Entrevistas

Geraldo Gentil e Marisa Cordeiro

No coração da Caatinga

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No coração da Caatinga
Na busca de soluções para o Semi-Árido, a transposição do São Francisco continua sendo uma panacéia. O mais importante é a erradicação do analfabetismo, pai e mãe da pobreza.


Silvestre Gorgulho


18 de Junho de 2008


É possível conviver com qualidade social no Semi-Árido? Estará o bioma Caatinga com os dias contados? Sessenta profissionais de nível superior de várias origens, desde instituições federais, estaduais e da sociedade civil buscam as respostas. Em Lagoa Seca, próximo a Campina Grande-PB, nos altos da Borborema, esses profissionais participaram de um seminário como parte do curso de especialização por tutoria à distância, “Desenvolvimento Sustentável para o Semi-árido Brasileiro”. Meses depois, em João Pessoa, foi a vez do II Seminário Luso-Brasileiro sobre Agricultura Familiar e Desertificação. Nesses eventos foram discutidos diversos assuntos relacionados ao processo de desertificação na busca de soluções próprias para as Áreas Susceptíveis à Desertificação, que cobre mais de um milhão de quilômetros quadrados e onde vivem mais de 25 milhões de pessoas.



Geraldo Gentil e Marisa Cordeiro – Entrevista


Geraldo Gentil Vieira é engenheiro agrônomo pela Universidade Federal de Lavras e especializado em Irrigação e Solos:
“O importante é erradicar a pobreza e dar direito à cidadania. A questão é de sobrevivência e resistência”. O combate à desertificação é centrado na comunidade
.


 


Folha do Meio – Como funciona o curso?
Geraldo Gentil – O curso é patrocinado pelo Ministério do Meio Ambiente por meio da Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano, pela Universidade Federal de Campina Grande e pela ABEAS (ver glossário) e pelo IICA.  O objetivo é prover os técnicos de informações básicas de como realizar o desenvolvimento sustentável para o Semi-Árido Brasileiro, garantindo e gerando técnicas para as atuais e futuras gerações. Os técnicos precisam definir novos caminhos para a fixação do homem no campo. E o enfoque está na vocação local e regional, na educação contextualizada visando a convivência do homem com o meio ambiente. Isto possibilita o desenvolvimento sustentável por meio do uso racional dos recursos naturais.


FMA – Vamos ao cerne da questão: é possível viver na região?
Marisa – Olha, vamos por partes. Grosso modo, é possível viver na região. Evidente que não é fácil, justamente pelas escassas e irregulares chuvas. E também pelos solos quase sempre rasos e salinos de origem cristalina.
Produzir e armazenar, tal como os povos em invernos rigorosos e climas áridos de outras latitudes, é a questão. A dificuldade é justamente sob o ângulo social e de degradação ambiental.
Isto envolve uma convivência de nebulosos 500 anos. Os primeiros passos foram dados nos anos 90 na COP-3 (Conferência das Partes das Nações Unidas), em Recife, e desde então muitos passos foram dados.


FMA – Qual o nível de conhecimento que temos sobre o Semi-árido?
Geraldo Gentil –  Quem melhor definiu isto foi José Roberto de Lima, coordenador de Combate à Desertificação do MMA.
Para ele o nível de conhecimento que temos sobre o Semi-árido, e mais especificamente sobre os processos de desertificação no Brasil, ainda é muito incipiente. Isto vem dificultando um planejamento de longo prazo mais profundo.
Aliás, José Roberto de Lima lembra que este tem sido o motivo para que tantos planos, projetos e instituições públicas e privadas naufraguem em suas tentativas de promover o desenvolvimento regional. O Curso de Pós-Graduação é justamente uma tentativa de avançar neste esforço e aumentar nosso conhecimento sobre o Semi-árido.


FMA – O que é desertificação?
Geraldo Gentil – A desertificação é definida como a degradação do solo em regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, resultante de fatores climáticos, geológicos, antrópicos e outros.
A complexidade da desertificação é conseqüência de práticas predatórias seculares como o desmatamento e queimadas para agricultura de subsistência e latifúndios, sobrepastoreio bovino e ovinocaprino, enfim, o retirar e nada repor, gerando pobreza e êxodo rural. Envolve temas tão diversos como antropologia, solo e água, flora e fauna, a biodiversidade-mãe, as sementes e o semear, o molhar das águas do telhado e o clima seco que tudo envolve.


FMA – O que vocês chamam de oasificação?
Geraldo Gentil – Conhecemos este neologismo em curso no Egito e, mais recentemente, citado pelo agrônomo Beranger Araújo em curso em Campina Grande. A oasificação é o processo contrário à desertificação. Não se trata de descobrir o problema da desertificação e sim de buscar soluções pela oasificação. Mediante técnicas próprias de captação e acumulação de água, solo, matéria orgânica e nutrientes, pode-se reverter a desertificação, inclusive em situações extremas. Sair da situação parda, seca e estéril,  para outra, azul, verde e produtiva. Nada mais é que a formação de oásis em pequenas propriedades produtivas em torno de uma fonte d’água.
No Brasil o fazedor de oásis é o agrônomo Luciano Cordoval, da Embrapa, com as suas “barraginhas”.


FMA – E quais as possíveis soluções?
Marisa – Temos que criar com urgência programas produtivos familiares sustentáveis, unidades de conservação integrais, como parques nacionais, reservas ecológicas, RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural). A biodiversidade da Caatinga é riquíssima.
O Semi-Árido clama por recursos e soluções concretas sustentáveis. A educação formal, a profissionalizante, ambiental e as redes ajudam a catalisar idéias e práticas. Temos que preparar as pessoas e estimular o intercâmbio de experiências. Sem educação e não combatendo a ignorância, não há solução. Oficinas e cursos profissionalizantes denominados “Práticas do Aprender” trabalham a concepção, refletindo e analisando criticamente a partir da prática e da inserção da realidade vivenciada.
Geraldo Gentil – O PAN Brasil e a ASA-Brasil – Articulação do Semi-Árido, ong que congrega cerca de 800 instituições da sociedade civil no Semi-Árido Brasileiro, tem apresentado grandes propostas, como o P1MC, o Uma Terra Duas Águas (P1+2), as Sementes da Paixão, e outros como os Projetos Amanhã, o Mandala.
É preciso repensar e propor políticas públicas e ações de convivência sócio-econômica para a região. Tendo vivido por um período no Nordeste semi-árido – minha filha adorava passear nas feiras – acredito que as soluções podem e devem vir basicamente do próprio nordestino e do sertanejo, antes de tudo um forte, parodiando Euclides. O importante é erradicar a pobreza e dar direito à cidadania.


