Entrevistas

Marcos Aurélio Freitas – Entrevista de como gerenciar a água da Amazônia

A Amazônia internacional

Amazônia: como gerenciar 16% da água doce da Terra
Chegou a hora dos oito países que estão na bacia amazônica administrarem um potencial de 4 a 5 milhões de barris de petróleo equivalente/dia em geração hidráulica

Marcos Aurélio Freitas: quando falamos da bacia amazônica sabemos que lá tem muita água e pára por aí

Silvestre Gorgulho e Milano Lopes, de Brasília

Quando se fala de Brasil, Amazônia é sempre um caso a parte. Motivos não faltam: extensão territorial, mistérios, recursos minerais, narcotráfico, florestas, propostas de internacionalização, fronteira agrícola, rios e mais rios, incêndios, desflorestamento, potencial turístico, exuberância, índios, biodiversidade e até pela fronteira que o Brasil têm com outros sete países. A Amazônia é gigante pela própria natureza. Em tudo: em reservas extrativistas, em unidades de conservação, em recursos genéticos e, sobretudo, em água doce. Sim, 16% dos recursos hídricos do Planeta estão na Amazônia e é sobre isto que voltamos a conversar com Marcos Aurélio Freitas, diretor da Agência Nacional de Águas, que vai mostrar toda implicação deste potencial em relação a nós brasileiros e em relação à toda bacia que tem sua área compartilhada com outros sete países.

Como a ANA está considerando a bacia amazônica, onde há bastante água e pouca gente?
Marcos Aurélio –
Quando falamos de bacia amazônica, falamos de algo como 16% da água doce superficial do planeta. Quando pensamos na maior bacia hidrográfica do planeta, a maioria dos hidrólogos do país sabe que tem muita água, e pára aí. Na verdade, as preocupações sobre o tema água priorizam a falta d’água no Nordeste e a poluição no Sudeste. Isso faz com que o enorme potencial de água que tem a Amazônia enfrente uma enorme carência de informação e, conseqüentemente dificultando a tomada de decisões.

E já existem problemas na região?
Marcos –
Existem sim. Há uma enorme concentração urbana, algumas similares às existentes em qualquer ponto do País. Manaus e Belém, principalmente, com cerca de dois milhões de habitantes cada uma, enfrentam problemas de abastecimento de água e poluição localizada em diversos igarapés.
Porém, essas questões podem ser tratadas de forma diferente de outras regiões, considerando-se, por exemplo, a capacidade de diluição dos rios da Amazônia, a forma horizontalizada do crescimento das cidades, o que faz com que haja uma densidade populacional bem menor numa cidade amazônica do que, por exemplo, nas cidades verticalizadas do Sudeste com população equivalente.
É claro, que estender a coleta de esgotos numa cidade horizontalizada é bem mais caro. No caso da Amazônia, é preciso fazer sistemas de tratamento de esgoto nos locais de poluição, descentralizados, sem exigência de transporte de longa distância. Boa parte das cidades amazônicas já estão usando água subterrânea. Um terço do abastecimento de água de Manaus é de água subterrânea. Porque, à medida em que a cidade se expande, não há como levar água potável. As pessoas, então, perfuram, fazem poços. Se o poço for mal localizado, poderá ficar perto da fossa.

Inclusive as indústrias da Zona Franca?
Marcos –
Todas as indústrias de Manaus se abastecem de água subterrânea. Como não havia segurança na oferta de água potável e o consumidor resistia em pagar a conta da água, a saída mais cômoda era cavar um poço. Coleta-se de sete a oito metros cúbicos por segundo de água subterrânea em Manaus. O lençol freático pode não baixar, mas há um sério risco de poluição localizada. Há situações onde os poços são mais rasos, há rios cuja vulnerabilidade tem de ser estudada de uma ponta a outra. Mas o importante a considerar na Amazônia é que estamos falando de algo como seis milhões de quilômetros quadrados, quando se contabiliza toda a área de drenagem da bacia.

E deve ser considerado também que, na Amazônia, o Brasil é águas abaixo…
Marcos –
É verdade, na Amazônia o Brasil é águas abaixo. Diferente do que é, por exemplo, em relação à bacia do Prata, onde somos águas acima. Portanto, no caso do Prata, a forma como gerimos os recursos hídricos no Brasil interfere diretamente em nossos vizinhos argentinos e uruguaios. Na Amazônia, não. A relação é inversa. A forma de gerir a água na Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Venezuela e Guiana tem relação direta com o que ocorre no Brasil. Essa situação de gestão de águas transfronteiriças, seja para países de águas acima ou abaixo demanda uma integração continental. Já temos problemas de poluição na fronteira com a Colômbia. Enviamos recentemente a Tabatinga, no estado do Amazonas, que faz fronteira com Letícia um especialista para verificar a possibilidade de instalar uma pequena rede de controle de qualidade de água. Letícia é uma cidade grande para os portes amazônicos, do lado colombiano, e já enfrenta problemas similares aos nossos. É claro que há situações mais específicas da região amazônica, como, por exemplo, o narcotráfico, que é outra situação que provoca poluição da água.

O narcotráfico, a poluição das águas e a grandeza da bacia hidrográfica

Como o narcotráfico polui a água?
MF –
Polui porque os narcotraficantes vão refinar a coca. Quando eles refinam a coca, utilizam produtos químicos em grandes quantidades e em condições totalmente marginais e descontroladas. Isso sem falar em outros problemas. Quem vai combater o narcotráfico utiliza técnicas que também podem ser muito prejudiciais (agentes desfolhantes, etc).
E há também a poluição provocada pelo garimpo, além de outras tantas situações de risco, que na Amazônia conhecemos pouco os efeitos e às quais é preciso estudar para saber o que fazer. Há enormes concentrações de mercúrio em várias regiões da Amazônia. Os peixes se alimentam nas águas contaminadas, os indivíduos comem os peixes e depois adoecem. Mas o mercúrio não existe nas águas dos rios da Amazônia apenas pela presença do garimpo. Foram detectadas altas concentrações de mercúrio em rios onde nunca se explorou o ouro. Ou seja, há mercúrio no solo que, com a subida e descida dos rios, o desbarrancamento, vai poluindo as águas.

