Entrevistas

Geni Alexandria

Belezas do ILUSTRANDO O CERRADO

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Geni Alexandria – Entrevista


Como a veterinária Geni Alexandria prescreveu belíssimas e criativas receitas para a preservação do Cerrado


Silvestre Gorgulho


A vida profissional de Geni Alexandria começou literalmente no campo. Após concluir, em 1988, o curso de Medicina Veterinária na Universidade Federal de Goiás, Geni Alexandria embrenhou-se por terras goianas, desbravando o Cerrado para atender os produtores rurais. Assim, a jovem veterinária percorreu muitas regiões para levar sua assistência técnica: prestou orientação sobre uso de agrotóxicos, o destino de embalagens, o uso racional do solo e o valor dos recursos naturais, sobretudo das águas. Mapeou erosões e explicou como evitá-las. Também conheceu, analisou e recomendou áreas destinadas a reservas ambientais. Enfim, Geni Alexandria pesquisou o Cerrado, descobriu suas potencialidades e tomou consciência da realidade ambiental do bioma.


 Profissional dedicada, o trabalho de Geni Alexandria não parou aí. Depois das muitas incursões pelos campos e matas do Cerrado, ela passou a admirar e a respeitar ainda mais a natureza. Virou fotógrafa. Registrava em fotografia tudo de interessante que via. Tudo com uma finalidade: ilustrar a flora do Cer­rado. E veio a recompensa pelo trabalho. Um ano depois de iniciar nas ilustrações foi premiada em primeiro lugar pela Fundação Margaret Mee (1) no Concurso de Ilustração Botânica Philip Jenkins 2007 – Categoria Cores, realizado em parceria com a Sociedade Botânica do Brasil e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. E, agora, Geni Alexandria acaba de lançar seu primeiro livro: Ilustrando o Cerrado. O livro revela as belezas científicas das pesquisas e do trabalho desta veterinária de 46 anos, que nasceu paulista, se criou em Goiânia, mas fez do Cerrado sua referência de sonhos e de vida.


 



Capa do livro
ILUSTRANDO O CERRADO,
da pesquisadora
Geni Alexandria


 


 


 


 


Entrevista


GENI ALEXANDRIA


Veterinária, colecionadora de plantas, fotógrafa e ilustradora, Alexandria deixa o recado:”É importante estudar e ilustrar plantas que estão em risco de extinção. Este é um trabalho que exige rigor e urgência, pois é um registro histórico e científico que vai ajudar estudos no futuro”.


FOLHA DO MEIO – Antes da fotografia, compreende-se que todo botânico precisava ser um bom ilustrador. Hoje, com a evolução da fotografia, ainda é importante a ilustração?
GENI ALEXANDRIA – A ilustração é importante para dar os mínimos detalhes de uma planta. A fotografia tem seu valor, pois dá o sentido conjunto, mostra o ambiente natural. Mas com a fotografia não é possível que se obtenha nitidez de detalhes em todos os pontos da planta. O desenho científico registra de forma muito especial e detalhada tudo que se quer. Informações que dizem respeito à espécie são melhor retratadas e é possível evidenciar características que são de grande importância para sua identificação.


FMA – Como o ilustrador trabalha com uma espécie a ser ilustrada?
GA – Primeiramente o mais importante é estar em contato com o exemplar a campo, ou seja, no seu habitat natural. A observação tem que ser minuciosa para que não se deixe de perceber nenhum detalhe. A ilustração científica registra, portanto, toda informação que caracteriza a espécie. Anotações também são feitas e a coleta de matéria: folhas, flores sementes ou um galho, sempre tomando o cuidado de não prejudicar a planta e jamais arrancar o exemplar.


FMA – Após a coleta do material, como é finalizado o trabalho?
GA – Olha, a ilustração botânica exige muita dedicação, muito estudo e, sobretudo, muita paciência. E tem outro detalhe: muitas vezes o ilustrador espera meses para voltar ao mesmo local de coleta, pois tem que aguardar que a espécie esteja em outro estágio vegetativo, florescendo ou frutificando, por exemplo, para que se possa dar continuidade ao trabalho.


FMA – Você tem uma técnica especial?
GA – Evidente que cada ilustrador tem sua técnica. Eu, de minha parte, procuro trabalhar minhas ilustrações com a máxima perfeição e fidelidade. Para finalizá-los busco interagir meus sentidos com os que a natureza me transmitiu quando com as mãos senti a textura e a consistência. Tudo tem que ser informado através do desenho.


“Não sou eu que
digo: terminei! É
a ilustração que diz,
como se já
pudesse sair
do papel: estou
pronta!”



FMA – Quando considera um trabalho finalizado?
GA – Todo profissional fica feliz com a finalização de seu trabalho. Mas que mais me satisfaz é quando eu trabalho os detalhes, quando a textura se define e dá aquela vontade de tocar. Não sou eu que digo: terminei! É a ilustração que diz, como se já pudesse sair do papel: estou pronta!


FMA – Você é uma técnica muito consciente de seu trabalho. Qual a razão de tal dedicação com a natureza?
GA – Acredito que com o conhecimento passa-se a admirar e consequentemente a preservar. O plantio de variadas espécies nativas e exóticas e a ilustração de espécies nativas do cerrado, no decorrer dos anos, é produto de muito carinho e dedicação, com o intuito de contribuir para a difusão e a preservação do Cerrado. Ainda é cedo para resultados concretos, mas ainda que modestos, eles certamente vão existir para reconhecer tal dedicação.


