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Recursos Hídricos para Paz

Segurança Hídrica para a Paz e o Desenvolvimento

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Para o Dia Mundial da Água, a ONU sempre defende soluções para problemas hídricos baseadas na natureza e alerta para a questão da água nas mudanças climáticas. Para este ano de 2021, a ONU adiou o 9º Fórum Mundial da Água a ser realizado em Dakar, Senegal, para 2022. O tema proposto é “Segurança Hídrica para a Paz e o Desenvolvimento”.

 

O QUE SIGNIFICA?

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), Segurança Hídrica consiste em “assegurar o acesso sustentável à água de qualidade, em quantidade adequada à manutenção dos meios de vida, do bem-estar humano e do desenvolvimento socioeconômico, além de garantir proteção contra a poluição hídrica e desastres relacionados à água. A segurança hídrica significa preservar os ecossistemas em um clima de paz e estabilidade política. Promover a segurança hídrica é contribuir com a manutenção da vida e deve ser o foco principal daqueles que realizam a gestão dos recursos hídricos, assim como de toda a sociedade. A garantia da existência de água em quantidade e qualidade para o abastecimento humano em situações de seca, estiagem ou desequilíbrio entre a oferta e a demanda é a grande preocupação dos dias atuais.

Para melhor explicar todas as nuances que envolvem a segurança hídrica, vale acompanhar entrevista com o professor Raymundo Garrido, ex-Secretário Nacional dos Recursos Hídricos, professor da Universidade Federal da Bahia e membro da Academia Francesa da Água.

 

RAYMUNDO GARRIDO – ENTREVISTA

(Esta entrevista, originalmente, foi publicada na FMA de março de 2015. Dada a importância do tema, voltamos a republicá-la com a devida atualização do entrevistador e entrevistado. SG)

 

RAYMUNDO GARRIDO: “A segurança hídrica representa a garantia de muitos setores de atividades porque água é um bem natural que não tem substituto”.

 

Folha do Meio – Qual o conceito de segurança hídrica?

Raymundo Garrido – De acordo com as Nações Unidas, segurança hídrica é a capacidade de uma sociedade ter acesso garantido à água em quantidade e qualidade adequadas à sua subsistência, a seu bem estar e ao desenvolvimento socioeconômico. E mais: assegurada a proteção contra a poluição dos corpos d’água, desastres ambientais no meio hídrico, e operando em favor da preservação dos ecossistemas em um clima de paz e estabilidade.

Conforme se percebe, trata-se de um requisito essencial à qualidade de vida, pois sem água não há vida, e o desafio da segurança hídrica depende de fatores multivariados.

 

 “Não se pode abrir mão da mais absoluta segurança hídrica. A produção de alimentos básicos da lavoura e o atendimento no abastecimento dos grandes centros urbanos tem na segurança hídrica uma solução que precisa ser urgente e redundante. “

 

 

FMA – Que fatores são esses?

Garrido – Os fatores que concorrem para a segurança hídrica povoam os mais diversos campos da atividade e do conhecimento humanos, alguns dos quais se situam fora do ambiente da água propriamente dito. Eles vão desde os aspectos biogeofísicos e químicos inerentes à água, passando por questões institucionais, financeiras, sociais e políticas e estendendo-se aos campos de aplicação do conhecimento teórico das ciências econômicas, da sociologia, do direito, da biologia, e da engenharia, em particular da engenharia de infraestruturas.

Abrangem, ainda e sobretudo, facetas do comportamento humano uma vez que segurança hídrica em grande medida depende do uso racional da água, algo que países como o Brasil, que tem uma Amazônia a oferecer água em fartura, ainda não incorporaram plenamente. Mas o que é importante destacar é que a segurança hídrica representa a segurança de muitos setores de atividades porquanto o elemento água raramente encontra substituto para cumprir seu papel.

 

ESGOTO E A PANDEMIA DA COVID-19

 

FMA – O que se pode afirmar em relação à Segurança Hídrica em um mundo com a pandemia da COVID-19?

Garrido – O conhecimento sobre o coronavírus e seus efeitos nocivos está sendo desvendado na medida em que a terrível dizimação de seres humanos é combatida. Convém levar em conta, desde já, que o problema está presente no saneamento, principalmente pela condição que têm a água e os efluentes domésticos de veicularem enfermidades de toda a natureza. Pesquisas estão em curso em alguns países buscando-se medidas preventivas que devam ser consideradas desde a fase de projetos de infraestrutura hídrica, passando pela fase de operação dessas infraestruturas, e estendendo-se a medidas de natureza corretiva para solucionar situações em que os efeitos deletérios do vírus já se tenham concretizado. Como atenuante, é razoável considerar que as vacinas poderão, em prazo não curto, erradicar ou pelo menos minimizar o problema.

 

FMA – Tem exemplos desses raros casos de substitutos da água?

Garrido – Quando a produção de energia hidroelétrica é substituída pela térmica, a vazão necessária de água é expressivamente menor, pois as usinas térmicas requerem água apenas para a produção de vapor d’água e para promover a refrigeração dos condensadores.

É claro que sob o ponto de vista da preservação ambiental a energia térmica é menos desejável do que a hidroelétrica devido às emissões atmosféricas que produz. Entretanto, quando a escassez de águas superficiais é incontornável, a saída mais usual é a usina térmica.