Não lhe parece urgente, então, um projeto para gestão das águas da Amazônia?
Marcos –
Sem dúvida. E terá de ser um projeto trans-fronteiriço, que possa integrar os países que compõem a bacia, – Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname. Como apresentamos um projeto, com apoio da OEA e PNUMA, para discussão e aprovação junto aos países que fazem parte da Organização do Tratado de Cooperação da Amazônia (OTCA), vimos que era a melhor oportunidade para discutir a bacia amazônica. A intenção é discutir o tema da água – a gestão dos recursos hídricos – com todos os países da região. Para tal, o objetivo é, em primeiro lugar, reunir recursos para implantar uma rede de monitoramento integrado. Ter informações sobre a quantidade e a qualidade da água, o que está ocorrendo na região como um todo.
Não só da água superficial, mas, se possível, de todo o ciclo hidrológico. Ter um pouco mais de integração da meteorologia, para detectar os efeitos do fenômenos como o El Niño e o La Niña na região. Sabemos, por exemplo, que nos anos de El Niño, em algumas regiões da Amazônia chove menos, ao contrário do que ocorre na Bacia do Prata, onde chove mais. Chovendo menos, há maior risco de incêndio e outros problemas, como redução da oferta de água nos reservatórios das hidrelétricas, por exemplo.

A OPEP da água em discussão

Nesse contexto, como se coloca a questão do petróleo amazônico?
Marcos –
A Petrobras está produzindo óleo na região de Urucu. Tornou-se um dos principais navegadores dos rios daquela região, com barcos de grande calado. Boa parte dos monitoramentos feitos pela ANA nos rios da área, realizados, hoje, com alta tecnologia de medição do fluxo da água e dos perfis dos rios, como a de uso do efeito Doppler, batimetria etc. constituem dados indispensáveis para quem navega naquela região. Afora isto o conhecimento da Petrobrás no controle da poluição de óleo nas águas será de forte interesse a outros países petroleiros amazônicos, como o Equador e o Peru.

Como o Itamaraty avalia a questão da água na Amazônia em face das demandas internacionais sobre a região?
MF –
O Itamaraty tem sido o fio condutor para discutir a questão da águas com os outros países desde 2001, no âmbito das discussões que resultaram na instituição do Organismo do Tratado de Cooperação da Amazônia (OTCA), que começou a funcionar no ano passado. Neste quadro, é importante ressaltar que em novembro de 2002, em Santa Cruz de la Sierra, na 11o. Reunião Regular do Conselho de Cooperação Amazônico e na 11º. Reunião dos Ministros de Relações Exteriores do TCA, a proposta do projeto das águas foi oficialmente apresentada pela delegação brasileira. A Declaración de Santa Cruz, firmada pelos ministros de relações exteriores dos países Amazônicos, além de dar boa acolhida ao projeto enfatiza “la importancia del manejo y conservación de los recursos hídricos en la Cuenca del Amazonas y la necesidad de integrar y armonizar las iniciativas y esfuerzos de cada país.”

Com tantos problemas de água no Nordeste e Sudeste, por que a ANA vai se preocupar com a Amazônia?
Marcos –
Quando a ANA decidiu trabalhar na Amazônia, levou em conta isso que vocês estão falando, como é natural. Os imensos problemas de água que enfrentamos em outras regiões do País, não podem deixar que ignoremos a Amazônia. E que, se uma dor de dente nos leva a esquecer um eventual desconforto em outra parte do nosso corpo, mas isso não significa que temos de deixar de enfrentar esse desconforto com os remédios necessários.
Os investimentos na Amazônia deverão ocorrer em função de situações concretas, como os problemas de gestão das águas gerados pelas grandes cidades da região, mas, igualmente, e com igual ênfase, em cima das questões potenciais, do futuro. Estamos falando de algo que pode modificar completamente a ocupação de uma grande parte do continente. Nós podemos estar neste momento discutindo uma espécie de OPEP da água. Com os países amazônicos, estamos discutindo um potencial de aproximadamente quatro a cinco milhões de barris de petróleo equivalente/dia em geração hidráulica. Isto deve ser conduzido corretamente, porque se não o for, estaremos negando às gerações futuras a possibilidade de um aproveitamento que é abundante e renovável.
Temos que buscar experiências bem sucedidas, hidrelétricas bem construídas, situações que não venham a afetar os outros usos, que venham a ressarcir corretamente as populações afetadas, que venham a protegê-las. Se agirmos assim, saberemos usar os recursos naturais.

O Brasil deve ser apenas um parceiro privilegiado

Como podem ser avaliadas as hidrelétricas?
Marcos –
A necessidade energética fez com que o Brasil construísse várias hidrelétricas. Algumas na Amazônia. A hidrelétrica de Balbina formou um lago enorme para uma capacidade instalada de 250 MW. Já Tucuruí é bem melhor do ponto de vista energético. Estamos falando de um lago de cerca de 3 mil km2, com uma potência de oito mil MW.
É evidente que Tucuruí teve outros problemas, associados à não retirada da madeira submersa – problema que também existiu em Balbina – assim como à necessidade de deslocar populações e fazer ressarcimentos.
É importante destacar que no caso de Balbina, por exemplo, encontrou-se uma solução para a questão indígena, com o pagamento de uma compensação financeira aos Waimiris-Atroaris. É preciso ver como fazer uma melhor regulação para a terra indígena, tendo em vista, principalmente, os próximos aproveitamentos hidrelétricos na Amazônia.

