Gente do Meio

Jurema de Medeiros, a guerreira do paraíso

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Brasília, maio de 1997


Jurema de Medeiros
De como usar as flores como arma para proteger a Chapada dos Veadeiros



Silvestre Gorgulho


Como fazer para proteger uma área contra o desmatamento?
Provar que a sua vegetação original oferece mais riquezas do que qualquer empreendimento que se possa fazer para substituí-la é uma saída. E foi esse o princípio que norteou a ação dos ambientalistas que fundaram a Asflo (Associação dos Pequenos Extrativistas de Flores do Cerrado da Chapada dos Veadeiros), entidade que tem como presidente Jurema de Medeiros.


Ela conta como foi que aconteceu: os lençóis freáticos do Pouso Alto, berço das nascentes que abastecem as principais bacias hidrográficas do País, estavam baixando assustadoramente devido ao desmatamento. Surgiu a idéia de se fazer uma reserva extrativista apoiada por uma associação que defendesse as espécies nativas do cerrado. Identificada como produto nobre, a flor serviu de inspiração para o grupo de ambientalistas liderado por Jurema de Medeiros e Peter Mikdiff. Fizeram levantamento biológico e aerofotogramétrico, demarcaram os campos de flores e fundaram, em 1993, uma organização ambientalista que traz também uma proposta social, pois cria as condições para que os catadores de flores se profissionalizem e se organizem. A proposta da Asflo é treinar esses catadores para que beneficiem as flores em buquês e arranjos que valorizam o produto e possibilitam uma renda melhor para suas famílias. Eles são estimulados também a só colherem as flores perfeitas, sem as raízes, deixando pelo menos 50% de cobertura florística nos campos.


A coleta feita de maneira predatória, sem manejo adequado, somada à expansão urbana e ao desmatamento para culturas extensivas, já acabou com as flores do Distrito Federal. Embora continuem sendo um símbolo de Brasília, as flores do cerrado, vendidas hoje na cidade, vêm em grande parte da Chapada dos Veadeiros.


Com prédio próprio na cidade de Alto Paraíso, corpo ativo de associados e prestígio junto à comunidade local, a Asflo é o coroamento de 15 anos da luta empreendida por Jurema em defesa da chapada.


Rumo ao sol
Ela chegou na região com os integrantes do Projeto Rumo ao Sol, que pretendiam formar uma comunidade rural. Eram 250 pessoas que não conheciam o Planalto Central e chegaram com barracas na temporada de chuvas. A permanência do grupo todo ficou difícil e muitos voltaram para seus lugares de origem, à espera de um momento melhor para se estabelecerem na região.


Em vez de voltar, Jurema seguiu adiante: foi morar na Farm, uma comunidade norte-americana, onde aprendeu a beneficiar os derivados da soja. O vínculo com a Chapada, entretanto, já estava formado: Jurema mantinha a comunicação com os remanescentes do Rumo ao Sol, enviando livros e notícias para Alto Paraíso. Depois de um ano e meio de estágio na Farm, ela aportou em Alto Paraíso, disposta a implantar a tecnologia da soja. Foi morar no Povoado do Moinho, onde começou a sua batalha ambientalista. A primeira vitória aconteceu contra a mineração que ameaçava poluir o rio São Bartolomeu, o mais importante manancial do Moinho. Foi uma vitória popular: deu carreata até a entrada da mineração e passeata até a gruta da Igrejinha. Conclusão: o local onde ficava armazenado o ouro foi tombado como patrimônio histórico do município.


Convidada para o cargo de secretária do Meio Ambiente de Alto Paraíso, Jurema desenvolveu projetos como a Coleta Seletiva de Lixo e a Oficina de Educação Ambiental, onde funciona atualmente o Centro de Atendimento ao Turismo. Desgastada pela falta de apoio da estrutura governamental, deixou a secretaria antes do término do mandato para fundar a Asflo, acreditando ser mais produtiva a sua ação à frente de uma organização não-governamental.