Um outro exemplo é o transporte hidroviário que pode ser substituído por outra modalidade de transporte quando as vias navegáveis têm seus níveis rebaixados aquém do calado das embarcações, ou quando secam totalmente, caso em que o transporte de pessoas e cargas pode ser feito alternativamente por outros modais, principalmente a rodovia no caso do Brasil, apesar de o transporte rodoviário ser agressivo ao meio ambiente, o que não ocorre com a navegação.

Em mais um exemplo, as atividades de lazer e turismo encontram sucedâneas que independem do fator água. Seria, por exemplo, o lazer e turismo voltados para aspectos históricos da região (monumentos e museus), parques de diversões, entre outras possibilidades de substituição da água. Aí estão três dos raros casos em que a água pode ser substituída localmente.

 

“A irrigação ainda vai crescer muito. Esta necessidade implica observância à segurança hídrica, principalmente porque, entre os usos múltiplos da água, a irrigação é o que exerce a maior demanda.”

 

 

FMA – Mas, os bens que dependem da água não podem ser trazidos de outras regiões?

Garrido – Claro, o acesso a bens cuja produção dependa da água pode se dar por meio da importação, doméstica ou tendo como origem outros países. Sempre que importa um bem qualquer, a região está fazendo uso de água virtual, isto é, a que está embutida no processo de produção das mercadorias que vêm de fora.

Entre os usos múltiplos da água em nosso País, aquele que tem condições de fazer a substituição deste recurso natural mais imediatamente é o de geração de energia elétrica, pois o sistema brasileiro é interligado em grande medida, e a energia que é consumida em uma região pode ter sido produzida em uma bacia hidrográfica distante. Aliás, a operação do Sistema Interligado Nacional está fazendo com que, a todo momento, bacias hidrográficas estejam intercambiando energia elétrica.

Na estratégia da segurança hídrica para qualquer dos usos da água devem ser exploradas todas as possibilidades de conexão das regiões para que a á água esteja presente onde necessária for, em quantidade e qualidade.

 

FMA – Em que casos a segurança hídrica é mais necessária?

Garrido – Há algumas situações em que não se pode abrir mão da mais absoluta segurança hídrica. Uma dessas situações, já mencionada, é a produção de alimentos básicos da lavoura, o que diz respeito principalmente ao meio rural. A justificativa nesse caso é óbvia: alimento é bem de primeira necessidade que responde pela segurança alimentar. Uma segunda situação diz respeito às aglomerações urbanas que, quanto maiores forem, tanto maior será a necessidade de segurança hídrica.

 

FMA – Por partes, primeiro da segurança hídrica no campo. O que precisa ser feito?

Garrido – Aumentar a produtividade agrícola decerto é algo que deve continuar sendo feito. Nos últimos 30 anos, Brasil conseguiu incrementar a produção em cerca de 235% (3,35 vezes mais) com um aumento da área plantada de apenas 50%, o que significa que a maior parte deste crescimento deveu-se a aumento de produtividade. Sucede que a agricultura de sequeiro ainda ocupa uma área dez vezes maior do que a irrigada, o que significa que a irrigação ainda terá que crescer. Esta necessidade implica observância à segurança hídrica, principalmente porque, entre os usos múltiplos da água, a irrigação é o que exerce a maior demanda.

A agricultura irrigada ocupa 6,48 milhões De hectares (dado de 2020) quando o País dispõe de cerca de 30 milhões de hectares irrigáveis. É preciso, portanto, que o Brasil esteja preparado para dar segurança hídrica à irrigação, o que remete o problema ao planejamento do uso da água nas bacias hidrográficas com potencial para irrigar. É claro que há requisitos outros envolvidos com o problema, mas que não são o foco do tema que estamos discutindo. Entre esses outros requisitos, alinham-se o suprimento de energia para atender às infraestruturas de irrigação, as facilidades para o escoamento da produção, o apoio ao pequeno irrigante. Temos que pensar também no uso racional da água, pois o Brasil ainda desperdiça água na irrigação, apesar dos avanços recentes da gestão de recursos hídricos que já aplica inclusive a cobrança pelo uso da água para irrigar.

 

FMA – Mas você não falou de mercado consumidor.

Garrido – De fato. Não se pode também de cogitar produzir nada sem informações seguras sobre a demanda dos produtos. Essa simples regra se aplica a todos os ramos de negócio, mas a maior parte das cultivares são bens de primeira necessidade, o que significa a existência permanente de demanda. Alguns grandes números podem dar uma ideia da pujança dessa demanda. Estudos especializados indicam que a produção mundial de alimentos precisa crescer 50% até o ano de 2050 para fazer face à demanda estimada.

Cerca de 75% desse aumento, isto é, 37,5% serão produzidos nos BRICS, especialmente pelo Brasil e África Subsaariana.

Essa é a matriz da demanda versus oferta. Ao ser desenvolvida a referida matriz, pode-se ter uma ideia da produção esperada do Brasil e de cada uma de suas regiões, informação que tem rebatimento direto sobre a quantidade de água de que precisaremos por unidade de tempo. Arrisco afirmar que, no Brasil, a vazão disponível total em distância economicamente viável das terras irrigáveis e com diferenças de cotas topográficas dentro de limites exequíveis é menor do que a demanda de água. Disso resulta necessário que se busque também a produtividade no uso da água de irrigação.