O atraso de 20 anos na construção de Belo Monte pode possibilitar a utilização de novas tecnologias que reduzam os impactos ambientais?
Marcos –
Não tenho dúvida. Se você pegar os projetos das UHE de Kararaô e Babaquara, que antecederam o projeto de Belo Monte, vai verificar que houve uma enorme evolução em termos de projeto. O anterior era ruim e certamente não ia ter financiamento externo.
Belo Monte, com 10 mil MW de capacidade, é outra história: discute-se um lago de 400km2, quando Balbina tem algo da ordem de 4 mil km2 de área inundada. Mas a definição de Belo Monte depende ainda de regularizar a situação das nações indígenas que habitam a região.

Com essa nova postura, dá para ter mais ajuda internacional?
Marcos –
Sem dúvida. Já temos assegurada uma doação do GEF – Global Environnmental Facility – ligado ao Pnuma – no valor de US$ 10,7 milhões. O GEF que já investe no Brasil e em outros países da América do Sul, nas bacias do Pantanal, São Francisco e Prata e no aqüífero Guarani, concordou com essa doação.
A liberação em parcelas deverá ser iniciada até o fim do ano. É um projeto destinado a organizar os países amazônicos e iniciar a discussão sobre a gestão transfronteiriça das águas e da vulnerabilidade climática da região, com a importância de ser discutido e gerenciado no âmbito de um novo organismo multilateral regional criado.
Bem, não é o suficiente para trabalhar uma região tão grande, mas há possibilidade de se obter outros financiamentos. Eu costumo chamar esse projeto inicial de US$ 10,7 milhões de um glacê de bolo. E pode ser feito um bolo ótimo, desde que seja um projeto de Estado, onde os países se engajem e se comprometam. Esse é o caminho para evitar que o Brasil seja visto como uma potência hegemônica na Amazônia. O Brasil tem que ser visto como um parceiro privilegiado no desenvolvimento de um processo integrado de gestão das águas no continente sul-americano.

summary

The Amazon: how to manage 16% of the world’s fresh water
It’s time for the nine countries who share the Amazon basin to manage the hydro power generation capacity equal to four to five million barrels of oil per day power generation

When discussing Brazil, the Amazon is always a separate story. There is no shortage of reasons: the vastness of its territory, mysteries, mineral resources, drug trafficking, forests, proposals for internationalization, agricultural encroachment, rivers and more rivers, fires, deforestation, tourist potential, lushness, Indians, biodiversity and the border that Brazil shares with eight other countries. The Amazon is a giant by nature, in every respect: its extractivist reserves, conservation units, genetic resources and above all fresh water. Yes, 16% of the planet’s water resources are in the Amazon and this is what we are going to discuss once again with Marcos Aurélio Freitas, director of the National Waters Agency, who will explain all the implications of this potential in relation to us as Brazilians and in relation to the entire basin, an area which we share with the seven other countries.

When we talk about the Amazon basin, we are discussing 16% of the planet’s surface fresh water. When we think of the largest water basin on the planet, the majority of the hydrologists of the country know that there is a lot of water there. In fact, the concerns regarding the topic of water generally prioritize the water shortage in the Northeast and the pollution in the Southeast. Thus, we have little information regarding the enormous water potential that the Amazon has and therefore, it is difficult to make any decisions in this regard.
In the cities of Belém and Manaus, there are large urban concentrations, similar to those in many other areas of the country. There are two million inhabitants in each city, which face water supply and pollution problems in a number of igarapés (waterways). However, these issues can be dealt with differently than in the other regions, if one takes into consideration for example, the dilution capacity of the Amazon rivers, the horizontal growth of the cities, which means that the population density is much smaller in a city in the Amazon than in the cities with vertical growth in the Southeast, having a similar population. Not to mention of course, the sewage system in a horizontal city is much more expensive. All of the industries in Manaus get their water supply from subterranean water supplies.

The Amazon needs a cross-border project

Downstream and upstream
The Amazon in Brazil is downstream, which is different for example, in relation to the Plate river basin, which is upstream. In the case of the Plate, the way in which we manage water resources directly interferes with our neighbors in Argentina and Uruguay. In the case of the Amazon the relationship is the reverse. The way in which water is managed in Colômbia, Peru, Bolívia, Ecuador, Venezuela and Guyana has a direct relationship to what is happening in Brazil. This cross-border water management, regardless of whether in countries with downstream or upstream water requires continental integration. We already have problems from pollution near the border with Colômbia.

Drug trafficking
Drug trafficking pollutes because the traffickers refine cocaine by using large quantities of chemical products, under totally illegal and uncontrolled conditions. Those who combat the drug trade also use techniques which are highly damaging (defoliating agents, etc.) Pollution is also caused by the mining there, as well as many other risky procedures used in the Amazon; we know little about the effects of these situations and need to study them to learn what needs to be done.

Cross-border Project
We need a cross-boarder project, which would enable integration of the countries which make up the basin – Brazil, Bolívia, Peru, Ecuador, Colômbia, Venezuela, Guyana and Suriname. Since we have introduced a project, with the support of the OEA and Pnuma, to discuss and gain the approval of the countries which belong to the OTCA, (the Amazon Cooperation Treaty Organization), we saw this was the best opportunity to discuss the Amazon basin.
The intention is to discuss the topic of water – the management of water resources with all of the countries in the region. However, we need to raise funds to implement an integrated monitoring system, to gather information about the quantity and quality of the water, throughout the region as a whole.

