Gente do Meio

CARLOS AYRES BRITTO

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O ministro das lições humanitárias

 “Comecei Buffalo Bill,
[o atirador do Velho Oeste]
e terminei Touro Sentado,
[o líder Sioux que morreu
 lutando por seu povo]”.
Ministro Ayres Britto

 

 

 Mais uma lição de Ayres Britto, o ministro do Supremo Tribunal Federal, que foi relator do processo sobre a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, e que confessa ter enfrentado o próprio preconceito.

O HOMEM

Para uns, Carlos Augusto Ayres de Freitas Britto, 66 anos, é um homem simplesmente iluminado. Para outros, um brasileiro de rara sensibilidade que tem a missão de ajudar seu País e seu povo. Com certeza, há um consenso: o ministro Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, é um humanista, democrata, exemplo de humildade e de sabedoria. Não foi surpresa para os 700  participantes do Fórum Mundial de Juízes, realizado no início do ano em Belém do Pará, quando – ao fazer a abertura do evento – o ministro Ayres Britto sentenciou: “Os juízes precisam ler mais poesias, romances e jornais para entender melhor a realidade da sociedade”. O apelo era para que os magistrados brasileiros atuem sempre com sensibilidade e comprometidos com a justiça social. Ayres Britto é, desde 2003, ministro do STF e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

A terra é espírito

“Para os índios, a terra não é um bem mensurável. Para eles, a terra não é uma coisa. Ela é um ser, é um espírito protetor. A Constituição diz: “Os índios não podem ser removidos de suas terras, a não ser diante de uma grave calamidade”. Na cabeça do índio é o seguinte: “Não adianta me pagar pela terra”. Ele não quer ser indenizado nem reassentado. No imaginário do índio, ele pensa: – Eu vou sair daqui, mas meus ancestrais vão ficar. Tirá-los de perto da terra é uma violência”.

O POETA

Sergipano de Propriá, Carlos Ayres Britto, 66 anos, é membro da Academia Sergipana de Letras e autor de várias obras jurídicas e de poesia. (Teletempo, Um Lugar Chamado Luz, Uma Quarta de Farinha, A Pele do Ar, Varal de Borboletras, Teoria da Constituição, O Perfil Constitucional da Licitação). Duas poesias:

O capital reduz
Homem do povo a animal,
E quando o homem do povo
Se comporta como animal,
O capital exige contra ele
A pena capital.
(Pena de morte, 177)

Aquele que passa fome
Fica tão prisioneiro da sua fome
Que não lhe sobra liberdade
Pra mais nada.
(Fome, p. 140)

OUTRAS LIÇÕES

Célula-Tronco – São muitas as lições contidas nos votos do ministro Carlos Ayres Britto. Para ele, quando se tem liberdade de expressão, os tabus acabam. E isto é bom! É o antiobscurantismo. Antes, em março de 2008, ao considerar improcedente a Ação Direta de Inconstitucionalidade impetrada contra a Lei de Biossegurança, aprovada pelo Congresso em 2005, o ministro Ayres Britto, relator do processo das Células-Tronco, deu um voto que chamou a atenção do País pela erudição e poesia. Ele sabia que a polêmica era inevitável. Durante um ano estudou muito para preparar seu voto, que foi considerado um dos mais importantes na história do STF. Citou Aristóteles, fez poesia, lembrou Tom Zé  para dar seu voto holístico e  histórico.
“Embrião não é a interrupção de uma gravidez humana. Não há mulher que engravida a distância, por controle remoto”. 

 “Deus fecunda a madrugada para o  parto do sol, mas nem a madrugada é o sol, nem o sol é a madrugada”.

“Tal como se dá entre a planta e a semente, a chuva e a nuvem, a borboleta e a crisálida, a crisálida e a lagarta, ninguém afirma que a semente seja a planta, a nuvem a chuva, a lagarta a crisálida, a crisálida a borboleta!”

Ao relembrar, agora, o voto das células-tronco, Ayres Britto salientou:  “Foi uma decisão magnífica para a ciência. A partir dali já se produziu uma linhagem de células-tronco embrionárias totalmente brasileira. Os pesquisadores agora estão animados porque sabem que não vai faltar dinheiro e não vai haver uma interrupção. Não vai haver uma liminar suspendendo as pesquisas. Fiquei particularmente feliz com essa decisão de vanguarda. Você pode congelar um embrião, pode congelar a fé, mas não pode congelar a ciência”.