 

FMA – Passemos ao meio urbano. Como você analisa a crise da água na Região Metropolitana de São Paulo em relação à segurança hídrica?

Garrido – A gravidade da falta de água no meio urbano é diretamente proporcional à densidade demográfica e ao nível de desenvolvimento de cada cidade. Isso significa que o problema em aglomerações metropolitanas, principalmente em uma das maiores megalópoles do mundo que é São Paulo, é muito mais grave. É insustentável! São Paulo capital depende acentuadamente de três dos oito sistemas de abastecimento que lhe atendem.

Em 2015, portanto não muito distante de hoje, no tempo, dos 72,70 m3/s de água potável então distribuídos, 33,00 m3/s estavam concentrados no Sistema Cantareira que aduz água das bacias do PCJ (Piracicaba-Capivari-Jundiaí), e outros 29,00 m3/s eram aportados pelos sistemas Alto-Tietê (15,00 m3/s) e Guarapiranga (14,00 m3/s).

Os restantes 10,70 m3/s provinham dos sistemas Rio Grande (4,50 m3/s), Rio Claro (4,00 m3/s), Alto Cotia (1,20 m3/s), Baixo Cotia (0,90 m3/s) e Ribeirão da Estiva (0,10 m3/s).

 

 

FMA – Explique melhor este conceito de resiliência urbana.

Garrido – Resiliência é a capacidade de um corpo físico qualquer retornar à condição original tão logo cessem os esforços externos que o deformaram. O conceito é estendido ao meio urbano. A resiliência urbana é, portanto, a capacidade de uma cidade ter de volta a normalidade de sua vida quando sujeita a uma ocorrência desfavorável como grandes acidentes, falta de utilidades urbanas como luz e força elétricas, água potável, gás, condições normais de tráfego, entre outras.

 

FMA – O reúso estaria compensando em 50% a escassez do sistema de abastecimento pelo maior dos sistemas que atendem à Região Metropolitana.

Garrido – Perfeito! Se os esgotos estivessem sendo tratados em sua totalidade, o custo da potabilização da água do próprio tecido urbano e de suas cercanias seria significativamente menor, afora a redução do custo com a adução de água que vem de muitos quilômetros de distância. Um dos sistemas novos (São Lourenço – ETA-Cotia) já aduz água por meio de 85 km de adutoras, além de um túnel de 1,1 km para vencer a serra e de uma passagem subterrânea pela rodovia Raposo Tavares.

Cada vez mais está se buscando água de mananciais mais distantes. Esse distanciamento excessivo do manancial em relação ao centro de consumo opera, em última análise, contra os requisitos da segurança hídrica, além de ser pelo menos duas vezes mais oneroso e gerar mais efluente a ser tratado do que se se fizesse o reúso.

 

FMA – E quanto às perdas de água nas redes de distribuição?

Garrido – Terrível! Perder água tratada é perverso. Um grande problema. A Sabesp está envidando esforços para reduzir essas perdas, mas o percentual ainda é muito elevado. Não disponho de números atuais, mas o Índice Geral de Perdas Físicas na RMSP era de 25,5%, dado de trabalho técnico publicado tendo como fonte a Diretoria Metropolitana da própria Sabesp.

Para se ter uma ideia, a cidade de Denver (EUA) só perde 6%, Madrid (12%). A média japonesa, isso em todo o país, ainda é inferior à de Denver. Esses exemplos têm que ser paradigmas para nós.

 

FMA – E como buscar esses paradigmas?

Garrido – Pelo conjunto de medidas que mostramos aqui. Tudo associado a programas de educação ambiental voltados para o uso da água, além dos estímulos, como prêmios pela economia de água e desestímulos, como multa pelo desperdício, são ingredientes que contribuem para a resiliência urbana em face da escassez de água. Portanto, fatores de segurança hídrica nas cidades.

 

FMA – Até esta altura, conversamos sobre segurança hídrica para a segurança alimentar e para o meio urbano. E a segurança hídrica para a produção de energia?

Garrido – Tratar do tema da energia é importante neste contexto de segurança hídrica, pois a redução das precipitações que afeta o abastecimento afeta, também, os reservatórios das barragens geradoras. No Brasil, onde a energia elétrica é predominantemente de fonte hidráulica, esta relação é biunívoca, ou seja, a água é fator de produção de energia e a energia é fator de produção da água.

Há bacias onde a geração hidroelétrica compete acirradamente com a irrigação e/ou com outros usos da água, exigindo um planejamento meticuloso que dê segurança hídrica, ou que indique as limitações da bacia para o conjunto de todos esses usos.

 

Mapa-mundi do risco de segurança hídrica. Quanto mais escura for a cor, tanto maior é o risco.

 

FMA – E como resolver esta competição?

Garrido – Para resolver esta competição, um dos caminhos é pelo sistema de preços da cobrança pelo uso da água. Sucede que a legislação determinou que o preço pelo uso da água para a geração hidroelétrica ficasse descolado da economia da bacia, atrelando-o ao valor comercial da energia, dado pela Tarifa Atualizada de Referência (TAR), um indicador interno ao setor elétrico, o que distorce a precificação na bacia, pois retira a demanda de água para a referida geração do confronto com as demandas dos outros usos.

Entendo tratar-se de um ponto que precisa ser melhor analisado, pois quando um recurso se torna escasso, é à lei da procura e da oferta que precisa ser submetido o conjunto de todas as demandas e este princípio é aplicável à bacia hidrográfica também.

