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José Aparecido de Oliveira

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ZÉ APARECIDO DE OLIVEIRA


Lições e segredos de um mestre


Por SILVESTRE GORGULHOPara alguns, José Aparecido de Oliveira era o “curriculum vitae” de Conceição do Mato Dentro, a cidade mineira que o viu nascer. Para outros, uma máquina de fazer amigos.


Só sei que ele era arrojado, generoso e controvertido. Muitas vezes nos dava muita alegria e outras vezes nos fazia perder a paciência. Tinha carisma, prestígio e amigos.


E que lições e segredos nos deixou esse Zé Aparecido de Oliveira, que foi deputado federal, secretário de Estado, fundador do Ministério da Cultura, Embaixador e Governador de Brasília?


Que lições e segredos nos deixou essa figura quase mítica da vida política brasileira; alguém que conseguiu reunir em torno de si tantos e tão qualificados homens públicos, intelectuais, jornalistas, gente do povo, estadistas e poetas?


De onde veio a força desse que, do interior de Minas, comandou decisivamente as eleições presidenciais de 1960, a primeira e única vitória da UDN no Brasil?


Para o próprio Zé Aparecido, não existiam nem lições, nem segredos. Apenas uma realidade: “Viver é construir a Pátria e fazer amigos. Viver bem é ser perseverante na arte de conservar amigos”.


Mas, ao contrário do que pensava, há muitas lições e segredos em sua vida.


Lições e segredos de perseverança, autoconfiança, ousadia, liderança, protestos e uso da autoridade. Lições e segredos de tolerância e solidariedade…  


Convivi com José Aparecido de Oliveira desde os meus tempos de faculdade. Fazia estágio no Banco de Minas Gerais, cujo presidente – José Cabral – era muito seu amigo e correligionário.


E, nesses 40 anos de convivência, identifiquei 10 lições e segredos da sua arte de viver. O decálogo Zé Aparecido.


 


Primeira lição – O SOLIDÁRIO


Aparecido gostava mesmo de gente e de mais nada. Bebia mal e comia pior. Fumava sem prazer, tinha horror a futebol e detestava praia. Mas quando se tratava de fazer amigos, de assumir compromissos por outras pessoas, de resolver problemas dos outros… era único.


SEGREDO: Aparecido aprendeu a não endossar sua fama de avalista. Mas muito humano, era ele próprio um cheque ao portador.


 


Segunda lição – A LEALDADE


Aparecido era um misto de águia e anjo. Enxergava longe, era intransigente com seus objetivos. Sabia manejar toda sua artilharia, todos os recursos à altura de suas mãos para construir pontes, articulações e ganhar posições. Sempre pela conquista do coração das pessoas.


SEGREDO: Aparecido nunca cobrou ou permitiu que lhe pagassem o bem praticado. Sua força era a gratuidade de sua moeda. Recebeu, está recebido. Deu, está dado… e vamos em frente.


 


Terceira lição – O POLÊMICO


Aparecido tinha a arte da boa polêmica. Afetuoso, adorava porém uma controvérsia. Se alguém criticava algum amigo seu, nascia ali uma ruidosa polêmica. A mesma polêmica rondava sua maneira de administrar. Como governador de Brasília, provocou uma verdadeira tempestade sobre o Lago ao abrir uma ciclovia, ao criar acesso para sua margem e ao derrubar cercas-verdes para construir calçadas. Sim, no Lago Sul – o bairro mais nobre de Brasília – não havia calçadas. A desprivatização do Lago Paranoá mexeu com a República e com o interesse dos poderosos.


SEGREDO: Estava sempre pronto a expor as virtudes dos condenados e humildes e, na mesma proporção, expunha os defeitos de quem era exaltado e poderoso. Como governador de Brasília, acabou com privilégios e deu exemplos de dedicação ao trabalho. Entregava-se de corpo e alma à missão a ele confiada. Exemplo: mesmo ligado politicamente a Minas e sem pretensão de ser candidato em Brasília, fez questão de transferir para o Distrito Federal seu título de eleitor.


