegria e algazarra. Tomamos nosso café e partimos imediatamente. O Zé Augusto pegou seu cavalo e saiu a galope, a fim de alcançar sua mãe e a tia Imaculada e tranqüilizá-las.
O resto da viagem correu normalmente. Paramos mais uma vez, para o almoço, em uma usina de açúcar. Nós, os mais jovens, aproveitamos o descanso reservado para o almoço, deixamos o acampamento e fomos conhecer o engenho e seu funcionamento. Ficamos muito impressionados com o movimento, tão diferente de nosso Estado. Homens que se movimentavam em todas as direções, burros com grandes jacás, carros de bois e caminhões, todos carregados de cana, descarregando e amontoando cana por todas as partes. Enormes tachos fumegantes, em seus vários estágios, até à apuração da rapadura e do açúcar. Pudemos verificar todo o funcionamento do engenho. Além disso, fomos premiados com o leite, a garapa e os torrões de açúcar servidos à vontade.
De volta ao acampamento, prosseguimos nossa caminhada, pousamos em um rancho, na beira da estrada próximo a Lorena, sendo essa nossa última noite na estrada. O rancho tinha divisão. Nossas mães e as pessoas idosas, ficaram em uma parte e a moçada na outra. Depois de tudo arrumado e do jantar servido, o nosso grupo foi à Lorena, que ficava logo depois do Paraíba. Quando voltamos ao rancho, encontramos um sanfoneiro na venda ao lado. Olindinha e sua irmã pegaram o violão e se juntaram a ele. Improvisamos um baile, que durou até a uma hora da madrugada.
Fui o primeiro a tirar a Olindinha para dançar. Ela ficou feliz e se entregou a mim por inteiro. Seu rosto, colado ao meu, deslizava suavemente. Fomos um par constante. À noite, foi melhor para mim sem, contudo, significar uma derrota para os meus dois opositores.
No dia seguinte, o quinto e último dia da viagem, levantamos quase com o romper da aurora e, depois de tudo arrumado, partimos para Aparecida do Norte, ponto final de uma longa caminhada, que até hoje recordo com saudades.
A FASE NEGRA DE MINHA VIDA
Bastou melhorar um pouco a nossa vida, para que minha mãe começasse com suas manias, sendo uma delas a de ajudar os outros, contrariando a vontade dos filhos. Assim foi com minhas irmãs, Maria do Carmo e Maria Esméria, colocando-as no colégio para ajudar as religiosas, em troca de comida e dos estudos. Desta vez, tentou fazê-lo comigo e o conseguiu por alguns meses, obrigando-me a ir para o Rosário, ajudar e fazer companhia ao padre Machado, um velho quase cego e muito ranzinza. Era sacristão, dormia só em um quarto escuro e tomava conta da casa paroquial e da igreja. Ajudava nas missas, casamentos, batizados e rezas. Tomava conta do sino, subindo as escadas, que levavam à torre, para badalar nos enterros e repicá-los para as missas ou rezas. E, como se não bastasse, ainda cuidava do cemitério, abrindo-o para o coveiro e verificando se as covas seguiam as medidas padronizadas, sendo obrigado a ver aqueles restos de corpos, cabelos e roupas. As noites, naquele quarto escuro, eram cada vez mais insuportáveis e, não aguentando mais, resolvi voltar para casa, sem comunicar minha mãe e sem nada dizer ao padre Machado.
Esperei anoitecer para chegar em casa. Estava com muito medo. Sabia que minha mãe não concordaria com minha atitude. Quando cheguei ela nada falou, mas, no dia seguinte, pediu ajuda ao José Maria para me levar de volta.
Percebendo que ela usaria a força, resolvi agir da mesma maneira. Antes porém, fui taxativo e disse, sem nenhum temor, que lá eu não ficaria e que iria desaparecer para sempre. Diante de minha decisão e firmeza ela recuou, mas com a condição de irmos ao Rosário pedir desculpas ao padre Machado. Concordei, mas continuei com minha firme determinação, caso ela não cumprisse o que havia prometido.
A IDA PARA MUQUÉM
Esta foi a segunda vez que me separei de meus pais, agora por minha livre e espontânea vontade, portanto, sem a interferência de minha mãe. Estava aborrecido com o que vinha acontecendo entre minha mãe e o Tião, uma divergência que já tinha envolvido toda a família e que me atingiu diretamente. Havia perdido meu maior amigo, o Zé Augusto, e, consequentemente, o Walter e o José Dote, filhos da Goíca, além do Eduardo, filho da Carmita. O Miguel era agora o meu amigo mais próximo. Já não tinha mais motivação para ficar nos Pintos quando o José Gorgulho me consultou se eu queria ir para a casa de sua cunhada Conceição, no Muquém, ajudar seu marido a tomar conta da venda e das criações, pois que este estava adoentado e precisava de um menino para ajudá-lo. Eu já conhecia a Conceição. Tínhamos sido vizinhos no Rosário.