FMA – Ou seja, sem educação não há solução?
Marisa – É verdade, a educação profissionalizante é fundamental para a convivência com o Semi-árido brasileiro. Pensar urgentemente em propostas que valorizem as riquezas do Semi-árido e possibilitem oferecer um ensino mais significativo para os jovens visando sua fixação, voltadas para a melhoria das condições de vida no campo. Isto é responsabilidade de todos nós educadores, preocupados com o futuro das próximas gerações, tão desprovidas de oportunidades. É preciso pressa.  Os jovens rurais são potenciais sabedores das formas de relacionar e explorar suas potencialidades, através da convivência sustentável com a região, construída com os saberes empíricos dos pais agricultores, a partir da luta pela água, pela terra, pelos seus direitos e cidadania, e principalmente pela sua própria sobrevivência. Porque não dizer, resistência.
Geraldo Gentil – Vejo o Nordeste e em especial o Semi-árido, como uma região polêmica e de grande potencial natural e social. Não fosse assim, não seria tão populosa.
Mas vejo que historicamente a região tem ficado defasada do desenvolvimento nacional,  são precisos investimentos maciços para resgatá-la.


FMA – Faltam polícias públicas…
Geraldo Gentil – Sim, a verdade é que faltam políticas públicas consistentes, apropriadas para o clima seco, que deve ser visto não como entrave, mas como um fator capaz de gerar riquezas para seus filhos de forma sustentável. Para tanto todos precisam agir: é urgente erradicar o mal maior, o analfabetismo, o pai e mãe da pobreza. E junto, de imediato, há que se revitalizar as bacias e sub-bacias nordestinas, que estão à deriva, como a do rio Paraíba e tantas outras.
Muitos não acreditam que existe desertificação, mas é um processo que vem crescendo a olhos vistos e com uma gravidade cada dia maior.


“A educação profissionalizante é fundamental para
a convivência com o
Semi-árido. Pensar
urgentemente em
 propostas que valorizem as riquezas do Semi-árido e
possibilitem oferecer um
ensino mais significativo para os jovens visando sua
fixação, voltadas para a
melhoria das condições de
vida no campo, uma questão de sobrevivência
e resistência”.


 


Em Campina Grande/Lagoa Seca-PB, participantes do Seminário sobre Convivência com o Semi-árido


 


 


Glossário


ABEAS – Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior.
ASD – Áreas Susceptíveis à Desertificação, cobrindo mais de um milhão de km² em nove estados, cujos focos mais degradados são os do Seridó-PB/RN, Gilbués-PI, Irauçuba-CE e Cabrobó-PE; muitos outros estão em formação acelerada. Vasconcelos Sobrinho foi o pesquisador que denominou “núcleo de desertificação” a ocorrência – isolada ou agregada – de manchas de solo onde o horizonte superficial encontra-se muito erodido e, em muitos casos, aflorando a rocha.
Barraginhas – Programa de oasificação concebido por Luciano Cordoval, da Embrapa/CNMS, para coleta de água de chuva segundo o princípio indiano “colher a gota de chuva em pé”, i. é, antes que as enxurradas causem erosões e atinjam os corpos d’água.
CPO-3 – Conferência das Partes das Nações Unidas, da Convenção de Combate à Desertificação, ocorrida em Recife em novembro de 1999.
DSSB – Curso de Desenvolvimento Sustentável do Semi-Árido Brasileiro.
IICA – Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura.
PAN Brasil – Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação da Seca do MMA, é um instrumento norteador que busca harmonizar ações e maior cooperação entre todos os envolvidos com a questão da desertificação; para tanto, a participação das comunidades é fundamental.
P1MC – Programa por um Milhão de Cisternas para coleta de água de chuva do telhado, do MMA.
Projeto Amanhã – Projeto da Codevasf para capacitação e organização profissionalizante de jovens com faixa etária entre 14 e 26 anos, tendo formado 15 mil jovens em 15 anos (veja matéria nesta edição); está em estudos a instalação de uma unidade em Gilbués; o ideal seria atuar em cada núcleo de desertificação, mas a Codevasf não atua no RN/PB e CE.
RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural, proteção espontânea da biodiversidade pelo proprietário, com averbação em cartório.
Sementes da Paixão – Rede de agricultores para troca de sementes locais ou nativas, que técnicamente são chamadas de “sementes crioulas”, com patrimônio genético do Semi-Árido.
Uma Terra Duas Águas (P 1+2) – Programa que propõe que cada agricultor tenha uma terra para plantar e duas fontes de água, uma para beber e outra para a produção agrícola.




 

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José Carlos Pinheiro Neto – Acelerando na Anfavea

Pinheiro Neto entra em campo e acelera fundo na Anfavea

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Acelerando na Anfavea
Silvestre Gorgulho, de Brasília
Várias revoluções estão acontecendo neste final de século no Brasil: na educação, na economia, nas ciências, nas telecomunicações, no comportamento das pessoas, na vida política e, até, quem diria, no trânsito nosso de cada dia. Essas revoluções são frutos da globalização? Talvez. São frutos de uma tomada de consciência da população? Talvez. O que não tem talvez, é pura certeza, é que no centro de tantas revoluções está um produto que virou extensão do próprio homem: o automóvel. Para entender a importância do carro na economia, veja só estes dados: o setor automobilístico responde por 12% do PIB industrial, significa 9% do valor agregado e absorve 110 mil empregos diretos e mais de hum milhão de empregos indiretos, se agregar ao setor industrial os serviços das concessionárias, dos postos de gasolina e de autopeças; na ciência e tecnologia, é bom lembrar desta única observação: nunca um setor conseguiu, em tão pouco tempo, assimilar tantas e novas teorias de produção enxuta, ISO, just-in-time, fast-to-market e tecnologias de ponta; para entender a importância do automóvel no comportamento humano e na política, basta estudar melhor a ação do Congresso Nacional na aprovação do novo Código de Trânsito Brasileiro, um instrumento legal que tornou o motorista e o pedestre mais responsáveis e obrigou os carros a serem melhor conservados.

Mas, se o mundo do automóvel está ocupando todo este espaço na vida de cada cidadão, o mundo do business conhece, desde o dia 13 de abril, um novo técnico da seleção brasileira de dirigentes e negociadores internacionais. O setor automobilístico brasileiro colocou em campo um nome que vai dar o que falar: José Carlos Pinheiro Neto, Diretor de Assuntos Corporativos e de Exportação da General Motors, que acaba de assumir a presidência da ANFAVEA.

Conhecido no meio como um executivo que faz acontecer, Pinheiro Neto, advogado, pai de 2 filhos, começou na GM em 1970, ocupou vários cargos na montadora, inclusive no exterior.

Antes de sua posse, Pinheiro Neto esteve, na sexta-feira, dia três de abril, com o presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio do Planalto. E neste encontro três assuntos foram abordados com o maior interesse de parte a parte: primeiro, o setor automobilístico é um setor que serviu de base para análises e projetos para os principais investidores internacionais sobre as potencialidades econômicas do Brasil; segundo, a ANFAVEA deverá ter mais sinergia com o Governo porque hoje já não se discute mais só mercado interno, pois o filão são as exportações e o maior ou menor sucesso lá fora será uma resultante direta deste relacionamento; e, terceiro, no ano 2.000 o Brasil deverá estar produzindo cerca de 3 milhões de veículos/ano, ou seja, será o quarto maior produtor de automóveis do mundo, logo depois dos EUA, Japão e Alemanha.