FMA – E quando surgiu a oportunidade de mostrar esse seu trabalho em um livro?
GA – Foi quando o IPHAN na pessoa de Carlos Fernando de Moura Delphim, arquiteto e paisagista, e de Salma Saddi, superintendente regional de Goiás do IPHAN, tomou conhecimento do trabalho que eu vinha realizando. Como conhecedores deram importância e valor à qualidade do meu trabalho e me convidaram a produzir este livro.
 
E nasce uma ilustradora…


FMA – Como e por que você decidiu ir além da fotografia para a ilustração?
GA – Em 2006, iniciei um curso de ilustração em aquarela, onde aprendi a técnica dessa pintura com o mestre Tai Hsuan-an (2). Assim, eu descobri que era capaz de ilustrar. Por incentivo deste professor participei do curso. E já em 2007, fui premiada por uma das minhas produções. Isso me incentivou a dar continuidade às ilustrações, que hoje é parte principal do meu trabalho com a preservação do Cerrado.


FMA – O livro dá prestígio e visibilidade. Após sua publicação, alguma coisa muda em relação a seu trabalho? 
GA – É verdade, o trabalho passou a exigir um maior compromisso, porque minha responsabilidade com quem conhece e valoriza o trabalho aumentou muito. E tenho que dar continuidade a esse projeto, por isto estou cada vez mais empenhada.


FMA – Como foi o processo de produção do livro?
GA – Minha intenção neste livro foi apresentar um pouco do trabalho que realizo com as espécies do Cerrado. Me entreguei muito ao livro justamente porque  procurei mostrar todas as etapas do universo que envolve cada prancha, desde a coleta do material até a finalização da ilustração.
 
FMA – Quais são seus próximos projetos com a ilustração?
GA – Quando a gente começa um trabalho destes, parece não ter fim. Uma coisa puxa a outra. Como a diversidade do Cerrado é muito grande, no início me dediquei mais às palmeiras, depois passei a trabalhar por regiões, atualmente estou dando ênfase a espécies características de cerrado de altitude, assim estou ilustrando plantas de diversas localidades. O interessante é que quanto mais me aprofundo nos estudos, tanto mais sinto necessidade de orientar meu trabalho. Gosto de representar nas pranchas espécies que caracterizam certas regiões. E tem um dado fundamental: é importante estudar e ilustrar plantas que estão em risco de extinção. Este é um trabalho que exige rigor e urgência, pois é um registro histórico e científico que vai ajudar estudos no futuro.


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Cacho de Allagoptera campestris
Local de coleta: Cachoeira de Goiás – GO
 
Allagoptera campestris, (Mart.) Kuntze
Nomes populares: buri; ariri
Importância: potencial paisagístico e seus frutos são avidamente procurados pela fauna regional. Ocorrência e hábitat: solos secos e pobres dos campos e Cerrados do Centro-Oeste e parte da Região Nordeste. Sua presença é relativamente abundante, mesmo em solos degradados.
 Esta ilustração obteve o primeiro lugar na categoria Cores, no XV Concurso Philip Jenkins de Ilustrações Botânicas, realizado em 2007 pela Fundação Margareth Mee em parceria com Sociedade Botânica do Brasil.


Entrevista – GENI ALEXANDRIA


“É importante ilustrar plantas em risco de extinção”.


FMA – Como e por que você decidiu ir além da fotografia para a ilustração?
GA – Em 2006, iniciei um curso de ilustração em aquarela, onde aprendi a técnica dessa pintura com o mestre Tai Hsuan-an (2). Assim, eu descobri que era capaz de ilustrar. Por incentivo deste professor participei do curso. E já em 2007, fui premiada por uma das minhas produções. Isso me incentivou a dar continuidade às ilustrações, que hoje é parte principal do meu trabalho com a preservação do Cerrado.


FMA – O livro dá prestígio e visibilidade. Após sua publicação, alguma coisa muda em relação a seu traba­lho? 
GA – É verdade, o trabalho passou a exigir um maior compromisso, porque minha responsabilidade com quem conhece e valo­riza o trabalho aumentou muito. E tenho que dar continuidade a esse projeto, por isto estou cada vez mais empenhada.


FMA – Como foi o processo de produção do livro?
GA – Minha intenção neste livro foi apresentar um pouco do trabalho que realizo com as espécies do Cerrado. Me entreguei muito ao livro justamente porque  procurei mostrar todas as etapas do universo que envolve cada prancha, desde a coleta do material até a finalização da ilustração.
 
FMA – Quais são seus próximos projetos com a ilustração?
GA – Quando a gente começa um trabalho destes, parece não ter fim. Uma coisa puxa a outra. Como a diversidade do Cerrado é muito grande, no início me dediquei mais às palmeiras, depois passei a trabalhar por regiões, atualmente estou dando ênfase a espécies características de cerrado de altitude, assim estou ilustrando plantas de diversas localidades.
O interessante é que quanto mais me aprofundo nos estudos, tanto mais sinto necessidade de orientar meu trabalho. Gosto de representar nas pranchas espécies que caracterizam certas regiões.
E tem um dado fundamental: é importante estudar e ilustrar plantas que estão em risco de extinção. Este é um trabalho que exige rigor e urgência, pois é um registro histórico e científico que vai ajudar estudos no futuro.


 


Castiçal – Wunderlichia mirabilis
Local de coleta: Serra Dourada – Cidade
de Goiás – GO

Wunderlichia mirabilis, Riedel
& Baker
Nomes populares: castiçal; flor-do-pau
Importância: ornamental e preservação.
Ocorrência e hábitat: campos de altitude, em terrenos pedregosos (Serra Dourada e Pirenópolis).
Planta endêmica.


