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Recursos Hídricos para Paz

Segurança Hídrica para a Paz e o Desenvolvimento

 

Para o Dia Mundial da Água, a ONU sempre defende soluções para problemas hídricos baseadas na natureza e alerta para a questão da água nas mudanças climáticas. Para este ano de 2021, a ONU adiou o 9º Fórum Mundial da Água a ser realizado em Dakar, Senegal, para 2022. O tema proposto é “Segurança Hídrica para a Paz e o Desenvolvimento”.

 

O QUE SIGNIFICA?

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), Segurança Hídrica consiste em “assegurar o acesso sustentável à água de qualidade, em quantidade adequada à manutenção dos meios de vida, do bem-estar humano e do desenvolvimento socioeconômico, além de garantir proteção contra a poluição hídrica e desastres relacionados à água. A segurança hídrica significa preservar os ecossistemas em um clima de paz e estabilidade política. Promover a segurança hídrica é contribuir com a manutenção da vida e deve ser o foco principal daqueles que realizam a gestão dos recursos hídricos, assim como de toda a sociedade. A garantia da existência de água em quantidade e qualidade para o abastecimento humano em situações de seca, estiagem ou desequilíbrio entre a oferta e a demanda é a grande preocupação dos dias atuais.

Para melhor explicar todas as nuances que envolvem a segurança hídrica, vale acompanhar entrevista com o professor Raymundo Garrido, ex-Secretário Nacional dos Recursos Hídricos, professor da Universidade Federal da Bahia e membro da Academia Francesa da Água.

 

RAYMUNDO GARRIDO – ENTREVISTA

(Esta entrevista, originalmente, foi publicada na FMA de março de 2015. Dada a importância do tema, voltamos a republicá-la com a devida atualização do entrevistador e entrevistado. SG)

 

RAYMUNDO GARRIDO: “A segurança hídrica representa a garantia de muitos setores de atividades porque água é um bem natural que não tem substituto”.

 

Folha do Meio – Qual o conceito de segurança hídrica?

Raymundo Garrido – De acordo com as Nações Unidas, segurança hídrica é a capacidade de uma sociedade ter acesso garantido à água em quantidade e qualidade adequadas à sua subsistência, a seu bem estar e ao desenvolvimento socioeconômico. E mais: assegurada a proteção contra a poluição dos corpos d’água, desastres ambientais no meio hídrico, e operando em favor da preservação dos ecossistemas em um clima de paz e estabilidade.

Conforme se percebe, trata-se de um requisito essencial à qualidade de vida, pois sem água não há vida, e o desafio da segurança hídrica depende de fatores multivariados.

 

 “Não se pode abrir mão da mais absoluta segurança hídrica. A produção de alimentos básicos da lavoura e o atendimento no abastecimento dos grandes centros urbanos tem na segurança hídrica uma solução que precisa ser urgente e redundante. “

 

 

FMA – Que fatores são esses?

Garrido – Os fatores que concorrem para a segurança hídrica povoam os mais diversos campos da atividade e do conhecimento humanos, alguns dos quais se situam fora do ambiente da água propriamente dito. Eles vão desde os aspectos biogeofísicos e químicos inerentes à água, passando por questões institucionais, financeiras, sociais e políticas e estendendo-se aos campos de aplicação do conhecimento teórico das ciências econômicas, da sociologia, do direito, da biologia, e da engenharia, em particular da engenharia de infraestruturas.

Abrangem, ainda e sobretudo, facetas do comportamento humano uma vez que segurança hídrica em grande medida depende do uso racional da água, algo que países como o Brasil, que tem uma Amazônia a oferecer água em fartura, ainda não incorporaram plenamente. Mas o que é importante destacar é que a segurança hídrica representa a segurança de muitos setores de atividades porquanto o elemento água raramente encontra substituto para cumprir seu papel.

 

ESGOTO E A PANDEMIA DA COVID-19

 

FMA – O que se pode afirmar em relação à Segurança Hídrica em um mundo com a pandemia da COVID-19?

Garrido – O conhecimento sobre o coronavírus e seus efeitos nocivos está sendo desvendado na medida em que a terrível dizimação de seres humanos é combatida. Convém levar em conta, desde já, que o problema está presente no saneamento, principalmente pela condição que têm a água e os efluentes domésticos de veicularem enfermidades de toda a natureza. Pesquisas estão em curso em alguns países buscando-se medidas preventivas que devam ser consideradas desde a fase de projetos de infraestrutura hídrica, passando pela fase de operação dessas infraestruturas, e estendendo-se a medidas de natureza corretiva para solucionar situações em que os efeitos deletérios do vírus já se tenham concretizado. Como atenuante, é razoável considerar que as vacinas poderão, em prazo não curto, erradicar ou pelo menos minimizar o problema.