No Capitals
Although the Amazon is immense and nearly all the countries possess a large territory within the region, there are no capital cities of any country located in the Amazon, in other words, none of the countries feels culturally Amazon. The Amazon basin covers 35% of Brazilian territory. In Peru, 70% of its territory is located in the Amazon basin, while in Bolivia it covers roughly 50%. Since the capital cities are centered on other river basins such as the Plate, the Orinoco River or located near the sea, etc., these countries are not yet concerned enough with the management of the waters in the Amazon, which is why there is so little understanding about the Amazon River basin. The Amazon to these countries is a future issue.

Sovereignty
Brazilian diplomatic relations could benefit from this management in a number of ways. At international forums, when first world countries learn that we are working toward a broad integration process, to enable the implementation of sustainable water management in the Amazon, they will know that we, all of the Amazon countries, have taken an important stance, but not only from an environmental point of view. They will see that we have also joined economic forces and have taken, most importantly, a sovereign attitude. It is possible to have an excellent water monitoring program, provided that it is well structured, using state of the art long distance monitoring which encompasses the entire region. One of the biggest problems in water monitoring technology development projects, which some countries already have, is the cost of transmitting information. If we implement the system it will be necessary to spend in the neighborhood of US$ 100.00 per month to maintain each point and we would need hundreds of points installed in the forest. These points would send information to the US or European satellites. If we use Brazilian satellites (SCD1, SCD2 and CIBERS) and we have already discussed this with the Ministry of Science and technology, and the people at the INPE, the transmission costs could be considerably lower and the Brazilian government could consider this as an opportunity to extend their use to other Amazon countries.

Sivam/Sipam
It would be an enormous accomplishment for Brazil, to visibly be involved in working with the Amazon countries in a position of leadership, from an integration policy point of view. Sivam/Sipam, for example, would be an excellent partner to achieve this. This entity is currently conducting a complete mapping of the area, which could be made available to the Amazon nations.

Global Environmental Facility
By taking on this new posture, it would be possible to receive more international aid. We have already secured a donation from the GEF – Global Environmental Facility – associated with the United Nations Environmental Program in the amount of US$ 10.7 million. GEF which has already invested in Brazil and other countries in South America in the Pantanal, São Francisco and Plate basins and in the Guarani waterways, has agreed to donate this money, which is expected to be released in installments at least by the end of the year. The purpose of this project is to organize Amazon countries and begin discussions regarding the cross-border management of the waters and the climatic vulnerability of the region as well as planning concerning the importance of management and creation of the new multilateral regional organ.

 

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John Elkington: A Vanguarda da Sustentabilidade Empresarial e Global

Explorando a Vida e o Legado do Arquiteto da Tripla Linha de Base e Defensor Incansável da Responsabilidade Corporativa

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Na arena global da sustentabilidade, poucos nomes ressoam com a mesma reverência que o de John Elkington. Conhecido como o arquiteto da “Tripla Linha de Base”, Elkington emergiu como um pioneiro na integração de preocupações ambientais, sociais e financeiras no mundo dos negócios. Sua jornada como defensor incansável de práticas sustentáveis e responsáveis ​​é um testemunho vivo de sua influência e impacto duradouro.

As Raízes da Visão de Elkington

Nascido com uma consciência intrínseca do poder transformador da sustentabilidade, John Elkington começou sua jornada na Universidade de Londres, onde se formou em Economia e Estudos de Engenharia. Desde o início, seu interesse abrangente pelas interseções entre o mundo dos negócios e as questões ambientais e sociais o levou a explorar novos paradigmas de desenvolvimento econômico que priorizassem não apenas o lucro, mas também o bem-estar coletivo.

A Tripla Linha de Base e Seu Legado Duradouro

É inegável que o maior legado de John Elkington é a popularização do conceito de “Tripla Linha de Base”. Sua inovadora abordagem de avaliação de desempenho empresarial não apenas com base em lucros financeiros, mas também em impactos ambientais e sociais, foi revolucionária. Essa estrutura conceitual permitiu que as empresas repensassem suas práticas e redefinissem o sucesso empresarial, levando em consideração não apenas os resultados financeiros, mas também o impacto em comunidades e ecossistemas.

O Compromisso Contínuo com a Mudança Sistêmica

Além de suas contribuições teóricas, Elkington é conhecido por seu compromisso contínuo com a mudança sistêmica. Ele trabalhou incansavelmente para influenciar políticas e práticas corporativas, promovendo a sustentabilidade como um imperativo central para o crescimento econômico e o bem-estar social. Sua atuação como autor prolífico e palestrante renomado ampliou ainda mais o alcance de suas ideias e inspirou uma geração de líderes a repensar o papel das empresas na sociedade.

O Legado Duradouro e o Caminho à Frente

À medida que o mundo enfrenta desafios cada vez mais complexos, o legado de Elkington permanece como um farol de esperança e um lembrete constante de que a sustentabilidade não é apenas uma opção, mas uma necessidade urgente. Sua visão e dedicação incansável continuam a orientar não apenas empresas, mas também formuladores de políticas e defensores da sustentabilidade em direção a um futuro mais equitativo e próspero.

John Elkington personifica a noção de que a sustentabilidade não é apenas um conceito acadêmico, mas uma filosofia de vida e uma abordagem essencial para moldar um mundo mais resiliente e sustentável. Sua jornada continua a inspirar e a moldar a narrativa global da responsabilidade empresarial e do ativismo sustentável.

 

Entrevista

John Elkington: Bem, ao longo das últimas décadas, testemunhamos um crescente reconhecimento da importância da sustentabilidade, tanto a nível empresarial quanto global. As empresas estão percebendo que devem abordar não apenas suas operações, mas também sua cadeia de suprimentos e impacto social. Vemos um movimento contínuo em direção a práticas mais responsáveis e transparentes, mas ainda há muito trabalho a ser feito.