Esta ilustração faz parte de uma exposição em comemoração
ao centenário de Margaret Mee no Centro Cultural dos Correios – Rio de Janeiro no período de 11 de novembro a 20 de dezembro de 2009.


 


SUMMARY


ILLUSTRATING THE CERRADO


Veterinarian, Geni Alexandria prescribes a beautiful and creative cure for preserving the Cerrado


 The professional life of Geni Alexandria literally began in the field.  After graduating from the Universidade Federal de Goiás school of veterinary medicine in 1988, Geni Alexandria headed toward the lands in the state of Goiás and took on the Cerrado to work with farmers there.  In the course of her mission, the young veterinarian, traveled through a number of regions to offer her technical assistance: she provided guidance on the use of pesticides, final use/disposal of packaging, correct use of the soil and the importance of natural resources, especially water. She mapped out erosion and explained how to avoid it. She also visited, analyzed and recommended areas to be devoted to environmental preservation reserves. Geni Alexandria truly researched the Cerrado, discovered its potential and gained awareness of the biome environmental reality.


As a dedicated professional, the work of Geni Alexandria did not stop there.  After a number of incursions into the fields and woods of the Cerrado, she gained even greater admiration and respect for nature.  She became a photographer and recorded every interesting thing she saw, all for one purpose – to illustrate the plant life of the Cerrado. She has been rewarded for her work.  One year after she began the illustrations, she was awarded first place by the Fundação Margaret Mee. Geni Alexandria has also just released her first book:  “Ilustrando o Cerrado” (Illustrating the Cerrado). The book reveals the scientific beauty involved in the research and work this 46-year old veterinarian has performed.  Born in the state of São Paulo, she grew up in the city of Goiania, Goiás State, but made the Cerrado her dream and her life.


 


GENI ALEXANDRIA – Interview


 The importance of Illustration


Illustration is important to enable the smallest details to be seen of the plant.  Photography is invaluable because it gives a full picture and shows the natural environment.  However, photography cannot provide clarity of all the fine details of the points on a plant.  


 The work


Observation has to be minute so that no detail goes undetected.  Scientific illustration records therefore, all information that defines a species.  Notations are also made and the material is collected: leaves, flowers, seeds and branches, at all times taking care not to injure the plants and the specimens are never pulled out by their roots.  


 Dedication


Botanicalillustration requires a great deal of dedication and study and above all much patience.  Often the illustrator waits months to return to the same collection locale, because you have to wait until the species is in another stage of growth, flowering or bearing fruit.


 Awareness from illustration


Native species illustrations of the cerrado, over the years, are the product of much caring and dedication, for the purpose of contributing toward the discovery and preservation of it.


 An illustrator is born…


In 2006, I took up illustration in watercolors, where I learned this painting technique with the master, Tai Hsuan-an. That was when I learned I had a knack for illustration.  I took part in the course and by 2007 I had already won an award for one of my productions.  This encouraged me to continue with illustration.


 Book production


My intention for this book was to present a little of the work that I do with the Cerrado plant species. I gave myself over to the book because I was seeking to present all the stages of the universe that involves my work, ranging from the collection of material until the final illustration


When we take on an effort such as this, there seems to be no end in sight.  One thing leads to another. Since the diversity of the Cerrado is so immense, in the beginning I devoted my work more toward palm trees, afterword I began working by region and currently I have stressed species that are characteristic of the high altitude cerrado, thereby illustrating plants from a range of locations.


 


 



 

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Johan Dalgas Frisch – Entrevista sobre a ave símbolo do Brasil

O sabiá tem o espírito brasileiro

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em

Sabiá é a ave símbolo do Brasil
Poetas, escritores e ornitólogos pedem o sabiá como a ave nacional do Brasil

Silvestre Gorgulho, de São Paulo

O engenheiro e ornitólogo Johan Dalgas Frisch, presidente da Associação de Preservação da Vida Selvagem, em nome da diretoria da APVS, veio a Brasília trazer um estudo ao ministro José Carlos Carvalho, do Meio Ambiente, e fazer um pedido muito especial: a indicação do sabiá (Turdus rufiventris) como ave nacional do Brasil. O documento entregue ao ministro era assinado, além de Dalgas Frisch, pelo vice-presidente da APVS, jornalista Ciro Porto, e pelo diretor da entidade, Rogério Marinho, da Rede Globo. Nesta entrevista exclusiva à Folha do Meio Ambiente, Dalgas Frisch explica a importância sócio-cultural do pedido. Antes de conferir a entrevista, vale a pena conhecer esse empresário que faz da vida uma luta em prol dos pássaros.

Quem é Dalgas Frisch
Dalgas limpa o ar e água para proteger as aves O industrial Johan Dalgas Frisch retira do negócio da limpeza de ar e da água o fôlego financeiro para patrocinar sua paixão passarinheira

O brasileiro Johan Dalgas Frisch pertence a uma genuína família de ecologistas. Seu bisavô materno foi influente na Coroa dinamarquesa porque conseguiu transformar uma vasta região desértica daquele país em uma imensa floresta, contando com a única tecnologia disponível na época, os arados puxados por bois. Ele inventou um tipo diferente de arado, puxado não por um, mas por 12 bois. Era o único capaz de quebrar a superfície dura do solo, resultado de muitas queimadas. Rompida a crosta, as raízes das árvores podiam se desenvolver e em poucas décadas uma grande floresta estava de pé. Já seu pai, o pintor Svend Frisch, amigo de Pablo Picasso, não vacilou diante da oportunidade de mudar da Dinamarca para o exótico Brasil. Aqui, formou família e desde que o filho Dalgas, aos seis anos de idade, revelou seu amor pelas aves, o pai não parou mais de pintá-las. Ao longo de quatro décadas, Svend desenhou cerca de dois mil exemplares de aves, coletados pelo próprio Dalgas ou emprestados de algum museu ou colecionador particular. Em 1964, pai e filho publicaram a primeira edição do livro Aves Brasileiras. Obra atualizada em 1981, ainda hoje constitui o mais detalhado manual de identificação das espécies ornitológicas existentes no País.