 

FMA – Tem exemplos desses raros casos de substitutos da água?

Garrido – Quando a produção de energia hidroelétrica é substituída pela térmica, a vazão necessária de água é expressivamente menor, pois as usinas térmicas requerem água apenas para a produção de vapor d’água e para promover a refrigeração dos condensadores.

É claro que sob o ponto de vista da preservação ambiental a energia térmica é menos desejável do que a hidroelétrica devido às emissões atmosféricas que produz. Entretanto, quando a escassez de águas superficiais é incontornável, a saída mais usual é a usina térmica.

Um outro exemplo é o transporte hidroviário que pode ser substituído por outra modalidade de transporte quando as vias navegáveis têm seus níveis rebaixados aquém do calado das embarcações, ou quando secam totalmente, caso em que o transporte de pessoas e cargas pode ser feito alternativamente por outros modais, principalmente a rodovia no caso do Brasil, apesar de o transporte rodoviário ser agressivo ao meio ambiente, o que não ocorre com a navegação.

Em mais um exemplo, as atividades de lazer e turismo encontram sucedâneas que independem do fator água. Seria, por exemplo, o lazer e turismo voltados para aspectos históricos da região (monumentos e museus), parques de diversões, entre outras possibilidades de substituição da água. Aí estão três dos raros casos em que a água pode ser substituída localmente.

 

“A irrigação ainda vai crescer muito. Esta necessidade implica observância à segurança hídrica, principalmente porque, entre os usos múltiplos da água, a irrigação é o que exerce a maior demanda.”

 

 

FMA – Mas, os bens que dependem da água não podem ser trazidos de outras regiões?

Garrido – Claro, o acesso a bens cuja produção dependa da água pode se dar por meio da importação, doméstica ou tendo como origem outros países. Sempre que importa um bem qualquer, a região está fazendo uso de água virtual, isto é, a que está embutida no processo de produção das mercadorias que vêm de fora.

Entre os usos múltiplos da água em nosso País, aquele que tem condições de fazer a substituição deste recurso natural mais imediatamente é o de geração de energia elétrica, pois o sistema brasileiro é interligado em grande medida, e a energia que é consumida em uma região pode ter sido produzida em uma bacia hidrográfica distante. Aliás, a operação do Sistema Interligado Nacional está fazendo com que, a todo momento, bacias hidrográficas estejam intercambiando energia elétrica.

Na estratégia da segurança hídrica para qualquer dos usos da água devem ser exploradas todas as possibilidades de conexão das regiões para que a á água esteja presente onde necessária for, em quantidade e qualidade.

 

FMA – Em que casos a segurança hídrica é mais necessária?

Garrido – Há algumas situações em que não se pode abrir mão da mais absoluta segurança hídrica. Uma dessas situações, já mencionada, é a produção de alimentos básicos da lavoura, o que diz respeito principalmente ao meio rural. A justificativa nesse caso é óbvia: alimento é bem de primeira necessidade que responde pela segurança alimentar. Uma segunda situação diz respeito às aglomerações urbanas que, quanto maiores forem, tanto maior será a necessidade de segurança hídrica.

 

FMA – Por partes, primeiro da segurança hídrica no campo. O que precisa ser feito?

Garrido – Aumentar a produtividade agrícola decerto é algo que deve continuar sendo feito. Nos últimos 30 anos, Brasil conseguiu incrementar a produção em cerca de 235% (3,35 vezes mais) com um aumento da área plantada de apenas 50%, o que significa que a maior parte deste crescimento deveu-se a aumento de produtividade. Sucede que a agricultura de sequeiro ainda ocupa uma área dez vezes maior do que a irrigada, o que significa que a irrigação ainda terá que crescer. Esta necessidade implica observância à segurança hídrica, principalmente porque, entre os usos múltiplos da água, a irrigação é o que exerce a maior demanda.