 


Quarta lição – O JORNALISTA


Aos 19 anos era editor da Rádio Inconfidência, em Belo Horizonte. Passou ainda pelo Diário do Comércio, Correio do Dia e Correio da Manhã.


O jornalista José Aparecido foi o primeiro a denunciar a prática do “mensalão” aos políticos. Em 1953, tornou público a primeira tentativa organizada de influência maciça do poder econômico na formação do poder político, ao lançar o livro “Inquérito do Banco do Brasil”. O livro denunciou empréstimos irregulares favorecendo políticos e empresários ligados ao governo. Em 1962, eleito deputado federal, comandou a CPI do IBAD – o estranho e misterioso Instituto Brasileiro de Ação Democrática que financiava, com recursos ninguém sabe de onde, a eleição de deputados.


SEGREDO: de tanto lidar com o fato político e de lutar pela moralização política, acabou abraçando o exercício da política. De chefe de gabinete do prefeito Celso Melo Azevedo, de Belo Horizonte, aos 24 anos, Aparecido escalou vários postos para ser, aos 30 anos, secretário particular do Presidente da República, Jânio Quadros. Aos 33 anos era deputado federal e, aos 35 anos, seu nome saiu na primeira lista de cassados pela Revolução de 64.


 


Quinta lição – CORAGEM E LIDERANÇA


Marcou posição perante a História do País: ele foi a única vítima de atos institucionais da Revolução a protestar judicialmente contra a cassação do mandato e dos direitos políticos. Pela voz de seu advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto – outra legenda mineira de lutas memoráveis – argüiu o absolutismo instaurado no Brasil em 1964.


SEGREDO: Impedido de exercer a vida pública, Aparecido teve sua carreira amputada. Mas seu poder de liderança era exercido em qualquer circunstância. Iniciou, então, uma campanha ferrenha em favor dos valores culturais de Minas Gerais.




Sexta lição – A MINEIRIDADE


Político cassado, ostracismo posto. Mas pelas tramas do destino, mesmo sem os direitos políticos, ele permaneceu no Brasil e acabou ampliando sua atividade pública. Depois de defender a própria honra com protesto formal, continuou a desafiar, dentro da cautela mineira, o poder dominante. A partir do Rio de Janeiro e de Minas liderou várias campanhas pela volta à Democracia e amplificou seu grito de alerta em defesa do patrimônio material e imaterial brasileiros.


SEGREDO: A revolução de março de 1964 cortou-lhe a carreira, mas não o privou dos amigos e nem de sua liderança. Participava da vida nacional com instrumentos vários como campanhas de cidadania e apoio à mídia alternativa, cujo exemplo mais claro foi O Pasquim. Até seu próprio aniversário, em 17 de fevereiro, sempre comemorado em Conceição do Mato Dentro, virou marca de peregrinação política, de encontros e de tomadas de posição. A cassação o impediu de ser naturalmente governador de Minas Gerais, mas as circunstâncias o fizeram governador do Distrito Federal.




Sétima lição – O ADMINISTRADOR


Tinha vocação para vida pública, mas uma verdadeira aversão à burocracia. Tenho certeza de que a demissão do gerúndio, pelo governador José Roberto Arruda, foi um ato inspirado por Zé Aparecido. Foi o primeiro governador a criar uma Secretaria de Meio Ambiente, que entregou ao ambientalista Paulo Nogueira Neto. Criou também o Arquivo Público do DF e fez o primeiro tombamento cultural: ao lado de Afonso Arinos de Melo Franco Filho, sobrinho-neto do escritor de “Buriti Perdido”, tombou uma palmeira buriti, na Praça do Buriti.