Ainda nos anos 60, Dalgas Frish estava na divisa dos estados do Paraná e São Paulo fazendo exatamente o mesmo que tem feito desde que se conhece por gente. Mas ao ser avistado por alguns militares com seu “arsenal de passarinheiro” – gravadores, microfones, antena parabólica, máquina fotográfica – foi imediatamente confundido com um espião. Por sorte, sua personalidade cativante logo desfez o mal-entendido e como seus pequenos amigos de asas, pôde continuar livre para alçar novos e mais altos vôos.

Como se vê, a família Dalgas tem muitas histórias para contar, enredos que têm a natureza como pano de fundo e que misturam situações curiosas, comoventes e até engraçadas, mas que ainda não mereceram o devido registro. As aves, ao contrário, estão minuciosamente retratadas em livros e discos, de uma beleza tocante e acabamento impecável, editados pelos próprios Dalgas. Um exemplo é a encantadora obra Jardim dos Beija-Flores (1995), que foi acolhida com entusiasmo até por chefes de estado, como Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos.

Inspirado pela companheira do “passarinheiro”, Birte, o livro sobre os beija-flores proporciona uma grata surpresa, pois ensina como aquelas delicadas criaturas podem ser permanentemente atraídas até para uma humilde sacada de um apartamento situado numa grande cidade. O leitor também se emociona ao tomar contato com as fotos de uma centena de beija-flores, trabalho feito em doses exatas de técnica e paixão pelo filho de Dalgas, Christian, co-autor do Jardim dos beija-flores.

Ainda na década dos 60, foi lançado o disco Cantos das aves do Brasil, trabalho pioneiro na América do Sul e aclamado pela Rádio BBC de Londres. O disco vendeu milhares de cópias e acabou inaugurando uma série que hoje é composta de quase 20 volumes. Na época de lançamento do primeiro disco, Assis Chateaubriand, dono de um império de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, teve a idéia de mostrar o trabalho de Dalgas para Walt Disney.

“Graças ao Chatô, que me tratava como um filho, fui para os Estados Unidos viver mais esse episódio. A parceria não deu certo porque Disney queria os cantos das aves sem mencionar que eram brasileiras. Achei isso um abuso. Também discordávamos quanto a um ponto essencial: Disney queria compor novas músicas a partir do canto dos pássaros. Nos meus discos, eu junto músicas já existentes, que normalmente têm por tema as alegrias e tristezas humanas, com o canto dos pássaros, que são sempre de perpetuação e celebração da vida. É o casamento perfeito entre esses dois reinos”, acredita Dalgas.

A entrevista com DALGAS FRISCH

O que significa uma ave nacional?
Dalgas Frisch –
É justamente o retrato vivo de um país, de sua gente e de sua cultura. Como a logomarca representa uma empresa, os símbolos nacionais representam a nação, seu povo e seus costumes. E para que se mantenham vivos na mente dos cidadãos, é necessário respeitá-los e difundi-los. Uma ave nacional representa a alma, o folcore e a cultura de um país. Mas só tem legitimidade quando for oficializada pelo governo.

Por que existe o Dia da Ave no Brasil e até hoje não tem nenhuma ave nacional?
Dalgas –
Foi uma falha no decreto 63.234, publicado no Diário Oficial de 12 de setembro de 1968 e assinado pelo presidente Arthur da Costa e Silva. Durante reunião que tivemos no Palácio do Planalto, o presidente Costa e Silva falou com veemência sobre o sabiá, um pássaro que deu muitas emoções a ele, na sua infância no Rio Grande do Sul.
Todos os jornais da época noticiaram o sabiá como ave nacional, tanto que o sabiá foi festejado durante décadas. Em todas as solenidades, governadores, prefeitos e diretores de escolas soltavam um sabiá de uma gaiola como símbolo de liberdade e de poesia, para motivar os jovens estudantes.
Foram feitos todos anos diplomas comemorativos ao Dia da Ave e as crianças que faziam os melhores trabalhos sobre o tema recebiam de presente passagens aéreas com todas despesas pagas para diversos lugares do Brasil como Foz de Iguaçu, Bahia, Rio de Janeiro. Tudo financiado pela Associação de Preservação da Vida Selvagem.
Há pouco tempo, um jornalista descobriu que o Diário Oficial, que publicou o decreto do Dia da Ave no Brasil, não trouxe o nome da ave. Quando o senador Jorge Borhausen foi ministro da Educação, tentou-se corrigir a falha. Bornhausen fez um ofício ao então presidente José Sarney para retificar o Decreto número 63.234 que criou o Dia da Ave. O objetivo era fazer do sabiá a ave nacional. Mas um novo erro foi cometido, pois esqueceu-se de dar o nome científico do sabiá e acabou que a correção nunca foi publicada. A verdade é que até hoje este lamentável engano ainda permanece “em berço esplêndido”.

Todos países têm uma ave nacional?
Dalgas –
Praticamente todos tem! E é muito bonito ver ave típica como símbolo de uma nação. Tal qual o hino nacional, a bandeira e os brazões. A ave nacional acaba por ser um símbolo vivo de um país.