A agricultura irrigada ocupa 6,48 milhões De hectares (dado de 2020) quando o País dispõe de cerca de 30 milhões de hectares irrigáveis. É preciso, portanto, que o Brasil esteja preparado para dar segurança hídrica à irrigação, o que remete o problema ao planejamento do uso da água nas bacias hidrográficas com potencial para irrigar. É claro que há requisitos outros envolvidos com o problema, mas que não são o foco do tema que estamos discutindo. Entre esses outros requisitos, alinham-se o suprimento de energia para atender às infraestruturas de irrigação, as facilidades para o escoamento da produção, o apoio ao pequeno irrigante. Temos que pensar também no uso racional da água, pois o Brasil ainda desperdiça água na irrigação, apesar dos avanços recentes da gestão de recursos hídricos que já aplica inclusive a cobrança pelo uso da água para irrigar.

 

FMA – Mas você não falou de mercado consumidor.

Garrido – De fato. Não se pode também de cogitar produzir nada sem informações seguras sobre a demanda dos produtos. Essa simples regra se aplica a todos os ramos de negócio, mas a maior parte das cultivares são bens de primeira necessidade, o que significa a existência permanente de demanda. Alguns grandes números podem dar uma ideia da pujança dessa demanda. Estudos especializados indicam que a produção mundial de alimentos precisa crescer 50% até o ano de 2050 para fazer face à demanda estimada.

Cerca de 75% desse aumento, isto é, 37,5% serão produzidos nos BRICS, especialmente pelo Brasil e África Subsaariana.

Essa é a matriz da demanda versus oferta. Ao ser desenvolvida a referida matriz, pode-se ter uma ideia da produção esperada do Brasil e de cada uma de suas regiões, informação que tem rebatimento direto sobre a quantidade de água de que precisaremos por unidade de tempo. Arrisco afirmar que, no Brasil, a vazão disponível total em distância economicamente viável das terras irrigáveis e com diferenças de cotas topográficas dentro de limites exequíveis é menor do que a demanda de água. Disso resulta necessário que se busque também a produtividade no uso da água de irrigação.

 

FMA – Passemos ao meio urbano. Como você analisa a crise da água na Região Metropolitana de São Paulo em relação à segurança hídrica?

Garrido – A gravidade da falta de água no meio urbano é diretamente proporcional à densidade demográfica e ao nível de desenvolvimento de cada cidade. Isso significa que o problema em aglomerações metropolitanas, principalmente em uma das maiores megalópoles do mundo que é São Paulo, é muito mais grave. É insustentável! São Paulo capital depende acentuadamente de três dos oito sistemas de abastecimento que lhe atendem.

Em 2015, portanto não muito distante de hoje, no tempo, dos 72,70 m3/s de água potável então distribuídos, 33,00 m3/s estavam concentrados no Sistema Cantareira que aduz água das bacias do PCJ (Piracicaba-Capivari-Jundiaí), e outros 29,00 m3/s eram aportados pelos sistemas Alto-Tietê (15,00 m3/s) e Guarapiranga (14,00 m3/s).

Os restantes 10,70 m3/s provinham dos sistemas Rio Grande (4,50 m3/s), Rio Claro (4,00 m3/s), Alto Cotia (1,20 m3/s), Baixo Cotia (0,90 m3/s) e Ribeirão da Estiva (0,10 m3/s).

 

 

FMA – Explique melhor este conceito de resiliência urbana.

Garrido – Resiliência é a capacidade de um corpo físico qualquer retornar à condição original tão logo cessem os esforços externos que o deformaram. O conceito é estendido ao meio urbano. A resiliência urbana é, portanto, a capacidade de uma cidade ter de volta a normalidade de sua vida quando sujeita a uma ocorrência desfavorável como grandes acidentes, falta de utilidades urbanas como luz e força elétricas, água potável, gás, condições normais de tráfego, entre outras.

 

FMA – O reúso estaria compensando em 50% a escassez do sistema de abastecimento pelo maior dos sistemas que atendem à Região Metropolitana.

Garrido – Perfeito! Se os esgotos estivessem sendo tratados em sua totalidade, o custo da potabilização da água do próprio tecido urbano e de suas cercanias seria significativamente menor, afora a redução do custo com a adução de água que vem de muitos quilômetros de distância. Um dos sistemas novos (São Lourenço – ETA-Cotia) já aduz água por meio de 85 km de adutoras, além de um túnel de 1,1 km para vencer a serra e de uma passagem subterrânea pela rodovia Raposo Tavares.

Cada vez mais está se buscando água de mananciais mais distantes. Esse distanciamento excessivo do manancial em relação ao centro de consumo opera, em última análise, contra os requisitos da segurança hídrica, além de ser pelo menos duas vezes mais oneroso e gerar mais efluente a ser tratado do que se se fizesse o reúso.

 

FMA – E quanto às perdas de água nas redes de distribuição?