SEGREDO: administrava pelo método confuso, cheio de gente em volta. Ouvia mil palpites, mas era um obstinado: queria resultados. Com a moral de um governante de mãos limpas, pôde convocar a iniciativa privada para construção de monumentos públicos. Estão todos aí: Panteão da Pátria, Teatro Amador, Espaço Oscar Niemeyer, Espaço Lúcio Costa, Casa do Cantador da Ceilândia, Museu da Memória dos Povos Indígenas, Jardim Botânico de Brasília etc.




Oitava lição –  O DETERMINADO


Ao ser convidado pelo presidente José Sarney para ser governador de Brasília, Aparecido me chamou e disse: “- Silvestre, preciso de duas coisas: quero você como meu secretário de Comunicação e que me faça, com urgência, um relatório sucinto e honesto sobre o ‘Caso Mário Eugênio’. Crime misterioso não terá mais lugar em Brasília”. Fiz o relatório. O jornalista Mário Eugênio havia sido assassinado em 11 de novembro de 1984. E ninguém conseguia elucidar o crime. Em 27 de julho, portanto, dois meses após assumir o governo, eu soltava uma nota oficial elucidando o caso. Era a prova de sua autoridade contra o autoritarismo. O crime havia sido cometido por militares.


SEGREDO: a determinação de Aparecido, a transparência de suas ações e a volta da democracia fizeram valer a verdade. Foi feita justiça sobre um dos mais bárbaros crimes de Brasília.


 Nona lição – AUTORIDADE MORAL


Em 1961, no auge de seus 30 anos, era secretário particular e íntimo do Presidente Jânio Quadros. Depois, já deputado federal, ocupou três secretarias de Estado de outro amigo, o governador de Minas, Magalhães Pinto. Em ambas funções, Aparecido sofreu um revés e nos deixou lições. Por mais arguto que sejamos, por mais amigos que conquistamos, por melhores informações que possamos ter, a vida pode nos pregar peças. Com Aparecido também foi assim. É um verdadeiro mistério que, como principal assessor do Presidente Jânio Quadros, ele tenha sido surpreendido com sua renúncia. É também um mistério que, como super-secretário do governador Magalhães Pinto, outra vez foi surpreendido pelo golpe de 1964, que tinha Magalhães como líder político da Revolução.


Nem seu trânsito direto com o poder e nem sua habilidade e acesso à oposição conseguiram evitar os dois golpes fatais sobre a fragilizada democracia brasileira. Talvez pudesse ter mudado o curso da História, mas nem dissuadiu, nem aderiu e nem articulou para evitar tanto a renúncia como o golpe. A lição? O ser humano pode ser anjo, pode ser demônio, pode ser águia e pode ser até visionário. Mas não pode tudo. Não pode ser Deus.


SEGREDO: a autoridade moral de Aparecido evitou que tanto Jânio como Magalhães Pinto segredassem a ele seus verdadeiros planos. E, assim, Zé Aparecido foi engolido pela História, que prosseguiu seu fluxo. Como era para ser…


 Décima lição – O VISIONÁRIO


Para Aparecido, o impossível era algo que podia demorar um pouco mais para acontecer. Mas acontecia. Aos trancos e barrancos caminhava em direção à utopia. Como em sua luta para transformar uma cidade de 27 anos em Patrimônio Cultural da Humanidade. Quando divulgou seu projeto, foi chamado de lunático, fora da realidade. Como ousar querer o carimbo de eternidade para uma cidade de apenas 27 anos? Que soberba era esta de equiparar uma cidade de 20 anos com as Romas de 20 séculos? Plantou a idéia. Dia 7 de dezembro, quando a Unesco divulgou o resultado, eu próprio entreguei a ele um bilhete enviado pelo então senador Darcy Ribeiro: “Zé, você fincou uma lança na lua!”.