 

 

No Brasil, onde a energia elétrica é predominantemente de fonte hidráulica, esta relação é biunívoca. Á água é fator de produção de energia e a energia é fator de produção da água.

 

 

FMA – Situe o Brasil neste contexto de segurança hídrica.

Garrido – O tema da segurança hídrica já está presente na agenda brasileira há vários anos, tendo feito parte, ainda que incipientemente, dos debates que conduziram à edição das leis federais 9433/1997 (Lei das Águas) e 9984/2000 (Lei de criação da ANA). Ele veio a se materializar por meio do Plano Nacional de Segurança Hídrica que se ocupa em acompanhar e implementar ações para reduzir ou eliminar a vulnerabilidade hídrica das bacias. Está na alçada da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico como instância implementadora, e do Ministério do Desenvolvimento Regional como instância formuladora, com um vasto programa de ações para o horizonte temporal de 2035, decomposto em três segmentos:

– Estudos e projetos; obras e outras formas de intervenções físicas; e componente institucional.

Vale lembrar que o Brasil, no que se refere à segurança hídrica, ostenta uma condição favorável que é o fato de ser um dos países mais ricos do mundo em águas doces. A Maplecroft, empresa especializada em avaliar risco, classificou o Brasil, há poucos anos, entre os mais estáveis em termos de segurança hídrica, com uma pontuação igual a 148, abaixo apenas da Islândia (165), Noruega (164). Nova Zelândia (163), e logo acima da Inglaterra (144).

 

FMA – Como é feito o cálculo desse índice?

Garrido – O cálculo é feito com base nos requisitos operacionais e de investimento de empresas multinacionais, avaliando quatro áreas-chave que se relacionam com a água.

No caso, são avaliados o grau de acesso a água e serviços de saneamento de qualidade adequada; a disponibilidade de fontes renováveis de água e a confiabilidade do suprimento externo, além da relação entre a disponibilidade e a demanda de água, e da dependência da economia do país em relação aos recursos hídricos.

Para concluir, vale lembrar que as boas práticas na gestão dos recursos hídricos, como, por exemplo, o reúso da água e a recorrência a obras de transposições de bacias, vão fazer com que a pontuação brasileira sobre segurança hídrica se torne ainda mais elevada.

 

 

 

 

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CAATINGA, A MATA BRANCA

O bioma totalmente brasileiro

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Diferente da Amazônia, do Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa, a Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro com plantas e animais adaptados ao clima da região. O nome desse conjunto de ecossistemas é de origem tupi-guarani, caa: mata e tinga: branca, e se refere ao aspecto da vegetação no período de seca.

 

 

CARACTERÍSTICAS DA CAATINGA

  • Clima tropical semiárido com temperaturas elevadas;
  • Vegetação rasteira, com poucas folhas, galhos retorcidos e espinhos;
  • Fauna e flora adaptadas aos longos períodos de estiagem;
  • Apresenta plantas nativas, como facheiro, mandacaru e xique-xique;
  • Seu solo é raso, pedregoso, com pouca matéria orgânica e relativamente fértil.

 

VEGETAÇÃO DA CAATINGA

Nas áreas mais planas, onde o solo é raso e pedregoso, encontram-se as árvores de pequeno porte, como arbustos e cactos. Em regiões mais altas, pela umidade ser maior, é possível encontrar mata fechada.

  • A vegetação da Caatinga pode ser dividida em três grupos principais:
  • Arbóreo: árvores com 8 a 12 metros de altura;
  • Arbustivo: vegetação com 2 a 5 metros de altura;
  • Herbáceo: vegetação com menos de 2 metros de altura.
  • Plantas xerófilas são características da Caatinga, pois são adaptadas ao clima semiárido, ou seja, à aridez do solo e à escassez de água.

 

 

A FAUNA DA CAATINGA

A vida no bioma se estabeleceu de forma peculiar e bastante diversificada. Formigas e abelhas desempenham um importante papel no bioma, pois são os agentes disseminadores de sementes e polinizadores. O tráfico de animais é um dos principais problemas enfrentados na Caatinga e um dos maiores responsáveis pela ameaça à extinção de espécies. São exemplos de espécies do bioma:

  • Asa-branca (Patagioenas picazuro)
  • Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous)
  • Cutia (Dasyprocta Aguti)
  • Onça-parda (Puma concolor)
  • Periquito-da-caatinga (Eupsittulacactorum)
  • Preguiça-de-chifres (Stenocercus sp. n.)
  • Sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus)
  • Tatu-bola (Tolypeutes tricinctus)

 

 

Xique-xique é uma espécie de cacto comum na Caatinga

 

FLORA DA CAATINGA

Mesmo com um ambiente adverso, muitas plantas desenvolveram-se na Caatinga e para isso desenvolveram algumas peculiaridades. Cascas grossas, espinhos, folhas pequenas, galhos retorcidos e raízes tuberosas são características típicas da flora. São exemplos de espécies do bioma:

  • Cacto (Cactaceae)
  • Catingueira (Caesalpinia pyramidalis)
  • Facheiro (Pilosocereus pachycladus)
  • Juazeiro (Ziziphus joazeiro)
  • Mandacaru (Cereus jamacaru)
  • Palma (Opuntia cochenillifera)
  • Umbuzeiro (Spondias tuberosa)
  • Xique-xique (Pilocereus gounellei)

 

 

 

 

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A HISTÓRIA DO MARCO DA PEDRA FUNDAMENTAL

RELATÓRIO DA VIAGEM PARA CONSTRUÇÃO DO MARCO DA INDEPENDÊNCIA ou PEDRA FUNDAMENTAL DE BRASÍLIA

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O QUE ESTÁ ESCRITO NO “COFRE” DE PROTEÇÃO.