Garrido – Terrível! Perder água tratada é perverso. Um grande problema. A Sabesp está envidando esforços para reduzir essas perdas, mas o percentual ainda é muito elevado. Não disponho de números atuais, mas o Índice Geral de Perdas Físicas na RMSP era de 25,5%, dado de trabalho técnico publicado tendo como fonte a Diretoria Metropolitana da própria Sabesp.

Para se ter uma ideia, a cidade de Denver (EUA) só perde 6%, Madrid (12%). A média japonesa, isso em todo o país, ainda é inferior à de Denver. Esses exemplos têm que ser paradigmas para nós.

 

FMA – E como buscar esses paradigmas?

Garrido – Pelo conjunto de medidas que mostramos aqui. Tudo associado a programas de educação ambiental voltados para o uso da água, além dos estímulos, como prêmios pela economia de água e desestímulos, como multa pelo desperdício, são ingredientes que contribuem para a resiliência urbana em face da escassez de água. Portanto, fatores de segurança hídrica nas cidades.

 

FMA – Até esta altura, conversamos sobre segurança hídrica para a segurança alimentar e para o meio urbano. E a segurança hídrica para a produção de energia?

Garrido – Tratar do tema da energia é importante neste contexto de segurança hídrica, pois a redução das precipitações que afeta o abastecimento afeta, também, os reservatórios das barragens geradoras. No Brasil, onde a energia elétrica é predominantemente de fonte hidráulica, esta relação é biunívoca, ou seja, a água é fator de produção de energia e a energia é fator de produção da água.

Há bacias onde a geração hidroelétrica compete acirradamente com a irrigação e/ou com outros usos da água, exigindo um planejamento meticuloso que dê segurança hídrica, ou que indique as limitações da bacia para o conjunto de todos esses usos.

 

Mapa-mundi do risco de segurança hídrica. Quanto mais escura for a cor, tanto maior é o risco.

 

FMA – E como resolver esta competição?

Garrido – Para resolver esta competição, um dos caminhos é pelo sistema de preços da cobrança pelo uso da água. Sucede que a legislação determinou que o preço pelo uso da água para a geração hidroelétrica ficasse descolado da economia da bacia, atrelando-o ao valor comercial da energia, dado pela Tarifa Atualizada de Referência (TAR), um indicador interno ao setor elétrico, o que distorce a precificação na bacia, pois retira a demanda de água para a referida geração do confronto com as demandas dos outros usos.

Entendo tratar-se de um ponto que precisa ser melhor analisado, pois quando um recurso se torna escasso, é à lei da procura e da oferta que precisa ser submetido o conjunto de todas as demandas e este princípio é aplicável à bacia hidrográfica também.

 

 

No Brasil, onde a energia elétrica é predominantemente de fonte hidráulica, esta relação é biunívoca. Á água é fator de produção de energia e a energia é fator de produção da água.

 

 

FMA – Situe o Brasil neste contexto de segurança hídrica.

Garrido – O tema da segurança hídrica já está presente na agenda brasileira há vários anos, tendo feito parte, ainda que incipientemente, dos debates que conduziram à edição das leis federais 9433/1997 (Lei das Águas) e 9984/2000 (Lei de criação da ANA). Ele veio a se materializar por meio do Plano Nacional de Segurança Hídrica que se ocupa em acompanhar e implementar ações para reduzir ou eliminar a vulnerabilidade hídrica das bacias. Está na alçada da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico como instância implementadora, e do Ministério do Desenvolvimento Regional como instância formuladora, com um vasto programa de ações para o horizonte temporal de 2035, decomposto em três segmentos:

– Estudos e projetos; obras e outras formas de intervenções físicas; e componente institucional.

Vale lembrar que o Brasil, no que se refere à segurança hídrica, ostenta uma condição favorável que é o fato de ser um dos países mais ricos do mundo em águas doces. A Maplecroft, empresa especializada em avaliar risco, classificou o Brasil, há poucos anos, entre os mais estáveis em termos de segurança hídrica, com uma pontuação igual a 148, abaixo apenas da Islândia (165), Noruega (164). Nova Zelândia (163), e logo acima da Inglaterra (144).

 

FMA – Como é feito o cálculo desse índice?

Garrido – O cálculo é feito com base nos requisitos operacionais e de investimento de empresas multinacionais, avaliando quatro áreas-chave que se relacionam com a água.