 SEGREDO: ao comprar uma idéia, Aparecido conseguia defendê-la e colocava todos os seus amigos para jogar na mesma direção. Assim foi com o projeto para criar a Comunidade de Língua Portuguesa, com o de fazer Brasília Patrimônio Cultural da Humanidade e com tantos outros sonhos impossíveis. Estava sempre envolvendo no mesmo esforço um mutirão de amigos como Oscar Niemeyer, José Sarney, Itamar Franco, o líder Mário Soares, o filósofo Agostinho da Silva, Josué Montello, Lúcio Costa, Austregésilo de Athayde, Cláudio Abramo, Hélio Fernandes, Osvaldo Peralva, Carlos Castelo Branco, Antônio Maria, Tom Jobim, Vinicius, Gerardo Mello Mourão, Alçada Baptista, Júlio Pomar, José Carlos de Vasconcelos, Lauro Moreira, Luís Fonseca, Amélia Mingas, Raul Solnado, Ziraldo, Millôr Fernandes, Jaguar, Henfil, Sebastião Nery, Villas-Bôas Correa, Mauro Santayana, Fernando Sabino, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Paulo Francis, o historiador Hélio Silva, Ângelo Osvaldo, Fernanda Montenegro, Antônio Houaiss, Adolfo Block, Carlos Alberto Xavier, Paulo Tarso Flecha de Lima, Toninho Drumond e tantos outros. Aparecido era um verdadeiro amálgama que unia artistas, políticos, intelectuais e ambientalistas na direção de suas utopias.


Onde estiver – ao lado de JK e dos artistas construtores – José Aparecido de Oliveira sabe que livrou Brasília da sanha da especulação imobiliária. Preservou o projeto original de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.


Só mesmo um Zé Aparecido, que não ligava para o impossível, poderia plantar a união dos povos de Língua Portuguesa. Poderia plantar uma comunidade lusófona. Poderia plantar uma cidade-capital mais importante em futuro do que em passado.


Obrigado, Zé Aparecido, por ter plantado tantos sonhos.
Você colheu o amanhã.



Última foto de Zé Aparecido, antes de se internar para a cirurgia, tirada por sua filha Maria Cecília, no seu apartamento da Rua da Caraça, BH: Na foto: Silvestre Gorgulho, Maria Leonor, Eleonora Santa Rosa, secretária de Cultura de Minas, e Aparecido.


 

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Fernando Pessoa

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Um fingidor que é enigma em Pessoa

Fernando Pessoa é gênio. E sua genialidade não coube apenas num só poeta. Fernando Pessoa são vários. Daí, tantos heterônimos. Nos tempos de África do Sul, alfabetizado em inglês, criou os primeiros heterônimos: Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher. Criou até um especialista em palavras cruzadas: Alexander Search. Depois vieram os heterônimos que entraram para a história: Alberto Caeiro (ingênuo guardador de rebanho – poeta da natureza) Álvaro de Campos (engenheiro, um poeta de fases e influenciado pelo simbolismo). Ricardo Reis (erudito que insistia na defesa dos valores tradicionais, na literatura e na política). E Bernardo Soares, um tipo especial de semi-heterônimo.Alberto Caeiro era considerado o mestre de Álvaro Campos e de Ricardo Reis. Aliás, do próprio Pessoa. Para o poeta mexicano Octavio Paz (Premio Nobel Literatura 1990) a biografia dos poetas é sua obra. E Pessoa deixou uma fantástica obra. Tinha um viver pacato, mas passou a vida criando outras vidas. “Era o enigma em pessoa”. Comparado a Luiz de Camões, Fernando Pessoa deixou um legado para a Língua Portuguesa como jornalista, publicitário e poeta.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

………

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio pro mar…
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

……

“Minha Pátria é a Língua portuguesa”.

……

“Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.”

……

 “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

————————

Saiba Mais

O que é heterônimo, homônimo e pseudônimo?