O que tudo isto significa para a imagem do Brasil e para sua economia? Como tudo isto vai influir na vida de cada brasileiro?
Fácil saber, basta ir de carona nesta entrevista de José Carlos Pinheiro Neto. Mas, atenção: fique atento às curvas dos preços, às subidas e descidas das importações e exportações e à disparada competitiva com que chegam ao Brasil os seis novos associados pesos-pesados da ANFAVEA, Honda, Mercedez Automóveis, Chrysler, Toyota, Pegeuot e Renault. Afinal de contas, está todo mundo querendo saber qual o “pulo do gato” que o Brasil está dando para enfrentar os grandes mundiais do setor automobilístico.

A ENTREVISTA

A Anfavea já teve cinco presidentes. O carro vai rodar como sempre rodou ou tem idéia nova por aí?
JCPN –
Num certo sentido vai rodar como sempre, ou seja, congregando os fabricantes de automóveis na defesa dos seus interesses. Mas, em outro, inovará. Será a luta para reduzir impostos. Não podemos, também, mais conviver com uma frota tão ultrapassada como a nossa. Dos quase 20 milhões de veículos que circulam no país, com certeza pelo menos 25% não têm mais condições de trafegabilidade.

A administração da Anfavea que terminou agora em abril, vamos assim dizer, foi muito discreta. Qual será o estilo da administração Pinheiro Neto: estará mais para André Beer ou para Silvano Valentino?
JCPN –
Cada dirigente tem sua marca. A gestão André Beer, meu querido amigo e professor, foi muito marcante. Já a do Silvano Valentino foi discreta, mas caracterizada por um crescimento impressionante do setor, com recordes em cima de recordes. Como presidente da Anfavea, vou buscar a união de todos associados para enfrentar as adversidades e buscar maior sinergia com o Governo e outras entidades representativas do setor. O filão são as exportações e já não se discute mais só mercado interno. O maior ou menor sucesso lá fora será uma resultante direta do relacionamento iniciativa privada e Governo.

Qual o equilíbrio ético entre ser o presidente da Anfavea e ser, também, executivo de uma montadora específica? Existe algum conflito?
JCPN –
Um dos sucessos da Anfavea é justamente a rotatividade de seus dirigentes. Não há “peleguismo”. O importante é saber separar bem nossas atividades. Vou defender sempre os interesses dos setor e de nossas associadas. Fazendo isto estarei defendendo os interesses da GM.

Eu sinto que vários setores da economia organizada do Brasil chegam a invejar o trabalho institucional da Anfavea. Qual é o segredo?
JCPN –
Segredo? Se existe algum é a união dos associados em torno dos objetivos da entidade. E também porque a Anfavea além de representar um setor muito forte e bem estruturado, adquiriu credibilidade para as posições que defende.

Todo país almeja ter uma indústria automobilística e uma construção civil fortes. São os grandes empregadores. Como o senhor vê a participação da indústria automobilística na economia do Brasil?
JCPN –
Nosso setor é um dos maiores geradores do PIB nacional e também um forte empregador de trabalho qualificado. A indústria automobilística é o “carro-chefe” da economia de qualquer país, trazendo atrás de si uma enorme engrenagem. Começa pela matéria prima, passa pelos fabricantes de autopeças, usa tecnologia de ponta, forte setor de serviços com as concessionárias e oficinas, tem empresas financeiras, é grande fonte de arrecadação de impostos municipais, estaduais e federais. E mais: tem uma interação muito forte com o ser humano, pois o carro é extensão do homem ao dar-lhe liberdade, status, comodidade e ajuda no aprendizado de uma melhor convivência, pela educação, pela solidariedade e pelos sonhos. É mola mestra do desenvolvimento.

Com a abertura do mercado feita no Governo Collor, todas as grandes marcas mundiais vieram para o Brasil, estimuladas pela barreira tarifária de 20%. Grandes investimentos foram realizados, sobretudo em concessionárias de carros importados. Valeu a pena a abertura?
JCPN –
A abertura econômica viria mais cedo ou mais tarde. O Brasil não poderia ficar isolado do mundo, sob pena, também, de perder mercado. Foi a abertura que possibilitou a evolução da indústria automobilística que, até então, sequer podia introduzir uma injeção eletrônica de combustível, devido a reserva de mercado na área de informática. Sem abertura não haveria modernização.

O ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes, hoje candidato a Presidente da República, elevou a alíquota de 20% para 70%. Quebrou mais da metade das empresas instaladas. O Real de FHC tem regras mais fixas do que o Real de Ciro Gomes?
JCPN –
É verdade. As empresas finalmente contam com um regime automotivo estável, praticamente sem grandes mudanças na regra do jogo. A estabilidade possibilitou a fixação de metas, tanto no que diz a investimentos como para as exportações.

Uma pergunta de consumidor: por que o mesmo carro nos EUA, Alemanha e Japão é mais bonito, mais barato e melhor? Tem globalização nisto?
JCPN –
Vamos por parte: temos carros fabricados no Brasil que estão entre os melhores e mais vendidos no mundo. Veja, por exemplo, o magnífico resultado de nossas exportações. Agora o que precisamos fazer é lutar pela redução de impostos, pois a carga tributária diminuindo vai ampliar a nossa escala de produção. Produzindo e vendendo mais, mesmo com os impostos menores, aumentaria a arrecadação final.

Vamos falar agora de Carro Popular. A indústria automobilística conseguiu a proeza de convencer Itamar Franco a aprovar o carro popular. Provou até que reduzindo os impostos é possível aumentar a arrecadação e aquecer a economia. O presidente FHC aprendeu a lição? Cadê o carro popular de US$ 7 mil?
JCPN –
O carro popular de 7 mil dólares existiu porque o IPI naquela época era simbólico, ou seja, 0,1%. Hoje é 13%. Com acabamento simples, o carro popular também evoluiu muito e hoje tem injeção eletrônica, proteção laterais e outras benfeitorias tecnológicas. Resumindo, deixou de ser popular.

Uma curiosidade: os presidentes da Anfavea sempre foram executivos brasileiros e nunca presidente das montadoras. Exceção para o último presidente da entidade, o italiano Silvano Valentino, presidente da Fiat. Valeu a experiência?
JCPN –
Valeu, por que não? O fato dele ser presidente de uma montadora só o credenciou mais ainda para o cargo.

Na sua opinião, a inspeção veicular é mais útil aos operadores ou aos donos dos veículos?
JCPN –
A inspeção veicular é importante, pois vai diminuir acidentes e poluir menos a atmosfera. E terá todo o apoio da Anfavea.

Será que a inspeção veicular, aprovada por lei, não corre o risco de ser o último cartório criado pelo Governo?
JCPN –
Não acredito que isto não aconteça.