No caso, são avaliados o grau de acesso a água e serviços de saneamento de qualidade adequada; a disponibilidade de fontes renováveis de água e a confiabilidade do suprimento externo, além da relação entre a disponibilidade e a demanda de água, e da dependência da economia do país em relação aos recursos hídricos.

Para concluir, vale lembrar que as boas práticas na gestão dos recursos hídricos, como, por exemplo, o reúso da água e a recorrência a obras de transposições de bacias, vão fazer com que a pontuação brasileira sobre segurança hídrica se torne ainda mais elevada.

 

 

 

 

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A promessa que originou a Igreja Nossa Senhora de Fátima

A Igrejinha, como é conhecida, é patrimônio tombado e um ponto de encontro entre turismo, fé e beleza na capital

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Jak Spies, da Agência Brasília | Edição: Igor Silveira

 

Completando 66 anos em 2024, a Igreja Nossa Senhora de Fátima foi o primeiro templo religioso construído em Brasília. A paróquia surgiu a partir de uma promessa da família Kubitschek, tendo sido erguida em apenas 100 dias para atender a um importante casamento na cidade.

A Igrejinha foi inaugurada em 28 de junho de 1958 | Fotos: Divulgação/Arquivo Público de Brasília

Conhecida popularmente como Igrejinha da 308 Sul – ou só Igrejinha -, a capela foi projetada por Oscar Niemeyer, e a arquitetura, composta por três pilares que sustentam uma laje, faz referência aos antigos chapéus usados por freiras.

Agência Brasília transporta você a um dos espaços mais emblemáticos da capital, relembrando a história da Igreja Nossa Senhora de Fátima em mais uma matéria da série especial #TBTdoDF, que utiliza a sigla em inglês de Throwback Thursday (em tradução livre, “quinta-feira de retrocesso”), para relembrar fatos marcantes da nossa cidade.

Construção de uma promessa

Os registros históricos nos livros da paróquia revelam que o projeto foi feito a pedido da primeira-dama Sarah Kubitschek, como agradecimento pela cura da filha, Márcia, que sofria de um problema na coluna.

O projeto de Oscar Niemeyer é inspirado nos chapéus usados por freiras

A sugestão da promessa foi dada pelo presidente de Portugal, Craveiro Lopes, que estava no Brasil na época e, ao saber da situação, relembrou à esposa de Juscelino Kubitschek a história das aparições de Nossa Senhora de Fátima.

O primeiro casamento

Inicialmente, a construção seria um grande santuário onde atualmente se encontram as superquadras 307/308 Sul. Mas os planos mudaram após a necessidade de uma igreja para a cerimônia de casamento da filha do presidente da Novacap, Israel Pinheiro, que era o engenheiro responsável pela administração das obras na construção da nova capital.

Logo, o plano original da família Kubitschek foi substituído com urgência pelo projeto de uma capela mais simples, que é a atual Igreja Nossa Senhora de Fátima. Em 100 dias, a paróquia foi inaugurada, antes mesmo de Brasília, em 28 de junho de 1958. O casal Maria Regina Uchoa Pinheiro e Hindemburgo Pereira Diniz selou lá a união matrimonial e teve como padrinho o jornalista e embaixador Assis Chateaubriand.

O primeiro casamento no local foi o da filha do então presidente da Novacap, Israel Pinheiro

Passados 58 anos do primeiro casamento realizado em suas dependências, a pequena capela continua com as celebrações de matrimônio, marcando a vida de centenas de casais – como os brasilienses Larissa Sudbrack e Paulo Cavalcante, que se casaram na Igrejinha da 308 Sul em 2016.

A arquiteta de 36 anos conta que começou a frequentar o espaço há dez anos, após uma promessa, tornando natural a escolha do local para a cerimônia com o marido. Católica e moradora da 108 Sul, ela conta que, além da proximidade da igreja com seu apartamento e a promessa de ir à missa todos os domingos durante seis meses, o nome de sua mãe de Larissa é Fátima – o que deixou, ao seu ver, tudo apontado para a escolha da capela. Mais um sinal viria a seguir: quando o casal ia fazer dez anos de namoro, Larissa comprou um quadro com azulejos de Athos Bulcão e, no mesmo ano, Paulo a pediu em casamento.

“Para mim, a Igrejinha é o desenho por metro quadrado mais especial da cidade, cheio de significado. Tem uma ligação com a natureza e é bem aberta, uma experiência muito rica do espaço”, comenta Larissa. Ela recorda que também escolheu o local para o batizado dos dois filhos pequenos. “É um local de apoio religioso perto de casa; a gente pode fazer uma rápida oração, e me sinto bem quando estou ali, acolhida e protegida”, acrescenta a arquiteta.