Heterônimo A palavra vem do grego: heteros = diferente onyna = nome. Heteronímia é o estudo dos hererônimos ou seja, estudo de autores fictícios. Heterônimo então é uma personagem fictícia, criada por alguêm, mas com vida quase real, com biografia própria, totalmente diferente de seu criador. O criador de hetêrônimo, como Fernando Pessoa, é chamado de ortônimo.

Homônimo (homos = igual + onyma = nome) Pessoa que tem o mesmo nome de outra. Ou, palavras que se pronuncia e/ou escreve da mesma forma que outra, mas de origem e sentido diferentes.

Pseudônimo significa nome falso, ou seja, um nome fictício usado por alguêm como alternativa ao seu nome legal.

 

silvestre@gorgulho.com

dezembro de 2009

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Gente do Meio

Carlos Alberto Ribiero de Xavier

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Natureza, economia e cultura


Silvestre Gorgulho


Naquela fazenda de Curralinho, tão distante, no tempo e no espaço, o homem era um dos elementos da natureza, da criação. Hoje, sob o pomposo nome de “desenvolvimento auto-sustentado” se buscam modelos daquilo que, ali, era o universo quotidiano daquela gente. Gente parte pedra, parte planta, parte bicho: parte Deus, pois nele o espírito se agigantava, conduzindo seus humanos sonhos em direção a iluminados conceitos de liberdade, de igualdade. Houvera aquele animoso alferes cujo sangue tingira as páginas da história do Brasil. Perseguiam-se, desde então, os que assinavam Xavier, forçando-os a abominar seu próprio nome, anatematizado pela opressiva Coroa Portuguesa. Aqueles Xavieres de Casa Branca, no isolamento de sua fazenda, não se intimidaram com a propalada condenação de cinco gerações de toda a parentela. Não renunciaram ao nome, tornado agora ainda mais honroso.


Embora distanciados da sociedade, os Xavieres nada tinham de incultos. Ouro Preto, a primeira urbis, integrava o meio rural, apesar das distâncias e das montanhas. Não havia esse abandono tão grande da gente do campo, que se verifica, ainda em nossos dias, provocando a sempre crescente diáspora para as cidades. Ao se esgotarem as fartas reservas do ouro, as famílias nobres se retiravam para os campos, levando toda a sofisticada herança cultural acumulada na cidade. Refugiadas, agora em paragens longínquas, suas vidas não se limitavam às condições rurais. Antes, se abriam para uma cultura interior extremamente rica.


Intimamente integrados à natureza e à história, com a segurança de quem pisa sua própria terra, sabiam como utilizá-la sem degradá-la. O patrimônio se preservava graças ao respeito a seus valores históricos, culturais e naturais. O conceito de economia e ecologia não de dissociavam.


O legado material se transmitia de forma conjunta com uma educação refinada que não excluía uma natural delicadeza, que fazia com que, por exemplo, um fazendeiro comunicasse com bastante antecedência aos vizinhos que as águas do rio abaixo, de uso comum, estariam turvadas em tal dia, porque o gado iria atravessá-las. O uso equilibrado do patrimônio natural disponível, incluía a manutenção espontânea de reservas, proteção de nascentes, pesquisa de jazidas, consórcio para criação intensiva e engorda de gado em pastos comuns e exploração da melhor vocação dos terrenos. Desconhecia-se a monocultura, pois já se fazia consórcio de culturas, sucessão de plantios, variação de espécies, intercalando épocas de descanso para a terra.


Talvez essa origem explique a sólida e eclética formação de Carlos Alberto Ribeiro De Xavier, economista, ecólogo, pioneiro da Educação Ambiental no Brasil ao introduzi-la no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do qual foi o mais jovem diretor; profundamente ligado à História e ao patrimônio histórico, à natureza e ao meio antrópico. Seu currículo ora o situa em altos cargos nos ministérios do Meio Ambiente, da Cultura, da Educação, ou no Conselho Nacional do Meio Ambiente, ora o conduz a importantes missões oficiais, como, neste momento, a Comissão Nacional para Comemoração do 5º Centenário do Descobrimento do Brasil e a Comissão Bilateral Executiva para as Comemorações do 5º Centenário da Viagem de Pedro Álvares Cabral.