Quinze dias depois decidi que iria partindo para uma nova etapa de minha vida e achando que isto seria da maior importância. Passamos pela fazenda do Pinhal, onde morava o Sr. Diamantino e, no dia seguinte, chegamos ao Muquém.
João Ribeiro, marido da Ção, era filho de uma das famílias mais importantes do Muquém, chamado de “Sinhozinho Ribeiro”. Ele era alto, claro, cabelos e bigodes alo rados. Falava aos arrancos e com voz meio rouca. Simpatizamo-nos, um com o outro, e ele me tratou com intimidade, como se já fóssemos velhos conhecidos.
A Ção, estava casada a pouco tempo, mas já tinha seu primeiro filho, o Joãozinho, que estava com dois meses. Iniciei meu trabalho e, além de tomar conta da venda, cuidava das criações, principalmente porcos de engorda. Nas folgas, ajudava a Ção a olhar o Joãozinho, pois sempre gostei muito de crianças. Além das obrigações que eu já tinha, fui incumbido de mais uma, a de levar galinhas e ovos, uma vez por semana, a Pouso Alto e ltanhandu. À medida que ia me entrosando, não só com a venda, mas também com outras atividades e negócios do Sr. João Ribeiro, fui sendo a pessoa de confiança da família. Fiz boas amizades com o Sebastião, dono de uma carpintaria que ficava em frente à venda e com o Zé Toledo, sobrinho da Ção que ia muito ao Muquém. Com o último, voltei a me encontar em São Lorenço, no armazém do Sr. Antônio Candal, onde trabalhamos juntos, dois anos após deixar o Muquém. Contava também com a amizade da Marta, irmã do João Ribeiro e da Leopoldina, que morava com a Ção e era considerada uma irmã de criação.
Antes mesmo de completar um ano de estada no Muquém e antes que acontecesse uma relação amorosa com a Leopoldina, resolvi voltar para os Pintos. Comuniquei minha decisão ao João Ribeiro e a Ção. Sob protesto de todos, deixei o Muquém. A experiência foi boa, ganhei mais confiança em mim mesmo e voltava com idéias novas a serem postas em prática logo que chegasse em casa e com muitos sonhos a realizar.
DECEPÇÃO E INDIGNAÇÃO
Quando cheguei em casa cheio de esperanças, e fazia projetos para reconstruir, juntamente com minha mãe e José Maria, a nossa antiga casa, a casa da época de meu pai, com quintal, pomar, porcos, aves, gado e cavalos, algo que pudesse ser chamado de fazenda. Tinha certeza de que não era um sonho e de que tudo isso poderia se realizar desde que houvesse boa orientação, persistência e muito trabalho. O principal já possuíamos, pois, nossa casa era muito bem localizada e tinha todas as benfeitorias, que poderiam ser aproveitadas. Além do mais, havia um bom pasto em redor da casa, com uns quatro ou cinco alqueires, apesar de termos sido privados de um pedaço, fato já quase esquecido. O pasto estava alugado, maltratado e cansado, devido ao excesso de criação, pois era usado sem nenhum critério. Para reconstruir nossa casa, era preciso que eu e José Maria, tomássemos a direção dos negócios, principalmente ele, que já contava com vinte anos e quase cinco mais velhos que eu.
Mas, todos os meus planos ruíram, como um castelo de areia. Tão logo cheguei em casa fui surpreendido com a notícia da venda da nossa casa ao Vicente Anselmo, juntamente com o pasto e as benfeitorias. Fiquei indignado e revoltado, pois minha mãe e o José Maria tinham-na vendido por preço irrisório e sem consultar aos demais da família. Eu sabia que minha mãe com o pouco dinheiro que recebeu da venda da casa, não ficaria nos Pintos e iria para São Lourenço, correndo o risco de logo ficar novamente na miséria. Para o Rosário ela não iria, pois as casas de lá também já tinham sido vendidas.
Aconteceu exatamente o que eu previa: Mamãe foi para São Lourenço com meu pai, Manoel, Maria do Carmo e Maria Esméria. As duas, como sempre acontecia, acabaram indo para o internato, no colégio de freiras, trabalhando para pagar seus estudos, que eram intermináveis. Elas só conseguiram se formar depois que fui para São Lourenço e com o meu apoio. Quanto ao Manoel, ficou com meus pais em uma casinha de dois cômodos, logo depois da caixa d’água, dada pelo tio Zeca. Manoel, além de fazer companhia e ajudar meus pais, ainda trabalhava no colégio com as freiras.