Por que a maioria dos ornitólogos e intelectuais defendem o sabiá como ave nacional brasileira?
Dalgas –
A resposta é simples! É só fazer uma consulta nos registros do ECAD (Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais) sobre as músicas e letras referentes a aves no Brasil. A ave mais cantada, disparado, é o sabiá, por ser a ave mais conhecida de toda população brasileira. O sabiá vive junto às casas e até mesmo nas cidades, desde que haja um pé de laranjeira, jabuticabeira, amoreira, goiabeira, pitangueira. Na primavera, o sabiá é a primeira ave a cantar, ainda no escuro, antes do raiar do dia. Seu canto é sem dúvida nenhuma o que mais motivou poetas, músicos e escritores no Brasil.
O sabiá é uma maravilha de despertador vivo nas fazendas, nas roças e nas cidades bem arborizadas. Pelo seu canto, imagem, docilidade em viver junto às casas dos caboclos, o sabiá passou a fazer parte da vida, do sentimento dos brasileiros.

Gravar cantos de pássaros em CD é comercialmente rentável?
Dalgas –
Olha, Gorgulho, o canto de um pássaro é a perfeição da espécie. Aquele que canta mais bonito, mais melodioso vai atrair a fêmea. Mas é preciso entender que o sentimento humano é diferente.
Para que o CD seja comercialmente um sucesso é importante que, além da beleza da música, que a letra também mexa com o sentimento. Que reflita uma profunda sensibilidade. Algo nostálgico, do amor não correspondido, da dor de cotovelo, da conquista e da paixão.
Então o que funciona comercialmente é mesclar, é interagir o canto dos pássaros acompanhando as músicas dos homens. Misturar ritmos, trinados, melodias e gorgeios. Comercialmente correto, pois passarinho não compra CD…

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Entrevistas

Dener Giovanini – Entrevista sobre tráfico de animais

Tráfico de Animais Silvestres – Um problema maior do que se imagina

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O tráfico de animais é um problema muito maior e muito mais grave do que se imagina

O terceiro maior negócio do mundo: tráfico

de Animais Silvestres

Silvestre Gorgulho – de Brasília

Tudo começou com a Sociedade Mata Viva, em 1995, no Rio de Janeiro. E tudo começou, também, com o ambientalista Dener Giovanini, formado em Letras pela UFRJ e com curso de Biologia (incompleto) pela Faculdade de Vassouras. Giovanini foi o fundador e presidente da Sociedade Mata Viva. Em 1998, fez um projeto audacioso criando uma Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres. O projeto foi tão bem estruturado, tão bem aceito e trouxe tantos resultados positivos para a sociedade que deixou de ser criatura e ficou maior que o próprio criador. O projeto ficou maior do que a própria Socidade Mata Viva e se transformou na Renctas, uma das ONGs mais citadas pela mídia mundial. Em 2001, foram mais 17 horas de mídia espontânea nas tevês e 400 matérias nos mais importantes jornais brasileiros e internacionais. Para falar desta rede que conta com a participação de 580 organizações filiadas, ninguém melhor do que Dener Giovanini, seu primeiro e único dirigente.

FMA – O tráfico continua aumentando?
Dener –
Eu acredito que hoje, no Brasil, ninguém tem condições de afirmar se o tráfico está crescendo ou diminuindo. Nem a sociedade, nem o governo. Simplesmente porque nós nunca possuímos dados estatísticos que permitisse uma comparação e que nos fornecesse um resultado confiável a respeito desse tema.

FMA – Não existe um levantamento?
Dener –
Olha, o primeiro documento sobre tráfico de animais silvestres foi produzido pela Renctas e lançado no ano passado. Somente quando fizermos a segunda versão é que vamos ter parâmetros para avaliar a verdadeira dimensão desse comércio ilegal.
Hoje isso é impossível, exatamente pela inexistência de dados anteriores ao relatório da Renctas. Podemos afirmar então, que esse relatório foi o marco zero no Brasil. Somente a partir dos próximos relatórios vamos ter condições de fazer comparações. O tráfico de animais é um problema muito maior do que se imagina. É uma situação vivenciada pelo Brasil desde a sua descoberta.

FMA – E quais as principais dificuldades para combater esse crime?
Dener –
Infelizmente as dificuldades são muitas. A começar pela nossa legislação ambiental, que precisa ser revista e alterada para que tenha uma ação realmente efetiva quanto à proteção do nosso patrimônio ambiental.
Também existem problemas com relação ao setor judiciário, principalmente no que diz respeito à aplicação das leis. Infelizmente esse crime é considerado de menor conseqüência, de menor poder ofensivo, o que provoca um certo desestímulo para a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental.

FMA – E as dificuldades operacionais?
Dener –
Essas também são grandes. A principal delas está na falta de recursos para a fiscalização. Soma-se a isso a quase inexistência de locais para destinação dos animais apreendidos. Desta forma, quando um agente ambiental apreende um animal, ele fica com um grande problema nas mãos, por não ter para onde levá-lo.
Os problemas são macros, e necessitam de soluções rápidas e eficazes. Para isso é preciso que tenhamos políticas públicas que englobem a participação de todos os setores da sociedade brasileira para resolvê-los. E é isso que a Renctas está buscando através das parcerias que vem estabelecendo.

FMA – Qual o papel do Governo nesse processo e qual o papel do cidadão?
Dener –
O governo já deu um passo extremamente importante ao reconhecer a existência desse problema. É verdade que ainda há muito a ser feito, mas nós já vemos uma mobilização por parte do Ibama, por exemplo, quando aumenta a sua fiscalização em locais historicamente conhecidos pela atuação de traficantes, como é o caso do Raso da Catarina, local onde vive a Arara Azul de Lear. Ou nas feiras livres espalhadas por todo o Brasil. Isso é um ponto bastante positivo.