 

Após o Relatório Luiz Cruls (1892) que demarcou o a área de 14.400 km² para a futura capital no Planalto Central e a publicação do relatório em 1893 não houve grandes iniciativas no que diz respeito à construção e mudança da capital. O assunto voltou em 18 de janeiro de 1922, quando o presidente Epitácio Pessoa determinou o lançamento da Pedra Fundamental da Capital Federal no dia 7 de setembro do mesmo ano, em virtude ao Centenário da Independência.

 

Em 1922, sem estradas e ferrovias e com uma comunicação tão precária que os responsáveis pela construção do Marco da Pedra Fundamental de Brasília levaram oito meses para receber a ordem de construção. O decreto do presidente Epitácio Pessôa foi assinado em 18 de janeiro, mas a ordem presidencial só chegou aos responsáveis, em Araguari-MG em 27 de agosto.

 

O RELATÓRIO DE BALDUÍNO DE ALMEIDA

 

1 – Após o Relatório Luiz Cruls (1892) que demarcou o a área de 14.400 km² para a futura capital no Planalto Central e a publicação do relatório em 1893 não houve grandes iniciativas no que diz respeito à construção e mudança da capital.

 

2 – O assunto voltou em 18 de janeiro de 1922, quando o presidente Epitácio Pessoa determinou o lançamento da Pedra Fundamental da Capital Federal no dia 7 de setembro do mesmo ano, em virtude ao Centenário da Independência.

 

3 – O Brasil era um imenso vazio no Centro-Oeste. Prova disso, é que o decreto do presidente da República só chegou ao conhecimento do responsável pelo seu cumprimento, Engenheiro Balduíno Ernesto de Almeida, diretor da Estrada de Ferro de Goyaz, em 27 de agosto de 1922.

 

4 – Balduíno de Almeida tinha poucos dias cumprir as ordens. Ele ficava em Araguari-MG e só seis meses depois de assinado o decreto, recebeu uma comunicação do Inspetor Geral das Estradas de Ferro, Palhano de Jesus, transmitindo-lhe ordem do Ministro da Viação e Obras, José Pires do Rio.

 

5 – A ordem veio em forma de telegrama, dando-lhe a incumbência de implantar o marco da nova capital no quadrilátero demarcado pela Comissão Cruls: “Alli proximamente no lugar mais preconizado pela antiga commissão de demarcação Planalto fareis lançar pedra fundamental e fixar marco dia 7 Setembro ao meio dia”.

 

6 – O Brasil acabara de passar por eleições presidenciais, mas ainda governava Epitácio Pessoa (1919 – 1922), que seria sucedido, em novembro, por Arthur da Silva Bernardes (1922 – 1926).

 

7 – A construção do Marco foi feita por uma comitiva de trabalhadores da Rede Ferroviária liderada pelo Engenheiro Balduíno de Almeida, responsável também pelo projeto do monumento.

 

8 – A jornada do engenheiro Ernesto Balduíno começou em Araguari (MG), no dia 01 de setembro de 1922. Foi organizada uma caravana composta por 22 membros, que se dirigiram para Mestre d’Armas em nove automóveis (Ford Bigode) e seis caminhões, que transportaram 40 pessoas e todo o material necessário para erguer o obelisco no local. Seguiram pela ferrovia Mogiana, num trem especial, até o final da linha férrea localizada em Ipameri. No dia 02 de setembro a caravana deixou Ipameri e seguiu com destino a Mestre d’Armas. A viagem teve início às 5h da madrugada trilhando a primeira estrada de rodagem que adentrou o quadrilátero demarcado por Luiz Cruls, aberta um ano antes (1921) pela empresa Bevinhati, Salgado e Cia.

 

9 –  Relatório da missão: “Nas primeiras 7 horas foram percorridos apenas 20 km, com os caminhões estancando a cada momento, nas grandes rampas que tinham de vencer. No total, no primeiro dia de viagem, das 5h às 21h, foram vencidos apenas 76 km. No segundo dia, três de setembro, a caravana avançou mais 84 km até o cair do sol, quando chegou ao povoado de Cristalina”. Balduíno, que vinha à retaguarda, decidiu acossado pelo tempo, seguir à frente com os “Ford Bigode”, deixando os caminhões seguirem atrás da caravana. Tarde da noite, chegou ao arraial de Mestre d’Armas, fixado como referência e base dos trabalhos. Os caminhões chegaram à manhã do dia 5, e nessa mesma manhã o engenheiro Balduíno escolheu um local bem mais próximo: um promontório sobre o vale do rio São Bartolomeu, a apenas 8 km de Mestre d’Armas. Às 17 horas do dia 5, todo o material dos caminhões já estava descarregado no morro do Centenário. No dia 7, às 10 horas, estava pronto o monumento.