Outra curiosidade: quantas montadoras são hoje filiadas à Anfavea?
JCPN –
Temos 23 associadas, incluindo montadoras de veículos, tratores e máquinas agrícolas.

A indústria automobilística é o setor econômico mais forte do país. A Anfavea tende também a ser a associação patronal mais influente?
JCPN –
O setor automobilístico é forte e organizado. Quando convocado, ele comparece. Seja em negociações com o Governo, seja em negociações com os metalúrgicos. É um setor vivo, dinâmico e que ajuda a fazer a riqueza do Brasil.

Qual o peso político e econômico, dentro da Anfavea, entre o setor automobilístico e o setor de tratores? Há algum tipo de discriminação?
JCPN –
Não há e nunca houve discriminação. É tudo questão de volume de produção.

Qual a chance do Brasil desenvolver uma nova “Gurgel” – ou seja – uma montadora genuinamente nacional?
JCPN –
É muito difícil. Para se acompanhar as atualizações tecnológicas se requer elevados investimentos de retorno, nem sempre de curto prazo.

Os carros modernos são incrivelmente mais tolerantes aos abusos de seus proprietários: pegam fácil, têm pouca manutenção, serviço de socorro em meia hora pelo programa Road Service, air-bags inteligentes, têm computadores e até mapas de bordo. Isso deixa os motoristas mais relaxados. Pergunto: as atitudes dos motoristas têm mudado com os avanços tecnológicos dos veículos?
JCPN –
É interessante notar, mas evidente que o conforto proporcionado pelos veículos pode significar menos estresse e mais segurança. Um motorista tranqüilo nunca vai enfrentar o trânsito na base do sai da frente, do eu primeiro e outras coisas bem piores. Mas à tecnologia dos carros tem que ser agregada a melhoria das estradas e melhor concepção da engenharia de trânsito das cidades.

A indústria automobilística no Brasil nasceu na coragem do ministro da Viação e Obras Públicas, Almirante Lúcio Meira, que criou em 1956, no Governo JK, o GEIA – Grupo Executivo da Indústria Automobilística. Sei que o senhor pensa em resgatar um pouco da história da indústria automobilística no Brasil? Como será isso?
JCPN –
Você tocou num ponto que me fascina: a história da implantação da indústria automobilística no Brasil. Citando Nelson Palma Travassos em seu livro “Quando eu era menino…” vale lembrar a sociologia do automóvel. Dizia ele que o automóvel foi um intruso que alterou o panorama físico do País, com a abertura de estradas. Dizia mais: o motor eleva o homem no conceito social, dá-lhe importância e exige conhecimentos. Travassos chegava mais longe: “O automóvel abriu o caminho da democracia.” Isto está bem colocado. O carro trouxe independência, criou profissões, ampliou horizontes e o brasileiro começou a ter pressa. Pressa de carregar sua safra, pressa de ganhar dinheiro, pressa de ocupar esse país continental.

Outra pergunta de consumidor. Vamos falar das concessionárias. Não tem muita gente por aí vendendo gato por lebre nos serviços de assistência técnica?
JCPN –
Essa é uma questão muito importante. As concessionárias estão se reestruturando porque o consumidor está mais exigente, quer serviço bem feito e nada melhor do que a concorrência. O Código de Defesa do Consumidor é uma realidade, aliás, uma boa realidade no Brasil. Quem não se profissionalizar, vai perder mercado.

Qual foi o melhor momento da indústria automobilística no Brasil?
JCPN –
Temos tido bons e maus momentos, mas o importante é que o Brasil, em 97, bateu a cifra de 2 milhões de veículos produzidos. Já somos um país respeitado no mercado internacional. No ano 2.000 estaremos entre os cinco maiores produtores mundiais. Não é brincadeira!

Para terminar: qual o futuro do carro importado no Brasil?
JCPN –
Os importados terão uma participação de 15% do mercado. Um bom tamanho. Vai sempre complementar a linha produzida aqui mesmo no Brasil, pois eles têm nichos especiais do mercado. O Brasil está ficando adulto e aprendeu a conviver com tigres, águias e outros bichos mais. Silvestre, pode escrever aí: o Brasil vai entrar o século 21 com maioridade. Temos problemas a resolver, mas estamos colocando o dedo na ferida: mais educação, preocupações reais com o meio ambiente, comportamento de primeiro mundo no trânsito. Essa é a autoridade de quem sabe fazer e quer melhorar as condições de vida de seu povo. Vamos emergir com força total.

 

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Maurício Andrés Ribeiro – Tesouros ambientais da Índia

A Índia ensina a resolver problemas sociais em condições de escassez extrema,

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Tesouros ambientais da Índia para o Brasil

Maurício Andrés Ribeiro – ENTREVISTA

O Fórum Social Mundial de 2004 será na Índia. Mais uma boa oportunidade para os brasileiros tomarem conhecimento dos avanços para uma civilização sustentável

“A Índia ensina a resolver problemas sociais em condições de escassez extrema, a reduzir desperdícios e a trabalhar eficazmente sem muitos capitais ou recursos financeiros”.

O escritor e ambientalista Maurício Andrés Ribeiro

Silvestre Gorgulho, de Brasília

O arquiteto mineiro Maurício Andrés Ribeiro é muito conhecido do mundo ambiental: ecologista, escritor e gestor ambiental com uma característica interessante: é especialista em administrar conflitos. Gosta de ouvir todas as partes, de digerir problemas e tomar decisões de consenso. Em Minas Gerais, Andrés foi secretário de Meio Ambiente de Belo Horizonte (90-92) e presidente da Fundação de Meio Ambiente (95-98). Em Brasília, foi diretor do Programa de Gestão da Secretaria de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (1999), diretor do Conama (2001-2002) e agora é assessor especial da ANA. Autor de “Ecologizar – Pensando o Ambiente Humano”, Maurício Andrés acaba de lançar seu novo livro: “Tesouros da Índia para a Civilização Sustentável”. Vale a pena saber mais sobre o livro e também conhecer mais as experiências e lições que este país tropical pode passar ao nosso “Patropi”. Vamos à entrevista.

Escrever sobre a Índia não é muito comum, no Brasil. Como se iniciou seu interesse por aquele país?
Maurício Andrés –
Na década de 70, comecei a me interessar pelas questões ambientais. Trabalhava no Centro Tecnológico, em Belo Horizonte, e candidatei-me, no CNPq, a bolsa de estudo no exterior. Enquanto vários de meus colegas optaram por fazer doutorado na Europa e nos Estados Unidos, escolhi realizar um estudo comparativo Brasil-Índia, no Instituto Indiano de Administração, em Bangalore. Ignacy Sachs, economista que se formara em São Paulo e fez seu doutorado na Índia, me forneceu informações valiosas para aproveitar bem aquela experiência.