Nova lição

E a nova lição veio com o voto sobre o polêmico processo da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol. E o ministro Ayres Brito se encantou com a questão indígena. Este processo também foi estudado exaustivamente. À semelhança do voto das células-tronco, Ayres Britto fez um voto holístico e histórico sobre a Raposa Serra do Sol. Resultado: nove dos 10 colegas de STF acompanharam seu voto.

Raposa Serra do Sol

Voto Holístico e histórico

Ministro Ayres Britto defende a manutenção do decreto homologatório que destina a cinco etnias indígenas uma área de mais de 1,7 milhão de hectares em Roraima.

Em entrevista às jornalistas Paloma Oliveto e Mirella D?Elia, do Correio Braziliense, o ministro Ayres Britto abriu sua alma. Vale a pena relembrar.

Duas dignidades

“Antes via o índio como um ser primitivo, de cultura inferior. Mas ao mergulhar totalmente neste trabalho, mudei minhas idéias. Fui explorando os veios da Constituição. Palavra por palavra. Literalmente, estudei cada termo do capítulo sobre os indígenas. Nenhuma preposição escapou. À medida que eu ia lendo a Constituição, eu, que tinha a obrigação de ser um militante da Constituição, fui percebendo que o capítulo versante sobre os índios foi feito por antropólogos e indigenistas de grande conhecimento. Entendi que estava pensando com cabeça de branco e indo no sentido oposto do que prega a lei. A Constituição diz que há duas civilizações. A do branco e a do índio. Há duas dignidades”.

Mão dupla da aculturação

“A aculturação é uma estrada de mão dupla. Não é só o índio nos conhecer para aprender conosco. É a gente também  conviver com os índios para aprender com eles. Para a Constituição, a aculturação é uma soma, um ganho, uma justaposição. O índio aculturado ganha a cultura do branco sem perder sua cultura. O branco que convive com os índios aprende com eles. Eu fui aprendendo aos pouquinhos. Refletindo, estudando, indo atrás das coisas. Eu comecei Buffalo Bill [o atirador do Velho Oeste)  e terminei Touro Sentado (o líder Sioux que morreu  lutando por seu povo)”.

O preconceito

“Antes de me debruçar sobre os mais de 50 volumes do processo, tinha opinião completamente diferente da proferida em meu voto. É  pura verdade. Quando eu comecei, a minha cabeça era “de branco”. Então, já fui dizendo: – Como é que se reserva tanta terra para índio? Mais: os índios fazem parte de uma cultura primitiva e os não índios de uma cultura evoluída. Assim, comecei me pegando preconceituoso. A gente pensa que não tem preconceito, mas tem. Está lá no fundo da gente.”

SUMMARY

Citizenship Votes

 

“I began as Buffalo Bill,
and ended up Sitting Bull.” 
Minister Ayres Britto

 

Ayres Brito, the minister of humanitarian lessons

One more lesson from Carlos Ayres Britto, the Supreme Court Justice and reporting judge in the Raposa Serra do Sol Indigenous territory case who confesses having to face up to his own prejudice.

THE MAN – There are some who believe that Carlos Augusto Ayres de Freitas Britto, 66 years of age is simply an illuminated man. Others think he is a Brazilian of rare sensibilities who has a mission to help the country and its people.  There is certainly a consensus however, that Minister Ayres Britto of the Federal Supreme Court is a humanist, democrat and an example of humility and wisdom. It was no surprise to the 700 participants of the World Justice Forum held earlier this year in Belém, Pará State, when Justice Ayres Britto opened the event and remarked, “Judges need to read more poetry, novels and newspapers to gain insight into the reality of our society.”  The appeal was a call for Brazilian magistrates to act at all times with sensitivity and commitment toward social justice. Ayres Britto has sat on the Brazilian Supreme Court since 2003 and is currently the President of the Superior Electoral Court.
THE POET – Born in Própria, in the state of Sergipe, Carlos Ayres Britto at the age of 66 is a member of the Sergipe Academy of Letters and the author of a number of legal writings and books of poetry.
Two poems:

The capital reduces
The simple man to an animal,
And when the simple man
behaves like an animal,
The capital requires that he be given
Capital punishment.
(Death penalty, 177)

The hungry man
Is so much a prisoner to his hunger
That there is no more freedom left
For anything.
(Hunger, p. 140)