Só restava para minha mãe, nos Pintos, uma parte das terras de cultura.
José Maria deixou a lavoura, atividade de que mais gostava. Para ele não tinha coisa melhor que por um chapéu de palha na cabeça, vestir uma calça listrada, dobrada até os joelhos, ir para a lavoura descalço, para capinar, plantar e colher. Era tudo que queria, desde que não faltassem o cigarro e um bom prato de canjiquinha, feijão e angu. Deixou de fazer o de que mais gostava, para trabalhar com o José Anselmo, na venda que foi do Sebastião Balbino.
Durante alguns meses eu fiquei perambulando de casa em casa, como cachorro sem dono, ora em casa de um, ora em casa de outro. Ficava nas casas do Antônio Gorgulho, do Teófilo, do José Anselmo e do Sebastião Balbino, onde eu morava mais, não só porque o José Balbino, seu filho, tinha morado em nossa casa em Passa Quatro, mas também devido à companhia do Miguel, que morava e trabalhava com o cunhado, sendo seu retireiro e seu braço direito.
Sebastião Balbino era um homem próspero, com muitas atividades. Tinha casa com todas as benfeitorias, terras, tropas, gado, engorda de porcos e era ainda forte comprador de fumo, batatas e outros gêneros. Muito trabalhador, fazia jus ao que possuía.
Miguel passou a ser o primo e o amigo que substituiu o Zé Augusto e eu gostava de ajudá-lo no retiro. Com o passar do tempo a diferença de idade foi desaparecendo e tornamo-nos amigos e companheiros, construindo uma sólida amizade mantida até hoje.
Teófilo da Augusta, como era conhecido pela família, era irmão da Maria do Zotinho, da família Nogueira de Pouso Alto. Era casado com a Augusta, filha da tia Antoninha. Moravam onde é hoje a casa da Conceição. Tinham apenas uma filha, a Aparecida, que era cega de nascença e vivia pulando constantemente, com os dois pés no mesmo lugar, passando uma das mãos em frente dos olhos, de um lado para o outro. Seus olhos pareciam cozidos, tinham uma cor esbranquiçada.
Era uma casa em que eu gostava de ficar. Além da amizade, eu era também útil ao casal. Eles saíam constantemente para o trabalho e eu ficava fazendo companhia à Aparecida, que ficava sozinha em casa. Quando eu aparecia, era um alívio para o casal que tinha inteira confiança em mim.
Eu sentia a satisfação da Aparecida com a minha chegada. Ela era uma menina inteligente e espirituosa e parecia ficar mais segura quando eu estava ao seu lado. Gostava de novidades e conhecia as pessoas pela voz e as coisas, pelo tato e pelo olfato. Eu sentia o seu contentamento, quando eu apanhava uma fruta ou uma flor e levava para ela, ou quando pegava na sua mão, servindo-lhe de guia nos passeios em volta de sua casa. Também pude ver o desespero e a angústia em que entrou, quando precisei de sua ajuda e ela não pôde me ajudar. Talvez tivesse sido a ocasião em que mais tenha lamentado a sua cegueira. Estávamos sozinhos em casa e saímos para um de nossos passeios no quintal. Deixando-a perto da bica, saí para apanhar-lhe um pêssego e quando voltei, já com o fruto na mão, pisei em um garfo grande, destes que se usam para limpeza de quintais. Ele estava preso a um cabo de enxada, coberto de mato e, por minha infelicidade, com as pontas voltadas para cima. Pisei em uma das pontas laterais, ficando preso no garfo. Gritei com todas as forças, assustando-a. Nervosa e desesperada, ela tentou caminhar em minha direção, agachando-se e apalpando o chão, aqui e ali, tentanto chegar até mim. Eu não podia agachar para puxar o garfo que, além de pesado, ainda estava preso no mato. Fiz então violento movimento para a frente, como se fosse chutar alguma coisa. Meu pé se soltou da ponta do garfo, jorrando sangue para todos os lados. Antes de estancá-lo, pude caminhar ao encontro da Aparecida, tranquilizando-a. O máximo que ela pode fazer ao ouvir meu grito, sem conseguir chegar até onde eu estava, foi chamar por Jesus, Maria e José, só parando depois que me aproximei e segurei o seu braço. Cheguei até a bica, lavei o ferimento, e coloquei o dedo no local, até que estancasse o sangue. Depois, mancando e ainda sentindo muita dor, segurei em seu braço e fomos até a cozinha. Não encontrando nenhum remédio, peguei a lamparina, coloquei um pouco de querosene no ferimento e amarrei um pano para proteger o corte. O ferimento cicatrizou em poucos dias, mas deixou uma cicatriz permanente.