Com certeza. Quais são os principais desafios que você identifica atualmente em termos de implementação de práticas sustentáveis em larga escala?

John Elkington: Um dos principais desafios é a integração da sustentabilidade no cerne dos modelos de negócios. Muitas empresas ainda veem a sustentabilidade como uma iniciativa isolada, em vez de uma parte fundamental de sua estratégia. Além disso, a falta de regulamentações e políticas sólidas em muitas partes do mundo dificulta a adoção generalizada de práticas sustentáveis. Também é fundamental envolver os consumidores e criar uma demanda por produtos e serviços mais sustentáveis.

Concordo plenamente. Considerando o cenário atual, como você visualiza a importância da inovação e da tecnologia na promoção da sustentabilidade?

John Elkington: A inovação e a tecnologia desempenham um papel crucial na transição para práticas mais sustentáveis. Novas tecnologias podem aumentar a eficiência, reduzir desperdícios e permitir o uso mais inteligente dos recursos. Da energia renovável aos avanços na agricultura sustentável e na gestão de resíduos, a tecnologia tem o potencial de impulsionar mudanças positivas significativas. No entanto, é importante garantir que essas inovações sejam acessíveis e amplamente adotadas, especialmente em comunidades com recursos limitados.

Definitivamente. Quais conselhos você daria para os líderes empresariais e os formuladores de políticas que desejam impulsionar práticas mais sustentáveis?

John Elkington: Para os líderes empresariais, eu enfatizaria a importância de incorporar a sustentabilidade em toda a cadeia de valor, desde a concepção do produto até o descarte responsável. Isso não apenas beneficia o planeta, mas também pode gerar eficiências operacionais e melhorar a reputação da marca. Para os formuladores de políticas, é fundamental criar um ambiente regulatório favorável e incentivar a inovação e o investimento em práticas sustentáveis. Além disso, é crucial promover a conscientização e a educação sobre a importância da sustentabilidade em todas as esferas da sociedade.

 

 

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Entrevistas

Kátia Queiroz Fenyves fala a respeito de sustentabilidade e meio ambiente

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Kátia Fenyves é Mestre em Políticas Públicas e Governança pela Sciences Po Paris e formada em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo. Ao longo de sua trajetória profissional, acumulou experiências em cooperação internacional para o desenvolvimento sustentável no terceiro setor e na filantropia. Atualmente é Gerente do Programa de Finanças Verdes da Missão Diplomática do Reino Unido no Brasil.

 

1. Você estudou e tem trabalhado com a questão de sustentabilidade e o meio ambiente. Pode nos falar um pouco a respeito desses temas?
Meio ambiente é um tema basilar. Toda a vida do planeta depende de seu equilíbrio. A economia, da mesma forma, só se sustenta a partir dos recursos naturais e de como são utilizados. Sustentabilidade, portanto, foi o conceito que integrou as considerações aos aspectos ambientais, sociais e econômicos, revelando de forma mais sistêmica esta inter-relação e, sobretudo, colocando o meio ambiente como eixo estratégico do desenvolvimento, para além de seu valor intrínseco.

2. Quando se fala em sustentabilidade, pensa-se no tripé social, ambiental e econômico. Como você definiria esses princípios? Qual deles merece maior atenção, ou todos são interligados e afetam nossa qualidade de vida integralmente?
Exatamente, sustentabilidade é o conceito que revela as interligações entre os três pilares – social, ambiental e econômico e, portanto, são princípios interdependentes e insuficientes se tomados individualmente. Talvez, o ambiental seja realmente o único que escapa a isso. A natureza não depende da economia ou da sociedade para subsistir, mas, por outro lado, é impactada por ambos. Por isso, sustentabilidade é um conceito antrópico, ou seja, é uma noção que tem como referencial a presença humana no planeta.

3. Questões relacionadas à sustentabilidade, preservação do meio ambiente e consumo consciente são discutidas nas escolas e universidades?
Há entre as Diretrizes Curriculares Nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação, que são normas obrigatórias, as específicas para Educação Ambiental que devem ser observadas pelos sistemas de ensino e suas instituições de Educação Básica e de Educação Superior a partir da Política Nacional de Educação Ambiental. Estas contemplam todos os temas citados na pergunta. Não sou especialista na área então é mais difícil avaliar a implementação, mas em termos de marco institucional o Brasil está bem posicionado.

4. Quando se fala em preservação do meio ambiente, pensa-se também nos modelos de descarte que causam tantos danos ao meio ambiente. Existe alguma política de incentivo ao descarte consciente?
Mais uma vez, o Brasil tem um marco legal bastante consistente para o incentivo ao descarte consciente que é a Política Nacional de Resíduos Sólidos de 2010, que é inclusive uma referência internacionalmente. Na verdade, mais que um incentivo ela é um desincentivo ao descarte inconsciente por meio do estabelecimento da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e a logística reversa. Isso significa que a PNRS obriga as empresas a aceitarem o retorno de seus produtos descartados, além de as responsabilizar pelo destino ambientalmente adequado destes. A inovação fica sobretudo na inclusão de catadoras e catadores de materiais recicláveis e reutilizáveis tanto na logística reversa como na coleta seletiva, algo essencial para um país com nosso contexto social.

5. Você acha que os modelos de descarte atuais serão substituídos por novos modelos no pós-pandemia? O que fazer, por exemplo, para incentivar as pessoas a descartar de forma consciente as máscaras antivírus?
Sempre é preciso se repensar e certamente a pandemia deu destaque a certas fragilidades da implementação da PNRS. Grande parte dos hospitais brasileiros ainda não praticam efetivamente a separação e adequada destinação de seus resíduos e, na pandemia, este problema é agravado tanto pela maior quantidade de resíduos de serviços de saúde gerados como por uma maior quantidade de geradores, uma vez que a população também começa a produzir este tipo de resíduo em escala. Falta ainda muita circulação da informação, então talvez este seja o primeiro passo: uma campanha de conscientização séria que jogue luz nesta questão.