Os azulejos de Athos Bulcão são marca registrada da Igrejinha

Patrimônio histórico

O templo católico comporta até 40 pessoas e foi tombado pela Unesco como patrimônio cultural e histórico nacional, entrando no Conjunto Urbanístico de Brasília inscrito no Livro do Tombo Histórico em 14 de março de 1990. O local também é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2007, como parte do conjunto das obras de Oscar Niemeyer, em homenagem ao centenário do arquiteto.

A parte externa da parede é revestida por azulejos de Athos Bulcão que simbolizam a descida do Espírito Santo e a Estrela da Natividade. Já no seu interior, o monumento apresenta pinturas de Francisco Galeno, aluno de Alfredo Volpi, artista italiano responsável pela primeira obra artística da igreja.

O templo católico comporta até 40 pessoas e foi tombado pela Unesco como patrimônio cultural e histórico nacional, entrando no Conjunto Urbanístico de Brasília inscrito no Livro do Tombo Histórico em 14 de março de 1990 | Fotos: Geovana Albuquerque/ Agência Brasília

Segundo informações da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, a primeira pintura feita por Volpi no interior da igreja apresentava afrescos com bandeirolas e anjos que remetiam a uma quermesse e às festas juninas.

As pinturas modernistas causaram estranhamento em alguns paroquianos, que se queixaram da personalização artística e apontaram “falta de religiosidade” na obra. Dessa forma, a arte chegou a ser coberta de tinta azul quatro anos após a inauguração, mas foi restaurada por Francisco Galeno entre janeiro e junho de 2009. A inspiração festiva em Volpi foi mantida, mas de uma forma mais discreta.

Além de prefeito da 308 Sul, Matheus Seco é arquiteto e evidencia as características arquitetônicas da quadra modelo e da Igrejinha, ressaltando que é o local mais fiel ao projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer.

O interior do monumento também conta com obras de arte

“As quadras fazem parte de um conceito de rede, não são quadras isoladas, elas se complementam e apresentam o ápice do projeto arquitetônico brasileiro de Niemeyer. A obra é formalmente simples, mas muito forte, com influências do barroco mineiro, detalhes sutis de sombras, encontro das colunas e uma sofisticação de desenho muito bonitos”, observa.

Entre os pontos destacados pelo arquiteto, ele aponta a maneira com que a construção aproveita a ventilação e a iluminação natural e como a recomposição das pinturas foi feita preservando o patrimônio moderno.

Um local de fé

À frente da paróquia há quatro anos, o frei Reinaldo do Santos Pereira destaca que, apesar do movimento maior ser religioso, a Igrejinha atrai pessoas com interesse além da fé, voltadas para a história do patrimônio e a arquitetura.

“É importante mostrar e valorizar aquilo que é nosso. A Igrejinha é pequena, mas acolhe todo mundo. As pessoas que vêm aqui passam pela praça e se sentem acolhidas pelo tamanho e pela singeleza do espaço”, observa o pároco. Segundo ele, os candangos já faziam da igreja, ainda em construção, um lugar de prece e pedidos de milagres.

“O espaço faz parte do nosso turismo religioso, além de ser um cartão-postal da cidade. A Igrejinha enaltece a memória de quem ajudou a construir a nossa capital e contribuiu para a história de fé de muitos moradores”, reforça o administrador do Plano Piloto, Valdemar Medeiros.

A empregada doméstica Edileusa Bezerra da Silva, 57, trabalha ao lado da Igrejinha e vai ao templo todos os dias para rezar. Ela conta que é devota de Nossa Senhora de Fátima e que encontrar um espaço tão pertinho de onde passa a maior parte do tempo foi um conforto. “É muito importante para mim, traz ânimo no dia a dia e me dá muita força”, observa.

As missas da Igreja Nossa Senhora de Fátima são celebradas toda segunda-feira às 18h30, e, de terça a sábado, às 6h30 e às 18h30. Aos domingos, as celebrações são as 7h, 9h, 11h, 18h e 19h30. Em 1º de maio começa a conhecida quermesse da igrejinha da 308 Sul, que engloba três dias de festa, com barracas de comida e outras atividades.