 

10 – A importância do lançamento da Pedra Fundamental de Brasília em 7 de setembro de 1922 – Centenário da Independência – vai além do simbolismo de um ideal “mudancista”.  Marcou também a reabertura da discussão sobre o sítio onde seria construída Brasília, cuja construção começou com JK 34 anos depois.

 

 

EM 7 DE SETEMBRO DE 2022 UMA NOVA COMEMORAÇÃO SERÁ REALIZADA PELOS 200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA.

 

 

MARCO GEODÉSICO E SELO DE PROTEÇÃO LEGAL

Ao lado do Marco da Independência e da Pedra Fundamental de Brasília está fincado no chão um “cofre” de proteção, como sendo uma medalha em metal, onde se pode ler:

 

DF 146

PROTEGIDO POR LEI

 

Fundação IBGE – IBG

 

Departamento de Geodesia e Topografia

 

A placa de bronze foi encomendada ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e enviada de trem até Araguari. A placa precisa ser restaurada.

 

 

 

A Pedra Fundamental está localizada a 9 km do centro de Planaltina no Morro do Centenário. O obelisco fica no Morro do Centenário a 1.033 metros de altitude e 47º39′ de longitude. Foi erguido para comemorar o Centenário da Independência em 7 de setembro de 1922. A escolha do local está relacionada à Missão Cruls e ao sonho de Dom Bosco, que previu o surgimento de uma civilização entre os paralelos 15° e 20°.

O obelisco tem forma piramidal de base quadrada com 3,75 m de altura, a contar das fundações. As suas faces estão orientadas pelos pontos cardeais. A Placa comemorativa está situada na face oeste, onde se lê:

 

“Sendo Presidente da República o Exmo. Sr. Dr. Epitácio da Silva Pessôa, em cumprimento ao disposto no decreto n.º 4.494 de 18 de janeiro de 1922, foi aqui collocada em 07 de setembro de 1922, ao meio-dia, a Pedra Fundamental da Futura Capital dos Estados Unidos do Brasil”

 

REVISITANDO O MONUMENTO

O local está limpo, apesar de ter um pouco de lixo espalhado nos arredores, mas a placa de identificação precisa ser restaurada por terem arrancado algum tipo de informação à sua esquerda. A pintura do monumento em si está descuidada, pois deixaram tinta branca sobre a placa de bronze que relata o evento de 7 de setembro de 1922.

 

O descuido também se pode ver no isolamento do Monumento, pois faltam apenas 2 quilômetros de asfalto para se encontrar o Marco. O fato é que, ao se preparar os 200 Anos da Independência do Brasil, em 7 de setembro de 2022, caberia um programa de revitalização e encantamento de toda área onde está inserida a Pedra Fundamental de Brasília e, quem sabe, preparar algum evento cultural para ser levado ao ponto geodésico do Brasil. Afinal, serão 100 anos da instalação da Pedra Fundamental de Brasília e 200 anos da Celebração da Independência do Brasil.

Cuidar da História e estudar o passado é essencial para plantar um futuro mais digno e vibrante para nosso país.

 

FOTOS DO MARCO DOS 100 ANOS DA INDEPENDÊNCIA

IMPORTANTE: Vale estudar imediatamente a criação do PARQUE DO CENTENÁRIO para preservar toda a área e evitar o retalhamento das terras por invasões, loteamentos, condomínios e abertura de pequenos sítios – o que já está acontecendo.

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ALYSSON PAOLINELLI, O LEGADO

Os seis tempos de uma História que mudou o Brasil

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Tenho comigo a certeza de que, se ganharmos o Nobel, quem ganhará será o Brasil, não é o Alysson Paolinelli. São os pesquisadores brasileiros. São os extensionistas e técnicos que nos ajudaram a montar políticas públicas.

 

PRIMEITO TEMPO – Em 10 de julho de 1936, nasce em Bambuí-MG, Alysson Paolinelli, filho do agrônomo Antônio Paolinelli. Ainda jovem, estuda e trabalha na fazenda da família. Depois, estudante na ESAL – Escola Superior de Agronomia de Lavras-MG, onde se formou. Tornou-se Diretor da ESAL e fez sua federalização.

 

SEGUNDO TEMPO – Em 1971, reestruturou a Secretaria da Agricultura de Minas, governo Rondon Pacheco. Em 1974, foi convidado por Ernesto Geisel para assumir o Ministério da Agricultura. Reformulou o Ministério e a agricultura brasileira.

A agricultura no mundo, sim, a Agricultura Tropical se divide em AP E DP –Antes e depois de Paolinelli.

 

TERCEIRO TEMPO – Por que este divisor de águas? Simples, por dois motivos:

1) Capitaneado por Alysson Paolinelli e sua esquipe o Brasil resolveu assumir um desafio e ser líder mundial nas tecnologias de produção da agricultura e pecuária tropical.

2) Porque o Brasil fez uma revolução verde, deixando de ter a mentalidade de colônia para procurar resolver seus problemas com suas próprias mãos.

 

QUARTO TEMPO – Alysson Paolinelli comandou uma equipe que fez o dever de casa: fortaleceu do sistema de pesquisa e crédito, incentivou a iniciativa privada a ocupar o espaço empreendedor e mostrou algo essencial: diferente do setor industrial, o trabalho com a terra é diferente de fabricar um produto industrial. Este, paga-se royalties e faz igual. Já fazer alguma tropical requer DNA próprio.