Como foi viver e estudar na Índia?
Maurício –
São muitos os benefícios de estudar na Índia, em termos de desenvolvimento humano e intelectual, pois vivenciamos uma cultura milenar, com valores distintos dos ocidentais. Além disso, em geral os estudantes brasileiros vivem no exterior de forma modesta, mas na Índia, o custo de vida é baixo e permite bom conforto com poucos recursos. Estabeleci ampla rede de contatos com os quais ainda mantenho relações. O economista dr. Vinod Vyasulu, por exemplo, que foi meu orientador à época, é meu amigo até hoje.

E a situação social da Índia, não impressiona muito os brasileiros?
Maurício –
Em geral temos impressões negativas sobre os aspectos sócioeconômicos da Índia. Circula a idéia de que a pobreza é extrema. No entanto, é pouco conhecido o fato de que a Índia tem índices de violência urbana e rural muito mais baixos do que aqueles que ocorrem no Brasil, e tem reduzido gradualmente suas desigualdades. A apropriação pelos indianos mais ricos da riqueza nacional vem decrescendo nas últimas décadas, enquanto os mais pobres têm aumentado a sua participação nessa riqueza, processo inverso ao que ocorreu no Brasil. A Índia ensina a resolver problemas sociais em condições de escassez extrema, a reduzir desperdícios, a trabalhar eficazmente sem muitos capitais ou recursos financeiros. O Fórum Social Mundial, que ocorrerá na Índia em 2004, será uma oportunidade para os brasileiros que lá comparecerem, tomarem conhecimento desses avanços.

Quais são as principais personalidades indianas que merecem destaque?
Maurício –
A civilização indiana tem uma quantidade impressionante de pessoas que contribuíram para construí-la ao longo de cinco milênios: no século 20, admiro o poeta Rabindranath Tagore, prêmio Nobel, que tem uma percepção muito clara sobre o papel de sua terra-mãe. Krishnamurti, Vivekananda, Rajneesh, Ramakrishna, Dayananda, e muitos outros mestres também tem um trabalho admirável, que se nutre da Vedanta, o conhecimento das escrituras sagradas, escrita há milhares de anos.

No campo do pensamento e ação política e social, quem se destaca, na Índia?
Maurício –
Além do Mahatma Gandhi, que aplicou a não-violência e a satyagraha – experiência com a verdade – na luta pela independência da Índia, me impressiona o trabalho de Sri Aurobindo. Seu pensamento político e social mostra visão prospectiva, lucidez. Muito antes da independência indiana em 1947, ele já a considerava um fato inexorável e passou a trabalhar sobre as questões globais e planetárias. Quando tomei contato com sua obra, em Pondicherry, onde está estabelecida sua comunidade ou ashram, tive a sensação de que seria necessária mais do que uma vida para dominar todo aquele conhecimento. Também existe na Índia uma vasta experiência de ativismo social, para minorar as condições de pobreza e há grandes especialistas nesse campo, como o prêmio Nobel, economista Amartya Sen, e a ativista sócioecológica Vandana Shiva. Satyajit Ray é um cineasta com uma obra admirável. Deepak Chopra e V.S. Naipaul, são escritores indianos atuais, conhecidos no ocidente.

Índia e Brasil no cenário internacional
A Índia tem uma classe média de 200 milhões de
pessoas e níveis educacionais de excelência

Qual a importância da Índia no atual cenário internacional?
Maurício –
A Índia tem forte inserção na política mundial por sua peculiaridade histórica. Trata-se de um país que, apesar de ter sido invadido por vários povos, não se deixou destruir nem perdeu seus valores e tradições. Ressalta também a sua posição geográfica privilegiada. As grandes navegações do século 15 e 16 tinham por objetivo descobrir uma rota marítima para as Índias, riquíssima em especiarias e na produção de tecidos e de seda, bens muito valiosos à época. Nos dias atuais, constitui um pólo regional, na Ásia, com forte presença política, demográfica e econômica. A Índia tem uma classe média de 200 milhões de pessoas e níveis educacionais de excelência, o que lhe permite, por exemplo, ser um dos maiores exportadores mundiais de softwares, os quais alimentam a atividade central no século 21 e da era do conhecimento, que é a informática.

E quanto às relações da Índia com o Brasil?
Maurício –
Vejo a aproximação consciente do Brasil à Índia como um componente necessário para completar uma construção ainda inacabada e em processo, que é a sociedade brasileira. A Índia é um parceiro valioso ao qual o Brasil poderia se aliar. Muitos brasileiros já têm, por iniciativa própria, procurado estabelecer tais vínculos. Mas esse filão é muito rico, pode trazer muitos benefícios e pode ser explorado de forma mais organizada, institucionalmente, envolvendo governos e empresas. O Brasil é uma nova civilização emergente que poderia ter maior autonomia em relação à órbita da sociedade ocidental insustentável e co-evoluir com a civilização indiana, que soube ser sustentável e que adotou valores humanos como a tolerância e o respeito à diferença. É preciso abrir a agenda de reflexão e ação sobre essa cooperação sul-sul e valorizá-la. Trata-se, ainda, de um tema periférico, sobre o qual se desenvolve muito pouca atenção e pesquisa.

No contexto atual da globalização, a intensificação de relações Brasil-Índia tem alguma importância?
Maurício –
O Brasil é uma civilização emergente com muita energia vital. A Índia é ancestral, com um patrimônio acumulado de sabedoria impressionante. O velho e o novo podem se complementar. Aloísio Magalhães, o grande designer brasileiro, dizia que quanto mais se puxa para trás o elástico do estilingue, mais longe a pedra é arremessada. A perspectiva histórica vista a partir de uma civilização milenar pode ajudar a fazer uma prospecção de longo prazo, em direção à sustentabilidade da civilização do século 21. A contribuição de pensadores indianos, como Sri Aurobindo, é fundamental nesse contexto.

Por que estreitar relações com a Índia e como se pode fazer isto?
Maurício –
Em primeiro lugar é preciso mudar a percepção e a consciência. Enxergar a existência dessas duas civilizações, numa visão a partir do ângulo sul do planeta, fato que nem sempre é visualizado. Assim, por exemplo, Samuel Huntington, em seu conhecido livro O Choque de Civilizações, não destaca a civilização brasileira, incluindo-a como parte da latino-americana. Isso reflete a falta de percepção de um fenômeno novo, a civilização tropical emergente, já ressaltada por autores como Darcy Ribeiro.