6. Na sua opinião, o mundo está mais consciente das necessidades de preservação do meio ambiente e dos recursos naturais para que gerações futuras possam deles usufruir?
Acredito que tenhamos passado do ponto em que estas necessidades de preservação eram uma questão de consciência e chegamos a um patamar de sobrevivência. Também não se trata apenas das gerações futuras, já estamos sofrendo as consequências do desequilíbrio ambiental provocado pela ação humana e do esgotamento dos recursos naturais desde já. A própria pandemia é resultado de relações danosas entre o ser humano e o meio ambiente e os conflitos por fontes de água, por exemplo, são uma realidade.

7. Quais as ações que mais comprometem e degradam o meio ambiente?
Nosso modelo produtivo e de consumo como um todo é baseado em uma relação predatória com o meio ambiente: retiramos mais do que necessitamos, sem respeitar os ciclos naturais de reposição e, além disso, quando descartamos os resíduos e rejeitos não cumprimos com os padrões adequados estabelecidos. Já temos conhecimento suficiente para evitar grande parte dos problemas, mas ainda não conseguimos integrá-lo nas nossas práticas efetiva e definitivamente.

8. O que na sua opinião precisa ser feito para que as sociedades conheçam mais a respeito de sustentabilidade, preservação do meio ambiente e consumo consciente?
Acredito que para avançarmos como sociedade precisamos tratar a questão das desigualdades socioeconômicas que estão intrinsicamente relacionadas a desigualdades ambientais, inclusive no que diz respeito às informações, ao conhecimento. A educação é, portanto, um componente estratégico para este avanço, mas é preciso ter um entendimento amplo que traga também os saberes tradicionais para esta equação. Além disso é preciso cada dia mais abordar o tema da perspectiva das oportunidades, pois a transição para modos de vida mais sustentáveis, que preservam o meio ambiente e que se baseiem em consumo conscientes alavancam inúmeras delas; por exemplo, um maior potencial de geração de empregos de qualidade e menos gastos com saúde.

9. A questão climática está relacionada com a sustentabilidade? Como?
A mudança do clima intensificada pela ação antrópica tem relação com nossos padrões de produção e consumo em desequilíbrio com o meio ambiente: por um lado, vimos emitindo uma quantidade de gases de efeito estufa muito significativa e, por outro, vimos degradando ecossistemas que absorvem estes gases, diminuindo a capacidade natural do planeta de equilibrar as emissões. Assim, a questão climática está relacionada com um modo de vida insustentável. A notícia boa é que práticas sustentáveis geram diretamente um impacto positivo no equilíbrio climático do planeta. Por exemplo, o Brasil tem potencial para gerar mais de 25 mil gigawatts em energia solar, aproveitando sua excelente localização geográfica com abundância de luz solar, uma medida sustentável que, ao mesmo tempo, é considerada uma das melhores alternativas para a diminuição das emissões de CO2 na atmosfera, que é um dos principais gases intensificadores do efeito estufa.

 

 

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Entrevistas

MARCOS TERENA

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De filho pródigo à liderança internacional, o índio, piloto e cacique Marcos Terena, tornou-se um líder respeitado e o ponto de equilíbrio entre autoridades brancas e os povos indígenas.