THE LESSONS
Stem Cells – There are a number of lessons contained in the decisions of Justice Carlos Ayres Britto. He believes that when there is freedom of expression, taboos are eliminated. And this is good!  It is the antithesis of obscurity. Previously, in March 2008, when the Direct Action of Unconstitutionality lodged by the Bio-safety Law approved by Congress in 2005 was judged groundless,  Justice Ayres Britto, the reporting judge of the Stem Cell suit, rendered his decision which drew the attention of the Country owed to his erudition and poetry. He knew that the issue was inevitable. He studied intensely for a year to prepare his decision, which is regarded as one of the most important ones in the history of the Supreme Court. He cited Aristotle, wrote poetry, and called on Tom Zé, as well as the teachings of the Catholic saints to render his holistic and historic decision.
“The embryo is not the interruption of human pregnancy. There is no woman who can get pregnant by correspondence, or by remote control.” 
“God fertilizes the dawn to give birth to the sun, but the dawn is not the sun nor is the sun, the dawn.”
“The same is true of the plant and the seed, the rain and the cloud, the butterfly and the chrysalis, the chrysalis and the caterpillar; no one can be sure that the seed will be planted, that the cloud will bring the rain, that the caterpillar will emerge from the chrysalis or that the chrysalis will become a butterfly!”
Ayres Britto emphasized looking back on his stem cell decision: “It was a magnificent decision for science. Based on that, a line of fully Brazilian embryonic stem cells was produced.  Researchers now are more excited because they know that there will be no shortage of money and that there will be no interruptions. There will be no injunctions to suspend studies. I was especially happy with this vanguard decision. You can freeze an embryo, you can freeze faith, but you cannot freeze science.” 


New lesson

And a new lesson has come from the decision related to the polemic process of delineating the indigenous reserve of Raposa Serra do Sol. Justice Ayres Britto was intrigued by the native Brazilian issue. This process also led him to conduct exhaustive studies. The similarity to the stem cell decision resulted in a holistic and historic decision about Raposa Serra do Sol. Result: nine out of ten Supreme Court Justices agreed with his decision. 

Raposa Serra do Sol

HOLISTIC AND HISTORY DECISION  – Justice Ayres Britto defends retaining confirmation decree which has dedicated an area of over 1.7 million hectares in the state of Roraima to five indigenous peoples. During an interview held with journalists Paloma Oliveto and Mirella D?Elia, from the Correio Braziliense, justice Ayres Britto opened up his soul. It makes for good reading.
Prejudice
“Before starting to study the over 50 volumes of the process, I had a completely different opinion than that rendered in my vote. Truthfully, when I began, my mind was “white.” And I thought to myself, how can we reserve so much land for the Indians? Worse yet, I thought that the Indians were part of a primitive culture and non-Indians have an evolved culture.  That’s how I realized that I was prejudiced. We think that we are unbiased, but we are deep down inside.”

Two types of dignity
“I used to see the Indian as a primitive being, belonging to an inferior culture. But once I delved fully into this work, I changed my mind. I explored all the strata of the Constitution, word by word. I literally studied each term under the chapter regarding indigenous people. I left no preposition unturned. As I read the Constitution, I had an obligation to become a Constitutional activist and I realized that the chapter on Indians was written by anthropologists and highly knowledgeable authorities on indigenous people. I understood that what I had thought with the mind of a white man was contrary to that set forth in law. The Constitution states that there are two civilizations – the white one and the one of the native Brazilian. There are two types of dignity.” 

 
Two way acculturation street
“Acculturation is a two way street. It is not only the Indian who needs to learn from us. We must also live with the Indian to learn from them.   According to the Constitution, acculturation is a sum, one gain, and one juxtaposition. The acculturated Indian gains the culture of the white man without losing his own culture. The white man who lives among the Indians learns from them. I started learning little by little, reflecting, studying and going after things.  I began as Buffalo Bill and ended up as  the Sioux tribal chief Sitting Bull.”
The land is the spirit
“Indians believe that land is immeasurable. Land is not a “thing” to them.  It is a being, a spirit protector. The Constitution said, “Indians cannot be removed from their land unless an extremely serious calamity has occurred.”  In the mind of the Indian, “Land cannot be bought.” He does not want to receive indemnity or be relocated. In the mind of the Indian, he believes that he leaves the land, but his ancestors will remain.  Removing them from their land is an act of violence.”