Até mesmo Fritjof Capra, quando fala da ascensão e queda das antigas civilizações e da curva rápida de ascensão e queda da atual era do combustível fóssil, mostra a Grécia e o Egito, mas se esquece da Índia. São percepções a partir do ângulo de visão do norte. Sendo os dois maiores países tropicais do mundo, há muitas similaridades climáticas e ecológicas que facilitam o intercâmbio de espécies animais e vegetais. Há muitas diferenças no processo histórico e cultural de desenvolvimento dessas duas sociedades e nesse fato reside uma potencialidade de fertilização mútua. Na Índia se faz um aproveitamento muito mais integral dos recursos naturais, reduzindo os desperdícios. Isto é fundamental num país como o nosso, que vive um paradoxo: o desperdício de alimentos é tão grande quanto a fome entre os mais pobres…

Dá para dar algum exemplo?
Maurício –
Claro. Veja, por exemplo, que o coco da Bahia, que temos em abundância, e que é originário da Índia, tem, em Kerala, estado do sul indiano, todos os seus subprodutos aproveitados e não apenas a polpa ou a água. O mesmo se pode verificar com o rebanho bovino. A tão decantada expressão “vaca sagrada” tem sua razão de ser num fato objetivo: na Índia, aproveita-se tudo do gado vivo, até mesmo as fezes, que servem de combustível para cozinhar… Por que, então, matar a “galinha dos ovos de ouro?”.

A sacralização dos animais tem relação com uma visão de mundo sustentável?
Maurício –
Com relação às espécies animais, faz-se na Índia um uso intenso dos animais vivos – para o transporte, o arado e o adubo. As vacas foram sacralizadas e o vegetarianismo é um hábito alimentar com conseqüências positivas do ponto de vista da ecologia energética. Já no Brasil o animal morto é que tem maior valor econômico. Os fazendeiros de gado zebu trouxeram da Índia espécies que se aclimataram muito bem no Brasil, mas que precisam de choque de sangue, para melhorar a sua qualidade, o que é feito pela importação, muitas vezes clandestina, de sêmen bovino. Uma vez encontrei na Índia um juiz de concursos de gado de Uberaba, Sr. Pylades Prata Tibery, já nos seus 80 anos, embrenhando-se no interior do país em busca de matrizes de touros que pudessem fornecer o sêmen necessário para esse choque de sangue.

O senhor quer dizer que o Brasil pode aprender muito com a Índia?
Maurício –
Sim, é isso. Penso que o Brasil pode aprender com a Índia a aproveitar mais integralmente os recursos naturais, a implantar políticas que reduzam as desigualdades sem sacrificar a liberdade, a reduzir a violência e a criminalidade por meio do desenvolvimento de valores espirituais, a valorizar mais seus bens, hábitos e tradições culturais.

Em que pontos essa aproximação pode beneficiar a política ambiental?
Maurício –
Essa aproximação pode ensinar sobre a reverência, o cuidado e o respeito para com a natureza e os valores humanos desenvolvidos na civilização indiana, que facilitaram com que ela perdurasse durante milênios de história, com baixa degradação ambiental. A sociedade contemporânea e especialmente o Brasil, precisam desenvolver valores que ultrapassem o mercantilismo, a coisificação da natureza e sua transformação predatória em mercadoria. Na Índia, podemos buscar modelo alternativo para fazer mais com menos recursos. Com um bilhão de pessoas e muita pobreza, existe na Índia um conhecimento de como viver com pouco capital e o desenvolvimento de práticas, de experiências e de conhecimento que constitui uma riqueza cultural, civilizatória. Além da mudança de percepção e consciência, é necessário traduzi-las em palavras e em ações. Tomar iniciativas – individuais e coletivas – no campo da cultura, artes, filosofia, também no campo comercial, científico e tecnológico. A intensificação dessas relações pode ser induzida e impulsionada de forma consciente.

“Quem perdeu a paciência,
perdeu a batalha”

Pode-se dizer que a Índia é uma civilização sustentável?
Maurício –
O conceito de dharma, que é essencial para compreender a Índia, tem raiz no sânscrito e significa sustentar, manter. Esse é um conceito instigante, com muitos significados, pouco conhecido no ocidente e faz parte de uma matriz cultural diferente. A dharmacracia seria a forma de governo baseada na aplicação do dharma, e difere da democracia de direitos que se persegue nos regimes políticos ocidentais mais abertos. Direitos e deveres são conceitos ocidentais e realizar um esforço de compreensão transcultural é uma das tarefas para promover real aproximação.

O pensamento prospectivo e livre desenvolvido naquela sociedade pode oferecer pistas para superar e transcender os impasses civilizatórios contemporâneos, que nos levam a guerras e destruições. Baseada no seu dharma, aquela civilização soube sustentar-se por milênios e pode oferecer contribuições valiosas para um mundo que enfrenta alguns impasses da viabilidade da sobrevivência de nossa espécie. Seu lema é a Unidade na Diversidade, pois é um país extremamente variado culturalmente. Seu símbolo é a flor de lótus, pura e bela nascendo do lodo. A relação com o tempo é diferente da nossa e um ensinamento achado na rua dizia que “quem perdeu a paciência, perdeu a batalha”. Paciência, neste sentido, é a ciência da paz.

Por que o seu novo livro se intitula Tesouros da Índia?
Maurício –
Aquela civilização desenvolveu uma filosofia e estilos de vida amigáveis e pouco agressivos em relação à natureza. Essa sabedoria é um tesouro valioso para o mundo contemporâneo ameaçado de tornar-se insustentável pela falta de tais valores e dos correspondentes estilos de vida. A Índia desenvolveu a inteligência espiritual.

Por que o senhor diz, no livro, que a Índia pratica a inteligência espiritual?
Maurício –
Hoje, além do quociente intelectual (QI) e da inteligência intelectual, estudam-se vários tipos de inteligência, como, por exemplo, a inteligência emocional. A inteligência espiritual é um tipo de inteligência que faz uso não só das capacidades racionais, mas também das capacidades intuitivas, emocionais, da sensibilidade.
Entre os sinais de inteligência espiritual estão o elevado grau de auto-conhecimento, a independência e autonomia para seguir as próprias idéias, flexibilidade, a relutância em causar danos aos outros, a capacidade de enfrentar a dor e de aprender com o sofrimento, de se inspirar em ideais elevados, de aplicar princípios espirituais no dia-a-dia, de estabelecer conexões entre realidades distintas. É a inteligência espiritual que ajuda a encontrar sentido na vida, paz e tranqüilidade. A Índia foi a sociedade que mais desenvolveu a inteligência espiritual, que constitui um patrimônio de valor inestimável para a sobrevivência e evolução da espécie humana.

Como foi o método de trabalho para elaborar o livro Tesouros da Índia?
Maurício –
Na primeira parte do livro procuro traçar um retrato aberto da Índia. Na segunda parte, desenvolvi o estudo comparativo. Procurei trabalhar no nível micro, de uma aldeia e um município, considerando-os como células básicas de suas sociedades. Foi como trabalhar numa célula, cujo DNA contém elementos do todo do organismo ao qual pertence. Complementarmente, trabalhei as possibilidades de intercâmbio na escala nacional e, em termos futuristas, quais as convergências necessárias na escala global.