Uma coisa é fazer agricultura no clima temperado, em terras férteis, onde a neve elimina a maioria das pragas e ainda irriga o solo no degelo. Outra coisa é fazer agricultura em terras tropicais que precisa corrigir solo, produzir sementes selecionadas, fixar nitrogênio no solo, ter controle biológico de pragas e adaptar condições de plantio e colheita. Não há como copiar. E Alysson Paolinelli comandou uma equipe que fez isso.

 

QUINTO TEMPO – Vale lembrar o norte-americano Norman Borlaug, Prêmio Nobel da Paz de 1970, ao visitar com o presidente Geisel a Embrapa-Cerrados, em Planaltina, em 1979: “Presidente Geisel, seu governo pelo ministro Paolinelli deu uma lição ao mundo ao fazer a Revolução Verde Tropical. Transformou as terras do Cerrado em polo de produção agropecuária. O Brasil desenvolveu uma tecnologia tropical que vai salvar o mundo”.

 

SEXTO TEMPO – Em 2006, Alysson Paolinelli foi agraciado com o World Food Prize, nos Estados Unidos. Agora o Brasil apresenta-o para o Nobel da PAZ. A pandemia, que ainda persiste, já deixou uma lição: SEM COMIDA NÃO HÁ PAZ.

 

Em 1977, o ex-ministro Alysson Paolinelli, junto com a diretoria da Embrapa recebe o Prêmio Nobel da Paz 1970, Norman Borlaug.

 

O BRASIL, A AGROPECUÁRIA, A CIÊNCIA E O PRÊMIO NOBEL

Alysson Paolinelli: a ciência deve ser o indicador de onde mexer e onde preservar.

 

Nesta entrevista à jornalista MARIA AMÉLIA ÁVILA, Alysson Paolinelli, 85 anos, fala sobre sua vida profissional ligada à agropecuária e relata a emoção de ter sido indicado ao Nobel da Paz, na condição de protagonista de uma verdadeira revolução agrícola sustentável. Um total de 329 candidatos de todo o mundo concorrem à deferência, e o vencedor será conhecido em 8 de outubro.

 

Iniciado na década de 1970, o projeto de transformar o solo completamente infértil do Cerrado brasileiro em um dos mais produtivos do país foi uma espécie de aposta de vida para o engenheiro agrônomo mineiro Alysson Paolinelli. A iniciativa do ex-secretário de Estado da Agricultura de Minas e ex-ministro da pasta, cujo objetivo era fazer com que o bioma gerasse alimentos não só para o Brasil, mas para o mundo, tornou-se tão importante que concorre hoje ao Prêmio Nobel da Paz de 2021. Atualmente, os 1.102 municípios do Cerrado brasileiro produzem 46% da safra de soja do país, 49% do milho, 93% do algodão e 25% do café. Na pecuária, o bioma é responsável por 32% do rebanho de bovinos, 22% dos frangos e 22% dos suínos, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

ALYSSON PAOLINELLI – ENTREVISTA

 

Ana Amélia Ávila – Como o senhor recebeu a notícia da indicação para o prêmio? 
Alysson Paolinelli – Foi com muita emoção, porque a indicação partiu, principalmente, de velhos companheiros e amigos que trabalhamos juntos há mais de 40, 50 anos. Todos nós tínhamos um pressentimento de que o Brasil merecia o Prêmio Nobel da Paz. Não só porque nunca teve, mas muito mais voltado à alimentação, à garantia de suprimento alimentar ao mundo e, principalmente, que através do alimento nós sempre obtivemos a paz, a concordância e a união entre os povos. Meus companheiros de jornada acreditavam que precisaríamos de um nome e escolheram meu nome. É lógico que a emoção é muito forte. Tenho comigo a certeza que, se ganharmos, quem ganhará será o Brasil, não o Alysson Paolinelli. São seus pesquisadores; seus extensionistas; seus técnicos profissionais que nos ajudaram a montar políticas públicas; o produtor rural, fundamentalmente, que foi o grande artífice de toda essa revolução.

 

Livro lançado em São Paulo sobre a vida e obra de Alysson Paolinelli por iniciativa de Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, e com a coordenação de Ivan Wedekin. O livro traz o legado do ex-ministro e mostra o potencial da agropecuária brasileira.

 

 

A revolução agrícola sustentável é o grande projeto que representa sua indicação?

Sim, nós conseguimos, em tempo recorde, fazer uma mudança que o mundo não esperava. As regiões produtoras eram em áreas com clima temperado e com as quatro estações bem definidas. Só que a curva da população só crescia. Os estadistas perceberam que haveria um colapso na produção de alimentos. A curva da população crescia em escala geométrica e a da alimentação em escala aritmética. E essas curvas se cruzaram em 1968, quando os Estados Unidos, que eram o país que tinha toda a riqueza, toda capacidade de abastecer o mundo, foi a público dizer que não tinha mais estoques em seus silos e armazéns por mais seis meses, que era o tempo para plantar e colher a nova safra. Aí, a coisa apertou, porque os países tropicais, todos, éramos dependentes de alimentos vindo de lá. Era mais barato comprar lá do que produzir aqui. O mundo não tinha tecnologia para as regiões tropicais. As condições de clima, de solo, de fertilidade eram muito diferentes. Em 1974, O Brasil tentou achar onde existia conhecimento para se produzir umagricultura tropical, mas não existia no mundo. Nós precisamos desenvolver ciência, tecnologia e conhecimento, e foi isso que procuramos fazer ao desenvolver a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Com condição de governabilidade, com autonomia administrativa, técnica e financeira, onde ela pode mobilizar todas as competências nacionais, ou seja, da Embrapa, das universidades, das instituições estaduais de pesquisa e, principalmente, da iniciativa privada, todas trabalharam unidas para resolver esse problema. Era preciso criar uma nova agricultura. 