 

 

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Projeto trabalha a autoestima de mulheres em Planaltina

Com foco no público feminino na faixa dos 60 anos, iniciativa oferece neste fim de semana oficinas de maquiagem, fotografia, palestras

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Jak Spies, da Agência Brasília | Edição: Débora Cronemberger

 

Buscando trabalhar a autoestima e a autoconfiança de mulheres da região de Planaltina, este sábado (17) marcou o início de uma das etapas do projeto Mulher Nota 10, com oficinas de maquiagem, fotografia, palestras e apresentações culturais. O evento gratuito é realizado pelo Instituto LumiArt em parceria com Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec).

A programação ocorre no Estacionamento de Múltiplas Funções de Planaltina e se estende até este domingo (18), ocorrendo entre 13h e 18h. A programação inclui conversas sobre a saúde mental das mulheres e uma homenagem a dez moradoras idosas de Planaltina.

Ação em Planaltina inclui exposição de artesanato e oficinas de maquiagem e fotografia, por exemplo | Fotos: Geovana Albuquerque/Agência Brasília

De acordo com o secretário de Cultura e Economia Criativa, Cláudio Abrantes, o projeto é focado nas mulheres com mais de 60 anos e apoia artistas e artesãs locais. Ele ressalta que há a possibilidade do programa avançar para outras cidades. “É um projeto muito interessante, porque em tempos de violência contra a mulher, que a gente tem que combater com muita força, é extremamente importante fazer com que a mulher se sinta empoderada e digna, trabalhando a força e a criatividade”, pontua.

“Planaltina é um celeiro de cultura, é a cidade mais antiga do Distrito Federal. Aqui temos mulheres extremamente importantes na construção da cidade que abrigou a ideia da nova capital. Então o começo por Planaltina é porque Brasília também começou por aqui”, acrescentou o secretário.

Um espaço para elas

A coordenadora do projeto, Cleuza Brandão, falou das etapas que fazem parte do projeto, como a seleção das mulheres e o ensaio fotográfico. Para tirar as fotos, as participantes passaram por um dia de beleza. As imagens são expostas junto a homenagens. Cleuza frisa a importância desse processo para a redescoberta da beleza feminina, independente da idade.

“Acho que o legal do projeto é que ele coloca a mulher madura em foco, então foi gostoso e desafiante, porque mexe com a timidez e a insegurança, mas ao final é muito bom”, diz Muna Ahmab Yousef, uma das participantes do ensaio fotográfico

“A gente trabalhou essas maquiagens sem um espelho na frente. Quando elas se olharam, a maioria chorou na frente do espelho, foi uma emoção muito grande. Algumas disseram que não sabiam que eram tão bonitas, saíram dali se sentindo valorizadas”, recorda.

A professora Muna Ahmab Yousef, 59, foi uma das fotografadas no projeto. Ela destaca a importância de repensar a idade em uma sociedade imersa na era da estética e da imagem. “Foi superpositivo, porque estou em um momento da minha vida que percebo o tanto que a sociedade é etarista, o tanto que é exigido de nós mulheres desde sempre. Participar do Mulher Nota Dez foi bem bacana, porque ninguém é novo eternamente, todo mundo vai ficar velho se tiver sorte. Acho que o legal do projeto é que ele coloca a mulher madura em foco, então foi gostoso e desafiante, porque mexe com a timidez e a insegurança, mas ao final é muito bom”, ressalta.

Quem reforça os desafios de enfrentar o etarismo na sociedade é a DJ Nilma Maria Silva Costa, 52, conhecida como DJ Nilma Naiz. No ramo da música há cerca de seis anos, Nilma sempre gostou de estar nesse meio, frequentando bailes desde os anos 1980. Mas, por viver em um relacionamento que a limitava a ficar em casa, nunca conseguiu explorar esse lado. Ela conta que tem conseguido conquistar cada vez mais espaço.

“A discotecagem é uma coisa muito masculinizada, então tem pouco tempo que a mulher veio e está entrando aos pouquinhos, conquistando respeito. Esses eventos voltados para a mulher são de uma ajuda gigante, pois mostram que somos capazes. É muito importante ter esses espaços para podermos mostrar o trabalho da gente e sermos reconhecidas”, observa.

 

 

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CONCEITO E HISTÓRIA

Origem, exigências e prática: quem se importa, vence!