Quais as semelhanças entre a sua obra anterior, o livro Ecologizar, e os Tesouros da Índia?
Maurício –
Ambos foram escritos a partir de vivências práticas, do trabalho cotidiano, de imersão cultural e estudos de campo, aliados a reflexões teóricas, leituras… Ecologizar foi um livro escrito para facilitar a ação ecológica, organizando princípios, métodos e instrumentos de ação de forma clara, para facilitar seu uso e aplicação por quem se interesse em ecologizar a sociedade ou sua própria vida. Tesouros da Índia procura organizar conhecimentos que facilitem àqueles que se interessem em estabelecer tais vínculos e em explorar o desconhecido de outros universos civilizatórios. Uma mesma energia os move: procurar organizar uma visão de mundo que dê maior efetividade à ação prática ecologizadora, seja individual ou coletiva.

Como Tesouros da Índia se encaixa na proposta de ecologizar a sociedade?
Maurício –
Ecologizar a sociedade é mudar a matriz cultural e de valores, mudar a qualidade da energia que impulsiona as ações individuais ou sociais, num sentido de maior integração e menor agressividade ou destrutividade em relação ao ambiente e também entre as pessoas. Garimpar e trazer à luz os tesouros culturais de uma civilização que perdurou por milênios é uma das formas de facilitar e impulsionar essa ecologização da sociedade brasileira. As guerras envolvendo o ocidente e o oriente, o novo governo brasileiro com uma postura de inserção internacional mais ativa, a perspectiva de realização do Fórum Social Mundial na Índia em 2004, são alguns fatores conjunturais que tornam oportuna a expressão de tais idéias e a proposição de novas ações de intercâmbio.

O que o senhor espera que sejam os benefícios desse novo trabalho?
Maurício –
Esse trabalho é um pequeno componente na construção de uma ponte entre duas culturas e civilizações ainda bastante isoladas entre si e que têm potencialmente muito a se beneficiar da cooperação e do intercâmbio. Ao mesmo tempo, ele procura ter uma visão propositiva de uma terceira geração de instituições internacionais, que substituam as de segunda geração (a ONU), que por sua vez substituiu as de primeira geração (a Liga das Nações). Esse é o tema tratado na terceira parte do livro.

A terceira parte do livro fala de cenários para o futuro. Como o senhor os vê?
Maurício –
A terceira parte do livro trata de uma visão futurista, baseada no federalismo mundial, na necessidade de evolução política da humanidade. A matriz da civilização ocidental que dominou o século 20 não é sustentável a longo prazo, porque se baseia na exploração sem limites de recursos materiais e energéticos, e porque precisou dominar pela força e colonizar outros territórios, sugando e parasitando seus recursos.

A dominação pela força e pela violência não é sustentável, produz ressentimentos, ódios, sede de vingança pelas mortes e sofrimento. A partir de um certo momento, os novos problemas e questões não podem mais ser resolvidos por estruturas e concepções políticas e filosóficas que se adequavam a situações anteriores. É preciso, a partir da idéia de repensar as instituições globais, e de promover aprimoramentos incrementais numa estrutura, substituí-la por outra com arquitetura mais adequada. Esse é o ponto de partida para conceber e construir instituições internacionais de terceira geração. Já existem exercícios de formular o futuro em laboratórios de pensamento político e um deles – aliás, dos mais interessantes – consiste numa minuta de Constituição para a Federação do planeta Terra, elaborada por movimentos não-governamentais que se interessam pelo Federalismo Mundial.

A globalização exige uma Constituição Planetária
A dominação pela força e pela violência não é sustentável, pois produz
ressentimentos, ódios, sede de vingança pelas mortes e sofrimentos

Quais são as principais características dessa Constituição Planetária?
Maurício –
A Constituição Planetária é um exercício de imaginar e projetar em escala mundial o que será essa arquitetura política global. Antes de construir uma nova cidade ou edificação, é sempre bom ter um projeto claro, para evitar custos e para proporcionar ao final maior funcionalidade e beleza.

Há um exemplo histórico disso na elaboração da Constituição dos Estados Unidos. Quando as treze colônias norte-americanas se tornaram independentes da Inglaterra, precisaram elaborar uma constituição comum. As discussões eram difíceis, até que o representante de uma delas, Charles Pinckney, da Carolina do Sul, trouxe uma minuta de proposta de Constituição. A partir daí ela se tornou a referência e catalisou as demais propostas, resultando então no que veio a ser a Constituição dos Estados Unidos.

Isso é o que se propõe com a Constituição Planetária: um exercício de liberdade de imaginação e pensamento, que explore a possibilidade de novos modelos políticos e jurídicos e de organização institucional mundial. Por enquanto, esse exercício não teve apoio de qualquer governo e é visto com desconfiança por eles, porque significa uma mudança de paradigma em relação aos estados-nação, mas tem a simpatia de organizações da sociedade civil mundial que praticam a ação global.

Entre os dispositivos centrais dessa Constituição estão a criação de uma agência para a prevenção das guerras e o desarmamento, bem como a criação de uma Câmara dos Povos ao lado da Câmara das Nações, que corresponde ao atual plenário da ONU, no qual as Nações Unidas são representadas formalmente pelos governos nacionais.

Hoje, tornou-se necessária uma instituição dos povos unidos, com representação mais forte da sociedade civil, se quisermos de fato trabalhar por um futuro com redução dos riscos de guerras e com maior sustentabilidade.

O LIVRO

O livro é estruturado em três partes. Na primeira, é traçado um retrato aberto e plural da Índia, destacando-se aspectos ligados à cultura e ao meio ambiente. Na segunda parte o autor faz uma analise comparativa entre o Brasil e a Índia, que são os dois maiores países tropicais do mundo e que apresentam muitos pontos de afinidades, a começar pelas climáticas e ecológicas. Na terceira parte, baseado na reflexão e na visão prospectiva de pensadores e filósofos indianos exploram-se possibilidades para a aplicação do princípio da unidade na diversidade em escala planetária, dentro de uma visão de ecologia política.

“Tesouros da Índia para a civilização sustentável” é um livro dedicado a todas as pessoas que constroem pontes para facilitar o entendimento entre as diferentes civilizações.

Mais informações:
Santa Rosa Bureau Cultural, BH-MG – 244 páginas
www.ecologizar.com.brmandrib@uol.com.br

 

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Entrevistas

Rosalía Arteaga Serrano – Entrevista sobre a OTCA e a Amazônia

Publicado

em

“Temos que cuidar da Amazônia”
A cobiça despertada pelas riquezas amazônicas é real

Rosalía Arteaga Serrado (foto) assumiu, em 2004, o desafio de fazer da Organização do Tratado de Cooperação Amazônico – OTCA um instrumento efetivo para o desenvolvimento sustentável e integrado da região. Jornalista, escritora, Rosalía foi ministra da Educação do Equador e chegou a ocupar a Presidência da República de seu país por três dias, em fevereiro de 97, após a destituição do presidente Abdala Bucaram. Antes de deixar agora a OTCA, Rosalía falou de seu trabalho e do futuro da Amazônia.