 

Quero garantir ao Brasil e ao mundo que nós não vamos fazer o que fez a Europa, o que fez a Ásia, o que fizeram os Estados Unidos, que arrancaram vegetações nativas e plantaram indiscriminadamente.

 

 

Por que foi escolhido o Cerrado?

O Cerrado era um solo infértil, velho; 500 mil anos mais velho do que as áreas que o mundo usava para o plantio no hemisfério temperado. Mas o governador Rondon Pacheco (1971/1975) permitiu que a Universidade de Lavras-MG fizesse uma pesquisa em relação ao Cerrado. O cerne do estudo era provar que ele seria produtivo se fosse trabalhado. A principal incógnita era se o custo desse trabalho, dessa modificação, seria viável ou não. Quando eu fui para o governo federal, como ministro da Agricultura, já estava convicto de que tinha solução. A equipe que trabalhou já havia apresentado resultados palpáveis. Com isso, fizemos um planejamento estratégico para o país fazendo a conta inversamente, ou seja, pegamos os valores em relação à importação que o Brasil fazia de alimentos à época e descobrimos que era um terço do que consumíamos.

 

E qual foi a conclusão?

Chegamos à conclusão de que precisávamos produzir, no mínimo, mais três milhões de hectares, com uma produtividade acima da que nós tínhamos. Esse era o grande problema! Sem profissionais treinados, não poderíamos fazer nada. Abrimos um concurso público para a Embrapa com mil vagas, mas só apareceram 52 com pós-graduação e contratamos o restante. Além disso, trouxemos das instituições estaduais de pesquisa mais 462 e demos às universidades que fizeram convênio conosco mais 100 vagas. Escolhemos os maiores centros de pesquisa do mundo com o objetivo de enviar esses profissionais para aprenderem novas técnicas. Foram para Europa, Japão, Estados Unidos com uma missão importantíssima. Ciência será aprendida lá, agora, tecnologia e inovação vão ser aplicadas no Cerrado brasileiro. Isso deu certo, essa foi a chave! Ao mesmo tempo, fomos obrigados a completar a estratégia. Criamos a Empresa Brasileira de Extensão Rural (Embrater) para fazer a transferência do conhecimento gerado para o produtor. Ciência isolada de meios de aplicação não faz desenvolvimento. Com isso, conseguimos do governo federal a garantia de produzir mais três milhões de hectares. Como em Minas Gerais nós já tínhamos feito a experiência e sabíamos que, para recuperar um hectare de Cerrado, custava US$ 1 mil, o recurso que nos foi reservado foi de US$3 bilhões. Aplicamos esse valor em cinco anos. Nesse período, o produtor brasileiro viu a Embrapa, junto com outras instituições de pesquisa, transformar uma área infértil em uma das áreas mais produtivas do país. E os produtores tiveram suporte para cercas, maquinários, sementes, energia elétrica, telefonia e toda a infraestrutura integrada para que ele pudesse exercer o seu papel de produzir eficientemente e comercializar seus produtos. Foi o maior programa de política pública agrícola que já houve no país.

 

Tenho comigo a certeza de que, se ganharmos o Nobel, quem ganhará será o Brasil, não o Alysson Paolinelli. São seus pesquisadores; seus extensionistas; seus técnicos profissionais que nos ajudaram a montar políticas públicas.

 

A revolução agrícola trouxe autossuficiência para o país… 
Nós tivemos a grata surpresa de ver em cinco anos o Cerrado produzir como os Estados Unidos. O brasileiro soube recuperar uma área que foi degradada por 500 mil anos. Um projeto nunca visto no mundo anteriormente. O mais interessante é que as vantagens comparativas dos americanos começaram a ser questionadas. Se lá eles fazem uma safra, aqui nós fazemos três por ano. Nós temos hoje tecnologia brasileira reconhecida mundialmente, como, por exemplo, a integração lavoura-pecuária-floresta, onde é feita doze meses por ano, em sucessão, três a quatro culturas, grãos, pasto para boi de corte e para pecuária leiteira e ainda a floresta que reequilibra tudo e absorve a sobra de carbono e incorpora no solo, coisa que os americanos não têm condições de fazer lá.

 

Agora a proposta é usar esse modelo em outros biomas brasileiros? 

Eu quero garantir ao Brasil e ao mundo que nós não vamos fazer o que fez a Europa, o que fez a Ásia, o que fizeram os Estados Unidos, que arrancaram toda as suas vegetações nativas e plantaram indiscriminadamente. O que eu quero aqui é que nós temos área suficiente em seis grandes biomas – Amazônico, Mata Atlântica, Caatinga, Pampas, Pantanal e o Cerrado – e, antes de entrarmos com a produção, como fizemos no Cerrado, vamos entrar com a ciência para que ela seja um indicador de limitação de onde mexer e onde não mexer, onde vamos preservar.

 

 

 

 

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