JANEIRO DE 1936
José Maria, tendo resolvido deixar o emprego que tinha na venda do José Anselmo e voltar para a lavoura, contou imediatamente com o meu apoio. Como eu já estava cansado, até mesmo envergonhado de morar de favor e não tínhamos mais casa, tivemos a idéia de construir um rancho onde havia nossa lavoura.
O local escolhido foi perto dos pessegueiros, onde havia uma mina seguida de uma depressão, muito apropriada para a construção de um chiqueiro, com barrancos na cabeceira e laterais.
O rancho foi levantado rapidamente, com a ajuda de alguns camaradas e de dois antigos colonos de meu avô, o Antônio Sabino e o Manoel Macedo, que moravam nas redondezas.
Era de pau-a-pique e tinha dois pequenos cômodos. Era barreado, tinha o chão de terra batida, sendo coberto de sapé. No quarto fizemos uma tarimba com paus rústicos, sobre o qual pusemos um colchão com palhas rasgadas, onde dormíamos juntos. Nos fundos havia uma janelinha, com duas tábuas, também rústicas. Na sobra do quarto não dava para passarem duas pessoas juntas. A cozinha, sem janela, tinha um fogão com dois furos e uma pequena taipa, que ficava a uns vinte centímetors do chão.
Era tudo tão apertado que, para entrar no quarto, tínhamos que passar por cima da taipa. Na cozinha, além do fogão, havia uma mesinha, onde se colocavam água e algumas vasilhas, um banco e a porta de entrada. Logo que o rancho ficou pronto mudamos para lá. Depois fizemos um bom chiqueiro com cerca de 3000 m2, aproveitando os valos da cabeceira e das laterais.
Eu sabia que meus sonhos jamais seriam realizados, pois construir uma casa igual a outra, com todas aquelas benfeitorias e localização, não seria mais possível. Mas tínhamos que fazer alguma coisa, pois eu não suportaria mais ficar sem um lugar fixo para morar e sempre dependendo dos parentes. Portanto, a ida para o mato foi uma solução. Ainda mais, sabia que o dinheiro de minha mãe estava acabando e antes que ficássemos sem nada, tínhamos que tomar alguma providência.
Felizmente, tudo começou a dar certo. Compramos uns porcos do Padre Machado, no Rosário e no meio da vara veio uma porca que poderia ser chamada de Rainha, tamanha a sua qualidade. Era uma porca de bom tamanho, malhada de branco e preto e foi a responsável pelo nosso sucesso. Paria até três vezes ao ano e nunca menos de doze leitões, criando-os todos.
Na lavoura, também tivemos sucesso, plantando milho, feijão, batatas e fumo que passaram a dar boa produção.
Levantávamos cedo. Logo depois do café José Maria ia cuidar da lavoura, enquanto eu tratava das criações, olhava a horta e cozinhava para todos. Chegava a cozinhar para mais de dez pessoas e ainda me sobrava tempo para ajudar na lavoura.
Minha mãe, em São Lourenço, ficou mais tranquila. Passamos a mandar gêneros e dinheiro para ajudar nas despesas. Compramos um cavalo, uma égua com um potro e também uma vaca.
Apesar da modéstia de nosso rancho e de nossas vidas, o saldo estava sendo positivo e nos dava mais segurança. Aos poucos começamos a ser mais respeitados e estimados pelos outros. Entretanto, o mais importante foi o retorno da amizade e convivência com os filhos do Tião, João Negreiros, José Bartolomeu, Carmita e Goíca, os quais tiveram participação direta na invasão de nossas terras e com o episódio da derrubada da cerca.
Com o Niquinho e o José Maria Negreiros nunca foi interrompida nossa amizade, mesmo nas fases mais agudas da divergência de nossos pais.
Para mim, tudo isto teve um significado ainda maior, principalmente pela volta da amizade com o Zotinho e sua esposa, a Maria, que não tomaram parte direta nos acontecimentos. Mas, tínhamos deixado de freqüentar sua casa, aonde sempre eu ia brincar com suas filhas, principalmente com as três mais velhas. Várias vezes fui padrinho de suas bonecas, nos batizados, sempre promovidos pela Bebé.