 

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ADEUS, ORLANDO BRITO

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O céu de Brasília amanheceu lindo, azul e com muita luz.
Mas nossos corações acordaram tristes, meio sem rumo e repassando um filme de saudades ao relembrar a figura serena, solidária, tranquila, genial e amiga de Orlando Brito.
Que você vá em paz, amigo Britinho.
Seu legado, sua história e seu rico acervo fotográfico e editorial sobre a História recente do Brasil e de Brasília está eternizado.
Nossa mesa dos almoços das sextas-feiras, que já teve um vazio imenso com a despedida do arquiteto Carlos Magalhães da Silveira, em junho do ano passado, agora sofre um outro esvaziamento pela passagem de Orlando Brito.
Num espaço de semana, o fotojornalismo brasileiro fica mais pobre, meio sem graça e nossos olhares reclamam as imagens fantásticas que brotavam das lentes Orlando Brito e Dida Sampaio.
Muito triste!
Orlando deixou livros, causos e histórias. Seu mais recente livro é CORPO E ALMA. Deixou ainda: PERFIL DO PODER (1982), SENHORAS E SENHORES (1992), PODER, GLÓRIA E SOLIDÃO (2002) e ILUMINADA CAPITAL (2003).
Adeus, Orlando Brito. Siga em paz!
FOTO:
Da direita para a esquerda:
Orlando Brito, Paulo Castelo Branco, Silvestre Gorgulho, Lucas Antunes, Cláudio Gontijo, Carlos Magalhães da Silveira, Denise Rothemburg, Reginaldo Oscar de Castro e Austen Branco. Fora da foto, porque chegou mais tarde, a secretária Helvia Paranaguá.
Pode ser uma imagem de 6 pessoas, pessoas sentadas e ao ar livre
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O LEGADO DE ELISEU ALVES

COMPLETA 91 ANOS EM 2022

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Eliseu Roberto de Andrade Alves, que nesta segunda-feira, 27 de dezembro, completa 91 anos, é daqueles brasileiros que tem uma obra muito mais conhecida do que a si próprio.
Sua obra mais conhecida é ter participado da criação da EMBRAPA, onde realizou o sonho de qualquer instituição de pesquisa: mandar para as melhores universidades do mundo 2.500 jovens agrônomos, economistas rurais e veterinários recém formados aqui no Brasil e trazê-los de volta com títulos de Mestrado e P.h.D.
Mas Eliseu Alves deixa outros legados: ele criou o conceito do distrito de irrigação, pelo qual os projetos públicos passaram a ser administrados pelos irrigantes. Como presidente da Codevasf (Governo José Sarney) concebeu e implantou o programa de produção e exportação de frutas em Petrolina/Juazeiro e negociou empréstimos no exterior que permitiram uma expansão de mais de um milhão de hectares de área irrigada.
FRASES DO ELISEU ALVES
– “A Ciência liberta o homem da ignorância, da pobreza, da doença e da dor”.
– “Cercear o progresso do conhecimento é um erro lamentável, além de pouco prático: sempre haverá algum país onde a liberdade do cientista é respeitada, e esse país vai pular à frente dos demais na produção de riqueza e do bem estar de seu povo”.
– “O país que não investe em Ciência, condena seu povo a sobreviver com o suor de seu rosto. A Ciência democratiza e a tecnologia liberta”.
– “A Revolução Verde brasileira na década de setenta sustenta hoje o crescimento econômico do Brasil e coloca o País na rota dos grandes exportadores mundiais de grãos”.
– “Fazer ciência é apenas mais uma maneira de exercitar a fé. Nunca vi na ciência qualquer possibilidade de negação da fé. Entendo que investigar os fenômenos físicos e sociais nada mais é que conhecer e revelar os mistérios do fazer de Deus”.
Dr ELISEU ALVES, seus 91 anos devem ser celebrados com alegria, orgulho e como uma benção para o Brasil.
Abraço,
Silvestre Gorgulho
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CONCERTO DE DESPEDIDA: O ADEUS A THIAGO DE MELLO

O Brasil perdeu uma lenda: THIAGO DE MELLO.