No Ministério da Cultura foi Secretário de Intercâmbio e Cooperação Internacional, Secretário de Planejamento, Responsável pela área do Direito Autoral, do Cinema e do Audiovisual, Chefe de Gabinete do Ministro e, no momento mais difícil para a área cultural, durante o governo Collor, foi-lhe confiada a responsabilidade pelo Patrimônio Cultural do Brasil, exatamente quando todos os órgãos vinculados ao Ministério da Cultura haviam sido extintos e uma ação popular, movida por expoentes da intelectualidade nacional cobravam do presidente da República a volta do status quo ante. Nessa extraordinária condição, presidiu o Conselho Consultivo do Patrimônio e não ficou só na obrigatória rotina de deliberar sobre processos de tombamento ou contratar obras de restauração, encaminhou ao Senado Federal projeto de lei para o retorno do Iplan, por decisão unânime do Conselho.


Entre as mais diferentes missões oficiais, hei-lo representando o Brasil em encontros internacionais: fazendo conferências no Japão sobre patrimônio genético e sobre migração de plantas; em Portugal negociando a vinda de acervos de obras de arte para o Brasil; em Washington, falando sobre Tiradentes na Biblioteca do Congresso Americano ou participando de Conferência sobre Saúde; em Cuba, falando sobre os Libertadores das Américas; no Chile, representando o Brasil em reunião de Ministros da Educação ou participando de Seminário Mundial sobre Desenvolvimento Social.


Lutando por causas quase sempre desprezadas ou difíceis, defendendo direitos de minorias, dos indígenas ou da criança e do adolescente. Ocupa postos como o da Comissão do Tricentenário de Zumbi dos Palmares, ou, mais recentemente, do Grupo de Trabalho para Valorização da População Negra.


Carlos Alberto Ribeiro De Xavier colocou em prática uma visão pioneira de defesa do meio ambiente. Seu trabalho integra os conceitos de meio ambiente, de cultura e de educação, transcendendo as posturas compartimentadas que não logram uma visão holística do mundo. Justamente porque para ele nunca houve antagonismo entre o homem, a vida e a terra, Carlos Xavier é Gente do Meio e recebe, com toda justiça a homenagem da equipe da Folha do Meio Ambiente.


 

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Eurico Cabral de Oliveira – Um dos pioneiros da ficologia no Brasil

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Silvestre Gorgulho

 

A sabedoria dos novos está em saber valorizar as conquistas dos velhos, dos pioneiros e dos desbravadores. Só se conquista plenamente o que se conhece plenamente. O esforço e a abnegação daqueles que dedicaram sua vida na busca do conhecimento, em desvendar a natureza e, sobretudo, no trabalho de se passar esses conhecimentos para as novas gerações, é sublime, pois esse é um legado fundamental para o progresso da ciência e o bem estar da humanidade.

Desde o Descobrimento, muitas caravelas e outras embarcações que cruzavam o Atlântico na direção dos Brasis, traziam aventureiros que vinham à procura do Eldorado, das novas riquezas então difundidas na Europa. Nos séculos 16, 17 e 18, era comum na Europa a expressão “fazer brasil” que significava vir ao novo mundo para um enriquecimento rápido, com a exploração de madeiras, da cana-de-açucar, do ouro e das pedras preciosas para, depois da acumulação retornar e viver uma vida abastada. Todos eles passavam por sobre outra riqueza, até hoje, praticamente inexplorada: a flora e a fauna marinhas da imensa costa brasileira.