Acrescente-se a tudo isto que, nesta época, eu já estava gostando da Dorinha e o namoro já havia começado. Daí a importância do restabelecimento de nossa convivência. Morávamos distantes um do outro; ela nos Pimentas, na serra da esquerda de quem desce a várzea, eu, na serra da direita. Os pontos mais estratégicos para nossos encontros passaram a ser a casa do João Negreiros ou a da Goíca, onde fazíamos nossos programas. Os nossos encontros mais freqüentes eram no campo de futebol. Também lá se encontravam a maioria dos primos, Miguel, Gabriel, Rafael, João Negreiros, Canjarana e muitos outros que compunham o time de futebol, meu esporte favorito.
A vida para mim passou a ter mais sentido. Um dos vizinhos mais próximos, além do Fonseca, ficou sendo o Miguel que estava morando na venda do Otelo. Nossos encontros passaram a ser quase diários e nossos passeios mais freqüentes, no Rosário, São Lourenço e mais uma vez em Aparecida do Norte, a qual voltei, mas agora, não por terra, como naquela romaria.
Desta feita fomos a cavalo até São Lourenço e de lá, de trem. Na volta, passamos pela casa de minha mãe, jantamos, pegamos os cavalos e saímos, rumos aos Pintos onde chegamos de madrugada. Quando aproximamos da várzea, aconteceu mais uma das histórias de assombração. A Lua estava muito bonita, quase redonda, deveria estar aproximando de cheia ou passando para a minguante. Em uma pequena reta da estrada, um pouco descampada, vimos duas pernas compridas e sobre elas um pequeno corpo, sem cabeças. Aquela coisa andava na nossa frente, no meio da estrada. Sem pararmos de todo, olhamos um para o outro e um de nós perguntou:
– “Que será aquilo”?
O outro respondeu:
– “Não sei, mas é uma coisa multo esquisita”.
Pensamos em galopar e passar, mas resolvemos aguardar um pouco. Logo depois aquela assombração retrocedeu para o lado e mostrou todo o seu corpo. Vimos então que era um burro ou uma besta, que devido à sua posição e o efeito do luar, só era visto na parte traseira. Esta foi a última assombração que vi nos Pintos.
As coisas para nós caminhavam tão bem que minha mãe, em uma de suas idas aos Pintos, se entusiasmou tanto, que resolveu voltar. Fizemos nos fundos do nosso rancho mais um cômodo, espaçoso e assoalhado. Logo que ficou pronto, ela voltou de São Lourenço e desta vez com a mudança.
As relações com os sobrinhos, filhos do Tião em primeira e segunda núpcias, já estavam completamente restabelecidas, restando ainda o afastamento do Tião, tia lta e filhos destes. Pouco tempo depois, Maria do Rosário também voltava para os Pintos. Ajudamos na construção de sua casa, nas terras de minha mãe, no mesmo local onde meu pai tinha vontade de construir uma outra casa. A casa de minha irmã ficou boa, era assoalhada e coberta de telhas.
ANOS DE 1936 – 1937
No final de 1936 e começo de 1937, começaram a surgir divergências entre mim e o José Maria. Ele se acomodou na lavoura e eu tinha idéias mais avançadas, querendo mais conforto. Sentia-me cerceado por ele, que contava com o apoio de minha mãe.
Resolvi então dar um novo rumo à minha vida, indo para São Lourenço e, desta vez, definitivamente. A idéia amadureceu e, em março de 1937, logo que completei dezessete anos, pedi ao José Gorgulho que arranjasse um lugar para mim no armazém de seu cunhado, Antônio Candal. Ele prontamente me atendeu e poucos dias depois, comunicou-me que o emprego estava arranjado e que eu poderia ir, quando quisesse. Comecei a me arrumar e tomar as providências para a viagem.
Como estava marcado um jogo de futebol entre casados e solteiros e com as torcidas animadíssimas de ambas as partes, marquei minha saída para depois da realização do jogo, que estava marcado para o primeiro domingo de abril. Entre os casados estavam o João Negreiros, José Bartolomeu, o Rodolfo, o Sebastião Balbino e o José Gorgulho. Do lado dos solteiros, o Miguel, o Rafael, o Gabriel, Zé Augusto, o José Maria e eu. O restante, tanto de um lado como de outro, não fazia parte da família. O jogo terminou empatado e foi marcado um outro para o domingo seguinte, tendo o último terminado com o placar de 1×0 para os casados que, para vencer, tiveram de usar da experiência e da brutalidade, machucando vários companheiros solteiros. Em conseqüencia da violência dos casados, tivemos a maior torcida, inclusive das mulheres casadas, que nos presentearam com doces e flores.