O índio, piloto e cacique Marcos Terena é uma liderança respeitada internacionalmente e o ponto de equilíbrio autoridades brancas e os povos indígenas. Terena tem uma de luta, de diálogos e de fé.
Voltemos no tempo. Em 1990, o jornalista Zózimo Barroso do Amaral deu em sua coluna do Jornal do Brasil uma nota, com o título “Procura-se” dizendo que o líder indígena Marcos Terena acabara de ser demitido da Funai, onde era piloto – mesmo tendo entrado em avião só como passageiro e morrendo de medo.
Foi na resposta de Marcos Terena ao JB, que se conheceu o valor, a grandeza, a altivez e a dignidade de um índio. Escreveu ele ao JB:
“Sou um dos 240 mil índios brasileiros e um dos seus interlocutores junto ao homem branco. Quando ainda tinha nove anos, fui levado a conhecer o mundo. Era preciso ler, escrever e falar o português. Um dia a professora me pôs de castigo, não sabia por quê, mas obedeci. Fiquei de frente para o quadro negro, de costas para a sala. Quando meus colegas entraram, morreram de rir. Não sabia o motivo, mas sentia-se orgulhoso por fazê-los rir. Eles riam porque descobriram meu segredo: meu sapato não tinha sola, apenas um buraco, amarrado por arame. Naquele momento, sem querer, acabei descobrindo o segredo do homem civilizado: suas crianças não eram apenas crianças. Apenas uma palavra as separava das outras crianças: pobreza.” 
E Terena continua sua carta:
“Um dia me chamaram de “japonês”. Decidi adotar essa identidade. E fiz isso por 14 anos.” 
Foi passando por japonês que Marcos Terena conseguiu estudar, entrar para a FAB, aprender a pilotar. Veio para Brasília. Deixou de ser japonês para voltar a ser índio. Ai descobriu que era “tutelado”. Mais: como tinha estudo, começou a explicar a lei para seus companheiros de selva. “Expliquei – diz ele – e fui acorrentado. Pelos índios, como irmãos. Pela Funai, como subversivo da ordem e dos costumes”. Veio o drama: continuar sendo branco-japonês e exercer sua profissão de piloto, ou voltar a ser índio, mesmo sendo subversivo. Marcos Terena era o próprio filho pródigo. Sabia ler, escrever, analisar o mundo, entender outras línguas. Mas, como índio, recebeu um castigo dos tutores da Funai: não podia exercer sua profissão, pilotar. Só depois de muita luta, recebeu seu brevê do Ministério da Aeronáutica. A carta de Terena ao JB continua. É linda. Uma lição! Quando publicada, mereceu uma crônica especial da Acadêmica Rachel de Queiroz.
E Terena, ao concluir sua carta, lembrou ao jornalista: “Não guardo rancores pela nota. Foi mais uma oportunidade de fazer valer a nossa voz como índio. Gostaria apenas que o jornalista inteirasse dessas informações todas e soubesse de minha vontade em tê-lo como amigo”. 
Respeitado por índios e brancos, sulmatogrossense de Taunay, Marcos Terena, 66 anos, maior líder do Movimento Indigenista Brasileiro – é um exemplo. Seu nome, sua obra e sua luta se confundem com a própria natureza: rica, dadivosa, exuberante, amiga e fiel.
CINCO BRANCOS E CINCO ÍNDIOS DE VALOR
1 – CINCO HOMENS BRANCOS QUE SOUBERAM OU SABEM VALORIZAR A CULTURA INDIGENISTA?
TERENA – O Marechal Cândido Rondon, o antropólogo Darcy Ribeiro, o escritor Antônio Callado, o cantor Milton Nascimento e o sertanista Orlando Villas Boas.
2 – QUAIS OS CINCO ÍNDIOS MAIS IMPORTANTES NA HISTÓRIA BRASILEIRA?
TERENA – Cacique Cunhambebe, da Conferência dos Tamoios; Cacique Mário Juruna, dos Xavantes; Cacique Raoni, dos Txucarramãe, Cacique Quitéria Pankararue; e Cacique Marcolino Lili, dos Terena.
3 – A POLÍTICA É UMA ARMA PARA SE FAZER JUSTIÇA OU UM CAMINHO MAIS FÁCIL PARA ENCOBRIR INJUSTIÇAS?
TERENA – O poder legislativo é um pêndulo necessário entre os três poderes. Mas a única participação que tivemos foi do Deputado Mario Juruna, eleito pelo voto do RJ. O ideal seria assegurar algumas cadeiras no Senado e na Câmara aos diversos setores sociais, como uma verdadeira “assembleia do povo brasileiro” e não somente aos sindicatos organizados ou aos cartéis dos ricos e poderosos.
POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE
4 – NAS SUAS CONTAS, QUAL A POPULAÇÃO INDÍGENA HOJE NO BRASIL?
TERENA –  Já fomos mais de 5 milhões, com 900 povos. Hoje estamos em fase de reorganização e crescimento já beirando os 530 mil em aldeias, e depois dos eventos nacionais e internacionais de afirmação outros 500 mil em centros urbanos, com mais de 300 sociedades e 200 línguas vivas em todo o Brasil.
5 – AS MISSÕES RELIGIOSAS QUE ATUAM NAS ÁREAS INDÍGENAS SÃO BOAS OU RUINS?
TERENA – As missões religiosas sempre foram a parte a abençoar os primeiros contatos com os indígenas. Elas foram criadas para gerenciar os mandamentos bíblicos e cristãos, mas no caso indígena cometeram um grande pecado. Consideraram os índios como pecadores e sem almas por não usarem roupas e não terem a mesma fé dos brancos. Isso foi ruim pois sempre respeitamos de forma sagrado o Grande Espírito.
6 – OS ÍNDIOS JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA OS PORTUGUESES (MOTIVO DE FINANCIAMENTO DE NOVAS EXPEDIÇÕES, POIS O MUNDO CATÓLICO TINHA QUE SALVAR ALMAS) JÁ SERVIRAM COMO MARKETING PARA CANTORES DE ROCK, PARA ONGS, PARA CANDIDATOS E PARA GOVERNOS. ÍNDIO É UM BOM MARKETING?
TERENA – Índio é uma marca muito boa, porque índio é terra, é ecologia, é bem viver. Isso não foi usado só por artistas da mídia, mas por fabricantes de joias, de produtos de beleza, de comida e medicina alternativas. Geralmente isso não traz nenhum retorno para nossa causa, basta ver o descaso como a Funai é tratada dentro do Governo e, com ela, os índios.
7 – QUEM PENSA GRANDE E QUEM PENSA PEQUENO NA FUNAI?
TERENA – Os índios pensam de forma ampla porque pensam nas suas terras, nos seus ecossistemas como fonte para o futuro do país. Em compensação os últimos presidentes da Funai foram passivos, paternalistas e incompetentes para a promoção dos valores indígenas e da própria instituição como empoderamento étnico, institucional e fonte de respostas para o País e para o mundo.