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Eu perdi um amigo e a Cultura brasileira perdeu uma referência.
Hoje me emocionei com a carta do filho do Thiago de Mello que faz uma despedida tão linda, tão emocionante que vale a pena a leitura de netos, filhos, pais e avós.
Mensagem do filho do poeta Thiago Thiago de Mello:
Passei três semanas no Amazonas, viajando sozinho. Se é que é possível dizer que viajei sozinho, pois sempre estive acompanhado de gente que me quer bem, amigos e familiares que encontrei pelo caminho. Gente que amo e que me constitui. Fui com dois propósitos nessa imersão solitária. O primeiro, visitar meu pai. Estar com ele por alguns momentos, já ciente da situação de saúde e cuidados na qual ele se encontrava. Depois, fui com o objetivo de iniciar uma reforma inadiável em nossa casa à beira do rio, em Freguesia do Andirá, no interior do município de Barreirinha, a quase 350 km de Manaus. Um dia de barco pra chegar até lá. A casa me pede zelo já há um tempo e estou há uns meses organizando uma campanha para arrecadar recursos para as obras. Consegui uma parte do dinheiro através da generosidade e da compreensão de muitos amigos e conhecidos, todos amantes da amizade, da poesia, da Amazônia e da obra literária de meu pai. Todos sonhadores como eu, que sabem, como meu pai, que arte e cultura geram evolução individual e progresso social. Embarquei no final de Dezembro para Manaus, sendo acolhido pela minha família amazonense que tanto quero bem. Fui ao apartamento de meu pai e Pollyanna. Ele já estava praticamente sem se levantar. Fui até o quarto. Quando ouviu minha voz, comentou: “voz bonita a do meu filho”. Com a memória dissolvida pelo tempo (do qual não se corre) e pelas neuropatias, perguntou meu nome e se eu tinha filhos. Disse que me chamava Thiago e que tinha duas filhas. Nossas mãos entrelaçadas num carinho suave e ancestral. “Mas então nós temos o mesmo nome”, ele notou. Falei que isso tinha sido invenção dele, pôr meu nome Thiago Thiago de Mello. No que ele, após um certo silêncio, falou baixinho: foi pra ficarmos juntos até mesmo no nome. “Cuida bem das suas filhas”. (Eu me emocionei muito nessa hora porque queria dizer a ele que se sou um bom pai é porque ele foi o melhor formador e educador que eu pude ter). Seguimos nossa conversa cheia de silêncios e respirações. Quis saber o que eu fazia da vida. “Canções e poemas”, não titubeei. Ele fez que sim com a cabeça e repetiu “canções e poemas, isso”. Perguntei se eu estava indo no caminho certo. “Certíssimo”, ele me disse com a voz grave de trovão adormecido. Comentei que estava indo para Barreirinha cuidar da nossa casa, pedi a sua benção (“Deus lhe abençoe”, me beijando a mão) e segui o meu caminho rumo ao rio Andirá, dos Saterês-maués. Fiquei semanas num país submerso, me nutrindo do passado, de banho de cheiro, tucumãs, ovas de curimatã, sombra de castanheira, amizades verdadeiras e caldeiradas de tucunaré e tambaqui. As obras começaram. Retiramos as vigas podres. Os esteios corroídos substituímos por madeira nova. Passamos óleo queimado para afugentar o cupim de terra traiçoeiro. Compramos tinta, cimento, ferro. Vieram os trabalhadores. As telhas chegaram de Parintins, presente de Antonio Beti, cuja doação jamais esquecerei. Recebi tanto em minha jornada pelas águas. Fiz um trabalho firme, aguentando o rojão sob chuva e sol quente. Barreirinha, onde meu umbigo está enterrado, me acolheu como sempre. Vi a felicidade nos olhos de gente simples, hospitaleira, contadora de histórias. É com meus irmãos e irmãs ribeirinhos que meu espírito se molda e evolui. Na verdade estava, sem saber, me preparando para um adeus após uma longa despedida. Fortaleci minha alma estando naquele lugar, berço meu, que aprendi a amar com meu pai e minha mãe desde que pra lá fui levado aos 6 meses de idade. Voltei pra Manaus e fui ao apartamento ver meu pai. Ele não me respondeu, já completamente dentro do seu próprio mundo, distante daqui. Pedi um violão e, então, comecei a tocar. As lágrimas caíram, eu sentado e ele deitado na cama. Tirei do baú as canções que sempre cantávamos juntos: “Azulão”, “Por que tu te escondes”, “Linda vida”, “Pai velho”, “Quem me levará sou eu”, “Faz escuro, mas eu canto”. Fiquei ali cantando por mais de trinta minutos, a primeira vez em nossas vidas que ele não cantou junto comigo. Foi um concerto de despedida. A nossa despedida tinha que ser com música e poesia, universo no qual sempre nos encontrávamos. Saí dali e fui comer um pacu assado de brasa em sua homenagem. Botei bastante pimenta murupi e tomei um suco de taperebá pra aliviar o peito. No dia seguinte, logo cedo pela manhã, papai atravessou o rio da vida. Morreu dormindo, bravo merecedor. Parece que estava só me esperando para seguir à Casa do Infinito. Sincronicidade astral, projeto dos deuses, dádiva da natureza. Ele foi em paz. Estamos de luto, mas em breve cantaremos com alegria, como ele sempre nos ensinou.”
THIAGO THIAGO.
PS: A casa que o filho esta reformando é um projeto de grande amigo do poeta, o urbanista Lucio Costa.
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