No dia seguinte, numa segunda-feira, deixei os Pintos para sempre. A bem da verdade, confesso que lá ficou parte do meu coração. Nunca consegui esquecer o meu torrão natal, onde vivi até os meus dezessete anos.
Com os filhos do Tião, do primeiro e do segundo casamentos, a amizade continuou sem mais interrupções. O mesmo não acontecenco com o Tião, tia Ita e seus filhos, nem mesmo com o meu grande amigo de infância, o Zé Augusto, talvez por termos tomado caminhos diferentes, antes que os ressentimentos causados pelas divergências de nossos pais tivessem desaparecido completamente. Passamos muitos anos sem nos vermos, mas eu ainda sonhava com um próximo encontro que fosse acompanhado daquela amizade de infância, tão saudosa e distante.
ECIMOC
Este encontro dos meus sonhos aconteceu há cinco anos passados, em julho de 1985, nos Pintos, no quarto ECIMOC – Encontro de Confraternização Independente de Morte ou Casamento – idealizado pelos Gorgulhos e que teve o apoio dos Negreiros, Capistranos, Bernardes e muitos outros desta grande família que teve como berço os Pintos e como protagonistas os meus avós, Maria do Carmo Capistrano e Antônio José de Negreiros.
Tal encontro, tão desejado por mim, não foi como eu esperava, cheio de emoções, abraços e recordações. Pelo contrário, foi frio e cheio de reticências. Quando cheguei e tive conhecimento da presença do Zé Augusto, fiquei emocionado e tive vontade de chorar. A missa já ia começar e eu entrei para assisti-la. Fiquei na fila de bancos, ao lado do altar, à direita de quem entra na Igreja, e ele, na fila de bancos do outro lado. Ficamos em frente um do outro. Eu torcia ansioso para que a missa acabasse e eu pudesse abraçá-lo, coisa que aconteceu logo, mas com uma certa indiferença e sem nenhuma emoção. Encontrei um Zé Augusto indiferente e até um pouco rabugento, com a mesma arrogância do pai e o orgulho de sua mãe, a tia Ita.
Percebi, então, que o tempo havia se encarregado de marcar para nós trilhas diversas, mas não pôde apagar as recordações de minha infância.
Artigos
AS ÁRVORES LUNARES
As sementes que orbitaram a Lua são hoje árvores em Brasília e outras cidades. O plantio das mudas ocorreu há 45 anos e as arvores já estão na segunda geração.
A Apollo 14, operada pelos astronautas Alan Shepard, Edgar Mitchell e Stuart Roosa, fez a terceira missão lunar da NASA. A nave espacial decolou no final da tarde de 31 de janeiro de 1971 e retornou em 9 de fevereiro. A missão foi tão especial que rende frutos até hoje por um experimento científico inédito: a expedição levou para o espaço 500 sementes de árvores de várias espécies, que deram 14 voltas na lua. No retorno à Terra, as sementes foram plantadas, germinadas e renderam mudas que foram distribuídas nos Estados Unidos e em alguns países amigos. O objetivo era estudar a ação da microgravidade sobre as plantas. No Brasil, quatro cidades receberam mudas: Brasília, Rio de Janeiro e, no Rio Grande do Sul, Santa Rosa e Cambará do Sul.
Na volta à Terra, as sementes foram plantadas e germinaram em uma unidade do Serviço Florestal no estado do Mississippi. Renderam 450 mudas. Como parte das comemorações do bicentenário dos Estados Unidos, as mudas foram distribuídas por vários locais, entre 1975 e 1976. Para a NASA, a árvore representa a ligação da cidade com a história da exploração espacial e a união entre ciência, meio ambiente e inovação.
No Brasil, segundo a Agência Espacial norte-americana, quatro localidades receberam mudas da Árvore da Lua:
1) Brasília, na sede do Ibama, onde existe um bosque, foi plantado um carvalho canadense ‘Liquidambar styraciflua’, conhecido popularmente como liquidâmbar), em 14 de dezembro de 1980.
2) Outra, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
3) No Parque de Exposições de Santa Rosa, noroeste do Rio Grande do Sul, foi plantada uma muda de plátano (Platanus occidentalis) como atração pela 5ª Feira Nacional da Soja em agosto de 1981. O evento foi celebrado para comemorar os 50 anos de Santa Rosa.
4) Outra sequoia foi plantada em Cambará do Sul, nos Campos de Cima da Serra, em 26 de setembro de 1982, na Praça Central São José.