FMA – A repressão é suficiente para acabar com o tráfico?
Dener –
Evidente que não. Não vamos resolver o problema do tráfico de animais silvestres somente com a repressão, porque esse é um problema basicamente cultural. Infelizmente faz parte da cultura brasileira enxergar os animais silvestres como passíveis de serem utilizados como mascote, como animais domésticos. Isso é uma herança do nosso processo colonial. Naqueles tempos os nossos índios viviam em estreito relacionamento com a fauna e esse comportamento foi absorvido pelos colonizadores.

FMA – Vamos falar do futuro. Quais as perspectivas do trabalho?
Dener –
Estamos atuando em diversas frentes. Eu gostaria de citar algumas que considero muito importantes, como o trabalho de educação ambiental que temos realizado.
Lançamos uma campanha nacional contra o tráfico de animais silvestres, que teve uma grande repercussão e foi vencedora do prêmio Ford e Conservation Internacional em reconhecimento aos resultados alcançados.
Agora estamos fazendo a segunda versão da campanha, em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e Ministério do Meio Ambiente. Estamos trabalhando com órgãos do governo no sentido de estabelecer parcerias para a criação de políticas públicas, discutindo alternativas viáveis para o combate ao tráfico de animais silvestres.

FMA – Destaque alguns desses trabalhos.
Dener –
Posso destacar a realização de workshops de treinamento e capacitação para os agentes responsáveis pela fiscalização ambiental no Brasil. Nós já realizamos esse evento em 16 estados, e vamos cobrir todo país.
Esses workshops têm sido importantes por reunir todos os agentes responsáveis pela fiscalização ambiental, como o Ibama, Polícia Ambiental, Polícia Civil, Polícia Federal e a sociedade, representada pelas ONGs e pelas universidades. Em cada estado nós estamos presentes fisicamente, plantando uma semente de conscientização e criando oportunidade para uma atuação conjunta, harmoniosa e eficiente entre os órgãos responsáveis pelo controle ambiental.

FMA – É possível alguém possuir um animal silvestre legalmente?
Dener –
A lei brasileira não proíbe que você tenha um animal silvestre. Basta que ele seja oriundo de um criadouro autorizado pelo Ibama. A exigência é que este animal seja adquirido com toda a documentação e que seja nascido em cativeiro e não retirado da natureza.
Eu acredito que a criação comercial da fauna silvestre é uma boa idéia para se combater o tráfico, porém, hoje nós temos uma dificuldade muito grande nesse aspecto, por dois motivos: primeiro o governo ainda não dispõe das condições necessárias para efetuar uma fiscalização eficiente nos criadouros autorizados a funcionar pelo Ibama. São poucos fiscais e alguns desses criadouros não respeitam a lei e acabam vendendo animais retirados da natureza.
Existem muitas pessoas sérias e honestas, mas como em toda área, há aqueles que prejudicam a boa intenção dos demais. A segunda dificuldade que eu identifico na criação comercial é o altíssimo preço dos animais que estão disponíveis no mercado.

FMA – Como funciona esses preços?
Dener –
Simples, uma arara brasileira de origem legal custa em um criadouro autorizado cerca de R$ 3.500,00 a R$ 4.000,00, enquanto no comércio clandestino a mesma ave é comercializada por cerca de R$ 600,00. Isso é um desestímulo para que as pessoas possam ter acesso aos recursos naturais. Eu vejo a criação comercial ainda como uma criação extremamente elitista, ou seja, a fauna só está disponível para aqueles que tem muitos recursos para adquiri-la legalmente. Enquanto os problemas de fiscalização e de acesso a essas espécies não forem resolvidos, nós ainda teremos muita dificuldade para combater esse comércio ilegal.

FMA – A maior parte dos nossos animais é retirada da natureza para atender ao tráfico internacional. Como é possível resolver essa situação?
Dener –
A questão do tráfico de animais silvestres é um problema mundial. É evidente que o Brasil, por possuir uma das biodiversidades mais ricas do planeta, torna-se um dos países mais visados por essa atividade criminosa. Mas no mundo inteiro há espécies que são procuradas para os mais diversos fins pelos traficantes de animais silvestres, seja na África, na Europa ou nos EUA.

FMA – E o tráfico internacional?
Dener –
É bom ressaltar que a comunidade internacional também é responsável pela perda da biodiversidade brasileira, uma vez que ela é uma fomentadora desse tráfico.
As pessoas quando entram em um pet shop nos EUA, na Inglaterra ou na França, precisam saber que aquele animal que está disponível para a venda pode ter sido retirado ilegalmente do Brasil e se elas não tiverem essa consciência, a demanda vai continuar existindo e o nosso país vai continuar a perder sua riqueza biológica.
Nós temos uma fronteira enorme, é praticamente impossível impedir a saída desses animais, visto que grande parte do comércio é feito através das fronteiras secas. No Norte existe um tráfico muito grande nas fronteiras com a Venezuela, Bolívia e Peru. No Sul do país temos muita saída de animais através do Cone-Sul, como a Argentina, Uruguai, Paraguai.
Então é necessário que a comunidade internacional esteja ciente da sua responsabilidade nesse processo. Por isso, a Renctas está desenvolvendo com o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério das Relações Exteriores uma campanha com o intuito de sensibilizar e chamar a atenção da comunidade internacional sobre sua responsabilidade.