Animada com o processo efervescente de conscientização sobre a necessidade de preservação ambiental que se vive hoje na região, Jurema divide seu tempo entre a casa no Povoado do Moinho e a sede da Asflo em Alto Paraíso. Junto à natureza, se exercita fazendo arranjos florais. Nada mais natural para quem cursou a Faculdade de Artes. Na cidade, idealiza projetos que revelam seu amor pela Chapada dos Veadeiros. Pelo seu trabalho, pela sua dedicação às coisas da terra, Jurema de Medeiros é Gente do Meio e recebe a homenagem da equipe da Folha do Meio Ambiente.


silvestre@gorgulho.com

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Fernando Pessoa

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Um fingidor que é enigma em Pessoa

Fernando Pessoa é gênio. E sua genialidade não coube apenas num só poeta. Fernando Pessoa são vários. Daí, tantos heterônimos. Nos tempos de África do Sul, alfabetizado em inglês, criou os primeiros heterônimos: Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher. Criou até um especialista em palavras cruzadas: Alexander Search. Depois vieram os heterônimos que entraram para a história: Alberto Caeiro (ingênuo guardador de rebanho – poeta da natureza) Álvaro de Campos (engenheiro, um poeta de fases e influenciado pelo simbolismo). Ricardo Reis (erudito que insistia na defesa dos valores tradicionais, na literatura e na política). E Bernardo Soares, um tipo especial de semi-heterônimo.Alberto Caeiro era considerado o mestre de Álvaro Campos e de Ricardo Reis. Aliás, do próprio Pessoa. Para o poeta mexicano Octavio Paz (Premio Nobel Literatura 1990) a biografia dos poetas é sua obra. E Pessoa deixou uma fantástica obra. Tinha um viver pacato, mas passou a vida criando outras vidas. “Era o enigma em pessoa”. Comparado a Luiz de Camões, Fernando Pessoa deixou um legado para a Língua Portuguesa como jornalista, publicitário e poeta.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

………

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio pro mar…
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

……

“Minha Pátria é a Língua portuguesa”.

……

“Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.”

……

 “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

————————

Saiba Mais

O que é heterônimo, homônimo e pseudônimo?

Heterônimo A palavra vem do grego: heteros = diferente onyna = nome. Heteronímia é o estudo dos hererônimos ou seja, estudo de autores fictícios. Heterônimo então é uma personagem fictícia, criada por alguêm, mas com vida quase real, com biografia própria, totalmente diferente de seu criador. O criador de hetêrônimo, como Fernando Pessoa, é chamado de ortônimo.

Homônimo (homos = igual + onyma = nome) Pessoa que tem o mesmo nome de outra. Ou, palavras que se pronuncia e/ou escreve da mesma forma que outra, mas de origem e sentido diferentes.

Pseudônimo significa nome falso, ou seja, um nome fictício usado por alguêm como alternativa ao seu nome legal.

 

silvestre@gorgulho.com

dezembro de 2009

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Carlos Fernando de Moura Delphin

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Silvestre Gorgulho

Carlos Fernando nasceu jardineiro, estudou paisagismo e urbanismo, formou-se em arquitetura pela UFMG e trabalha hoje com projetos e planejamento para manejo e preservação de sítios de valor paisagístico, histórico, natural, paleontológico e arqueológico. Paisagista favorito de Oscar Niemeyer, já fez para ele vários projetos como o do Memorial da América Latina, em São Paulo, do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, e da Universidade Norte Fluminense.

Suas pegadas estão hoje espalhadas por muitas regiões e cidades brasileiras. Elas podem ser encontradas em seus projetos como autônomo ou público, como o da restauração do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, no Jardim Botânico de Brasília, nos Jardins do Brasil, em Osaka-Japão, na  Secretaria de Patrimônio Histórico do Rio Grande do Sul, nos Jardins Históricos da Fundação Nacional Pró-Memória, do IPHAN e de outros órgãos de preservação do patrimônio cultural brasileiro. Carlos Fernando trabalhou no IPHAN em Brasília, quando foi responsável pelo patrimônio arqueológico e pelos bens culturais tombados em nível federal. Atualmente assessora a direção do IPHAN-RJ.