Apollo 14: as árvores da lua e os cosmonautas Suart Roosa, Alan Shepard e Edgar Mitchel (foto: NASA)
A HISTÓRIA
O experimento científico foi realizado em conjunto entre o Serviço Florestal dos Estados Unidos e a NASA, com o objetivo de estudar a ação da microgravidade sobre as plantas. O Serviço Florestal dos EUA indicou Stuart Roosa para comandar o projeto e selecionou as sementes de cinco espécies para o experimento. Stuart Roosa levou as sementes em seu kit pessoal e ficou com ele enquanto orbitou a Lua.
As sementes que orbitaram o satélite natural da Terra durante o voo tripulado foram germinadas e plantadas em solo terrestre. O experimento recebeu o nome de árvores lunares ou árvores-da-lua, mas ficou claro que não houve germinação ou plantio na superfície lunar.
Na volta à Terra, as sementes germinaram em uma unidade do Serviço Florestal no estado do Mississippi. Elas renderam 450 mudas.
Além de uma árvore plantada no jardim da Casa Branca, em Washington-DC, a maioria das mudas seguiu para capitais estaduais dos Estados Unidos, para instituições de pesquisas espaciais e, até onde se sabe, para alguns países amigos, como o Brasil, Inglaterra, Suíça e Japão.

BRASÍLIA – Há 45 anos, em 14 de dezembro de 1980, autoridades da Embaixada dos Estados Unidos, do Ibama e do Ministério do Meio Ambiente plantaram a ‘Liquidambar styraciflua’, conhecida como Árvore da Lua.

Placa que lembra o plantio do carvalho canadense – liquidâmbar – em 14 de dezembro de 1980. (foto: Silvestre Gorgulho)

BRASÍLIA – A muda de um carvalho canadense – liquidâmbar – é hoje uma árvore frondosa. Foto de Silvestre Gorgulho em 04 de novembro de 2025.
A ARVORE DA LUA EM SANTA ROSA-RS
A árvore lunar de Santa Rosa serve não apenas como um marco de curiosidade científica, mas também como um símbolo de esperança, perseverança e inovação, associando a cidade a uma parte da história da humanidade. Além disso, ela se tornou um ponto de interesse para moradores e visitantes que se fascinam com o legado da exploração espacial dos Estados Unidos e seu impacto no mundo inteiro.

Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, foi uma das cidades brasileiras agraciadas com uma dessas árvores lunares. A espécie plantada na cidade é um *plátano* (Platanus occidentalis), que é uma das cinco variedades levadas ao espaço. Essa árvore foi plantada em um local público, e sua presença simboliza a ligação de Santa Rosa com um evento histórico significativo: a exploração espacial.

Placa que lembra o plantio da Árvore da Lua, em Santa Rosa (RS) em 13 de agosto de 1981, com a presença do presidente João Baptista Figueiredo.
A árvore lunar de Santa Rosa serve não apenas como um marco de curiosidade científica, mas também como um símbolo de esperança, perseverança e inovação, associando a cidade a uma parte da história da humanidade. Além disso, ela se tornou um ponto de interesse para moradores e visitantes que se fascinam com o legado da exploração espacial dos Estados Unidos e seu impacto no mundo inteiro.

A sequoia plantada em Cambará do Sul, em 1982, entre dois cambarás, na Praça São José, consta na lista da NASA.
SEGUNDA GERAÇÃO DA ÁRVORE DA LUA
Detalhe interessante é que uma segunda geração da sequoia lunar foi doada à Prefeitura de Caxias do Sul. Essa muda é derivada de árvore cultivada em Santa Rosa na década de 1980 e passou por um período de adaptação antes de ser plantada no Jardim Botânico Armando Alexandre Biazus, de Caxias do Sul-RS.
Segundo engenheiro agrônomo Ramon Sirtoli, da SEMMA, a muda com cerca de 30cm de altura foi obtida por meio do processo de multiplicação a partir da planta-mãe. “Antes de ir para o Jardim Botânico, a muda foi levada para o Horto Municipal, em Ana Rech, onde passou por um período de adaptação, em estufa, para ter condições favoráveis para o desenvolvimento ser mais rápido”.
FUNDAÇÃO MOON TREE
Natural de Durango, Colorado, o norte-americano Stuart Roosa nasceu em 16 de agosto de 1933. Ele trabalhou para o Serviço Florestal dos EUA no início dos anos 1950, combatendo incêndios e, mais tarde, juntou-se à Força Aérea dos EEUU e se tornou um piloto de teste. A Nasa selecionou Roosa para o curso de formação de astronauta de 1966. Ele começou a carreira na Nasa como integrante da equipe de apoio da Apollo 9. Após a missão em que ele levou as sementes à órbita da Lua, Roosa foi piloto reserva de comando das Apollos 16 e 17.