FMA – Quais são os valores envolvidos nesta atividade criminosa?
Dener –
Os números são absurdos. Nós temos espécies brasileiras, como a Arara azul de lear, que chega a ser comercializada por U$ 60 mil no mercado internacional.
Algumas serpentes raras chegam facilmente a U$25 mil no mercado de Singapura. É sempre bom atentarmos para o fato de que a lógica do tráfico é extremamente cruel: quanto mais raro for o animal, mais caro será seu valor no mercado ilegal e conseqüentemente, mais procurado. Temos o tráfico para fins científicos, conhecido como biopirataria, o tráfico para pet-shops, para criadores e colecionadores particulares. Tem até o tráfico que utiliza pedaços de animais e nesse tipo de tráfico entra o uso do animal para a indústria do artesanato ou fins medicinais.
Enfim, as variantes e os tipos de tráficos são muitos, e isso torna todas as espécies de alguma maneira passíveis de interesse para os traficantes. Um só traficante atende diversos seguimentos, ele tanto pode fornecer serpentes e escorpiões para pesquisadores estrangeiros, quanto borboletas para atender a indústria do artesanato na China.

FMA – Como todo esse lucro é distribuído na cadeia do tráfico?
Dener –
O fato é que temos um componente social muito importante. A chamada linha de frente é composta pelos apanhadores, que são as pessoas com condições sócioeconômicas muito desfavoráveis. Essa camada da sociedade é a primeira a ser arregimentada pelos traficantes. É bom ressaltar que nenhuma atividade criminosa pode ser usada para justificar um aumento de renda.

FMA – Uns são explorados e quem ganha são os intermediários?
Dener –
Isso mesmo. Os apanhadores são humildes, ganham muito pouco, mas têm papel fundamental. Êles que conhecem a região. É fácil encontrar pessoas que ganham R$0,20, R$0,50 por uma borboleta que ela captura e entrega na mão do traficante. Ou seja, ela não vai resolver o seu problema de renda e em seguida vai acabar tendo problemas ambientais, porque as espécies vão desaparecer.
Existem os intermediários, que são as pessoas que fazem o transporte da região de apanha para a região de venda, esses tem um lucro melhor. Mas o maior lucro é o do vendedor final. Principalmente das quadrilhas internacionais que atuam no Brasil, que são em torno de 350 a 400.
Assim, o grande lucro do tráfico fica nas mãos dos traficantes que têm conexões internacionais. Estamos falando de muito dinheiro. Da terceira maior atividade ilegal do mundo, perdendo só para o tráfico de drogas e armas. É um negócio que movimenta só no Brasil um bilhão e quinhentos milhões de dólares todos os anos.

FMA – E em termos de perda de biodiversidade?
Dener –
A perda é incalculável, pois uma vez que uma espécie desaparece do seu habitat, nós nunca mais teremos a chance de recriá-la, e sabemos que todos os dias nós temos muitas espécies correndo o risco de desaparecer sem que nós tenhamos sequer conhecimento da sua existência.
Toda vez que perdemos um patrimônio genético, poderemos estar perdendo a única oportunidade de encontrar a cura para várias doenças. Hoje por exemplo, produtos para hipertensão arterial são feitos com o principio ativo de serpentes brasileiras. Toda espécie tem um papel extremamente importante no equilíbrio ambiental.

FMA – Existe risco para a saúde ter animal em casa?
Dener –
Os riscos são muito grandes. Qualquer espécie possui microorganismos dentro de si. Uma vez que ela é retirada do seu habitat, a mesma passa por um processo de estresse muito grande e pode transmitir uma série de doenças ao ser humano, como a febre amarela, doença de chagas, leishimaniose, etc. Inclusive doenças desconhecidas da medicina, que são chamados de vírus emergentes.
No Brasil, nós já tivemos vários casos de hantavírus transmitidos por animais silvestres. Assim, quando uma pessoa leva para casa um animal de origem ilegal, ela está expondo sua família a um risco muito grande. Mais do que se pensa .

 

 

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Entrevistas

Maria Reis: o alimento melhor e mais barato não está só no supermercado

A fome e a doença no Brasil têm jeito

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em

MARIA REIS – ENTREVISTA

O que o pobre tem que entender é que o alimento não está
apenas no supermercado e o remédio não está só na farmácia

Silvestre Gorgulho, de Brasília

Há alguns ano s, entrevistei a professora Maria Reis(a direita na foto) para uma matéria sobre alimentação na Folha do Meio Ambiente. E essa educadora me chamou muita atenção pelo seu trabalho nas salas de aula e no campo. Por onde passa, ela mostra que a fome e a doença no Brasil têm jeito, pois a natureza dá tudo o que precisamos. Só tem um senão: o povo é orientado a ir buscar alimento apenas no supermercado e remédio só na farmácia, sem saber que brota do chão uma variedade enorme de produtos para os seus males. Principalmente para o pior deles: a fome. E a professora Maria Reis é sempre uma inconformada, pois ela não aceita que um País que tem a maior diversidade de plantas do planeta, essa imensa extensão de terras férteis, a maior reserva de água doce do mundo, condições naturais favoráveis à agricultura pode ainda ter gente que padece de fome. Não basta o governo virar um supermercado dos miseráveis, colocando-se paternalisticamente à disposição de quem tem fome. É fundamental que o governo seja um agente que possa levar as condições para que essas pessoas possam matar a fome dignamente. Por suas próprias mãos. Vale a pena conferir esta entrevista com a professora Maria Reis, uma candanga que nasceu aqui perto de Brasília. Ela é de Morrinhos, em Goiás, e autora de dois livros: “Educação Alimentar” e “As Plantas Medicinais”.