Somente no século 19 começaram a ser descritas as espécies da flora marinha e das águas interiores, a ficologia, O pesquisador francês Antoine Lorrant Apollinee Fee, pesquisou no Brasil e deixou uma importante coleção de algas, fungos e liquens, – o Herbier Du Fee – que foi doada a D. Pedro II e hoje está no Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Mais recentemente, se retomou o estudo sistemático das algas com a formação de novos pesquisadores, graças à capacidade do pioneiríssimo dr. Aíthon Brando Joly, professor da USP. Falecido precocemente, sempre trabalhou com a dedicação dos vocacionados, abnegados e formou, pelo menos, cinco grandes pesquisadores em algas no Brasil, que, por sua vez, lideraram novos grupos: os professores Carlos Bicudo – especialista em algas de água doce – a professora Marilza Cordeiro Marino, o professor Luiz Rios de Moura Barbosa, a professora Yocie Yyoneshigue Valetin e o professor Eurico Cabral de Oliveira Mas, não esqueçam esse nome: professor Eurico Cabral de Oliveira, livre docente e professor titular do Instituto de Biociências da USP, que merece um destaque todo especial, entre seus colegas ficólogos.


O professor Eurico não ficou apenas na taxinomia – descrição e denominação das espécies –, iniciou várias linhas de pesquisa em ecologia, fisiologia, maricultura e ficologia aplicada. Abriu os caminhos para passarem seus pupilos, ministrando, desde 1964, Morfologia e Anatomia Vegetal, Taxinomia Vegetal, Criptógamas, Fisiologia e Ecologia Vegetal. Na pós-graduação ensina Taxinomia Avançada de Algas Marinhas, Biologia e Ecologia de Algas e o cultivo de Algas Marinhas na USP, na Unesp e na Universidade de Mar del Plata, na Argentina. Já orientou dezenas de estagiários, mestrados, oito doutorados e um pós-doutorado, no Brasil e no exterior. Fez seu pós-doutorado no País de Gales e foi pesquisador visitante do Atlantic Research Laboratory em Halifax, Canadá.


O dr. Eurico Cabral de Oliveira, participa de todos os organismos científicos internacionais importantes de sua área, é membro de Comitês Editoriais de publicações do Brasil, da Alemanha, do Canadá, da França, do Chile, da Argentina, do Uruguai, da Venezuela e de outros países. Sempre presente nas atividades mais importantes do país, quando o assunto são as algas. Tem participado da revisão de trabalhos e livros de pesquisadores estrangeiros e várias de suas publicações tem sido citadas em livros textos publicados no exterior.


Ultimamente, podem ser citadas como grandes realizações do dr. Eurico as seguintes iniciativas:


l. a formação do “Grupo de Pesquisadores de Algas” do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, sob a orientação da professora Yocie Yoneshigue Valetin, que recuperou o acervo histórico, desenvolvem diversos projetos e já dispõe de um Laboratório de Cultivo de Algas. O grupo é composto pela doutora Elizabeth M. Figueiredo Creed, pelo Doutor Gilberto Meneses Amado Filho e pela Mestre Renata Perpétuo Reis;


2. o memorial e as justificativas para criação do Parque Nacional de Abrolhos (mais importante formação de corais do Brasil), e da Reserva Biológica de Atol das Rocas (área de pouso de aves migratórias, próxima a Ilha de Fernando de Noronha);


3. a fundação da Sociedade Brasileira de Ficologia e da Revista Brasileira de Botânica;


4. a criação e o desenvolvimento de um grupo de trabalho de Ficotecnologia no IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo;


5. a atuação decisiva, como consultor técnico, para a criação e implantação da Cialgas, empresa comercial destinada à produção de mucilagens de algas, pela primeira vez no Brasil.


Por seu entusiasmo, descortino, desprendimento e por sua generosidade em dividir seus conhecimentos com os novos, dr. Eurico Cabral de Oliveira é Gente do Meio e recebe, com toda justiça, a homenagem da equipe da Folha do Meio Ambiente.


 

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