Hoje existe uma entidade, a Fundação Moon Tree, que é dirigida pela filha de Roosa, Rosemary, com o objetivo de mapear e plantar mais árvores da Lua em regiões ao redor do mundo. A fundação patrocina e realiza cerimônias para plantar novas árvores, com sementes produzidas pela geração original de árvores que cresceram a partir das sementes carregadas pelo seu pai Stuart Roosa.
Artigos
ADEUS Padre Zé
Estou longe do Brasil, mas com o coração apertado e bem próximo do meu amigo, meu professor e meu companheiro lá no Instituto Padre Machado, em Beagá: JOSÉ DE ARIMATHEA NEGREIROS.

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A bióloga-pintora que correu o mundo para pintar plantas e paisagens e é personalidade retratada na entrada da cidade de Tenerife, nas Ilhas Canárias.
Visitei Tenerife duas vezes. A primeira, em 2019, quando fiz a travessia de navio “MSC Seaview” de Civitavecchia (Itália) para o Brasil. A segunda vez, em abril de 2024, também de navio, desta vez no “Norweguian Star”, do Rio de Janeiro para Lisboa. Em ambas as oportunidades deixei o navio para passar o dia em Tenerife.
A cidade me chamou a atenção por vários motivos. Primeiro, porque logo na saída do porto, a gente se depara com um monumento cultural e turístico: os totens ou pedestais que traz os nomes das maiores personalidades mundiais que já visitaram Tenerife. Deve ter uns 80 totens com fotos e pequena descrição de cada um. Lá estão Charles Darwin, Churchill, escritores, reis e rainhas. Vale andar pausadamente para ver este desfile de visitantes ilustres.
Deve ter uns 80 totens com fotos e pequena descrição de cada um. Lá estão Charles Darwin, Churchill, escritores, reis e rainhas.
Várias dessas personalidades já foram motivo de reportagens aqui na Folha do Meio Ambiente como Charles Darwin, Alexander Von Humboldt e Marianne North, que abriu uma grande série que fizemos no jornal chamada “NATURALISTAS VIAJANTES”. Estamos repetindo agora.
Von Humbolt, fundador da moderna geografia física e autor do conceito de meio ambiente geográfico, fez uma das mais belas metáforas que já li quando visitou o Brasil e viu uma vereda coberta de vagalumes:
“OS VAGALUMES FAZEM CRER QUE, DURANTE UMA NOITE NOS TRÓPICOS, A ABÓBODA CELESTE ABATEU-SE SOBRE OS PRADOS”.
SANTA CRUZ DE TENERIFE:
QUANTA BELEZA, ARTE E CIVILIDADE
As figuras expostas no Passeio de Visitantes Ilustres, proporcionam aos visitantes da cidade de Tenerife um percurso emblemático. Além de prestar homenagem a figuras universais que deixaram uma marca indelével na História, tendo atracado o porto de Tenerife em diferentes momentos, eles consolidaram os seus laços com este ponto de passagem histórico. O turista têm um aprendizado do legado deixado por essas personalidades.
É um reconhecimento da comunidade aos visitantes e estamos ao mesmo tempo que acrescenta um valor importante à cidade sobre o ponto turístico e cultural.

A pequena biografia e imagens dos mais ilustres visitantes de Tenerife em totens ou pedestais reafirmam a importância da ilha como um espaço de memória coletiva. O monumento convida os visitantes a conhecer melhor esses personagens fundamentais na História Universal. (Foto: Silvestre Gorgulho)

Marianne North esteve em Tenerife de 13 de janeiro a 29 de abril de 1875. (Foto: Silvestre Gorgulho)
PINTURAS DE MARIANNE NORT
EM TENERIFE
Nos quatro meses que a bióloga e pintora inglesa Marianne North passou em Tenerife, ela fez várias pinturas de plantas e paisagens das Ilhas Canárias.

Pintura de Marianne North no Jardim Botânico de Tenerife em 1875.

A Árvore do Dragão no jardim de Tenerife por Marianne North.

A cidade de Tenerife vista do alto por Marianne North.
Naturalistas Viajantes – Edição 382 – janeiro 2026
MARIANNE NORTH (Parte Final)
Nenhum dos artistas viajantes do Século 19 foi capaz de retratar a paisagem e a flora brasileiras com a intensidade e o colorido dos óleos da pintora inglesa Marianne North. O apoiador mais famoso de Marianne North foi Charles Darwin, o naturalista inglês cujas observações meticulosas se tornaram a base da biologia evolutiva.
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