Pioneiro da restauração de jardins históricos no Brasil, é autor do primeiro manual de intervenções em jardins históricos no mundo. Além disto emite pareceres sobre sítios propostos para Patrimônio Mundial da Unesco. Graças a um parecer seu as Florestas Tropicais Úmidas de Queensland, na Oceania, foram declaradas como patrimônio mundial. Seu mais recente estudo é uma nova e vanguardista proposta para a preservação de paisagens culturais no Brasil, no sul do Ceará, onde participa da implantação do Geopark do Araripe. Neste trabalho, Carlos Fernando, juntamente com a equipe da Universidade Regional do Cariri e com o IPHAN cearense, orienta a forma de proteção das paisagens dos “geotopes”, de acordo com  a legislação cultural e ambiental, no âmbito das leis municipal, estadual e federal. Orienta, também, as intervenções mais adequadas para o uso público e científico dos diferentes sítioS

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Rodolpho von Ihering: o pai da piscicultura

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Silvestre Gorgulho

Sua origem é alemã e seu nome é o mesmo do avô, um dos mais importantes
juristas alemães do século 18 Rodolpho von Ihering.

Rodolpho von Ihering, o neto brasileiro, nasceu no Rio Grande do Sul, em 17 de julho de 1883, filho do médico e naturalista Herman von Ihering. Bacharel em Ciências e Letras pela Universidade de São Paulo (1901), Rodolpho casou-se com Isabel de Azevedo von Ihering e teve duas filhas: Maria e Dora von Ihering, que escreveu o livro: “Ciência e Beleza nos Sertões do Nordeste”, onde fala da obra e dos trabalhos do pai.

Rodolpho foi criado, praticamente, dentro do laboratório de seu pai, absorvendo o clima favorável ao estudo da natureza. Desde criança tinha interesse em conhecê-la e decifrá-la. Seu pai exerceu uma forte influência em sua formação e uma das grandes decepções de Rodolpho foi quando, na 1ª Guerra Mundial, Herman von Ihering, por sua origem alemã, foi demitido da direção do Museu Paulista, segundo explica o professor Zeferino Vaz “pela mediocridade e pelo falso patriotismo indígena de algumas autoridades”.

Rodolpho dedicou-se de corpo e alma ao estudo da fauna brasileira e à solução dos problemas da piscicultura. Durante 30 anos percorreu o Brasil de ponta a ponta, registrando com rigor científico os nomes dos animais da fauna brasileira, buscando sempre os nomes populares dados aos animais em cada região. Para isto, chegou a aprender o tupi-guarani, a fim de identificar melhor as raízes etimológicas dos nomes dos animais. Nasceu assim uma obra importante: “Dicionário dos Animais do Brasil”, publicada pela Universidade de Brasília.

Dedicou-se ao estudo de invertebrados, sobretudo os peixes, criando no Brasil o Serviço de Piscicultura. Fez inúmeras experiências para conseguir a fecundação in vitro, de peixes de água doce, com o objetivo de obter alevinos em grande quantidade para o repovoamento de rios, açudes e barragens. Essas experiências eram feitas na represa de Billings (São Paulo) e, em piracema nos rios Mogi-Guaçu (Cachoeira de Emas), Piracicaba- (Salto do Piracicaba) e Tietê (Salto do Itú) e em açudes do Nordeste.

O paraibano José Américo de Almeida, ministro de Getúlio Vargas, foi quem apoiou Rodolpho von Ihering nas suas pesquisas, quando criou e o nomeou diretor da Comissão Técnica de Piscicultura do Nordeste. Em 1934, Ihering criou e desenvolveu o processo artificial de reprodução de peixes, conhecido como hipofisação.

Esse método revolucionário foi tão importante que, mesmo morrendo em 1939, portanto cinco anos após a descoberta, von Ihering viu ser disseminado internacionalmente o novo processo. O reconhecimento por sua obra lhe valeu o título de Pai da Piscicultura brasileira.

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Reportagens

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