Em primeiro lugar, por que essa sua ligação com o campo?
Maria Reis –
A origem está na minha infância em Morrinhos, interior de Goiás. Sempre quando terminava as aulas na escola, começava o aprendizado da terra. Era assim que, desde muito cedo, eu e meus 8 irmãos aprendíamos com meu pai os segredos da natureza e o amor e o respeito por ela. Ele jamais admitiu que destruíssemos uma planta. Também nos ensinou a aproveitar todas as sementes. Com minha mãe aprendi a aproveitar as dádivas da terra, que tem muito mais para oferecer do que muita gente pode imaginar. Foi ela quem me ensinou a cozinhar, a preparar alimentos alternativos, aproveitar integralmente os vegetais, utilizar as plantas medicinais. Isso que atualmente as pessoas chamam de alternativo, que parece moderno, na realidade é toda uma cultura desenvolvida pela sabedoria dos antigos, que infelizmente foi se perdendo com o tempo e que é preciso resgatar e difundir. Principalmente entre a população carente. Trago ainda outra herança importante de meus pais: a curiosidade.

Como a senhora pesquisa suas receitas?
Maria Reis –
Até hoje ando pelo cerrado, na reserva que mantenho no meu sítio em Alexânia e descubro novas plantas medicinais e alimentícias. Também aprendo com as pessoas do lugar, pesquiso em livros os valores nutritivos e terapêuticos das plantas, descubro espécies de outros países que se adaptam bem ao nosso solo, planto, invento receitas, procurando sempre aproveitar o melhor dos vegetais. Esse “melhor” não tem nada a ver com o que se costuma chamar de “partes nobres” dos alimentos. Utilizo cascas, flores, sementes, raízes, brotos, talos, farelos e folhas que normalmente vão para o lixo das casas brasileiras, inclusive as mais pobres. Muitos destes alimentos oferecem bem mais nutrientes que os convencionais.

Quando falávamos a estas pessoas
sobre a importância de se utilizar farelos,
cascas e outras alternativas alimentares,
muitas delas se aborreciam, diziam que eram pobres,
mas não comiam comida de porco

O que a senhora pode dizer sobre a cultura do desperdício?
Maria Reis –
O desperdício nasce no preconceito, na falta de informação. A fome no Brasil não é só um problema econômico, é também um problema de educação. Durante muito tempo atuei em programas sociais, direcionados a comunidades carentes, junto à Pastoral da Criança, Pastoral da Saúde, LBA. O trabalho era essencialmente educativo, no sentido de melhorar a qualidade de vida das populações de baixa renda. Nós ensinávamos às comunidades hábitos de higiene, saúde, novos conceitos alimentares, como aproveitar os alimentos, orientávamos gestantes, lactentes. Quando falávamos a estas pessoas sobre a importância de se utilizar farelos, cascas e outras alternativas alimentares, muitas delas se aborreciam, diziam que eram pobres, mas não comiam comida de porco. Não é nada fácil.
É necessário um trabalho amplo, intenso para mudar, melhorar os hábitos alimentares, a qualidade de vida do brasileiro. É preciso vontade política, não só no sentido de buscar uma sociedade mais justa, com melhor distribuição de renda, como o apoio dos órgãos governamentais em ações visando resultados a curto e médio prazo. Ações educativas que ajudem as pessoas a viverem melhor. Nessas minhas experiências em trabalhos comunitários pude constatar pessoalmente muitas das coisas que vêm a reboque da escassez econômica. Desnutrição, condições sanitárias mais do que precárias, um grave desperdício de alimentos. Tudo perpetuado pela ignorância e pela falta de informação.

Porque esses ensinamentos não chegam ao povo?
Maria Reis –
Porque o povo é orientado para buscar remédios na farmácia, sem saber que brota do chão a cura para os seus males, principalmente para o pior deles: a fome. Não posso me conformar com um país que tem a maior diversidade de plantas do planeta, uma imensa extensão de terras férteis, condições naturais favoráveis à agricultura e padece de fome. Preconceitos contra o aproveitamento dos vegetais causam a perda constante de poderosas fontes de alimento. É uma verdadeira afronta à fome, que no nosso país mata mais do que muitas guerras. E mata principalmente crianças.

Qual a recomendação que a senhora daria aos nossos leitores?
Maria Reis –
Acho que nunca é demais lembrar às pessoas o que aprendi bem cedo com meu pai. A natureza dá tudo o que precisamos. Em troca ela só precisa de respeito e cuidado. Preservar a natureza é preservar a nossa própria vida, a vida das próximas gerações. Como podemos dizer que amamos nossos filhos, nossos netos, se não cuidamos do mundo que estamos deixando para eles? Ensino às pessoas uma alimentação mais natural, a se tratarem com plantas medicinais. É um trabalho que gosto muito, mas por incrível que pareça isto, às vezes, tem me deixado triste.
Na comunidade próxima ao meu sítio em Alexânia, por exemplo, oriento as pessoas para a utilização de vegetais do cerrado que antes elas ignoravam. E agora observo estas plantas sendo devastadas, até na reserva que mantenho no sítio e que vem sendo invadida, depredada. Essas pessoas não têm sequer o cuidado de extrair o fruto sem danificar os galhos. Às vezes até arrancam a planta pela raiz por pura displicência, tiram a proteção dos troncos sem a menor necessidade. E quando sofrem com as consequências da devastação do meio dizem que é castigo de Deus. Mas é claro que Deus não tem culpa nenhuma de nada disso. Temos que fazer a nossa parte, respeitar todas as formas de vida, preservar a integridade das plantas, não poluir, replantar, tratar com amor, com reverência o que temos de melhor, de mais bonito no nosso planeta. Temos principalmente que ensinar, dar o exemplo para as novas gerações. É uma missão que cabe aos pais, aos educadores, a todos os adultos. Ninguém pode se omitir.

 

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