Folha do Meio – Como foi dirigir a OTCA desde 2004?
Rosalía
– Desde que assumi a Secretaria Geral, a OTCA se posicionou como o único organismo regional que representa os governos dos oito países da região Amazônica. Creio que nós conseguimos dar visibilidade à Organização, construímos institucionalidade, tanto dentro do Brasil, que é o País-sede, como também nos outros sete países.
Além disso, foi possível cimentar os fundamentos da OTCA do ponto de vista econômico, mobilizando recursos da
cooperação internacional, de organismos financeiros e da ONU, entre outros, para desenvolver importantes projetos regionais. Também foram estabelecidas bases de um fundo para a Amazônia, que deve ser administrado pela OTCA com a cooperação internacional. Temos hoje 19 projetos em andamento.

FMA – Quais os principais desafios e obstáculos enfrentados durante seu mandato?
Rosalía –
Devo dizer que os desafios são tão vastos quanto a imensidão da Amazônia Continental, que abrange um território de cerca de 7,5 milhões de km² e é integrada por países assimétricos – desde nações extensas e desenvolvidas, como o Brasil, a países menores, que precisam de maior apoio.

FMA – Por que a Amazônia Continental é importante para o planeta?
Rosalía –
A Amazônia representa cerca de 40% do território da América do Sul e abriga a maior biodiversidade do planeta, sendo responsável por 20% das reservas de água doce do mundo.
A região também é um espaço extremamente rico. Deve-se observar que boa parte do PIB dos países que integram a OTCA provém de recursos loca-lizados na região, como petróleo, gás, diversidade de fauna e flora, recursos genéticos, conhecimentos tradicionais, entre outros.
E hoje, quando o problema das mudanças climáticas está na pauta da opinião pública mundial e preocupa os países desenvolvidos, como se pôde observar na recente reunião dos países do G-8 na Alemanha, a Amazônia assume um papel de destaque.

FMA – Qual o significado e a importância do rio Amazonas?
Rosalía
– Eu nasci em uma pequena cidade andina chamada Cuenca, no Equador. Uma característica importante da minha cidade era a água. Quando eu era pequena, lembro que falávamos que aquela água com que brincávamos chegava ao rio Amazonas. Sempre me senti muito orgu-lhosa de dizer que a água da minha cidade, a quase três mil metros de altura, chegava à Amazônia.
São muitas as lembranças que guardo de nossos rios, o Tarqui, o Yanuncay, o Machángara e o Tomebamba. Essa li-gação entre os Andes e a Amazônia é muito importante para mim e acredito que jamais deva ser esquecida pela
OTCA. Ela tem a ver com água e biodiversidade, mas também com cultura.

FMA – O que ameaça a Amazônia?
Rosalía –
As ameaças são inúmeras: o desmatamento, as queimadas e atos ilegais como a biopirataria, o tráfico de drogas e as guerrilhas. No entanto, acredito que, em primeiro lugar, as maiores ameaças são a cobiça sobre a região e a falta de consciência sobre o significado da Amazônia para os próprios países, para a região e para o planeta.
O mundo inteiro ainda vive uma etapa em que não percebe o que está para acontecer em um futuro bem imediato. A Amazônia é uma grande vítima do aquecimento global e das agressões ambientais.

FMA – Os países estão encontrando o caminho da sustentabilidade?
Rosalía
– Existe uma evolução, di-gamos assim, em relação às décadas passadas, quando as políticas passavam pela colonização da Amazônia. Agora, o discurso mudou. Todos defendem o desenvolvimento sustentável. Mas encontramos situações complexas, como o conflito entre interesses econômicos e proteção dos recursos naturais. Vemos, então, que existe uma grande diversidade de posicionamentos na região. Alguns países têm desenvolvido políticas melhores para a Amazônia, outros não. Alguns, como o Brasil, têm leis para a gestão das florestas, outros não. Os países estão tentando encontrar o caminho do desenvolvimento sustentável, mas ainda não conseguiram alcançar respostas satisfatórias.

FMA – Há iniciativas que mostram o caminho certo?
Rosalía
–  Há sim. Gosto de destacar o Programa Zona Franca Verde do Amazonas, que é um plano de desenvolvimento sustentável muito inte-ressante. Também são importantes avanços a validação dos indicadores de sustentabilidade da floresta, parte do Projeto de Tarapoto que realizamos com a FAO, e iniciativas de compartilhamento de conhecimentos sobre questões florestais com os países da América Central e do Cone Sul, o diálogo chamado Puembo II.
Outro espaço importante que estamos construindo é a formação do grupo dos países amazônicos no Foro das Nações Unidas sobre Florestas. Espero que possamos fazer o mesmo nas áreas de mudanças climáticas e biodiversidade.

FMA – Qual a sua opinião sobre a internacionalização da Amazônia?
Rosalía –
Desde que o TCA foi as-sinado, em 1978, um dos pontos em questão para os países membros é a defesa da soberania. A cobiça despertada pelas riquezas amazônicas é real. Vários grupos transnacionais estão interes-
sados – de maneira negativa – na região.
Nós e os países precisamos ser muito cuidadosos na proteção da Amazônia e temos que encontrar nossos caminhos para desenvolver a região de forma sustentável. Existem informações que circulam pela internet e em outros espaços expondo situações que não podem ser aceitas pelos países amazônicos. Há necessidade de preservar a soberania de nossos países.

FMA – A senhora recebeu apoio efetivo dos países membros?
Rosalía
– Os países têm contribuído por meio do pagamento de suas cotas e pelo apoio na organização de atividades como as reuniões de ministros das Relações Exteriores, de Defesa, de Propriedade Intelectual e todas as outras que promovemos durante estes três anos. Os governos também são responsáveis por designar funcionários para trabalhar na sede da Secretaria Permanente, onde temos representantes dos oito países membros.

FMA – A  OTCA passou a ser me-lhor entendida na sua gestão?
Rosalía
– Vejo sim e digo o porquê. A verdade é que a OTCA vem assumindo importância cada vez maior para os países. E isso é recíproco.
Hoje, quando convocamos uma
reunião, despertamos mais expectativa do que quando começamos. Apesar disso, acredito que os países precisam dar ainda mais atenção a OTCA. Às vezes, esse interesse é maior por parte da
cooperação internacional.

FMA –  Quais são os próximos grandes desafios?
Rosalía –
Nossa floresta é vital e tem de assumir um papel relevante nas discussões sobre o futuro da América do Sul. Além disso, existem temas como o estabelecimento de uma sede própria para a OTCA em Brasília, pois ainda não temos, aqui, um terreno e uma residência. A Organização deve continuar crescendo e facilitando iniciativas e parcerias com outras instituições.

FMA – Que lembranças pessoais vai levar da OTCA?
Rosalía
– Desde a serpente que a prefeita de Napo e os amigos da Amazônia Equatoriana colocaram no meu pescoço, passando por todas as comidas maravilhosas das quais eu aprendi a gostar – como o pato no tucupi no Pará e todas as variedades de peixes amazônicos que não havia experimentado – até a maravilhosa floresta amazônica que conheci na reserva ecológica de Tingana, no Peru. E meus amigos daqui da OTCA e do Brasil.

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