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As siglas são constantes na vida moderna. Elas são formadas pelas letras iniciais de outras palavras e não precisam ser lidas letra a letra. Se viram uma palavra, podem ser chamadas de acrônimo. Está no vocabulário da modernidade. Exemplo de acrônimo: Unesco, ONU, ESG, Pnuma e USP. Já CBF, FGTS e CLT são apenas siglas. A sigla ESG, no Brasil tem dois significados. Pode ser ESG – Escola Superior de Guerra e, agora, é muito mais usada para identificar políticas de meio-ambiente, responsabilidade social e governança. ESG, como muitas outras siglas, vem do inglês: Environmental, Social and Governance. Cada vez mais conhecido dentro dos círculos especializados, o conceito de ESG reúne as políticas de meio ambiente, responsabilidade social e governança, que será cada vez mais cobrado das empresas.

 

A sigla ESG surgiu em 2004, em uma publicação do Pacto Global em parceria com o Banco Mundial, chamada WHO CARES WINS, que pode ser traduzido em “QUEM SE IMPORTA VENCE”.

Os critérios ESG estão totalmente relacionados aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos pelo Pacto Global, iniciativa mundial que envolve a ONU e várias entidades internacionais.

Para os técnicos, ESG significa uma tomada de decisão. Uma atitude para transformar o negócio mais inclusivo, ético e ambientalmente sustentável, que garanta a qualidade de vida para todos. E o sucesso dessa jornada de transformação vai depender da habilidade das empresas em desenvolver e implementar práticas de negócios que alinhem lucro, propósito e transparência.

 

HISTÓRIA DO ENVIRONMENTAL,

SOCIAL AND GOVERNANCE

Há muito tempo, pesquisadores, filósofos e gestores públicos pensam e estudam sobre danos ambientais ou os males que certas ações e produtos causam a sociedade e ao Planeta.  A criação da rede interdisciplinar do Clube de Roma, em 1968, e seu relatório inaugural (The Limits to Growth, 1972) foi um passo fundamental para mudar o paradigma das atividades econômicas que sempre interagem com o mundo natural por três formas: 1) na produção com o uso de recursos naturais. 2) na transformação ou industrialização pelo uso de energia e descartes de rejeitos. 3) No consumo e uso dos produtos pela população.

Outro divisor de águas foi 1972. Entre os dias 5 a 16 de junho, ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano em Estocolmo, quando se reuniram 113 países que firmaram um compromisso: “O homem tem a responsabilidade especial de preservar e administrar judiciosamente o patrimônio representado pela flora e pela fauna silvestres, bem assim o seu habitat, que se encontram atualmente em grave perigo por combinação de fatores adversos”.

Na década de 1990, veio o marco contábil. As empresas deveriam levar em conta seu desempenho social e ambiental, além de seus resultados financeiros. Ou seja, investidores deveriam levar em consideração também os custos ambientais e sociais. Surgiu então o primeiro índice de ações “socialmente responsável”, o índice Domini 400 Social, e o “triple bottom” (também conhecida como TBL e 3BL) ou “pessoas, planeta e lucros”.

 

LEGITIMAÇÃO DA ESG

A oficialização do ESG começou em 2004. Tudo começou com 63 signatários, supervisionando US$ 6,5 trilhões em ativos. Até 2020, este volume cresceu para mais de 3 mil signatários, com mais de 100 trilhões de dólares em ativos. A meta da ONU é alcançar os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e criar oportunidades no valor estimado de US$ 12 trilhões até 2030.

 

LETRAS MÁGICAS PARA O FUTURO

Environmental, Social and Governance é traduzido em português como Meio Ambiente, Social e Governança. E pode ser melhor explicado assim:

 

E – A letra E, da sigla, representa o impacto que uma empresa causa no ambiente natural. Isso inclui questões como poluição (emissões de carbono, produtos químicos e metais tóxicos, embalagens e outros resíduos), o uso de recursos naturais (água, terra, árvores) e as consequências para a biodiversidade (a variedade de vida na Terra), bem como tenta minimizar a nossa pegada ambiental (eficiência energética, agricultura sustentável, edifícios verdes).

 

S – A letra S, de responsabilidade social, da sigla, indica os fatores que afetam as pessoas – sejam funcionários, clientes ou a sociedade em geral. Isso envolve segurança de produtos para consumidores ou privacidade e segurança de dados para seus usuários.

 

G – A letra G de Governança tem relação com o fato de a empresa ser bem administrada, levando em conta o negócio de maneira responsável. Deve ser levado em consideração os requisitos éticos de ser um bom cidadão corporativo, como políticas anticorrupção e transparência tributária, além das preocupações tradicionais de governança corporativa, caso do gerenciamento de conflitos de interesse, diversidade e independência do conselho, qualidade das divulgações financeiras e avaliação sobre se os acionistas minoritários são tratados de forma justa pelos acionistas controladores.

 

 

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