SONHO: DEMARCAÇÃO E CÁTEDRA ÍNDÍGENA
8 – JURUNA FOI UM LÍDER ELEITO PELO HOMEM BRANCO. VALEU, PARA OS ÍNDIOS, ESSA EXPERIÊNCIA PARLAMENTAR?
TERENA – A lembrança de Mário Juruna é um marco na história dos Povos Indígenas. Como Cacique foi o maior dos últimos tempos, sendo respeitado pelas autoridades brasileiras por sua forma de ser, mas como Parlamentar não foi bem assim. Houve falta de assessoria suficientemente hábil, para sua reeleição por exemplo, para abrir portas para novos valores indígenas, até hoje…
9 – QUAL O GRANDE SONHO DA FAMÍLIA INDIGENISTA PARA O ANO 2020?
TERENA – A demarcação de todas as terras. Cumprir a Constituição e não rasgá-la como querem alguns parlamentares como a bancada ruralista; eleger o maior número de vereadores e prefeitos índios; criar uma Cátedra Indígena com um perfil de Universidade Intercultural, e transformar a Funai num Ministério do Índio, e inovar nas relações com os poderes públicos, nomeando indígenas para esses cargos, pois eles existem.
10 – RELIGIÃO: O HOMEM BRANCO NÃO RESOLVEU SEUS PROBLEMAS COM A RELIGIÃO QUE TEM, MAS ACHA QUE DEVE LEVAR SUA RELIGIÃO PARA OS ÍNDIOS. O QUE ACHA DISSO?
TERENA – Os índios creem em Deus, o grande Criador. Muitas aldeias já aderiram aos costumes cristãos, tendo inclusive pastores e sacerdotes indígenas, que rezam e cantam na língua nativa. Acho que acima de tudo, Deus tem um plano para os índios. Ajudar o homem branco a conhecer o verdadeiro Deus, que fez os céus, a terra e a água, onde estão as fontes de sabedoria, de respeito às crianças e aos velhos, e dos alimentos e medicamentos do futuro. Lamentamos muito que em nome da Paz e do seu Deus, o homem branco continue matando.
11 – O QUE O ÍNDIO ESPERA DA CIVILIZAÇÃO, DO HOMEM BRANCO DE HOJE?
TERENA – Na verdade, agora estamos mais especializados em assuntos do branco, percebemos uma grande carência de metas e ideais que não dependem apenas de dinheiro ou poder. A sociedade do novo Milênio se perdeu entre as novas tecnologias e está gerando uma sociedade sem velhos e jovens, onde a Mulher por ser Mulher, poderá ser o equilíbrio, a tábua de salvação dos valores sociais, interétnicos, econômicos e religiosos. Um governo que defende o armamento de sua sociedade não está a favor do bem estar de seu Povo e sim dos interesses das indústrias de armas e guerras. O índio brasileiro não aceita ser parte da pobreza, mas quer mostrar que podemos ajudar, contribuir, mas dentro de um respeito mútuo.
“POSSO SER O QUE VOCÊ É, SEM DEIXAR DE SER QUEM SOU!”
12 – SUA LUTA É PROVAR QUE A DIFERENÇA CULTURAL É FATOR DE DISCRIMINAÇÃO QUANDO DEVERIA SER FATOR DE UNIÃO PELA PLURALIDADE ÉTNICA. VOCÊ CONSEGUE PASSAR ESSA MENSAGEM?
TERENA – Eu tive oportunidade de nascer em uma pequena aldeia, de estudar sem qualquer apoio ou cotas, e mesmo com a discriminação poder chegar a fazer um curso de aviadores na FAB. Aprendi muito com os valores militares. Tenho uma profissão rara, que é pilotar aviões. Outros índios não tiveram essa oportunidade. Muitos cansados, desiludidos voltaram para suas Aldeias para formar um novo espírito de lideranças tradicionais, religiosas e políticas. Mas no novo Milênio é impossível aceitar quaisquer argumentos que nos isolem das oportunidades, por isso quando começamos o movimento indígena nos anos 80, buscamos aliados para trocas de ideias dos nossos valores e da sociedade como um todo, organizando os índios, debatendo com mestres da Antropologia, da CNBB, da OAB, da SBPC, envolvendo artistas e personalidades – tudo isso ajudou a sermos melhores compreendidos. Ajudou-nos a levar uma nova mensagem aos brasileiros: “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou!”
CULTURA FORTE, MAS ECONOMIA FORTE
13 – OS ÍNDIOS PARECIS SÃO HOJE GRANDE PRODUTORES RURAIS. FAZEM DUAS SAFRAS POR ANO DE SOJA, MILHO, GIRASSOL E OUTROS PRODUTOS. TRÊS MIL ÍNDIOS FAZEM MAIS DE R$ 50 MILHÕES COM O AGRONEGÓCIO. TEM ÍNDIO PILOTO DE COLHEITADEIRA, AGRÔNOMO E TEM ÍNDIO ESPECIALISTA EM MERCADO. FUNAI E IBAMA CRIAM TODAS AS DIFICULDADES BUROCRÁTICAS A ELES. O QUE VOCÊ ACHA DISSO?
TERENA – Temos que olhar com desconfiança tudo que é mágico. Se todos os agricultores fossem plantar soja para ficarem ricos, não haveria pobreza e fazendeiros endividados com bancos e credores. Teríamos condições de plantar soja, mas também seguir os princípios indígenas de gerar a segurança alimentar familiar. O Agronegócio não funciona assim. Por outro lado, os irmãos indígenas estão se empenhando em fazer a sua parte, que é demonstrar sua inteligência no manejo com a terra e sua força de trabalho. Ainda não sabemos como foram feitos os acordos financeiros das partes envolvidas.
14 – VOCÊ ACHA QUE O GOVERNO ESTÁ MEIO INDECISO?
TERENA – O Ministério da Agricultura do governo Bolsonaro tem demonstrado sua contradição interna. Alguns assessores de alto nível emitem sons de discriminação histórica e até de ódio. Então como acreditar fielmente que esse Ministério é um aliado. Seria um marketing ou seria a reformulação do Anhanguera quando mentiu para os antigos donos dessas terras, ao ameaçar por fogo em todos os rios, ao acender um fogo com aguardente? O mais estranho é que os órgãos de fiscalização e controle e defesa dos povos indígenas como a FUNAI e o IBAMA, estão sendo descontruídos como tais, mas felizmente isso não acontece com o Ministério Público Federal, que certamente dará um norte nos encaminhamentos futuro.
De toda forma, sempre defendo a livre determinação dos Povos Indígenas, a começar pela demarcação territorial, com cultura forte, mas economia forte também.
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